06/07/2009
05/07/2009
Na FLIP 2009: apanhados do encontro por Ana Cristina Melo
Festa Literária Internacional de Paraty 2009
Blogue Canastra de contos por Ana Cristina Melo
04.07.2009
Mesa de António Lobo Antunes
António Lobo Antunes não leu nenhum trecho de sua obra, pois como ele mesmo disse, não sabia onde havia colocado o papel. Mas ao final, quando ainda faltavam cinco minutos, ele revelou: "foi melhor assim". E eu concordo. Podemos ler seus livros a hora em que quisermos, mas ouvi-lo falar, são raras as oportunidades.
A mesa começou com a apresentação de Humberto Werneck. Mas não foi uma apresentação nos moldes tradicionais. Ele apresentou António contando uma pequena historinha do menino de sete anos, que na véspera de Natal, dentro de um táxi, pensava no que se tornaria, e decidia ser escritor. E ao chegar em casa, se pôs a começar a trabalhar no seu ofício. E que aos treze anos, já havia colocado num caderno o plano geral de sua obra completa, com os títulos inclusive.
António ia escrevendo e queimando no quintal da casa em Benfica, no bairro português onde viveu. Ele queria fazer o curso de Letras, mas o pai o "aconselhou" a fazer alguma outra coisa, e assim ele se tornou médico, e depois psiquiatra.
Sempre escreveu em folhas de papel pequenas, e em qualquer lugar. Mesmo quando se viu envolvido numa experiência dramática, a guerra de Angola, ele encontrava uma maneira de escrever. Até na Flip, ele encontra tempo para escrever uma coisa ou outra.
Mas apesar de toda essa paixão, ele só estreou aos 36 anos, com o romance Memórias de elefante. Motivo esse tardio que ele explica no decorrer da mesa.
Disse Humberto que ninguém tem razão para duvidar que ele é um dos maiores escritores do nosso tempo.
Assim acabou a apresentação de Humberto e, a partir daí, com muito bom humor, António Lobo Antunes foi falando sobre sua família, sua relação com o Brasil, sua estreia, seu processo de trabalho, seu amor pela literatura.
Transcrevo, na ordem, tudo o que foi possível eu captar do que ele disse.
Espero ter conseguido captar o melhor dessa mesa maravilhosa!
Sobre a leitura do trecho de um livro seu...
Lobo: "Eu penso que eu devia ler um trecho do livro, mas não tenho aqui o papel".
"Eu queria dizer que para mim a amizade é igual ao amor. A gente encontra um homem e fica amigo desde infância."
"Foi um encontro maravilhoso que tive com Humberto, com seu humor, sua cultura..."
Sobre sua família e sua relação com o Brasil...
Lobo: "Para mim o Brasil não é um país... são os cheiros, os sabores, os doces da minha avó, uma maneira de viver e de falar, e, sobretudo, é o meu avô que está aqui em toda parte. Uma das pessoas que eu mais gostei. É a terra dele, é a terra da minha família, de onde vêm os meus nomes: Lobo, Antunes."
"Os Lobos saíram para o Brasil no século 17/18; os Antunes mais tarde, no princípio do século 19."
"Ainda tenho muitos parentes no Rio de Janeiro".
"Meu avô lia pouco. Quando eu tinha 12 anos, um dia me mandou chamar ao escritório. Mandou me sentar à frente dele. 'Ouvi dizer que você escreve versos... Você é veado?' Eu não sabia o que era veado. E disse logo: 'Não, não, não.' Fui tirar minha informação, e o que me disseram me tornou mais confuso."
"Meu pai era muito severo. Era médico. Meu pai não queria ter filhos, queria ter campeões de karatê. Se nós apanhávamos, a chegar a casa, apanhava dele. 'Filho meu não devia apanhar', dizia".
"Sentávamos na beira da cama, e lia poesia para nós. O primeiro poeta que leu para nós foi Manuel Bandeira."
"Pouco antes de ele morrer, um dos meus irmãos perguntou, o que gostaria de deixar para seus filhos: 'O amor das coisas belas.'"
"Ele era um escritor frustrado."
