20/10/2009

Visão: No mundo de Lobo Antunes


Visão - entrevista de Sara Belo Luís
8 de Outubro de 2009

«Os meus livros não vão morrer»

É na sua biblioteca pessoal que António Lobo Antunes fala sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?. O novo romance ou, como diz, uma das personagens, "o testemunho" do escritor: "O que amarelece por aí quando não existires"


Não é indiscrição dizer que a casa nova de António Lobo Antunes fica no Conde Redondo. Nas crónicas que publica nas páginas da VISÃO, Lobo Antunes já ficcionou sobre aquelas ruas de Lisboa - as velhotas, as mercearias, os indigentes. Aos 67 anos, diz que há muito tempo que não se sentia tão bem numa casa. E tanto assim é que deixou de escrever em sítios mais ou menos impessoais. A resposta estará nas últimas palavras de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, o seu novo romance, que a Dom Quixote lançará no próximo dia 22, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa: "É a casa que regresso." Eis o escritor com os livros em volta.

Há uma frase que se repete constantemente ao longo de Que Cavalos...: "Como esta casa é triste às três horas da tarde." Que frase é esta?
Estava a folhear Memória de Elefante e encontrei lá essa frase que sempre me impressionou muito por estar associada à velhice e à solidão, à miséria da solidão. Era uma história verdadeira: uma senhora que, quando era miúda, a mãe costumava levar a fazer visitas a casas cheias de móveis antigos. Também eu, na minha infância, ia com o meu avô visitar tias velhas em casas tristes como aquelas.

Como eram essas casas?
Eram muito sombrias, com corredores compridos, cortinas corridas, pianos e fotografias de mortos. Havia fantasmas a passar por trás de nós, banheiras com patas de leão e esquentadores antigos que pareciam marmitas de Papin. Tudo aquilo ficou dentro de mim.

Quando começou, era o que tinha?
Sim, essa frase e aquela outra "que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?", que é uma moda do século XIX, cantada por camponeses analfabetos. Também tinha vontade de fazer um livro com a estrutura da corrida de touros.

Gosta de touradas?
Gosto da tourada à espanhola.

Mas não é propriamente um aficionado?
Não, embora ache um espectáculo único, assisti a três ou quatro na vida. Aliás, já em Conhecimento do Inferno eu falava no Curro Romero e noutros toureiros. Tinha 7 anos quando, em Barcelona, vi uma tourada pela primeira vez. E lembro-me bem do mal estar que tudo aquilo me provocou, náuseas, angústia, vómitos. Nunca tinha visto tanto sangue, nunca tinha visto matar.

A tourada também tem um certo lado teatral.
Não lhe chamaria teatral, parece-me mais um ritual. E plasticamente é um espectáculo muito bonito. João Cabral de Melo Neto tem um poema sobre o que é a tourada. Também me veio à ideia um verso de Ovídio, que (juntamente com Vergílio e Horácio) é uma das minhas três paixões. Vou tentar traduzir: "Lentos lentos corram ó cavalos da noite." Julgo que esta frase, que nunca aparece, é que é a frase-chave do livro. "Lentos lentos corram ó cavalos da noite."

Percebe-se que tudo se passa no Ribatejo, numa quinta, com cavalos, touros e azinheiras. Não lhe interessa nomear os lugares?
Para mim isso não é importante. O que estou a fazer é tentar exprimir as paixões da alma. E, no fundo, a vida humana. Eu sei lá como é o Ribatejo. Não o conheço. Assim como não conheço a Angola de agora, de que falo. Podia chamar-se assim como outra coisa qualquer, são tudo territórios interiores. O significado não está no interior do livro, mas à volta dele, como diz Conrad.

Porque é que Que Cavalos... aparece identificado como "romance", quando há muito que recusa o género?
Não tinha escrito isso no manuscrito. Mas da mesma maneira que não gosto da capa... Devo ser o autor mais cómodo porque nunca discuti uma capa, nunca revi provas. Tive a felicidade de trabalhar com a Tereza [a editora Tereza Coelho, falecida no princípio do ano] e, agora, com a Maria da Piedade Ferreira, com quem também tenho uma relação muito boa. É curioso porque foi ela, que então estava na Bertrand, a primeira pessoa a recusar publicar Memória de Elefante. Coisa que eu compreendo porque aquilo, na altura, era estranho. Acontece: André Gide recusou Proust, Gallimard recusou Céline. Pedi à Maria da Piedade para continuar a trabalhar comigo, mesmo que ela queira sair da Leya. Contra alguns receios que tinha, aliás, só posso dizer bem do grupo Leya. Tem-se portado com uma correcção inexcedível, não tenho a menor razão de queixa.

Quer dar, como disse à Folha de São Paulo, "um trabalhão à crítica"?
Não acredite em tudo o que os jornais dizem, mas, com os instrumentos que existem agora, penso que é de facto muito difícil analisar este livro. Vamos ter de esperar algum tempo. É evidente que estou dentro dele e que, portanto, a minha visão será sempre parcial. Sinto, no entanto, que este é o livro onde cheguei mais fundo dos sentimentos e das emoções. Aquilo vem de regiões tão profundas que eu nem sei quais são. Tchekov diz qualquer coisa como isto: desce, desce, desce até onde se encontram os outros e tu no meio deles.

