31/05/2008

LER: O solitário que aprendeu a viver de outra maneira


Revista Ler - entrevista de Carlos Vaz Marques
Maio de 2008



Escrevo pela mesma razão que a pereira dá peras


Está no seu cantinho à espera que as palavras cheguem. No mesmo canto onde escreveu todos os últimos livros e onde tenciona escrever os próximos. No canto de uma garagem reconvertida em ateliê de design onde, até nos meses de pousio, quando não está a escrever nada, vem sentar-se em silêncio. Fala muito baixo, às vezes quase para dentro, numa toada lenta e encantatória. Mesmo ao falar do desagrado por aquilo que considera a falta de rumo da editora que lhe publica os livros. Que lhos publicou até agora mas que ainda não sabe se lhe publicará o próximo. Está pronto desde Novembro e vai intitular-seO Arquipélago da Insónia. O grupo Leya, que comprou a Dom Quixote, pediu-lhe "uma oportunidade". Ainda não sabe se vai querer dar-lha. O facto de também Saramago estar no mesmo grupo editorial não é relevante. Continua a surpreender-se, aliás, com a persistência com que os nomes de ambos aparecem tantas vezes referidos em conjunto. Nunca leu um romance de Saramago mas leu o suficiente para saber que não têm nada a ver um com o outro. Lê sobretudo poesia e é aos poetas que ele mais inveja. Ultimamente descobriu também o prazer dos policiais e tem encontrado em Nero Wolfe, de Rex Stout, uma boa companhia. Embora, agora que começou um novo livro, leia menos. O livro novo está a chegar-lhe "com ímpeto". António Lobo Antunes está de novo a cem por cento.


O que é que está a escrever?
Não sei, Carlos, não sei.

Ainda está no nevoeiro?
Estou sempre no nevoeiro. Quer dizer, tenho algumas noções do que é o livro. Já há vários livros que eu andava a tentar escrever uma coisa baseada na estrutura, por assim dizer, da corrida de toiros: antes da corrida, tércio de capote, tércio de varas, tércio de bandarilhas, faena, sorte suprema. E depois a corrida. É isso que tenho estado a tentar fazer. Mas isto é apenas o segundo capítulo. Fiz um primeiro muito lento. Fiz um segundo surpreendentemente rápido. Vamos ver.

Gosta de touradas?
Gosto. Da tourada à portuguesa não tanto. Gosto da tourada à espanhola. Mas não vou muito. Não era isso que me interessava mais. Isso era apenas um pretexto para uma estrutura. Gosto da tourada mas o meu problema não é gostar ou não gostar, é ela ser-me útil para o trabalho. Vamos lá a ver se sou capaz de o fazer. Não sei.

Este é o primeiro livro  que começa a escrever, de início, depois da doença que teve no ano passado.
Não tinha tempo para mais, não é?

O que lhe quero perguntar é se essa experiência por que passou marcou de alguma forma aquilo que está a escrever.
Nada. Pela primeira vez aconteceu-me interromper um livro durante três ou quatro meses. Nunca pensei ser capaz de pegar nele outra vez. Estou a referir-me ao próximo livro que vai sair. [Arquipélago da Insónia] Porque os livros que eu tenho escrito saem sempre, aqui em Portugal, pelo menos um ano depois de estarem acabados. Para dar tempo aos tradutores de os traduzirem.

O susto porque passou não se intrometeu, portanto, na sua escrita...
De forma consciente, não. Os livros são autónomos, sabe. Eu escrevi livros nas circunstâncias mais variadas. Comecei um livro ao lado de uma pessoa que estava a morrer. Um outro (A Ordem Natural das Coisas) muito perto de outra pessoa também a morrer e cuja morte foi muito dolorosa para mim. Quando estou a escrever não existe nada a não ser o livro. Isso é muito bom. Na guerra, os meus camaradas sabiam que eu escrevia - era impossível ter segredos naquela situação - mas sabiam lá o que é que eu escrevia... Em África, escrevia todos os dias. Na altura, não pensava publicar nada. Comecei a publicar por acaso. Mas julgo que escrever naquela situação foi muito importante para mim. Havia uma parte de mim que continuava viva. Isso fez com que viesse de lá, tanto quanto tenho consciência, sem grandes sequelas. Claro que as trago. Há coisas que não cicatrizam. Mas penso que o meu grau de sofrimento é muito inferior ao da maior parte dos meus camaradas.

Por ter para onde canalizar esse sofrimento, pela escrita?
Não diria para canalizar. Era para sentir alguma dignidade humana dentro de mim. Sobretudo isso.

Perguntei-lhe se tinha havido algum efeito da doença por que passou porque disse, depois do período de convalescença, que agora joga com as cartas viradas para cima...
Ah, é óbvio que passar por uma experiência destas muda radicalmente uma pessoa.

Mas não muda radicalmente a relação que tem com aquilo que escreve?
Não sei. O livro cuja segunda metade foi escrita depois e a primeira metade antes, eu não o li. E este, não sei. Vamos ver.

Explique-me lá melhor o que é queria dizer com essa ideia de ter passado a jogar com as cartas para cima.
É não haver mentiras, não haver disfarces. Sabe, julgo que aprendi a ter um maior sentido ético na vida. Não por mim, que pouco valho. Mas por respeito pelas pessoas que vi sofrer. Com uma dignidade que muitas vezes me fez ter vergonha de mim mesmo. Passei a ter muito mais respeito pelas pessoas. Não quer dizer que as desrespeitasse. Mas é um respeito muito mais consciente e, sobretudo, é o descobrir, maravilhado, que há muitas pessoas melhores do que eu. Eu, António. Depois há o António Lobo Antunes que escreve livros. Mas esse só existe enquanto escreve.

Dissocia muito claramente o António, cidadão, do António, escritor?
Como cidadão praticamente não existo. Levo a minha vida tão arredado de tudo... O Carlos sabe que eu sou bicho-do-mato. Não frequento eventos, não participo em nada. Tenho uma vida muito solitária, muito fechada. Tenho poucos amigos. Com esses dou-me, claro. Portanto não faço vida social. Não tenho importância colectiva, no sentido em que não intervenho. Praticamente nunca intervim em qualquer coisa que se passasse à minha volta. Sempre achei que tinha de proteger os meus ovos. Nisso, sou um bocado galinha. E os ovos são os livros. Dora dos livros não acho que a minha opinião deva ser valorizada. Não me sinto consciência moral de nada, como outras pessoas se podem sentir. Sou um indivíduo, apenas.

Não valoriza a velha categoria do intelectual, com voz pública sobre os problemas da comunidade?
Não. Começo logo por não gostar da palavra intelectual. Sabe como é que a palavraintelectual nasceu? Com o caso Dreyfus. Referia-se a engenheiros, médico e por aí fora. Pessoas que apoiavam o Zola naquela sua luta e não sabiam como se haviam de chamar. Então arranjaram essa expressão: intelectual. Foi uma expressão que tomou, depois, conotações que não me agradam. A gente associa intelectual até a uma certa postura física. À barba, às dioptrias. E a um certo discurso. Não tenha nada que ver com isso.

Ter o jogo todo à vista - retomando a sua expressão - é uma decisão com implicações apenas na sua vida pessoal ou também na sua vida literária?
Tem implicações para mim mesmo. A minha vida pessoal, não vamos falar dela. A minha vida literária está à vista de todos.

Mas quando fala em ter o jogo todo à mostra...
É em relação a mim mesmo. Ganhar o meu respeito por mim. Torna-me mais intransigente nalgumas coisas mas muito mais tolerante na maior parte das situações. E mais intransigente sobretudo comigo. Em relação aos outros torna-me mais tolerante.

Não quer dizer que tenha passado a dar valor literário à sinceridade.
Claro que não. Embora na sinceridade caiba tudo, até a mentira. Todos os substantivos abstractos são perigosos: honra, glória, coragem, pátria.

São palavras facilmente manipuláveis.
Exactamente. Podemos torcê-los e fazer deles o que quisermos. É em nome de palavras destas que se têm feito as piores coisas. Eu desconfio muito dois substantivos abstractos. Como desconfio, cada vez mais, dos adjectivos. Daí fazer uma prosa cada vez mais substantiva. O meu problema é sempre o mesmo: como escrever, como escrever, como escrever, como escrever?

Esse problema acentuou-se?
Eu continuo a aprender. Tenho muito que aprender, ainda. Acho que tenho uma noção parcial daquilo que estou a fazer. É muito cedo ainda para se perceber o que eu trouxe ou não trouxe. No meu entender isto não são romances. Os primeiros, sim, são obviamente romances. Acho que a partir de O Esplendor de Portugal deixaram de ser romances.

Mas em O Meu Nome É Legião, o último publicado, volta a aparecer a designação de romance.
Sentiu-o?

Está lá escrito na folha de rosto: romance.
Ah, não reparei.

É verdade.
Olhe, isso não é culpa minha. Não tinha reparado nisso. Houve um a que eu chamei deliberadamente poema...

Que Farei Quando Tudo Arde?...
... mas neste, isso não foi feito por mim.

Por sua vontade não estaria lá a palavra romance?
Por minha vontade não estaria lá, obviamente. Esse é um livro que precisava de ser lido com mais atenção.

