13/05/2008

Do leitor Joaquim Barão Rato: «Amanhã logo se vê»

Amanhã Logo Se Vê...

Caro António

Que ganho eu em não ser artista? Quer dizer: ganho só os malefícios? Sofro desalmadamente como eles. Aguento a solidão como eles. Só não escrevo, nem pinto, nem esculpo, nem fotografo, nem nada como eles.

Conheces algum artista feliz? Boa pergunta. Mas olha: que me lembre agora, não. Mas se o dilema está entre ser artista ou ser feliz eu não teria motivo para não o ser. A ti também não te acho muito feliz. Mesmo quando te vejo nas fotografias parece-me sempre que não estás lá. Está só a imagem, como se tu tivesses fugido antes da máquina disparar. Não se percebe o que quero dizer mas não sei explicar melhor. E nas entrevistas deixas-me a mesma sensação de enfado, de quem está cansado de tudo. Pareces-me, às vezes, um bocado farto de ti. Se calhar eu é que quero pensar assim mas é porque isso me acontece amiúde. De qualquer modo, segues a regra: ou se é feliz ou se é artista. E tu és artista e dos maiores. 

Achei-te há tempos, nas tuas crónicas. Tenho livros teus nas estantes. É fino. Talvez as crónicas me façam fome de te ler. Hoje acho que era de caras. Mas os teus livros ficaram na casa do Algarve. Fica para o fim-de-semana. Só que acho que isto não é uma questão de fome. Onde é que eu vou arranjar cabeça onde tu caibas? Bem vês, a culpa não é minha. Ou, para dizer melhor, não é só minha. Cada um tem o que a vida lhe quer dar (não o que merece, como dizem, porque eu tenho a mania que merecia mais). Não me habituei a ler na altura devida. Ninguém me ensinou, ninguém me estimulou. Havia mais (e muito diferente) para fazer. Digo ler coisas de mais fôlego, com mais conteúdo e dimensão. Vá lá que, como disse, leio, por exemplo, as tuas crónicas. Se leio…

Mas, dizia eu, achei-te nas crónicas. Por elas mantemos um contacto regular. Até me fizeste inventar uma nova forma de ler a revista. Abro-a e vou directo à crónica. Depois volto ao princípio e vejo no índice se há mais alguma coisa que me interesse especialmente. Só depois vai o resto. É leitura para aí para dois serões.

Na crónica de hoje vejo que tenho alguns dos defeitos do pessoal da escrita. Sofro que me desunho, não é invulgar andar de copo na mão e não raro sou mais solitário entre a gente do que quando estou sozinho. Depois vá de me achar incompreendido, mal amado, sei lá que mais. E a crónica a abrir-me horizontes e a fazer-me pensar que tenho alguma coisa em comum com aquela gente. Mas só nos malefícios, já disse. O destino deste escrito é o mesmo do da tal segunda parte das Almas Mortas do Gogol. Só que isso não me vai tornar nem mais nem menos célebre. Ninguém vai dizer: fulano escreveu uma coisa para o Lobo Antunes e depois rasgou-a. Quem é que quer saber disso? Mas estou a sentir-me tão bem que não me importo de mais nada. A gente tem esta cumplicidade regular e já nos conhecemos razoavelmente. Claro que isso não me dá, nem de perto nem de longe, direito a este tratamento por tu. Mas dá mais jeito à escrita e, de qualquer forma, tanto faz. Se é para rasgar o que é que isso interessa? De qualquer modo nós devemos ser moços para idades semelhantes. Tu volta e meia falas de Angola e da tropa e eu fui dos primeiros a serem mandados para lá. De maneira que devo ser mais velho. Não me apetece ir ver a tua idade à Internet (a Internet é que sabe tudo) para não perder o fio à meada (eu sei que não há meada nenhuma, estou só a armar-me). Mas pela idade não há problema. Por seres doutor também não porque não me pareces lá muitopraticante. E depois o susto que apanhei quando soube que te andavam a cortar para te tirarem qualquer coisa que te dava problemas também me dá alguns direitos. Se a gente sofre por alguém é porque tem alguma coisa a ver com ele… A propósito: foi impressão minha ou também te assustaste um bom bocado? Tradicionalmente vocês, os médicos, são mais cagarolas que nós, os ignorantes.