Quando chega lá ao fundo, o que se encontra é o conflito?
Julgo que em todos nós existe uma guerra civil constante, vários partidos dentro de nós que se digladiam. Até na política: a escolha de um partido, como a escolha de um clube de futebol, nunca é racional. Não costumo ver televisão, mas na noite das eleições liguei-a e fiquei muito surpreendido quando vi que todos estavam contentes com os resultados obtidos. Todos tinham ganho. Não sei se os líderes dos partidos estão conscientes disto, mas tudo parece irreal. Talvez Calderón tenha razão quando escreve que a vida é de facto um sonho. E a única coisa real é a nossa finitude. Que consolação posso eu ter? A consolação de os livros ficarem porque, aí, tenho a mesma convicção que Ovídio: acho que os meus livros não vão morrer.

E permanecerá através deles.
É quase indigno as criaturas ficarem e desaparecer a pessoa que as criou. Veja como mal conhecemos a cara da maior parte destes autores que aqui estão. Não sabemos como era Horácio, como era Camões, como era Bernardino, como era Dante. E, no entanto, a obra deles continua viva dentro de nós. Os seus livros ajudam-nos a viver, a entender o mundo e a nós mesmos. No outro dia, estava muito cansado, tinha escrito muitas horas. Fui à estante do corredor e tirei um livro ao acaso: Dickens, Hard Times, Tempos Difíceis. Abri uma página ao acaso e encontrei as linhas mais extraordinárias que já li na vida. Um homem vai visitar a mãe, que está muito velha e doente, e pergunta-lhe: tens dores, mãezinha? E ela responde: tenho a impressão que anda uma dor aí pelo quarto, mas não sei se me pertence. Isto é extraordinário, eu senti isto quando estava doente. Está ali uma dor no quarto, mas não sabemos se é nossa.

Por ter estado, há três anos, mais perto da morte, passou a escrevê-la de forma diferente?
Não, passei foi a viver de forma diferente. Sempre vivi a morte como uma espécie de nascimento para outra coisa qualquer. E, nos livros, a morte é um símbolo da vida. Em A Ordem Natural das Coisas, a morte da tia é sentida como um nascimento porque ela morre enquanto está a dar à luz a filha. Ou seja, há nela uma eternidade. Uma coisa, aliás, que me tocou quando trabalhei com suicidas foi o facto de haver dentro deles um sentimento de eternidade. Falo da morte para a negar. Pela mesma razão por que ouço sempre o Concerto de Ano Novo, com o qual me comovo até às lágrimas. Aquilo é um triunfo sobre a morte, uma afirmação da vida, do amor e da alegria de viver.

A sua dedicação à escrita é total. Às vezes não se sente sozinho, no meio de tudo isto?
Às vezes, sinto. Claro que sinto. Há um poeta latino que dizia: "Quando estou sozinho sou todo meu." Passava tardes com o Ernesto Melo Antunes e, praticamente, proferíamos dez ou 15 frases. As pessoas com quem me entendo melhor são, em geral, pessoas que falam muito pouco. Ou então são pessoas que falam muito porque me distraio, deixo de ouvir ao fim de cinco minutos e basta dizer que sim de vez em quando. Mas, depois da doença, aprendi a jogar com as cartas para cima porque, ao pé do nosso fim físico, tudo o resto perde importância.

Tem vontade de escrever sobre o cancro?
Isso seria como falar sobre a guerra. Diante das grandes coisas, pouco há a dizer. Por isso é que os livros têm que estar cheios de silêncio.

Para quem sempre preservou a sua vida privada, como é que se sente quando vê as suas relações amorosas estampadas nos jornais?
No princípio, senti-me furioso. Mas, depois, compreendi que aquilo não era a minha vida privada. Era a vida privada de uma criatura que inventaram a partir de mim. Nunca me passou pela cabeça que pudesse ser tema para vender jornais e revistas. Mas o que mais me impressionou foi sobretudo a falta de carácter, as mentiras e os exageros. Até porque a minha vida não tem interesse nenhum, o que interessa são os meus livros. E felizmente que as pessoas que lêem os meus livros não são leitores desses pasquins.

Como escolhe os livros que integram a Biblioteca António Lobo Antunes, uma colecção com o seu nome que a Dom Quixote está a publicar?
Tento escolher livros cujos direitos estejam no domínio público. São livros de que gosto muito e que penso que podem ajudar as pessoas a gostar de literatura. Faz-me muita impressão ver as livrarias cheias de livros sem interesse algum. Claro que este fenómeno dos chamados best-sellers sempre existiu porque, de certa maneira, é conveniente que exista.

Porquê?
O facto de as pessoas estarem a ler esse tipo de livros é muito tranquilizador para o poder instituído. Porque esses livros não põem nada em causa. Os best-sellers e as telenovelas desviam as atenções das pessoas. Aconteceu o mesmo com a industrialização. Até ao século XIX, passa-se imediatamente de criança a adulto. Quando os industriais começam a chegar, inventa-se a adolescência, um período de latência entre a infância e a idade adulta, no qual os indivíduos deixam de ter intervenção na res publica. A arte é, por natureza, profundamente subversiva. E, por isso, é muito mais tranquilizador se eu der às pessoas livros nos quais elas têm sempre pé. Que não as predispõem para a revolta necessária.

De que tipo de poder fala?
Todo o poder é conservador. Todo o colégio, toda a agremiação, todo o partido, toda a igreja, todo o exército. Qualquer poder é conservador sob pena de se desagregar. Se eu entregar às pessoas esses subprodutos, elas não só não fazem determinadas perguntas como não exigem determinadas respostas. E desta maneira a ordem não será subvertida.

