23/12/2008

Ana Cristina Leonardo: sobre O Arquipélago da Insónia


Cercados pelo Vento

O vigésimo livro de António Lobo Antunes tem como pano de fundo o Portugal rural.

De acordo com a famosa frase do ensaísta inglês Walter Pater, «toda a arte aspira continuamente à condição de música». Esta concepção da música como a «grande arte» parece ajustar-se cada vez mais à escrita de António Lobo Antunes. [...] O Arquipélago da Insónia, indiferente ao pretexto ficcional - ascensão e queda de uma família latifundiária alentejana (?) -, surge habitado por uma polifonia de espectros, soando como uma melodia riscada por frases e sons sincopados e crispados, agentes devoradores da própria partitura do texto, que, ainda assim, sobrevive.

No princípio, há uma casa: «De onde me virá a impressão que, na casa, apesar de igual, quase tudo lhe falta?» Depois vão saindo dela, em lenta procissão, as personagens (mortas ou vivas?, acabará por perguntar-se o leitor, que não pode evitar Pedro Páramo, de Juan Rulfo): um avô («comandando o mundo»), criadas submissas («- Chega cá»), dois irmãos, um deles autista («repara no meu irmão que não responde a nada interessado na música»), uma avó («a chávena da minha avó a tremelicar no pires»), um feitor («sob as nogueiras a lutar com os sapatos sem dar com as árvores sequer conforme lhe sucedeu pisar o padre que se sumia na terra»), um ajudante de feitor («Para alguma coisa há-de servir esse idiota»), um pai («e ninguém ao seu lado, você sozinho pai e todavia à procura, as mãos a segurarem o que julgava as mãos da minha mãe»), uma mãe («alguma vez a vi sem ser de costas para mim?»)... somando-se a estas outras tantas, fios frágeis de um emaranhado narrativo que, à maneira de um sonho, tanto escapa à temporalidade sequencial como às leis de causa e efeito. E, também por isto, trata-se de um livro do qual se gosta mais à segunda leitura.

Chegados aqui, teria de nos vir à cabeça O Som e a Fúria, de William Faulkner, escritor que António Lobo Antunes diz ler cada vez menos mas de cuja família literária não poderá fugir. E, precisamente sobre a tragédia da família Compsons, escreveu ele: «(...) possui a qualidade de ser um romance que, tal como a grande poesia, se relê no maravilhamento da descoberta: a todo o passo damos com pormenores que nos haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos.» Mas se, como n' O Som e a Fúria, também n' O Arquipélago da Insónia há uma família decadente e um «Idiota» a que se deseja dar voz, torna-se arriscado ir mais longe nas comparações. Neste, as vozes misturam-se (uma só, afinal?), o ritmo delirante é omnipresente, a alucinação é indistinta do real, e vivos e mortos trocam de papéis, esfumando-se, uns e outros, em fotografias antigas sem futuro. As palavras, naturalmente, atropelam-se, interrompem-se, rodopiando indiferentes às regras da identidade, da linearidade, indiferentes também à preguiça do leitor, esse leitor que já Machado de Assis interpelava ironicamente em Memórias Póstumas de Brás Cubas: «(...) tu amas a narrativa direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem.» Neste caso, claro, o estilo chega expurgado de realismo, mero pretexto imagético para um exercício radical de linguagem: onírica, exacta, cruel (a morte, o sexo e o crime manchamO Arquipélago da Insónia), nunca descarnada, à imagem da música, a mais racional e sensual das artes.

E por mais este livro, mesmo se distinto da condição mágica de «Iniji», se poderá dizer da busca literária de António Lobo Antunes o mesmo que Le Clézio disse dessa espécie de poema assinado por Henri Michaux (publicado n' As Magias de Herberto Helder): «As linguagens pesadas tropeçam nas suas consoantes, nas sílabas, como um cego tropeça nos móveis de um quarto desconhecido. Já não pretendemos falar todas as línguas. As palavras encontram-se além, sempre além, e é preciso apanhá-las depressa. As vogais que soam, ressoam. Talvez seja preciso abandonar tudo.»


