23/01/2008

«Na literatura actual até os tops são pagos»


Jornal de Notícias - entrevista de Sérgio Almeida
20 Janeiro 2008



Nobel à parte, não há muitos prémios ou condecorações que ainda faltem no currículo de António Lobo Antunes. Com 65 anos, o autor de romances essenciais como "Manual dos inquisidores" ou "Não entre tão depressa nessa noite escura" diz-se cada vez mais grato aos leitores portugueses por permitirem que viva unicamente dos seus livros. "Algo que nunca imaginava no início", desabafa.


A inquietude que sempre caracterizou António Lobo Antunes ainda não se extinguiu. De momento, é a recente mudança de mãos da editora que ajudou a tornar uma das mais fortes em Portugal o que mais parece preocupar o laureado romancista. Por isso, admite todos os cenários. Até mudar-se para uma pequena editora...

Admitiu a hipótese de deixar de publicar cá, dada a indefinição na Dom Quixote. Agora que o grupo Leya já se apresentou, mantém essa intenção?
Não li o que disseram. Vou reunir-me com eles para a semana. Que intenções revelaram?

Pelos vistos, pretendem criar o maior grupo editorial em língua portuguesa.
E não duvido que o consigam. Mas, vejamos: quem são, neste momento, as editoras que editam bons livros? São as pequenas. Há a Assírio & Alvim - dirigida por Manuel Rosa, um homem excepcional por quem tenho o máximo respeito -, a Caixotim, a Cavalo de Ferro…

Teme que a Dom Quixote perca a sua identidade?
O problema não é recente. A Dom Quixote segue há anos uma política editorial errática. Não há uma orientação definida. Falta um director editorial.

A saída de Nélson de Matos marcou a viragem?
Com todas as qualidades e defeitos que tem, é um editor. E um líder. Isso é indiscutível. Com a sua saída, a editora deixou de ter uma política definida. Uma vez, o editor Christian Bourgois disse-me que é mais difícil encontrar um grande editor do que um grande escritor. Para ficar, quero determinadas garantias. Senão, vou embora. Posso publicar cá através do Brasil, por exemplo.

A que garantias se refere?
Questões de ordem editorial. Dizer que querem criar o maior grupo é vago. É preciso haver maior profissionalismo, que não há. Apesar de tudo, tenho tido a sorte de trabalhar na Dom Quixote com uma mulher excepcional, a Teresa Coelho. Os livros que faço exigem muita atenção e, como a Teresa tem estado doente, não sei como vai ser. Tirando este caso, não vejo lá mais ninguém em quem tenha confiança. Portanto, para que continue, quero que me assegurem um editor da minha confiança. Não sei se tal será possível, até porque não sou assim tão importante.

Admite passar a publicar por uma editora pequena?
Não tenho nada contra isso. O problema é que assinei há pouco tempo um novo contrato de dez anos com a Dom Quixote...

Desconfia por natureza dos grandes grupos?
A tendência para os conglomerados editoriais é cada vez maior. Claro que, para rentabilizarem o investimento, vão unir departamentos, do marketing à administração, e haverá certamente despedimentos, embora isso já não me diga respeito. Interessa-me apenas a parte da cultura. É por isso que admiro as editoras pequenas. As grandes, pelo contrário, são máquinas de fazer dinheiro. Publicam livros que daqui a dois anos ninguém lerá. Que queiram fazer o maior grupo editorial é-me indiferente. Embora o dinheiro seja importante, porque, na literatura actual, tudo é comprado. As montras são pagas, a exposição dos livros - que decide se eles ficam sentados ou de pé - também… Até os tops são pagos. Essa é a vantagem dos grandes editores: podem atirar o livro à cara das pessoas, enquanto os títulos dos pequenos editores, que não têm dinheiro para pagar às livrarias, ninguém os vê.

Esse desagrado não terá que ver com o facto de vir a pertencer ao mesmo grupo editorial de Saramago?
Não tenho nada contra o homem. Nem a favor. Nunca tive. Parece que ele tem um problema qualquer comigo, mas eu nunca tive. Acho que ele faz o melhor que pode.

