17/09/2009

Raquel Cristina dos Santos Pereira disserta sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


O signo linguístico e a literatura pós-moderna em Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo

Uma mão relampeja na casa da escrita.
Faísca                                  Troveja
Procura um claro instante para a aparição.
[...]
e leva vozes aquela mão em cada delicada passagem
[...]
a escrita navega
num estuário de silêncio.
Escrever é uma droga antiga,
uma bebedeira que queima com lentidão
a cabeça,
traz as luzes desde as vísceras,
o sangue a ferver nas vias turbulentas,
traz a natureza estimulante das paisagens
que temos dentro. (Eduardo White)

Rever as leituras acerca do mundo é uma das possibilidades que a obra de António Lobo Antunes permite. Um escritor de autenticidade literária, embora não inovadora, mas que proporciona ao leitor sentir prazer em cada “verso absorvido”. Deparando-se uma vez apenas com as narrativas antunianas não se consegue fugir mais delas, assim como “não se foge de Angola” (Antunes, 2003: 27). Pois não se consegue ignorar Lobo Antunes no cenário literário da atual História mundial.

Suas narrativas demonstram, por vezes, um caráter autobiográfico, devido à recorrência de temas que marcaram suas ética e estética literárias, como, a guerra de Angola.

As sensações, os estados de ânimo revelados pela densidade da sua prosa “vagueiam” em alguns momentos pelos resquícios da sua memória biográfica. Como, por exemplo, a dramática experiência na guerra de Angola, vivenciada por Lobo Antunes durante três anos e que, segundo ele, foram suficientes para se tornar “o acontecimento capital da sua vida”. Mais uma vez, a temática da África estará entremeada nas vozes narrativas do seu recente romance Boa tarde às coisas aqui em baixo.

Um romance em que Lobo Antunes criva novamente a possibilidade de se articular o texto (sua escrita) com o intertexto da vida, isto é, interrelacionar os “textos da sociedade e da História”. Apesar do texto deste escritor não necessitar, para ser estudado, de qualquer referência ao conteúdo e / ou “às determinações externas como, as sociológicas, históricas e psicológicas” (Barthes, 2004: 267).

Sem a intenção de enquadrar a narrativa de Lobo Antunes em alguma “linha” ou ciência literária, mesmo porque qualquer teorização de um texto deve partir dele mesmo, pode-se afirmar que o seu recurso estilístico assemelha-se a um estilo estético surgido nos anos 70, do século XX, que teve Jacques Derrida um dos seus mais importantes expoentes: a “teoria do texto”, ou “teoria da escritura”, que preza pelo desequilíbrio da estrutura formal da escrita; e, pela “abertura”, portanto, do signo, conforme define Roland Barthes.

Abrir o signo implica conceber o livro como um “organismo vivo”, do qual o autor é um sujeito fragmentado entre suas linhas escritas, permitindo, assim que o texto se mova, se multiplique, se mexa, fora de seu controle de escritor. Logo, nada de ponto final no texto, nada de última palavra”, rejeita-se a idéia de um significado último. Pois, em cada ponto se é possível suplementar algo mais. Algo de novo sempre pode brotar mais tarde nos interstícios do tecido, do texto “esburacado” (Barthes, 2004: 257), da “estrutura destroçada” (Derrida, 2002: 16).

É um texto “esburacado”, “sem-projeto”, “sem argumento”, que o mundo antuniano nos apresenta, no qual não há o lugar de quem fala, suspira ou questiona.

A narrativa se coloca plural, ambivalente ao dar voz às diferenciadas realidades humanas. O texto, a partir daí, adquire a forma de um objeto social (Barthes, 2004: 267-268) do qual o intelectual dispõe para problematizar questões inerentes à humanidade. Formular as respostas, as soluções para tais questões não se é permitido, pelo simples motivo do intelectual pós-moderno, neste caso, em particular Lobo Antunes, não acreditar que exista uma única e absoluta realidade ou verdade para a nossa existência.

Desse modo a consciência do intelectual da pós-modernidade, hoje, enxerga seu texto como um objeto que não mais lhe pertence, a partir do momento que se materializa. Daí, a narrativa não ser do singular, não haver apropriação do texto, porque ele se situa no “intercurso infinitivo” dos códigos, e não no termo de uma atividade “pessoal” do autor.

E, é exatamente neste enquadramento de texto que se situa Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo ao apresentar fragmentadamente o indivíduo deslocado no universo pós-colonial português e no seu próprio universo interior.

O escassamento das referências, a relativização da verdade, a oscilação entre mundos teoricamente possíveis dos relatos estão envoltos numa atmosfera “tensa”, e, por vezes, silenciosa de Boa tarde às coisas aqui em baixo.

