24/02/2008

Prémio FIL de Literatura 2008 (Guadalajara)



* falado em espanhol, sem legendas

«António Lobo Antunes recuerda y agradece a sus grandes maestros por darle las lecciones necesarias para mejorar su trabajo y solucionar problemas técnicos a los que ha debido enfrentarse como escritor. Además, evoca su paso por el ejército portugués durante la guerra de descolonización de Angola y su decisión de dedicarse a la escritura al regresar herido a su país.»

12/02/2008

Vinicius Jatoba: sobre Conhecimento do Inferno


Poucos sobrenomes resumem tanto uma obra: o comportamento soturno do lobo, sua elegante agressividade e aura de mistério, esses são os predicativos exactos para a compulsiva sequência de romances do maior vulto do romance português recente. Cada um num sentido, e com suas respectivas codas criativas abrangendo as últimas três décadas em momentos diferentes, José Cardoso Pires, José Saramago e António Lobo Antunes formam uma rica e plural biblioteca que vazou Portugal em todas suas possíveis representações, da mais alegórica à banal, da pública e solar à íntima e nocturna. Com Saramago bem editado e lido no País, e todas as principais obras de Cardoso Pires em catálogo esperando reimpressões, chegou o momento de Lobo Antunes alcançar um merecido público maior. No espaço de menos de um ano terá publicado ‘Conhecimento do Inferno’, um de seus primeiros livros, e ‘Eu Hei-de Amar uma Pedra’, seu último romance; e será justamente a edição progressiva de livros dos diferentes pólos desse arco que dará ao leitor a ideia exacta de que António Lobo Antunes, o escritor genioso, teve que trabalhar muito antes de ser, afinal, António Lobo Antunes, o escritor brilhante que encontrou novas técnicas de representar memória, trauma e neurose na literatura.

Ainda que marcado pelo trânsito, por um movimento pendular entre Portugal e África, Conhecimento do Inferno possui um tempo bem definido: seu narrador, um médico psiquiatra, viaja de carro de Algarve até Lisboa por uma tarde e noite e enquanto descreve os lugares por onde passa pensamentos de diversas ordens e naturezas lhe atravessam num fluxo verbal de alta dosagem lírica. Os primeiros quatro romances de Lobo Antunes, [...], alimentam-se de uma mesma e recorrente experiência autobiográfica: a guerra colonial em África, o exercício pouco inspirado da medicina, a difícil transição entre o homem que sente e o homem que escreve, a impossibilidade do afecto, seja ele entre parentes, seja no matrimónio. O narrador tem um romance que deseja acabar; o nome do próprio autor, Lobo Antunes, aparece no texto; e o hospital que é cenário de parte do livro é o mesmo onde Antunes trabalhava naquele momento - essas referências são os alicerces que garantem a fortaleza dos textos desse primeiro Lobo Antunes: há um gosto metálico e contagiante no modo visceral de se ver o mundo, a linguagem é tão pessoal que se aproxima do diário e da confissão, e é forte a impressão que o livro deixa mesmo muito tempo após a leitura. Porém, há um porém. É compreensível que em 1980, ano de sua publicação original, o livro tenho causado enorme entusiasmo, tanto pelos seus temas até então inéditos na literatura portuguesa quanto pela grotesca força de sua linguagem. Hoje se percebe, contudo, que o livro envelheceu mal. E por dois motivos: a guinada que o trabalho de Lobo Antunes deu na década de 90 a partir do extraordinário ‘A Ordem Natural das Coisas’, romance em que o autor parece estar finalmente à vontade com seu talento; e também pela própria percepção de que a experiência que Antunes explora nesses primeiros livros é menos rica que a retórica ao redor dela tenta indicar. Nesses livros há um tremular agitado na superfície da água que espanta e distrai; décadas depois, no entanto, pode-se perceber que o que era mar é mais poça que os leitores inaugurais poderiam supor, e o próprio Lobo Antunes é o primeiro a afirmar seu honesto desconforto em relação ao seu trabalho anterior a ‘Tratado das Paixões da Alma’. Nesses livros Antunes força muito em sua busca pela originalidade, e há nessa batalha textual um evidente conflito entre sua imaginação absolutamente poética e a necessária pobreza inerente à construção da ficção em prosa, que muitas vezes deve descartar a beleza na busca da eficácia. A natureza metafórica de Conhecimento do Inferno, sua exuberância de imagens aberrantes, faz com que o enredo não avance e se torne nebuloso, impasse esse que Antunes transformará na principal qualidade de sua obra de maturidade ao demitir quase completamente as amarras do enredo. O romance lírico, a que Lobo Antunes tenta em vão se filiar no início de sua trajectória, deve sua natureza mais a uma construção detalhista da atmosfera do que ao acumulo inflacionado de imagens e adjectivos; por outro lado, enquanto narrativas de denúncia social de um autor que nunca escapou do engajamento no campo da ficção, as obras-primas ‘Exortação aos Crocodilos’ e ‘Manual dos Inquisidores’ conseguem mais com estratégias indirectas muito distintas de certos momentos de Conhecimento do Inferno em que Antunes simplesmente ilumina demais suas visões políticas, tornando-se até algo didáctico.

