29/05/2008

Sandra Guerreiro Dias: opinião sobre Explicação dos Pássaros


Dos pássaros

Ao anoitecer, a cidade adensa-se e os pássaros quase enlouquecem. Ao mesmo tempo, Rui S. pensa e é no pensamento de si e dos outros que existe enquanto limite da narrativa que por sua vez se dissolve na delirante articulação entre presente e passado, sujeito e contexto, alienação e libertação. Em Explicação dos Pássaros, a opção pela aparente desconexão diegética é, no entanto, inevitável, pela premência da simulação profunda do objecto e dos seus contextos.

Por fragmentação do discurso entender-se-á, em António Lobo Antunes, o silêncio da continuidade narrativa que se manifesta por intermédio da ausência de nexos discursivos longitudinais. Esta falaciosa vacuidade esgota-se, no entanto, numa inquietante coerência experimentada através de um encaixe paradoxalmente sequencial entre diferentes planos temporais, personagens, fórmulas, registos e outras variantes que constituem o universo no qual se movimenta a personagem principal. Ou o rodopio da insistência obsessiva na descrição dos pormenores, da lucidez desarmante e da coloquialidade poética, da simultaneidade entre as vozes do narrador e da personagem principal, da família, das mulheres, da sociedade, da cidade e dos pássaros, espécie de alter-ego no qual Rui S. se supera e se explica a si próprio e através dos outros:

A maior parte dos pássaros, explicou o pai, (…) vivem muito pouco tempo se não morrem logo à nascença, há os que emigram no Inverno para países mais quentes, os que não conseguem executar a viagem e se ficam no caminho, os que os machos e as corujas devoram se os pilham atrasados ao entardecer, retardatários, a tentar escapar à noite a caminho da mata. (pp. 72-73)

À fictícia desordem enunciativa acumulam-se depois as rupturas inegociáveis, os conflitos, que impõem, argumentam, fundamentam e intensificam o caos do percurso em causa, e que farão de Rui S., esse pássaro «retardatário a tentar escapar à noite». Entre os muitos conflitos, conta-se o decisivo e insuportável confronto ideológico com o pai, figura tutelar que ditará claramente a despersonalização do sujeito relativamente a si e à sociedade, a deliberada submissão aos afectos e à manipulação feminina, através sobretudo das mulheres com que se envolve, Tucha e Marília, e a impiedosa deriva decorrente da inevitável dissolução do seu projecto de vida enquanto ser social que se auto-anula:

Deixei definitivamente de ser pássaro, ancorei no lodo e na lama de Aveiro como os botes sem préstimo, reduzidos ao esqueleto das travessas, comidos pelos mexilhões e pelas lulas. Pensou Não me apetece sair mais daqui, mover o mindinho sequer, sentir a pressa de vaivém do sangue nos meus membros, o galope aflito das veias. (p.125)

Todos estes conflitos não serão, no entanto, mais do que enraizadas sequelas de uma desintegração accionada por uma sociedade em busca de si mesma, e da qual Rui S. faz parte. A apenas insinuada mas intentada análise que da cidade e do contexto do romance vai sendo feita assume-se, neste âmbito, enquanto esforço de reflexão crítica acerca do que foi a sociedade portuguesa do pós-Abril:

Aveiro vogaria eternamente na neblina à laia de um navio desgovernado, com as suas travessas desconexas, as suas sucursais de banco, as suas pastelarias remotas e os seus largos vazios, (…)Lá está o carro imóvel contra um plátano e como que preso ao tronco por uma arreata invisível, o relógio de uma igreja qualquer soou uma incrível infinidade de badaladas compassadas e lentas, o som alargava-se, medieval, em círculos concêntricos na atmosfera saturada. (p.137)

Dispersas mas catalisadoras da narrativa, as descrições, ora da cidade de Lisboa, ora de Aveiro, produzem, além disso, um abrandamento do fulgor narrativo que se traduzirá num esboço desta mesma sociedade enquanto argumento e origem da desagregação dos intervenientes:

Campo de Ourique habita-me irremediavelmente os ossos, acho que não seria capaz de morar longe destes quarteirões mornos e sem graça, desta triste prisão de fachadas desigualmente idênticas, construídas na pasta sem grandeza de um cenário de melancolias resignadas. (p.29)