Uma narrativa de “vozes” que gritam a flagelação humana e as suas íntimas peculiaridades; “Vozes” que revelam um universo de degradação e ruínas “morais” dos falidos: império colonial português e do sistema angolano pós-colonialismo. Esta narrativa nos conduz aos labirintos das consequências da guerra no interior humano. E, cabe ressaltar que não há necessidade de se ter vivenciado a guerra de Angola para compreender ou sentir o que uma guerra pode nos ofertar. Pois, “não somos nós, hoje, neste início de milênio, o resultado de tantas guerras?” (Antunes, 2001: 27).

Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, a exposição da conturbação interior do homem se visualiza a partir da fragmentação não apenas da estrutura estilística, mas também, por meio da fragmentada estrutura do pensamento, do raciocínio das “vozes” que ora se manifestam, ora se calam no romance.

Além da abordagem relativizada das calamidades humanas (retratadas nas frustrações portuguesas), o romance põe em voga uma das maiores problematizações portuguesas: o continente africano. Palco de antigos conflitos entre os portugueses e os seus habitantes, como o desentendimento ocorrido no século XVIII em Angola, época do domínio da Rainha Nzinga, que chegou a realizar alianças com os holandeses para tentar expulsar os portugueses do seu território. Boa tarde as coisas aqui em baixo não se classifica como uma obra sociológica, pois Lobo Antunes não realiza um retrato da guerra colonial e dos conflitos pós-coloniais, mas se utiliza dos fatos da História para explorar a conturbação do interior humano, atitude também demonstrada nos romances: Os cus de judas e O esplendor de Portugal, dois de seus livros, os quais a estória é ambientada na África.

Através de um “verdadeiro mosaico narrativo” (Castello, 2004: 1) a estória do romance situa-se no período pós-(guerra) colonial em Angola:

Um resto de portugueses no seu sangue, não jipes na fazenda que não havia fazendas, acabaram-se as fazendas, havia miséria e fome e guerra e os portugueses substituídos por pretos agora, pretos das furnas dos musseques, ratos assustados, furtivos, subitamente imóveis diante dos faróis dos jipes [...] quando depois do que chamavam independência, isto é dos pretos a entrarem-lhes a porta e a roubarem-nos, isto é dos pretos a matarem-se uns aos outros, isto é dos pretos a transportarem sem desculpas, insultando-se, batendo-se, as mobílias, os fogões, as roupas, quando depois da independência, isto é de cantorias e batuques [...] (Antunes, 2003: 138)

Esta época retrata os conflitos internos em Luanda provocados pelos dois principais pólos políticos do país: MPLA (Movimento Pela Libertação de Angola) e UNITA (União Nacional pela Independência total de Angola). Intensificando, desse modo, o vazio e a depressão da sociedade africana já tão agravada pelas consequências da guerra anti-colonial:

comboios trazendo a morte sob a forma de pretos em Luanda
ratos de esgoto, ratos
a conspirarem nos musseques, chegavam nos vagões de gado
disfarçados de carregadores, agulheiros, serventes, víamo-los
sumirem-se das sanzalas à tarde
ratos
surgiram de manhã nas bancas do mercado
ratos
juntarem-se, separarem-se, conversarem entre si em Kimbundo
ratos
espiarem à noite, pegados aos arbustos, só focinhos, só olhos
focinhos e olhos de ratos, ratos
 (Antunes, 2003: 65)

As titubeações narrativas são ações constantes em Boa tarde às coisas aqui em baixo: “Não sei se ela disse” (Antunes, 2003: 15). Inexatidões que se revelam em deslocamentos temporal e espacial representados, por vezes, por alguns emblemas psicanalíticos, como a casa, por exemplo:

Não sei se ela disse
– Esta era a casa 
(Antunes, 2003: 15)

A casa que segundo Bachelard reflete o “drama das moradas humanas”, também é um dos diagramas da psicologia que guiam os escritores e os poetas na análise da intimidade. A casa mais ainda que uma paisagem é “um estado de alma”, mesmo reproduzida em seu aspecto exterior, fala de uma intimidade. De uma intimidade revelada que parece não reconhecer o seu lugar no mundo, como acontece em Boa tarde às coisas aqui em baixo. Esta inexatidão espacial do romance também pode revelar criticamente o sentimento de descaso demonstrado pelo sistema português em relação ao continente africano. Indiferença portuguesa inclusive para com os seus cidadãos que estavam a serviço da pátria em Angola.

