19/10/2008

Pública: Achas que a vida foi vida?


Pública, suplemento do jornal Público - entrevista de Anabela Mota Ribeiro
12.10.2008


«Como posso eu, cristal, morrer?»

Ninguém, senão Lobo Antunes, poderia escrever a seguinte frase: "Um camafeu com crisântemos pintados." Ou: "Girinos novos e abelhas incompletas a aprenderem a ser." Tem uma voz própria. Aprendeu a ser. Ou como ele diz: "Ninguém escreve como eu."


Lobo Antunes c'est lui. Uma única voz. Falou de querer pôr a vida toda dentro das capas de um livro. Do pai. Do Antonioni de que já gosta. Do que aprendeu com Cartier Bresson, que lhe pediu que escrevesse para fotografias suas. Do pai. Sempre do pai. Talvez o pai tivesse razão. E mais que tudo da doença. E se eu morrer? Falou do sapateiro que dizia que as mulheres seduzem pela palheta; porque elaboram melhor as emoções, os afectos. Os homens são primários: um par de pernas que passa e ficam a olhar - ele fica a olhar. Da doença. Da alegria em que o haver sol o deixa. Do livro que acaba de sair, Arquipélago da Memória. De que é que trata o livro: do que vai escrito nele. No dia seguinte à conversa, seria revelado o nome do Nobel da Literatura de 2008.

Diz na sua fotobiografia que, ao seu avô querido, o único lamento que ouviu foi quando ele lhe pousou a mão no pescoço, antes da morte. Perguntei-me qual teria sido o seu lamento, quando esteve doente. 

Não tive tempo de ter medo. A minha reacção foi de espanto. Pensava que tinha hemorróidas quando fui fazer o exame. Quando acordei da colonoscopia: "O que é que eu tenho?" "Tens um cancro." É uma sensação muito estranha. "Então, nesse caso, quero ser operado amanhã." Pedi para chamarem um cirurgião que já operou dois mil e tal cancros destes; é meu colega de curso, um homem extraordinário. Nunca mais me esquece que estava na sala da anestesia, de repente senti que me estavam a dar a mão, e era ele. Deve ter sido muito difícil operar um amigo. O meu irmão João operou agora o Pedro [irmão]. Fiquei com uma enorme admiração por ele.

Contou isso numa crónica, há umas semanas. 

De uma coragem. E discrição, dignidade. Depois tive de passar por aquele calvário da quimioterapia, radioterapia. Acabou há um ano. Tive muita sorte. De ter um grande cirurgião, de não ter metástases, faço controles. O que até é bom, que nunca tinha feito um check up na vida. 

Porquê? Um médico, filho de médico, com irmãos médicos...

Tinha medo de fazer um exame e ter qualquer coisa - não me apetecia. E agora periodicamente faço exames a tudo, fígado, rim... Fiquei surpreendido: estava tudo tão bem. Como é que diz o S. Francisco de Assis? "Confesso que pequei muito contra o meu pobre irmão corpo." A grande lição: são as pessoas. Pessoas que sabiam que iam morrer. Às vezes tinha vergonha: "Eu vou viver, eles vão morrer." 

Vergonha?

Era uma sala de espera imensa, para a radioterapia, mais de cem pessoas, uma televisão acesa que ninguém olhava, revistas nas mesas que ninguém lia. Toda a gente em silêncio. Parecia estar rodeado de reis, de príncipes, de princesas. Havia de tudo, miúdos de 17, 18 anos, até pessoas de 80 e tal. Algumas já muito magras, com a cor horrível das metástases hepáticas. Já com a cara da morte delas. E depois, coisas muito comoventes: esta semana, fiz a revisão, e uma senhora, já deitada numa maca, a pedir-me um autógrafo. 

Ali, continuava a ser o António Lobo Antunes?

É isso: continuava a ser o António Lobo Antunes. Eu não imaginava que fosse tão...

Popular? Querido?

Sim, sim. Durante a doença foram centenas de cartas e emails. O pós-operatório foi muito doloroso. Não me podia mexer. E o Henrique [médico] apareceu-me com um email de um miúdo que dizia: "Não admito que o meu ídolo se vá abaixo das canetas." Isto deu-me imensa força. Ajudou-me muito o Júlio Pomar; enquanto outras pessoas me diziam: "A minha tia teve isso, a minha irmã", o Júlio Pomar tinha tido o mesmo cancro há 15 anos e o que me disse foi só: "Aguenta-te." Isto deu-me mais força que palavras de consolo. "E se eu morrer"? "Aguenta-te." Depois passei dois meses sentado numa cadeira. Este livro que está a sair, tinha-o começado antes. Será que vou ser capaz de escrever? Estive três meses sem escrever nada, nada. Depois recomecei, mas cansava-me.

A escrever, a articular o livro na sua cabeça?

Nunca escrevi na minha cabeça. Trabalho sem plano. Acabei este que leu em Outubro ou Novembro [do ano passado], e depois de um mês sem fazer nada começo a sentir-me culpado. Decidi então: dia 25 de Fevereiro começo. E no dia 25 de Fevereiro comecei a escrever. Começo sem nada. Agora começo sem nada.

Tinha ideia de que nos primeiros livros as coisas eram arquitectadas na sua cabeça.

Nos primeiros livros, sim. Fazia planos, muito detalhados.

Há até aquela coisa das Obras Completas de António Lobo Antunes que estruturou na sua juventude...

Era. Tinha dez, onze anos. Nem imagina: era até 2050, ou coisa assim, e era tudo: ensaio, poesia, romance, conto, teatro. Nunca escrevi nada daquilo, claro. Punha no alto da página: Obras Completas de António Lobo Antunes. Nos primeiros livros fazia [planos]. Quando comecei a fazer os livros de que gosto, mais ou menos a partir d'O Esplendor de Portugal - até lá, se voltasse atrás, ia tudo fora - deixei de ter planos. Sei que me faltam três capítulos [do que estou a escrever agora] para acabar a primeira versão. Mas depois aquilo é tão trabalhado, emendado, reescrito.


Disse uma vez que não lia os seus livros.

Depois de sair não leio mais. Não leio porque tenho medo. Os primeiros livros: não gosto nada. Parecem-me escritos por outra pessoa. Não têm nada que ver comigo. Nos últimos fiquei espantado. Eu não escrevo assim tão bem. 

Como se fosse uma mão autónoma?

Estava a ler aquilo como se tivesse sido escrito por outra pessoa. Há livros de que gosto, mas que não gostaria de ter escrito. Simenon, por exemplo. Ou Graham Greene. Certos policiais: o Rex Stout. Tinha uma atitude idiota e arrogante em relação aos policiais. O Cardoso Pires dizia-me que os policiais eram importantes para aprender uma série de coisas: a retenção de informação, que a informação é dada de forma lateral. Estive três meses sem escrever e perde-se um bocado a mão. Os cirurgiões nunca fazem férias longas.

Falou especialmente com o seu irmão João durante a sua doença?

Não. Não falei com ninguém, nem queria falar com ninguém. Tenho um grande pudor na relação com as pessoas de quem gosto. O que sentia era um imenso vazio dentro de mim. Vou morrer. E tinha imensa pena de não ter acabado a obra. Não ter arredondado.

O que é esse "vou morrer"? Tenho pena de morrer? Tenho medo de morrer? As coisas que vou deixar de fazer. Os que vou deixar.

Era o espanto. O Paulo Klee, o pintor, escreveu: "Como posso eu, cristal, morrer?" Não era medo. Era pena. Sabia lá se ia morrer? Pensava que sim, pensava que não. Era duro. Mas era pior para os outros. Acho que escrevi isto numa crónica: raparigas com cabeleiras postiças - eram coroas. Em Santa Maria, são pessoas humildes; a dignidade com que se comportam é extraordinária. Não vê ninguém a lamentar-se, a agarrar-se a si, "ajude-me". 

Comecei por perguntar pelo seu lamento. 

Quando o meu avô disse: "Tenho muita pena de vos deixar a todos"? Eu tinha acabado de fazer 18 anos.