Seja como for não é só o tal de Apollinaire que tem direito a pedir piedade. No meio daquela gente toda que se esfalfou para deixar obra (e que referiste na crónica de hoje) há loucura que chega para meio mundo. E sofrimento. Mas, como bem referes, antes de piedade merecem gratidão. Fique então a piedade para mim que encho gavetas de escritos que só vão servir para dar trabalho aos que cá ficarem. Se calhar vão ter pena de os queimar não vá eu estar a vê-los.

Hoje não me apetece rasgar o escrito. Amanhã logo se vê…

Joaquim Barão Rato

PS: Depois de ter escrito isto (juro que foi só depois) descobri um sítio na Internet que serve para quem “pretenda fazer uma dedicatória a António Lobo Antunes”. Se calhar já não rasgo nada e vou tentar enviá-lo. Não altero, sequer, uma vírgula. Depois se verá. Mas, pela tua saúde, não me leves a mal...
J. R.


Joaquim Barão Rato
e-mail de 13.05.2008

06/05/2008

Daniel Osiecki: opinião sobre O Esplendor de Portugal


A marca do Lobo: estilhaços da pós-modernidade

Uma das marcas da modernidade é a quebra com o tradicional, e se tratando de literatura, muitas vezes essa quebra se evidencia de forma nada sutil. Atualmente se convencionou chamar as novas tendências artísticas de pós-modernas, que tratam exatamente de temáticas diversas, porém, a forma adquire um significado especial. É um ranço do movimento antropofágico que permeou as correntes estéticas do início do século XX, mas que na chamada pós-modernidade adquiriu proporções maiores.

Na literatura nomes como James Joyce, Virginia Woolf, T.S. Elliot e Marcel Proust produziram narrativas e textos poéticos que de certa forma apresentavam um formato novo de narrativa ou de poesia, causando dessa forma uma revolução nas artes em geral. A quebra com um narrador único e distante dá lugar a um movimento polifônico e experimental, mas é uma experimentação consciente e trabalhada que em momento algum cai no senso comum.

Muitos autores portugueses produziram também a chamada narrativa hiperbólica pós-moderna, criando assim, muitas vezes, diversos narradores em um único romance, por exemplo, autores como Augusto Abelaira em seu romance Bolor, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires e António Lobo Antunes, este último com uma marcada característica pós-moderna que se caracteriza pela desconstrução da forma clássica de romance e a imersão quase total num universo fragmentado e polifônico.

Lobo Antunes publica desde 1979, mesmo ano em que seu rival literário e ideológico, José Saramago, publica seu primeiro romance relevante, Levantado do Chão, e o psiquiatra que esteve em Angola como oficial do exército português encontrou em suas experiências de guerra temas constantes para sua literatura. Os Cus de Judas é seu primeiro romance e trata dos conflitos internos de um médico psiquiatra que retorna de Angola completamente mudado e enfrentando fortes embates existenciais. O universo sombrio e constantemente marcado por uma embriaguez física e intelectual de seus protagonistas tornam suas narrativas densas, pesadas e profundamente poéticas.

O romance O Esplendor de Portugal (1997) apresenta quatro narradores diferentes ao longo da narrativa. Trata-se da trajetória conflituosa e permeada de percalços de uma família de descendentes de portugueses que vai para Angola por motivos misteriosos e lá constituem família e prosperam como donos de terras. Mas a vida que levam é repleta por faltas morais graves e por carências de relações humanas e familiares, que dão à narrativa um tom amargo e irônico. Desde o pai, Amadeu, um alcoólatra que ignora as relações extra-matrimoniais da esposa Isilda, uma das narradoras, com um oficial da polícia de Luanda, até o filho epiléptico, Rui.

Os outros três narradores são seus filhos, Carlos, Rui e Clarisse, todos de certa forma apresentam características pessoais que fazem com que não se integrem na sociedade e vivam, desta maneira, numa espécie de labirinto no qual são impossibilitados de sair por conseqüência de suas próprias atitudes. Todos estão condenados a uma solidão irredutível que nenhum deles havia desejado, mas não fazem força alguma para mudar o quadro atual de suas vidas. A miséria que é vista por todos durante o tempo em que viveram em Luanda reflete também a miséria da condição humana, representada aqui pelo horror da guerra.