Nos últimos anos, os tops literários foram arrebatados por figuras mediáticas exteriores ao meio literário. Sente-se cada vez mais desconfortável neste meio?
Não acho que o fenómeno seja recente.

Mas nunca como hoje a venda de livros esteve tão dependente do facto de os autores serem, ou não, figuras públicas.
Esses livros sempre existiram. E repare: quem é que lê hoje o Dan Brown? Ou até mesmo "O nome da rosa"? Não me preocupa nada que haja pessoas a vender 200 mil ou 300 mil livros. Ainda bem para eles. O que acho errado é dizerem - como ouvi há uns anos a uma senhora que publica livros - que puseram não sei quantas centenas de milhares de portugueses a ler. Não é verdade. Quando muito, puseram essas tais centenas de milhares a ler os seus livros.

Não acredita, então, que quem se inicia pela literatura "light" vai de seguida ler Tolstói ou Dostoievski...
Claro que não. Um exemplo: há uns anos, houve um concorrente do "Big brother" - julgo que era assim que se chamava o concurso - que publicou um livro. Fez uma sessão de autógrafos e vendeu imenso. Só que as pessoas rasgavam a página da assinatura e deitavam fora o livro. Isso também aconteceu na Dom Quixote. Se uma qualquer pessoa da televisão chegasse lá e dissesse que queria publicar um livro, eles fá-lo-iam na hora.

Como o livro "Eu, Carolina"
É-me indiferente. Uma vez, perguntei a um editor alemão por que publicava a Jackie Collins. "Para poder publicar o Malcolm Lowry", respondeu-me. A Dom Quixote, por exemplo, já publicou Faulkner ou Conrad, mas argumenta que não vendem. Mas pergunto: o que fizeram por esses livros? Trabalharam-nos? Fizeram-nos chegar ao leitores? Ou limitaram-se a pô-los nas livrarias? Esses livros precisam de ser apoiados. Por que não pedir a pessoas que escrevam sobre eles?

Acaba de sair uma colecção de clássicos em formato de bolso dirigida por si. Não é essa espécie de serviço público que defende?
Não sei se vai funcionar. As capas são bonitas, mas não gostei das fotografias da contracapa - sempre a mesma imagem do Tolstói com aquela barba... -, nem das biografias e muito menos da propaganda aos livros que a Dom Quixote está a editar noutra colecção.

Mas a lista de 50 autores que escolheu é insuspeita.
É um projecto muito antigo, que fui convidado a desenvolver até em Espanha: encontrar livros de autores que estejam no domínio público - de maneira a não pagar direitos de autor -, fazer traduções de qualidade e utilizar o meu nome como chamariz para atrair mais leitores. Mas não quero ganhar dinheiro nenhum com isso. Quero é que as pessoas leiam bons livros. No entanto, gostei bastante do grafismo. A nova geração pode não ter grandes escritores mas tem grandes fotógrafos, como o Augusto Brásio, que estão ao nível do melhor que se faz nos principais países. Na tradução, é igual. Há um punhado de tradutores portugueses de elevadíssima qualidade.

Nota-se nos últimos tempos um maior esforço da sua parte em esbater a imagem intimidatória que foi criada.
Acha mesmo? Nunca percebi por que motivo tentaram colar-me essa imagem de mal-educado. Não sou nada disso. É óbvio que ter passado recentemente por uma situação delicada de saúde alterou várias coisas. Estive de frente com a minha finitude. Quando me disseram: " Tens um cancro"... É uma violência atroz. Tive muita sorte.

Onde foi buscar forças?
Nas pessoas que me rodeavam. Quando ia aos tratamentos, vi como os portugueses são extraordinários. A dignidade com que as pessoas, conscientes de que iam morrer, se comportavam... Comovia-me a coragem desta gente de todas as idades. Gente pobre, porque os ricos não vão ao Hospital D. Maria.

Sente-se uma pessoa melhor?
Depois da operação, passei dois meses, sentado, a olhar para uma parede. Não era capaz de fazer nada. Estava completamente vazio.