Este devir quase paralelo das sucessivas rupturas explicará e antecipará esse acto final de libertação que é o suicídio da personagem principal. Afinal, apesar da desagregação sistemática, remanesce uma lógica possível que se detém para além das expectativas e que é a da fragmentação do sujeito, pelo que a morte de Rui S. mais não será que a manifestação última desse exercício de coerência que a personagem ensaia desesperadamente ao longo de todo o romance. Além disso, a opção pela morte do artista em palco, através da alegórica encenação de um improvável número de circo, contém em si a denúncia de toda uma sociedade que assiste imperturbável ao seu auto-aniquilamento:

Senhoras e senhores, meninas e meninos, respeitável assistência, eis-nos prestes a alcançar o momento culminante do nosso espectáculo de hoje - urrou ele dando cambalhotas veementes ao redor da pista. - O Grande Circo Monumental Garibaldi oferece-vos ao vivo o número único, não televisionado, do suicídio do seu principal artista. (p.210)

Mais do que o suicídio em si e do que dele é possível deduzir relativamente à personagem central do romance, a morte como espectáculo grotesco, assistido e aplaudido pelos próprios familiares e amigos da vítima, afirmar-se-á afinal como encenação violenta, não da renúncia de Rui S., mas da complexa melancolia e social. Para isso, interagem, por um lado, as figuras absurdas do circo, a sociedade e os seus duvidosos mecanismos de dissuasão, e a letárgica família, e por outro, os pássaros, o cego e Rui S., subsistindo apenas o ruído e o silêncio, ambos impenetráveis, ou a valsa silenciosa que se sobrepõe à algazarra do circo, enquanto Rui S. se suicida e se liberta, emancipando-se pela imaginação de si, por si:

Estou a adormecer, pensou ele, distinguia ainda, à medida que mergulhava num lago de lodo, cheio de silhuetas conhecidas, a testa franzida, aflita, do pai, cheguei-me a ti, puxei-te pelo ombro, Palavra de honra que a família acabou, palavra de honra que a Lapa acabou, nunca mais entramos sequer o portão daquela casa, e na claridade imprecisa de Lisboa, na claridade nevoenta de Aveiro, os teus olhos afiguraram-se-me tão tragicamente ocos de expressão como as órbitas de gesso dos defuntos. (p.140)

Da imaginação pode dizer-se ainda que se processa aqui enquanto acto instável de destruição e construção relativamente aos objectos evocados - a infância, os diálogos sem retorno sempre introduzidos pela fórmula imperativa “pensa:…”, repetida até à exaustão, e os pássaros -, espécie de metáfora da sua existência indecifrável. Dela e dos pássaros, a explicação possível será somente a sempre provável incerteza.

António Lobo Antunes (1981), Explicação dos Pássaros. Lisboa: Dom Quixote. 257 pp. [ISBN: 972-20-2712-3]

Sandra Guerreiro Dias
29.03.2008

24/05/2008

Ricardo Daehn: Travessura de Lobo (sobre Conhecimento do Inferno)


Há mais de 15 anos um nome corrente nas especulações em torno do Prêmio Nobel de Literatura, o lisboeta António Lobo Antunes não é figura festiva como o compatriota José Saramago e, ao mesmo tempo, não se revela pessoa fácil. A escrita que comete, com criatividade única e por vezes incompreensível, pode dar a medida da sua personalidade: Lobo Antunes não se rende ao aclamado Philip Roth, muito menos admira as histórias “bem contadas” do canadense Saul Bellow (Herzog). Só abre exceção quando trata-se de García Márquez, que trouxe “novidade” ao meio literário.

À frente de 18 romances (o mais recente Ontem não te vi em Babilônia), Lobo Antunes traz espírito crítico que não poupa nem a si próprio. Recentemente lançado no Brasil, com mais de 25 anos de atraso, Conhecimento do inferno, porém, passou relativamente ileso à revisão criteriosa do autor, tido como “mal entendido” à época da primeira publicação. Curiosamente, os dois volumes que o antecedem numa trilogia (Memória de Elefante e Os cus de Judas) ganharam, respectivamente, defeitos de “livro de principiante” e “primário”.