A narrativa fragmentada é construída de forma que cada narrador se integre ao outro, formando assim um exemplo clássico da mais bela prosa poética. A dureza dos acontecimentos é quebrada, às vezes, ao percebermos a linguagem que conduz os fatos, de forma que a dramaticidade da narrativa é tão forte que o leitor se sente tenso durante toda a leitura, mas essa dureza também é sublime e destaca-se pela forte supressão de imagens.

A falta de pontos, parágrafos e a ausência da norma padrão da linguagem são elementos típicos de Lobo Antunes, e o leitor assim é forçado a descobrir os significados das sentenças e dos períodos, quase sempre deixados à deriva para serem rigorosamente degustados pelo leitor. Prática essa típica da pós-modernidade. Num romance como esse, talvez a marca mais forte seja a presença arrebatadora de uma narrativa polifônica, que ao mesmo tempo em que exige do leitor um rigor maior, também dá mais espaços a sua prática como leitor-empírico. A fragmentação, a prosa poética e a experimentação formal são as marcas principais de António Lobo Antunes, e desse romance em especial. Lobo Antunes se propõe a uma construção narrativa rigorosa e metódica ao mesmo tempo em que a desconstrução de uma voz única de um protagonista se evidencia através da alteridade e do discurso híbrido.


Daniel Osiecki
04.04.2008

26/04/2008

Ente Lectual: Memória de Elefante - as personagens e a pessoa


Mais do que a persistência tenaz e manietante das imagens (o miúdo do circo que rasga listas telefónicas, os pianos que alguém carrega), muito mais do que isso, uma galeria sem fim de personagens reais, positivamente reais, em último recurso porque as ponho em letras.

Uma funcionária a quem, para os devidos efeitos, trataremos por Emily Brontë; o amigo que - tal como eu, médico, meia-idade, recém divorciado, eterno retornado da África onde deixámos os dentes e os tomates a troco de pensões risíveis ou invisíveis - um Sandokan, um verdadeiro Sandokan, mas sem sabre ou tigrezinhos ou Mompracem, nos quais um refúgio, uma garantia que seja; a espera por ti, como um cego espera que lhe enviem olhos pelo correio, escreve Molero; a divisão do sexo frágil em 5 categorias, 5 marcas de cigarros.

Uma mãe que garante, peremptória, a gente não damos conta do recado, sôtor; os agentes de propaganda médica, como cães, ou antes primos afastados dos vendedores de automóveis, de comum verborreia e indumentária; o velho treinador de hóquei que, enternecido, recorda as diatribes do velho pai do velho protagonista, 'fractura craniana', relembra em saudosismo e comoção indiscutíveis; o médico empenhado em investigar meticulosa e responsavelmente os tampos inferiores das secretárias do serviço, onde, dizem-lhe fontes seguras, o KGB por negras e desconhecidas artes conseguiu colocar microfones; Sr. Joaquim, prestimoso e fiel servidor do tiranete que carrega já com dez anos de pó e esquecimento, que jura a mãos juntas, que o sô professor ainda vive, que tudo um isco para a oposição, o nosso professor Oliveira ainda vive, fez-me seu ministro das finanças ontem, bem vê, aqui que ninguém nos ouve, ele come-lhes as papas na cabeça.

Dóri, a adiposa e necessitada sexagenária que fala nas 36 primaveras de cada membro, enquanto afasta os problemas existenciais em casinos, álcool e voluntariosos indivíduos do sexo oposto, qual gesto de mão que empurra debilmente o fumo não desejado de um cigarro próximo e apenas o impele num novo jogo de carambolas e movimentos insinuantes que não findam nunca. Não finda nunca o movimento (perpétuo?) do torvelinho de ressaca, escrevia Brandão, este ponto e esse contraponto dado por um protagonista a que poderemos, sem erro, dar o nome do autor, na senda de um equilíbrio tão desejado como falhado, na fuga precipitada e sem sistema da racionalidade convencional, em paralelo (em coincidência?) com um jogo pessoano entre os binómios sentir/pensar e, sobremaneira, a sinceridade e o fingimento.