Mais do que o terror da morte, tinha o terror de não voltar a escrever?
Isso ocorreu-me, mas a verdade é que voltei e acabei o livro. Terminei-o em Novembro e não voltei a fazer nada. Estou a pensar iniciar um novo em Fevereiro, mas não sei... Tudo isso aconteceu numa altura em que choveram prémios. Mas, depois de uma doença, isso deixa de ter importância. É importante escrever, não publicar. Comecei a publicar por acaso. Escrevia os livros e deitava-os fora...

Consegue encontrar quietude à sua volta?
Agora é uma maçada, porque as pessoas fotografam-me com os telemóveis e vão vender as fotos às revistas. Na primeira vez que saí, após o cancro, vi-me, sem o saber, numa dessas revistas de TV.

Ficou revoltado.
Com que direito fazem aquilo? Fotografarem um homem curvado, magro...

Mudou algo na sua rotina?
Não, continuo a trabalhar da mesma forma. Devia ter deixado de fumar, mas não deixei.

Escrever é uma actividade física esgotante, já disse. Agora, doseia esse esforço?
As minhas análises nunca foram tão boas. Há muitos anos, o Jorge Amado dizia que sentia inveja de mim, porque eu trabalhava 12 horas por dia e a ele bastavam quatro horas para ficar cansado. Agora, vejo que é verdade. Fico parvo quando vejo escritores que escrevem 30 ou 40 páginas por dia. Quando escrevo uma, é uma sorte.

É muito cioso sobre a vida privada. Por que decidiu revelar o seu problema de saúde?
A vida privada é a única coisa que tenho. Mas já estava tão farto dos boatos, que afectavam a minha família e amigos que entendi ser melhor contar logo.

Ao mesmo tempo em que é aclamado como um autor universal, a relação que tem com os portugueses parece mais forte do que nunca.
O André Gide dizia que "quando há unanimidade em meu redor, pergunto o que terei feito de mal". E, de facto, é um pouco inquietante, porque isso tem acontecido. Os portugueses têm sido de uma generosidade enorme para comigo.

Sente que a densidade crescente dos seus romances ainda não foi bem assimilada pela crítica?
Ainda é cedo para avaliar o que faço. A mim, pelo menos, há uma parte que escapa.

Não há uma vontade de provocar quando diz que ninguém lhe chega aos calcanhares?
Não estou a ser vaidoso. É a verdade. Todos escrevemos para mudar a arte de escrever. O Tchekhóv e o Conrad mudaram-na, mas há muitos mais. Não sou mais que um elo que começou muito antes de mim e acabará muito depois.



20.01.2008

13/01/2008

Paulo Barriga: opinião sobre O Meu Nome é Legião


Logo à noite, lá para as nove e meia, [dia 7 Dezembro 2007] António Lobo Antunes vai estar em Beja, na Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago, para falar sobre o seu último livro, O Meu Nome é Legião, e também para o autografar. Se ele tiver paciência e vagar, lá estarei para engrossar a fila com o exemplar que me remeteram da Dom Quixote e que eu li com o mesmo frenesi ou alucinação com que li os restantes volumes da sua obra (dezanove, com este). O livro que hoje quero ver riscado pela lapiseira de Lobo Antunes até pode não ser a sua grande obra-prima (o que dizer, por exemplo, de As Naus ou de Fado Alexandrino?), mas é certamente um dos mais inesperados.

O Meu Nome é Legião é surpreendente porque o autor, ao contrário do que costuma ser habitual nos seus romances, fabrica agora os personagens na agenda informativa do dia, recorta-os das páginas do "Correio da Manhã", decalca-os do violento alinhamento dos noticiários da TVI, descobre-os na batalha que diariamente está travada nos bairros degradados da periferia. O narrador é um polícia à beira da reforma, 63 anos, cuja missão é reconstituir o percurso e as atrocidades que um bando de jovens delinquentes do Bairro 1º de Maio acabou de cometer.