Apesar de o continente africano ter contribuído por séculos com a manutenção do poder e da glória do império português em relação a Europa, Portugal sempre olhou com descaso e superficialidade as questões africanas. O importante para o governo português era o que se extraía de recursos valiosos das colônias, ou melhor, das ex-colônias. Comportamento predominante até os dias atuais, nos quais os portugueses com o aval dos angolanos, exploram “livremente” a “terra vermelha” (Antunes, 2003: 138) – Angola:

Porque os barcos sobem e descem via pássaros e outros barcos e árvores e gente em fato de banho quase todos brancos e alguns pretos também embora não muitos visto que ainda são pobres e a mulher do senhor estrangeiro diz que é uma questão de tempo e a minha mãe acha os pretos bebés amorosos de se comerem e queixa-se que é uma pena que cresçam a minha mãe diz que crescendo ficam feios e com um cheiro esquisito e disse ao meu pai que podíamos levar um destes miúdos giríssimos para Lisboa e aproveitá-lo depois para servir à mesa lá em casa [...] e a mulher do senhor estrangeiro disse que tem um cozinheiro preto óptimo que até comida francesa faz e com um desodorizante forte não se nota o tal cheiro (Antunes, 2003: 563)

Tal postura portuguesa apenas comprova que as histórias de Portugal e de Angola estão interligadas na narrativa de Lobo Antunes e na memória de cada português e de cada angolano. A escrita e a memória fragmentadas do romance atingem o cerne dos problemas - não somente dos portugueses e dos africanos, mas de qualquer agente da realidade. Pois, a escrita de Lobo Antunes “relampeja, faz faiscar” o conturbado interior humano nas “vozes” portuguesas e angolanas que se entrelaçam no discurso fictício da vida.

Boa tarde às coisas aqui em baixo nos remete a um encontro do africano com o angolano; do português com o colonizador; do humano com a sua conturbação interior. O que se encontra ou reencontra nesta narrativa é a fragmentada gênese humana retratada pela imagem da escrita impetuosa e sedutora de António Lobo Antunes.

Este romance rememora em cada memória, em cada voz que o lê, as marcas peculiares, singulares do homem lançado num sistema pós-moderno, como os touros que são lançados à revelia, e, sem piedade na arena.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, António Lobo. Boa tarde às coisas aqui em baixo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
BARTHES, Roland. Inéditos, I: teoria. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
BLANCO, María Luisa. Conversas com António Lobo Antunes. Lisboa: Dom Quixote, 2002.
CASTELLO, José. África, à beira da asfixia. Prosa & Verso. Rio de Janeiro: Jornal. O globo, 17 de janeiro de 2004, p.1.
DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 2005.
MATOS, Olgário. Desejo de evidência, desejo de vidência: Walter Benjamin. Org. Adauto Novaes. São Paulo: Cia. das Letras; Rio de Janeiro: Funarte, 1990.
WHITE, Eduardo. Poemas da ciência de voar e da engenharia de ser ave. Lisboa: Caminho, 1992. 


por Raquel Cristina dos Santos Pereira
não datado
Cadernos do CNLF, Série X, Número 6

02/09/2009

Sílvia da Rocha Andrade: opinião sobre As Naus


O livro As Naus, de António Lobo Antunes, publicado em 1988, narra a história de regresso à pátria, no caso, Portugal. Nessa narrativa há dois posicionamentos: a pátria do tempo dos descobrimentos e a pátria contemporânea. O autor busca no passado explicações para a condição atual de seu país.

Sobre esse prisma, a narrativa vai tecendo-se através de um narrador que não é fixo, às vezes está em primeira pessoa e em outras na terceira pessoa. O tempo narrativo é uma mistura entre o passado e presente; ao mesmo tempo em que há uma descrição de imagens do passado há, como contraponto, uma descrição de Portugal em nossos tempos.

De forma muito original, o autor utiliza, como personagens, personalidades importantes na história de Portugal como Pedro Álvares Cabral, Luis de Camões, D. Sebastião entre outros. Dessa forma, Lobo Antunes faz um resgate do passado dito "glorioso" e o compara com o resultado atual: uma pátria que vive de histórias pretéritas e que está estagnada em um tempo que não volta mais. Isso se atribui àquilo que José Mattoso escreve em A Identidade Nacional: A transposição da história para a epopeia deu-lhe, porém, a força do mito, não só para a gente pouco instruída, mas também para muitos dos autores mais cultos do século XIX, que continuaram a imaginar a gesta dos Descobrimentos a partir de Os Lusíadas. A sobreposição da História e do mito agravou o sentimento da decadência nacional...

A população portuguesa, vivendo desse passado, é chamada à realidade em As Naus. Esse processo de decadência nacional é representado no livro através da parodização. Lobo Antunes sugere a queda dos mitos, tornando-os seres humanos comuns, sem nenhum vestígio de glória.

