08/08/2009

Rafael Rodrigues: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


“Ontem não te vi em Babilônia“, de António Lobo Antunes (por que comprei: eu já queria ler Lobo Antunes faz tempo, mas recentemente o jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck, que mediou a conversa com Lobo Antunes na Flip, me recomendou veementemente a leitura de um dos livros do autor, só não lembro qual; como “Ontem não te vi em Babilônia” estava na promoção das Americanas, peguei ele)
 
Numa noite em claro, entre a meia-noite e as cinco da manhã, personagens diversas relatam tudo o que pensam, enquanto a insônia permite. Ouvem-se histórias de vidas sonhadas ou sonhos de vida, contos alegres, tristes, cruéis, com esperança ou desencanto, histórias de medo e de encantar. Ontem não te vi em Babilónia passa-se numa única noite, uma noite em que ninguém dorme, em que diversas vozes se entrelaçam.

Ana Emília não se esquece da morte da filha, um suicídio quando a menina tinha apenas 15 anos. Alice, ex-enfermeira de um hospital de província, casada com um homem calado e truculento, repassa acontecimentos difíceis da infância. E Osvaldo, seu marido, acordado no quarto ao lado, recorda-se inicialmente da mãe, que morreu quando ele ainda era criança, e, com o passar das horas, lembra eventos mais recentes, que ligam intimamente os personagens. No livro, António Lobo Antunes – um dos mais importantes escritores de língua portuguesa – cria um quebra-cabeça fascinante, que aos poucos vai se revelando.

Como observou o escritor angolano José Eduardo Agualusa, “os livros do António não se apresentam, não se pode dizer que o enredo é este ou aquele”. Agualusa destacou ainda, que o grande escritor português “não condescende com as modas do mundo ou da literatura”.

Em entrevista concedida na época do lançamento de Ontem não te vi em Babilónia em Portugal, Lobo Antunes falou sobre seu processo de criação, que considera muito difícil do ponto de vista técnico:

“Eles (os personagens) estão a adormecer, entre a meia-noite e as cinco da manhã. Ao longo do livro vão ficando cada vez com mais sono. E, portanto, os nexos lógicos passam a ser cada vez mais difíceis. A idéia veio… Eu adormeço a ler… A gente vai, desce e sobe, não é? E quando descia lia coisas que não estavam lá no livro e que eram muito melhores. E depois quando acordava não estava lá nada daquilo. E então pensei: ‘Se conseguir um estado próximo deste, escrevo coisas muito melhores’. Como induzir em mim, estando desperto, um estado de vigília. Depois percebi que conseguia se me cansasse. Por isso normalmente as primeiras duas horas são perdidas. Quando começamos a ficar cansados é que as coisas começam a sair. E neste livro tentei levar isso ainda mais longe. Ficar parecido com aquilo que me acontecia quando estava a ler. Ou então aquilo que o narrador de O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, diz: ‘Parece que vos estou a contar um sonho…’. Não são romances. Não acontece nada. Não há uma história. Não me interessa nada fazer histórias, cada vez menos. É um bocado isso. Eles (os personagens) sobem e descem… E depois começa a aparecer uma coisa, uns filamentos, umas frases, um esboço de história, que depois eu vou destruir. Sinto-me é cada vez mais seguro, e isso é muito agradável. Porque é óbvio que cada vez estou a escrever melhor.”

Sobre a escolha do título de seu décimo oitavo livro, o autor revelou: “Já tinha acabado o livro e ainda não tinha título. E um dia estava a passear por um texto do poeta cubano Eliseu Diego, dei com a frase escrita há 5 mil anos, num fragmento de argila. Tive essa felicidade”.


por Rafael Rodrigues
21.07.2009

05/08/2009

Cristina Robalo Cordeiro: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 157/158 de Julho de 2000 – pp. 413 e 414


Desde Memória de Elefante que, ano após ano e de título em título, acolhemos os romances de Lobo Antunes com forte expectativa, esperando do seu mundo romanesco que nos surpreenda, nos abale e nos confirme no que parece ser o essencial das forças que o plasmam: polifonia, fractura, delírio, caos, dissecação de figuras e de ambientes fantasmagóricos, obstinação de memórias labirínticas, descida aos infernos de um quotidiano sempre transfigurado.