Já não traz o anel do seu avô, com que sempre andava. 

Não o tenho posto. Já vem de há não sei quantas gerações. Não tenho nobreza de espécie alguma. O avô do meu avô era um pobre camponês de Póvoa do Lanhoso que o pai meteu num barco à vela para o Brasil, para se fazer à vida. Não tenho nenhum sangue azul, tudo o que corre nas minhas veias vem de gente pobre. O meu pai falava com um imenso orgulho de um bisavô marceneiro. A minha ascendência é esta.

As pessoas têm a ideia de que é uma família de viscondes há dez gerações. Os rapazes Lobo Antunes têm boa pinta, olho azul. 

Olho azul, as minhas avós tinham as duas. É evidente que isto foi-se apurando, mas as origens são estas.

Porque é que tem orgulho nessas origens modestas?

Porque o meu nome fui eu que o fiz. Não o herdei de ninguém. O primeiro Lobo Antunes foi o meu avô, que era feito de um senhor Antunes e uma senhora Lobo. Os Lobo Antunes são os seis filhos que o meu pai teve. Deu-nos uma educação muito normativa. Mas todos os filhos têm bom carácter. Todos trabalham que se fartam. Todos são pessoas sérias. Podem ser mais ou menos inteligentes, ter mais ou menos talento, mas essa qualidade todos têm. O meu pai tinha um horror visceral à mentira - nunca o vi mentir - à cobardia e à desonestidade. Não era criativo. Nem tinha imaginação. Como pai foi excepcional. Era tudo muito austero, e com muito pouco dinheiro. Eram muitos filhos, ele trabalhava no hospital.

Não se preocupava em ganhar muito dinheiro. O dinheiro não parecia ser uma coisa essencial.

Sempre teve um grande desprezo pelo dinheiro. Lembro-me de ele dizer à minha mãe: "Margarida, dá-me cem escudos para encher o depósito do Lância." Lância que só teve aos 50 anos. Era o pai que o levava ao hospital e ele ia de lancheira, para almoçar. Não havia semanadas, não havia nada disso. Ah: obrigava-nos a ler e a ouvir música. Em férias, lembro-me de me mandar fazer resumos de capítulos de livros de que ele gostava, tirar significados. Que era uma chatice, eu estava em férias, era uma criança. Lembro-me de ter ido fazer a primeira comunhão a Pádua, por causa de uma promessa do meu avô - tive uma meningite e estive em coma. E eram palestras de meia hora diante de cada quadro. Para uma criança de sete anos, era um frete.

Aponta essa viagem a Pádua como um dos grandes acontecimentos da sua vida. 

Claro que foi.

E, durante toda a viagem, ia no carro a fazer que guiava.

Tinha um volante de plástico. Está a ver o que é atravessar Espanha, França, Suíça, Itália, há 60 anos, para fazer a comunhão em Itália? Passar um mês assim. Lembro-me de ele [avô] junto ao túmulo de Santo António - que ele era muito devoto, como eu sou - me pôr a mão no túmulo e com os olhos cheios de lágrimas: "Promete-me que quando tiveres um filho lhe chamas António e o trazes a Pádua para fazer a primeira comunhão." Gostava de estar com pessoas - eu não sou assim. Sou uma pessoa fechada e isolada. Vejo muito pouca gente. Também há tão poucas pessoas de quem eu gosto, muito... E ao fim de uma hora já me apetece estar sozinho. 

Observei-o num acontecimento social, um jantar em sua honra. E, apesar da simpatia, parecia que estaria melhor se estivesse consigo, a ler ou a escrever. Quase não falou, de resto. 

Por acaso foi um jantar agradável. Desde que não tenha que falar... Gostei desse jantar porque gosto de ouvir as pessoas e estavam pessoas de quem gosto. 

Isto era a propósito do anel que não tem posto.

Não gosto de anéis. Tenho mãos quadradas, com dedos curtos. Não gosto de me ver com anéis, punha-o por ele. Qualquer dia ponho. Ah, sabe porque é que deixei de pôr? Achei que não o merecia porque ia morrer. Quis dar o anel à Zezinha [filha mais velha], "toma lá o anel", que seria para ela, e depois para o filho dela. Não aceitou. Nunca mais voltei a pô-lo.

Foi uma maneira de a sua filha lhe dizer: viva, viva. 

Não sei o que estava na cabeça dela. Faço muito poucas perguntas. Também não gosto que me perguntem sobre a minha vida. O meu pai morreu há quatro anos, e muito mudou em mim - até estar em paz com ele. Está a ver como fiquei muito mais terno com a doença? Estar aqui sentado já é uma festa. Haver sol. Eu não tinha isto. Agora sinto-me em paz comigo. 

O que é que mudou com a doença, ou seja, com a sombra da morte?

Aldrabices, mentiras, jogos, em nada na minha vida - nem nos livros. A doença foi fulcral.

Foi um processo duro, súbito, curto.

Foi muito violento, de Março até fim de Setembro. Muito longo. 

O terramoto anterior foi a morte do seu pai?

Não foi um terramoto para mim. 

Foi um alívio?

Não sei o que sentia por ele. Amor é uma palavra difícil. Era o meu pai, pronto. Como a minha mãe é a minha mãe. Foi evidentemente importante para mim sob esse ponto de vista - normativo -, mas sempre tive a sensação de que não tinha nascido deles - porque era tão diferente deles.

Essa frase aparece no livro: "De quem nasci eu?"

Agora vejo que sim. Tenho coisas do meu pai, da minha mãe. Não havia nenhuma tradição ligada a livros. O meu pai gostava muito de ler, a minha mãe também, mas o meu avô nunca o vi pegar num livro. De onde é que isto vem? E sentia-me diferente. Será que eu pertenço a esta família? Vejo os meus irmãos tornarem-se cada vez mais parecidos com o meu pai; provavelmente eu também. Não sei se já lhe aconteceu: da nossa boca saem frases que não são nossas. São da pessoa com quem vivemos, muitas vezes. Certos tiques de vocabulário que não nos pertencem e que o convívio traz. Gestos. E saem-me frases que são do meu pai; certas maneiras de articular, pausas. 

Ele lia-o?

Dava-lhe os meus livros, ao princípio. Depois, não. Para quê?

O que é que esperava dele? Um comentário?

Nada. Perguntei-lhe sobre a Memória de Elefante, o que é que ele achava; respondeu: "É o livro de um principiante." Fiquei furioso. Ele tinha toda a razão. Nunca ouvi o meu pai elogiar um filho, fosse para o que fosse, e tinha filhos para todos os gostos e feitios. Só no hóquei, quando eu marcava um golo bom. Uma vez tive um muito bom num ponto, e havia miúdos que iam pedir dinheiro aos pais, cinco paus; e a resposta foi: "Só quando tiveres um bestial." Como nunca tive um bestial, nunca recebi nada. Nem um elogio, nem uma recriminação. A mim, nunca me recriminou nada.

Ainda que não recriminasse, o facto de dizer que a psiquiatria era uma disciplina menor era uma forma de o apoucar. De diminuir a sua escolha.

Em relação à psiquiatria, tinha uma certa razão. Quando morreu, o Miguel disse: "O pai deixou uns envelopes." Pensei que fosse um envelope para cada filho. E todos os envelopes diziam António por fora. É uma carta de 600 páginas. Fiquei a saber o que é que pensava de mim - que eu não sabia.

O que é que pode contar dessas páginas? 

Não sabia que ele tinha tanto orgulho em mim. Havia naquele homem uma imensa impiedade.

Estou a ouvir o personagem do seu livro que diz "idiota, idiota", referindo-se ao filho. 

Ele não é personagem, o livro não tem personagens, não conta histórias. Cada vez mais os livros sou eu. Nem sei se sou eu. O que eu queria era pôr a vida inteira lá dentro. Os livros não são seus. É como os filhos: também não são nossos. Também não são de mais ninguém. São deles mesmos, se forem.

Perguntei-me se este livro não era um ajuste de contas com o seu pai.