por Ana Cristina Leonardo
Outubro 2008
Suplemento Actual do Expresso nº 1876

20/11/2008

Milu: opinião sobre Memória de Elefante


“Memória de Elefante” é o primeiro romance da autoria de António Lobo Antunes, uma obra autobiográfica se avaliada à luz de acontecimentos que tiveram lugar na vida do escritor, os quais constam da sua biografia. A principal personagem desta narrativa é o próprio narrador, médico psiquiatra que após a separação da sua mulher e filhas, mergulha num estado depressivo profundo, chafurdando incessantemente e sem piedade nos recônditos da sua consciência, arrancando à memória tristezas do passado, remoendo-as incansavelmente, numa espiral de tortura, espicaçando a alma até fazer sangue. Incapaz de resolver as suas angústias, vive o tormento de ter de si uma imagem distorcida, sente-se um homem acabado, melhor ainda, um merdoso de merda, julgando-se indigno da sua própria mulher. Provavelmente terá sido a sua instabilidade emocional, que o levou a afastar-se da família numa errante procura de si mesmo, encetando uma caminhada que o arrastaria ao fundo de um negro e solitário poço. Evoca, exaustivamente, recordações de um passado que teimam em permanecer vivas e dolorosas, marcado pelo abominável de uma guerra, luta por exorcizar as imagens que se lhe impuseram aos olhos de forma tão desumana. No meio deste turbilhão emocional, que descamba num mar de reflexões, sobressai a admirável mestria com que o médico perscruta os meandros da mente humana. A linguagem obtusa que aqui e ali pontua o discurso serve, tão-só, para derramar um mar de raiva contida, que deveria ter sido expulsa em seu devido tempo. Termino esta minha dissertação, confessando que, durante a leitura deste livro tive momentos em que me ri e, livro que me faça rir, é um livro abençoado!


por Milu
31.10.2008

08/11/2008

Tim James Booth: opinião sobre O Arquipélago da Insónia


«- Somos dois homens rapaz
a cerrar a tampa sobre mim e a afastar-se nas ervas para eu não acordar.»
- António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia

Ao pousar o livro sobre a secretária ainda tremo quando me lembro que este exemplar em particular me foi entregue em mãos pelo autor, assinado e dedicado, no primeira (talvez única) oportunidade que tive para o conhecer. Ainda me ressoam nos ouvidos as palavras curtas e, apesar disso, tão longas que trocamos, o sorriso inesperado, o elogio sussurrado, a minha voz a tremer, as minhas mãos a tremer, o livro a tremer quando lho estendi, o livro seguro quando me devolveu, uns poucos minutos que vão ficar para sempre na minha memória e umas palavras que vão para sempre ficar escritas no meu livro, pela mão do génio Lobo Antunes, quem sabe próximo Nobel da Literatura português, já que é eterno candidato. E um conselho, um conselho que guardarei para sempre na sua voz sumida e pensada, “Nunca empreste livros”, nunca os empresto caro doutor.

Isto para dizer que ler este livro não estava no meu plano de leitura, como disse anteriormente, primeiro queria aprofundar o início de carreira de Lobo Antunes, no entanto este Arquipélago pediu independência da minha jurisdição e em boa hora o fez. Não sou, certamente, o homem indicado para comentar a obra deste senhor se nem sequer um quarto daquilo que escreveu, e estou a falar apenas da ficção, fui ainda capaz de ler, por essa razão evitarei comparações, ainda que inevitáveis, com as obras que antecederam este romance. Podia bem começar por aí, contestar a eterna designação de romance que nada quer dizer e que dificilmente encaixa neste livro, mas que encaixa porque o livro não entra em mais lado nenhum. Mas fujo ao que interessa.

O Arquipélago da Insónia é a mais recente obra de António Lobo Antunes. É uma visão plural da história de três gerações de uma família disfuncional (como tantas nas histórias de Lobo Antunes) dona de uma herdade algures no Ribatejo, desde o seu crescimento pelo braço do Avô e do seu amigo de infância que se tornou no feitor, até ao declínio e à inexistência com que chegou aos seus netos. Disfuncional não chega para descrever esta família, se existe um avô com um filho que não respeita, “Idiota”,  um filho casado com uma ex-empregada da casa que era tomada pelo pai, como todas as outras, um neto que é autista e filho do ajudante de feitor, outro que simplesmente não quer ser, uma avó que tremia tanto como a chávena no pires e matava coelhos com uma paulada no cachaço, uma mulher que morreu em criança e a própria morte como prima da família. É isto o livro e nada mais, a história de uma família sem história, igual a tantas outras e diferente de todas, singular porque nasceu de uma mente singular e banal porque vemos em todos os membros do clã facetas nossas. Aparentemente Lobo Antunes aproxima-se cada vez mais do seu objectivo de encher os livros de nada, este é um livro carregado dele, de palavras que não existem, e que não precisam de existir para serem lidas, de história que não existe, e não precisa para ser conhecida, de morte que existe, e não precisava de existir para lá estar.