Roubo de automóvel. Assalto violento a estação de serviço com disparos e vítimas. Incursão impetuosa numa loja de telemóveis. Carjacking com sucessivas violações à ocupante na presença do companheiro. Regresso às ruas escuras e contorcidas do bairro. São estas algumas das etapas do calvário que o velho investigador terá que percorre e, antes de tudo, que anotar no seu pormenorizado relatório.

Aliás, o livro, numa leitura muito superficial e imediata, é a descrição policial, é o relato exaustivo, dos passos e dos actos praticados pelo gang da favela lisboeta. Na aparência, e apenas aí, trata-se de um romance policial na voz de uma só pessoa, que, afastadas as infindáveis distâncias, faz lembrar a narrativa amanuense que está por detrás de Balada da Praia dos Cães, livro simbólico de José Cardoso Pires, cuja publicação ocorreu há precisamente 25 anos.

Mas como tudo o que brota da imaginação de Lobo Antunes, O Meu Nome é Legião também não é um exercício assim tão simples e linear como o estávamos a pintar. É um facto que o romance parte dessa possibilidade narrativa que é o relatório policial desenvolvido por um agente minucioso. No entanto, o relato depressa começa a ser interceptado por estilhaços da memória do polícia. Depressa o investigador começa a dialogar consigo próprio, esboroando toda a sua existência, desfazendo-se como se fora um daqueles bolinhos de açúcar a que chamam "areias".

E é neste cruzamento quase inverosímil entre a exposição escrita de uma investigação criminal e as recordações fraccionadas do redactor que o leitor mergulha abruptamente naquilo a que podemos chamar de vórtice Lobo Antunes. Um poço infindável onde a mente chega a ser mais material que a própria matéria e onde a introspecção é apenas uma artimanha para manter vivos os protagonistas da história: "visita-me a suspeita de existir qualquer coisa em mim, no aspecto, na maneira de exprimir-me, que afasta as pessoas" (p. 26).

António Lobo Antunes – este livro é a décima nona prova disso – está muito para lá da algazarra menor que é o panorama literário português da actualidade. No campo da ficção, na triste altura em que Agustina e Saramago deixaram de produzir, Lobo Antunes acaba por ser o último romancista que nos resta. No país dos poetas, esta noite vou querer ouvir um que não é, sendo-o tão profundamente.


Paulo Barriga
artigo publicado no Diário do Alentejo
07.12.2007

30/12/2007

Sergio del Molino: En El Culo Del Mundo


Nunca acreditei naquilo de “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”, muitíssimo menos na variante “diz-me o que lês e dir-te-ei quem és”. Nem sequer “diz-me o que escreves e dir-te-ei quem és”. Oxalá as pessoas fossem tão simples. Oxalá, aplicando essas premissas, pudéssemos desenvolver os parâmetros necessários com a menor margem de erro que nos permitissem etiquetar alguém apenas com um golpe de vista. A intuição, a exploração das contradições, em definitivo, o processo de descobrir uma pessoa seria reduzida a uma simples fórmula. É o que procuram os portais de internet de contactos e agências matrimoniais: afinidades eleitas mediante combinações matemáticas. Oxalá fosse tão simples julgar e conhecer, mas, por sorte, as pessoas sempre acabam por surpreender-nos, terão sempre uma parte que elas mesmas desconhecem, sempre terão uma nova cara a mostrar-nos. Por isso não me etiquetem com leviandade quando confesso o meu pecado: gosto de António Lobo Antunes.

Sim, é denso, arcaico em certas ocasiões, como um velho e artrítico deus. Cinzento e metafísico e com uma tendência barroca que com frequentemente enfeita o ritmo da narração. Mas gosto dele, desfruto-o, estremece-me. E isso não me classifica em nenhum lote intelectual, porque também gosto de muitos autores que se situam no extremo oposto, do contundente e cómico estilo desnudado. Creio que, salvas as distâncias, o bom leitor é como um bom gourmet ou um bom apreciador de cerveja (outro dia falarei da minha paixão pela cerveja): gostam dos extremos, provar novos territórios e decidir por uma leitura adequada ao momento e ao estado de espírito. Qualquer escritor pode ser sublime ou indiferente segundo a disposição que tenha o leitor, como uma boa cerveja fumada norueguesa pode saber a água de esfrega se bebida em pleno verão espanhol. Cada livro tem o seu leitor e o seu momento. Estou convencido disso. Só os clássicos aguentam firmes as releituras sob condições distintas e distantes.