O autor faz esse jogo como forma de reinterpretar o passado, criticar tantas "glórias" e chegar ao resultado de tudo isso: um novo processo de conscientização nacional. A colonização portuguesa em África, pois, é condição primordial em As Naus. Lobo Antunes escreve relatos dos primórdios da História Portuguesa e chega até a pós-revolução dos Cravos, quando se inicia o processo de descolonização. Portugal ainda mantinha, nessa época, a política colonialista representada por Salazar, última resistência aos movimentos liberais africanos.

Quando termina a ditadura salazarista, ocorre o processo de descolonização, gerando ao povo colonizado uma satisfação inigualável de independência, mas ao povo que o colonizou, acaba por obrigar a rever o seu significado de nação.

Toda essa representação crítica e, digamos, histórica de As Naus é feita através de uma linguagem "caótica", de um discurso delirante que acaba por se tornar uma grande alegoria. Questionamentos importantes como: quem fomos? quem somos? o que queremos? são abordados nas entrelinhas de As Naus. A necessidade desse olhar autocrítico para um redescobrimento de si mesmo.

 
por Sílvia da Rocha Andrade
23.06.2009

25/08/2009

Maria Celeste Pereira: sobre O Meu Nome É Legião


Há uns quantos livros mas, sobretudo, uns quantos autores que, na minha opinião têm de ser lidos com a disposição certa, no momento certo, com tempo para deles podermos tirar o máximo proveito.

Foi, para mim, o caso de “O meu nome é legião”. Há já muito que o tinha pronto para ler e a verdade é que tinha vontade de o fazer. Contudo, apenas há pouco tempo entendi que estava preparada para o usufruir.

Li-o e, de imediato, voltei a lê-lo. Não que o não tenha compreendido na primeira leitura, mas sim pelo enorme prazer que me deu fazê-lo e porque me custou deixá-lo. Não queria.

Essa dupla leitura permitiu-me também parar e absorver mais intensamente algumas partes de uma beleza única. Aquelas por onde se consegue pressentir a beleza, o sentimento, onde só parece existir fealdade, desencanto, desamor, negação, dor… (O sentir do autor?)


O livro é, desde o primeiro capítulo até ao último (foram, aliás, estes dois os meus preferidos), um verdadeiro tratado literário; um prazer de leitura só por si.

Escrito em vários registos, pretende contar a história de um bando composto por oito jovens de idades compreendidas entre os doze e os dezanove anos, mestiços, um preto e um branco, todos residentes num bairro socialmente desfavorecido, onde prevalece o vazio cultural e afectivo associado às privações materiais mais prosaicas, que se dedica a actividades criminais.

Essa história que se inicia de uma forma bastante normal, sob a forma de relatório policial seguido de depoimentos testemunhais, vai dando lugar ao deambular indomável dos pensamentos mais profundos das personagens que vão desfilando sob os nossos olhos num intrincado discursivo que torna por vezes difícil identificar a personagem. E terá isso tanta importância?

Serão as personagens assim tão diferentes nas suas reflexões, nas suas deambulações?

Todas provêm de fantasmas do passado, do abandono, da solidão, do sofrimento, da injustiça, de obsessões, da ausência, de debilidades, de abusos de dores, de violências…

Todos são seres despedaçados pela vida que têm (que não tiveram), que não têm… Todos se vêem a braços com contendas interiores que não sabem como resolver. Que não resolvem. Que nem são para resolver…

Enfim, simplesmente magistral. António Lobo Antunes inconfundível e irreproduzível (se bem que por vezes, não fácil), nesta sua capacidade de dominar plenamente um estilo narrativo delicado, este de entrecruzar as vidas, os sentimentos, as lágrimas negadas, as que caem, os relatos de desesperança, a negação de memórias das suas personagens.

Se todo o livro foi para mim uma necessidade premente, o último capítulo, mais excelente ainda, no meu ponto de vista, deixou-me sem fôlego.

Fantástico.


Maria Celeste Pereira
24.08.2009

22/08/2009

Assombrado pela literatura


publicada no site Bem Paraná
Ubiratan Brasil / Agência Estado
17.08.2009


Escritor português António Lobo Antunes, que teve dois livros lançados no Brasil, conversa sobre literatura e vida


O escritor português António Lobo Antunes vive assombrado pela literatura. Em um de seus recentes pesadelos, se viu morto e cercado por homens que discutiam sobre sua obra com argumentos muito inteligentes. “Meu desespero estava na impossibilidade de me levantar e dizer: ‘Não é isso! Não quis dizer isso!”, contou, por telefone, desde Lisboa.