Na relação que estabelece com o leitor, não é nunca a cedência à lei da facilidade que impera. Não buscamos nos livros de Lobo Antunes serenidade e apaziguamento, nem acção, aventura, divertimento. Não o lemos em estado de repouso, mas de vigilância. Não o recebemos em sossego, tranquilamente, mas de forma tensa e enervada.

Não Entres tão depressa Nessa Noite Escura não nos desilude. Nele reconhecemos, na diferença de um novo cenário, a mesma virtude criadora, a mesma carga emocional, a constante tensão, nunca resolvida, que dialectiza texto e mundo em oposições dinâmicas e fecundas.

Este romance constrói-se em torno de uma personagem feminina, Maria Clara, que ouvimos em excesso de palavras fixadas quer em relatos confiados ao diário quer em monólogos recebidos em escuta (quase) silenciosa de psiquiatra atento, numa casa visitada pela degradação e onde parece esconder-se, num quarto de sótão fechado à chave, o segredo do passado que é também o mistério da família e o enigma da própria vida. A sua voz inquieta navega em regimes temporais mais psicológicos do que cronológicos, e lida com as coisas e com o mundo de forma marcadamente afectiva.

O romance desenvolve-se em círculos cada vez mais largos - das quatro figuras nucleares da família a antepassados longínquos ou menos chegados, do destino meramente individual ao colectivo por detrás do qual se vislumbra uma situação social e política, um contexto histórico -, em espiral de vozes e de planos que se afastam e regressam, se dispersam e aproximam, num movimento de vaivém que, ao mesmo tempo que esclarece e e acrescenta sentido, lhe junta também mistério e dúvida. Movida pela intuição, Maria Clara procura nas gavetas e arcas do quarto interdito vestígios de uma identidade que nem só a si diz respeito, e à medida que junta bocados soltos e desordenados do retrato da família (a que falta um pedaço) vai-se deixando invadir por rostos e corpos estranhos, vai deixando falar em si em outras vozes, já extintas e imaginárias, num jogo em que é difícil distinguir o que efectivamente é do que nunca foi ou algum dia será. Ao avançarmos por entre certezas e suposições, alusões e recuos, antecipações e elipses, reencontramos a força subjugante e enfeitiçadora de uma escrita que se suspende, se interrompe e retoma o que foi interrompido ou ficou suspenso, escrita que avança e volta atrás, se enche de sons, imagens, sentidos, para logo os pôr de lado, esquecer, rejeitar, num tecido textual que, ao misturar sinais gráficos e tipográficos originais e desconcertantes, enreda o mundo no turbilhão de palavras que o desvendam ou o escondem.

Mas se Não Entres tão depressa Nessa Noite Escura é de novo lugar de escrita apaixonada e delirante, é ainda, e simultaneamente, o de uma rigorosa composição. Os sete momentos em que se repartem, em perfeito equilíbrio, os trinta e cinco capítulos que compõem este romance correspondem ao percurso de criação simbolicamente identificado com o «grande trabalho da criação» (p. 465), que destrona o vazio e, em absoluto, o substitui pela vida. Escandida em sete tempos, em sete etapas fundadoras, como no Génesis, a história deste mundo imaginário confunde-se com a história do céu e da terra. E o poder de quem, pela escrita, cria um mundo próprio e lhe insufla vigor e desejo assemelha-se aqui ao da voz divina que ordena que a luz exista, que o firmamento aparte as águas, que a terra se cubra de frutos, que dois luzeiros separem o dia e a noite, que os seres vivos cresçam e se multipliquem, da voz de um Deus que faz o homem à sua imagem e, por fim, descansa ao concluir a obra. Como eles, também Maria Clara caminha na fronteira indecisa do real e da ficção, e, na suposição de ser fada em «gesto da varinha de condão» (p. 28), ou na convicção de «que invent[a] o tempo inteiro» (p. 275), perante um interlocutor mudo, acaba gerando a sua própria verdade sobre as coisas. Dizer/escrever são assim  modos de revelação de uma história que releva do sagrado, na origem da própria vida, formas inspiradas de lutar contra a morte - obsessiva e esvaziante -, de compreender, reconstruir e restituir sentidos. É também de apaziguar o medo do desconhecido e do inexplicável, das rupturas: por isso, no final do relato, Maria Clara pode ter a coragem de repetir «Hoje estava capaz de me ir embora» (p. 551).