"Embora fosse muito severo, nunca me contrariou quando descobriu que eu escrevia."
"Eu também pensava que meu pai não tinha lido meus livros. Mas depois que morreu, encontrei meus livros todos anotados. E deixou uma carta de 600 páginas. Deve ter levado uns 2 anos escrevendo".
Humberto pergunta: Por que você demorou tanto tempo para voltar ao Brasil?
Lobo: "Quando você diz a palavra Brasil, para mim não é a palavra que tem significado... Os cheiros, as coisas estão sempre comigo. Recordações doces, ao mesmo tempo tristes."
"Quando meu avô morreu, minha avó deu tudo dele. Fiquei triste, porque eu tinha a certeza que ele ia voltar. Eu tenho a certeza que ele está aqui connosco."
Humberto: Você segue a literatura brasileira?
Lobo: "Meu pai comprava muito poesia brasileira. Para mim o grande poeta do século XX é Cabral."
Humberto: Você acompanha os prosadores?
Lobo: "Eu tenho uma relação mais difícil com a prosa, pois pego e tenho logo vontade de corrigir."
"Você aprende muito mais a escrever lendo poesia. Na poesia cada palavra tem um peso e uma carga."
Humberto: Você não é um grande admirador de Joyce?
"Eu admiro a proeza técnica"
"A gente leva muito tempo para entender que o livro inteiro tem que ser uma grande metáfora, e não o livro ser esmaltado, cheio de pequenas metáforas."
Humberto: Você fez 21 romances em 30 anos? Você escreveu bastante rápido?
Lobo: "Eu levei muito tempo sendo rejeitado por muitas editoras. Ninguém queria os livros. Em 77, uma pequena editora aceitou."
"Eu fiquei famoso assim. Então, passou em Lisboa um escritor, Marcio Souza, de Manaus. Deram para ele esse livro. Deixou num agente americano em Nova Iorque, era agente de João Ubaldo, Jorge Amado, Marcio Souza, Garcia Lorca, Drummond (...), e ele entrou em contato comigo. Eu achei que era brincadeira e não respondi. Depois ele mandou uma carta e eu achei chique ter um agente em Nova Iorque. (...) Aconteceu a mesma coisa, ele tentava colocar os livros nas editoras e ninguém queria. Ele dizia 'você vai conquistar o mundo', e eu não conquistava nada. Fomos ter com um editor de Nova Iorque e ele disse 'eu não li o seu livro mas vou publicá-lo'.
(...)
Tivemos críticas espantosas. Depois todos aqueles que não tinham querido, começaram a me procurar."
"Eu tinha escrito Memórias de Elefante, um amigo levou e voltou dizendo que leram ele e outro amigo. (...) Ele achava que devia tirar a primeira parte. O amigo achava que devia tirar a segunda parte. Foi a primeira critica literária que eu recebi."
"Eu tinha conhecido Jorge Amado. (...) Jorge levou tanta pancada da crítica daqui. O Jorge era muito melhor do que os livros dele. Era um homem de muita coragem, de muita capacidade de amar."
"João Ubaldo, em Lisboa, passava fazendo feijoada às 2 da manha, de calção e chinelo. (...) Um dia deu uma entrevista, que perguntaram: 'João, você já não escreve?'. E ele respondeu: 'Escrevo, meu pseudônimo é António Lobo Antunes'".
"Como ninguém queria um livro, eu ia escrevendo os outros".
Humberto: Você planeja um livro?
Lobo: "Eu planejava por insegurança. Quando começava um livro, já tinha os capítulos todos feitos."
"Eu ainda não tinha compreendido que um livro é um organismo vivo, que tem o seu temperamento, seu caráter."
"Quando um livro é bom, ele se faz sozinho. A única coisa que você tem que fazer é tornar a sua mão feliz. Se a sua mão está feliz, o livro sai."
"Eu tenho muito medo de escrever. Só vale a pena escrever se for para ser o melhor. "
"Aos 14 anos você descobre que é muito diferente escrever e escrever bem. Aos 18, você descobre que é muito diferente escrever bem e escrever obra-prima".