Não tem nada que ver com o meu pai. A voz daquele avô... é um jogo de enganos, nada daquilo existe, passa-se numa cabeça. Os livros, cada vez mais, são também sobre como escrever livros. Portanto, aquele avô é um pobre diabo, sem força nenhuma. Houve dois capítulos que me deram muito prazer: o da morte, que é a Dona Hortelinda, que vai levando as pessoas, e o da Maria Adelaide. Julgo que são as únicas pessoas que têm nome no livro.

Há um Jaime.

Quem? Ah, um que nunca aparece. 

A Maria Adelaide parece a encarnação de qualquer coisa boa, um desejo da infância.

A infância é boa retrospectivamente. Na realidade é um período dramático, de grande sofrimento, como a adolescência é. A maior parte das crianças são infelizes. Estão sempre a frustrá-las. Por que carga de água tenho de estar sempre a lavar os dentes?, porque é que tenho de comer sopa?

Davam-lhe tareias quando se portava mal. 

Apanhava, apanhava pancada.

Normalmente não fala disso. Fala é de não lhe darem beijos ou um prato com bolachas e leite quando estava doente. 

O meu pai detestava que apanhássemos pancada. Fomos ensinados a bater para não sermos batidos. Ele organizava combates de boxe, até ao dia em que o João lhe deu um soco, ele caiu e acabou-se o boxe. Tirou a luva, deu-lhe um estalo e foi-se embora - nunca mais me esquece isso. Uma vez pôs-me a jogar contra o Pedro, o Pedro estava a deitar sangue do nariz e eu não queria bater-lhe. Isto com a porta fechada à chave, para a minha mãe não entrar. E ele dizia: "Bate-lhe, senão bato-te eu a ti." No fundo, acho que aquele homem vivia no pavor da homossexualidade. Achava que uma das coisas da homossexualidade era a falta de coragem física. Tinha um profundo desprezo pela cobardia física. Até muito tarde andou à pancada.

É de andar à pancada?

Era uma das coisas de que as minhas filhas tinham medo: que eu saísse do carro para andar à trolha. Passei por cenas caricatas... Às vezes tenho vontade de sair do carro. Não me fazem nada, só me passam pela direita. E torno-me infantil. De resto, não. Já não ando à tareia há mais de seis meses.

Quando é que, realmente, andou à pancada a última vez?

Há uns meses dei um estalo a um gajo de mão aberta, de propósito. Não foi com muita força, mas foi um estalo - e isso humilha. Um murro não humilha. Porque é que foi? Não me lembro. Aquilo é feito com sentido lúdico. Como se fosse um miúdo. 

Com um sentido lúdico, mas para humilhar.

A esse, quis humilhá-lo. Isto não tem interesse nenhum, está a ser muito confessional. 

A pergunta é: porque fala menos da violência física que da violência emocional. De não ter sido mimado.

 Estou a ser injusto. Eu era o filho mais velho de dois filhos mais velhos. Toda a gente estava viva, os meus avós tinham 40 anos quando nasci, não havia mortes. Entrei para a universidade, tinha acabado de fazer 17 anos, e em Outubro estava no teatro anatómico; nunca tinha visto cadáveres. Havia uma espécie de pias, mesas, para o sangue - que não havia - escorrer. O empregado disse: "Meus senhores, está a sopa na mesa." Passados dois meses já mexia naquilo sem luvas - cadáveres com um ano de frigorífico, cheios de formol.

O cadáver passa a ser carne do talho? É a maneira de lidar com isso sem medo, sem repugnância? Tratar aquilo como uma matéria. Como é que se ultrapassa o nojo?

Não era nojo. Era terror. Todos nus, no dedo grande do pé tinham uma etiqueta, com um cordel. Um espectáculo horroroso.

Como é que se passa do terror à indiferença?

Não me lembro. Deve ter sido gradual. Não os via como pessoas. Eram apresentados assim: agora é a articulação tal ou são os músculos tais. Tenho notado nesta coisa que os cirurgiões têm: não é uma úlcera ou um cancro, é uma pessoa que está ali. Para outros, é uma máquina, um objecto.

A úlcera está aqui, o cancro acolá, este órgão ali; e os sentimentos, onde ficam?

O meu pai, já que falou nele, e para acabar com o pai - que foi importante, mas não foi decisivo - tinha um imenso respeito pelos doentes. Era terno, fazia-lhes festas. Foram as únicas pessoas a quem o vi fazer festas. Isso incutiu em nós um enorme respeito pelo sofrimento. E outra coisa: um infinito respeito pelo sigilo profissional. Nunca disse o nome de um doente. Era um bom médico - privado dessas coisas que eu disse: imaginação, criatividade.

Era capaz de acariciar um doente, mas quando um de vós estava doente, não vos acariciava.

Olhava da porta e mandava tomar aspirinas. E, quando havia injecções para dar, era a minha mãe que dava. Ah: sentava-se na borda da cama a ler poesia - a gente tinha que gramar aquilo. A minha mãe dizia que quando ele, na casa de banho, dizia poesia, enquanto se arranjava e barbeava, ela ia a correr para o ouvir. Sempre teve um enorme respeito pelos artistas, talvez por não ser um criador. Pouco antes de morrer o Miguel perguntou-lhe: "O que é que o pai gostava de nos ter deixado?", e respondeu logo: "O amor das coisas belas." As coisas que para ele eram belas não eram necessariamente as minhas.

No Arquipélago da Memória escreve: "Se me abraçassem, recusava indignado, e no entanto abracem-me." E a outra, referindo-se à personagem Mãe: "Uma ocasião pegou-me na cara, tive medo que me desse um beijo." 

É tão comum, essa mistura de desejo e de...

Medo?

A nossa sede de ternura é infinita. Porque fomos sempre mal amados na infância. Não há nada mais terrível do que a relação de um filho com um pai ou uma mãe. É muito ambivalente. São os pais que impõem as normas, "tens de fazer chichi no coiso, o guardanapo". Temos tanta dificuldade em aceitar aquilo que mais desejamos. É muito curioso e paradoxal. As pessoas deste livro pedem muita ternura, é?

Estas pessoas, que são uma pessoa, pedem ternura. 

Há um núcleo impartilhável em todos nós. Um livro é escrito com muito sofrimento. Estava a tentar olhar para o livro: não o vejo assim. Vejo-o como um todo.

Pareceu-me que tresanda a morte. 

Mas eles não morrem, pois não?

Querem matar-se todos, e matam-se todos, de maneiras diferentes. Com uma sachola, com a corda do estendal. Porque se detestam. Porque se humilham.

Achou o livro assim tão negro? Mas isso, muitas vezes, tem que ver connosco, leitores, com o estado de espírito com que se lê os livros e com aquilo que nos livros vai tocar a nossa experiência de vida. Os leitores da agência rejubilaram com o livro.

Não estou a dizer que não é uma obra-prima. Estou a dizer, se me pergunta, que me convocou uma sensação de claustrofobia. 

Quando a mão é feliz... A Morte de Ivan Ilich: não pode haver coisa mais angustiante, que rasga. E é um livro que me dá uma felicidade enorme ler. O que me importa, enquanto leitor, é a felicidade da mão. O que me interessa num livro, é quando é bom. O tema? Não há temas. As pessoas não contam histórias. Como eu estava a dizer aos americanos - a Odisseia: tenho a minha mulher à espera. Anna Karenina: uma mulher que está casada aborrece-se, o marido é um maçador, apaixona-se por um vigarista, aquilo corre mal, ela morre.

Atira-se à linha do comboio. Podia ter escolhido outra morte qualquer.

O que interessa é a maneira como [Tolstoi] faz isto. As intrigas não valem nada.

A esgrima é o que lhe interessa. Como é que a mão esgrime?

É um problema da mão, sempre. Os livros do Tolstoi são bons porque ele tinha uma grande mão. Em arte, é tudo uma questão de mão: seja a escrever, seja a pintar, seja a fotografar. E quando as páginas se tornam espelhos? O Monte dos Vendavais não é um romance: aquilo é tudo. Só acontecem coisas horríveis, e saímos daquele livro maravilhados.