É inevitável a implicação do leitor neste universo imaginário que ele próprio ajudou a construir e que o faz experimentar a inquietação de personagens equacionando a vida num misto de paixão e de ressentimento. E do encontro excitante com esta escrita que se debate entre figurar e desfigurar, fixar o real e contrariar tudo o que de alguma forma o imobilize, com o desassossego de um discurso que concilia a desmesura e o segredo, o excesso do dizer e o não-dito, prevalece em nós a qualidade do olhar que se detém no pormenor e capta das coisas o instante que as imortaliza, a força visionária que desmonta e recompõe, tornando visível o infinitamente insignificante, o sabor que as palavras têm e o gosto que deixam na boca de quem nelas morde.


Cristina Robalo Cordeiro
Colóquio Letras 157/158
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 2000

17/07/2009

Denis Araki: opinião sobre Os Cus de Judas


Sinopse: O livro revela aos leitores brasileiros, pela primeira vez, os horrores da guerra colonial na África, o reencontro de Portugal consigo mesmo e a dilacerante experiência de viver em silêncio uma ditadura fascista.

 
edição Objetiva, Brasil
O português António Lobo Antunes, para alguns eternamente injustiçado pelo Nobel de Literatura de 1998, em sua recente visita ao Brasil, reafirmou seu carinho por nosso País. Ele não consegue imaginar o Brasil como um país, o que vem a sua mente são pessoas, doces, seu avô, que era de Belém, as cocadas de sua tia. É a visão de um autor que vem realizando um profundo retrato do Portugal contemporâneo, questionando o conceito de nação.

Os Cus de Judas, livro de 1979 que compõe a primeira trilogia do autor (os outros livros são Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno), a que ele considera de aprendizagem, aborda os efeitos da guerra. A guerra em questão é a da libertação de Angola e seu resultado na figura de um médico enviado para o combate. Narrado em primeira pessoa, o médico passa uma madrugada até o amanhecer com uma mulher, começando em um bar e depois em sua casa. Nesse período ele conta sua história, entremeada com reflexões. O tempo é demarcado pela simulação de diálogo com a mulher, que não exprime uma palavra no romance.

Ainda que muito duro contra a guerra e contra essa noção de serviço à pátria, o texto possui momentos líricos, na medida do possível, como no trecho: “formávamos a cada jantar a anti-Última Ceia, o desejo comum de não morrer constituía, percebe, a única fraternidade possível.” O narrador sofre da falta de afeto que o atinge, ou, como ele prefere descrever, “esta angustiada sede de ternura que repele o afecto”. É a impossibilidade do amor e da readaptação que o aflige. Ele nasceu em um país “estreito e velho” e foi mandado para os “horizontes sem limites” das planícies de Luanda para cumprir o peso da tradição militar de sua família, requisito para se tornar um homem. O ressentimento a essa tradição é marcado ao longo do livro, e são poucos os momentos de ternura, principalmente de sua infância e de suas filhas.

É na descrição do cotidiano que sentimos o descaso do governo português e a dureza de se estar na guerra; nos relatos dos feridos vemos a falta de sentido no combate. É esse desconforto, essa dureza que faz com que os soldados descarreguem sua tensão no momento do combate. Algo conveniente.

Após vivenciar esses horrores, ele também vê a falta de sentido no cotidiano de sua cidade: “de chinelos, na cozinha, você prepara um café forte como um electro-choque que a projete para fora de seu invólucro de sono na direcção do emprego.” As pessoas seguem a vida apáticas enquanto os soldados estão “defendendo” a pátria. A falta do valor dos enviados fica mais evidente, “porque uma camioneta era mais necessária e mais cara do que um homem um filho faz-se em cinco minutos e de graça não é verdade uma viatura demora semanas ou meses a atarraxar parafusos.”