"Escrever é sobretudo corrigir e reescrever."
"Você tem que ter uma atitude muito humilde em relação ao material."
"Nós não temos controle sobre o nosso trabalho e temos que ter uma atitude tão humilde."
"Cada sucesso não é mais que um fracasso adiado".
"Quanto à prosa, problemas oficinais e técnicos muito grandes, se você não for fiel a você mesmo, você fica sujeito a moda."
"Eu só tenho uma regra antes de começar a escrever: digo que vou escrever um livro que não sou capaz de escrever. (...) Tem que se pôr desafios cada vez mais intensos"
Humberto: Você quer mudar a arte do romance?
Lobo: "Claro que sim. Qualquer grande escritor muda a arte. Eu gostava de escrever um romance... é um quadro... As Meninas dos Velásquez."
"Você não trabalha com materiais novos, você trabalha com pequenas coisas que as pessoas não dão atenção."
"Todo aspirante a escritor deveria ter essa quadra escrita de um poema de Cabral:
'Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca'"
"Há palavras que existem para não serem usadas: advérbios de modo, adjetivo."
"Tirar tudo aquilo que não é faca, como diz Cabral."
Humberto: Fazer um romance não te ajuda a fazer os demais?
Lobo: "Eu nunca chamo de romance, eu chamo de livros. A distinção entre os gêneros normalmente é artificial."
"Escrever um trabalho é impossível, que você está trabalhando com emoções (...) quando você lê os poetas, você consegue transformar isso em palavras"
"Escrever é um ofício."
"Dica: nunca deixar uma frase com ponto final para o dia seguinte."
"Não terminar um capítulo e deixar o novo para o dia seguinte. Começar um capítulo é muito lento"
"Uma vez perguntaram a Picasso sobre inspiração. Ele disse: 'Ai, se ela viesse quando eu estou trabalhando'"
"Percebi que consigo aquele estado entre o dormir e o acordar, através do cansaço. (...) Quando trabalho, as duas primeiras horas são perdidas, os mecanismos lógicos ainda estão funcionando. (...) Depois, como você está cansado, as coisas começam a fluir melhor, a sair de regiões suas que voce não conhece. (...) Eu demorei muito tempo para entender isso."
"Quem estuda o problema a fundo, sai pelo outro lado."
"Em vez de profundidade, há uma infinidade de superfícies sobrepostas. A gente tem que desmistificar a idéia do escritor. (...) Toda entrevista é um exercício de vaidade. É o livro que tem que ser inteligente, não o autor."
"Eu lia Nabokov e ele estava sempre 'olha como eu sou inteligente'”
"Se você quer ser escritor, devia ver 10 minutos de Mané Garrincha jogar a bola. Aquilo sai da alma."
"Para escrever você tem que ter dentro de si Didi e Garrincha. Didi, a cabeça; garrincha, a mão"
"É a mão que escreve, mas a cabeça tem que estar a vigiar por cima."
"O livro é como uma estátua enterrada no jardim, você tem que tirar a estátua, e depois ir limpando".
"E é através desse ofício que você vai despertar as emoções."
"Quando você está escrevendo bem, dá a impressão que está debaixo de um ditado."
"Dá a impressão que é a mão de Deus que está na sua mão, a mão de um anjo que está ditando."
"Uma vez eu estava escrevendo, e as lágrimas caindo pela cara, e eu não sou um homem de muitas lágrimas. (...) Mas isso são momentos muito raros, nunca mais voltou a acontecer".
Humberto: Por que você está anunciando que vai parar de escrever?
Lobo: "Há alturas que você fica desesperado. Eu não vou ser mais capaz. O livro não presta. E você pensa 'para que escrever, vou deixar de escrever'. E a sua alegria é o seu tormento. Só vale a pena quando nos é inconcebível a vida sem isso. Porque ler nos dá muito mais prazer."
"Eu penso que era o leitor que devia estar na capa do livro, pois é o leitor que escreve o livro, não o escritor."
"O livro bom é um livro que foi escrito só para mim. (...) A gente se apaixona pelo autor através do livro."