A ordem precisa de ser subvertida?
Se as pessoas quiserem viver melhor, precisa. Claro que sim.

Foi votar nas últimas legislativas?
Isso é uma pergunta íntima.

Pode não querer responder, mas de íntimo a pergunta não tem nada.
Não, não fui votar. Não vejo diferença entre os partidos, vejo apenas duas frentes eleitorais, o PS e o PSD, sem qualquer ideologia. O único partido que tem um corpo ideológico coerente é o PCP, mas para mim é surpreendente que continue a haver pessoas que votem naquilo. Claro que houve excepções como De Gaulle e Churchill, mas já reparou na falta de sentido de humor dos políticos? Ora aí está: se tivéssemos uma arte boa, nenhum desses partidos existiria. Porque não respondem às nossas necessidades profundas, às nossas convicções, à nossa necessidade de felicidade. Se todos lessem A Odisseia e Dom Quixote provavelmente o mundo não seria o mesmo.

Mas a arte tem esse poder?
Se lhe derem espaço e se não a tentarem estrangular, tem. Depois do 25 de Abril, o que é que se fez pela cultura do nosso país? A cultura continua a ser uma qualquer coisa de marginal, para muito poucos. Para as massas, existem os best-sellers e as telenovelas. Porque, como já disse, a cultura é profundamente subversiva. A Igreja proibia os livros porque punham em questão um sistema, defendiam teses completamente inconcebíveis como o facto de a Terra andar à volta do Sol. E é tremendo, mas ainda hoje continuamos a acreditar que é o Sol que anda à volta da Terra. Ao introduzir o princípio da incerteza na física, Heisenberg foi recebido com imensa relutância.

Não gostamos do que nos desassossega?
Somos conservadores, conservamos tudo aquilo que nos tranquiliza. E quando, de repente, somos apanhados pela verdade horrível da agonia e da morte, descobrimos que já é demasiado tarde. Conrad tem razão quando diz que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que, normalmente, chega demasiado tarde. Lembro-me de, no 25 de Abril, a maior parte das pessoas estar cheia de medo da liberdade. E de o caseiro do meu avô defender que era preciso que os franceses viessem tomar conta de nós.

Quando lhe atribuem prémios, quando o elogiam, não se sente "institucionalizado"?
Às vezes penso se todos estes prémios não serão a forma mais perigosa de me neutralizar, que é adoptarem-me. Como quando os escritores vitorianos foram neutralizados. Ou como quando fizeram de Camilo Visconde de Correia Botelho.

Adoptado quer dizer institucionalizado?
Adoptado quer dizer integrarem-me neste sistema de que falo. E nada disto tem a ver com política.

Pelo contrário, tem tudo a ver com política.
No sentido de Aristóteles, mas não no sentido dos nossos políticos de agora. Claro que, de vez em quando, aparecem grandes homens...

Obama é um deles?
Isso não sei avaliar.

Quando, no ano passado, esteve em tournée nos Estados Unidos, sentiu que a América com Obama estava diferente?
Não. E gostei muito de John McCain, que é um homem de uma grande dignidade. No fundo, são iguais aos nossos políticos, mas em melhor. Encadernados e com melhor papel.



08.10.2009

18/10/2009

Helder Sousa: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Este novo livro retrata uma família em decadência, proprietária de uma quinta no Ribatejo onde se criam cavalos. Assim se pode resumir este livro que segundo as palavras do autor “queria fazer um romance à maneira clássica, que destruísse todos os romances feitos desse modo”. Se destrói ou não, parece-me um pouco prematuro dizer, mas podemos afirmar ser um clássico, se tivermos em conta a sua obra literária. Logo nas primeiras páginas podemos perceber que as personagens não nomeadas, facto que ajuda a leitura e compreensão da narrativa. Temos a Beatriz, a filha que engravida e vê-se obrigada a casar, o Francisco, o futuro herdeiro da “fortuna” da família, o João, que vai ao encontro de criancinhas no Parque Eduardo VII, a Ana, que se vê desaparecer ao sabor das seringas, a Rita, que morre prematuramente de cancro, a mãe que se encontra em situação terminal, o pai, viciado na roleta onde vai apostando a sua fortuna incessantemente no número 17 e a empregada Mercília, conhecedora dos segredos da família. Para o fim do livro é-nos dado a conhecer um novo personagem, um filho bastardo que é escondido de toda a gente cujo nome não chega a ser revelado.

Neste livro as vozes destas personagens vão surgindo ao longo dos capítulos divididos em 7 partes: “Antes da Corrida”, “Tércio de Capote”, “Tércio de Varas”, “Tércio de Bandarilhas”, “A Faena”, “A Sorte Suprema”, “Depois da Corrida”, cuja estrutura corresponde a uma corrida de toiros. Por entre estas vozes surge de vez em quando o autor narrador que se intromete pelo meio como que a mostrar-se presente, sugerindo não ser ele que de facto escreve mas as vozes que o anjo lhe dita. Da mesma forma que as próprias personagens a certa altura não sabem se são reais ou meramente fantoches manuseados pelo autor narrador. Parece que cada vez mais nos revela o seu processo de escrita, mostra-nos os erros, as contradições, as suas anotações, expõem-nos as suas próprias dúvidas. Não trata o leitor por estúpido e ao apresentar-se desta forma mostra-nos a nós próprios, os nossos diálogos interiores com a consciência, a dada altura nós somos as próprias personagens. Assim como Beckett construía a partir do nada, do corpo vazio, a escrita de Lobo Antunes surge-nos a partir do silêncio, do escuro e faz-nos permanecer nele. Deixa-nos um vazio cá dentro que nos impede de continuar a leitura até conseguirmos nos encontrar de novo. Retrata-nos nos momentos de solidão, de silêncio, do escuro, a vida no seu estado puro. Mente, brinca e leva-nos ao sabor das palavras.