Exageros à parte, vale lembrar que o primeiro título (com citação em Conhecimento do inferno, ao lado de Paul Simon, Gal Costa e António Lobo Antunes[!]) já trazia o alter ego do psiquiatra atolado numa narrativa com tempo comprimido. Num único dia, a lentidão retinha observações em torno do casamento falho e da separação das duas filhas. A desilusão pessoal chegava a retrair o aspirante a escritor, empacado na produção de um romance. Organizado em capítulos (de A a Z), Os cus de Judas depurava a decisiva experiência involuntária de haver integrado a Guerra de Angola, nos anos 1970, fato explorado ainda por O esplendor de Portugal.

Enclausurado num universo aturdido pela eterna convivência com mortos no conflito, emConhecimento do inferno, Lobo Antunes prorroga a tensão bélica, lembrando inclusive das “galinhas de África, magras e pernaltas, de que as patas hesitam um segundo antes de tocar o chão como se um perigo qualquer as ameaçasse”. Amálgamas sacramentados na literatura dele, as seqüelas da pressão do regime salazarista e o processo de independência de Angola (antiga possessão portuguesa) engordam a convulsiva retórica do livro.

Na publicação auto-referente, o escritor é objetivo nos alvos de ataque: mira tanto a infra-estrutura quanto a petulância médica instalada nos manicômios. Ele descreve a chegada ao Hospital Miguel Bombarda (onde, de fato, clinicou) como ponto de partida para “a longa travessia do inferno”. Compactuando com a “máquina trituradora de uma medicina persecutória da fantasia e do sonho…”, desmoraliza a sensação de autoridade impregnada nos colegas médicos. Desequilibrando conceitos de loucura, propõe até a inversão de papéis, tendo a impressão de que eram os doentes “quem tratavam os psiquiatras com a delicadeza que a aprendizagem da dor lhes traz, que os doentes fingiam ser doentes para ajudar os psiquiatras”.

Coerente com alumbramentos da demência externa, o autor encoraja devastador ataque sobre princípios lógicos. Nada vem muito alinhavado por uma fluência necessariamente lúcida. Ciente da conquista do “sentido prático da vida, que fica no fundo do automatismo da inutilidade…”, o português se debate na aceitação do “enxoval de uma ciência inútil (a psiquiatria)” integrado por “pastilhas, ampolas, conceitos e interpretações”.

Isolado numa batalha um tanto quixotesca – mas com o respaldo de que “a solidão é o azedume da dignidade” –, o escritor lança mão de severidade, demonstrando que “os manicômios não passam de hortas de repolhos humanos…”. Conhecimento do inferno traz imagens potentes de médicos que enxotam pacientes ou se rendem a alegorias canibalísticas envolvendo os doentes. Para o psiquiatra que abandonou o celibato a favor da literatura, “os psicanalistas continuam teimosamente agarrados ao antiquíssimo microscópio de Freud, que lhes permite observar um centímetro quadrado de epiderme enquanto o resto do corpo, longe deles, respira, palpita, pulsa, se sacode, protesta e movimenta”.

Estilhaços de ironia

Fragmentadas, feito espasmos, as descrições do livro sofrem interferência concomitante de eventos paralelos, que afloram via lembranças, devaneios ou por meio de elaboradas análises das circunstâncias recém-presenciadas. Sempre espirituoso, o texto é caudaloso em ironia, com disparates da altura de “nunca conheci nenhuma flor de plástico que se comovesse diante de um cadáver”.

O deboche avança sobre a propalada perfeição de casamentos, na trama. A sensação de liberdade, por exemplo, se contrapõe à figura do narrador que se confessa “esporeado por uma mulher autoritária, apavorado com o sábado depois do jantar em que ela me devorará, na cama, com as gigantescas mandíbulas da vagina, obrigando-me a suar sobre a geléia do seu corpo a ginástica do desânimo conformado”. Cada vez mais próximo do destino final – a Praia das Maçãs –, o autor que perfaz trajeto nas estradas ao sul de Portugal segue apedrejando a instituição matrimonial, fabulando em torno dos casais estáveis vistos num balneário do percurso: “Os roupões pendurados lado a lado nos grampos da porta, debaixo do preço da diária encaixilhada como um retrato de família, prolongam uma ilusão de vida a dois que as dentaduras, pousadas sem vergonha na mesa de cabeceira, desmentem cruelmente com os seus risos de plástico”.