Cheios de vida, exaltados.

Exactamente. É pôr a vida inteira dentro das capas de um livro.

Quando digo que tresanda a morte, não digo que me apeteça morrer ou matar-me, ou matar. 

Não queria falar sobre isso, mas eu estive na guerra. Matar é muito fácil. Quando o Melo Antunes estava doente, nunca tínhamos falado sobre a guerra e ele começou a falar; a mulher aproximava-se e ele dizia: "Não podemos falar mais." Perguntava-lhe: "Ernesto, porque é que não sentimos culpabilidade?" Assisti e participei em coisas horríveis. E ainda hoje não sinto culpabilidade. Porquê? Ele também não soube responder. É estranho. Porque sinto culpabilidade por ter ferido uma pessoa verbalmente, por ter sido injusto para alguém. 

Sente culpabilidade por que pensa que vai sobreviver àqueles que estão na mesma sala, à espera da radioterapia. 

Sentia-me culpado porque eu ia viver e eles não. Eles eram melhores do que eu. Tinham coragem. Eu estava todo borrado. Li um bocadinho das cartas da guerra, cartas que me oferecia para ganhar o meu respeito; cheguei a ir sentado no guarda-lamas dos rebenta minas. Porque me achava um cobarde e me enojava a cobardia física. Assisti uma única vez ao espectáculo da cobardia física, e é repelente. Os nossos soldados eram miúdos, de 19, 20, 21 anos. Admiráveis. Agora vão para a discoteca, naquela altura iam dar tiros. Iam matar e morrer. Voltando ao livro: o que eu queria era meter lá a vida toda, e não acho que seja triste. Acho que sou agora mais alegre do que era. 

Como é que ficou mais alegre?

Estive do outro lado e garanto-lhe que não é agradável. Tenho de dar muitas graças à vida, às pessoas que trataram de mim. Recomeçar o livro depois da doença, não sabia se era capaz. Queria ir mais longe. Não sou modesto, mas sou humilde. Sabemos muito pouco do que queremos escrever e hei-de levar a vida a tentar aprender. Estou a lembrar-me de uma entrada no diário de Tolstoi, em que ele escreve: "Lutei toda a vida para ser melhor do que o Shakespeare, e sou. E depois?" Eu agora não minto e sou honesto: ninguém escreve como eu - parece que isso é unânime. E depois? 

E depois?

E depois estou a ver o dia em que vou começar a repetir-me a mim mesmo. A escrever uma Ressurreição, como Tolstoi escreveu, que não tem a grandeza dos outros livros. É o meu receio. Será que estou a rapar o fundo ao tacho? Será que ainda tenho mais um ou dois livros para escrever? O que é que vou fazer depois? Não sei fazer mais nada. Vivo disto e construí-me para isto. Pareço uma galinha a proteger os ovos. Não tenho nada a acrescentar, o livro tem de se defender sozinho. Esta unanimidade por todo o lado: às vezes penso que é uma fraude, que vou acordar e perceber que é tudo mentira. Tive um pesadelo há um mês ou dois: estava morto há 20 anos e as pessoas estavam a discutir os livros e eu, angustiado, queria voltar a viver para dizer: "Não é nada disso."

Houve uma altura em que disse que já não se importava em ganhar o Nobel. Mas, se o ganhasse, era mais para os seus pais. 

Era. Mas repare, só este ano, pareço um cavalo: ganhei o [prémio] Ibero-Americano, o Terence Moix [Espanha], o Camões pelo meio, agora foi este Juan Rulfo, a coisa francesa [Comendador da Ordem das Artes e das Letras].

Se lhe telefonassem a dizer: "O Nobel é seu", em quem é que pensaria?

Mas isso não tem que ver com a literatura, não torna os livros melhores ou piores. Se me disser o nome de um jurado, digo-lhe quem ganha. Em Portugal, se conhecer os membros do júri, sei quem vai ganhar o prémio. Gostamos daquilo que prolonga os nossos gostos, do que é da nossa família. O difícil é dizer: "Não gosto, mas o livro é bom." Confundimos as ideias com as paixões: gosto, logo é bom, não gosto, logo é mau. O Musil: ele é bom, mas não gosto. Uma chatice e pêras. O [Hermann] Broch: aquele primeiro capítulo da Morte de Virgílio parece feito em cinemascope. Uma maravilha. 

Há maus livros de que gosta?

Há. O único livro que me fez chorar até hoje foi o Love Story, que li em África. O livro é uma merda, cheio de cordelinhos, e adorei. "Isto é uma merda, para que é que estou para aqui a chorar?" Não sei se não tinha que ver com o isolamento em que estava. Os livros também são a nossa circunstância. Então, devia ser o nome dos leitores a aparecer na capa dos livros. Estamos a projectar os nossos fantasmas, sofrimentos, medos.

Para o leitor, essa projecção é inescapável. E também projectarmos o que sabemos da vida do autor naquilo que lemos. Ou seja, leio o seu livro e penso: está a ajustar contas com o pai, foi escrito depois do cancro e parece-me ver morte em todo o lado, há uma pulsão libidinosa que talvez o prenda à vida. As mulheres parece que só servem para fornicar - há um desacerto na relação com elas. Tudo isto é consanguíneo. E uterino. 

Não acha que as mulheres são tratadas com respeito? É que cada vez mais as mulheres me parecem uma salvação do homem e do mundo.

Não é tanto o desrespeito. É tudo passar-se numa base de sedução/submissão. 

Ah, mas quem manda são as mulheres, tem alguma dúvida? Os homens é que são escolhidos. Quando elas são inteligentes dão ao homem a sensação de que ele está a fazer uma conquista, mas já foram escolhidos. Como na ordem animal. Tendem a escolher machos dominantes - mais não seja pela preservação da espécie. Somos os descendentes dos mais fortes, dos que sobreviveram aos maremotos, às pestes. Não é por acaso que quero um homem com poder - é a mesma lógica que leva à escolha do macho dominante. 

Depois, quem manda é ela?

Depende das relações. Porque é que há-de haver uma competição, um patrão e uma empregada? Tem que ver com a nossa maturidade. Durante muitos anos, nas minhas relações, havia um que mandava e outro que obedecia. Agora já não penso assim.

Quando é que cresceu?

Às vezes o Cortesão, um homem a quem devo muito, psiquiatra, dizia: "Não sei se é a análise que muda as pessoas, se é o tempo que lá estão." Em nove anos uma pessoa vai mudando.

Fez análise nove anos?

Não sei. Bastantes. Sei que saí de lá e aquilo não me serviu para nada. "Para que é que venho aqui?, sou mais inteligente do que você." Tudo aquilo me parecia um conto de fadas científico.

Estava a concordar com o seu pai.

Até certo ponto, sim. O que é a depressão? É quando a gente deixa de pensar.

Deixa de querer viver. 

Não sei. O suicídio é uma coisa complexa. O suicídio é a morte de um outro. Estou a matar uma parte para viver com a outra eternamente. Fazia-me impressão o sentimento de imortalidade que havia nas pessoas que faziam tentativas de suicídio e que sobreviviam. Elas não se estavam a matar a elas. O meu bisavô, quando se matou, estava a matar o cancro. Uma coisa aprendi: ninguém, tenha a idade que tiver, está preparado para morrer. E a nossa capacidade de sobrevivência é através dos artistas. Aquele concerto de Ano Novo, em Viena, que eu vejo sempre, comovido até às lágrimas: aquela música do Strauss é uma tal vitória sobre a morte... Sinto-me vingado. A grande arte é essa.

A que nos vinga, a que nos enche de vida?

O quadro que eu prefiro é As Meninas, do Velasquez. Aquilo é um grande livro, um grande tudo. Mas onde é que está o livro? Não há livro, há vida. Aquele quadro ou o Vermeer: enquanto houver pessoas destas, a nossa vida não foi em vão. Não acabou com o absurdo final e a injustiça final da morte. 

