01/04/2008

Alan Gilbert: Terapeutas maltratados (sobre Conhecimento do Inferno)


É seguro dizer que o romance de António Lobo Antunes, Conhecimento do Inferno, não o tornará convidado para discursar em nenhuma conferência de psicanalistas. Muito do seu livro cativante é um rol vicioso de críticas contra a profissão: «De todos os médicos que conheci, psicanalistas, uma congregação de padres leigos com Bíblia, rituais, e os crentes, constituem a mais sinistra, a mais ridícula, a mais doentia das espécies». A ironia aqui é que António Lobo Antunes trabalha ele próprio como psiquiatria em Lisboa quando não está a escrever os vários romances pelos quais recebeu acalamação internacional (pelo menos nos Estados Unidos) – incluindo, dizem os boatos, ser incluído na lista de nomeados para o Prémio Nobel de Literatura.

Conhecimento do Inferno demonstra as impressionantes técnicas de Lobo Antunes para derrubar as barreiras entre passado e presente, realidade e ilusão. Tal como nos seus romances anteriores, o livro alterna com destreza entre várias personagens, cenários, e momentos históricos, resultando num narrador – uma pouco velada substituição autobiográfica – dividido em «eu» e «ele». A dissociação num sentido ao mesmo tempo cínico e estilístico é um tropo dominante. Enquadrada por uma viagem que dura um dia inteiro, a narrativa consiste numa série de encontros, analepses, e quase-alucinações em torno do trabalho do narrador num hospital psiquiátrico, o seu serviço no início dos anos 70 como médico na guerra colonial em Angola, e diversas memórias da infância e relações anteriores.

Inferno não são as outras pessoas; é o que as instituições fazem às pessoas. Lobo Antunes oscila entre a complacência e a sordidez, mesmo transcrições brutais de quase toda a gente no livro, incluindo ele próprio: «Asilos são nada menos que jardins regados com injecções de fertilizante». Os leitores mais apaixonados abrirão eventualmente sorrisos nos lábios perante o humor perverso e a compaixão que sublinham uma visão negra tão implacável. Este humor dissipa-se parcialmente após a meia-noite, perto do final da viagem depois de parar para uma vodka, altura em que o narrador começa a sentir sentimentos de ternura, especialmente quando pensa na filha, a quem o romance é dedicado. A felicidade pode ser exagerada, mas o futuro que as crianças encarnam leva a visão mais pessimista a dar lugar à esperança.

Knowledge of Hell (Trad: Clifford Landers) acaba de ser publicado nos EUA (18 Março 2008).

Alan Gilbert
18.03.2007
[traduzido do inglês por Gonçalo Figueiredo Augusto]

15/03/2008

Ente Lectual: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Um ensaio a duas partes sobre um livro que escrevi e me recuso a ler

1ª parte - o que não diria

“Perante uma obra destas, difícil delinear um início, esboçar uma continuação, entabular em duas linhas que sejam um diálogo entre personagens. Impossíveis resumos” - um dos mais velhos e vis truques de quem tenta resumir ou criticar um pedaço de arte, de literatura. Tudo mentira, não fosse o caso da sua indubitável aplicabilidade neste caso concreto.

(Ah, os casos concretos, outro truque da cartilha...)

Saltando aquela parte em que o crítico critica os outros menos sagazes críticos, contar-te-ei de um livro que um dia escrevi. Ontem não te vi em Babilónia.

Se, leitor, procuras uma obra de agradável, de cabeceira ou canto da secretária, lenitiva ou narcotizante, própria para insónias e descargos de consciência, tardes ou noites bem passadas de pés para a lareira, gato no colo, fá-lo noutro lado. Esta não é uma história agradável. Não é uma história. (Ponto). É triste, mas verdade.

Poder-lhe-ia dar um ar intrigante, uma trama que se move, narradores e personagens, aspectos cativantes. Poder-te-ia falar de Ana Emília, habitante de Lisboa, viúva, trespassada pelo suicídio da filha, recorrentemente visitada por um antigo agente da PIDE. Poder-te-ia falar das alusões subtis a espaços geográficos concretos como Évora, Lisboa ou aquele quarto que associo ao da minha avó

(também tu, se um dia escreveres este livro, o associarás a um remoto lugar que nebulosamente conheces)

à situação política de um Portugal de cicatrizes ainda mal fechadas, de uma guerra lá longe, de ideias revolucionárias, de uma - crítica de costumes’, retratos de personagens que em todas as ruas encontramos.

Explicar-te-ia também, fosse esta uma crítica séria e lavada que este livro é composto por cinco capítulos – cinco horas da noite. Da meia-noite às 5 da manhã, quatro narradores se vão revezando, fazendo turnos ao longo dos quais uma meada se desfia: o resultado, diria, de uma insónia impossível e um sono improvável.