Um tanto desnorteado, o leitor pode vir a estranhar o enriquecedor recurso do escritor de promover ciranda aleatória entre narradores, sem exata delimitação. Chegando às vias de ser confundido até com um paciente, Lobo Antunes – repleto “de maldade e de terror”, qualidades intrínsecas dos comparsas de guerra – estimula o leitor, a cada página, pela tendência aos fluxos de monólogos ensimesmados, uma vez que os personagens se revezam na descrença da capacidade do diálogo. Daí vem o espanto com o desfecho comedido na ternura, mas que sepulta todo o desgaste do escritor com o manicômio. Por incrível que pareça, o autor ganha a provisória companhia de crianças e animais que, na sua visão, “se afastam do asilo como se afastam da morte empurrados por um misterioso receio, a recusa da agonia, da putrefação, dos sentimentos fúnebres e mórbidos que os habitam”.


Ricardo Daehn
em Correio-Web (Brasil)
2007

13/05/2008

Do leitor Joaquim Barão Rato: «Amanhã logo se vê»

Amanhã Logo Se Vê...

Caro António

Que ganho eu em não ser artista? Quer dizer: ganho só os malefícios? Sofro desalmadamente como eles. Aguento a solidão como eles. Só não escrevo, nem pinto, nem esculpo, nem fotografo, nem nada como eles.

Conheces algum artista feliz? Boa pergunta. Mas olha: que me lembre agora, não. Mas se o dilema está entre ser artista ou ser feliz eu não teria motivo para não o ser. A ti também não te acho muito feliz. Mesmo quando te vejo nas fotografias parece-me sempre que não estás lá. Está só a imagem, como se tu tivesses fugido antes da máquina disparar. Não se percebe o que quero dizer mas não sei explicar melhor. E nas entrevistas deixas-me a mesma sensação de enfado, de quem está cansado de tudo. Pareces-me, às vezes, um bocado farto de ti. Se calhar eu é que quero pensar assim mas é porque isso me acontece amiúde. De qualquer modo, segues a regra: ou se é feliz ou se é artista. E tu és artista e dos maiores. 

Achei-te há tempos, nas tuas crónicas. Tenho livros teus nas estantes. É fino. Talvez as crónicas me façam fome de te ler. Hoje acho que era de caras. Mas os teus livros ficaram na casa do Algarve. Fica para o fim-de-semana. Só que acho que isto não é uma questão de fome. Onde é que eu vou arranjar cabeça onde tu caibas? Bem vês, a culpa não é minha. Ou, para dizer melhor, não é só minha. Cada um tem o que a vida lhe quer dar (não o que merece, como dizem, porque eu tenho a mania que merecia mais). Não me habituei a ler na altura devida. Ninguém me ensinou, ninguém me estimulou. Havia mais (e muito diferente) para fazer. Digo ler coisas de mais fôlego, com mais conteúdo e dimensão. Vá lá que, como disse, leio, por exemplo, as tuas crónicas. Se leio…

Mas, dizia eu, achei-te nas crónicas. Por elas mantemos um contacto regular. Até me fizeste inventar uma nova forma de ler a revista. Abro-a e vou directo à crónica. Depois volto ao princípio e vejo no índice se há mais alguma coisa que me interesse especialmente. Só depois vai o resto. É leitura para aí para dois serões.