Esse é o último combate? Com a morte, o tempo.

O Ovídio escrevia: "Os meus livros hão-de resistir ao tempo, ao fogo e ao ferro." E resistiram. Dois mil anos depois, aquilo pertence a todos nós. Julgo que era isto que o meu pai intuía que não era capaz. Uma vez mostrou-me uns contos que tinha escrito; "Quer que fale como seu filho ou como escritor? Se quer que fale como escritor, isso é uma merda." Meteu aquilo numa gaveta. De facto, eram uma grande merda. Uma coisa é ter a sensibilidade, outra coisa é ter os meios de expressão. Para escrever é preciso orgulho, paciência e solidão. Um livro é uma coisa que consome dias e noites, e vive ali, num corpo a corpo constante. O único mérito é trabalhar muito. Se tivermos sorte, é ficar como As Meninas ou Ovídio. 

Interessa-lhe o que as suas filhas lêem nos seus livros?

Nunca falámos sobre isso. Nunca lhes falo sobre o que faço, nunca lhes peço opinião. Nem peço a ninguém.

Não está interessado em saber? 

Acho que é uma pergunta íntima. Deve ser difícil ser minha filha. O nome torna-se pesado. Elas fazem uma separação clara. Para elas eu sou o pai. A Isabel [a filha mais nova], que está em Londres, estava toda orgulhosa porque na faculdade de uma delas [flatmates] iam fazer "um curso sobre o pai". "Já leste algum livro?", "Nunca li nenhum." A conversa ficou assim. E é uma chatice terem um pai público.

Porque as rouba?

Provavelmente. Carregam um nome pesado, que para mim já é pesado. No outro dia estava ao espelho a fazer a barba: "Eh pá, sou o António Lobo Antunes." Tudo isto que me aconteceu... Eu tinha sonhos de glória aos 15 anos, queria descer a Avenida da Liberdade a acenar à multidão entusiasmada. Até perceber que a glória não é o mais importante.

A glória não tem importância?

É hipócrita dizer que não é agradável. A unanimidade é assustadora, mas é agradável. A quantidade de gente que me diz na rua: estou à espera que ganhe o Nobel. E vão ter uma desilusão amanhã. Até pode ser que ganhe, mas aquilo é uma lotaria, não me parece haver um critério.

O que é que o reconciliou com a vida? Dantes era recluso, zangado. 

Sempre gostei de viver. Percebo a ideia da sua pergunta.

Agora comove-se muito mais e fala de ternura.

É natural, porque passei por uma experiência radical. Foi um preço muito alto, mas talvez pelas coisas boas a gente tenha de pagar um preço alto. 

Viver é um ofício. Ofício de viver.

Pavese. Ele também escreveu: "Virá a morte e terá os teus olhos". Mata-se num quarto de hotel, em Turim. 

Ocorreu-lhe o suicídio?

Claro que sim, como a toda a gente. Mas mais como devaneio. Em mim é muito clara a consciência da missão. 

Por acaso estava a pensar no período da doença.

Aí não. Estava a fazer a radioterapia e falava com o cancro: "Morre, morre, morre." Insultava-o. Enquanto na guerra o inimigo está fora e pode matá-lo, aquilo está dentro de si. É uma parte sua que se revolta e a quer destruir. Tive a sorte de ter um bom sistema imunitário e acho mesmo que Santo António me protegeu. É engraçada a relação com Deus. Dantes zangava-me quando via a morte de crianças. Agora já assisto a isso melhor. Como aceito a minha. Que é que vai ficar de mim? Livros. Já não é mau. Já não é mesmo nada mau se eles forem aquilo que eu acho que eles são.


Pública
12.10.2008

12/10/2008

Paulo Afonso Ramos: opinião sobre Livro de Crónicas


Mais um domingo com todos os que já perdi. Um sol abrasador que me impede de sair de casa. A idade teima em restringir-me os desejos e, nas limitações do meu corpo, rendo-me, sem que antes tenha lutado para modificar o que quer que seja.
 
Pego no livro – Livro de Crónicas – de António Lobo Antunes, e começo uma nova etapa, talvez para esquecer a minha realidade ou para deliciar-me nos prazeres de uma escrita atenta e tão real que me adormece o desejo.
 
Desfolho cada página com uma ansiedade crescente para que depressa possa chegar ao fim de cada crónica que escreve. Quero receber cada mensagem ali deixada e satisfazer a minha curiosidade em cada final. Deixo-me ir nas palavras do autor e até consigo ver as imagens que desenha com as palavras. Sinto as suas metáforas como se tivessem vida.
 
Não paro. Nem a surpresa cabe em mim, quando leio os passos dados pelo autor pelos mesmos sítios pisados por mim. Sinto-o omnipresente. Sinto que pertence à vida que vivi e que percorreu os mesmos lugares públicos que percorri e, na semelhança, até descubro que gostamos do mesmo filme que, na época, era cabeça de cartaz.
 
O meu domingo é mais sorridente assim. O sol já não importa se queima ou sorri e o meu corpo já não me impede de viajar aos lugares mais desejados pelo meu pensamento abstracto ou lúdico.
 
De tudo, sobra-me a vontade de escrever, de escrever como o senhor António, de ter a coragem de escrever muitas frases entre outros, algumas com a fragrância da verdade rejeitada e outras com a dureza dos tempos que já esquecemos. Mas não! A minha consciência pede-me calma, ilumina-me a realidade e diz-me que não será, de todo, possível escrever como o senhor António. Ele é, de facto, alguém que domina as palavras e que brinca com as personagens do seu eu. É, portanto, alguém de outra esfera superior. Resigno-me à minha realidade, mesmo antes de o tentar. Que importa afinal, se o prazer da sua escrita me seduz em cada leitura que faço? Que interessa, se cada crónica sua é um alimento que preciso? Não importa. Nada mesmo, porque basta-me que cada leitura tenha sido acompanhada por um soberbo prazer. Sobra-me ainda a vontade de escrever, a minha maneira, com as minhas palavras e os meus sentimentos retirados de mais um domingo igual a tantos outros que já perdi.
 
Um dia talvez conheça o senhor António e os meus olhos brilhem pedindo um aperto de mão e umas palmadinhas nas costas. Talvez seja o momento maior de um domingo qualquer por acontecer. Por ora, deixo-me extasiado entre os sonhos desejados e a realidade que aquele Livro de Crónicas me empresta. Resta-me agradecer-lhe e esperar por um domingo qualquer. Obrigado senhor António.


Paulo Afonso Ramos
08.09.2008

11/10/2008

SIC Notícias, entrevistas de Mário Crespo - 2. O Arquipélago da Insónia


SIC Notícias - Jornal das 9
emissão do dia 10 Outubro 2008

do lançamento de Arquipélago da Insónia


Dividido em quatro partes:

1.


2.


3.


4.


duração total: 30 minutos aproximadamente

João Céu e Silva: sobre O Arquipélago da Insónia


A insónia criativa de Lobo Antunes em novo livro

Em muitas madrugadas recentes, António Lobo Antunes toma um comprimido para dormir ou senão passaria essa parte do tempo, em que deveria estar a dormir, a "corrigir o livro que está a escrever". Já não se trata do volume O Arquipélago da Insónia, que está à venda a partir de hoje, mas do próximo livro cuja primeira versão quer ver concluída ainda este ano.

Mas se as suas noites não são de insónia, tal não quer dizer que viva fora do seu arquipélago porque, mais do que nunca, o escritor está a viver para os livros... Livros? É que, apesar de serem catalogados como romances, Lobo Antunes afirma que não tem a certeza de estar a escrever este género literário! Será mais uma outra coisa, que possui essa característica, mas por se exigir a si próprio cumprir-se como escritor que faz algo para além do seu tempo e que, como confessa, não o torne uma unanimidade antes de um futuro, momento em que a revolução que pretende inscrever nas suas obras só então possa ser realmente compreendida. Talvez, por isso, quando recebe mais um dos muitos e importantes prémios literários - como tem acontecido - receia que essa unanimidade seja mau prenúncio para o que pretende pôr na estante da literatura.