Mencionaria ainda, já vestido o chapéu de apreciador de recursos estilísticos, uma a uma, as aliterações, personificações, passando por metáforas, comparações, oxímoros, hipálages. Das metáforas geniais através das quais se torna desnecessário nomear Aborto, Democracia, Comunismo, etc. E mesmo da ironia, não aquela que conheces do teu Eça, a ironia de um velho combatente, vagamente médico e erudito, que te controla há mais de trezentas páginas. Que te ridiculariza, a ti e à tua linguagem de origens jornalística.

Usaria uma das expressões da moda: sobre ‘a polifonia desta obra’, ‘riqueza dos personagens’ e outras que se não me escarrapacharam na lembradura (para usar uma também na moda, lá para freixo d’espada à cinta).

Tudo o que nunca diria sobre ontem não te vi em Babilónia.

1. (“Na telha que falta não há céu”)

Só o título forneceria matéria-prima para numerosas prelecções de carácter literário ou extra-literário, muita tinta correria, mãos e gargantas a trabalharem energeticamente, botões de punho, gravatas coloridas, na análise de cada um dos elementos e aventaçãode cada uma das possíveis interpretações resultantes da sua combinação. Não o faço, o título desta obra é o fim e não o início, é a conclusão, constringência com a qual se deparam tantos quantos construíram o texto, o livro se preferirem, num esforço quase épico. Bom, comecemos antes por um princípio.

Só me recordo de um ‘fio condutor’ da trama (caso tal coisa exista): a noite — o céu que não existe para lá da telha que falta; uma insónia prolongada em cima de um colchão e uma barriga que voltada para cima e uns olhos que abertos nada vêem e, por sobre a noite, a noite interminável. Cinco horas, cinco vidas que vão passando, confrontando um pretenso actor principal, mero espectador — o leitor. O fio condutor é a vigília insone, viagem impertinente, desautorizada, através de pretéritos sem dono.

“O céu faz economia de estrelas”, diz o narrador de Machado de Assis num dos seus contos, também neste Ontem de Lobo Antunes, não se lobriga uma estrela para amostra, apenas azul mortiço e indecifrável, cúmplice com um silêncio tortuoso, que ninguém se atreve a quebrar, que ninguém consegue interromper.

Há, nesta obra, uma intromissão constante do leitor no dever do escritor, vice-versa, em que ambos se servem da inépcia narrativa de uns, a dificuldade em ler correctamente de outros – e é assim que se desfia uma meada perdida que conduz a um novelo, a um tumor. A um temor. É esta a história do livro, a minha ou a tua história, uma história como qualquer outra, contada numa hipócrita 1ª pessoa, não a história passada — amontoado de traumas e infortúnios que deixaram, mais que pegadas, cadáveres nas enseadas do que somos, lambidos pelo salgado do mar —, não a história do que foi, a história do que é: desta sonolência que prende como que com tenazes e força o passado a uma continuidade pelo presente dentro.

2. (A história do hoje, antes de se tornar ontem quando já é amanhã.)

Menti.
Em ontem não te vi em Babilónia há de facto um ontem: há de facto a luta interior com espectros antigos, imagens que ora deslizam em slide, ora se perpetuam num sffumatovagaroso e sofrido e impelem o personagem a pedir auxílio, a desejar que sido não tivesse. Outra constante: o desejo de anular o passado, ou, pelo menos, anular a sua vinda esporádica ao presente, o que vai dar no mesmo.

(Maria Emília, exemplo, a páginas tantas confessa ’A quantidade de episódios que gostava de deitar fora’, essa mesmo que adiante revela uma cicatriz, antes úlcera?, provocado por ‘Nunca ter beijado o meu pai’).

Caso tenha utilizado o substantivo personagens, peço permissão para o substituir. Por pessoas. Personagem alguma neste livro, pois que é escrito por mim que o leio, pois que é erguido a força de lágrimas, suor, intermitências e cobardias, tão humanas quanto eu, quanto as formas que avultam nos 4 sujeitos noctívagos.

3. A fragilidade sujeitos vestidos de personagens

(“Se soubesses quanto dói a chuva…”)

Tudo nas pessoas disfarçadas de personagens é indubitavelmente humano, titubeante, frágil e diáfano — a Maria Emília basta a recordação das alturas em que o mar tão sereno, basta o mar em Agosto e emociona-se logo; ao antigo oficial da PIDE, que insiste em visitar o cemitério dos choupos, onde jazem vivos os caprichos da memória inclinada à celebração de alegrias idas, que aborrecem, que magoam, resta o lamento de não ter tido alguém em quem confiar. Noutros casos, o leitor-escritor penetra na intimidade

(que outra prova maior da veracidade dos ‘personagens’ senão terem intimidade?)

e depara-se com a belicosidade interior de Alice, o 3º sujeito, por oposição ao “corpo em paz para quem visse de fora”, na qual a amargura pela não existência de Deus, cuja prova, diz, é o céu desabitado.