Há quem prefira as alegorias e o onírico de Saramago, há quem prefira a crueza do mundo e os profundos mergulhos na psique humana que Lobo Antunes proporciona. Depois de passar pelos Cus de Judas, percebe-se que a vida segue e um profundo desprezo, uma falta de sensibilidade, atinge aqueles que entraram forçados nessa guerra. Assim como aqueles que nem pisaram naquela terra vermelha.


por Denis Araki
13.07.2009

13/07/2009

Entrevista para Saraiva Conteúdo: «Se você quer mesmo escrever, tem que escrever para ser o melhor»


Site Saraiva Conteúdo
entrevista exclusiva por Ramon Mello e Bruno Dorigatti
Julho de 2009




«O escritor português António Lobo Antunes, vencedor do prêmio Camões em 2007, fala sobre o processo de escrever e seu mais recente livro, "O meu nome é Legião". Saiba mais em http://www.saraivaconteudo.com.br/Artigo.aspx?id=66»

12/07/2009

Entrevista à Revista Época: «João Ubaldo anda um pouco preguiçoso»


Época
entrevista de Luís Antônio Giron
10 de Julho de 2009


«João Ubaldo anda um pouco preguiçoso»

O escritor português António Lobo Antunes defende a literatura como um trabalho árduo e, por isso, critica o brasileiro, que classifica como um grande autor

Na noite do sábado, 4 de julho, o público da Festa Literária Internacional de Paraty levantou-se para aplaudir a fala do escritor português António Lobo Antunes. Com os olhos cheios de lágrimas, Lobo Antunes agradeceu. Em seguida, formaram-se filas para que ele autografasse os dois livros que está lancando no Brasil: O meu nome é legião (2008) e Explicação dos pássaros (1981). Na semana passada, no Rio de Janeiro, ele distribuiu mais autógrafos e usufruiu da popularidade. Sua vinda ao país depois de 25 anos é a consagração daquele que muitos especialistas consideram o maior escritor da língua portuguesa em atividade. Tudo isso não parece surpreender a esse ex-médico de 66 anos que publicou seu primeiro livo aos 36. Rival de seu conterrâneo José Saramago, ele tem sido cogitado para o prêmio Nobel de Literatura, prêmio dado a Saramago em 1998. Mas diz não se importar com o assunto. Afinal, ele tem uma tarefa um tanto difícil para cumprir: colocar o mundo inteiro em seus livros, e mudar o estatuto do romance. Nesta entrevista, o autor inquieto e falso mal-humorado (e parecido com o ator inglês Anthony Hopkins) revela os segredos de sua arte ambiciosa e que empolga pela distância que mantém da banalidade que assola as literaturas lusófonas.

Por que o senhor não voltou mais ao Brasil desde 1983?
Porque não penso no Brasil como um país. O Brasil está nas lembrancas de minha família, nos doces, nas cocadas da minha avó Leopoldina e das minhas tias. Eu sempre tive o Brasil dentro de mim. Meus dois nomes são brasileiros. Os Lobos, fiquei sabendo numa viagem recente a Israel, eram cristãos-novos. Eles chegaram ao Brasil no século XVII. Os Antunes se estabeleceram no Brasil no século XIX. Foi meu avô Antunes quem foi explorar os seringais na Amazônia, e a família se radicou em Belém do Pará. Com a decadência dos seringais por causa da borracha de Cingapura, minha família se dispersou. Alguns foram morar no Rio, outros em Portugal. Tenho muitos primos no Rio de Janeiro. Estar aqui não é voltar, é como se eu estivesse sempre em casa. Amo o cheiro do Brasil. Ele é doce.

O assunto é poético. Mas o senhor declarou o seguinte sobre não voltar para cá: "O Brasil não tem sido minha prioridade esses anos todos. Deixei o país para o meu antípoda". Leia-se: José Saramago. Agora que seu antípoda anunciou que abandonou as letras, o senhor sente um peso de responsabilidade por ser considerado o maior escritor da língua portuguesa em atividade?
Eu declarei isso? Não sinto nada disso. Não deixei de publicar minhas coisas e ser lido no Brasil, apesar das longas ditaduras que vivemos aqui e em Portugal, ditaduras que me impediam de publicar meus livros. Quando eu não permiti que meus livros fossem publicados no Brasil, achava que não era importante porque o Brasil não é um país, é mais do que isso. Meu modo de escrever é fundado nos autores brasileiros e na minha origem. Quando ganhei o Prêmio Camões, fizeram-me crer que eu era um autor brasileiro, pelo vocabulário, o uso abundante dos gerúndios. Sinto-me um escritor brasileiro. Quem sabe eu acabe vivendo no Brasil? Tenho pensado no assunto.