por Helder Sousa
16.10.2009

17/10/2009

José Alexandre Ramos: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Folheando o ar com a boca sem encontrar a página em que se respira - sobre uma primeira leitura de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, de António Lobo Antunes

Uma mulher enferma está a morrer e os seus quatro filhos estão com ela nestes últimos momentos. É domingo de Páscoa, chove, tudo parece começar às três horas da tarde – e o quão são tristes as casas a essa hora –, ou é a corrida de toiros que principia a essa hora e todos esperam a sorte suprema  não percebo nada de corridas de toiros nem me interessam, só estou a seguir o que o livro sugere – que, sendo a morte do toiro, é também a morte da mãe do Francisco, sedento de afectos como todos os irmãos, e que (por essa razão) vem reclamar para si o que sobeja de um património arrasado pelo vício do jogo do pai (já falecido antes), obcecado com a ideia do 17 nas roletas dos casinos; da mãe da Beatriz abandonada pelo marido com quem casou por lhe ter dado a virgindade dentro de um carro em frente ao mar que a persegue com os cavalos que lhe fazem sombra; da mãe do João que vai procurar a infância perdida nos rapazinhos que se prostituem entre a sombras dos arbustos de um parque público; da mãe da Ana rebelde, a mais feia dos irmãos, ressacando da sua dependência da droga que um homem lha vende num baldio junto ao Tejo; e da Rita, a contemplativa, a sonhadora, vítima prematura de um cancro e que está presente – como o pai – na voz dos restantes. E a ajudar, Mercília, a criada ou governanta da família, que vimos a saber que afinal é meia-irmã da que morre agora, mas nunca reconhecida como tal (como um meio-irmão, filho bastardo do pai, cuja existência se sente incómoda nas personagens e que só é assumida no final do livro).

Podíamos dizer que o livro é isto, mas não é tão simples assim, e tal não é novidade alguma quando estamos a abordar um livro escrito por António Lobo Antunes. São personagens e ingredientes que dariam para escrever qualquer livro ou um argumento de um filme se quiséssemos, mas o resultado nunca seria o que este livro é. Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? tem uma estrutura semelhante a livros anteriores aBoa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo, e seguindo o esquema das corridas de toiros: antes da corrida, tércio de capote, tércio de varas, tércio de bandarilhas, a faena, a sorte suprema e depois da corrida. Cada tércio bem como a faena e a sorte suprema estão divididos em quatro capítulos, e o antes e depois da corrida são como o prólogo e o epílogo. Em cada capítulo uma voz, a voz que depois se multiplica à medida que os fantasmas assomam e com esses espectros conhecemos outras tantas personagens que o livro contém – também nada de novo feito pela mão deste escritor. Do modo como está divido, em que até parece que existe um fio narrativo progredindo à medida que se aproxima a hora da morte da mãe (da mesma forma que se vão completando as partes da corrida até à morte do toiro), é um livro cuja leitura aparenta ser mais fácil seguir que os seus antecessores recentes. Porém, não quer dizer isto que seja um livro fácil, no sentido de ficar aquém na complexidade narrativa dos livros anteriores, pelo contrário, a condução das vozes (ou da voz unificadora) é aqui ainda mais complicada uma vez que António, o escritor, intervém de um modo mais assumido como uma das personagens do livro, que pode criar alguma confusão no leitor incauto, já que esta personagem-escritorsurge no meio da voz das outras personagens. De modo mais assumido que em outros livros, mas ainda não uma personagem directa: as verdadeiras personagens indicam e dirigem-se a “o que escreve o livro”, o nome António Lobo Antunes aparece em alguns momentos, e deparamos com um jogo discursivo em que umas vezes é o escritor que quer dominar as vozes das personagens, noutras são as próprias que lhe negam esse poder.

É então na progressão da corrida de toiros que as personagens desenvolvem uma narrativa estilhaçada, sem história como António Lobo Antunes sempre preteriu, antes um labirinto de vivências de uma família que ao morrer a mãe acaba ela também estilhaçada, cujos factores dessa desintegração já a vinha desmoronando à medida que os filhos se tornavam adultos, identificando no passado e nas suas infâncias os pontos fracos dos alicerces da família. Aliás, a pretensa história que tanto queremos todos saber qual é e que nunca existe, só se desvenda depois de terminarmos a leitura, uma vez que é com as pontas soltas dadas pelas vozes das personagens que falam e que vão pegando nos restos que as outras deixam, que vamos conhecendo a infelicidade de Beatriz e as sombras dos cavalos no mar, o porquê de Francisco reclamar só para si a herança dos bens da família, das razões porque Ana se droga, se afinal João é um pedófilo ou um homem perdido na sua infância, como e porquê o pai arruína a fortuna no jogo, qual afinal o papel de Mercília, o alheamento da filha Rita falecida precocemente, o aparecimento de um filho bastardo que os irmãos evitam de falar, os cavalos, os toiros, a quinta, a casa em Lisboa, a pensão onde iam passar férias, etc.