4. Explicação do título

Como referido, o título desta obra não será nunca um início, antes uma verdade que vem crescendo de encontro ao leitor, como indicação no fundo da estrada que aumenta progressivamente as suas dimensões, e que chega sem concessões ou fugas fáceis. Ontem não te vi em Babilónia significa para um leitor atento, (em Lobo Antunes não existe outro tipo de leitor) mais do que um curioso artefacto que comprova uma coloquialidade surpreendente em tempos tão distantes, a injunção de uma ausência.

Injunção de ausência? Ora bolas. Explicando melhor: é a prova material de que o difícil confronto com cada uma das muitas páginas reporta, remonta e remete a uma ou várias ausências. A chave para a compreensão dos personagens que são pessoas é a falta, a supressão natural ou forçada de alguém, alguma coisa e a sua reacção perante esse silêncio e essa noite. Perante esse ontem onde não o ou a vimos. Não (te) ter visto ontem em Babilónia, acrescento, implica ainda um outro factor ou característica da ausência: ela ser prolongada, de segunda geração, por assim não dizer, por se referir a um pretérito anterior à “imediatidade” do ontem.

A Babilónia de Antunes, a do leitor, é portanto mais distante do que um ontem. É, talvez, um anteontem?

por Ente Lectual
07.09.2007

06/03/2008

Júlio Conrado: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 157/158 de Julho de 2000 – pp. 411 a 413


A popularidade e a ressonância dos romances de António Lobo Antunes terão hoje de ser procuradas à margem das coordenadas do bem escrever, pois vários são os sinais da existência de certo «problema» da escrita na oficina de um autor que admira Céline, gostaria de se rever no estilo de Cardoso Pires e tem «inveja», neste particular, de Mário Cláudio. Num pequeno exercício de leitura crítica de Exortação aos Crocodilos, procurarei isolar duas ou três linhas de força que ilustrem sumariamente o que precede. Pelo volume da obra, a sua penetração num vasto público, o seu renome, ambos, obra e Autor, merecem a observação, de perto, do modo como um produto manifestamente não encantatório e de escassa ludicidade consegue, em todo o caso, ganhos de sociabilidade só ao alcance de textos em que o prazer da cumplicidade estética na partilha da leitura do mundo por via escritural é uso atingir-se a partir de outros padrões de realização. Enigmático? Vamos por partes.

Talvez como em nenhum dos anteriores romances de Lobo Antunes da fase mais recente[o recenseador estava em 2000] - aquela em que o Autor se compraz em executar alguns exercícios «formais». supostamente irreverentes, que marcam a diferença em relação à compostura sintáctica dos primeiros livros - seja tão evidente a aposta num efeito de pulverização do discurso como em Exortação aos Crocodilos. Esse efeito é obtido através do dispositivo verbal que estimula o levitar de pequenas fracções do texto num espaço narrativo restrito onde concorrem sobretudo para a criação de atmosferas em detrimento de fluxos contínuos de sentido lógico. A demonstração desta «técnica» nas primeiras páginas deixa perceber uma premeditação de caos ao arrepio de nexos gramaticais e linguísticos conservadores que a lenta evolução da intriga acabará por naturalizar, graças a procedimentos de recorte iterativo-redundante a que o narrador recorre sem qualquer embaraço. Desde logo dá nas vistas a personagem surda e isso explicará, quando em intervenção mediúnica o narrador «por ela» discorre na primeira pessoa, o corte abrupto das palavras, a incompletude das representações, o défice de associações e equivalências correspondentes ao que no campo visual vai captando. Surpreendentemente, porém, essa personagem - a mulher de um «patrão» terrorista - , em lapsos fulgurantes de lucidez, consegue contextualizar, racionalizando, o que se passa à beira dela, de tal modo que as suas intermitentes reflexões se tornam, desde cedo, um dos traços credenciadores do recado que se pretende fazer passar, a «voz» de que o narrador se serve para, em apoio dos próprios desígnios, estabelecer na desordem vocabular e de conteúdos um princípio de organização espacio-temporal.