Esta personagem, este autor, meia idade, a entrar na curva descendente da vida que, até então, lhe levara uma educação aburguesada no centro da capital, por entre salas de estar de tias e fotografias de coronéis de bigode e porte esbatido e amarelecido, ou a inconstância das relações familiares, nas quais convergem vontades e sentidos extremados que não levam vazão, e que perduram para lá da idade adulta; uma vida que lhe trouxe também, eficiente e amável, o sabor acre de uma guerra que nunca entendeu, de um divórcio com a mulher que ainda ama, seguida da separação das filhas. Uma continuidade angustiante de dias que se somam, firmada em hábitos questionáveis, apoiada na derisão e na ironia em que se afunda, pelo terror compreensível de se confessar frágil, e relançada indefinidamente pela perseguição em ponto morto do desejo antigo de escrever, acompanhado pelo também ele antigo medo (‘Mas se começar a escrever de facto e parir merda que me resta?’). Em suma, um homem numa crise existencial – se bem que recuse, sem dúvida, a designação – movida contra tudo aquilo que de firme, material, positivo, exista.

E, no início e no fim de tudo isto, a presença da memória como escape, como lenitivo, ao contrário de Pessoa que se refugia num passado ficcionado, o protagonista refugia-se na certeza tranquilizante de que, qualquer passado é, em si próprio, uma ficção: uma verdade erguida acima das demais, sem que precise (por isso mesmo?) de sistemas e prateleiras a sustentá-la e onde toda a parafernália de truques, de mecanismos de que se muniu o organismo para sobreviver são destituídos de funcionalidade – onde a própria fingida ferocidade da ironia ou do sarcasmo cedem lugar ao sentimento simples que lhes dá origem. No início e no fim de tudo isto: a memória que terminava em garantir-lhe, contrariando o peso oficial da tabuada, quem sabe se no sótão do sótão, ou na cave da cave, a afirmar que 2 e 2 não são 4.


por Ente Lectual
26.02.2008

25/04/2008

José Alexandre Ramos: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

O Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes: Antes e depois

O décimo primeiro título da obra de António Lobo Antunes é, antes de tudo, agora que vão mais de uma vintena de livros escritos, uma ponte que liga a obra anterior à mais actual. Pode muito bem servir como ponto de partida para o leitor iniciante neste autor: prepara-o para prosseguir cronologicamente a fim de se inteirar da evolução do estilo da escrita até aos dias de hoje, ao mesmo tempo que lhe inspira curiosidade para ler a obra anterior, de mais fácil leitura mas nem por isso menos densa e rica. Para os leitores menos acostumados a um discurso analéptico onde muitas vezes se perde o fio condutor – porque a António Lobo Antunes não lhe interessa contar uma história mas expor o ser humano que somos –, onde uma única voz interpreta a voz de todas personagens, e resumindo: para o leitor que não está habituado a outro tipo de escrita diferente da do romance comum, com personagens, actos, cenários, espaços e tempos claramente definidos, iniciar-se na leitura de Lobo Antunes deverá ser gradual, começando do princípio, para que se habitue a incarnar os livros um a um para poder digerir os mais ricos e complexos sem grande dificuldade, principalmente a partir de Que Farei Quando Tudo Arde?. Essa iniciação pode ser feita com O Manual dos Inquisidores, cujo tema do antes e pós 25 de Abril, recorrente mais ou menos na maioria dos livros publicados até 2000, entusiasmará o leitor curioso para saber de nós portugueses durante todo esse período e para além dele.

Porém, desengane-se quem poderá pensar que se trata apenas de um romance de carácter político ou social, e desengane-se também quem procura aqui indícios de um romance histórico. O Manual dos Inquisidores, na continuidade dos anteriores, retrata personagens que nos são próximas, não tanto pelo que viveram na transição do regime político, mas pela sua condição humana: a vaidade, o poder, a frustração, a resignação, a fraqueza, a desilusão, a sua soberania e o desamparo, a ascensão e a degradação. Ingredientes que misturados num caldo de factores psicológicos e morais nos dá a matéria de que somos feitos, nós os portugueses: com muita facilidade nos podemos ver retratados, nos reconhecemos nas personagens que vão surgindo gradualmente, como que se apresentando umas às outras. Um jogo de espelhos, de que muito fala o autor nas suas entrevistas.