Não poderei dizer, se quiser concordar com o autor, que este é o seu melhor livro. Porém as minhas razões particulares como leitor pouco interessam para qualificar o romance de melhor, pior ou igual em relação aos anteriores, muito menos quando se trata de uma primeira leitura. É que a cada novo livro, a releitura torna-se ainda mais um factor importante para compreender o que António Lobo Antunes escreve nestes seus livros. Não me agradou, no princípio, a frequência com que repete as frases “como é triste esta casa às três horas da tarde” e “que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar”, único factor negativo que encontrei na minha leitura. Mas, como sempre senti nos outros livros, é uma sala de espelhos em que nos olhamos distorcidos, umas vezes reconhecendo-nos, outras tentando não o fazer. E se é uma sala de espelhos, também o interpreto como o espelho da memória em que o escritor se vem mirando: sinto que há neste livro muito mais autobiografia – rudimentar e camuflada, evidentemente.

Para finalizar: se conseguirmos entrar dentro do livro de tal forma como se estivéssemos a assistir ao que se diz em tempo real, então vamos entendê-lo. Senão, e como disse o escritor em entrevista, se o leitor fizer surf por cima das páginas, vai conseguir lê-lo com mais ou menos dificuldade, mas sem nunca saber o que vai lá dentro. É preciso estar devidamente preparado e atento, porque se o leitor considerar que é como ler um qualquer livro vai, citando uma frase do romance, folheando o ar com a boca sem encontrar a página em que se respira.


José Alexandre Ramos
17.10.2009

H. G. Cancela: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Comecemos pelo fim: a um dado nível, nada do que neste texto se possa produzir enquanto discurso afecta, ou sequer toca, o discurso do livro Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?1. É-lhe exterior e posterior. Poderia, quando muito, condicionar prospectiva ou retrospectivamente a experiência do leitor. Esta exterioridade da análise face ao seu objecto é condição de possibilidade da crítica, mas ao mesmo tempo marca os seus limites.

Quando se trata de António Lobo Antunes, entramos num nível acrescido desta relação de exterioridade: pelo efeito cumulativo da sedimentação, boa parte da sua obra já está, de facto, numa relação de exterioridade face à crítica. Isto revela-se na postura do autor, mas sobretudo no regime de constituição interior dos seus textos, os quais parecem subtrair-se à possibilidade de crítica, através da invalidação daquilo que seria condição de questionamento dos mesmos. O intenso trabalho sobre a linguagem desenvolvido por Lobo Antunes tende a subverter os critérios básicos de abordagem crítica do romance.

Comecemos, pois, pelo fim: a constatação dos limites da crítica e a constatação das condições de possibilidade da obra. Os seus limites, precisamente:

«(…) é o silêncio no interior das ondas e as vozes que me acompanham desde sempre e mal as vozes se calarem levanto-me e regresso a casa. Quer dizer não sei se tenho casa mas é a casa que regresso.» 2

O silêncio enunciado no final do romance é aqui condição da casa, ou seja, das palavras. Este regresso a casa, ao espaço definido pelo uso da língua, constitui a matriz do constante reenvio para o mesmo dos últimos livros do autor. Apesar da espessura vivencial que constrói os seus atormentados personagens (embora muitas vezes estes se afigurem mais tipos do que pessoas - neste livro, temos o latifundiário viciado em jogo, o pedófilo, a toxicodependente, a criada, etc.), os romances mais recentes Lobo Antunes são em primeiro lugar exercícios de estilo, ou, no mínimo, exercícios de linguagem. Todas as obras maiores de literatura o são: a escrita interroga a escrita no processo de se constituir como literatura. Mas a reflexividade crítica da linguagem não pode, sob pena de não se afirmar como experiência apreensível do exterior, abismar-se na estrita auto-reflexividade. É em parte isso que acontece neste livro, um livro que reflecte a degradação, comum a outras obras do autor, das estritas condições de actualização dos textos. O que está em causa não é o maior ou menor grau de dificuldade da escrita, mas a possibilidade da transponibilidade das representações propostas para a experiência subjectiva do leitor:

«e por conseguinte como se acaba um capítulo, estou no corredor a caminho do quarto e a chuva mais forte, amanhã um tijolo a faltar na chaminé e os toiros sob as azinheiras num cacho infeliz, podia terminar este parágrafo e não termino, prossigo, mesmo que tentem impedir-me prossigo, não morro, quanto mais me desejarem a morte eu mais vivo onde não sabem quem sou nem se importam comigo (….)» 3

Fruto de um trabalho sobre a linguagem desenvolvido ao longo dos anos, António Lobo Antunes tem-se vindo a aproximar perigosamente da escrita automática. Ora, esta, sabemos, tende a reproduzir o lugar-comum, mais do que a produzir a diferença. E é reprodução do lugar-comum de uma fórmula de escrita que, ainda que extremamente personalizada, encontramos num livro como Que cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?. Podemos dizer que os traços definidores desta escrita são genericamente a desconstrução da estrutura narrativa, o perspectivismo intensamente subjectivizado, um registo de consciência de matriz oralizante (fortemente marcado pelo infinitivo), e a repetição.