A partir desta linguagem «surda» de retalho, dinamitada por fracturas, interrupções bruscas, cortes, elipses, silêncios e falas sibilinas de conspiração, ganha gradualmente nitidez a ligação do operacional terrorista à hierarquia da Igreja Católica (não por acaso a acção tem por centro geográfico o Patriarcado), empenhada numa guerra santa, ao lado de generais inconformados com o estado das coisas e do embaixador norte-americano - guerra santa cujo aparato rapidamente coloca o receptor no miolo de um esquema do tipo de rede bombista. Outros comparsas entretanto se intrometem, outros elementos de distúrbio atrapalham, outros cenários alternam com miúdos relatos de odisseias pessoais, como por exemplo a vida conjugal de Celina e seu epílogo violento. De sublinhar que a maioria dos eus da história se expressa do ponto de vista do feminino - Mimi, Simone, Celina ou Fátima (o que revela uma tendência de Lobo Antunes já visível noutros escritos, veja-se O Esplendor de Portugal). A leitura terá de continuar em esforço porque a clareza expositiva no vermelho deriva do que tende a consolidar-se como «estilo». Se o Autor não é capaz de escrever bem e claro embora os temas o reclamem, porque não fazer da falta de estilo «o estilo»? Ou será o instinto de autodefesa a impor o não estilo como medida de precaução, não vá o diabo tecê-las?

À medida que o romance avança, afrouxa ligeiramente o ritmo da fragmentação. As atmosferas adensam-se com o correr da intriga, mas percebe-se que, a dado passo, o Autor sente a necessidade de começar a explicar-se ao leitor - aligeirando certos truques de mistério, suspense, obstrução lexical. Essa explicação passa por um discurso já não tão prolixo e pelo acumular de informações que remetem para um tempo específico da história portuguesa recente («um levantamento de católicos ao norte, o roubo de armas numa caserna, uma bomba na moradia de um deputado de Souzel», p. 147) e para uma definição mais precisa do relacionamento das personagens entre si e do que lhes vai acontecendo ou daquilo que os seus comportamentos vão determinando.

O tom é de disforia. Não sobra um nico de optimismo, uns laivos de amor ou de ternura aliviando a pressão de quotidianos sem luz, sufocantes de medos e de casos clínicos sem o colorido das perspectivas de cura. O clima é de guerra santa vivida em espaços interiores, frequentados por gente marcada, altos dignitários, antigos polícias, mulheres que colaboram, na sombra, nas acções, mas cujo testemunho é crucial na configuração da trama. A tónica no inventário minucioso de mobiliário, adereços, bibelôs, naperons, reposteiros, talheres, salvas de prata, argolas de guardanapo, abajures, contadores, loiças chinesas, jarras de porcelana, arcas japonesas, etc., numa obsessão pelas coisas que vem do Novo Romance e é recorrente na prosa do Autor, ajuda a situar socialmente todos aqueles nostálgicos de um regime que caiu de podre e que agora encontram nova razão para se sentirem vivos - a cruzada contra os comunistas, com algumas variantes: a relação de Fátima com o «padrinho» no capítulo dezoito é dada com requintes de crueldade, a que não escapa a forte carga simbólica do nome, em episódio que se inscreve como dos melhores instantes no livro de horrores que é Exortação aos Crocodilos.

Sempre com as mulheres conduzindo os fios da intriga numa «fala» segmentada por recordações da infância, reminiscências da fase adolescente, memória de relações familiares conturbadas, identificadas às vezes por frases sobreviventes ou de choque (este é um romance sem diálogos e de precária vocação coloquial, ainda que verbalmente chão), tais como «Livra-te de te coçares agora», «Pára com a choradeira rapariga», «Se o teu pai coitadinho sonhasse...», «Voar Celina voar», «Deslarguem-me», etc., chega-se à consumação do atentado para que a subjectividade do texto vinha apelando. Assim se consagra uma estratégia romanesca de condenação da guerra santa que todavia não chega a ser guerra suja (talvez por falta de condições concretas para tal), mas sem a tendência da escrita se inverter por forma a que o sentido se encaminhe para uma síntese de conto moral capaz de criar empatia e colocar o leitor a favor ou contra o que a história, não obstante, propõe, dificuldade resultante dos níveis de ambiguidade em que essa proposta é literariamente objectivada.

Como «justificação» do sucesso de livros como este, excluindo as campanhas demarketing e promocionais que pouco têm a ver com a literatura, só encontro, por um lado, as fidelidades de leitura que vêm dos tempos de Memória de ElefanteOs Cus de JudasConhecimento do Inferno e Explicação dos Pássaros, e por outro a coragem com que António Lobo Antunes aborda os temas social e politicamente explosivos do nosso tempo e que insolitamente tão pouco eco encontram na produção da esmagadora maioria dos ficcionistas portugueses. Eram tempos, aqueles, em que Lobo Antunes escrevia por prazer e muitos sentiam prazer em lê-lo. Depois, tornou-se escritor profissional, estrito senso, com a obrigação de pôr cá fora uma ficção «genial» de doze em doze meses, mais coisa menos coisa. Exortação aos Crocodilos é sem dúvida o romance mais exuberantemente depressivo, no seu tricô exasperado de ódios, sombras e desastres, desta segunda, estranhíssima, fase.