Se quiséssemos resumir o livro à história que tem por trás como argumento, diríamos que é um livro sobre um influente ministro do antigo regime, traído pela sua mulher e que após algum tempo se resigna, abusando do seu poder, tendo casos com as empregadas da sua quinta em Palmela, quinta onde recebia Salazar para orientações de como governar o país e que acaba num lar de idosos, na sua fase de decadência, depois de se ter isolado durante o período da revolução na sua quinta lutando contra a ameaça comunista, colocando todos os seus empregados na rua. Tem dois filhos: João, fruto do seu casamento, que cresce desamparado e medíocre, e Paula, nascida da aventura com a cozinheira e que é dada aos cuidados de uma viúva. Mas é tão pouco para dizer do que este livro trata, porque cada personagem, isto é, cada voz que vem falar, traz consigo outras histórias paralelas, uma vez que abordam, em constantes analepses, vivências passadas e presentes, entrelaçando-se com o que disse a personagem anterior e o que dirá a personagem que a seguir vem falar. As vozes mais presentes, no entanto, são do ministro Francisco, da sua Governanta Titina, do filho João e da filha Paula, e também da sua amante Milá. Todas estas personagens trazem consigo outras vozes que enriquecem não uma trama mas a vivência humana e o estado psicológico destas pessoas que atravessaram um momento conturbado da nossa história recente. Nota a salientar é que estas vozes, estas vivências e finalmente estas pessoas pretendem ser a voz de uma facção da sociedade desse momento histórico. Como disse o autor, o livro “é visto sempre pelas pessoas que estão todas de um lado só”, ou seja o “retrato daquilo que se chama direita visto pela própria direita” não havendo qualquer “personagem revolucionária”, mesmo incluindo as personagens que são mais pobres, os subordinados do ministro, a viúva que toma conta da filha bastarda, a mãe da amante, etc.

O humor, não sendo uma característica exclusiva deste livro uma vez que está presente em praticamente toda a obra de Lobo Antunes, faz com que O Manual dos Inquisidorestenha uma faceta alegre, algumas vezes assumindo a caricatura para desanuviar possíveis tensões na narrativa. Não há vilões e heróis: comovemo-nos com a ternura do ministro carente do amor da sua mulher, vivemos a angústia do filho na sua solidão, do seu grito mudo, da sua frustração por ser manipulado, sorrimos com a ambição medíocre da filha depois de tomar consciência de quem é o pai, condoemo-nos do amor silencioso da governanta pelo seu patrão, rimos das atitudes mesquinhas das personagens face às circunstâncias. São todas estas personagens pessoas, de osso carne sangue e nervos, capazes de ternura e atrocidade, de amor e violência, de piedade e indiferença para com os outros.

É um livro rico em fabulações, imagens e metáforas de toda a ordem que faz a delícia do leitor que só tem a ganhar com a sua leitura. Porque aprende. Definitivamente aprendemos a conhecermo-nos ao lermos António Lobo Antunes. Somos nós que lá estamos, antes e depois deste livro.



José Alexandre Ramos
25.04.2008

Reportagens sobre a entrega do Prémio Camões 2007



23/04/2008

Gregório Dantas: Todos ao caldeirão

edição Alfaguara - Brasil

Conhecimento do inferno, de António Lobo Antunes, em tom mordaz e de zombaria, não poupa ninguém numa viagem pelo horror da existência

[...] Memória de elefanteOs cus de Judas e Conhecimento do inferno foram lançados em um prazo muito curto, entre 1979 e 1980. Enredos e temas se assemelham: nos três romances, a ação transcorre em curto período de tempo (cerca de um dia) enquanto o protagonista, um médico psiquiatra que tem muito de Lobo Antunes, às vezes até o nome, rememora sua vida. O texto é essencialmente um longo monólogo interior, em que se entrelaçam memórias da infância, da família, do hospital psiquiátrico, da guerra colonial em Angola.

[(no Brasil)Conhecimento do inferno não parece estar entre os títulos mais festejados do autor. Talvez exatamente por ser o fecho de uma assim chamada trilogia, carregue certa impressão de cansaço da forma ou do tema adotados. Essa impressão é falsa: trata-se de um grande romance. Além disso, a leitura em conjunto dos três livros promove uma rica visão de como obsessões formais e temáticas de um grande autor podem adquirir novos contornos, em um rico jogo de auto-referência e reavaliação literária. Jogo que, no limite, persiste em seus livros até hoje.