Humberto: Você disse em algum momento que precisa arrendondar a sua obra e depois calar?
Lobo: "Você andou lendo tudo."
"Eu acho que a gente quando começa é como se os seus livros fossem a almofada que está fazendo para apoiar a cabeça quando morrer"
"Ficamos sempre aquém daquilo que criamos. É a grande frustração de quem trabalha com as palavras. Sempre ficamos nos questionando. (...) Aí e melhor escrever outro livro."
"Um dia compreendi que o livro está acabado quando o livro não quer mais. (...) Você sente que o livro está enjoado de você. O melhor é entregar ao editor."
Humberto: Seus livros estão cada dia menores?
Lobo: "Eu como leitor gosto de livros grandes. (...) O livro tem as páginas que eu quero"
"Os editores às vezes assustam-se com livros muito grandes. (...) Há as leis do comércio."
"Eu gosto de mudar."
"Como eu costumo dizer: a experiência é como os flutuadores de avião. Não servem de nada quando você está no ar."
"Quando eu comecei a ler seu livro, fiz uma prece, pois gostei muito de ti, 'Deus queira que não seja uma merda.'"
"Quando vou ler um livro de um amigo, eu não leio logo. Começo a rondar o livro como um cão, cheiro, farejo, pois tenho medo. Quando é uma pessoa que eu gosto, tenho medo.
Quando é uma pessoa que não gosto, eu adoro."
"Eu tenho um prazer muito grande de ler os livros do Garcia Márquez, mas não gostava de ter escrito."
Humberto: O que você gostaria de ter escrito?
"Descobrir um livro bom é uma coisa extraordinária. (...) E todos os livros bons gostaria de ter escrito."
"Graças a Deus tenho descoberto muitos livros bons."
redigido por Ana Cristina Melo
4 de Julho de 2009
Paraty: entrevista a rádio CBN
CBN - Globo Rádio
03.07.2009
Paraty, 3 de Julho: entrevista com António Lobo Antunes
01/07/2009
NetSaber: artigo sobre Exortação Aos Crocodilos
A "Exortação aos Crocodilos" de António Lobo Antunes é um dos mais expoentes trabalhos na carreira deste escritor. O tipo de narração fragmentada é a marca distinta de um livro nada fácil de absorver, e, que valeu a António Lobo Antunes a nomeação para Prémio Nobel da Literatura.
Atordoante, pelas múltiplas vozes narrativas, cria um texto delirante mas ao mesmo tempo belo, com uma assombrosa autenticidade estilística. A narração é feita exclusivamente por quatro mulheres que vivem engajadas no mundo de antigos polícias da PIDE que torturam comunistas e organizam atentados de direita movidos por um saudosismo do regime de Salazar. Mimi é surda e só consegue ouvir o som das coisas e não das pessoas, despojada de interesse é escolhida por um milionário para casar. Celina vê-se obrigada a casar ainda cedo com um homem mais velho, como vingança torna-se amante de um milionário (justamente o marido de Mimi). Fátima é sobrinha de um bispo conspirador. Simone, gorda e complexada, encontra alívio para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi.
Este trabalho, de Lobo Antunes, possui uma leitura ofegante, a qual nos permite o ingresso na estrutura psíquica das quatro mulheres. Poderíamos dizer, que inspira-se em cada signo o ar irrespirável daquele mundo execrável dos homens, que as mulheres habitam com uma sofreguidão pautada por cada pensamento, cada impulso, cada emoção ou uma mescla organizada e não gratuita de todas essas pulsões, ao mesmo tempo que consegue construir esses "imaginários femininos" com uma ternura e sensibilidade impares. Um estilo possuído por uma mestria soberba e que vicia. Um bom exemplo da literatura contemporânea portuguesa que revela domínio da linguagem e na construção romanesca.