Para antes de sua maturidade um escritor, um grande escritor, costuma deixar uma turba de corpos tortos; livros nascem de livros, e dentro da trajectória de um autor seus próprios livros vão se corrigindo uns aos outros. É possível encarar que os acertos de um escritor, na maioria das vezes, são bem resolvidos diálogos com a sua tradição, e seria impossível pensar Lobo Antunes sem o legado modernista de Faulkner e Woolf, de onde aprendeu e depois aprofundou a maior parte de suas técnicas de contraponto e lembranças entrecortadas. O grande escritor se define mais pelos seus fracassos, esse andar temeroso pelo terreno ambíguo de sua própria personalidade - e o que há de irregular é o embate na busca de uma voz, o que há de excesso é o substrato da luta de encontrar outras possibilidades além daquelas já esgotadas pelos predecessores. Com a canonização de um escritor há uma tendência natural de supervalorização de seus sucessos; porém, uma melhor aproximação dos textos clássicos indica que é mais pela singularidade de seus defeitos que um autor acaba se destacando do resto de seus contemporâneos. Inclusive, no caso de Lobo Antunes, foram esses fracassos iniciais, quando vistos pela óptica de seus romances maduros, que possibilitaram a enorme ressonância de seu estilo tardio e a tranquila soberania de sua voz criadora no cenário literário de hoje. Foi só depois de uma longa década que Antunes encontrou no próprio tecido do romance, na própria história do romance, naquilo que já estava nele para ser desenvolvido, artifícios onde sua maneira lúdica de encarar o mundo material poderia ser finalmente exponenciada; tanto buscou, tanto lutou, e tanto falhou que, ao fim, acabou por encontrar um tipo de romance todo seu. E nisso ele está certo: ninguém escreve como António Lobo Antunes, um dos poucos autores incontornáveis da língua portuguesa. Seus romances têm apenas sua cara; e isso tanto para o bem, quanto para o mal.


Vinicius Jatoba
10.11.2006

09/02/2008

«A morte tem os nossos olhos»


Revista Tabu, suplemento do Semanário SOL - entrevista de Catarina Homem Marques
02 Fevereiro 2008

Assume-se como o melhor escritor português vivo mas não quer com isso ferir ninguém. É honesto, de outra forma não sabe existir. O pudor fica para as emoções e mesmo aí desfalece. Um cancro abalou-lhe a noção de imortalidade. Venceu-o e continua a escrever.