Durante dois terços do livro vemos a família pelo olhar do autista. E está brilhantemente bem composto. Ninguém sabe como funciona a mente de alguém assim, mas António Lobo Antunes não estará muito longe de um pensamento verdadeiro. Uma alucinante sucessão de tempos e datas e factos e histórias e imaginação e palavras soltas e tudo o mais o que pode passar por uma mente diferente. Talvez uma das mais intensas partes do livro será o último capítulo da parte II, em que o personagem se revela demasiado frágil para contar exactamente o que se passa, recorrendo inúmeras vezes a factos sobre cegonhas para se acalmar, entrecortando o discurso narrativo (como tantas vezes acontece ao longo do texto) com factos inúteis sobre as aves, até que atinge o clímax final, que não é mais do que um ponto temporário que se vai repetir ao longo de toda a terceira parte por diversas vezes vistas por diversas pessoas.

Por este olhar vemos nós grande parte da saga familiar e durante todo esse tempo o leitor não pode deixar de se sentir ligeiramente perdido, sem saber muito bem o que está a acontecer, e ao mesmo tempo, maravilhado. Mas claro, sendo Lobo Antunes, não podia ser uma só visão a contar-nos a história e no terço final sucedem-se os relatos diferentes das diferentes pessoas, e tudo, subitamente, começa a ficar tão claro e tão repentinamente claro que ficamos embasbacados com o génio do senhor que parecia escrever frases quase desconexas em tudo.

Como já noutros livros do autor acontecia,  o título, para mim, só faz sentido no fim. Mesmo nunca usando as palavras “arquipélago” ou “insónia” durante o texto, não é difícil chegar à conclusão de que todos são ilhas que vagueiam solitárias, presas na localização e no sangue, mas solitárias e acordadas pela noite, e pela morte, dentro. Lobo Antunes faz-nos um espelho feito de retratos, os retratos que estavam na sala da casa onde o autista via os parentes que rapidamente se transformavam em pessoas ao seu lado, um espelho onde vemos o nosso contínuo desejo de permanecer acordados. Eternamente acordados, perhaps?

Chego ao final desta recensão com um sentimento de incapacidade indescritível. Queria dizer tanto mais sobre este livro e nada mais me sai. Sinto-me pequeno, muito pequeno, perante um dos maiores nomes da literatura mundial e um dos maiores mestres da palavra portuguesa. Tal como me senti quando lhe apertei a mão há uma semana e pouco. Tal como me vou sentir sempre que tentar falar sobre ele ou a sua obra, ou sobre ambos, sendo ambos um, porque se confundem Lobo Antunes e os livros que escreveu, talvez mais do que o próprio autor desejaria.

É, sem dúvida, um livro inquieto de uma mente genial. Poderia escrever pela noite dentro e mesmo assim não seria capaz de reproduzir aquilo que o livro me disse sem, de facto, dizer nada. A verdade é que para um homem encher um livro de silêncio é muito fácil. O difícil é enchê-lo de silêncio cheio de palavras. Isso, António Lobo Antunes consegue-o magistralmente.

por Tim James Booth
05.11.2008

01/11/2008

Humor com ALA: Entrevista de Wanderley (Jel)

Ainda em Nova Iorque, Wanderley (Jel dos Homens da Luta), no programa da SIC Radical Vai tudo Abaixo, entrevista António Lobo Antunes como se fosse brasileiro e fazendo confusão (propositada) de ALA com José Saramago.

26/10/2008

Visão: Campo, contracampo


Visão - entrevista de Sara Belo Luís, à conversa com António Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares
23 Outubro 2008

Campo, contracampo

Um livro, dois escritores e a VISÃO a escutar. O filme de um encontro feliz entre António Lobo Antunes e Gonçalo M. Tavares

Com a quinta edição de O Arquipélago da Insónia (Publicações Dom Quixote) a chegar às livrarias, António Lobo Antunes, 66 anos, recebeu no ateliê onde escreve o «leitor» Gonçalo M. Tavares, 38 anos. Não se conheciam pessoalmente, mas acederam ao convite. Falar sobre literatura, deixando-se ouvir pela VISÃO. Deste encontro há-de resultar, dentro de dias, uma apresentação pública da nova obra por Rui Cardos Martins e Gonçalo M. Tavares, assim o quis o próprio Lobo Antunes. Conversa solta à volta dos livros com a voz (quase) muda de uma jornalista em corpo presente.