A formação de psiquiatra de António Lobo Antunes tem papel preponderante nesta sua obra, que é um lampejo esquizofrénico, um surto de êxtase resultado de uma técnica espantosa. No final, ficamos com a impressão que de o livro não será igual numa segunda leitura e uma segunda leitura recomenda-se.
artigo citado do site
não datado
07/06/2009
Excerto de entrevista à Globo - 5 de Junho
O Globo - excerto de entrevista on-line
texto de Suzana Velasco
05 de Junho de 2009
Grande atracção da Flip, António Lobo Antunes diz que as histórias não importam, só as palavras
António Lobo Antunes atende o telefone e parece confirmar a fama de avesso a entrevistas: "Podemos falar rapidamente". Ele oferece a mesma resistência que seus livros oferecem ao leitor, levando este aos poucos para dentro deles. Ao fim de quase uma hora, já tinha falado não só do ofício de escrever como da família protetora, da formação em psiquiatria, de Portugal e do Brasil.
Na semana que vem, a Alfaguara lança dois livros do escritor de 66 anos, um dos maiores da literatura portuguesa, vencedor de prêmios como Camões e Juan Rulfo. "Explicação dos pássaros", de 1981, ele ainda considera um romance, mas, "O meu nome é Legião", de 2007, diz que não sabe bem o que é. O intervalo de 26 anos mostra um percurso de interesse pela linguagem, mais do que por temas específicos, mostrando que Portugal - tão presente em seus três primeiros livros, em que aborda a guerra em Angola, da qual participou, entre 1970 e 1973 - é mais e mais um "território ficcional".
Maior nome de literatura da sétima Festa Literária Internacional de Paraty, o escritor falará no horário nobre, às 19h de sábado, dia 4 de julho, em conversa com Humberto Werneck. Resistente mais uma vez, ele diz que só vai falar se lhe apetecer, que fala pouco. Que seja tão pouco quanto nesta entrevista.
No Brasil, serão lançados em breve dois livros seus: "Explicação dos pássaros", de 1981, e "O meu nome é Legião", de 2007. Sua relação com a literatura mudou muito de lá para cá? O que eu acho que deve ser um livro foi mudando com o tempo. Antes estava interessado na história, agora a história não me interessa absolutamente nada. Não vejo os personagens fisicamente, não imagino como eles são. Meus livros são vozes, sobretudo os últimos, são muito simbólicos, não tendem para um fim definido. Não me interessava mais fazer romances, mas pôr a vida inteira entre as capas de um livro.
Em "Explicação dos pássaros" já há um afastamento dos temas autobiográficos dos primeiros romances, que tratavam da experiência na guerra. Foi importante se distanciar da sua história para escrever?
Autobiografia é inevitável. Você não inventa nada, vai trabalhando com memórias, acaba a parecer um mendigo que anda procurando restos no lixo. Uma grande parte não me é consciente. Um livro não se faz com ideias, se faz com palavras. Então fico sentado a esperar que as palavras venham. Quando comecei, fazia planos muito detalhados. Depois compreendi que um livro é um organismo vivo, tem sua própria fisionomia, seu próprio temperamento. Você não faz mais do que seguir o que o livro quer. O princípio é muito difícil, a distância tão grande entre a intensidade das emoções e o que está no papel... Todo o trabalho é aproximar essas duas coisas. E isso só se consegue corrigindo e corrigindo e corrigindo.
A impotência diante da vida aparece em seus romances, e também em "O meu nome é Legião".
Aquilo era quase um livro sobre como escrever um livro. O policial era o escritor que estava lutando com o material, e o material eram os meninos da rua, que têm uma sede imensa de ternura, mas que, por razões várias, culturais, sociais, a única maneira que têm de exprimir suas emoções é através da violência. Mas eu não acho que eles sejam violentos, acho que eles estão cheios de ternura. Eu gostei deles.
O livro trata da criminalidade entre jovens descendentes de africanos na periferia de Lisboa. A História de Portugal volta com força, mas é um Portugal contemporâneo, lidando com o racismo contra os imigrantes. O senhor vê isso como um problema da Europa hoje?