O Meu Nome É Legião?
Sim. Aquilo aparentemente é uma história de miúdos marginais, etc. E não era nada disso. Não é nada disso. Aquilo sou eu, todo. Repartido. Se uma pessoa ler com atenção estes livros... A partir da altura em que eu esgotei a biografia, nos três primeiros, num processo de catarse em que eu precisava de me libertar daquela ganga para depois escrever a sério, acho que os livros começaram a ser muito mais... Quem souber ler descobre lá muito mais, o retrato de um homem. Eu gostava que o leitor se descobrisse a si mesmo, também, nos meus livros. A si mesmo e ao autor, ao mesmo tempo. Nós somos tão parecidos. Todos. Agora, é óbvio que trabalho muito mais. Cada vez mais. É óbvio que um livro me custa cada vez mais. Os problemas técnicos são vividos mais dolorosamente. Aparecem a cada passo. Mas não vamos falar disso porque é maçador.

O livro que interrompeu, devido à doença, manteve-se no mesmo rumo depois da interrupção, quando o retomou?
Eu percebo a sua pergunta mas a palavra rumo talvez não fosse a melhor. Não sei qual seria a melhor palavra.

O sentido da minha pergunta é este: supondo que não tinha havido interregno, imagina o livro tal como ele vai sair?
Não lhe sei dizer. Porque ao acabar-se um dia de trabalho, no dia seguinte o livro inflecte. Às vezes dá-me vontade de continuar a escrever por mais horas. O que eu faço, então, é parar, se possível, a meio de uma frase. Se possível, a meio de uma palavra. Para tentar não torcer muito o rumo ao livro, para usar a sua expressão.

Esse livro que já está escrito vai ser publicado este ano?
Sim, no fim do ano. Penso eu. Não sei ainda o que irá acontecer. Em termos editoriais não sei o que me irá acontecer em Portugal.

O que é que desencadeou esse romance que está escrito e que ainda não foi publicado?
Às vezes, é só uma frase. Por exemplo, quando comecei Ontem Não Te Vi em Babilónia - eu gosto desse livro - a única coisa que tina na cabeça era: como é que a noite se transforma em manhã?

E com este?
Com este, não sei porquê, era: o que é ser autista? Porque eu acho que o sou um bocado. Pela minha maneira de viver, etc. É um livro mais pequeno que os outros. Relativamente pequeno. Duzentas e poucas páginas.

Já O Meu Nome É Legião era mais pequeno que os anteriores.
Sim. Este é mais pequeno ainda. Uma voz começou a falar dentro de mim. Foi assim. A fazer, a desfazer e a refazer as coisas.

E qual foi o clique para este que começou a escrever agora?
Foi um grupo de irmãos e a maneira como eles vivem a morte dos pais e a luta pelo poder entre si. Não tinha mais que isto. Cada vez começo um livro com menos coisas. Depois, se o livro é livro, anda sozinho. Faz-se a si mesmo. Às vezes, tenho a impressão de estar a assistir. Os primeiros capítulos são sempre muito penosos. Este - e ainda estou no princípio - fi-lo surpreendentemente muito depressa. Tinha contado fazer esta página[aponta a folha de papel pousada em cima da mesa, escrita numa letra miúda, a tinta azul] em quatro ou cinco dias e fi-la em dois. Isto para mim é uma coisa muito rara.

Acontece-lhe ter falsas partidas?
Muitas.

Sementes de que não resulta um livro?
Muitas vezes. Ainda não é isto. Ainda não é isto. Ainda não é isto. E a certa altura as palavras começam a surgir - como a água que se entorna no soalho, a procurar a frincha para se escoar. A segunda metade do livro leva-me metade do tempo que me leva a primeira.

Há ideias que acaba por ter de abandonar?
Sim. Lembro-me de um livro - acho que era O Esplendor de Portugal [*]- em que a ideia que eu tinha na cabeça era sobre seitas religiosas. Fiz várias versões sobre isso e não era aquilo, nunca. Até que apareceu aquele homem a falar.

Como no Manual dos Inquisidores, em que queria pôr os travestis, que viriam a entrar, alguns anos depois, em Que Farei Quando Tudo Arde?.
Exactamente. Estou-me a lembrar de um livro - o Tratado das Paixões da Alma - que foi o livro que até hoje mais me custou a começar. Fiz tantas versões do primeiro capítulo.. Sempre a eliminar coisas. A eliminar. A eliminar. Foi terrível. Três meses para fazer o primeiro capítulo. Até encontrar o caminho. Estava em Berlim, uma cidade extraordinária. Pouco antes da queda do Muro. Comecei o livro em 1989. Os começos são muito penosos.

Este começo, agora, segue-se a um período de pousio ou fez outras tentativas, entretanto?
Não. Não era capaz. Tinha acabado em Novembro e comecei a 25 de Fevereiro. Tenho que me impor uma data para começar. Fui ver ao calendário: 25 de Fevereiro. Não sei porquê. Não é uma data que tenha, para mim, nada de especial. Calhava a uma segunda-feira. Normalmente, o que eu fazia antigamente era esperar que houvesse um mês em que o dia um fosse a uma segunda-feira, para começar. Era uma forma de atrasar o começo do livro. Cada vez mais, quando acabo um livro, o meu medo é o de já estar a rapar o fundo ao tacho. A sensação de que nasci com um certo número de livros e que, se calhar, eles já acabaram. Este está a sair com tanto ímpeto que, graças a Deus, ainda vou ser capaz, provavelmente, de fazer mais alguns. Se tiver esse tempo.

Como é a sua vida nesses meses que medeiam entre o fim de um livro e o começo de um livro novo - as suas rotinas alteram-se?
Não. Leio mais. Olhe, e em vez de escrever fico aqui sentado à espera.

Vem para este cantinho do ateliê onde normalmente escreve?
Sim. Mesmo sem escrever. às vezes fico a ler. A maior parte do tempo, fico sem fazer nada. Isso é muito importante para mim. Depois, as coisas vão-se formando a pouco e pouco, sem que se tenha consciência. Nos filamentos, nos vagos sons, nos cheiros. Palavras que vêm, desaparecem, voltam a aparecer, desvanecem-se, não voltam mais. É a fase melhor. É muito agradável.

Fica a arquitectar mentalmente ideias para livros futuros?
Não. Fico a assistir. Aquilo vai-se formando sozinho. E eu a assistir. Não há nenhum esforço volitivo da minha parte. É uma fase fascinante. Estou a assistir àquilo tudo sem a responsabilidade de escrever.

Quer dizer que o que predomina é a descontracção e não a angústia de não estar a trabalhar.
Nem descontracção nem angústia. É um estado de bem-estar. Depois começa a culpabilidade: porque é que não começas o livro? Porque é que não começaste já? Quando é que vais começar?

É o superego.
Uma vez o Eduardo Lourenço estava a falar de mim e citou aquele soneto do Fernando Pessoa que começa: «Emissário de um rei desconhecido,/Eu cumpro informes instruções de além.» Isto dito assim, parece que eu escrevo como uma espécie de iluminado.

Soa a impulso místico, sim.
Não tem nada que ver com isso. É uma questão de trabalho. Escrever é sobretudo uma questão de trabalho. Há um dom que lhe é dado mas se não trabalhar muito de nada lhe serve. É tudo conquistado penosamente. Aliás, quando está a sair com facilidade, eu desconfio logo. Aquilo que vem muito depressa não pode ser bom.

Há uns anos atrás lembro-me de o ouvir dizer que só escreveria mais dois ou três livros e depois parava. O que é que alterou essa sua decisão?
Talvez o facto de a visa se ter encarregue de quase me fazer essa vontade.

O susto porque passou.
Não foi susto. Foi espanto. O Paul Klee escrevia: «Como posso eu, cristal, morrer?» Ninguém está preparado para morrer. Ninguém.

Agora já não põe um limite, uma meta, ao número de livros que quer escrever?
Não posso pôr meta nenhuma. Gostava que me acontecesse como ao Tolstoi: foge de casa, vai morrer numa estação de caminho-de-ferro e mão dele, no cobertor, ainda continuava a fazer o movimento de escrever. Eu construí toda a minha vida em torno disto. Para isto. Construí-me a mim para isto. Desde que me conheço que não me imagino a fazer outra coisa.

Apesar de ter feito outras coisas.
Mas era sempre em função disto.

Mesmo a medicina?
Sim. Obviamente nunca usei alguém que tivesse tratado para pôr num livro. Deus me livre. Isso eu não faria nunca. Eu tinha que ser médico. Tinha que ganhar a vida.

A escrita pesa sobre si, de algum modo, como uma obrigação?
Não. Eu é que talvez pese sobre ela como uma obrigação. Escrever sempre foi o centro da minha vida. E ler, claro. Ler. para mim, é uma fonte de prazer imenso. Descobrir um livro novo, um autor que não conheço e de que gosto. É uma maravilha.

A motivação com que escreve, hoje, ainda tem alguma coisa a ver com aquela que escrevia quando publicou Memória de Elefante?
Foi sempre a mesma coisa. Eu não escrevia por estar motivado. Escrevia porque tinha que escrever. Não era uma questão de destino, nem de obrigação. É qualquer coisa... Não sei explicar de onde é que isto vem. Sei lá, deve ser pela mesma razão que a pereira dá peras. É difícil falar sobre isto. Tenho sempre muito pudor em falar sobre isto. Se eu falar sobre isto estou a falar do mais íntimo de mim.