Como um dos principais autores em língua portuguesa da atualidade, a incompreensão não parece incomodar Lobo Antunes, uma vez que sua escrita literária está sob constante evolução, notadamente subversiva e radicalmente original. Aos 66 anos, Antunes leva ao extremo a quebra da estrutura narrativa. É o que o transformou em um dos principais convidados da mais recente edição da Festa Literária Internacional de Paraty, em julho. E o que torna ainda mais atraente o lançamento no Brasil de dois livros seus, Explicação dos Pássaros e O Meu Nome É Legião, ambos pela Alfaguara. Trata-se de subversão pura - o primeiro, publicado originalmente em 1981, mescla presente, futuro e lembranças do passado para narrar os últimos dias de um homem que, como um personagem das tragédias gregas, ruma a um destino inescapável. E, em O Meu Nome É Legião, de 2007, as falas, os pensamentos e os atos de diversos personagens se fundem em texto denso, que narra os crimes praticados por oito garotos. Neto de brasileiros, não vem ao Brasil desde 1983, assunto marcou o início da conversa.

Por que você ficou tanto tempo sem vir ao Brasil, já que tem ligações familiares a partir de seu avô?
Avô, bisavô, tataravô... Vivo para escrever, mas, quando aceito convites de viagens, fico sem escrever. E não tenho jeito para promover minha obra. Mas é algo de tradição familiar, pois, meu avô só voltou uma vez ao Brasil. Lembro-me que, criança, esperava ansioso pela volta de algum familiar do Brasil, pois sempre traziam cocadas maravilhosas do Pará.
Foi na casa de seu avô que aprendeu a gostar da obra de Monteiro Lobato?
Na casa do meu pai - para meu avô, quem gostava de ler era considerado maricas. Mas, de alguma forma, foi ele quem nos incutiu o gosto pela literatura brasileira: em casa, tínhamos José de Alencar, Aluízio Azevedo (que eu achava muito estranho) e Monteiro Lobato, que me fez admirar o Saci. Também os poetas do século 19, até os considerados de segunda linha como Francisco Júlia, Cruz e Souza. Penso que conheço bem a literatura brasileira.
Tal conhecimento se explica apenas por motivos familiares?
Não apenas, mas também pelo contato com as pessoas - sempre vivi com um pé no Brasil, outro em Portugal. E, claro, pelo ofício que se tornou a literatura para mim. Já disse inúmeras vezes que não existem poetas melhores em língua portuguesa que Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Eles são superiores, mas a poesia brasileira é rica em grandes nomes, como Jorge de Lima, Cassiano Ricardo, Sousândrade e Mário Quintana, cujos poemas da fase final da vida são maravilhosos. E o que dizer de Olavo Bilac, hoje tão desprezado? Ele tem de ser lido no contexto de sua época. Não é um poeta para a eternidade, mas tem seu mérito. Recentemente, descobri outro poeta que me entusiasmou: Manoel de Barros. Não me conformo como tal patrimônio é tão esquecido.
O mesmo acontece com autores de prosa?
Sim. Afinal, quem lê Oswald de Andrade, Raduan Nassar ou Mário de Andrade hoje em dia? Só malucos. Tenho muitas saudades também de Jorge Amado, um dos homens mais generosos que já conheci. Confesso ter mais saudade dele que de sua obra.
Sua admiração pela poesia é tamanha que até inspirou o título de seu próximo livro, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, a ser lançado em outubro.
É uma canção popular do século 19, de camponeses analfabetos da fronteira com a Espanha, que nunca viram o mar. Trata da chegada dos reis magos. Acredito que seja uma das melhores obras que já escrevi.. É cada vez mais difícil escrever, pois temo desapontar os leitores que acreditam em mim.
Mas sua obra é cada vez mais editada no Brasil, ao contrário de anos atrás, quando você reclamava de não ser lido aqui - especialmente por tratar de temas atuais, como O Meu Nome É Legião, ambientado em bairro de periferia de Lisboa, marcado por violência urbana.
É uma história muito simbólica, pois Portugal se transformou em um país de imigrantes: são brasileiros e africanos de antigas colônias. Assim, os personagens são meninos que nasceram aqui, mas não têm nem a África que perderam, tampouco Portugal que não lhes dá nada. Para mim, é também um livro sobre como escrever, em que o fim não interessa como as razões simbólicas, que impõem uma narrativa polifônica. Escrevi sem saber qual seria o destino. O livro é um organismo vivo que me comanda - só me resta, portanto, obedecer. Não é o autor quem escreve os próprios livros, mas algo que existe em nós, em uma região que desconhecemos. Me sinto como um escritor que só encontra no lixo os assuntos que aos outros não interessam.
Seriam infundadas as notícias de que você não pretende mais escrever literatura?
Não sei dizer. No ano passado, publiquei O Arquipélago da Insónia e agora, em outubro, oQue Cavalos.... Depois, não sei. Algo está em gestação, mas não sei dizer se é um livro. Ainda não sei qual é o sexo da criança (risos). Enquanto não descubro, trabalho. Nunca penso em publicar, só em escrever.
A escrita é um fardo?
De forma nenhuma. Há momentos de prazer intenso, assim como de dúvidas cruciais. Não acredito em inspiração, mas em trabalho - a inspiração só chega quando o livro está pronto.
Você se curou de um câncer. Essa experiência vá inspirar alguma obra futura?
Não sei. A doença é uma indignidade, uma resposta mal-educada da natureza. Foi um golpe que me permitiu apreciar coisas que antes não enxergava e, sobretudo, a conhecer pessoas que enfrentam sofrimentos maiores. Mas o câncer me roubou a eternidade, porque todos nos sentimos eternos.