A desconstrução da estrutura narrativa age nos livros posteriores a O Esplendor de Portugal pela multiplicação, interpenetração ou sobreposição de distintos momentos, assim como pela adopção de modelos de desenvolvimento diegético em espiral (identificáveis mesmo numa obra com esta, que tem como estrutura cronológica os diferentes momentos de uma corrida de touros de tradição espanhola):

«aflita com a maldade da noite e no estacionamento sobre as ondas um automóvel às escuras, ela a desejar que os cavalos fizessem sombra no mar rasurando o passado e a senhora não
— Que é isto?
A exibir-lhe as nódoas da roupa, não consigo contar as coisas por ordem dado que as misturo em mim, ao atravessarem certas zonas da minha cabeça perco-as e ao recuperá-las alteram-se, devo ter envelhecido e partes minhas defuntas que a vida gastou, ao escutar
 (…)» 4

A desconstrução da estrutura narrativa age igualmente pela entrega da condução da narrativa ao olhar participante dos protagonistas, um olhar intensamente subjectivizado. Este perspectivismo não consiste apenas na subordinação da narrativa àquilo que é susceptível de ser percepcionado pelo narrador participante, trata-se, sim, de tentar transpor para o texto a subjectividade do olhar. Subordinado à própria subjectividade, o discurso é retalhado por omissões, falhas de congruência lógica ou subversão das regras sintácticas. Acumula-se, assim, uma dupla indefinição. Dado que a linguagem não é aqui é um lugar de objectivação da percepção, mas espaço de constituição da própria subjectividade, e dado que a leitura exige a duplicação dessa subjectividade pela subjectividade do leitor, não há verdadeiramente possibilidade de um olhar exterior. Aqui nasce a sensação de sufoco que acompanha a leitura destes textos.

A poetização da prosa acrescenta um último nível de indeterminação, pela introdução de elementos imagéticos que colocam a relação de recepção no espaço indeterminado (e por isso, tão cheio de potencialidades como exposto à irrelevância) da reconstrução subjectiva de uma imagética surrealizante:

«com o seu
— Tu
repentino, deixe-me em sossego mãe e no canto do cérebro que permanece alerta um divagar de sílabas, o que acontecerá aos seus vestidos a escorregarem das cruzetas, aos seus frascos de perfume, aos seus santinhos, o que me acontecerá a mim não mencionando envelhecer, é claro, ou seja os degraus conquistados um a um e o piano do coração aos trambolhões na escada rasgando cordas de veias
 (…)» 5

A produção de um romance (como qualquer outra obra de arte) implica, por parte do escritor, a definição de condicionamentos prévios da experiência potencial do leitor, e exige, por parte deste, a implícita aceitação desses condicionamentos. Isto deveria implicar o que poderemos designar como uma relação de equidade no interior da constituinte relação de assimetria entre o autor e os leitores. A consciência desta assimetria deve impedir que a leitura seja entendida como uma duplicação do acto de escrita ou como uma reconstrução hermenêutica da obra. Naturalmente que a leitura é parte de um processo de constituição da obra. Face a um texto, há coisas que o autor sabe e o leitor desconhece e há coisas que o leitor lê e o autor não pode antecipar, enquanto traduzem o cruzamento da experiência proposta (o livro) com a experiência subjectiva do leitor — uma experiência múltipla e não susceptível de ser predefinida na sua diversidade. A experiência do leitor não é antecipável, mas é exigível que o autor forneça de modo efectivamente acessível as condições de actualização das obras.

Começámos pelo fim, regressemos ao princípio. Este é um livro em que o autor se dá voz e espaço no interior da própria narrativa. A ameaça do silêncio é, antes do mais, a ameaça que paira sobre próprio autor:

«e que maçada ter de escrever este livro, dava de boa vontade o meu lugar a outro, falem por mim, tomem, enquanto procuro aperceber-me do silêncio porque tanto ruído na minha cabeça, passos para onde e de quem e sobretudo o mecanismo da vida que não pára de andar (…)» 6

Ou em outro momento:

«numa parte da minha mãe que nem estou certa que exista, o que sobeja quando não existimos, em que pensarei eu, este livro é o teu testamento António Lobo Antunes, não embelezes, não inventes, o teu último livro, o que amarelece por aí quando não existires(…)» 7

Mas há uma forma de silêncio que subsiste mesmo no interior da aparência de palavra, de discurso, ou de literatura, é o silêncio da impossibilidade do movimento mínimo de apreensão congruente da palavra e do discurso do outro. É o silêncio que resulta de exigir como condição de apreensão a duplicação da experiência do sujeito da enunciação. Este é um silêncio que, de um modo reflexo, ameaça tornar irrelevante aquele que fala, ameaça deixá-lo a falar sozinho. Talvez António Lobo Antunes já esteja a falar sozinho, a escrever para ninguém.


[1] António Lobo Antunes, Que cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, Publicações Dom Quixote, 2009.
[2] Idem, 375.
[3] Idem, 116.
[4] Idem, 157.
[5] Idem, 21.
[6] Idem, 192.
[7] Idem, 123.


H. G. Cancela
15.10.2009

12/10/2009

Ana Cristina Leonardo: sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Disse António Lobo Antunes, em entrevista ao “Diário de Notícias” (14/02/2009), que este livro iria “dar um trabalhão à crítica”. E depois precisou que “queria fazer um romance à maneira clássica, que destruísse todos os romances feitos desse modo”.

Se era esse o objectivo de Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? o escritor falhou o alvo. Embora também possamos tomar as declarações acima por conta de uma boutade. Sem mais. Eu, pelo menos, prefiro entendê-las assim. E guardar apenas a parte do “romance à maneira clássica”: porque esta é a narrativa mais formalmente conservadora das últimas que António Lobo Antunes vem produzindo.

Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? – título que retoma um verso de uma cantiga popular de Natal, conforme crónica publicada na “Visão” de 25/01/2008 –, narra a história de uma família ribatejana em processo de decadência acelerado: a mãe “vai morrer às seis horas”. O pai, viciado no jogo, já faleceu, há uma criada velha, Mercília, misto de Cassandra e Gata Borralheira carcomida pelo reumático e pela vida madrasta, e há os filhos. Beatriz, abandonada pelos homens e amada pelo pai; Rita, levada prematuramente por um cancro; Ana, consumida pelo pó que injecta nas veias; João, que gosta de rapazes e é o preferido da mãe; Francisco, possuído pelo ódio e aguardando a vingança inscrita nos livros das contas; e o bastardo, aquele cujo nome nunca se pronuncia e que não se mostra às visitas.

Cada uma das personagens (incluindo os mortos e os quase mortos...) fala em momentos distintos e sequenciais, cosidos entre si de acordo com a estrutura de uma corrida de touros: “Antes da Corrida”, “Tércio de Capote”, “Tércio de Varas”, “Tércio de Bandarilhas”, “A Faena”, “A Sorte Suprema”, “Depois da Corrida”. Por vezes atropelam-se e o autor atropela-os a todos.

A morte, e o prenúncio de morte, atravessa o romance do princípio ao fim, mas é sobretudo a memória que importa. Uma memória quase sempre terrível que funda a identidade de cada uma das vozes, todas, afinal, apenas uma, unidas pela impossibilidade de regressar à “paz da infância” (se paz houve).

Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? chega, porém, como qualquer texto que se preze de possuir aquele “je ne sais quoi” que o eleva ao literário, em camadas. Podemos lê-lo, por exemplo, como um retrato realista de um Portugal marialva e decadente. Nesse sentido, é bem o espelho de um Ribatejo amoral, prenhe de matriarcas dominadoras, homens ausentes, pobres hereditários e corridas anacrónicas, que se acrescenta à visão do Alentejo ensaiada em O Arquipélago da Insónia. Podemos também, pondo de lado a geografia (quanto mais particular, mais universal...), lê-lo como uma viagem por paisagens interiores, espelho de infâncias de abandono, vidas falhadas e crueldades em cadeia. Finalmente (entendendo-se aqui o advérbio de modo retórico), como um exercício limite onde, apesar da estrutura “clássica”, o autor se exibe, omnipresente, borrando assumidamente a pintura de um romance à superfície polifónico e perspectivista (forma que Durrell levaria ao paroxismo n’ O Quarteto de Alexandria), mas no qual, de facto, se visa mais a “unidade essencial do mundo” do que a sua “pluralidade” (e arrisco que António Lobo Antunes estará mais perto do "uno" do que do "plural").

E é aqui, no território desta terceira possibilidade de leitura, que me parece que o escritor do extraordinário O Meu Nome É Legião mais surge enfraquecido, acontecendo-lhe precisamente aquilo que critica a Nabokov: estamos sempre a vê-lo a ele atrás do livro e não havia necessidade.


Ana Cristina Leonardo
11.10.2009

04/10/2009

Gonçalo Figueiredo Augusto: opinião sobre O Manual dos Inquisidores


Que livro é este que provoca sorrisos e comove ao mesmo tempo? Que livro é este em que o humor se mistura com a mais violenta das realidades? O Manual dos Inquisidores é esse livro que nos apresenta - relato comentário relato comentário relato comentário - um Portugal antes e depois de uma golpe de estado. Logo no primeiro relato é-nos introduzido um ministro, um amigo de Salazar, um homem de cigarrilha e suspensórios, de chapéu
 
Faço tudo o que elas querem, mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão
 
um ministro, ou director-geral, ou outra coisa do género que só conhecemos pela voz dos outros até chegarmos ao final do livro. Um ministro que vamos conhecendo pela voz do filho, pela voz da governanta, pela voz da amante, pela voz de uma filha clandestina... Há uma quinta em Palmela, outrora digna de visitas de Salazar e de repente abandonada ao capim, aos limos do pântano e aos fantasmas do passado. O livro é uma constante oposição entre passado e presente. Ou se calhar não uma oposição já que passado e presente coexistem em permanente nas personagens e mesmo em nós próprios. A inquisição ao passado ganha forma à medida que o livro se aproxima do fim. E se repararmos bem o livro não tem fim, de facto. Poderia dizer que o livro retrata Portugal, mas isso não é verdade. O livro vai mais longe. As personagens vão expondo página após página um país hipócrita e mesquinho, uma realidade onde a violência, a ganância e a mediocridade coabitam. Os cenários podem mudar aparentemente - Palmela, Alverca, Odivelas, Praça do Chile... - mas na verdade é todo um mesmo cenário, da mesma forma que a quinta de Palmela é o refúgio onde todos os relatos vão mais tarde ou mais cedo parar. Não sei dizer se o livro espelha um Portugal de ditadura e um Portugal de pós-ditadura, porque na verdade o país é rigorosamente o mesmo. Apenas as pessoas vão cambiando a reboque das marés que se vão e vêm. Até que chegamos ao final sem chegarmos ao fim. Francisco, o senhor ministro ou seja lá o que for, recorda os horrores em África e remata, como uma súplica
 
peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu
 
da mesma maneira que engolimos em seco depois de fechar o livro e o pousarmos no colo sem entender muito bem se o livro acabou ou se nós mesmos acabámos de recomeçar.
 

por Gonçalo Figueiredo Augusto
26 Setembro 2009

22/09/2009

Ieda Magri: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


edição Alfaguara, Brasil

António Lobo Antunes, em Eu hei-de amar uma pedra, radicaliza sua forma esquizofrênica de escrita dando voz a múltiplos narradores que se revezam ao contar ao leitor os lampejos de uma história de amor – e muitas de rancor – entre um homem e uma mulher maduros que se encontram semanalmente numa hospedaria barata em Lisboa.