Como é que avalia hoje, retrospectivamente, aquele outro António Lobo Antunes que durante muitos anos escreveu para a gaveta?
O importante não era publicar. Era escrever. Portanto, acabava os livros e deitava-os fora.

Por isso é que lhe perguntava se é ainda o mesmo.
É claro que é a mesma pessoa. Aqui há tempos, morreu um tio meu de que eu gostava muito. Na semana passada, a viúva dele, a minha tia, deu-me umas cartas que eu tinha escrito para ele quando tinha vinte anos. Já era a mesma pessoa. É extraordinário. Igual.

Mas os livros são muito diferentes.
São. Mas olhando com atenção... Eu também tinha essa ideia mas o meu editor francês - o Christian Bourgois, que morreu há pouco tempo, um editor genial - disse-me: «Olha, já está tudo aqui, não percebo porque é que não deixavas que o livro fosse traduzido.» Eu não deixava traduzir o Memória de Elefante, achava-o muito imperfeito. Surpreenderam-me as imperfeições mas, ao mesmo tempo, surpreendeu-me a força extraordinária que aquele livro tinha. Mesmo com as suas imperfeições todas.

Nunca teve vontade de limar as imperfeições e de reescrever esses seus primeiros romances?
Se eu reescrevesse aquilo, era um livro completamente diferente. Isso seria desonesto da minha parte.  Estava a reescrever o livro de um outro. Aquilo era a ideia que eu, na altura, tinha do que era um livro. Completamente diferente daquela que tenho hoje.

Então afinal não era o mesmo António Lobo Antunes, ao contrário do que me estava a dizer ainda há instantes.
Exactamente. É curioso, não é? É um paradoxo aparente. Era e não era. Eu fui aprendendo muito com os livros que escrevia mesmo sem os ler. À força de os corrigir. oMemória de Elefante, por exemplo. É extraordinário como é que um livro daqueles me fez passar um ano inteiro com o primeiro capítulo. Um ano a escrevê-lo, a reescrevê-lo... Achei que basicamente continuo a ter a mesma atitude. Escrevi-o para me agradar a mim mesmo. Até chegar a um ponto em que me agradasse a mim. Aquelas várias versões não me agradavam.

Ainda guarda algum dos livros que escreveu antes de publicar Memória de Elefante?
Não. Penso que existem fragmentos ou a quase totalidade de um livro que deve estar em poder das minhas filhas. Estive dez anos a trabalhar nele e nunca foi publicado. Nem será.

Está seguro disso?
Espero que não.

Já leu Lavagante, de José Cardoso Pires?
Não.

Não tenciona ler?
Tenho medo.

Tem medo que não esteja à altura do seu amigo?
Tenho. Eu conhecia muito bem o Zé. Era uma relação diária. Durante anos e anos. Se ele achasse... Tenho uma certa dificuldade em falar disto. Estou a falar de uma pessoa de quem continuo a gostar muito. O que eu me pergunto é: se o Zé achasse que o livro... será que ele o teria largado? Ele nunca me falou desse livro.

Foi uma surpresa para si saber da publicação deste livro?
Sim. E eu julgo que nos últimos vinte anos de vida fomos os amigos mais próximos um do outro que qualquer um de nós teve. Embora falássemos muito pouco sobre os livros. Havia uma grande pudor entre nós.

Como é que avalia a publicação de um livro incompleto, póstumo, dez anos depois da morte de um autor?
Depende. O Zé é uma pessoa especial para mim, no meu coração. Desejo do coração que o livro seja bom. Sabe... ele era um homem tão generoso e tão sem inveja que uma vez me telefonou para me dizer: «É para te dar os parabéns porque ganhei um prémio.» Isto define o que é a amizade, para ele. E a inversa também era verdadeira: ele exultava quando os amigos faziam uma coisa bem feita. Lembro-me... Lembro, não, porque eu não conheci o Redol. Vi-o morrer, era eu um estagiário, no Hospital de Santa Maria. Ainda era estudante. Estava a acabar o curso. Mas ouvi contar como, quando escreveu o Barranco de Cegos, foi uma alegria para o Zé. Ele era muito crítico em relação à obra do Redol e tinha achado o Barranco de Cegos um livro magnífico. Exultava com aquilo que os amigos faziam bem.

Mas isto de trazer à luz do dia os despojos de um escritor falecido...
Não sei. Não tenho o direito a fazer um julgamento. Como gostava muito do Zé, gosto da família dele. Sabe, nós quando temos um amigo... Eu, pelo menos, sou completamente parcial.

O António tem alguma arca de papéis por publicar?
Não. Não tenho nada. Se eu morrer neste momento, o que tenho é um punhado de crónicas que não foram juntas em livro...

E tem esse tal livro que escreveu ainda antes do Memória de Elefante.
Sim. E, provavelmente, versos que escrevi aos catorze, quinze anos. Escrevia nos livros de que gostava e guardava os livros. Escrevia nas primeiras páginas e nas últimas. São versos, de certeza, muito maus. Agora, não tenho nenhum trabalho estruturado. Nada. Zero. Sob esse aspecto isso não se passará comigo. Não é possível. O Zé deixava livros de lado, muitas vezes. Eu nunca o fiz. Há muitos escritores que o fazem. Eu nunca o fiz.

Tem medo de que esse livro que está em poder das suas filhas seja publicado, um dia?
Não. Eu já cá não estou, não é? Medo não. Porque eu hei-de ser avaliado pelo melhor que fiz e não pelo pior. Sabe, nós agora estamos a comemorar o bimilenário do Ovídio. Ele dizia que a obra dele ia vencer o tempo, o fogo e o ferro. E venceu. Ele só fez coisas extraordinárias. Eu tento traduzir os poetas latinos. O meu latim é mau mas lá ponho o indicador no substantivo, o mindinho no verbo e tal.

Ainda continua a fazer esse exercício, hoje?
Sim. Para aprender a escrever.

Isto vinha a propósito, já não sei como, da edição de obras cujos autores não as consideraram suficientemente interessantes para as publicarem.
Não tenho nada contra. E mesmo que tivesse alguma coisa contra não a diria.

Digo em tese, não estou já a falar do caso concreto do livro de Cardoso Pires.
Em princípio não tenho nada contra.

Pode sempre argumentar-se que é graças ao desrespeito do Max Brod pelas indicações que recebeu que temos hoje a obra de Kafka.
Pois. Eu não sou grande fã do Kafka. Mas não foi só ele: o Virgílio pediu para destruírem tudo o que tinha feito.

O Kafka não é um escritor da sua família literária. Porquê?
Basta ler-nos aos dois. Julgo que, apesar de tudo, as diferenças são menores do que parecem, à primeira vista. Talvez por não o ter lido numa altura que fosse a mais favorável para mim, por motivos meus, para poder gostar dele.

Leu-o demasiado cedo ou demasiado tarde?
Já não lhe sei dizer. Provavelmente, as duas coisas ao mesmo tempo. Não sei. Acho que os meus gostos começaram a formar-se desde muito cedo. Depois, obviamente foram evoluindo. Senão ficava a fazer Memórias de Elefante toda a vida. E Cus de Judas. EConhecimentos do Inferno. Não renego esses livros porque me ajudaram a ser quem sou.

A sua família, nas Letras, tem vindo a aumentar ou tem vindo a restringir-se?
Tenho descobertos escritores que não conhecia e de que gosto muito. Agora, a minha família sou eu. Cada vez mais. Neste momento sinto que não devo nada a ninguém. O Carlos não detecta uma influência, um plágio, uma cópia. Mesmo no conceito de imitatiodo Horácio, que era uma espécie de homenagem. O Quevedo fez sonetos à Camões, o Camões à Petrarca e por aí fora. O Camões começa Os Lusíadas como o Virgílio, que por sua vez começa como o Homero, etc. Esse era o conceito de imitatio: prestar homenagem a um grande livro, a um autor que se admira e que se respeita. Agora não.

Não se sente parte de uma família literária?
Os escritores de que eu gostava - quando lia um livro por dia, com treze, catorze, quinze anos - eram aqueles que faziam haraquiri.

Haraquiri literário?
Sim. Eu estava a ler e via tudo: o sangue, tudo. Não eram exercícios. Por exemplo, eu gosto do Ulisses, do Joyce, claro que gosto. Mas muitas vezes irrita-me porque sinto que é acrobacia pela acrobacia. Aí, aproximo-me mais do Tolstoi quando ele fala da eficácia do livro. O livro tem de ser eficaz. Tem de se sacrificar a tentação a favor da eficácia. Por exemplo, o Nabokov. É um excelente escritor e irrita-me. Irrita-me porque estou sempre a vê-lo dizer-me: repara como eu sou inteligente, olha como eu faço isto. E faz bem, de facto. Mas estou sempre a vê-lo a ele atrás dos livros. Já estou farto de dizer isto: o livro é que tem de ser inteligente.