"Um escritor não é bom escritor se não pensar que é o melhor" .
António Lobo Antunes

"O prémio Leya é estúpido. Um prémio só internacionaliza um autor quando, no passado, foi dado a outros autores importantes.
Nunca concorri a um prémio. Nunca. Deus me livre. Também não lhes queria dar o prazer de não mo darem. Um escritor não concorre a prémios, a não ser que esteja à rasca"
António Lobo Antunes

O Arquipélago da Insónia tem pai, tem mãe e tem memória. E isso basta. É brutal".
Gonçalo M. Tavares


Visão nº 816
23.10.2008

19/10/2008

O arquipélago do futebol


A Bola - Entrevista de Vítor Serpa
18 Outubro 2008


Admirável poeta de prosas, António Lobo Antunes acaba de publicar o "Arquipélago da Insónia". Gosta tanto de futebol - o futebol do desporto, não o da indústria - que alguém, um dia, lhe chamou o Eusébio das letras. «O Eusébio é responsável por algumas das minhas alegrias; António Lobo Antunes por algumas das minhas maiores chatices» - respondeu então. O único escritor vivo nobelizável concedeu a A BOLA - seu jornal de sempre - uma tão surpreendente como fantástica entrevista. 

Trouxe comigo uma entrevista sua, dada ao Carlos Miranda, de há vinte anos. Uma entrevista notável...
Tive esse privilégio. A BOLA sempre teve grandes jornalistas e uma grande preocupação cultural. O Miranda era um desses grandes jornalistas. É uma pena que as suas crónicas da Volta a França nunca tenham sido publicadas em livro. Aquelas crónicas com o Agostinho são admiráveis e olhe que este é um termo que eu uso poucas vezes...

Lembra-se dessa entrevista?
O Carlos Miranda fez-me várias entrevistas. Gostava muito dele, ele pedia e eu não conseguia dizer-lhe que não. Felizmente tive a oportunidade de dizer ao Carlos Miranda que ele tinha uma espantosa qualidade literária. Ficava a olhar para mim, surpreendido. Era um homem que eu muito admirava.

O Pinhão também falava muito consigo...
Havia mais uma série de jornalistas de A BOLA que escreviam admiravelmente. O Carlos Pinhão, que eu conheci bem e outros que não conheci, mas que igualmente admirava. O Aurélio Márcio, o Homero Serpa... não sei, se quer, se era da sua família...

Meu pai...
Excelente qualidade literária. Escrevia muito bem. E mais. O Alfredo Farinha e, de uma geração mais recente, o Santos Neves.

Já lia A BOLA, quando era jovem?
Havia três jornais desportivos de que me lembro.  A Bola, O Norte Desportivo e o Record. Eu, os meus irmãos e os meus amigos, sempre compramos A BOLA. As crónicas de futebol eram muito bem escritas. Não havia equivalente, nem mesmo na impressa não desportiva. A BOLA tinha, além de tudo o mais, uma componente literária. Lembro-me bem do Ruy Belo publicar, na BOLA, poemas inéditos.

Influência do Pinhão
O Carlos Pinhão tinha uma extrema simpatia. Era uma pessoa quente. É uma pena que se deixem morrer estes nomes. Era importante manter na lembrança o Pinhão, o Homero, O Miranda...

A morte do Agostinho

O Miranda ajudou muito a fazer do Agostinho um ídolo nacional...
Quando o Agostinho teve o acidente foi o meu irmão que o operou. Tinha acabado de chegar da América. Foi o meu irmão que me disse que o Agostinho ia morrer. Ele tinha perdido muita substância cerebral. E lembro-me do Manuel Graça dizer: o país não está preparado para a morte do Agostinho.

O seu irmão já conhecia o Joaquim Agostinho?
Só o conheceu quando o Agostinho já estava em coma, mas tinha um grande respeito por ele.

É curioso como perdurou, entre os portugueses, a lembrança do Joaquim Agostinho...
O Agostinho tinha de ser um home inteligente. Aliás, é como no futebol. É impossível haver um grande futebolista estúpido. Pode ter dificuldade de comunicação, ser limitado nessa capacidade de comunicar, mas estúpido, nunca. O Maradona, por exemplo. Tal como o Eusébio, pode ter dificuldades de expressão, mas é um homem inteligente. São pessoas que pensam rápido.

Xixi ao lado do Vicente

Fale-me da sua primeira relação com o mundo do futebol...
Quando era miúdo coleccionava os bonecos da bola. Conhecia todos os jogadores pelos bonecos. O Grazina, o grande Patalino, o José Pedro, do Lusitano de Évora, que era o clube dos ricos. O Ernesto, guarda-redes do Atlético. O Eloi, do Estoril.