Na crónica de hoje vejo que tenho alguns dos defeitos do pessoal da escrita. Sofro que me desunho, não é invulgar andar de copo na mão e não raro sou mais solitário entre a gente do que quando estou sozinho. Depois vá de me achar incompreendido, mal amado, sei lá que mais. E a crónica a abrir-me horizontes e a fazer-me pensar que tenho alguma coisa em comum com aquela gente. Mas só nos malefícios, já disse. O destino deste escrito é o mesmo do da tal segunda parte das Almas Mortas do Gogol. Só que isso não me vai tornar nem mais nem menos célebre. Ninguém vai dizer: fulano escreveu uma coisa para o Lobo Antunes e depois rasgou-a. Quem é que quer saber disso? Mas estou a sentir-me tão bem que não me importo de mais nada. A gente tem esta cumplicidade regular e já nos conhecemos razoavelmente. Claro que isso não me dá, nem de perto nem de longe, direito a este tratamento por tu. Mas dá mais jeito à escrita e, de qualquer forma, tanto faz. Se é para rasgar o que é que isso interessa? De qualquer modo nós devemos ser moços para idades semelhantes. Tu volta e meia falas de Angola e da tropa e eu fui dos primeiros a serem mandados para lá. De maneira que devo ser mais velho. Não me apetece ir ver a tua idade à Internet (a Internet é que sabe tudo) para não perder o fio à meada (eu sei que não há meada nenhuma, estou só a armar-me). Mas pela idade não há problema. Por seres doutor também não porque não me pareces lá muitopraticante. E depois o susto que apanhei quando soube que te andavam a cortar para te tirarem qualquer coisa que te dava problemas também me dá alguns direitos. Se a gente sofre por alguém é porque tem alguma coisa a ver com ele… A propósito: foi impressão minha ou também te assustaste um bom bocado? Tradicionalmente vocês, os médicos, são mais cagarolas que nós, os ignorantes.

Seja como for não é só o tal de Apollinaire que tem direito a pedir piedade. No meio daquela gente toda que se esfalfou para deixar obra (e que referiste na crónica de hoje) há loucura que chega para meio mundo. E sofrimento. Mas, como bem referes, antes de piedade merecem gratidão. Fique então a piedade para mim que encho gavetas de escritos que só vão servir para dar trabalho aos que cá ficarem. Se calhar vão ter pena de os queimar não vá eu estar a vê-los.

Hoje não me apetece rasgar o escrito. Amanhã logo se vê…

Joaquim Barão Rato

PS: Depois de ter escrito isto (juro que foi só depois) descobri um sítio na Internet que serve para quem “pretenda fazer uma dedicatória a António Lobo Antunes”. Se calhar já não rasgo nada e vou tentar enviá-lo. Não altero, sequer, uma vírgula. Depois se verá. Mas, pela tua saúde, não me leves a mal...
J. R.


Joaquim Barão Rato
e-mail de 13.05.2008

06/05/2008

Daniel Osiecki: opinião sobre O Esplendor de Portugal


A marca do Lobo: estilhaços da pós-modernidade

Uma das marcas da modernidade é a quebra com o tradicional, e se tratando de literatura, muitas vezes essa quebra se evidencia de forma nada sutil. Atualmente se convencionou chamar as novas tendências artísticas de pós-modernas, que tratam exatamente de temáticas diversas, porém, a forma adquire um significado especial. É um ranço do movimento antropofágico que permeou as correntes estéticas do início do século XX, mas que na chamada pós-modernidade adquiriu proporções maiores.

Na literatura nomes como James Joyce, Virginia Woolf, T.S. Elliot e Marcel Proust produziram narrativas e textos poéticos que de certa forma apresentavam um formato novo de narrativa ou de poesia, causando dessa forma uma revolução nas artes em geral. A quebra com um narrador único e distante dá lugar a um movimento polifônico e experimental, mas é uma experimentação consciente e trabalhada que em momento algum cai no senso comum.

Muitos autores portugueses produziram também a chamada narrativa hiperbólica pós-moderna, criando assim, muitas vezes, diversos narradores em um único romance, por exemplo, autores como Augusto Abelaira em seu romance Bolor, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires e António Lobo Antunes, este último com uma marcada característica pós-moderna que se caracteriza pela desconstrução da forma clássica de romance e a imersão quase total num universo fragmentado e polifônico.

Lobo Antunes publica desde 1979, mesmo ano em que seu rival literário e ideológico, José Saramago, publica seu primeiro romance relevante, Levantado do Chão, e o psiquiatra que esteve em Angola como oficial do exército português encontrou em suas experiências de guerra temas constantes para sua literatura. Os Cus de Judas é seu primeiro romance e trata dos conflitos internos de um médico psiquiatra que retorna de Angola completamente mudado e enfrentando fortes embates existenciais. O universo sombrio e constantemente marcado por uma embriaguez física e intelectual de seus protagonistas tornam suas narrativas densas, pesadas e profundamente poéticas.