Hoje em dia é mais de ler e procurar novos autores ou está mais dado a releituras?
Mandam-me muitos livros. Descobri há pouco tempo um escritor que morreu nos anos vinte ou trinta. Um escritor húngaro chamado Kosztolányi, que tem uma obra curta.

O romance Cotovia foi editado pela D. Quixote.
Adorei esse livro. Andei dois anos a insistir na D. Quixote, para publicarem aquele livro. É um homem com uma obra breve. Era sobretudo poeta e tradutor. Escreveu cinco livros pequenos. Esse é um deles  e é uma obra-prima. Ultimamente tenho lido muita literatura policial.

É surpreendente ouvi-lo dizer isso.
Aprende-se muito.

É uma aprendizagem oficinal?
Sim. Aprende-se a dar informação de uma forma lateral. Aprende-se muita coisa. E depois há autores que me são saborosos. Rex Stout, por exemplo. gosto muito do Nero Wolfe. Encanta-me. E encanta-me também o homem, o autor. Foi um homem de uma grande coragem. Foi presidente da União dos Escritores Americanos e teve uma posição muita activa, muita corajosa e muito difícil durante o macarthismo. Era um homem de uma coragem exemplar. Como aliás o Dashiel Hammett também foi. Outro escritor muito bom. As descobertas que tenho feito nos últimos anos andam à volta disso. Tenho lido muito mais livros policiais. Agora estou só a escrever. 

Quando está a escrever só escreve?
Não. Leio livros policiais, também. Leio poesia. Mas tenho pouco tempo. Leio à noite, sempre.

Tem ideia de qual terá sido o livro que releu mais vezes?
São tantos. Não sei dizer-lhe. Acabo sempre por voltar aos mesmos autores. Assim que o Carlos falou nisso pensei nos russos: Gogol, Tchékov. Tolstoi...

Há uns anos falava sobretudo dos americanos: do Faulkner, por exemplo.
Faulkner, menos. Cada vez menos. Há um escritor de que eu gosto muito: William Gaddis. Morreu há pouco tempo. É um escritor que continua a ser muito controverso. O Steiner, que tem sido tão generoso para mim, crucifica-o por completo. Qualifica-o de ilegível. Tem quatro livros enormes. Publicados a distancias de dez, quinze, vinte anos uns dos outros. Gosto de ler o Bukowski. Gosto de alguma poesia moderna americana. Sou sobretudo um leitor de poesia.

Costuma ir às livrarias para estar a par do que vai saindo?
Vou sempre à mesma livraria. Sempre à mesma, sempre no mesmo dia e à mesma hora. Quando estou com um livro, não escrevo a partir das quatro e meia de sábado até domingo de manhã. Então, é nessa altura que vou lá. Agora não, porque já não tenho mais espaço físico para livros. A vontade de comprar é imensa. Olhe, tenho estado a reler os clássicos portugueses. Clássicos! Não gosto da palavra. Fernão Lopes, por exemplo. É extraordinária a Crónica de D. João I. Ele consegue mover o livro como Cecil B. De Mille movia um filme. Aquele levantamento de Lisboa é extraordinário. É escrito emcinemascope.

Só me tem estado a falar de bons livros embora aqui há tempos confessasse que ainda gosta, hoje, de livros maus.
Gosto.

Qual foi o último livro mau de que gostou?
Bem, dos portugueses não li nenhum porque são tantos. Mas isto que existe em Portugal, existe em toda a parte em muito maior número. Fartei-me de ler Harold Robbins, Jackie Collins, Jacqueline Susan. Tudo isso eu li.

E de que é que mais gosta nos livros maus de que diz gostar?
Alguns deles tem uma técnica que não é nada má. Nada de deitar fora. Há, por exemplo, um livro sobre o romance do Harold Robbins que não é nada mau. É curioso, isto. Nada mau. 

Como espreitar os tops dos livros  mais vendidos?
Não. Isso é tudo comprado. É uma negociata. Da mesma maneira que a colocação dos livros nas livrarias: as coisas que vão para a montra, os que estão em pé, os que estão sentados. Há-de haver alguma verdade, mas não me interessa nada, isso. Eu não vou a essas livrarias. A livraria a que eu vou é pequenina. É raríssimo entrar numa Fnac.

Nos últimos anos, tem havido uma enorme vaga de popularidade em torno do romance histórico: tira alguma conclusão disso?
Não é um fenómeno dos últimos anos, isso sempre existiu. Todo o romance é histórico. Aí entramos num terreno pantanoso, que é o terreno da não-literatura. As pessoas compram isso da mesma maneira que vêem novelas. Não exige uma atitude activa do leitor. Estamos ali a receber aquilo passivamente. Mas isso sempre existiu. Sempre há-de existir. Não faz mal a ninguém. Enquanto lêem aquilo não se drogam. Já não é mau. Agora, fazer livros é uma coisa, ser escritor é outra. Quando algumas das pessoas que fazem esses livros dizem «Pus os portugueses a ler»...

Está a citar o Miguel Sousa Tavares.
Não sei quem foi. Não estava apensar nele, estava a pensar noutro nome.

Mas foi ele que disse isso.
Penso que foi anterior. Mas não faz mal, podem-se copiar uns aos outros. O problema é que não põem os portugueses a ler. Põem os portugueses a lê-los a eles. O que também não é especialmente grave. Agora, duvido que alguém que leia esses livros - não estou a pensar no Miguel Sousa Tavares, estou a falar de uma maneira geral - vá depois ler o Dostoievski ou o Tolstoi. Obviamente que não vai. A leitura é uma coisa que se educa. Que se ensina e que se aprende. O problema é que qualquer grande escritor tem de ensinar os seus leitores a lê-lo. O grande juiz acaba sempre por ser o tempo.

O que há de novo agora é que nunca se editou tanto como no nosso tempo.
Claro que não. Os meios são outros.

O que lhe queria perguntar é se teme que esta avalanche editorial soterre os livros bons.
Não. As pessoas que gostam de ler continuarão a gostar de ler. Seja o que for que se publique. E há autores imortais como o Ovídio, por exemplo. Mas são tantos. Fazem parte do nosso património. São das coisas mais importantes que o espírito humano fez. Então, se alguém quer escrever tem que escrever contra essas pessoas. Contra o Ovídio, contra o Horácio, contra o Homero.

É o que o António faz?
Ah, não. Eu agora já estou na fase de poder escrever a favor deles. Carlos, só vale a pena escrever se tiver a convicção profunda de que tem de ser o melhor. Sabendo que, no fundo, é apenas o elo de uma corrente que começou muito antes de si e acabará muito depois. Sabe, quando eu fui operado, o meu cirurgião - que me é muito querido, tenho por ele um grande amor (é bom poder amar um homem sendo homem) - estava tão espantado que o comentário dele, que me ia operar, foi: "Tu és um génio, mas não és um super-homem." Portanto, aquilo que ficará de mim são livros. Agora estava a dizer isto e a lembrar-me do Flaubert que se enfurecia com o Madame Bovary e com a ideia de que Madame Bovary ia sobreviver e ele ia morrer. Os meus livros vão ficar, eu não. Eu vou ser um nome. Também, não sei se tem notado, eu apenas quero ser um nome.

Como é que encara as alterações que têm estado a acontecer no mercado editorial?
Isso é uma tendência mundial. A tendência para os grandes conglomerados editoriais.

Está preocupado?
No estrangeiro só beneficiei com isso. Quando a minha editora alemã passou a fazer parte de um grande grupo - como aconteceu também em Espanha e noutros países - eles diminuiriam a produção em quarenta por cento. Reduziram drasticamente o número de autores. Só publicam em duas épocas do ano mas os livros são feitos com imenso cuidado. As traduções são revistas e revistas e revistas. Fazem-se editings, o que aqui em Portugal ninguém faz. Não há um editor que o ajude.

Gostaria de ter um editor, nesse sentido anglo-saxónico do termo?
Fazia isso com o Zé. Fazíamos isso uma ao outro. Lembro-me que ele me fez isso com oFado Alexandrino. Lembro-me de lho fazer no De Profundis, Valsa Lenta.

Isso não é constrangedor fora de uma relação de amizade muito forte?
Não. Eu respeito. A mim nunca me disseram nada, até hoje. Mas sei que os tradutores trabalham com os editores. Que pesam as palavras. Eu desconfio dos tradutores que não têm dúvidas. A tradutora alemã e o tradutor sueco mandam-me cartas e cartas, cheios de dúvidas. Lembrei-me agora destes, assim de repente. Outros não mandam nada. Estou consciente de que estes livros são impossíveis de traduzir. São livros muito musicais, estão muito próximos da música. Pelo menos, parece-me a mim que estão. Como transferir isso? Noutro idioma a música é diferente.

Estava a dizer-me, antes de mais este parênteses, que não está preocupado com a concentração editorial em curso.
Não especialmente. Não, porque eu estou numa situação privilegiada.

Pergunto-lhe isto porque quando foi sabido que sua editora, a D. Quixote, tinha sido absorvida por uma grande grupo, o António Lobo Antunes veio manifestar publicamente a sua preocupação.
Perguntaram-me e eu limitei-me a responder. Eu já não estava contente com a D. Quixote. Acho que a editora foi muito boa - tanto quanto eu me posso aperceber, enquanto leitor - no tempo da Snu Abecasis - não havia concessões, da parte dela - e durante grande parte do trabalho do Nelson de Matos. Até ser comprada pelo grupo Anaya. Aí, a editora começou a fraquejar. Eu não estava contente com a editora.