Via-os jogar?
Alguns, sim, mas a maior parte deles conhecia-os só pela colecção dos bonecos da bola. Os do Porto. O Barrigana, o Monteiro da Costa, o Miguel Arcanjo. E do Sporting. Muito pequeno vi jogar o Azevedo. Depois, o grande Carlos Gomes.

Noto-lhe a paixão com que fala desses jogadores. Como foi possível perder essa relação tão forte com o futebol?
O futebol deixou de ser um desporto. Naquele tempo havia um deprimido debaixo dos paus e dez eufóricos a mandar brasa e, disso, eu gostava. Era impensável o Travassos ir para o Benfica, ou o Coluna ir para o Sporting e isso marcava-nos a todos. Faziam com que se amasse verdadeiramente os clubes. Lembro-me de tanta gente minha amiga do Belenenses que, naquela altura, tinha as célebres torres de Belém. O Capela. O Matateu, fantástico Matateu. O extraordinário Vicente. Que grande jogador! Um dia, era eu miúdo, de calções, e, num cinema, fiz xixi ao lado do Vicente. Inesquecível. Lembro-me de ter reparado como ele era um homem baixo e, no entanto, parecia sempre grandioso no campo.

Quando o futebol era desporto...

Você é do Belenenses, eu sei, li no seu livro... [comentário de Lobo Antunes]
Sou, mas, hoje, poucos acreditam que haja alguém do Belenenses. Não faz sentido para muita gente que não se seja de um clube grande... [resposta de Vítor Serpa]

Mas naquele tempo havia muita gente do Belenenses. Como havia muita gente que era do Atlético, ou do Oriental. Ser, mas ser mesmo, ou seja, não ser também do Benfica ou do Sporting. [comentário de Lobo Antunes]
 
O António Lobo Antunes é do Benfica...
Eu sou do Benfica, mas ia ver, muitas vezes, o Belenenses ao Restelo. Tinha boas equipas e o estádio sempre foi lindíssimo. Não passava um fim de semana sem ir a um jogo de futebol. Adorava, apesar de apenas ter jogado hóquei no Benfica. Nunca futebol.

O hóquei vai definhando, hoje em dia...
E naquele tempo até os treinos enchiam os pavilhões. Havia aqueles relatos pela rádio. O Amadeu, o Artur Agostinho, que relatavam muito bem. Sempre estive ligado ao hóquei por causa do meu pai. Aliás, havia uma fotografia do meu pai, publicada nos jornais, nos campeonatos da Europa de 1936.

O seu pai era adepto do futebol...
O meu pai não ia ao campo ver o futebol, porque achava que dava azar. Era do Benfica, ficava em casa a ouvir os relatos e a fazer desenhos, até dar um salto quando o locutor gritava GOOOOLO. Naquela altura o futebol era um desporto. Agora vêm aqueles tipos todos, muito senhores de si, com aqueles novos termos da pressão alta, das diagonais, o losango. Não tem interesse nenhum.

Foi uma mudança tão radical assim?
E os treinadores? Quando eles começam a pedir paciência e muito trabalho. Agora, é uma indústria, não é desporto. Eu que sou sócio do Benfica desde pequenino, fui deixando, gradualmente, de ir ao futebol e ainda nem sequer entrei neste estádio novo do Benfica.

O Coluna era admirável

Qual a equipa que mais o entusiasmou?
Uma do Benfica, na minha adolescência. Inesquecível aquela equipa que vence a primeira Taça dos Campeões. Sei todos os nomes de cor: Costa Pereira; Mário João, Germano e Ângelo, Neto e Cruz; José Augusto, Santana, Águas, Coluna e Cavém.
O Coluna era admirável. Que grande jogador. Fazia todo o meio campo num passinho curto e tinha uma autoridade natural sobre toda a equipa.

Tinha paixão pelo Benfica...
Havia, nesse tempo, um amor real pelos clubes. Acho que isso se começou a perder quando o Yaúca foi para o Benfica. Hoje, não há qualquer amor pelo clube. O Dinheiro comanda tudo e isso transforma o futebol para pior. Agora, quando perdem, o treinador avisa-os de que é preciso levantar a cabeça. Antes, os jogadores sofriam mesmo com as derrotas. Agora estão-se nas tintas.

Acha, mesmo?
Sabe o que eu acho, Vítor. A arte, no futebol, foi substituída pela eficácia. E isso, a prazo, mata o futebol. Ainda hoje estava a ler no seu jornal. Não interessa jogar mal ou bem, o que interessa é ganhar.

Antigamente o futebol tinha mais arte?
Lembro-me de uma linha avançada extraordinária do Vasco da Gama, tenho uma memória tão má que me lembro de tudo, e que eu vi quando tinha cinco ou seis anos. Era notável. Equipas para quem a grande finalidade era o prazer do jogo. Havia uma dimensão lúdica em tudo aquilo. Hoje, não há. Lembra-se do Didi, do incomparável Garrincha?...