Júlio Conrado
Colóquio Letras 157/158
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 2000

24/02/2008

Prémio FIL de Literatura 2008 (Guadalajara)



* falado em espanhol, sem legendas

«António Lobo Antunes recuerda y agradece a sus grandes maestros por darle las lecciones necesarias para mejorar su trabajo y solucionar problemas técnicos a los que ha debido enfrentarse como escritor. Además, evoca su paso por el ejército portugués durante la guerra de descolonización de Angola y su decisión de dedicarse a la escritura al regresar herido a su país.»

12/02/2008

Vinicius Jatoba: sobre Conhecimento do Inferno


Poucos sobrenomes resumem tanto uma obra: o comportamento soturno do lobo, sua elegante agressividade e aura de mistério, esses são os predicativos exactos para a compulsiva sequência de romances do maior vulto do romance português recente. Cada um num sentido, e com suas respectivas codas criativas abrangendo as últimas três décadas em momentos diferentes, José Cardoso Pires, José Saramago e António Lobo Antunes formam uma rica e plural biblioteca que vazou Portugal em todas suas possíveis representações, da mais alegórica à banal, da pública e solar à íntima e nocturna. Com Saramago bem editado e lido no País, e todas as principais obras de Cardoso Pires em catálogo esperando reimpressões, chegou o momento de Lobo Antunes alcançar um merecido público maior. No espaço de menos de um ano terá publicado ‘Conhecimento do Inferno’, um de seus primeiros livros, e ‘Eu Hei-de Amar uma Pedra’, seu último romance; e será justamente a edição progressiva de livros dos diferentes pólos desse arco que dará ao leitor a ideia exacta de que António Lobo Antunes, o escritor genioso, teve que trabalhar muito antes de ser, afinal, António Lobo Antunes, o escritor brilhante que encontrou novas técnicas de representar memória, trauma e neurose na literatura.

Ainda que marcado pelo trânsito, por um movimento pendular entre Portugal e África, Conhecimento do Inferno possui um tempo bem definido: seu narrador, um médico psiquiatra, viaja de carro de Algarve até Lisboa por uma tarde e noite e enquanto descreve os lugares por onde passa pensamentos de diversas ordens e naturezas lhe atravessam num fluxo verbal de alta dosagem lírica. Os primeiros quatro romances de Lobo Antunes, [...], alimentam-se de uma mesma e recorrente experiência autobiográfica: a guerra colonial em África, o exercício pouco inspirado da medicina, a difícil transição entre o homem que sente e o homem que escreve, a impossibilidade do afecto, seja ele entre parentes, seja no matrimónio. O narrador tem um romance que deseja acabar; o nome do próprio autor, Lobo Antunes, aparece no texto; e o hospital que é cenário de parte do livro é o mesmo onde Antunes trabalhava naquele momento - essas referências são os alicerces que garantem a fortaleza dos textos desse primeiro Lobo Antunes: há um gosto metálico e contagiante no modo visceral de se ver o mundo, a linguagem é tão pessoal que se aproxima do diário e da confissão, e é forte a impressão que o livro deixa mesmo muito tempo após a leitura. Porém, há um porém. É compreensível que em 1980, ano de sua publicação original, o livro tenho causado enorme entusiasmo, tanto pelos seus temas até então inéditos na literatura portuguesa quanto pela grotesca força de sua linguagem. Hoje se percebe, contudo, que o livro envelheceu mal. E por dois motivos: a guinada que o trabalho de Lobo Antunes deu na década de 90 a partir do extraordinário ‘A Ordem Natural das Coisas’, romance em que o autor parece estar finalmente à vontade com seu talento; e também pela própria percepção de que a experiência que Antunes explora nesses primeiros livros é menos rica que a retórica ao redor dela tenta indicar. Nesses livros há um tremular agitado na superfície da água que espanta e distrai; décadas depois, no entanto, pode-se perceber que o que era mar é mais poça que os leitores inaugurais poderiam supor, e o próprio Lobo Antunes é o primeiro a afirmar seu honesto desconforto em relação ao seu trabalho anterior a ‘Tratado das Paixões da Alma’. Nesses livros Antunes força muito em sua busca pela originalidade, e há nessa batalha textual um evidente conflito entre sua imaginação absolutamente poética e a necessária pobreza inerente à construção da ficção em prosa, que muitas vezes deve descartar a beleza na busca da eficácia. A natureza metafórica de Conhecimento do Inferno, sua exuberância de imagens aberrantes, faz com que o enredo não avance e se torne nebuloso, impasse esse que Antunes transformará na principal qualidade de sua obra de maturidade ao demitir quase completamente as amarras do enredo. O romance lírico, a que Lobo Antunes tenta em vão se filiar no início de sua trajectória, deve sua natureza mais a uma construção detalhista da atmosfera do que ao acumulo inflacionado de imagens e adjectivos; por outro lado, enquanto narrativas de denúncia social de um autor que nunca escapou do engajamento no campo da ficção, as obras-primas ‘Exortação aos Crocodilos’ e ‘Manual dos Inquisidores’ conseguem mais com estratégias indirectas muito distintas de certos momentos de Conhecimento do Inferno em que Antunes simplesmente ilumina demais suas visões políticas, tornando-se até algo didáctico.