O que é que é importante para si: o catálogo?
É, só. É a única coisa que é importante para mim. Não é o dinheiro.

Tem de ser um catálogo ao nível das usas expectativas e do seu gosto?
Com certeza. Uma amiga minha espanhola, que foi directora do Babelia, a Maria Luisa Blanco, dizia sempre, e é verdade, que quando a agência me apresenta uma nova editora não fala logo no dinheiro. Começa por falar no catálogo. É a editora deste e deste e deste. Isso é muito importante. Eu fui para algumas editoras onde estou pelos autores que lá estavam.

Está descontente com a D. Quixote por autores que faltam no catálogo ou por autores que acha que estão lá a mais?
Sabe, é sempre delicado... Não quero ser agressivo e não quero magoar ninguém. Há muitos anos que tenho a preocupação de não magoar ninguém. As pessoas não precisam de mim para se magoarem, já se magoam tanto a elas mesmas. Não precisam da minha ajuda para nada. A sensação que eu tinha e que eu tenho é que não há um rumo editorial.  Não há uma estrutura. Por exemplo, a Assírio & Alvim tem uma estrutura, tem uma direcção, tem um sentido. Tem um sentido ético, até, da literatura. Eu conheço mal o Manuel Rosa [editor da Assírio & Alvim] mas gosto  muito dele. Parece-me um homem que não faz cedências. Algumas pequenas editoras fazem trabalhos notáveis, em Portugal. Aquilo, na D. Quixote, era uma máquina muito grande. Não havia, não se sentia, não se via uma linha orientadora, um projecto editorial coerente, como tinha a Gallimard, que era uma grande editora, no tempo do grande patrão.

A D. Quixote, integrada agora num grupo, vai mudar?
Não sei o que vai acontecer. Estou na expectativa. Não sei.

O seu próximo livro sai pela D. Quixote ou isso ainda não está decidido?
Isso é uma questão que tem de ser resolvida. No entanto, um homem de quem eu gostei, chamado João Amaral...

É o director editorial do grupo Leya.
Sim. Gostei dele. Para mim, as primeiras impressões são importantes. Posso enganar-me mas são importantes. Ele disse-me: «Dê-nos uma oportunidade.»

Uma oportunidade para quê?
Para mostrar o que fariam comigo. Vamos ver. Não gostei da maneira como os meus últimos livros saíram. Não há uma orientação naquela editora. Quer dizer, eu tenho que respeitar um editor. Não posso conceber que um editor não leia os livros todos. Estou contente, na D. Quixote, por ter lá a Tereza Coelho. Porque ela sabe ler.

O que e que requer de uma editora?
O mesmo amor que eu pelos livros. Que este amor seja partilhado. Por exemplo, tinha a ideia de fazer uma colecção para pôr as pessoas a lerem livros.

Foram publicados dois até agora.
Sim, saíram dois  e não vai sair mais nenhum.

Porquê?
Não posso conceber que no fim do livro do Tolstoi venha propaganda aos livros que lá estão. Não o posso conceber. Tolstoi não pode ter ninguém ao pé. Pediram-me um pequeno prefácio. No pequeno prefácio, eu tentava explicar o que era A Morte de Ivan Ilich. Se era um livro sobre a morte, se não era um livro sobre a morte. Foi uma discussão que houve durante muito tempo. O livro é tão complexo e tão rico. Falava lá, pela rama, no Lukács, que negava que fosse um livro sobre a morte, etc., por aí fora. Contracapa do  livro: «Este livro aborda o tema da morte.» Dá vontade de não escrever mais para aquilo, não é? Quer dizer, não têm o direito de fazer isso ao Tolstoi. Primeiro, os livros não abordam nada, porque não são corsários. E, segundo, não é de facto um livro sobre a morte. Depois, o resumo da vida dele em sete linhas é uma coisa miserável. Órfão desde tenra idade - é mais ou menos assim - frequentou a universidade daqui e dali, sem ter acabado o curso. Bardamerda! O que é que isto interessa? Fiquei revoltado com isto tudo. Não se pode tratar assim um grande autor.

O que é que lhe responderam, quando fez essas críticas?
Falei com uma senhora de lá, que disse que ia tomar as minhas palavras em consideração. E eu pedi-lhe desculpa por não ter sabido que ela era secretária de Estado. Tomar as minhas palavras em consideração é genial.

É linguagem de secretário de Estado?
Quando eu falo em livros, que é uma coisa de que eu sei um bocadinho, que diga o meu nome para dentro três vezes e depois fale comigo. Bolas eu li A Morte de Ivan Ilich, sem exagero, mais de cem vezes. Em inglês, em francês. Comecei a aprender russo para o poder ler em russo. Quando falo do Tolstoi sei um bocadinho do que é que estou a falar. Não aceito que se ponha numa contracapa: «Este livro aborda o problema da morte.» Não há o direito de se fazer isto. Eu tinha feito uma lista de livros e isso agora acabou.

Vai dar ao grupo Leya a tal oportunidade que o coordenador editorial lhe pediu?
Não sei. Vamos ver.

A sua decisão depende do quê?
De ver como eles trabalham. Se for como me disseram, que a D. Quixote passaria a ser uma editora literária sem concessões... Agora vou ouvir outras pessoas que vêm falar comigo.

Pessoas de outra editora?
Sim, de um outro grupo. Vou ouvir o que têm para me dizer. Tudo isto envolve dinheiro mas eu estou-me cagando para o dinheiro. Eu já não preciso de dinheiro. Vivo com tão pouco. O que eu quero é um sítio onde os livros sejam tratados com dignidade.

Com isto tudo, há uma curiosidade interessante: o facto de o António Lobo Antunes estar, agora, no mesmo grupo editorial do José Saramago. Isso tem alguma relevância para si?
Não. Nenhuma. Eu não percebo porque é isso. Parece que fazem disso uma espécie de par amoroso. Tristão e Isolda. Orfeu e Eurídice. Benfica e Sporting. Bucha e Estica.

Lobo Antunes e Saramago.
Eu não tenho nada a ver com que ele escreve. Nada. Conheço muito mal a obra. Não tem nada que ver com a pessoa. O homem é da idade do meu pai. Não tem nada que ver com ele. Espanta-me sempre esse matrimónio. Isso, para mim, não faz qualquer sentido.

A alegada rivalidade entre os dois, existe?
Não. Eu não sinto nenhuma. Mostraram-me uma vez uma fotografia em que o homem atirava ao chão um livro meu. Deu-me vontade de rir. Mas o homem nem sequer me é antipático. Eu não o conheço.

Não se conhecem pessoalmente?
Conheci-o em 1983. Quando fui ao Brasil pela primeira vez. Ainda me mandou alguns livros com dedicatórias. Que não vou repetir por boa educação. Depois, a partir de certa altura deixei de me dar com ele. Também não era pessoa que me interessasse especialmente. estava mais perto de outras. Era uma viagem em que foram pessoas que me estavam mais próximas. O José Cardoso Pires, o Pedro Tamen, o Alexandre O'Neill. Pessoas que me interessavam muito mais. Enquanto pessoas e enquanto escritores.

O que eu estava a tentar perceber é se o facto de o António Lobo Antunes e o José Saramago estarem agora no mesmo grupo editorial é uma coabitação difícil para si.
Não. Esse é como outro qualquer. Não me faz diferença nenhuma. Não tenho nada que ver com o que ele faz. Oh, Carlos, se me quiser arranjar competições arranje-me pessoas do meu tamanho. Ou livros, não sei. Eu não sou a melhor pessoa para falar disso.

Mas lê o que ele tem escrito?
Não. Li uma vez uma parte de... como é que se chamava? Uma espécie de diário.

Cadernos de Lanzarote.
Exactamente, isso. E folheei um ou outro romance. Nunca li nenhum.

Nunca leu um romance do Saramago?
Do princípio ao fim, não. E isto não tem nada de pessoal. Não percebo quem inventou isso e porquê. É uma questão tão menor. Fiquei surpreendido com essa sua pergunta. Qual é o problema?

Esta história já se tornou um lugar-comum, já foi referida publicamente inúmeras vezes.
Não sabia.

O próprio António disse há pouco que essa parelha aparece frequentemente.
É. E eu fico sempre surpreendido.

Eu aproveitei o facto de ter agora as cartas viradas para cima para lhe falar deste assunto.
Sabe, eu tenho uma atitude cada vez mais tolerante. O Carlos fez-me várias partidinhas assim, com este, com aquele, com aqueloutro. É-me completamente indiferente. Desejo-lhes as maiores felicidades. Do Miguel ainda me considero amigo. Tivemos uma relação bastante mais próxima há muitos anos. Não tenho nada contra. Não acho mal que as pessoas façam esses livros. Não fico assustado com o facto de haver pessoas que vendem um milhão de livros. Ou dois milhões. Ou três milhões. É-me completamente indiferente. Só me faz impressão quando as pessoas põem aquilo como cinta, lá no livro. Mas isso já não tem que ver com o escritor, julgo eu. Não sei. Agora, isso não é importante, Carlos. O que é importante é boa literatura e essa, infelizmente, é muito pouca.