Dizia que gosto de António Lobo Antunes, e não sou uma alma desgraçada pela melancolia. Lobo Antunes é uma descoberta tardia. Não havia lido nada seu até cerca de um ano, mas pouco a pouco, e graças às maravilhosas edições da Siruela, me vou embebendo cronologicamente dos livros do português, de que gosto mais do que os artigos semanais que publica na Bebelia. Comecei com Os Cus de Judas, um romance que tem tantos anos como eu e que se publicou num Portugal em pleno rescaldo revolucionário, desorientado e desarmado, empenhado em olhar para a frente e despir-se do seu passado salazarista como de roupa emprestada. Algo parecido ocorria do outro lado da fronteira, mas penso que os portugueses souberam sair das suas trevas melhor que os espanhóis, com mais dignidade e menos medo pela besta parda escondida.

O trauma de Portugal chama-se Angola. É o seu Vietname, como Marrocos foi para a Espanha dos anos 20. Angola é os cus de judas, confins do mundo. E há muito de Joseph Conrad nesta aproximação a África. É inevitável: para os ocidentais, O Coração das Trevas é o filtro pelo qual vemos, consciente ou inconscientemente, a nossa própria barbárie. Nesse conto narrado por um destemido aventureiro a bordo de um barco amarrado no rio Tamisa, Conrad inaugurou, sem intenção, a literatura da culpabilidade em que os europeus foram dando forma à nossa condição de colonizadores, conquistadores e saqueadores, e nos fomos rodeando dos nossos próprios fantasmas, olhando-os nos olhos sem saber muito bem que fazer com eles. Edward W. Said estudou isso muito bem em Cultura e Imperialismo. O romance de Lobo encaixa-se, mas nessa relação com a nossa própria má consciência. Por certo, Caché, o filme de Michael Haneke, também incursa por esses delicados assuntos, acariciando a maldita relação entre França e Argélia.

Um veterano da guerra de Angola, só e derrotado, alter ego evidente do escritor e assombrado pelos seus próprios demónios. Ele é o eixo de Os Cus de Judas. Construído em três planos temporais distintos, é uma exploração audaz, inquietante e infinitamente triste sobre a solidão, o esquecimento e as decisões que o arrependimento não remedeia. Um grande livro muito adequado para nós, europeus que ouvimos o grito das culturas que sempre submetemos sem que nunca nos preocupássemos em entender. Uma obra sem moral, como a própria vida.


por Sergio del Molino
11.02.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

23/12/2007

SIC Notícias, entrevistas de Mário Crespo - 1. Meu Nome É Legião


SIC Notícias - Jornal das 9
emissão do dia 21 Dezembro 2007



do lançamento de O Meu Nome É Legião

Entrevista na SIC Notícias: Mário Crespo fala com António Lobo Antunes no Jornal das 9.



«Mete medo entrevistá-lo»

22/12/2007

almaro: opinião sobre O Meu Nome É Legião


Ruben A. escreveu sobre Picasso em “Páginas IV”, ”foi indubitavelmente o maior criador estético e um dos maiores desenhistas de todos os tempos. Teve a grandeza de nunca cristalizar, de querer sempre mais, de vibrar em dissonância consecutiva, de dar gritos ao longo de telas definitivas.” Sinto o mesmo ao ler cada novo escrito de Lobo Antunes (em edição ne varietur, com que o autor a partir de determinada fase, passou a doar os seus “romances” aos leitores).

O meu nome é Legião são vários contos, vários relatos com a morte, umas vezes na terceira pessoa, algumas na primeira. É um livro negro (a primeira edição chega ao requinte de ter capa negra, cor que se adequa aos relatos sem esperança, deste livro de guetos e de becos sem saída).