Não pensei nisso porque não sei o que é Europa. Você, para escrever, tem que criar um território ficcional. Chicago do Hemingway não existe, Minas do Drummond não existe. Por comodidade, pode se chamar Portugal ou Lisboa, mas isso para mim não é relevante. Nunca tive sentimento de nacionalidade, porque sou mestiço. Fui educado em Portugal à maneira do Norte do Brasil (o avô nasceu no Pará). Além disso, pensava que toda a gente tinha olhos azuis (risos). Pensava que só as empregadas tinham olhos castanhos. Foi uma educação um pouco sui generis. Mas sentimento de pertença a um país, a um continente, isso eu nunca tive. Quando era menino, as canções que meu avô cantava eram as da Guerra do Paraguai. Eu não sei o que é Europa, tampouco sei o que é Portugal. Vivo em Lisboa porque gosto da luz, e porque no Rio é impossível escrever, você fica olhando o tempo inteiro.
O senhor começou a escrever quando era menino?
Minha mãe tinha me ensinado a ler. Com 4 anos, tive uma tuberculose e tinha que ficar numa cama. Comecei a escrever, e fazia sentido. Por volta dos 14 anos, você começa a entender que há uma diferença entre escrever bem e escrever mal, então começa a angústia. Depois, por volta dos 17, 18 anos, você entende que há uma diferença ainda maior entre escrever bem e obra-prima, e aí a angústia é total.
E o objetivo é sempre escrever obras-primas?
Se você não escreve para ser o melhor, não vale a pena. Você tem que escrever contra os escritores de que gosta, tem que ser melhor que eles.
O senhor vem em julho para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Qual é a sua aproximação com a literatura brasileira?
Também não sei o que é Brasil. Acho que o que o Brasil deu de mais importante no século XX foram os poetas. Cabral (João Cabral de Melo Neto) é um dos mais altos poetas não só da literatura (em língua) portuguesa, mas de toda a literatura. Poetas como Drummond e outros que estão esquecidos, como Paulo Mendes Campos, Mario Quintana, Cassiano Ricardo.
excerto da entrevista a O Globo
05.06.2009
30/05/2009
Maria Celeste Pereira: opinião sobre O Arquipélago da Insónia
Finalmente respirei fundo e lá tomei alento para ler “O Arquipélago da insónia” de António Lobo Antunes que, há já uns tempos, aguardava a minha leitura.
Começo já por dizer que, embora não aprecie particularmente a imodéstia, a presunção conscientemente assumida do autor, não posso confundir essa sua característica com a sua qualidade como escritor.
Pois bem, devo dizer que gostei bastante do romance (se de romance se trata e não quero nem tenho condições para entrar nessa polémica. Nem tampouco acho que tenha qualquer importância. É uma mera questão formal).
Lobo Antunes centra-se numa personagem, um autista, e através de um discurso narrativo permanentemente fragmentado, sem atender a sequencialidades temporais ou semânticas, a relações de causa/efeito, misturando o real com a ilusão, o presente com o passado, colocando os vivos a dialogar com os já mortos, vai-nos desfiando a história de três gerações de uma família rural, provavelmente ribatejana, desde a sua ascensão (com o avô como o patrão prepotente e poderoso) até à sua queda total. O nada que o neto recebe.Este é o registo da maior parte do livro.
A parte final muda um pouco e é então aí que o autor coloca as outras personagens a transmitir a sua visão dos acontecimentos.É também quando tudo acaba por se encaixar e se abrir na nossa frente um exercício profundo de linguagem em que o enredo (pois subsiste uma história) serve apenas como pretexto para a recreação com as palavras que parecem ter vida própria e se escapam, irreverentes, às leis da linearidade.
Como se infere do que acabo de escrever não é um livro fácil. A intenção, no meu ponto de vista, também não é sê-lo. Por vezes é necessário reler trechos ou até capítulos para conseguirmos apanhar, sobretudo, a totalidade da magia das palavras bem como possíveis sentidos que nos escapem numa leitura mais desatenta.
Contudo, devo dizê-lo, é algo que se faz com imenso prazer. Aliás uma segunda leitura não está fora de questão.