Leia a entrevista em formato pdf, seguindo este link.


edição Semanário Sol
02.02.2008

23/01/2008

«Na literatura actual até os tops são pagos»


Jornal de Notícias - entrevista de Sérgio Almeida
20 Janeiro 2008



Nobel à parte, não há muitos prémios ou condecorações que ainda faltem no currículo de António Lobo Antunes. Com 65 anos, o autor de romances essenciais como "Manual dos inquisidores" ou "Não entre tão depressa nessa noite escura" diz-se cada vez mais grato aos leitores portugueses por permitirem que viva unicamente dos seus livros. "Algo que nunca imaginava no início", desabafa.


A inquietude que sempre caracterizou António Lobo Antunes ainda não se extinguiu. De momento, é a recente mudança de mãos da editora que ajudou a tornar uma das mais fortes em Portugal o que mais parece preocupar o laureado romancista. Por isso, admite todos os cenários. Até mudar-se para uma pequena editora...

Admitiu a hipótese de deixar de publicar cá, dada a indefinição na Dom Quixote. Agora que o grupo Leya já se apresentou, mantém essa intenção?
Não li o que disseram. Vou reunir-me com eles para a semana. Que intenções revelaram?

Pelos vistos, pretendem criar o maior grupo editorial em língua portuguesa.
E não duvido que o consigam. Mas, vejamos: quem são, neste momento, as editoras que editam bons livros? São as pequenas. Há a Assírio & Alvim - dirigida por Manuel Rosa, um homem excepcional por quem tenho o máximo respeito -, a Caixotim, a Cavalo de Ferro…

Teme que a Dom Quixote perca a sua identidade?
O problema não é recente. A Dom Quixote segue há anos uma política editorial errática. Não há uma orientação definida. Falta um director editorial.

A saída de Nélson de Matos marcou a viragem?
Com todas as qualidades e defeitos que tem, é um editor. E um líder. Isso é indiscutível. Com a sua saída, a editora deixou de ter uma política definida. Uma vez, o editor Christian Bourgois disse-me que é mais difícil encontrar um grande editor do que um grande escritor. Para ficar, quero determinadas garantias. Senão, vou embora. Posso publicar cá através do Brasil, por exemplo.

A que garantias se refere?
Questões de ordem editorial. Dizer que querem criar o maior grupo é vago. É preciso haver maior profissionalismo, que não há. Apesar de tudo, tenho tido a sorte de trabalhar na Dom Quixote com uma mulher excepcional, a Teresa Coelho. Os livros que faço exigem muita atenção e, como a Teresa tem estado doente, não sei como vai ser. Tirando este caso, não vejo lá mais ninguém em quem tenha confiança. Portanto, para que continue, quero que me assegurem um editor da minha confiança. Não sei se tal será possível, até porque não sou assim tão importante.

Admite passar a publicar por uma editora pequena?
Não tenho nada contra isso. O problema é que assinei há pouco tempo um novo contrato de dez anos com a Dom Quixote...

Desconfia por natureza dos grandes grupos?
A tendência para os conglomerados editoriais é cada vez maior. Claro que, para rentabilizarem o investimento, vão unir departamentos, do marketing à administração, e haverá certamente despedimentos, embora isso já não me diga respeito. Interessa-me apenas a parte da cultura. É por isso que admiro as editoras pequenas. As grandes, pelo contrário, são máquinas de fazer dinheiro. Publicam livros que daqui a dois anos ninguém lerá. Que queiram fazer o maior grupo editorial é-me indiferente. Embora o dinheiro seja importante, porque, na literatura actual, tudo é comprado. As montras são pagas, a exposição dos livros - que decide se eles ficam sentados ou de pé - também… Até os tops são pagos. Essa é a vantagem dos grandes editores: podem atirar o livro à cara das pessoas, enquanto os títulos dos pequenos editores, que não têm dinheiro para pagar às livrarias, ninguém os vê.