Ao ler as histórias (todas elas com cenário de fundo o cerco pela policia ao Bairro rodeado de Figueiras bravas) recordei um álbum de fotografias de Eduardo Gageiro que durante muitos anos pousou como objecto na mesa de centro da sala de meus pais, Retratos a preto e branco, de uma miséria suja de bairros disformes e sem luz, onde uma criança espreitava por detrás de um muro, como quem se esconde de um labirinto, ou as vestes negras de um povo que chora a sua sorte, entre as cheias de 69, ou o arrastar sofrido de um povo crente, a rastejar milagres, junto do divino. Assim é também ”O meu nome é legião”, retratos a preto e branco de uma miséria que persiste e insiste em renascer de geração em geração seja ela negra, branca ou mestiça.

Lobo Antunes sublinha que este novo romance é sobre o Amor. Repetindo Ruben A.: “a Eliot e Picasso falta-lhes amor, são vertebrados demais.” Ao ler lobo Antunes sinto o mesmo, só que neste caso sinto o Amor escondido em cada palavra que se escapa da narrativa e onde o autor se deixa ver e fala sobre ele. É o melhor que o estilo antunianotem, a escrita ao som de um monólogo onde o autor fala. Ler Lobo Antunes é ouvi-lo! Ser contemporâneo de Lobo Antunes é um privilégio. Ouvir as suas entrevistas é a melhor maneira de entrar no seu universo escrito. Quando leio lobo Antunes oiço-o ao fundo nas suas deambulações, é esse o seu ritmo de escrita. Quase me atrevo a sugerir à editora que passe a vender as novas edições com um suporte áudio das entrevistas do autor. Para as gerações futuras será certamente a melhor forma de entenderem o fabuloso universo escrito de Lobo Antunes.


por almaro
08.12.2007

07/12/2007

Denis Leandro: crítica a Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo

Labirinto de Dédalo

Boa tarde às coisas aqui em baixo, de António Lobo Antunes, foi selecionado para concorrer ao prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2007, passou à segunda fase do prestigiado concurso e foi classificado como finalista, mas Jerusalém, do também português Gonçalo Tavares, acabou recebendo a premiação. Esse curioso “romance em três livros com prólogo e epílogo”, conforme se pode ler nas suas páginas de abertura, evoca em seu título uma frase singular e “intraduzível” – singularidade e intraduzibilidade que irão se reafirmar ao longo dessa vasta narrativa que cruza espacialidades portuguesas e angolanas numa torrente de rememorações atormentadas.

Não é sem razão que os diversos narradores que se alternam e se confundem em meio à convulsão narrativa desses excertos de histórias reclamam ajuda para narrar suas vidas irrecorrivelmente estraçalhadas: “Tão difícil explicar-me, de que maneira explicar-me, como se diz isto, quem me ajuda a contar, a ser a pá que desperta o sono, dilacera a garganta da terra e traz à luz os ossos sob as folhas secas?” (p. 45). Também o leitor, ao percorrer páginas e páginas da mais extenuante dispersão do acontecimento romanesco, vê-se impelido a abandonar sua tradicional atitude de investigador dos fatos narrados e aceitar que a esse quebra-cabeças ficcional faltam incontáveis peças – ou que para se jogar o jogo da leitura desse romance antuniano há que se aprender a jogar com peças que, aparentemente, não se encaixam.
Uma mulher de nome Marina mostra a um sujeito anônimo o que julga ser a casa onde vivera, há vinte anos, na Muxima – vila e município da província do Bengo, em Angola. Lampejos de tropas do governo, de cubanos, mercenários de toda ordem – franceses e belgas, negros e brancos –, de praias transformadas num baldio de misérias, repletas de indigentes, de cegos e crianças de muletas – “visto que todas as crianças usam muletas em Angola” (p. 19) – constroem um panorama de uma Angola pós-descolonização e pós-esperança, nessa cena continuamente entrecortada pela voz da tal mulher a afirmar reiteradamente: “– Esta era a casa”. Essa casa, invadida pela erva, afogada em destroços, a arder em chamas desde a fundação até o teto terá, logo em seguida, o que restou de suas paredes derrubado por um trator conduzido por essa mesma mulher que, ao que parece, deseja, a todo custo, soterrar o passado – ou o que quer que tenha sobejado dele.  