Se digo lampejos é porque, ao contrário do que possa parecer aos que não leram Lobo Antunes ainda, Eu hei-de amar uma pedra não é a história desse amor apenas. Esse escritor português, desafeto de Saramago, não investe em enredos, em clímax, no desenrolar de uma história bem contada no intuito de fisgar o leitor. Em seus livros – e neste de forma mais radical – são convocados os fantasmas de narradores diversos e o fio da história é a eles entregue para que, aparentemente, apenas sintam e lembrem. A voz feminina sempre está em destaque, como, por exemplo, em Exortação aos crocodilos, em que quatro mulheres nos colocam a par do que se passa dentro delas para também nos envolver com a história de Portugal, com a Guerra de Angola, com um grupo de homens terroristas, seus maridos, com o câncer de uma delas, com a mudez, enfim, com toda dor latente nas salas de conversas bem arrumadas. Em Eu hei-de amar uma pedraessa atmosfera não é diferente. O que se intensifica é o ritmo da passagem do microfone entre os narradores – digamos assim, embora as personagens de Lobo Antunes falem bem baixinho, quase um murmúrio, quase uma fala sem mover os lábios. É como se o Pimpolho, sua mulher, suas duas filhas, o marido da mais nova, o amor de infância recuperado por acaso depois do casamento, o primo ido embora, o pai esperado, a mãe que não se sabe onde e ainda uma outra mulher muito misteriosa, uma narradora especial, meio autora, meio Ariadne na distribuição de seus fios, estivessem todos na mesma sala evocando suas lembranças e reconstruindo para si mesmos os acontecimentos passados. A sala, no caso, sendo o livro, porque essas personagens não têm mais vontade de conversar entre si, de chegar a qualquer entendimento, apesar de toda dor, solidão e culpa.

Apesar da organização formal do livro, como que a indicar ao leitor o que se passa na superfície do que é contado e o lugar que ocupam os narradores no tempo presente, o tempo da partida que leva ao tempo psicológico mais profundo, localizado no passado, as vozes estão embaralhadas e a cada capítulo que começa o primeiro desafio é saber quem fala. Para complicar, e penso também que para exigir que se desligue um pouco o comportamento detetivesco do leitor, Lobo Antunes coloca na mesma página pessoas diferentes fazendo parte do mesmo acontecimento e expondo seus pontos de vista no envolvimento com aquelas vivências. Dessa forma, o leitor é chamado a prestar atenção, a se entregar mesmo, à linguagem cuidadosamente elaborada de Lobo Antunes. Lançando mão de um ritmo e mesmo de elementos gráficos que se assemelham à forma poética, a grande personagem de António Lobo Antunes é a linguagem: o fluxo dos discursos e a natureza sensível das palavras. Os diversos narradores se pegam a desconfiar das lembranças, como se a memória falhasse, mas também se pegam às voltas com os sentidos das palavras e seus usos, isto implicando, e muito, com o desenrolar da história que se vai fazendo, numa afirmação de autonomia de cada personagem na forma de contar que não pode ser estendida à forma de sentir cujo determinante se localiza no passado e, portanto, não pode ser mudado.

Ao ler Eu hei-de amar uma pedra, participamos fortemente de uma verdade, aquela que envolve o passado dos diversos narradores; mas essa verdade é relativizada a cada momento por aquela narradora que chamei de especial e que, encontrando-se num asilo, já velhinha, dá voz à enfermeira que nos abre os olhos: “Nessa idade inventam tudo, não ligues”. Vemos as personagens se construindo, se mostrando a nós com toda sua complexidade de gentes acrescidas ainda da complexidade da ficção, como em: “O essencial de minha natureza, hão-de comprová-lo no livro quando a estima que entre nós vai crescendo”. E o essencial é visível apenas como sensação, não é feito de matéria palpável, assim como o livro, que se define muito mais que pelo enredo, pelo papel e suas 558 páginas. Depois de lido, Eu hei-de amar uma pedra vai sempre existir mesmo se queimado, fisicamente perdido sem remédio, porque sem começo e sem final. As personagens, mesmo quando optam por sair de cena, continuam ali como lembrança, como algo construído uma vez e condenado a habitar o mundo ou a página à revelia de seu autor, que faz questão de participar, ele mesmo: “(ou sou eu que imagino ou o António Lobo Antunes julgando que devo imaginar a fim de que o romance melhore)” ou seu duplo, mostrando o embate entre criador e personagem:

“não, enganei-me, isto não comigo, com a da arvéloa e da praia, a que me ordenou
– Tu é que fechas o livro a que manda na gente ou a quem mandaram que mandasse na gente, um fulano que não conheço a desesperar-se connosco, a alterar, a trocar-nos
(–Não é assim que gaita)
a voltar ao princípio, o fulano que decidiu não há muito, acho eu
– És tu que fechas o livro e embora arrependido de eu a fechar o livro continua por teimosia a escrever,”


por Ieda Magri
citado de Educação Pública (Brasil)
30.06.2009

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...