Recomendo vivamente para quem tiver paciência para fazer da leitura um exercício de atenção.
por Maria Celeste Pereira
29.05.2009
26/04/2009
«Penso em fazer mais um livro e calar-me»
Folha de S. Paulo
excertos de entrevista de Fabricio Vieira
18 de Abril de 2009
«Penso em fazer mais um livro e calar-me», diz António Lobo Antunes
De Lisboa, falou com a Folha, por telefone. Leia trechos da entrevista:
Há quantos anos o sr. não visitava o país?
A última vez que estive no Brasil foi em 1983. Eu tento não viajar muito, tenho de escrever. Convidam você porque escreve, mas, se começa a aceitar os convites, não tem tempo para escrever. O Brasil é uma questão pessoal para mim, meu sangue vem todo daí. Meu avô nasceu em Belém do Pará. Agora retorno para participar da Flip, onde não sei o que me espera, e depois provavelmente passarei em São Paulo, mas isso dependerá dos planos da editora, que ainda não sei ao certo quais são.
Vir aqui ajuda a aproximar os leitores brasileiros de sua obra?
Não estou muito preocupado com a promoção da minha obra. Não sou caixeiro viajante, isso não me interessa. Quero ver os amigos que aí tenho, alguns familiares.
Muitos livros seus permanecem inéditos aqui. Por quê? Seu primeiro livro, "Memória de Elefante" (1979), ganhou uma edição nacional há apenas poucos anos...
Eu não deixava publicar esse primeiro livro por aí. Nesse caso, a culpa não é do Brasil, a culpa é minha porque era um primeiro livro, eu nunca o tinha relido e parecia-me estar muito confiante dos defeitos dele. Depois fui ler o livro e até gostei, mas é escrito por outra pessoa, minha ideia do que é um livro agora é muito diferente do que era naquele tempo.
E depois de 20 livros há medo de começar a se repetir?
Claro que tenho medo. Não sei se tenho ainda muito ou pouco a criar, mas estava a pensar em fazer apenas mais um livro e depois calar-me. Não há nada mais terrível do que ver a decadência de um bom escritor. Olha os últimos romances do Faulkner ou os últimos contos de Hemingway.
E o livro que terminou há pouco? Há previsão de publicação?
Esse novo livro em outubro deve estar a sair aqui em Portugal. No Brasil não sei, não depende de mim. Escrevi esse livro por causa do título, algo que não costuma ocorrer. Eu estava ouvindo modas, que são canções de camponeses. Era uma moda do século 19, de camponeses analfabetos que nunca viram o mar. E seus dois primeiros versos são: "Que cavalos são aqueles/que fazem sombra no mar?" E esses dois versos ficaram em mim, impressionaram-me mesmo, foram o clique que fez o livro começar a sair. Achei esses versos espantosos e viraram o título.
De que trata esse livro?
Não gosto de falar dos livros, não é possível falar deles. Se pudesse resumir um livro em cinco minutos, para que escrevê-lo? O que me interessa é que as páginas sejam espelhos em que a gente se veja, é meter a vida inteira entre as capas de um livro.
Acompanha o que tem sido feito atualmente na literatura?
Não conheço muito do que está sendo feito, mas não vejo na nossa língua grandes escritores atualmente.
Nem em Portugal?
Em Portugal tem eu (risos). Já chega, não? Agora falando sério, embora o que eu disse seja verdade (risos). No século 19, a gente tinha 30 gênios escrevendo ao mesmo tempo, em França, Alemanha, Rússia. Agora, se descobrir cinco grandes escritores no mundo inteiro já está muito bom. Não há, é dramático.
Muitos consideram os seus livros experimentais, difíceis...
Fico espantado em ouvir isso. Os livros para mim são tão claros! Não compreendo as pessoas que digam isso, penso que tem a ver com hábitos de leitura. Fazemos um trabalho completamente impossível que é o de tentar transformar em palavras coisas que são anteriores às palavras, pulsões, emoções. Difíceis eu não acho. Eu me lembro de aos 20 anos ver os filmes do Bergman e me chatearem pra burro. Agora me comovem até as lágrimas: era eu que não estava preparado para o Bergman.
excerto da entrevista a Folha de S. Paulo
citado daqui por indicação de Fabricio Vieira
18.04.2009
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