Esse desagrado não terá que ver com o facto de vir a pertencer ao mesmo grupo editorial de Saramago?
Não tenho nada contra o homem. Nem a favor. Nunca tive. Parece que ele tem um problema qualquer comigo, mas eu nunca tive. Acho que ele faz o melhor que pode.

Nos últimos anos, os tops literários foram arrebatados por figuras mediáticas exteriores ao meio literário. Sente-se cada vez mais desconfortável neste meio?
Não acho que o fenómeno seja recente.

Mas nunca como hoje a venda de livros esteve tão dependente do facto de os autores serem, ou não, figuras públicas.
Esses livros sempre existiram. E repare: quem é que lê hoje o Dan Brown? Ou até mesmo "O nome da rosa"? Não me preocupa nada que haja pessoas a vender 200 mil ou 300 mil livros. Ainda bem para eles. O que acho errado é dizerem - como ouvi há uns anos a uma senhora que publica livros - que puseram não sei quantas centenas de milhares de portugueses a ler. Não é verdade. Quando muito, puseram essas tais centenas de milhares a ler os seus livros.

Não acredita, então, que quem se inicia pela literatura "light" vai de seguida ler Tolstói ou Dostoievski...
Claro que não. Um exemplo: há uns anos, houve um concorrente do "Big brother" - julgo que era assim que se chamava o concurso - que publicou um livro. Fez uma sessão de autógrafos e vendeu imenso. Só que as pessoas rasgavam a página da assinatura e deitavam fora o livro. Isso também aconteceu na Dom Quixote. Se uma qualquer pessoa da televisão chegasse lá e dissesse que queria publicar um livro, eles fá-lo-iam na hora.

Como o livro "Eu, Carolina"
É-me indiferente. Uma vez, perguntei a um editor alemão por que publicava a Jackie Collins. "Para poder publicar o Malcolm Lowry", respondeu-me. A Dom Quixote, por exemplo, já publicou Faulkner ou Conrad, mas argumenta que não vendem. Mas pergunto: o que fizeram por esses livros? Trabalharam-nos? Fizeram-nos chegar ao leitores? Ou limitaram-se a pô-los nas livrarias? Esses livros precisam de ser apoiados. Por que não pedir a pessoas que escrevam sobre eles?

Acaba de sair uma colecção de clássicos em formato de bolso dirigida por si. Não é essa espécie de serviço público que defende?
Não sei se vai funcionar. As capas são bonitas, mas não gostei das fotografias da contracapa - sempre a mesma imagem do Tolstói com aquela barba... -, nem das biografias e muito menos da propaganda aos livros que a Dom Quixote está a editar noutra colecção.

Mas a lista de 50 autores que escolheu é insuspeita.
É um projecto muito antigo, que fui convidado a desenvolver até em Espanha: encontrar livros de autores que estejam no domínio público - de maneira a não pagar direitos de autor -, fazer traduções de qualidade e utilizar o meu nome como chamariz para atrair mais leitores. Mas não quero ganhar dinheiro nenhum com isso. Quero é que as pessoas leiam bons livros. No entanto, gostei bastante do grafismo. A nova geração pode não ter grandes escritores mas tem grandes fotógrafos, como o Augusto Brásio, que estão ao nível do melhor que se faz nos principais países. Na tradução, é igual. Há um punhado de tradutores portugueses de elevadíssima qualidade.

Nota-se nos últimos tempos um maior esforço da sua parte em esbater a imagem intimidatória que foi criada.
Acha mesmo? Nunca percebi por que motivo tentaram colar-me essa imagem de mal-educado. Não sou nada disso. É óbvio que ter passado recentemente por uma situação delicada de saúde alterou várias coisas. Estive de frente com a minha finitude. Quando me disseram: " Tens um cancro"... É uma violência atroz. Tive muita sorte.