Muitas vezes, um bom romance começa na epígrafe. A de Conhecimento do inferno é a transcrição do trecho de uma resenha publicada no The Quarterly Review, em 1860, sobre um romance de George Eliot. O resenhista, conservador e rigoroso, condena o tipo de ficção que se ocupa de vícios, crimes imaginários, fantasias e perplexidades, assuntos que podem invadir e corromper as mentes dos leitores, "com o conhecimento desnecessário do inferno". Em certa medida, (re)conhecer o inferno é precisamente ao que se propõe a literatura de António Lobo Antunes.

O enredo gira em torno de uma viagem de carro que o narrador empreende pelo sul de Portugal, do Algarve em direção a Lisboa. Cada localidade que atravessa corresponde aproximadamente a um capítulo do livro, até a chegada na casa dos pais, na madrugada do mesmo dia. A ação dura, portanto, parte de uma tarde e de uma noite. Como nos romances anteriores, a memória pode ser deflagrada voluntária ou involuntariamente, por imagens ou palavras que remetam, mesmo que de maneira tortuosa, a eventos da infância do narrador, da guerra colonial, da família. A rememoração, porém, nunca é linear e é sempre carregada de um alto grau de estranheza. Colabora, para esse estranhamento, o requinte dos detalhes e de certas metáforas incomuns que fazem de objetos cotidianos imagens aterradoras, provocando a transfiguração quase surreal do cenário e dos personagens.

Logo no início do romance, por exemplo, chama atenção a artificialidade caricatural da paisagem. Na região de veraneio, tudo é falso, e apenas os turistas estrangeiros parecem não se dar por isso: "O mar do Algarve é feito de cartão como nos cenários de teatro e os ingleses não percebem". Sob o "sol de papel", os turistas compram "colares marroquinos fabricados em segredo pela junta de turismo", e consomem "bebidas inventadas em copos que não existem, as quais deixam na boca o sabor sem gosto dos uísques fornecidos aos figurantes durante os dramas da televisão". O narrador, rancoroso, não poupa a vulgaridade das classes média e alta, ao atravessar os lugares "onde pessoas de plástico passavam férias de plástico no aborrecimento de plástico dos ricos, sob árvores semelhantes a grinaldas de papel de seda".

Torna-se evidente o contraste destas imagens kitsch com as impactantes memórias do narrador. Em Conhecimento do inferno, prevalecem as lembranças de sua passagem pela guerra colonial em Angola e da experiência no hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, onde ingressou em 73, "para iniciar a longa travessia do inferno".

Sem noite
Um episódio em particular merece especial atenção. Na África, um nativo ensina ao narrador que em Lisboa não há noite, e que o dia europeu se divide em dois: o do sol e o dos candeeiros. Já Angola, diz o narrador, "é um país de leprosos e de treva, um país de vultos inquietos, de rumorosos fantasmas (...) É o país onde os defuntos assistem sentados aos batuques, frenéticos da presença invisível dos deuses". No país da guerra, os homens são "animais de sombra", e a natureza assume contornos de um pesadelo sombrio. Em Portugal, contudo, o narrador reencontra as sombras e o pesadelo nos recônditos do hospital, onde a noite se esconde. Nas esquinas dos corredores, na prática médica ou nos efeitos dos remédios encontram-se "absolutas trevas, de um negro tão completo como os das noites dos cegos, cujas órbitas se assemelham a pássaros defuntos estendidos nas gaiolas das pestanas".

Mas o tom grave e de pesadelo dessas imagens ganha ares cômicos em diversas passagens. Em relação aos livros anteriores, em Conhecimento do inferno é mais evidente o tom de zombaria, de uma mordacidade que não dispensa imagens fortes e não poupa ninguém, principalmente a classe médica. O conhecimento dos médicos é reduzido a "palavrões imbecis" ou um "Reader's Digest pretensioso" e sua atividade é comparada à da Inquisição. Pessoalmente, seus colegas são verdadeiras caricaturas sinistras: uma médica possui feições de égua, uma "psicóloga feia" esconde "múltiplos membros aracnídeos de unhas roídas", além daquele médico com uma "barba Colóquio Letras & Artes" (em referência à prestigiada revista acadêmica portuguesa), "que possuía a compostura dos estúpidos, essa espécie de comedimento imbecil que faz às vezes do bom senso".