O romance O Esplendor de Portugal (1997) apresenta quatro narradores diferentes ao longo da narrativa. Trata-se da trajetória conflituosa e permeada de percalços de uma família de descendentes de portugueses que vai para Angola por motivos misteriosos e lá constituem família e prosperam como donos de terras. Mas a vida que levam é repleta por faltas morais graves e por carências de relações humanas e familiares, que dão à narrativa um tom amargo e irônico. Desde o pai, Amadeu, um alcoólatra que ignora as relações extra-matrimoniais da esposa Isilda, uma das narradoras, com um oficial da polícia de Luanda, até o filho epiléptico, Rui.

Os outros três narradores são seus filhos, Carlos, Rui e Clarisse, todos de certa forma apresentam características pessoais que fazem com que não se integrem na sociedade e vivam, desta maneira, numa espécie de labirinto no qual são impossibilitados de sair por conseqüência de suas próprias atitudes. Todos estão condenados a uma solidão irredutível que nenhum deles havia desejado, mas não fazem força alguma para mudar o quadro atual de suas vidas. A miséria que é vista por todos durante o tempo em que viveram em Luanda reflete também a miséria da condição humana, representada aqui pelo horror da guerra.

A narrativa fragmentada é construída de forma que cada narrador se integre ao outro, formando assim um exemplo clássico da mais bela prosa poética. A dureza dos acontecimentos é quebrada, às vezes, ao percebermos a linguagem que conduz os fatos, de forma que a dramaticidade da narrativa é tão forte que o leitor se sente tenso durante toda a leitura, mas essa dureza também é sublime e destaca-se pela forte supressão de imagens.

A falta de pontos, parágrafos e a ausência da norma padrão da linguagem são elementos típicos de Lobo Antunes, e o leitor assim é forçado a descobrir os significados das sentenças e dos períodos, quase sempre deixados à deriva para serem rigorosamente degustados pelo leitor. Prática essa típica da pós-modernidade. Num romance como esse, talvez a marca mais forte seja a presença arrebatadora de uma narrativa polifônica, que ao mesmo tempo em que exige do leitor um rigor maior, também dá mais espaços a sua prática como leitor-empírico. A fragmentação, a prosa poética e a experimentação formal são as marcas principais de António Lobo Antunes, e desse romance em especial. Lobo Antunes se propõe a uma construção narrativa rigorosa e metódica ao mesmo tempo em que a desconstrução de uma voz única de um protagonista se evidencia através da alteridade e do discurso híbrido.


Daniel Osiecki
04.04.2008

26/04/2008

Ente Lectual: Memória de Elefante - as personagens e a pessoa


Mais do que a persistência tenaz e manietante das imagens (o miúdo do circo que rasga listas telefónicas, os pianos que alguém carrega), muito mais do que isso, uma galeria sem fim de personagens reais, positivamente reais, em último recurso porque as ponho em letras.

Uma funcionária a quem, para os devidos efeitos, trataremos por Emily Brontë; o amigo que - tal como eu, médico, meia-idade, recém divorciado, eterno retornado da África onde deixámos os dentes e os tomates a troco de pensões risíveis ou invisíveis - um Sandokan, um verdadeiro Sandokan, mas sem sabre ou tigrezinhos ou Mompracem, nos quais um refúgio, uma garantia que seja; a espera por ti, como um cego espera que lhe enviem olhos pelo correio, escreve Molero; a divisão do sexo frágil em 5 categorias, 5 marcas de cigarros.

Uma mãe que garante, peremptória, a gente não damos conta do recado, sôtor; os agentes de propaganda médica, como cães, ou antes primos afastados dos vendedores de automóveis, de comum verborreia e indumentária; o velho treinador de hóquei que, enternecido, recorda as diatribes do velho pai do velho protagonista, 'fractura craniana', relembra em saudosismo e comoção indiscutíveis; o médico empenhado em investigar meticulosa e responsavelmente os tampos inferiores das secretárias do serviço, onde, dizem-lhe fontes seguras, o KGB por negras e desconhecidas artes conseguiu colocar microfones; Sr. Joaquim, prestimoso e fiel servidor do tiranete que carrega já com dez anos de pó e esquecimento, que jura a mãos juntas, que o sô professor ainda vive, que tudo um isco para a oposição, o nosso professor Oliveira ainda vive, fez-me seu ministro das finanças ontem, bem vê, aqui que ninguém nos ouve, ele come-lhes as papas na cabeça.