O mais recente livro é o 20.º título que publica se excluirmos os três volumes de Crónicase as Cartas da Guerra que as suas filhas recolheram e editaram. Desde Memória de Elefante que António Lobo Antunes percorre uma vida literária que no próximo Verão irá celebrar trinta anos. Pelo meio ficou um ciclo inicial de três obras que expurgam as suas feridas da Guerra no Ultramar; um volume - Fado Alexandrino - que o seu pai considerou definitivamente um romance; uma primeira trilogia de romances psicanalíticos - desde oTratado até Carlos Gardel - sobre vida e pessoas triviais; uma segunda série de romances de grande fôlego como O Manual os Inquisidores e O Esplendor de Portugal até que o autor entrou numa retratação mais intimista da sociedade portuguesa (aquela que vigora nas cidades), fixando algum do cosmopolitismo nacionalista e português como cenário para o florescimento das personagens bastante vezes desprovidas de nome e de caracterização. Pelo meio, ficaram as colectâneas de crónicas que tanto seduzem os (proto) leitores de Lobo Antunes e, a ultimar a sua mais recente fase, livros de uma maior e inesperada cumplicidade com o tempo em que vive, como é o caso de O Meu Nome É Legião, onde pontuaram jovens delinquentes de que a primeira notícia da sua existência poderia ter estado nas páginas de crime dos jornais.

Em O Arquipélago da Insónia, o autor regressa geograficamente a dois panoramas naturais que lhe dão prazer: o bucólico interior de um Ribatejo cujo rio que o atravessa desagua na Trafaria. É aqui, nestas duas localizações, que prende as personagens ao correr de uma divisão em três partes e fá-lo em apenas metade do espaço que habitualmente dedica à sua narrativa: 263 concisas páginas.

Para o leitor habitual de Lobo Antunes, esta diminuição gráfica do que fica registado entre as duas capas poderá ser uma surpresa mas, como diz o escritor - que tem o desejo de colocar nesta medida a "vida toda" -, quer chegar à última palavra ("nunca") sem jamais se sentir fora daquilo que é o resultado da experimentação literária por que tem lutado.

Em O Arquipélago da Insónia o autor faz um quase travelling cinematográfico que se cola/sobrepõe a um exercício de estilo literário ainda mais inovador do que tem entregue aos leitores na última fornada de títulos, com uma ou outra excepção, que terá origem no mundo particular de um autista, não se desobrigando o autor a utilizar todas as ferramentas necessárias à análise histórica e social que fizeram o século XX.

por João Céu e Silva
09.10.2008

30/09/2008

crónica da digressão norte-americana para apresentação do livro Que Farei Quando Tudo Arde?


Jornal Publico - Rui Cardoso Martins
crónica da digressão norte-americana para apresentação do livro Que Farei Quando Tudo Arde?
29.09.2008


Que farás, América, quando arder tudo? (excertos)


António Lobo Antunes fez uma digressão de oito dias pelos EUA. Lançou um livro, deu conferências, viu velhos e novos amigos. Editores, escritores, críticos, agentes, um êxito. Da NYPL à New York Review of Books. O escritor Rui Cardoso Martins conta como foi.

«No comboio de Washington para Nova Iorque» Foto Público


Washington D.C. Sétimo Dia

Há momentos em que acho que sim, posso pensar o que quiser e o que penso é verdade, por exemplo que tudo continua na mesma, não aconteceu nada, estamos bem

O americano médio. Estou a tentar pensar como o americano médio. O americano médio.
- Prefiro o pais simpático que sabe agir com dureza ao filho espertalhão, diz António Lobo Antunes. O McCain é o pai, o Obama o filho espertalhão.

Na residência do embaixador português João de Vallera pode-se fumar, é território livre na cortina de antifumo que se abateu sobre os EUA. O escritor faz as duas coisas ao mesmo tempo, não o deixaram até agora, sete dias depois. Fuma e pensa, em Washington, num sofá. A digressão literária calhou na semana do precipício da economia de Wall Street e termina na desilusão política de um debate-seca na TV. Pelo meio, correu muito bem. Mas está preocupado e triste. Não é o americano médio, só tenta pensar como ele:

- O Obama... pensei que fosse melhor. O Truman Capote já disse tudo há muito tempo; não interessa nada o que se diz, só interessa o como se diz. O filho espertalhão.

Habituamo-nos: é a sua capacidade de lembrar milhares de palavras extraordinárias, de pessoas que ficaram na história, e misturá-las com as de  Lobo Antunes, que outros vão lembrar no futuro. Palavras dele que passam a ser nossas, na sua única voz múltipla, como as vozes dos seus romances. Se tivermos a chave da coisa. Se calhar é como defende, "o nome do leitor é que devia vir na capa", e fomos nós que acabámos de dizer, as palavras mais simples e leves, as mais pesadas, e também as que se anulam a si próprias. Num dia, ouço-o explicar em público que escrever é muito difícil e exige três coisas: paciência, orgulho e solidão. No outro dia, afinal, escrever não é nada difícil: é impossível. Nos seus livros - depois dos seus livros -, espalhados pelo mundo em vinte línguas, como uma doença portuguesas, custa muito procurarmos a mentira e encontrarmos a verdade.

Eu, que o acompanho por Nova Iorque, Boston, Washington e Nova Iorque outra vez, arrastando várias malas de livros de chumbo (de outros, para ler em casa), e duas ou três  mudas de roupa, por avião, táxi, limusina, comboio (faz redacções no comboio, a letra "fica toda torta"), pés e sapatos, assisti várias vezes ao fenómeno. O editor de Lobo Antunes, o imparável Bob Weil, da Norton, talvez a mais prestigiada editora independente americana, gritava na sala cheia da New York Public Library (NYPL) que, no dia em que leu a segunda cópia da tradução, ele que já publicou dos melhores,
- Fiquei literalmente, mas literalmente, blown away [siderado, estraçalhado...], como não aconteceu com nenhuma outra obra de ficção com a qual tivesse trabalhado antes, senhoras e senhores!

Se falarmos com Bob Weil vemos logo que ele não tem exactamente uma vida sua por detrás dos óculos, dos passinhos rápidos, da saqueta de livros a tiracolo para distribuir como um ardina.
- Bob, sabe de alguma coisa interessante a acontecer, um espectáculo em Nova Iroque?
- Eu só faço livros.

Para o ano publicará mais um livro de crónicas de Lobo Antunes, é o que ele faz. Na New York Public Library, ouvi Bob entusiasmar-se e apontar para What Can I do When Everything's on Fire?, a tradução de Que Farei Quando Tudo Arde? (ed. Dom Quixote, Portugal). Quatro ou cinco anos nas mãos de Gregory Rabassa, que universalizou em inglês García Márquez, Cortázar, Vargas Llosa, Lexama Lima, etc. O velho professor tem 86 anos e um laço de seda ao pescoço, adora Nova Iorque mas ainda vai a todo o lado, e supira
- Mestre António...
Quando se abraçam. Traduziu Fado Alexandrino e As Naus, antes deste.

Na contracapa do livro, George Steiner, um dos cérebros lúcidos do mundo, chama génio ao português. E Harold Bloom, o mais famoso crítico literário: "Este é um extraordinário romance de um dos escritores vivos que mais importância terão no futuro. Lobo Antunes escolhe manifestar a sua dívida a Freud, Joyce, e  Faulkner, à superfície, mas nas profundezas é um grande original." E acrescenta que o livro é uma visão negra da realidade, e cruel, que vai deixar a sua marca nos leitores por todo o lado... palavras para quê?