Agência Estado
citado de Bem Paraná
17.08.2009

08/08/2009

Rafael Rodrigues: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


“Ontem não te vi em Babilônia“, de António Lobo Antunes (por que comprei: eu já queria ler Lobo Antunes faz tempo, mas recentemente o jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck, que mediou a conversa com Lobo Antunes na Flip, me recomendou veementemente a leitura de um dos livros do autor, só não lembro qual; como “Ontem não te vi em Babilônia” estava na promoção das Americanas, peguei ele)
 
Numa noite em claro, entre a meia-noite e as cinco da manhã, personagens diversas relatam tudo o que pensam, enquanto a insônia permite. Ouvem-se histórias de vidas sonhadas ou sonhos de vida, contos alegres, tristes, cruéis, com esperança ou desencanto, histórias de medo e de encantar. Ontem não te vi em Babilónia passa-se numa única noite, uma noite em que ninguém dorme, em que diversas vozes se entrelaçam.

Ana Emília não se esquece da morte da filha, um suicídio quando a menina tinha apenas 15 anos. Alice, ex-enfermeira de um hospital de província, casada com um homem calado e truculento, repassa acontecimentos difíceis da infância. E Osvaldo, seu marido, acordado no quarto ao lado, recorda-se inicialmente da mãe, que morreu quando ele ainda era criança, e, com o passar das horas, lembra eventos mais recentes, que ligam intimamente os personagens. No livro, António Lobo Antunes – um dos mais importantes escritores de língua portuguesa – cria um quebra-cabeça fascinante, que aos poucos vai se revelando.

Como observou o escritor angolano José Eduardo Agualusa, “os livros do António não se apresentam, não se pode dizer que o enredo é este ou aquele”. Agualusa destacou ainda, que o grande escritor português “não condescende com as modas do mundo ou da literatura”.

Em entrevista concedida na época do lançamento de Ontem não te vi em Babilónia em Portugal, Lobo Antunes falou sobre seu processo de criação, que considera muito difícil do ponto de vista técnico:

“Eles (os personagens) estão a adormecer, entre a meia-noite e as cinco da manhã. Ao longo do livro vão ficando cada vez com mais sono. E, portanto, os nexos lógicos passam a ser cada vez mais difíceis. A idéia veio… Eu adormeço a ler… A gente vai, desce e sobe, não é? E quando descia lia coisas que não estavam lá no livro e que eram muito melhores. E depois quando acordava não estava lá nada daquilo. E então pensei: ‘Se conseguir um estado próximo deste, escrevo coisas muito melhores’. Como induzir em mim, estando desperto, um estado de vigília. Depois percebi que conseguia se me cansasse. Por isso normalmente as primeiras duas horas são perdidas. Quando começamos a ficar cansados é que as coisas começam a sair. E neste livro tentei levar isso ainda mais longe. Ficar parecido com aquilo que me acontecia quando estava a ler. Ou então aquilo que o narrador de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, diz: ‘Parece que vos estou a contar um sonho…’. Não são romances. Não acontece nada. Não há uma história. Não me interessa nada fazer histórias, cada vez menos. É um bocado isso. Eles (os personagens) sobem e descem… E depois começa a aparecer uma coisa, uns filamentos, umas frases, um esboço de história, que depois eu vou destruir. Sinto-me é cada vez mais seguro, e isso é muito agradável. Porque é óbvio que cada vez estou a escrever melhor.”