Para antes de sua maturidade um escritor, um grande escritor, costuma deixar uma turba de corpos tortos; livros nascem de livros, e dentro da trajectória de um autor seus próprios livros vão se corrigindo uns aos outros. É possível encarar que os acertos de um escritor, na maioria das vezes, são bem resolvidos diálogos com a sua tradição, e seria impossível pensar Lobo Antunes sem o legado modernista de Faulkner e Woolf, de onde aprendeu e depois aprofundou a maior parte de suas técnicas de contraponto e lembranças entrecortadas. O grande escritor se define mais pelos seus fracassos, esse andar temeroso pelo terreno ambíguo de sua própria personalidade - e o que há de irregular é o embate na busca de uma voz, o que há de excesso é o substrato da luta de encontrar outras possibilidades além daquelas já esgotadas pelos predecessores. Com a canonização de um escritor há uma tendência natural de supervalorização de seus sucessos; porém, uma melhor aproximação dos textos clássicos indica que é mais pela singularidade de seus defeitos que um autor acaba se destacando do resto de seus contemporâneos. Inclusive, no caso de Lobo Antunes, foram esses fracassos iniciais, quando vistos pela óptica de seus romances maduros, que possibilitaram a enorme ressonância de seu estilo tardio e a tranquila soberania de sua voz criadora no cenário literário de hoje. Foi só depois de uma longa década que Antunes encontrou no próprio tecido do romance, na própria história do romance, naquilo que já estava nele para ser desenvolvido, artifícios onde sua maneira lúdica de encarar o mundo material poderia ser finalmente exponenciada; tanto buscou, tanto lutou, e tanto falhou que, ao fim, acabou por encontrar um tipo de romance todo seu. E nisso ele está certo: ninguém escreve como António Lobo Antunes, um dos poucos autores incontornáveis da língua portuguesa. Seus romances têm apenas sua cara; e isso tanto para o bem, quanto para o mal.


Vinicius Jatoba
10.11.2006

09/02/2008

«A morte tem os nossos olhos»


Revista Tabu, suplemento do Semanário SOL - entrevista de Catarina Homem Marques
02 Fevereiro 2008

Assume-se como o melhor escritor português vivo mas não quer com isso ferir ninguém. É honesto, de outra forma não sabe existir. O pudor fica para as emoções e mesmo aí desfalece. Um cancro abalou-lhe a noção de imortalidade. Venceu-o e continua a escrever.


Leia a entrevista em formato pdf, seguindo este link.


edição Semanário Sol
02.02.2008

23/01/2008

«Na literatura actual até os tops são pagos»


Jornal de Notícias - entrevista de Sérgio Almeida
20 Janeiro 2008



Nobel à parte, não há muitos prémios ou condecorações que ainda faltem no currículo de António Lobo Antunes. Com 65 anos, o autor de romances essenciais como "Manual dos inquisidores" ou "Não entre tão depressa nessa noite escura" diz-se cada vez mais grato aos leitores portugueses por permitirem que viva unicamente dos seus livros. "Algo que nunca imaginava no início", desabafa.


A inquietude que sempre caracterizou António Lobo Antunes ainda não se extinguiu. De momento, é a recente mudança de mãos da editora que ajudou a tornar uma das mais fortes em Portugal o que mais parece preocupar o laureado romancista. Por isso, admite todos os cenários. Até mudar-se para uma pequena editora...

Admitiu a hipótese de deixar de publicar cá, dada a indefinição na Dom Quixote. Agora que o grupo Leya já se apresentou, mantém essa intenção?
Não li o que disseram. Vou reunir-me com eles para a semana. Que intenções revelaram?