Como foi a sua formação em literatura brasileira?
Li os brasileiros desde muito pequeno. Na biblioteca de meu avô António, o paraense, só havia autores brasileiros. De modo que os primeiros livros que li foram os romances e contos de Machado de Assis, Aluísio Azevedo, José de Alencar, Raul Pompeia... Minha base foram os ficcionistas do século XIX. Em seguida fui aos poetas: Jorge de Lima (havia em casa uma edicão dos poemas negros dele), Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e o maior poeta da língua portuguesa, João Cabral de Melo Neto. Os poetas me influenciaram mais que os prosadores.

E por que o senhor escolheu a prosa?
Talvez por incapacidade de ir tão alto quanto os poetas. Minha prosa é contaminada pela poesia. Não faço romances, e sim livros, e muitos deles eu chamo de poesia, como o meu último livro, O Arquipélago da Insônia, lançado em Portugal no ano passado. Pretendo publicá-lo no Brasil com meu novo livro, o poema Que cavalo são aqueles que fazem sombras no mar? Minha intenção é lançar este último antes no Brasil. E é um poema. Mas não sou poeta.

Quais são seus mestres literários?
Eu poderia dizer que é [James] Joyce e brilharia. Mas, cá entre nós, Joyce é um escritor menor porque parecia usar de seu virtuosismo narrativo para se exibir. Era como se dissesse: "olha só que passagem brilhante, fui eu que fiz!" É como [Vladimir] Nabokov, um exibicionista. Eu admiro a proeza técnica, mas me irrita a proeza pela proeza. Joyce e Nabokov não seguiram o que Tolstói pregava sobre se colocar a serviço da eficácia. Eles trocaram a eficácia pelo narcisismo. Recorro sempre aos poetas latinos: Horácio, Virgílio e Ovídio. Esse trio é uma fonte de inspiracão e aprendizagem. O livro é uma estátua enterrada no jardim de Horácio. E Horácio dizia que o escritor precisava de dez horas por dia para trabalhar: duas para escrever o texto e oito para cortar os excessos. João Cabral aconselhava os escritores a cortarem na carne do texto e se restringirem ao osso. Advérbios e adjetivos são gorduras. Na poesia, cada palavra tem um peso específico. Talvez seja por isso que os poetas são os maiores tradutores. Eu adoro a tradução de Antonio Houaiss do Ulysses [de James Joyce]. É uma tradução poética genial e não muito valorizada.

É verdade que o senhor teve padrinhos literários brasileiros?
Sim. Foi o Marcio Souza, escritor amazonense, quem levou meu primeiro livro, Memória de Elefante, ainda em 1979, para seu agente nos Estados Unidos. Até então, eu era recusado pelas editoras. Só havia conseguido publicar um livro por uma pequena casa editorial - e ainda assim o editor disse que não gostava do sobrenome Antunes, que lhe parecia "nome de merceeiro". Marcio levou o livro para Nova York e é cruel perceber como lá é o centro do mundo. O livro foi publicado e obteve boas críticas nos jornais americanos. Minha sorte maior foram as resenhas feitas por dois inimigos que vêm a ser os maiores crtíticos americanos: George Steiner e Harold Bloom. Um disse que eu era excelente, outro que eu era um gênio... Dali para diante tudo ficou mais fácil, e os editores que me recusaram passaram a correr atrás de mim.

E sua amizade com Jorge Amado?
Jorge foi meu grande padrinho literário, Era um homem sem inveja, que tinha a rara virtude de divulgar e elogiar aos quatro ventos os seus amigos. Foi o meu caso. Foi ele que me apresentou a outro amigo brasileiro, João Ubaldo Ribeiro, grande autor, mas que infelizmente anda um pouco preguiçoso. Jorge Amado é um escritor maior que sua obra. Infelizmente a obra está ultrapassada, embora tenha sido importante como instrumento de resistência e crítica nos anos de ditadura em Portugal. Ele sofreu muito também com a crítica, que preferia Graciliano Ramos.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa pode facilitar a divulgação de obras entre os países lusófonos?
Não, é um mero acordo que atende a interesses políticos. Não vejo qual a vantagem de unificar o português. Temos diversos tipos de português. O da África é riquíssimo e só se beneficiou de suas particularidades. Veja os poetas de Angola ou o José Craveirinha de Moçambique. Cada um que escreva a seu jeito, e será compreendido. A língua é o único patrimônio que nossos países possuem. Para que empobrecê-la com regras ortográficas?