A prática psiquiátrica é ridicularizada a ponto do próprio médico ser confundido com um paciente, sem que haja qualquer indício de que o equívoco será corrigido. São demolidas definitivamente as fronteiras entre sãos e doentes: depois de assistirmos aos vôos dos pacientes, o próprio narrador perde os pés do chão.

Os meus próprios ossos adquiriam uma textura de espuma, a carne ornava-se fibrosa e leve como a madeira dos barcos. (...) Uma bolha de gás escapou-se-me do ânus. Deixei de sentir o chão nos sapatos. O corpo inclinou-se a pouco e pouco até se tornar horizontal, e desatei a remar na luz, piando desesperadamente na direcção dos outros.
Acho que nunca tinha voado.

Mas a principal fronteira a ser derrubada é outra: o recorrente paralelismo entre as memórias de guerra e as do hospital confere a ambas um caráter cada vez mais insólito. A prática canibal sugerida em um momento extremo no interior da África é transposta para uma reunião elegante entre os médicos, e estes compartilham com os soldados a prática da tortura e o exercício do poder pelo medo.

Entre os procedimentos mais comuns usados por Lobo Antunes para tornar quase indissociáveis as memórias de guerra e as do hospital consiste na repetição constante de uma frase ou uma expressão que ecoa entre os dois mundos. À certa altura, o narrador afirma, peremptório: "Nunca saí do hospital". Afirmação instigante, que sugere de imediato que a experiência do inferno hospitalar jamais o abandonou. Inferno cujo conhecimento o autor promove através dessa literatura forte, violenta, que não admite concessões.

Descrito assim, o romance perde muito. E essa trilogia "autobiográfica" de Lobo Antunes pede inevitavelmente uma releitura: haverá sempre imagens ou associações de palavras que, perdidas das sombras do texto, passaram despercebidas, mesmo ao leitor mais atento. Que a ficção de António Lobo Antunes mudou muito desde então, somos forçados a concordar. Mas seus livros iniciais são muito mais do que mero rascunho para as obras mais maduras. Como poucas narrativas contemporâneas, esses livros elaboram uma sofisticada rede de imagens e sentidos dos quais não é permitido se expor impunemente. [...]


Gregório Dantas
não datado

17/04/2008

Do leitor Rodrigo Simeão Versos

Dr. Lobo Antunes.

Acabo de ler uma crónica sua, na Visão, e de facto V. Exa. é um dos poucos escritores nacionais - vivos - que se conseguem ler sem se ficar com a sensação de que, quem escreveu o que se lê, não pensou minimamente no que escreveu, escreveu aquilo que escreveu como podia ter escrito qualquer outra coisa, no fundo são aqueles que “não desconfiam sempre no caso das palavras” lhes chegarem depressa de mais.

Um dia destes ouvi uma tal Dr.ª Rita Ferro, teoricamente escritora, dizer que os seus livros são absolutamente ininteligíveis, - anda-se de um lado para o outro para os perceber; pois eu digo-lhe que é esse dita ininteligibilidade que torna os seus livros absolutamente fascinantes, bons de ler e reler, de parar de ler para pensar o que se leu, pensar no que se leu e retomar a leitura, em suma de os ler. A leitura dos livros ditos inteligíveis – não sei se é o caso dos livros de tal Sr.ª Dr.ª, pois nunca os li – deve ser uma actividade maçadora, desmotivante, e boa para quem quer bater recordes de leitura do tipo x livros por mês, ou para quem quer substituir programas de televisão idiotas por livros igualmente idiotas, sem ideias e rápidos de ler que é para o os “miolos” não torrarem nas primeiras páginas.

Permita-me que lhe diga, na senda da sua cónica: “Aguente-se” e escreva, pois terá sempre quem leia com gosto.

Com os meus cumprimentos,

Rodrigo Simeão Versos


Rodrigo Simeão Versos
e-mail de 17.04.2008

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...