Agora há o Cristiano Ronaldo...
Quer que eu seja sincero? Não me dá prazer vê-lo jogar. Dava-me prazer ver o Coluna e o Zé Águas, esse sim, que foi dos jogadores mais elegantes que eu vi jogar.

Outro tempo, futebol mais lento, mais desenhado...
Não posso dizer como seriam os grandes jogadores de então a jogar agora.

O Coluna continuaria a ser fantástico...
E era tudo limpo. O Jesus Correia dizia que o doping dele era o arroz doce da mãe. Isso também é importante. A credibilidade do jogo.

Quando começou a perder essa paixão?
Começo a perder a paixão quando o Benfica começa a deixar de ser o Benfica. Ao contrário do FC Porto, fundado por banqueiros, ou do Sporting, fundado por um visconde, o Benfica foi fundado por casapianos. Teve um tipógrafo como presidente. Sempre foi um clube do povo e por isso se tornou tão grande.

O Benfica não deixou de ser popular...
Lá em Benfica, onde eu morava, as pessoas apanhavam bebedeiras quando ganhávamos. E lembro-me de colegas meus, do liceu, me dizerem: tu és do Benfica? Mas isso é um clube de gente pobre...

Nesse tempo os intelectuais não se interessavam por futebol...
Essa história dos intelectuais não gostarem ou não se interessarem pelo desporto é uma trata. O Niels Bohr, dinamarquês que foi prémio Nobel da física, jogou na selecção do seu país. O Camus foi um vigoroso guarda-redes. É uma estupidez completa.

Os jogadores e as manequins

Não me diga que não reconhece talento num Cristiano Ronaldo, ou num Figo?
Admito que o Cristiano Ronaldo ou o Figo tenham, de facto, muito talento, mas não me interessa essa indústria na qual eles têm sucessos Essa indústria em que os jogadores têm de casar com manequins, como acontecia no Real Madrid. Você, Vítor, ainda se lembra da dona Fernanda Coluna? então hoje não podia casar com um jogador de futebol?

Outros tempos, reconheço...
As pessoas estavam juntas no futebol. Lembro-me de estar nas bancadas do estádio da Luz e a meu lado estarem cegos. Ouviam o relato e sentiam o ambiente. Nessa altura, para mim, toda a gente com mais de trinta anos era velha, e eu via-os a chorar quando o Benfica perdia. As mulheres nos carros a fazerem croché e, sobretudo, não havia essa promiscuidade de interesses.

E a selecção. Não sente a selecção?
Sou quase como o José Cardoso Pires. Ele dizia, não sou do Benfica, sou do Nené. Eu digo: não sou da selecção, sou do Benfica.

Mas também já não gosta tanto do Benfica...
Sabe, gosto deste treinador. Do Quique Flores. Li umas coisas de que gostei.

Sobrinho da grande Lola Flores...
Mulher extraordinária.

No Benfica actual só gosta do Quique Flores?
Não. Gosto muito e admiro o Rui Costa. É inteligente, parece ter uma vida estável. E ainda por cima tem um amor muito grande ao clube.

O FC Porto e Pinto da Costa...

O FC Porto roubou o comando ao Benfica...
O FC Porto tem um problema. Tem sucesso e não consegue ter uma dimensão nacional. Continua a ser um clube regional, com sucesso. No entanto, reconheço que, para o bem ou para o mal, o presidente do FC Porto foi uma pessoa importante no clube e até no futebol português, nos últimos trinta anos.

Não me diga que gostava que Pinto da Costa fosse presidente do Benfica?
Se fosse para ganhar campeonatos não me importava nada... a sério, nesta fase do futebol, não me interessa do presidente, o que me interessava é que o Benfica não tivesse deixado de ser um clube de afectos.

Mas nem na selecção sente esses afectos...
Uma vez perguntaram ao José Luís Borges o que ele pensava da Argentina ganhar à Holanda e o Borges respondeu: não me apetece nada ganhar ao Erasmos. É que não se trata, de facto, de Argentina ou Portugal. São onze profissionais e, como eles dizem, é a selecção da montra.

Carlos Queiroz e José Mourinho

Não se sentiu empolgado pelo Euro 2004?
Não. E neste último europeu nem vi jogo nenhum. Vi a final do Mundial 2006, que a Itália ganhou e jogou muito bem. Com muita inteligência. Foi um grande jogo.