Onde foi buscar forças?
Nas pessoas que me rodeavam. Quando ia aos tratamentos, vi como os portugueses são extraordinários. A dignidade com que as pessoas, conscientes de que iam morrer, se comportavam... Comovia-me a coragem desta gente de todas as idades. Gente pobre, porque os ricos não vão ao Hospital D. Maria.

Sente-se uma pessoa melhor?
Depois da operação, passei dois meses, sentado, a olhar para uma parede. Não era capaz de fazer nada. Estava completamente vazio.

Mais do que o terror da morte, tinha o terror de não voltar a escrever?
Isso ocorreu-me, mas a verdade é que voltei e acabei o livro. Terminei-o em Novembro e não voltei a fazer nada. Estou a pensar iniciar um novo em Fevereiro, mas não sei... Tudo isso aconteceu numa altura em que choveram prémios. Mas, depois de uma doença, isso deixa de ter importância. É importante escrever, não publicar. Comecei a publicar por acaso. Escrevia os livros e deitava-os fora...

Consegue encontrar quietude à sua volta?
Agora é uma maçada, porque as pessoas fotografam-me com os telemóveis e vão vender as fotos às revistas. Na primeira vez que saí, após o cancro, vi-me, sem o saber, numa dessas revistas de TV.

Ficou revoltado.
Com que direito fazem aquilo? Fotografarem um homem curvado, magro...

Mudou algo na sua rotina?
Não, continuo a trabalhar da mesma forma. Devia ter deixado de fumar, mas não deixei.

Escrever é uma actividade física esgotante, já disse. Agora, doseia esse esforço?
As minhas análises nunca foram tão boas. Há muitos anos, o Jorge Amado dizia que sentia inveja de mim, porque eu trabalhava 12 horas por dia e a ele bastavam quatro horas para ficar cansado. Agora, vejo que é verdade. Fico parvo quando vejo escritores que escrevem 30 ou 40 páginas por dia. Quando escrevo uma, é uma sorte.

É muito cioso sobre a vida privada. Por que decidiu revelar o seu problema de saúde?
A vida privada é a única coisa que tenho. Mas já estava tão farto dos boatos, que afectavam a minha família e amigos que entendi ser melhor contar logo.

Ao mesmo tempo em que é aclamado como um autor universal, a relação que tem com os portugueses parece mais forte do que nunca.
O André Gide dizia que "quando há unanimidade em meu redor, pergunto o que terei feito de mal". E, de facto, é um pouco inquietante, porque isso tem acontecido. Os portugueses têm sido de uma generosidade enorme para comigo.

Sente que a densidade crescente dos seus romances ainda não foi bem assimilada pela crítica?
Ainda é cedo para avaliar o que faço. A mim, pelo menos, há uma parte que escapa.

Não há uma vontade de provocar quando diz que ninguém lhe chega aos calcanhares?
Não estou a ser vaidoso. É a verdade. Todos escrevemos para mudar a arte de escrever. O Tchekhóv e o Conrad mudaram-na, mas há muitos mais. Não sou mais que um elo que começou muito antes de mim e acabará muito depois.



20.01.2008

13/01/2008

Paulo Barriga: opinião sobre O Meu Nome é Legião


Logo à noite, lá para as nove e meia, [dia 7 Dezembro 2007] António Lobo Antunes vai estar em Beja, na Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago, para falar sobre o seu último livro, O Meu Nome é Legião, e também para o autografar. Se ele tiver paciência e vagar, lá estarei para engrossar a fila com o exemplar que me remeteram da Dom Quixote e que eu li com o mesmo frenesi ou alucinação com que li os restantes volumes da sua obra (dezanove, com este). O livro que hoje quero ver riscado pela lapiseira de Lobo Antunes até pode não ser a sua grande obra-prima (o que dizer, por exemplo, de As Naus ou de Fado Alexandrino?), mas é certamente um dos mais inesperados.