As relações entre escritores são relações como quaisquer outras ou a literatura acrescenta-lhes uma intensidade diferente?
Eu não conheço muitos escritores. Mas com os que conheço é uma relação normal. Estou a pensar em escritores estrangeiros. Quem é que eu conheço? Fui bastante amigo do Jorge Amado. Tenho muitas cartas dele. Gostava muito dele.

Já disse que não gosta muito do que ele escreveu.
Gostava muito. Há uma fase da vida em que se gosta muito. Mas Os Pastores da Noite, por exemplo, é um livro que continuo a achar divertido. O Quincas Berro d'Água. Sou amigo do Amos Oz, por exemplo. Normalmente não falamos de livros.

Não convive com escritores, habitualmente?
Eles estão a escrever, eu também. Também não conheço muitos. Curiosamente, conheço mais estrangeiros. Porque é quando tenho tempo e quando as pessoas aparecem. Aqui em Portugal não conheço muitos. Posso conhecer muitos de lhes apertar a mão ou de lhes dizer olá. E em todo o caso, de cada vez que vou à Feira do Livro, fico pasmado a ver os escritores a assinar livros, cheio de inveja. Eles escrevem! Continuo a ter a mesma atitude de quando era miúdo e ia a uma cervejaria que havia, na altura, em frente ao Jardim Zoológico, onde - acho que era às quintas-feiras - almoçava um grupo de gente que escrevia: o David Mourão-Ferreira, a Natália Correia, por aí fora. Eu ficava cá fora, de nariz encostado ao vidro, a vê-los comer. Encantado. Continuo a estar assim. São escritores que eu nem conheço: estão ali a assinar livros ou estão à espera que cheguem os leitores. Deve ser muito aborrecido, muito penoso. E eu fico ali encantado.

Há nisso alguma maldade...
Não há nenhuma, nenhuma, nenhuma.

O António tem sempre filas enormes. Ao referir a ausência de leitores para os outros...
Não é para os outros. Estava a pensar nalguns que eu não sei quem são. No stand em que eu estou, normalmente encontro um homem que assina bastante e que eu respeito muito , que é Pepe.

O Pepetela.
Tenho muita admiração e muito respeito por ele. Pelo homem. E acho que a obra dele é profundamente honesta. Isto é a melhor qualidade que um escritor pode ter. Gosto do José Eduardo Agualusa, por exemplo. Acho que é um homem que tem muito talento. Tem uma coisa rara em Portugal: tem muito sentido de humor a escrever. E depois é agradável olhar para ele porque é bonito. É um homem de uma simpatia e de uma modéstia muito grandes. Gosto muito dele.

Dá mais valor a um bom escritor ou a uma pessoa de bom carácter?
Enquanto estão vivos, para mim é fundamental que tenham um bom carácter. Agora, o Wagner obviamente tinha um péssimo carácter  mas isso pouco importa: deixou uma obra extraordinária. O carácter do Beethoven tinha lacunas graves. O do Céline, nem falar. Mas é a obra deles que fica, não o que eles foram. O O'Neill, por exemplo, de quem eu estive muito próximo durante algum tempo, almoçávamos uma vez por semana: era difícil ser amigo dele. Muitas vezes saía de junto dele com a impressão de que ele não gostava de ninguém.

Era um homem agreste?
Era um homem muito especial. Muito, muito especial.

Isso será apenas um acaso?
Há escritores...Falei no Pepe, no José Eduardo Agualusa, gosto muito do Pedro Tamen como pessoa, também. Gosto do Nuno Júdice. De uma maneira geral tenho uma grande admiração e uma grande inveja pelos poetas. Conseguem fazer aquilo que eu não consigo. O Vasco Graça Moura é um grande poeta, do meu ponto de vista. Espero que não só do meu.

Gosta mais que digam de si que é um grande escritor ou que é um grande homem?
Nunca pensei nisso, Carlos. Bom, agora estão sempre a repetir-me que sou um grande escritor. Mas não é isso que é importante. Importante é eu conseguir onde queria chegar.


Revista Ler
nº 69 - Maio de 2008

[*] Em outras entrevistas, o escritor refere-se a Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo como o livro que seria sobre seitas religiosas, e não O Esplendor de Portugal como aqui refere.

29/05/2008

Sandra Guerreiro Dias: opinião sobre Explicação dos Pássaros


Dos pássaros

Ao anoitecer, a cidade adensa-se e os pássaros quase enlouquecem. Ao mesmo tempo, Rui S. pensa e é no pensamento de si e dos outros que existe enquanto limite da narrativa que por sua vez se dissolve na delirante articulação entre presente e passado, sujeito e contexto, alienação e libertação. Em Explicação dos Pássaros, a opção pela aparente desconexão diegética é, no entanto, inevitável, pela premência da simulação profunda do objecto e dos seus contextos.

Por fragmentação do discurso entender-se-á, em António Lobo Antunes, o silêncio da continuidade narrativa que se manifesta por intermédio da ausência de nexos discursivos longitudinais. Esta falaciosa vacuidade esgota-se, no entanto, numa inquietante coerência experimentada através de um encaixe paradoxalmente sequencial entre diferentes planos temporais, personagens, fórmulas, registos e outras variantes que constituem o universo no qual se movimenta a personagem principal. Ou o rodopio da insistência obsessiva na descrição dos pormenores, da lucidez desarmante e da coloquialidade poética, da simultaneidade entre as vozes do narrador e da personagem principal, da família, das mulheres, da sociedade, da cidade e dos pássaros, espécie de alter-ego no qual Rui S. se supera e se explica a si próprio e através dos outros:

A maior parte dos pássaros, explicou o pai, (…) vivem muito pouco tempo se não morrem logo à nascença, há os que emigram no Inverno para países mais quentes, os que não conseguem executar a viagem e se ficam no caminho, os que os machos e as corujas devoram se os pilham atrasados ao entardecer, retardatários, a tentar escapar à noite a caminho da mata. (pp. 72-73)

À fictícia desordem enunciativa acumulam-se depois as rupturas inegociáveis, os conflitos, que impõem, argumentam, fundamentam e intensificam o caos do percurso em causa, e que farão de Rui S., esse pássaro «retardatário a tentar escapar à noite». Entre os muitos conflitos, conta-se o decisivo e insuportável confronto ideológico com o pai, figura tutelar que ditará claramente a despersonalização do sujeito relativamente a si e à sociedade, a deliberada submissão aos afectos e à manipulação feminina, através sobretudo das mulheres com que se envolve, Tucha e Marília, e a impiedosa deriva decorrente da inevitável dissolução do seu projecto de vida enquanto ser social que se auto-anula:

Deixei definitivamente de ser pássaro, ancorei no lodo e na lama de Aveiro como os botes sem préstimo, reduzidos ao esqueleto das travessas, comidos pelos mexilhões e pelas lulas. Pensou Não me apetece sair mais daqui, mover o mindinho sequer, sentir a pressa de vaivém do sangue nos meus membros, o galope aflito das veias. (p.125)

Todos estes conflitos não serão, no entanto, mais do que enraizadas sequelas de uma desintegração accionada por uma sociedade em busca de si mesma, e da qual Rui S. faz parte. A apenas insinuada mas intentada análise que da cidade e do contexto do romance vai sendo feita assume-se, neste âmbito, enquanto esforço de reflexão crítica acerca do que foi a sociedade portuguesa do pós-Abril:

Aveiro vogaria eternamente na neblina à laia de um navio desgovernado, com as suas travessas desconexas, as suas sucursais de banco, as suas pastelarias remotas e os seus largos vazios, (…)Lá está o carro imóvel contra um plátano e como que preso ao tronco por uma arreata invisível, o relógio de uma igreja qualquer soou uma incrível infinidade de badaladas compassadas e lentas, o som alargava-se, medieval, em círculos concêntricos na atmosfera saturada. (p.137)

Dispersas mas catalisadoras da narrativa, as descrições, ora da cidade de Lisboa, ora de Aveiro, produzem, além disso, um abrandamento do fulgor narrativo que se traduzirá num esboço desta mesma sociedade enquanto argumento e origem da desagregação dos intervenientes:

Campo de Ourique habita-me irremediavelmente os ossos, acho que não seria capaz de morar longe destes quarteirões mornos e sem graça, desta triste prisão de fachadas desigualmente idênticas, construídas na pasta sem grandeza de um cenário de melancolias resignadas. (p.29)

Este devir quase paralelo das sucessivas rupturas explicará e antecipará esse acto final de libertação que é o suicídio da personagem principal. Afinal, apesar da desagregação sistemática, remanesce uma lógica possível que se detém para além das expectativas e que é a da fragmentação do sujeito, pelo que a morte de Rui S. mais não será que a manifestação última desse exercício de coerência que a personagem ensaia desesperadamente ao longo de todo o romance. Além disso, a opção pela morte do artista em palco, através da alegórica encenação de um improvável número de circo, contém em si a denúncia de toda uma sociedade que assiste imperturbável ao seu auto-aniquilamento:

Senhoras e senhores, meninas e meninos, respeitável assistência, eis-nos prestes a alcançar o momento culminante do nosso espectáculo de hoje - urrou ele dando cambalhotas veementes ao redor da pista. - O Grande Circo Monumental Garibaldi oferece-vos ao vivo o número único, não televisionado, do suicídio do seu principal artista. (p.210)

Mais do que o suicídio em si e do que dele é possível deduzir relativamente à personagem central do romance, a morte como espectáculo grotesco, assistido e aplaudido pelos próprios familiares e amigos da vítima, afirmar-se-á afinal como encenação violenta, não da renúncia de Rui S., mas da complexa melancolia e social. Para isso, interagem, por um lado, as figuras absurdas do circo, a sociedade e os seus duvidosos mecanismos de dissuasão, e a letárgica família, e por outro, os pássaros, o cego e Rui S., subsistindo apenas o ruído e o silêncio, ambos impenetráveis, ou a valsa silenciosa que se sobrepõe à algazarra do circo, enquanto Rui S. se suicida e se liberta, emancipando-se pela imaginação de si, por si:

Estou a adormecer, pensou ele, distinguia ainda, à medida que mergulhava num lago de lodo, cheio de silhuetas conhecidas, a testa franzida, aflita, do pai, cheguei-me a ti, puxei-te pelo ombro, Palavra de honra que a família acabou, palavra de honra que a Lapa acabou, nunca mais entramos sequer o portão daquela casa, e na claridade imprecisa de Lisboa, na claridade nevoenta de Aveiro, os teus olhos afiguraram-se-me tão tragicamente ocos de expressão como as órbitas de gesso dos defuntos. (p.140)

Da imaginação pode dizer-se ainda que se processa aqui enquanto acto instável de destruição e construção relativamente aos objectos evocados - a infância, os diálogos sem retorno sempre introduzidos pela fórmula imperativa “pensa:…”, repetida até à exaustão, e os pássaros -, espécie de metáfora da sua existência indecifrável. Dela e dos pássaros, a explicação possível será somente a sempre provável incerteza.

António Lobo Antunes (1981), Explicação dos Pássaros. Lisboa: Dom Quixote. 257 pp. [ISBN: 972-20-2712-3]

Sandra Guerreiro Dias
29.03.2008

24/05/2008

Ricardo Daehn: Travessura de Lobo (sobre Conhecimento do Inferno)


Há mais de 15 anos um nome corrente nas especulações em torno do Prêmio Nobel de Literatura, o lisboeta António Lobo Antunes não é figura festiva como o compatriota José Saramago e, ao mesmo tempo, não se revela pessoa fácil. A escrita que comete, com criatividade única e por vezes incompreensível, pode dar a medida da sua personalidade: Lobo Antunes não se rende ao aclamado Philip Roth, muito menos admira as histórias “bem contadas” do canadense Saul Bellow (Herzog). Só abre exceção quando trata-se de García Márquez, que trouxe “novidade” ao meio literário.

À frente de 18 romances (o mais recente Ontem não te vi em Babilônia), Lobo Antunes traz espírito crítico que não poupa nem a si próprio. Recentemente lançado no Brasil, com mais de 25 anos de atraso, Conhecimento do inferno, porém, passou relativamente ileso à revisão criteriosa do autor, tido como “mal entendido” à época da primeira publicação. Curiosamente, os dois volumes que o antecedem numa trilogia (Memória de Elefante e Os cus de Judas) ganharam, respectivamente, defeitos de “livro de principiante” e “primário”.

Exageros à parte, vale lembrar que o primeiro título (com citação em Conhecimento do inferno, ao lado de Paul Simon, Gal Costa e António Lobo Antunes[!]) já trazia o alter ego do psiquiatra atolado numa narrativa com tempo comprimido. Num único dia, a lentidão retinha observações em torno do casamento falho e da separação das duas filhas. A desilusão pessoal chegava a retrair o aspirante a escritor, empacado na produção de um romance. Organizado em capítulos (de A a Z), Os cus de Judas depurava a decisiva experiência involuntária de haver integrado a Guerra de Angola, nos anos 1970, fato explorado ainda por O esplendor de Portugal.

Enclausurado num universo aturdido pela eterna convivência com mortos no conflito, emConhecimento do inferno, Lobo Antunes prorroga a tensão bélica, lembrando inclusive das “galinhas de África, magras e pernaltas, de que as patas hesitam um segundo antes de tocar o chão como se um perigo qualquer as ameaçasse”. Amálgamas sacramentados na literatura dele, as seqüelas da pressão do regime salazarista e o processo de independência de Angola (antiga possessão portuguesa) engordam a convulsiva retórica do livro.

Na publicação auto-referente, o escritor é objetivo nos alvos de ataque: mira tanto a infra-estrutura quanto a petulância médica instalada nos manicômios. Ele descreve a chegada ao Hospital Miguel Bombarda (onde, de fato, clinicou) como ponto de partida para “a longa travessia do inferno”. Compactuando com a “máquina trituradora de uma medicina persecutória da fantasia e do sonho…”, desmoraliza a sensação de autoridade impregnada nos colegas médicos. Desequilibrando conceitos de loucura, propõe até a inversão de papéis, tendo a impressão de que eram os doentes “quem tratavam os psiquiatras com a delicadeza que a aprendizagem da dor lhes traz, que os doentes fingiam ser doentes para ajudar os psiquiatras”.

Coerente com alumbramentos da demência externa, o autor encoraja devastador ataque sobre princípios lógicos. Nada vem muito alinhavado por uma fluência necessariamente lúcida. Ciente da conquista do “sentido prático da vida, que fica no fundo do automatismo da inutilidade…”, o português se debate na aceitação do “enxoval de uma ciência inútil (a psiquiatria)” integrado por “pastilhas, ampolas, conceitos e interpretações”.

Isolado numa batalha um tanto quixotesca – mas com o respaldo de que “a solidão é o azedume da dignidade” –, o escritor lança mão de severidade, demonstrando que “os manicômios não passam de hortas de repolhos humanos…”. Conhecimento do inferno traz imagens potentes de médicos que enxotam pacientes ou se rendem a alegorias canibalísticas envolvendo os doentes. Para o psiquiatra que abandonou o celibato a favor da literatura, “os psicanalistas continuam teimosamente agarrados ao antiquíssimo microscópio de Freud, que lhes permite observar um centímetro quadrado de epiderme enquanto o resto do corpo, longe deles, respira, palpita, pulsa, se sacode, protesta e movimenta”.

Estilhaços de ironia

Fragmentadas, feito espasmos, as descrições do livro sofrem interferência concomitante de eventos paralelos, que afloram via lembranças, devaneios ou por meio de elaboradas análises das circunstâncias recém-presenciadas. Sempre espirituoso, o texto é caudaloso em ironia, com disparates da altura de “nunca conheci nenhuma flor de plástico que se comovesse diante de um cadáver”.

O deboche avança sobre a propalada perfeição de casamentos, na trama. A sensação de liberdade, por exemplo, se contrapõe à figura do narrador que se confessa “esporeado por uma mulher autoritária, apavorado com o sábado depois do jantar em que ela me devorará, na cama, com as gigantescas mandíbulas da vagina, obrigando-me a suar sobre a geléia do seu corpo a ginástica do desânimo conformado”. Cada vez mais próximo do destino final – a Praia das Maçãs –, o autor que perfaz trajeto nas estradas ao sul de Portugal segue apedrejando a instituição matrimonial, fabulando em torno dos casais estáveis vistos num balneário do percurso: “Os roupões pendurados lado a lado nos grampos da porta, debaixo do preço da diária encaixilhada como um retrato de família, prolongam uma ilusão de vida a dois que as dentaduras, pousadas sem vergonha na mesa de cabeceira, desmentem cruelmente com os seus risos de plástico”.

Um tanto desnorteado, o leitor pode vir a estranhar o enriquecedor recurso do escritor de promover ciranda aleatória entre narradores, sem exata delimitação. Chegando às vias de ser confundido até com um paciente, Lobo Antunes – repleto “de maldade e de terror”, qualidades intrínsecas dos comparsas de guerra – estimula o leitor, a cada página, pela tendência aos fluxos de monólogos ensimesmados, uma vez que os personagens se revezam na descrença da capacidade do diálogo. Daí vem o espanto com o desfecho comedido na ternura, mas que sepulta todo o desgaste do escritor com o manicômio. Por incrível que pareça, o autor ganha a provisória companhia de crianças e animais que, na sua visão, “se afastam do asilo como se afastam da morte empurrados por um misterioso receio, a recusa da agonia, da putrefação, dos sentimentos fúnebres e mórbidos que os habitam”.


Ricardo Daehn
em Correio-Web (Brasil)
2007

13/05/2008

Do leitor Joaquim Barão Rato: «Amanhã logo se vê»

Amanhã Logo Se Vê...

Caro António

Que ganho eu em não ser artista? Quer dizer: ganho só os malefícios? Sofro desalmadamente como eles. Aguento a solidão como eles. Só não escrevo, nem pinto, nem esculpo, nem fotografo, nem nada como eles.