Dóri, a adiposa e necessitada sexagenária que fala nas 36 primaveras de cada membro, enquanto afasta os problemas existenciais em casinos, álcool e voluntariosos indivíduos do sexo oposto, qual gesto de mão que empurra debilmente o fumo não desejado de um cigarro próximo e apenas o impele num novo jogo de carambolas e movimentos insinuantes que não findam nunca. Não finda nunca o movimento (perpétuo?) do torvelinho de ressaca, escrevia Brandão, este ponto e esse contraponto dado por um protagonista a que poderemos, sem erro, dar o nome do autor, na senda de um equilíbrio tão desejado como falhado, na fuga precipitada e sem sistema da racionalidade convencional, em paralelo (em coincidência?) com um jogo pessoano entre os binómios sentir/pensar e, sobremaneira, a sinceridade e o fingimento.

Esta personagem, este autor, meia idade, a entrar na curva descendente da vida que, até então, lhe levara uma educação aburguesada no centro da capital, por entre salas de estar de tias e fotografias de coronéis de bigode e porte esbatido e amarelecido, ou a inconstância das relações familiares, nas quais convergem vontades e sentidos extremados que não levam vazão, e que perduram para lá da idade adulta; uma vida que lhe trouxe também, eficiente e amável, o sabor acre de uma guerra que nunca entendeu, de um divórcio com a mulher que ainda ama, seguida da separação das filhas. Uma continuidade angustiante de dias que se somam, firmada em hábitos questionáveis, apoiada na derisão e na ironia em que se afunda, pelo terror compreensível de se confessar frágil, e relançada indefinidamente pela perseguição em ponto morto do desejo antigo de escrever, acompanhado pelo também ele antigo medo (‘Mas se começar a escrever de facto e parir merda que me resta?’). Em suma, um homem numa crise existencial – se bem que recuse, sem dúvida, a designação – movida contra tudo aquilo que de firme, material, positivo, exista.

E, no início e no fim de tudo isto, a presença da memória como escape, como lenitivo, ao contrário de Pessoa que se refugia num passado ficcionado, o protagonista refugia-se na certeza tranquilizante de que, qualquer passado é, em si próprio, uma ficção: uma verdade erguida acima das demais, sem que precise (por isso mesmo?) de sistemas e prateleiras a sustentá-la e onde toda a parafernália de truques, de mecanismos de que se muniu o organismo para sobreviver são destituídos de funcionalidade – onde a própria fingida ferocidade da ironia ou do sarcasmo cedem lugar ao sentimento simples que lhes dá origem. No início e no fim de tudo isto: a memória que terminava em garantir-lhe, contrariando o peso oficial da tabuada, quem sabe se no sótão do sótão, ou na cave da cave, a afirmar que 2 e 2 não são 4.


por Ente Lectual
26.02.2008

25/04/2008

José Alexandre Ramos: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

O Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes: Antes e depois

O décimo primeiro título da obra de António Lobo Antunes é, antes de tudo, agora que vão mais de uma vintena de livros escritos, uma ponte que liga a obra anterior à mais actual. Pode muito bem servir como ponto de partida para o leitor iniciante neste autor: prepara-o para prosseguir cronologicamente a fim de se inteirar da evolução do estilo da escrita até aos dias de hoje, ao mesmo tempo que lhe inspira curiosidade para ler a obra anterior, de mais fácil leitura mas nem por isso menos densa e rica. Para os leitores menos acostumados a um discurso analéptico onde muitas vezes se perde o fio condutor – porque a António Lobo Antunes não lhe interessa contar uma história mas expor o ser humano que somos –, onde uma única voz interpreta a voz de todas personagens, e resumindo: para o leitor que não está habituado a outro tipo de escrita diferente da do romance comum, com personagens, actos, cenários, espaços e tempos claramente definidos, iniciar-se na leitura de Lobo Antunes deverá ser gradual, começando do princípio, para que se habitue a incarnar os livros um a um para poder digerir os mais ricos e complexos sem grande dificuldade, principalmente a partir de Que Farei Quando Tudo Arde?. Essa iniciação pode ser feita com O Manual dos Inquisidores, cujo tema do antes e pós 25 de Abril, recorrente mais ou menos na maioria dos livros publicados até 2000, entusiasmará o leitor curioso para saber de nós portugueses durante todo esse período e para além dele.