E dos treinadores portugueses, não gosta?
Ao Jorge Jesus, por exemplo, acho uma certa graça. Ao professor Carlos Queiroz acho menos.

O Mourinho?
Acho que não vai ter, em Itália, o sucesso que teve em Inglaterra. Não conheço o homem, gostava do pai dele, que foi guarda-redes do Vitória de Setúbal e do Belenenses, mas a ele acho-o muito arrogante.

Faz parte da imagem...
Não gosto de ver os treinadores como umas figuras distantes, que nem comem à mesa com os jogadores e que passam a vida a fazer treinos à porta fechada, para esconder a táctica. E também não gosto dos treinadores que passam a vida a falar naqueles termos que eu detesto, as linhas de passe, a pressão alta, os losangos. Posso parecer um velho saudosista a falar, mas, para mim, o futebol pelo qual tinha paixão era o do deprimido debaixo dos paus e dos dez eufóricos a correrem no campo e mandarem brasa.

Mas tem admiração por um grande jogador de futebol?
Eu olho com o mesmo respeito para um grande jogador de futebol como olho para um grande escritor. Para mim são artistas que encheram de alegria a minha vida: desde a infância.

O que não gosta mais nos clubes de futebol?
Aquelas claques organizadas. Acho-as horríveis... os nomes dos patrocinadores nas camisolas... e aquilo que ainda hoje li na BOLA, do campo de treinos do Benfica ser a Caixa Futebol Clube, ou lá como se chama aquilo.

Sabia que para falar a um jornal o jogador tem de pedir autorização à direcção do clube?
Porquê? Um jogador não tem liberdade de falar a quem quiser?

Não, não tem...
Não sabia que era assim. Não fazia ideia... Mas há alguma razão para ser assim?

Os jogadores podem dizer algo que não interessa ao clube. As coisas são mais controladas...
Quando o Ângelo chamou ao Costa Pereira «ladrão do meu dinheiro», todos os jornais trouxeram isso...

Pois, mas hoje teria de pagar uma enorme multa...
Por isso, antigamente, os jogos prolongavam-se por discussões na segunda-feira. Era assim quando estava no Hospital. Hoje, de facto, já não vejo esse entusiasmo da discussão do futebol à segunda-feira...

Até porque há jogos quase todos os dias na semana...
Mas cada vez menos gente nos estádios. Isso, eu sei.

As brasas dos Ronaldo

Sabia que o Cristiano Ronaldo pode vir a ser nomeado o melhor jogador do mundo?
Não me interessa muito. Sei que é muito popular. Vejo nos quiosques as fotografias das brasas com que o Ronaldo namora. Parecem todas desenhadas pelo Vilhena.

Tão curvilíneas, que parecem feitas em banda desenhada...
É... e você, diga-me lá, quando joga a selecção, ainda sente alguma coisa?

Mesmo como jornalista, sinto. Gosto de ver a selecção e quero que ganhe. Temos bons jogadores e há ali gente boa...
Isso, eu admito que sim. Já o Miranda me dizia que o mais puro no futebol eram os jogadores.

Às vezes um bocado manipulados...
Mas isso também eu, às vezes, sou manipulado pelo editor. É inevitável. O Zé Cardoso Pires dizia que um escritor não podia ser amigo de um editor, porque os interesses são opostos.

Mas o António Lobo Antunes tem estado em alta. O seu último livro, o Arquipélago da Insónia...
Sim, está a ter uma grande procura e só foi posto à venda na última sexta-feira.

Era muito amigo do José Cardoso Pires?
Uma amizade diária.

Mais mortos que glóbulos

É tão injusta a morte. Principalmente a morte de quem a gente gosta. É muito dolorosa. O pior é que se chega a uma altura na vida em que temos mais mortos que glóbulos nas veias.
 
Os amigos... cada vez menos...
É. Às vezes eu esqueço-me da idade e digo em casa: lembras-te daquele rapaz da minha idade? E as minhas filhas, logo: rapaz...?

Sei o que é isso. Também tenho duas filhas.
Tem duas filhas? E os ciúmes que eu tenho dos namorados delas?... Você também tem?

...
E já tem netos?

Uma neta.
Eu tenho um neto. Anda nas escolas do futebol. É a mãe que o leva, mas parece que corre muito atrás da bola... e eu pergunto-lhe: ouve lá, como é que se chama o teu treinador? E ele, muito sério: mister!

Cavalos que fazem sombra no mar

Deixe-me falar do seu novo livro...
Não se pode falar de livros.

Acha que não?
Consegue falar do seu?