Sobre a escolha do título de seu décimo oitavo livro, o autor revelou: “Já tinha acabado o livro e ainda não tinha título. E um dia estava a passear por um texto do poeta cubano Eliseu Diego, dei com a frase escrita há 5 mil anos, num fragmento de argila. Tive essa felicidade”.


por Rafael Rodrigues
21.07.2009

05/08/2009

Cristina Robalo Cordeiro: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 157/158 de Julho de 2000 – pp. 413 e 414


Desde Memória de Elefante que, ano após ano e de título em título, acolhemos os romances de Lobo Antunes com forte expectativa, esperando do seu mundo romanesco que nos surpreenda, nos abale e nos confirme no que parece ser o essencial das forças que o plasmam: polifonia, fractura, delírio, caos, dissecação de figuras e de ambientes fantasmagóricos, obstinação de memórias labirínticas, descida aos infernos de um quotidiano sempre transfigurado.

Na relação que estabelece com o leitor, não é nunca a cedência à lei da facilidade que impera. Não buscamos nos livros de Lobo Antunes serenidade e apaziguamento, nem acção, aventura, divertimento. Não o lemos em estado de repouso, mas de vigilância. Não o recebemos em sossego, tranquilamente, mas de forma tensa e enervada.

Não Entres tão depressa Nessa Noite Escura não nos desilude. Nele reconhecemos, na diferença de um novo cenário, a mesma virtude criadora, a mesma carga emocional, a constante tensão, nunca resolvida, que dialectiza texto e mundo em oposições dinâmicas e fecundas.

Este romance constrói-se em torno de uma personagem feminina, Maria Clara, que ouvimos em excesso de palavras fixadas quer em relatos confiados ao diário quer em monólogos recebidos em escuta (quase) silenciosa de psiquiatra atento, numa casa visitada pela degradação e onde parece esconder-se, num quarto de sótão fechado à chave, o segredo do passado que é também o mistério da família e o enigma da própria vida. A sua voz inquieta navega em regimes temporais mais psicológicos do que cronológicos, e lida com as coisas e com o mundo de forma marcadamente afectiva.

O romance desenvolve-se em círculos cada vez mais largos - das quatro figuras nucleares da família a antepassados longínquos ou menos chegados, do destino meramente individual ao colectivo por detrás do qual se vislumbra uma situação social e política, um contexto histórico -, em espiral de vozes e de planos que se afastam e regressam, se dispersam e aproximam, num movimento de vaivém que, ao mesmo tempo que esclarece e e acrescenta sentido, lhe junta também mistério e dúvida. Movida pela intuição, Maria Clara procura nas gavetas e arcas do quarto interdito vestígios de uma identidade que nem só a si diz respeito, e à medida que junta bocados soltos e desordenados do retrato da família (a que falta um pedaço) vai-se deixando invadir por rostos e corpos estranhos, vai deixando falar em si em outras vozes, já extintas e imaginárias, num jogo em que é difícil distinguir o que efectivamente é do que nunca foi ou algum dia será. Ao avançarmos por entre certezas e suposições, alusões e recuos, antecipações e elipses, reencontramos a força subjugante e enfeitiçadora de uma escrita que se suspende, se interrompe e retoma o que foi interrompido ou ficou suspenso, escrita que avança e volta atrás, se enche de sons, imagens, sentidos, para logo os pôr de lado, esquecer, rejeitar, num tecido textual que, ao misturar sinais gráficos e tipográficos originais e desconcertantes, enreda o mundo no turbilhão de palavras que o desvendam ou o escondem.

Mas se Não Entres tão depressa Nessa Noite Escura é de novo lugar de escrita apaixonada e delirante, é ainda, e simultaneamente, o de uma rigorosa composição. Os sete momentos em que se repartem, em perfeito equilíbrio, os trinta e cinco capítulos que compõem este romance correspondem ao percurso de criação simbolicamente identificado com o «grande trabalho da criação» (p. 465), que destrona o vazio e, em absoluto, o substitui pela vida. Escandida em sete tempos, em sete etapas fundadoras, como no Génesis, a história deste mundo imaginário confunde-se com a história do céu e da terra. E o poder de quem, pela escrita, cria um mundo próprio e lhe insufla vigor e desejo assemelha-se aqui ao da voz divina que ordena que a luz exista, que o firmamento aparte as águas, que a terra se cubra de frutos, que dois luzeiros separem o dia e a noite, que os seres vivos cresçam e se multipliquem, da voz de um Deus que faz o homem à sua imagem e, por fim, descansa ao concluir a obra. Como eles, também Maria Clara caminha na fronteira indecisa do real e da ficção, e, na suposição de ser fada em «gesto da varinha de condão» (p. 28), ou na convicção de «que invent[a] o tempo inteiro» (p. 275), perante um interlocutor mudo, acaba gerando a sua própria verdade sobre as coisas. Dizer/escrever são assim  modos de revelação de uma história que releva do sagrado, na origem da própria vida, formas inspiradas de lutar contra a morte - obsessiva e esvaziante -, de compreender, reconstruir e restituir sentidos. É também de apaziguar o medo do desconhecido e do inexplicável, das rupturas: por isso, no final do relato, Maria Clara pode ter a coragem de repetir «Hoje estava capaz de me ir embora» (p. 551).