Porém, desengane-se quem poderá pensar que se trata apenas de um romance de carácter político ou social, e desengane-se também quem procura aqui indícios de um romance histórico. O Manual dos Inquisidores, na continuidade dos anteriores, retrata personagens que nos são próximas, não tanto pelo que viveram na transição do regime político, mas pela sua condição humana: a vaidade, o poder, a frustração, a resignação, a fraqueza, a desilusão, a sua soberania e o desamparo, a ascensão e a degradação. Ingredientes que misturados num caldo de factores psicológicos e morais nos dá a matéria de que somos feitos, nós os portugueses: com muita facilidade nos podemos ver retratados, nos reconhecemos nas personagens que vão surgindo gradualmente, como que se apresentando umas às outras. Um jogo de espelhos, de que muito fala o autor nas suas entrevistas.

Se quiséssemos resumir o livro à história que tem por trás como argumento, diríamos que é um livro sobre um influente ministro do antigo regime, traído pela sua mulher e que após algum tempo se resigna, abusando do seu poder, tendo casos com as empregadas da sua quinta em Palmela, quinta onde recebia Salazar para orientações de como governar o país e que acaba num lar de idosos, na sua fase de decadência, depois de se ter isolado durante o período da revolução na sua quinta lutando contra a ameaça comunista, colocando todos os seus empregados na rua. Tem dois filhos: João, fruto do seu casamento, que cresce desamparado e medíocre, e Paula, nascida da aventura com a cozinheira e que é dada aos cuidados de uma viúva. Mas é tão pouco para dizer do que este livro trata, porque cada personagem, isto é, cada voz que vem falar, traz consigo outras histórias paralelas, uma vez que abordam, em constantes analepses, vivências passadas e presentes, entrelaçando-se com o que disse a personagem anterior e o que dirá a personagem que a seguir vem falar. As vozes mais presentes, no entanto, são do ministro Francisco, da sua Governanta Titina, do filho João e da filha Paula, e também da sua amante Milá. Todas estas personagens trazem consigo outras vozes que enriquecem não uma trama mas a vivência humana e o estado psicológico destas pessoas que atravessaram um momento conturbado da nossa história recente. Nota a salientar é que estas vozes, estas vivências e finalmente estas pessoas pretendem ser a voz de uma facção da sociedade desse momento histórico. Como disse o autor, o livro “é visto sempre pelas pessoas que estão todas de um lado só”, ou seja o “retrato daquilo que se chama direita visto pela própria direita” não havendo qualquer “personagem revolucionária”, mesmo incluindo as personagens que são mais pobres, os subordinados do ministro, a viúva que toma conta da filha bastarda, a mãe da amante, etc.

O humor, não sendo uma característica exclusiva deste livro uma vez que está presente em praticamente toda a obra de Lobo Antunes, faz com que O Manual dos Inquisidorestenha uma faceta alegre, algumas vezes assumindo a caricatura para desanuviar possíveis tensões na narrativa. Não há vilões e heróis: comovemo-nos com a ternura do ministro carente do amor da sua mulher, vivemos a angústia do filho na sua solidão, do seu grito mudo, da sua frustração por ser manipulado, sorrimos com a ambição medíocre da filha depois de tomar consciência de quem é o pai, condoemo-nos do amor silencioso da governanta pelo seu patrão, rimos das atitudes mesquinhas das personagens face às circunstâncias. São todas estas personagens pessoas, de osso carne sangue e nervos, capazes de ternura e atrocidade, de amor e violência, de piedade e indiferença para com os outros.

É um livro rico em fabulações, imagens e metáforas de toda a ordem que faz a delícia do leitor que só tem a ganhar com a sua leitura. Porque aprende. Definitivamente aprendemos a conhecermo-nos ao lermos António Lobo Antunes. Somos nós que lá estamos, antes e depois deste livro.



José Alexandre Ramos
25.04.2008

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