Tradicionalmente, o prólogo consiste em uma cena introdutória na qual se fornecem dados prévios elucidativos do enredo da peça – ao menos assim se dava na tragédia, no antigo teatro grego. Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, o prólogo, acima brevemente descrito, algo se exime de elucidar o que quer que seja, cabendo ao leitor do texto antuniano, muito mais do que se exigia do expectador da tragédia grega, empenhar-se na busca de relações e diálogos entre o que ali revoltamente se apresenta e o que se desenvolverá nos capítulos subseqüentes.
O primeiro livro alterna as histórias de Seabra, agente enviado a Angola pelo “Serviço” – um órgão militar português não-oficial –, e dessa mesma Marina, africana mestiça, filha de pai negro e mãe branca, sobrinha de um procurado contrabandista de diamantes. A tarefa do agente Seabra é localizar os diamantes que estão em poder do tal contrabandista e, claro, eliminá-lo. Mas ocorre que, um a um, esses agentes enviados à ex-colônia portuguesa, estranhamente, não retornam de suas missões, desaparecendo sem deixar vestígios, como se devorados pela terra de África, e tendo de ser substituídos por outro, e outro e mais outro, como touros continuamente abatidos em um espetáculo de arena.

O segundo livro é narrado pela voz de Miguéis, novo agente enviado para limpar os rastos deixados pelo seu antecessor – incluindo este próprio – e recuperar as pedras. Em meio a confusas e variadas referências a ordens e relatórios, mapas e coordenadas, fronteiras e rios, perpassam considerações subjetivas e reminiscências de coisas irrecuperáveis – que vão desde pais que se tenta, sem sucesso, agradar e copiar, passando por vidas conjugais desfeitas e filhos que não respondem à demanda de afeto de seus pais e vice-versa, até escarnecedores patos de plástico da infância –, coisas irrecuperáveis e que, contudo, não cessam de perseguir esses sujeitos, persistentes “como certas memórias, certos remorsos, certos ecos compridos, o apito dos navios por exemplo mesmo depois dos navios, durante anos, a gente a cuidar que os esqueceu e o apito de volta” (p. 278).

A voz insegura de Miguéis cede lugar – ou é inadvertidamente atravessada – às não menos débeis vozes de sua esposa e de sua filha –  personagem que também oferece uma versão de sua vida junto aos pais, recorda a partida do namorado e a visita de despedida que lhe faz o pai, a dor e o tormento da doença que a transforma em uma espécie de “espantalho” e a faz desejar uma única coisa: “que me deixem em paz sozinha comigo ou antes sozinha com isto que não sou eu e em que me tornei” (p. 333). Narradores que não se decidem sobre se áceres ou carvalhos, se este ou aquele nome, se Marimbanguengo ou se o Congo e para os quais qualquer tentativa de evadir essa vida de degradação e de remorsos afigura-se impossível, “dado ser tarde compreende, não apenas tarde para mim, tarde para si também” (p. 343). Tarde, sem exceção, para todos.

O terceiro livro acompanha a peregrinação de um grupo de cinco homens, todos ex-agentes dissidentes do Serviço português, pela mata de Angola, na tentativa desesperada de alcançar a fronteira com o Congo, carregando os diamantes que serão contrabandeados. Perseguidos por militares e americanos que tentam resgatar as jóias, esses pobres touros desgarrados rememoram suas vivências cotidianas e nada exemplares, em meio à tensão e iminência de uma morte inevitável. Intercalando dialogicamente, a cada um dos dez capítulos que compõem essa parte, a voz de cada um dos cinco fugitivos à voz de Morais, o agente que os persegue, esse último livro constitui-se em uma explosão de imagens do passado embaralhadas às cenas atuais que convergem para a emboscada da qual esses homens se aproximam.