O Meu Nome é Legião é surpreendente porque o autor, ao contrário do que costuma ser habitual nos seus romances, fabrica agora os personagens na agenda informativa do dia, recorta-os das páginas do "Correio da Manhã", decalca-os do violento alinhamento dos noticiários da TVI, descobre-os na batalha que diariamente está travada nos bairros degradados da periferia. O narrador é um polícia à beira da reforma, 63 anos, cuja missão é reconstituir o percurso e as atrocidades que um bando de jovens delinquentes do Bairro 1º de Maio acabou de cometer.

Roubo de automóvel. Assalto violento a estação de serviço com disparos e vítimas. Incursão impetuosa numa loja de telemóveis. Carjacking com sucessivas violações à ocupante na presença do companheiro. Regresso às ruas escuras e contorcidas do bairro. São estas algumas das etapas do calvário que o velho investigador terá que percorre e, antes de tudo, que anotar no seu pormenorizado relatório.

Aliás, o livro, numa leitura muito superficial e imediata, é a descrição policial, é o relato exaustivo, dos passos e dos actos praticados pelo gang da favela lisboeta. Na aparência, e apenas aí, trata-se de um romance policial na voz de uma só pessoa, que, afastadas as infindáveis distâncias, faz lembrar a narrativa amanuense que está por detrás de Balada da Praia dos Cães, livro simbólico de José Cardoso Pires, cuja publicação ocorreu há precisamente 25 anos.

Mas como tudo o que brota da imaginação de Lobo Antunes, O Meu Nome é Legião também não é um exercício assim tão simples e linear como o estávamos a pintar. É um facto que o romance parte dessa possibilidade narrativa que é o relatório policial desenvolvido por um agente minucioso. No entanto, o relato depressa começa a ser interceptado por estilhaços da memória do polícia. Depressa o investigador começa a dialogar consigo próprio, esboroando toda a sua existência, desfazendo-se como se fora um daqueles bolinhos de açúcar a que chamam "areias".

E é neste cruzamento quase inverosímil entre a exposição escrita de uma investigação criminal e as recordações fraccionadas do redactor que o leitor mergulha abruptamente naquilo a que podemos chamar de vórtice Lobo Antunes. Um poço infindável onde a mente chega a ser mais material que a própria matéria e onde a introspecção é apenas uma artimanha para manter vivos os protagonistas da história: "visita-me a suspeita de existir qualquer coisa em mim, no aspecto, na maneira de exprimir-me, que afasta as pessoas" (p. 26).

António Lobo Antunes – este livro é a décima nona prova disso – está muito para lá da algazarra menor que é o panorama literário português da actualidade. No campo da ficção, na triste altura em que Agustina e Saramago deixaram de produzir, Lobo Antunes acaba por ser o último romancista que nos resta. No país dos poetas, esta noite vou querer ouvir um que não é, sendo-o tão profundamente.


Paulo Barriga
artigo publicado no Diário do Alentejo
07.12.2007

30/12/2007

Sergio del Molino: En El Culo Del Mundo


Nunca acreditei naquilo de “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”, muitíssimo menos na variante “diz-me o que lês e dir-te-ei quem és”. Nem sequer “diz-me o que escreves e dir-te-ei quem és”. Oxalá as pessoas fossem tão simples. Oxalá, aplicando essas premissas, pudéssemos desenvolver os parâmetros necessários com a menor margem de erro que nos permitissem etiquetar alguém apenas com um golpe de vista. A intuição, a exploração das contradições, em definitivo, o processo de descobrir uma pessoa seria reduzida a uma simples fórmula. É o que procuram os portais de internet de contactos e agências matrimoniais: afinidades eleitas mediante combinações matemáticas. Oxalá fosse tão simples julgar e conhecer, mas, por sorte, as pessoas sempre acabam por surpreender-nos, terão sempre uma parte que elas mesmas desconhecem, sempre terão uma nova cara a mostrar-nos. Por isso não me etiquetem com leviandade quando confesso o meu pecado: gosto de António Lobo Antunes.