Pelos vistos, pretendem criar o maior grupo editorial em língua portuguesa.
E não duvido que o consigam. Mas, vejamos: quem são, neste momento, as editoras que editam bons livros? São as pequenas. Há a Assírio & Alvim - dirigida por Manuel Rosa, um homem excepcional por quem tenho o máximo respeito -, a Caixotim, a Cavalo de Ferro…

Teme que a Dom Quixote perca a sua identidade?
O problema não é recente. A Dom Quixote segue há anos uma política editorial errática. Não há uma orientação definida. Falta um director editorial.

A saída de Nélson de Matos marcou a viragem?
Com todas as qualidades e defeitos que tem, é um editor. E um líder. Isso é indiscutível. Com a sua saída, a editora deixou de ter uma política definida. Uma vez, o editor Christian Bourgois disse-me que é mais difícil encontrar um grande editor do que um grande escritor. Para ficar, quero determinadas garantias. Senão, vou embora. Posso publicar cá através do Brasil, por exemplo.

A que garantias se refere?
Questões de ordem editorial. Dizer que querem criar o maior grupo é vago. É preciso haver maior profissionalismo, que não há. Apesar de tudo, tenho tido a sorte de trabalhar na Dom Quixote com uma mulher excepcional, a Teresa Coelho. Os livros que faço exigem muita atenção e, como a Teresa tem estado doente, não sei como vai ser. Tirando este caso, não vejo lá mais ninguém em quem tenha confiança. Portanto, para que continue, quero que me assegurem um editor da minha confiança. Não sei se tal será possível, até porque não sou assim tão importante.

Admite passar a publicar por uma editora pequena?
Não tenho nada contra isso. O problema é que assinei há pouco tempo um novo contrato de dez anos com a Dom Quixote...

Desconfia por natureza dos grandes grupos?
A tendência para os conglomerados editoriais é cada vez maior. Claro que, para rentabilizarem o investimento, vão unir departamentos, do marketing à administração, e haverá certamente despedimentos, embora isso já não me diga respeito. Interessa-me apenas a parte da cultura. É por isso que admiro as editoras pequenas. As grandes, pelo contrário, são máquinas de fazer dinheiro. Publicam livros que daqui a dois anos ninguém lerá. Que queiram fazer o maior grupo editorial é-me indiferente. Embora o dinheiro seja importante, porque, na literatura actual, tudo é comprado. As montras são pagas, a exposição dos livros - que decide se eles ficam sentados ou de pé - também… Até os tops são pagos. Essa é a vantagem dos grandes editores: podem atirar o livro à cara das pessoas, enquanto os títulos dos pequenos editores, que não têm dinheiro para pagar às livrarias, ninguém os vê.

Esse desagrado não terá que ver com o facto de vir a pertencer ao mesmo grupo editorial de Saramago?
Não tenho nada contra o homem. Nem a favor. Nunca tive. Parece que ele tem um problema qualquer comigo, mas eu nunca tive. Acho que ele faz o melhor que pode.

Nos últimos anos, os tops literários foram arrebatados por figuras mediáticas exteriores ao meio literário. Sente-se cada vez mais desconfortável neste meio?
Não acho que o fenómeno seja recente.

Mas nunca como hoje a venda de livros esteve tão dependente do facto de os autores serem, ou não, figuras públicas.
Esses livros sempre existiram. E repare: quem é que lê hoje o Dan Brown? Ou até mesmo "O nome da rosa"? Não me preocupa nada que haja pessoas a vender 200 mil ou 300 mil livros. Ainda bem para eles. O que acho errado é dizerem - como ouvi há uns anos a uma senhora que publica livros - que puseram não sei quantas centenas de milhares de portugueses a ler. Não é verdade. Quando muito, puseram essas tais centenas de milhares a ler os seus livros.

Não acredita, então, que quem se inicia pela literatura "light" vai de seguida ler Tolstói ou Dostoievski...
Claro que não. Um exemplo: há uns anos, houve um concorrente do "Big brother" - julgo que era assim que se chamava o concurso - que publicou um livro. Fez uma sessão de autógrafos e vendeu imenso. Só que as pessoas rasgavam a página da assinatura e deitavam fora o livro. Isso também aconteceu na Dom Quixote. Se uma qualquer pessoa da televisão chegasse lá e dissesse que queria publicar um livro, eles fá-lo-iam na hora.

Como o livro "Eu, Carolina"
É-me indiferente. Uma vez, perguntei a um editor alemão por que publicava a Jackie Collins. "Para poder publicar o Malcolm Lowry", respondeu-me. A Dom Quixote, por exemplo, já publicou Faulkner ou Conrad, mas argumenta que não vendem. Mas pergunto: o que fizeram por esses livros? Trabalharam-nos? Fizeram-nos chegar ao leitores? Ou limitaram-se a pô-los nas livrarias? Esses livros precisam de ser apoiados. Por que não pedir a pessoas que escrevam sobre eles?