Conheces algum artista feliz? Boa pergunta. Mas olha: que me lembre agora, não. Mas se o dilema está entre ser artista ou ser feliz eu não teria motivo para não o ser. A ti também não te acho muito feliz. Mesmo quando te vejo nas fotografias parece-me sempre que não estás lá. Está só a imagem, como se tu tivesses fugido antes da máquina disparar. Não se percebe o que quero dizer mas não sei explicar melhor. E nas entrevistas deixas-me a mesma sensação de enfado, de quem está cansado de tudo. Pareces-me, às vezes, um bocado farto de ti. Se calhar eu é que quero pensar assim mas é porque isso me acontece amiúde. De qualquer modo, segues a regra: ou se é feliz ou se é artista. E tu és artista e dos maiores. 

Achei-te há tempos, nas tuas crónicas. Tenho livros teus nas estantes. É fino. Talvez as crónicas me façam fome de te ler. Hoje acho que era de caras. Mas os teus livros ficaram na casa do Algarve. Fica para o fim-de-semana. Só que acho que isto não é uma questão de fome. Onde é que eu vou arranjar cabeça onde tu caibas? Bem vês, a culpa não é minha. Ou, para dizer melhor, não é só minha. Cada um tem o que a vida lhe quer dar (não o que merece, como dizem, porque eu tenho a mania que merecia mais). Não me habituei a ler na altura devida. Ninguém me ensinou, ninguém me estimulou. Havia mais (e muito diferente) para fazer. Digo ler coisas de mais fôlego, com mais conteúdo e dimensão. Vá lá que, como disse, leio, por exemplo, as tuas crónicas. Se leio…

Mas, dizia eu, achei-te nas crónicas. Por elas mantemos um contacto regular. Até me fizeste inventar uma nova forma de ler a revista. Abro-a e vou directo à crónica. Depois volto ao princípio e vejo no índice se há mais alguma coisa que me interesse especialmente. Só depois vai o resto. É leitura para aí para dois serões.

Na crónica de hoje vejo que tenho alguns dos defeitos do pessoal da escrita. Sofro que me desunho, não é invulgar andar de copo na mão e não raro sou mais solitário entre a gente do que quando estou sozinho. Depois vá de me achar incompreendido, mal amado, sei lá que mais. E a crónica a abrir-me horizontes e a fazer-me pensar que tenho alguma coisa em comum com aquela gente. Mas só nos malefícios, já disse. O destino deste escrito é o mesmo do da tal segunda parte das Almas Mortas do Gogol. Só que isso não me vai tornar nem mais nem menos célebre. Ninguém vai dizer: fulano escreveu uma coisa para o Lobo Antunes e depois rasgou-a. Quem é que quer saber disso? Mas estou a sentir-me tão bem que não me importo de mais nada. A gente tem esta cumplicidade regular e já nos conhecemos razoavelmente. Claro que isso não me dá, nem de perto nem de longe, direito a este tratamento por tu. Mas dá mais jeito à escrita e, de qualquer forma, tanto faz. Se é para rasgar o que é que isso interessa? De qualquer modo nós devemos ser moços para idades semelhantes. Tu volta e meia falas de Angola e da tropa e eu fui dos primeiros a serem mandados para lá. De maneira que devo ser mais velho. Não me apetece ir ver a tua idade à Internet (a Internet é que sabe tudo) para não perder o fio à meada (eu sei que não há meada nenhuma, estou só a armar-me). Mas pela idade não há problema. Por seres doutor também não porque não me pareces lá muitopraticante. E depois o susto que apanhei quando soube que te andavam a cortar para te tirarem qualquer coisa que te dava problemas também me dá alguns direitos. Se a gente sofre por alguém é porque tem alguma coisa a ver com ele… A propósito: foi impressão minha ou também te assustaste um bom bocado? Tradicionalmente vocês, os médicos, são mais cagarolas que nós, os ignorantes.

Seja como for não é só o tal de Apollinaire que tem direito a pedir piedade. No meio daquela gente toda que se esfalfou para deixar obra (e que referiste na crónica de hoje) há loucura que chega para meio mundo. E sofrimento. Mas, como bem referes, antes de piedade merecem gratidão. Fique então a piedade para mim que encho gavetas de escritos que só vão servir para dar trabalho aos que cá ficarem. Se calhar vão ter pena de os queimar não vá eu estar a vê-los.

Hoje não me apetece rasgar o escrito. Amanhã logo se vê…

Joaquim Barão Rato

PS: Depois de ter escrito isto (juro que foi só depois) descobri um sítio na Internet que serve para quem “pretenda fazer uma dedicatória a António Lobo Antunes”. Se calhar já não rasgo nada e vou tentar enviá-lo. Não altero, sequer, uma vírgula. Depois se verá. Mas, pela tua saúde, não me leves a mal...
J. R.


Joaquim Barão Rato
e-mail de 13.05.2008

06/05/2008

Daniel Osiecki: opinião sobre O Esplendor de Portugal


A marca do Lobo: estilhaços da pós-modernidade

Uma das marcas da modernidade é a quebra com o tradicional, e se tratando de literatura, muitas vezes essa quebra se evidencia de forma nada sutil. Atualmente se convencionou chamar as novas tendências artísticas de pós-modernas, que tratam exatamente de temáticas diversas, porém, a forma adquire um significado especial. É um ranço do movimento antropofágico que permeou as correntes estéticas do início do século XX, mas que na chamada pós-modernidade adquiriu proporções maiores.

Na literatura nomes como James Joyce, Virginia Woolf, T.S. Elliot e Marcel Proust produziram narrativas e textos poéticos que de certa forma apresentavam um formato novo de narrativa ou de poesia, causando dessa forma uma revolução nas artes em geral. A quebra com um narrador único e distante dá lugar a um movimento polifônico e experimental, mas é uma experimentação consciente e trabalhada que em momento algum cai no senso comum.

Muitos autores portugueses produziram também a chamada narrativa hiperbólica pós-moderna, criando assim, muitas vezes, diversos narradores em um único romance, por exemplo, autores como Augusto Abelaira em seu romance Bolor, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires e António Lobo Antunes, este último com uma marcada característica pós-moderna que se caracteriza pela desconstrução da forma clássica de romance e a imersão quase total num universo fragmentado e polifônico.

Lobo Antunes publica desde 1979, mesmo ano em que seu rival literário e ideológico, José Saramago, publica seu primeiro romance relevante, Levantado do Chão, e o psiquiatra que esteve em Angola como oficial do exército português encontrou em suas experiências de guerra temas constantes para sua literatura. Os Cus de Judas é seu primeiro romance e trata dos conflitos internos de um médico psiquiatra que retorna de Angola completamente mudado e enfrentando fortes embates existenciais. O universo sombrio e constantemente marcado por uma embriaguez física e intelectual de seus protagonistas tornam suas narrativas densas, pesadas e profundamente poéticas.

O romance O Esplendor de Portugal (1997) apresenta quatro narradores diferentes ao longo da narrativa. Trata-se da trajetória conflituosa e permeada de percalços de uma família de descendentes de portugueses que vai para Angola por motivos misteriosos e lá constituem família e prosperam como donos de terras. Mas a vida que levam é repleta por faltas morais graves e por carências de relações humanas e familiares, que dão à narrativa um tom amargo e irônico. Desde o pai, Amadeu, um alcoólatra que ignora as relações extra-matrimoniais da esposa Isilda, uma das narradoras, com um oficial da polícia de Luanda, até o filho epiléptico, Rui.

Os outros três narradores são seus filhos, Carlos, Rui e Clarisse, todos de certa forma apresentam características pessoais que fazem com que não se integrem na sociedade e vivam, desta maneira, numa espécie de labirinto no qual são impossibilitados de sair por conseqüência de suas próprias atitudes. Todos estão condenados a uma solidão irredutível que nenhum deles havia desejado, mas não fazem força alguma para mudar o quadro atual de suas vidas. A miséria que é vista por todos durante o tempo em que viveram em Luanda reflete também a miséria da condição humana, representada aqui pelo horror da guerra.

A narrativa fragmentada é construída de forma que cada narrador se integre ao outro, formando assim um exemplo clássico da mais bela prosa poética. A dureza dos acontecimentos é quebrada, às vezes, ao percebermos a linguagem que conduz os fatos, de forma que a dramaticidade da narrativa é tão forte que o leitor se sente tenso durante toda a leitura, mas essa dureza também é sublime e destaca-se pela forte supressão de imagens.

A falta de pontos, parágrafos e a ausência da norma padrão da linguagem são elementos típicos de Lobo Antunes, e o leitor assim é forçado a descobrir os significados das sentenças e dos períodos, quase sempre deixados à deriva para serem rigorosamente degustados pelo leitor. Prática essa típica da pós-modernidade. Num romance como esse, talvez a marca mais forte seja a presença arrebatadora de uma narrativa polifônica, que ao mesmo tempo em que exige do leitor um rigor maior, também dá mais espaços a sua prática como leitor-empírico. A fragmentação, a prosa poética e a experimentação formal são as marcas principais de António Lobo Antunes, e desse romance em especial. Lobo Antunes se propõe a uma construção narrativa rigorosa e metódica ao mesmo tempo em que a desconstrução de uma voz única de um protagonista se evidencia através da alteridade e do discurso híbrido.


Daniel Osiecki
04.04.2008

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...