O senhor gosta da literatura contemporânea?
Estou pasmo com as besteiras que publicam por aí. Mesmo em Portugal hoje é moda publicar mistérios em torno da religião e outros enigmas. E há a literatura feminina que trata de assuntos idiotas. Fico pasmo como esses escritores não sabem o que é escrever. São rarísismos os bons livros hoje em dia. Os autores novos já querem se apresentar como produtos vendáveis, não como autores de fato. Mas não demora aparecerem os grandes autores. É questão de tempo.

O senhor acha que a crítica ajuda na descoberta de autores importantes?
Não leio os críticos. O instrumento principal deles é o adjetivo. Ninguém é tão cruelmente crítico como você mesmo. Eu desenvolvi minha própria técnica lançando um olhar severo sobre o que eu escrevia.

Onde o senhor busca inspiração?
Essa história de inspiração pode acontecer nas coisas mais improváveis. Picasso dizia que a inspiração ia embora quando ele comecava a trabalhar! Posso ter uma ideia lendo o Pato Donald, Tarzã, Sandokan. Eu li Monteiro Lobato na infância. É algo incontrolável. O que importa é querer superar os modelos, querer fazer melhor que eles.

Como o senhor escreve?
Preciso de pelo menos quatro horas diárias para escrever, a caneta. Nesse período não posso ser interrompido. Escrevo sem pensar. Antes eu montava os projetos de livros com personagens e um resumo de cada capítulo. Hoje não planejo nada, parto de nada. É como se me deixasse levar por uma mão misteriosa. Gosto do estado crepuscular, entre o sonho e a vigília, em que você não sabe exatamente onde está - e as ideias surgem, vêm à tona. É por isso que, quando interrompo o trabalho, gosto de deixar a frase ao meio, para poder retomá-la no dia seguinte. É mais fácil do que ter diante de si uma frase, um capítulo acabado - e daí ter aquela paralisia da página em branco. Adoro escrever quando estou cansado. É no cansaço que as boas ideias aparecem.

Em O meu nome é legião, o senhor usa uma linguagem abrupta e uma situação-limite: um grupo de jovens pobres que sai pela noite de Lisboa praticando crimes. É um livro diferente dos seus anteriores, mais autobiográficos ou ligados às guerras coloniais, não? A violência está mais presente.
Usar uma situação-limite torna o trabalho do escritor mais fácil, porque ele não precisa perder tempo com detalhes. A situação-limite fornece um campo de imantação na história. Gosto disso. Meu livros têm conteúdo de vivência pessoal e todo livro é o resultado da vivência, não um retrato dela. O meu nome é legião é uma história que já vinha sendo gestada nos outros livros, cada obra minha contém o germe da outra. A história desses meninos pobres, todos negros, que são obrigados a viver da violência, se repete no mundo inteiro, em Lisboa ou Rio de Janeiro. O que quis mostrar é como eles são famintos de ternura. Ao praticar toda aquela barbárie, eles estão mendigando carinho.

Como o senhor define sua obra?
Eu não entrei na literatura para ser um escritor qualquer. Quero ser maior que Tolstói e Joyce - e acho que todo escritor tem de pensar assim, senão ele não produz nada. Ele tem de pensar em coisas grandes. Comecei a escrever porque queria revolucionar o romance, subverter a literatura, transformá-la em algo que ainda não existia, ofuscar os antepassados. É assim o meu projeto. Quero colocar tudo num livro, o mundo inteiro, minha vida inteira. Quero praticar a obra de arte total que imaginava Richard Wagner. Escrevo livros impossíveis. Se me ocorre uma história que me sinto incapaz de formular, é aí que começo um livro. Quero escrever sobre o que não entendo, sobre o que não tenho competência. É assim que vou contornando os problemas, e chamam isso de estilo experimental. Na verdade, é uma atitude de enfrentamento. E de liberdade. É por isso que não creio na profundidade. O que existem são infinitas superfícies superpostas. Quando você se aprofunda demais em um assunto, acaba saindo pelo outro lado, de mãos abanando. Escrever é um ato impossível porque tudo o que interessa vem antes das palavras, como as intenções, os desejos, a loucura. Os poetas são maiores porque conseguem transferir essas coisas inomináveis para as palavras. Mas escrever também é um ofício, como o de médico ou de carpinteiro. É preciso conhecer a técnica, para abandoná-la. Todo grande livro é uma reflexão profunda sobre a arte de escrever. Cada livro meu tem de ser um mundo.
 

10.07.2009

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...