Acaba de sair uma colecção de clássicos em formato de bolso dirigida por si. Não é essa espécie de serviço público que defende?
Não sei se vai funcionar. As capas são bonitas, mas não gostei das fotografias da contracapa - sempre a mesma imagem do Tolstói com aquela barba... -, nem das biografias e muito menos da propaganda aos livros que a Dom Quixote está a editar noutra colecção.

Mas a lista de 50 autores que escolheu é insuspeita.
É um projecto muito antigo, que fui convidado a desenvolver até em Espanha: encontrar livros de autores que estejam no domínio público - de maneira a não pagar direitos de autor -, fazer traduções de qualidade e utilizar o meu nome como chamariz para atrair mais leitores. Mas não quero ganhar dinheiro nenhum com isso. Quero é que as pessoas leiam bons livros. No entanto, gostei bastante do grafismo. A nova geração pode não ter grandes escritores mas tem grandes fotógrafos, como o Augusto Brásio, que estão ao nível do melhor que se faz nos principais países. Na tradução, é igual. Há um punhado de tradutores portugueses de elevadíssima qualidade.

Nota-se nos últimos tempos um maior esforço da sua parte em esbater a imagem intimidatória que foi criada.
Acha mesmo? Nunca percebi por que motivo tentaram colar-me essa imagem de mal-educado. Não sou nada disso. É óbvio que ter passado recentemente por uma situação delicada de saúde alterou várias coisas. Estive de frente com a minha finitude. Quando me disseram: " Tens um cancro"... É uma violência atroz. Tive muita sorte.

Onde foi buscar forças?
Nas pessoas que me rodeavam. Quando ia aos tratamentos, vi como os portugueses são extraordinários. A dignidade com que as pessoas, conscientes de que iam morrer, se comportavam... Comovia-me a coragem desta gente de todas as idades. Gente pobre, porque os ricos não vão ao Hospital D. Maria.

Sente-se uma pessoa melhor?
Depois da operação, passei dois meses, sentado, a olhar para uma parede. Não era capaz de fazer nada. Estava completamente vazio.

Mais do que o terror da morte, tinha o terror de não voltar a escrever?
Isso ocorreu-me, mas a verdade é que voltei e acabei o livro. Terminei-o em Novembro e não voltei a fazer nada. Estou a pensar iniciar um novo em Fevereiro, mas não sei... Tudo isso aconteceu numa altura em que choveram prémios. Mas, depois de uma doença, isso deixa de ter importância. É importante escrever, não publicar. Comecei a publicar por acaso. Escrevia os livros e deitava-os fora...

Consegue encontrar quietude à sua volta?
Agora é uma maçada, porque as pessoas fotografam-me com os telemóveis e vão vender as fotos às revistas. Na primeira vez que saí, após o cancro, vi-me, sem o saber, numa dessas revistas de TV.

Ficou revoltado.
Com que direito fazem aquilo? Fotografarem um homem curvado, magro...

Mudou algo na sua rotina?
Não, continuo a trabalhar da mesma forma. Devia ter deixado de fumar, mas não deixei.

Escrever é uma actividade física esgotante, já disse. Agora, doseia esse esforço?
As minhas análises nunca foram tão boas. Há muitos anos, o Jorge Amado dizia que sentia inveja de mim, porque eu trabalhava 12 horas por dia e a ele bastavam quatro horas para ficar cansado. Agora, vejo que é verdade. Fico parvo quando vejo escritores que escrevem 30 ou 40 páginas por dia. Quando escrevo uma, é uma sorte.

É muito cioso sobre a vida privada. Por que decidiu revelar o seu problema de saúde?
A vida privada é a única coisa que tenho. Mas já estava tão farto dos boatos, que afectavam a minha família e amigos que entendi ser melhor contar logo.

Ao mesmo tempo em que é aclamado como um autor universal, a relação que tem com os portugueses parece mais forte do que nunca.
O André Gide dizia que "quando há unanimidade em meu redor, pergunto o que terei feito de mal". E, de facto, é um pouco inquietante, porque isso tem acontecido. Os portugueses têm sido de uma generosidade enorme para comigo.

Sente que a densidade crescente dos seus romances ainda não foi bem assimilada pela crítica?
Ainda é cedo para avaliar o que faço. A mim, pelo menos, há uma parte que escapa.

Não há uma vontade de provocar quando diz que ninguém lhe chega aos calcanhares?
Não estou a ser vaidoso. É a verdade. Todos escrevemos para mudar a arte de escrever. O Tchekhóv e o Conrad mudaram-na, mas há muitos mais. Não sou mais que um elo que começou muito antes de mim e acabará muito depois.



20.01.2008

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...