É inevitável a implicação do leitor neste universo imaginário que ele próprio ajudou a construir e que o faz experimentar a inquietação de personagens equacionando a vida num misto de paixão e de ressentimento. E do encontro excitante com esta escrita que se debate entre figurar e desfigurar, fixar o real e contrariar tudo o que de alguma forma o imobilize, com o desassossego de um discurso que concilia a desmesura e o segredo, o excesso do dizer e o não-dito, prevalece em nós a qualidade do olhar que se detém no pormenor e capta das coisas o instante que as imortaliza, a força visionária que desmonta e recompõe, tornando visível o infinitamente insignificante, o sabor que as palavras têm e o gosto que deixam na boca de quem nelas morde.


Cristina Robalo Cordeiro
Colóquio Letras 157/158
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 2000

17/07/2009

Denis Araki: opinião sobre Os Cus de Judas


Sinopse: O livro revela aos leitores brasileiros, pela primeira vez, os horrores da guerra colonial na África, o reencontro de Portugal consigo mesmo e a dilacerante experiência de viver em silêncio uma ditadura fascista.

 
edição Objetiva, Brasil
O português António Lobo Antunes, para alguns eternamente injustiçado pelo Nobel de Literatura de 1998, em sua recente visita ao Brasil, reafirmou seu carinho por nosso País. Ele não consegue imaginar o Brasil como um país, o que vem a sua mente são pessoas, doces, seu avô, que era de Belém, as cocadas de sua tia. É a visão de um autor que vem realizando um profundo retrato do Portugal contemporâneo, questionando o conceito de nação.

Os Cus de Judas, livro de 1979 que compõe a primeira trilogia do autor (os outros livros são Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno), a que ele considera de aprendizagem, aborda os efeitos da guerra. A guerra em questão é a da libertação de Angola e seu resultado na figura de um médico enviado para o combate. Narrado em primeira pessoa, o médico passa uma madrugada até o amanhecer com uma mulher, começando em um bar e depois em sua casa. Nesse período ele conta sua história, entremeada com reflexões. O tempo é demarcado pela simulação de diálogo com a mulher, que não exprime uma palavra no romance.

Ainda que muito duro contra a guerra e contra essa noção de serviço à pátria, o texto possui momentos líricos, na medida do possível, como no trecho: “formávamos a cada jantar a anti-Última Ceia, o desejo comum de não morrer constituía, percebe, a única fraternidade possível.” O narrador sofre da falta de afeto que o atinge, ou, como ele prefere descrever, “esta angustiada sede de ternura que repele o afecto”. É a impossibilidade do amor e da readaptação que o aflige. Ele nasceu em um país “estreito e velho” e foi mandado para os “horizontes sem limites” das planícies de Luanda para cumprir o peso da tradição militar de sua família, requisito para se tornar um homem. O ressentimento a essa tradição é marcado ao longo do livro, e são poucos os momentos de ternura, principalmente de sua infância e de suas filhas.

É na descrição do cotidiano que sentimos o descaso do governo português e a dureza de se estar na guerra; nos relatos dos feridos vemos a falta de sentido no combate. É esse desconforto, essa dureza que faz com que os soldados descarreguem sua tensão no momento do combate. Algo conveniente.

Após vivenciar esses horrores, ele também vê a falta de sentido no cotidiano de sua cidade: “de chinelos, na cozinha, você prepara um café forte como um electro-choque que a projete para fora de seu invólucro de sono na direcção do emprego.” As pessoas seguem a vida apáticas enquanto os soldados estão “defendendo” a pátria. A falta do valor dos enviados fica mais evidente, “porque uma camioneta era mais necessária e mais cara do que um homem um filho faz-se em cinco minutos e de graça não é verdade uma viatura demora semanas ou meses a atarraxar parafusos.”

Há quem prefira as alegorias e o onírico de Saramago, há quem prefira a crueza do mundo e os profundos mergulhos na psique humana que Lobo Antunes proporciona. Depois de passar pelos Cus de Judas, percebe-se que a vida segue e um profundo desprezo, uma falta de sensibilidade, atinge aqueles que entraram forçados nessa guerra. Assim como aqueles que nem pisaram naquela terra vermelha.


por Denis Araki
13.07.2009

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...