Sim, é denso, arcaico em certas ocasiões, como um velho e artrítico deus. Cinzento e metafísico e com uma tendência barroca que com frequentemente enfeita o ritmo da narração. Mas gosto dele, desfruto-o, estremece-me. E isso não me classifica em nenhum lote intelectual, porque também gosto de muitos autores que se situam no extremo oposto, do contundente e cómico estilo desnudado. Creio que, salvas as distâncias, o bom leitor é como um bom gourmet ou um bom apreciador de cerveja (outro dia falarei da minha paixão pela cerveja): gostam dos extremos, provar novos territórios e decidir por uma leitura adequada ao momento e ao estado de espírito. Qualquer escritor pode ser sublime ou indiferente segundo a disposição que tenha o leitor, como uma boa cerveja fumada norueguesa pode saber a água de esfrega se bebida em pleno verão espanhol. Cada livro tem o seu leitor e o seu momento. Estou convencido disso. Só os clássicos aguentam firmes as releituras sob condições distintas e distantes.

Dizia que gosto de António Lobo Antunes, e não sou uma alma desgraçada pela melancolia. Lobo Antunes é uma descoberta tardia. Não havia lido nada seu até cerca de um ano, mas pouco a pouco, e graças às maravilhosas edições da Siruela, me vou embebendo cronologicamente dos livros do português, de que gosto mais do que os artigos semanais que publica na Bebelia. Comecei com Os Cus de Judas, um romance que tem tantos anos como eu e que se publicou num Portugal em pleno rescaldo revolucionário, desorientado e desarmado, empenhado em olhar para a frente e despir-se do seu passado salazarista como de roupa emprestada. Algo parecido ocorria do outro lado da fronteira, mas penso que os portugueses souberam sair das suas trevas melhor que os espanhóis, com mais dignidade e menos medo pela besta parda escondida.

O trauma de Portugal chama-se Angola. É o seu Vietname, como Marrocos foi para a Espanha dos anos 20. Angola é os cus de judas, confins do mundo. E há muito de Joseph Conrad nesta aproximação a África. É inevitável: para os ocidentais, O Coração das Trevas é o filtro pelo qual vemos, consciente ou inconscientemente, a nossa própria barbárie. Nesse conto narrado por um destemido aventureiro a bordo de um barco amarrado no rio Tamisa, Conrad inaugurou, sem intenção, a literatura da culpabilidade em que os europeus foram dando forma à nossa condição de colonizadores, conquistadores e saqueadores, e nos fomos rodeando dos nossos próprios fantasmas, olhando-os nos olhos sem saber muito bem que fazer com eles. Edward W. Said estudou isso muito bem em Cultura e Imperialismo. O romance de Lobo encaixa-se, mas nessa relação com a nossa própria má consciência. Por certo, Caché, o filme de Michael Haneke, também incursa por esses delicados assuntos, acariciando a maldita relação entre França e Argélia.

Um veterano da guerra de Angola, só e derrotado, alter ego evidente do escritor e assombrado pelos seus próprios demónios. Ele é o eixo de Os Cus de Judas. Construído em três planos temporais distintos, é uma exploração audaz, inquietante e infinitamente triste sobre a solidão, o esquecimento e as decisões que o arrependimento não remedeia. Um grande livro muito adequado para nós, europeus que ouvimos o grito das culturas que sempre submetemos sem que nunca nos preocupássemos em entender. Uma obra sem moral, como a própria vida.


por Sergio del Molino
11.02.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

23/12/2007

SIC Notícias, entrevistas de Mário Crespo - 1. Meu Nome É Legião


SIC Notícias - Jornal das 9
emissão do dia 21 Dezembro 2007



do lançamento de O Meu Nome É Legião

Entrevista na SIC Notícias: Mário Crespo fala com António Lobo Antunes no Jornal das 9.



«Mete medo entrevistá-lo»

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...