Vi Paul Holdengraber, director de programas da Biblioteca Pública de Nova Iorque (NYPL), numa semana em que outros convidados de honra seriam Paul Auster e Spike Lee, tentar tirar de Lobo Antunes mais coisas do que ele queria dar nessa noite, mas cada vez mais divertido com os exemplos e paradoxos que ouvia do escritor:
- Descobri o que é a democracia com La Fontaine. Um cão pode olhar um bispo. Eu nasci num país em que só o bispo podia olhar o cão.
ou
- Portugal não é Europa, é um lugar estranho. Gosto de mulheres portuguesas, pequeninas, de bigode.
e
- Não sou um homem modesto, mas sou humilde. Sou uma galinha que guarda os seus ovos.
e
- O que é a história num bom livro? Anna Karenina: uma mulher tem um marido aborrecido, começa a dormir com outros homens e... olhe!
- Nunca tinha ouvido o resumo de Anna Karenina de forma tão concisa, vou recomendá-lo aos estudantes de liceu, concordou Paul Holdengraber.
- Então e a história de Ulisses, da Odisseia? "Chego tarde a casa".
E todos riam, porque além disso
- Comecei a escrever por causa do Mickey Mouse, do Flash Gordon, do Sandokan, aos cinco.

Até que , por falar em cinco anos, e quase de repente, contou do hospital de crianças cancerosas onde trabalhou depois de voltar da guerra de Angola e de como nesse hospital se zangou com Deus, apesar de não ser um homem religioso. Estava lá um miúdo de cinco anos com leucemia, muito bonito, de olhos grandes e, na sua opinião, Deus não tem o direito de pôr uma criança a gritar por morfina. O rapaz morreu e vieram dois homens com uma maca, mas como o morto era muito pequeno, bastou um homem enrolá-lo num lençol e levá-lo ao colo pelo corredor, mas um pé da criança saiu do lençol e ele viu o pé afastar-se, balançando no ar.
- Nesse dia decidi: vou escrever para aquele pé.

Talvez já tenham visto uma plateia de nova-iorquinos, professores, académicos, leitores, intelectuais, as pessoas mais cosmopolitas do mundo, a engasgarem-se nas suas próprias salivas silenciosas. E Paul Holdengraber é um orador nato, um conversador de resposta pronta. Uma hora antes tínhamos visitado a sala de leitura. Por baixo de nós, sete andares subterrâneos com 52 milhões de livros.

Quarenta funcionários invisíveis nas caves, a carregar vagõezinhos como no tempo do carvão. Mas há um sistema hidráulico e de ar comprimido para os livros chegarem à superfície rapidamente. E computadores pessoais abertos em cima das mesas não fazem mal aos livros.

António lia uma inscrição dourada por cima da porta, na madeira, onde se dizia que um bom livro é o precioso sangue da vida do espírito, que nos poderá levar para uma vida para além da vida. Nunca ali tinha estado e disse ao director:
- Para mim isto é o paraíso.
- Sim.
E discutiram Borges.

Eu disse ao director que também nunca tinha ali estado, na sala de O Dia Depois de Amanhã, quando uma onda gigante e o zero absoluto atacam Nova Iorque, com uma súbita e catastrófica alteração climática (George W. Bush no pano de fundo) e os sobreviventes, para não morrerem congelados, começam a queimar os livros de direito e finanças, que pouco serviram o mundo e alimentaram ganâncias e injustiças.
- Conheço esta sala pelo filme...
- Ainda estamos de pé, riu-se ele, o que era verdade.

E uma hora depois era Paul Holdengraber quem se engasgava, em silêncio comovido, ele e mais duzentas pessoas que lêem romances, gostam disso e fazem-no muito, porque António Lobo Antunes disse que a vida é uma honra, um privilégio, e que tinha decidido escrever para o pé do menino morto que balançava no corredor, zangado com Deus.

Alguém explica, em Que Farei Quando Tudo Arde?:

pedi ao sujeito da pensão que me levasse ao sotão onde morava Deus

Nova Iorque, vários dias

Já fui bonita um dia sabia?

- Credo
repara como este pulso treme, o que sucedeu ao meu pulso, a gente põe o indicador e percebe o coração a falhar

Armei as coisas com um esqueleto de palavras de Que Fazer Quando Tudo Arde? Ver a grande América, nestes dias, é observar um corpo estendido na maca (mais uma vez, um sítio de doença). Uma mulher bela de ossos partidos, muito, muito assustada, o vestido de luxo rasgado, o salto direito quebrado, onde é que gastei o meu dinheiro todo, onde é que eu caí, quem me ajuda a sair daqui, ainda tenho casa para morar? Não sabe, nem os médicos, se via levantar-se nas muletas e coxear para fora do sítio escuro, ou, pelo contrário, fechar os olhos para sempre e entregar-se às bactérias que comem carne, arder nos crematórios de Wall Street, Setembro de 2008. Um pequeno mas firme esqueleto de palavras, porque ninguém sabe para onde caminha o mundo, estes dias.

Na primeira noite em Nova Iorque, António Lobo Antunes conheceu o editor, Robert (Bob) Weil. Julgava-o, pela voz do telefone que cruzara o Atlântico, um homem alto, loiro, elegante, o que não é verdade, agora que ele é culto e "esperto que nem um alho" conclui-se num minuto.

Fomos jantar ao restaurante mais perto, o Rossini's, esquina de Park Avenue com a Rua 36. Na parede de entrada, fotografias de actores da série Os Sopranos, que vão lá comergnochi risotti de espargos com frequência (um deles, tio ficcional de Tony Soprano, tem fatos diferentes nas fotos). Também a imagem de Rudolph Giuliani, o mayor republicano da cidade no dia 11 de Setembro de 2001, num fundo de veludo carmim. Os homens, a começar pelos empregados, estão bem penteados para trás, há fatos de seda, camisas salmão e relógios.

- Que engraçado. Parece um filme do Scorcese.
- Sim.
- Os italo-americanos são muito diferentes dos italianos de Itália.
- Ah sim?

Sem querer, Lobo Antunes derruba um cálice de tinto e a toalha branca fica como se imagina, mas o chefe de mesa, delicado, irrebatível, muda todos de mesa e emplastra a toalha vermelha, sanguinolenta, um sudário que é levado para a copa por dois homens rápidos. Se as autoridades entrarem de repente já não encontram vestígios do crime do escritor, dois minutos depois. O local está limpo, boss.

Ouvimos Bob Weil falar da família judia, da saída da Europa, do avô que em São Paulo escolhia uma galinha para o jantar, no meio da rua, e o vendedor ambulante torcia o pescoço da galinha e entregava-lhe, era como se ia às compras frescas no Brasil de há cem anos, agora está tudo muito mudado.

Dois dias mais tarde, noutro jantar, Bob admitirá que poderia escrever melhor do que muitos dos seus autores, se o quisesse,
- Não é o seu caso, António, nem pensar!
mas do que ele gosta é de editar a sério: de ler, cortar, sugerir, escolher, socializar, isto é, de trabalhar 100 horas por semana.

Na primeira noite, temos que sair antes da sobremesa. É impossível falar de política, e de ilustrações de capa, e das maneiras de cortar o papel e imprimir livros, e que escritores velhos e novos vale a pena ler hoje em dia, e agora a crise económica, isto nunca esteve tão mal desde a Grande Depressão dos anos 30, e da terrível guerra cultural entre os que votam no Obama e os de McCain, quando uma cantora lírica, oxigenada, do cimo da escada interior do Rossini's, com a ajuda do pianista, atira para cima da nossa mesa Star Spangled Banner e, como se não bastasse, La Traviata. Canta em guincheto com um tenor italiano, um fantasma pálido, de flûte de espumante nos dedos. A mulher soprano está tão grávida que assusta. Nas notas mais agudas, é possível que o bebé saia para fora dela a cantar ópera.

[...]

Upper East Side

espreitar o interior de uma bota porque às vezes há coisas

António Lobo Antunes vai entrar no apartamento do seu editor, num cocktail privado com as melhores publicações literárias e jornais norte-americanos. O embaixador português virá de Washington (também ao encontro do Presidente Cavaco Silva, que fala na assembleia da ONU, assim como o Presidente do Irão, que veio conformar que Império americano morreu, mais uma graça de Alá, o Benevolente).