Deixe-me desafiar, pelo menos, uma ideia que o Arquipélago da Insónia me suscitou. A ironia de dizer sempre que escreve muito devagar e do seu livro nos obrigar a um tempo rápido de leitura, para conseguirmos acompanhar a musicalidade das palavras...
É curioso que sinta isso. Não lhe sei dizer. Sou incapaz de ler um livro meu depois de escrito. Não sei.

Mas está cada vez mais distante, nos livros, das suas crónicas na Visão. É verdade que escreve crónicas por atacado?
É tão diferente o que se escreve, num caso e noutro. Nas crónicas posso escrever catorze crónicas seguidas. Preciso de resolver assim o problema da mudança de ritmo. Por isso eu lhe dizia que, no seu caso, não deve ter sido nada fácil mudar de ritmo da escrita de jornal para a escrita do livro que publicou.

Por isso são contos...
Eu nunca escrevi contos, mas um conto não se faz numa noite. Será difícil, ainda assim... é muito difícil estar a escrever um livro, largar e escrever crónicas  para jornais e voltar ao livro. Muito difícil.

Não lhe aparece gente a falar-lhe mais das crónicas que dos livros?
Aparece. Mas a minha dúvida é se muitos daqueles que me lêem na Visão vão depois ler os meus livros...

Muitos, seguramente, sentir-se-ão tentados a fazê-lo...
Mas é como a diferença entre uma piscina para crianças e uma piscina para adultos. Afinal, uma crónica para jornal, ou para uma revista, tem sempre pé...

Este seu livro, o Arquipélago, é mesmo muito especial...
Mas quando comecei não tinha nada.

E no novo?
Este? tinha uma frase. Tenho um grupo que almoça às quintas feiras. Um professor de faculdade de letras, um oftalmologista, um editor e há também dois cantores, entre eles o Vitorino. Aqui há um ano estavam a cantar uma moda velha do século XIX, por alturas do Natal, uma moda do interior do país, gente que nunca vira o mar, e quando chega a altura de descrever os reis magos, o poeta, que não se sabe quem é, poeta anónimo, escreveu isto: que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? E isto ficou-me cá dentro. É de uma beleza que eu não resisti e pensei: vou chamar o livro assim. O título é grande de mais, mas é tão bonito que ficou assim.

Médico no futebol

Quando estava na tropa. colocado no Hospital militar de Tomar, fui médico do União. O treinador era o Fernando Cabrita. Formavam a esquipa com restos do Benfica, do Sporting e do FC Porto e eu sentava-me no banco. Era o Nascimento, que tinha sido guarda-redes do Belenenses, o Calado, O Totoi, o Barnabé. Eles estavam a jogar mal e o presidente dizia: dou mais quinhentos a cada um. E o massagista, muito gordo, começava a correr pela linha lateral, com uma botija na mão, e gritava para o campo: mais quinhentos escudos, e eles começavam todos a correr mais depressa.

Barrigana ...no plural

Aquela sua crónica sobre o Barrigana, ficou célebre...
Foi quando estava na tropa, em Malange. Foi aí que eu vi o grande Barrigana, que estava em África a treinar miúdos. E os miúdos puxavam por ele e gritavam: vai Barrigana, anda Barrigana, e ele, muito sério, virava-se para os miúdos e dizia: vai Barrigana, não. No plurar, se faz favor. Senhor Barrigana.

Ciclismo. livros, tourada

Estava sempre a dizer ao Miranda que gostava de fazer um Volta a Portugal...

Está a tempo, A BOLA leva-o...
Mas eu estou sempre a escrever. No Verão nunca posso. Agora, este livro que eu comecei em Fevereiro, não sei quando vai estar pronto...

E esse livro está a correr bem?
Um livro nunca está a correr bem...

Li numa entrevista que o livro tem a tourada como tema.
Não, não é nada disso. Não é sobre touradas. Eu nem gosto das tourada à portuguesa. Gosto da tourada à espanhola, embora não seja um aficionado. Mas gosto. Aquilo é trágico. Tem a majestade que a nossa não tem. Na nossa vão a correr, a correr, e pumba, espetam as bandarilhas no boi. No tempo do João Núncio não era assim, agora, aquilo, é um farró-bó-dó. Mas eu queria dar uma estrutura àquilo. O livro acaba com a morte do touro que é a morte da mãe. Trata-se de uma família... mas o ciclismo estava a falar de ciclismo, ainda gosto imenso de ver as imagens da Volta à França.

É uma corrida notável...
Aquelas montanhas... O Marçal Grilo diz, e com razão, que ninguém sobe aquilo só a comer bifes...

A BOLA
18.10.2008

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...