Com o interesse habitual dos espanhóis pelos melhores escritores ibéricos, isto é, portugueses, a direcção do Instituto Cervantes também não falta. [Lobo Antunes terá, nos dias seguintes, uma entrevista-conversa com os espanhóis, no edifício Cervantes, onde dirá que em Espanha se sente em casa. Mas não aparece no jantar e espectáculo com o primeiro-ministro Zapatero, no Waldorf Astoria].

O apartamento de Bob Weil fica diante de um jardim e do rio, no melhor Upper East Side. Tem um porteiro de calças azuis, caixa de correio de cobre e latão. Lobo Antunes fuma à porta, antes de subir, porque só na rua é que o deixam. Diz que já tem saudades de Lisboa. E do Cacém. Mas gosta de Nova Iorque, da altura dos edifícios, da luz, da simpatia das pessoas na rua.

- É uma cidade espantosa.
- Os arranha-céus daqui, digo eu, podem ser tão altos porque estão espetados num granito de 450 milhões de anos, descobri hoje no Ground Zero.
- Os prédios são muito bonitos. Parecem embrulhados em celofane.
[...]
A casa de Bob Weil é pequena, mas com uma vista excelente. [...] Lista rápida de presenças, muito cortada: Fran Lebowitz, escritor; Ruth Franklin, crítica de  The New Republic; Edith Grossman e Gregory Rabassa (os mais conceituados tradutores de espanhol e português); Nathaniel Rich, editor da Paris Review, e filho de Frank Rich, o colunista-estrela de política do The New York Times (que não pôde vir, muito trabalho nesta altura de eleições); Ann Goldstein, da New Yorker; o director da Random House; o da Knopf; Bret Stevens, do Wall Street Journal; um crítico do Los Angeles Times e o director da editora Norton. António Lobo Antunes agradece a todos, eles é que lhe agradecem a honra, com palmas. No fim, chega, quase a correr, o director da New York Review of Books, Robert Silvers, um senhor alto, de cabelo grisalho. Traz na mão dois exemplares acabados de imprimir, a cores, da revista. Dizem-ma a melhor do mundo, eu não conheço melhor, confesso, e também nunca a tinha visto tão fresca, ou voltarei a ver, iamgino. Deram-me um dos exemplares, a cheirar a tinta. Tema caricatura de Sarah Palin com um stick de hóquei. No próximo número, diz-se, devera publicar duas das crónicas e uma crítica sobre o escritor português António Lobo Antunes, candidato ao prémio Nobel depois de ter já ganho tudo o que havia para ganhar, dessa conversa ninguém vai escapar mais uma vez.

a minha mãe a sacudir uma chávena com uma mosca dentro e a mosca
enorme
no tapete anunciando
- Sou uma mosca

Lobo Antunes desconfia dos prémios literários porque um escritor deve andar à frente do seu tempo e, se há muita unanimidade, alguma coisa fez de errado. O cheque, no entanto, é bem-vindo. Lobo Antunes não gosta dos substantivos abstractos. Foi em nome de Pátria, Glória, etc. que o regime mandou a sua geração para África - "numa guerra nunca há vencedores", "na guerra não se fala de guerra" - para morrer e matar. Havia um sistema de pontos pela morte de civis, quantos mais pontos (mulheres e crianças = pontos) mais hipóteses de te mudares para um sítio melhor. Contou-o na Universidade de Nova Iorque, para os estudantes de língua portuguesa. Perguntaram-lhe se houve algum acontecimento que o inspirasse para Que Farei Quando Tudo Arde?, um longo poema de vozes, em que, por exemplo, um rapaz lmbra a sua pobre e humilhante vida, filho de um travesti. Lobo Antunes disse que começou com a reportagem de Tereza Coelho sobre o enterro simultâneo de Ruth Bryden, travesti e artista de Lisboa, por doença, e do seu namorado suicida. Disse também que Tereza Coelho, sua editora na Dom Quixote, ali sentada na plateia, foi também "uma excelente jornalista"

[declaração de interesses: sou casado com Tereza, temos dois filhos]

- Li essa reportagem da Tereza, depois esqueci.

Mais tarde, no hospital psiquiátrico, soube de um rapaz internado que não dizia palavra. Era o filho do travesti. Foi ter com ele, o rapaz disse:
- O meu pai era um palhaço.

O escritor falou com travestis na rua, perto da sua casa, em Lisboa, viu que vidas miseráveis levavam, mas teve "uma grande desilusão".
- Não falavam de si, só queriam contar-me que tinham dormido com este e com aquele político muito importante.

Portanto, foi assim que começou o romance. Só faltava fazer tudo.

Fotografo o reencontro de Lobo Antunes com Tom Colchie, o agente literário que há cerca de trinta anos lhe escreveu de Brooklyn para Lisboa, oferecendo-se para o representar. Tinham saído em português os romances Memória de Elefante e Os Cus de Judas, mas pensou que era brincadeira. Tom Colchie voltou a escrever a António Lobo Antunes avisou o agente de que ia só gastar dinheiro com ele. Colchie respondeu "vamos conquistar o mundo". Às vezes perguntava se António estava a escrever.
- Sim, mas está uma merda.
- Óptimo, é bom sinal.

Os dois amigos jantaram, irão um dia reencontrar-se na Europa. Lobo Antunes elogiou o amigo na NYPL, à frente de todos.
- O Tom, além do mais, é das pessoas com mais faro que eu conheço.

Wall Street, Boston, Washington D.C.

[...]

as palavras não lhe saíam da boca mas à roda da boca, lesmas que se me pegavam à pele e eu sacudia com força

António Lobo Antunes admira a cultura e "a capacidade de raciocínio" dos motoristas norte-americanos. É ele quem se encarrega, para meu alívio, da clássica rábula jornalística "A Opinião do Taxista". A primeira pergunta que faz, sempre que entra num carro, vindo do aeroporto, a caminho da estação de comboios, para o Ateneu Literário de Boston, para aqui e para ali, é:
- Quem é que acha que vai ganhar? O Obama ou o McCain?
- Well...
- Na Europa somos quase todos a favor do Obama.
- Oh, I know that.

Apanhamos mais gente do Obama, mas a coisa não é simples. Antony, que nasceu na Polónia, vota McCain pela sua experiência e porque Obama é um socialista. Outro vota Obama porque é preciso mudar tudo de alto a baixo, mas não está convencido da vitória, nem pouco mais ou menos. Uma senhora diz que emigra imediatamente se ganhar o McCain. O caso mais bicudo acontece me Boston, simpática cidade universitária Onde António Lobo Antunes foi de comboio, a convite do Departamento de Estudos Literários e Culturais Portugueses.
- É uma cidade muito verde. Parece a Bobadela, conclui o escritor.

O motorista de Boston disse-nos que estava com medo, mas com medo a sério. Muitas pessoas vão perder os seus empregos. tem mulher e três filhos. Os filhos serão claros e ruivos como ele. Toda a vida votou no Partido Democrata, gostava do Bill Clinton, que pôs a economia em ordem, toda a vida votou democrata e é por isso que agora vai votar McCain.
- Um democrata a votar no McCain em vez do Obama?, diz António, de boca aberta.
- Sim. Pela sua experiência.
O outro não tem experiência. Não é racismo.

alguma coisa há-de acontecer até amanhã de manhã

Digo a Lobo Antunes que Paul Newman morreu enquanto nós dormíamos. Sim, foi depois de vermos o Obama e o McCain na televisão do embaixador, em Washington. De madrugada, nem veio nos jornais americanos. Na verdade, soube a notícia porque me telefonaram do PÚBLICO a adiar as páginas. Silêncio.

- Não imagina o desgosto que me dá, Rui. Era um homem admirável e uma óptima pessoa. O Elia Kazan dizia que as pessoas nunca perceberam como era bom actor, por ser tão bonito. O Paul Newman morreu...

O Jardim de Cristal. A Cor do Dinehiro.

Diz-se entretanto por aqui que faliu mais um banco.


escrito por Rui Cardoso Martins para o
Público, 29.09.2008

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...