Gonçalves, com seus pais, mães e cães a saltitarem raivosamente da memória; Mateus, que se perde nas confusas linhas do mapa que carrega e que mal lê e nas não menos confusas recordações de filhas, esposas e padres pedófilos; Mendonça, que sonha abrir um café na Argentina enquanto é dilacerado pela origem mestiça da irmã – a quem amava e odiava amar; Sampaio, traidor contratado pelos americanos para conduzir o grupo ao local da armadilha, com sua onipresente imagem de uma irmã levada de casa ainda criança pelo pai e que não lhe concede um só instante de paz; Tavares, que, ferido no joelho, põe-se a recordar as últimas e ambivalentes férias passadas com a família em Portugal; e, finalmente, o próprio agente Morais, perseguidor que é, ao mesmo tempo, perseguido, também ele, por uma esposa, uma mãe ausente sob a chuva, um filho e comboios do passado.  

Nessa narração absurdamente insegura e provisória, que se erige sobre a incerteza, sobre a desordem irrevogável da desmemória – “não estou bem seguro e já não estou seguro de nada” (p. 216) –, nada de permanente irá se afirmar ou, talvez, um único elemento se projete no texto, após o desaparecimento, de uma forma ou de outra, de todas as personagens, todas as reminiscências e de todo o narrado: a terra vermelha (ou amarela?) de Angola, a tragar indistintamente tudo e todos para o seu interior, “porque tudo pertence à terra em Angola, as nuvens, por exemplo, que bem as noto a descer no capim, as pessoas e as casas que regressam ao chão depois de se agitarem um momento numa pergunta a que nada responde” (p. 100).

Finalmente, o epílogo consiste em uma inusitada redação infantil, redigida por uma garotinha a mando do professor de Português, sobre as “férias grandes” que passou com a família a bordo de um iate em Luanda. A paisagem paradisíaca e de calmaria apresentada nessa cena final contrasta com as imagens de caos, desespero e miséria da guerra pelas riquezas que brotam do solo angolano. A ingenuidade que emana da narrativa da criança, assim como a simplicidade da forma de sua expressão escrita, por sua vez, opõem-se à ferocidade da narrativa como um todo, bem como serve de afronta à ganância dos adultos que mandam e desmandam, para garantir interesses próprios, nas terras e nas vidas alheias.

Esse é o primeiro livro, desde a publicação de O esplendor de Portugal, há dez anos, em que Lobo Antunes revisita o espaço ficcional de Angola e o tópos da guerra. Reunindo, em uma mesma massa “amorfa”, raças, classes sociais, temporalidades e espacialidades heterogêneas e disjuntivas, a narrativa “líquida” de Boa tarde às coisas aqui em baixoexpõe a violenta degradação imposta a sujeitos em sua luta por uma improvável emancipação. Mais uma vez, a incômoda irresolução do narrado – com seu sentido errante que circula incessantemente sem se fixar em parte alguma da escrita – faz ecoar a afirmação, enunciada por um dos narradores, de que a existência é uma pergunta à qual nada responde. Frente às coisas inacreditáveis desse mundo de “aqui em baixo”, como intui prematuramente a criança que escreve, apenas o entorpecimento e a estupefação: sentimentos que o leitor verá se replicarem nessa ciranda de touros enlouquecidos, nesse labirinto, sem saída, de Dédalo.

ANTUNES, António Lobo. Boa tarde às coisas aqui em baixo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.


por Denis Leandro
crítico literário, mestre em Literatura Brasileira
doutorando em Literatura Comparada da UFMG
enviado por e-mail em 07.12.2007

03/12/2007

Da leitora Manuela Pinto: entrevista na RTP

Dr. António Lobo Antunes

Ouvi há uns tempos, mas só agora tive coragem para escrever, a sua última entrevista na RTP, e se já o admirava fiquei a “amá-lo”.

Pela sua humildade, a sua timidez, o carinho dos seus olhos, tudo em si, um misto de criança e adulto que nos faz sentir medo e ternura, uma mescla tão profunda como o seu ser.

É delicioso! Eu estaria toda a noite a ouvi-lo, a perceber nas entrelinhas a sua vida como psiquiatra ( mesmo quando era pequenino e caminhava pelos corredores com o seu pai), na guerra, enfim no amor. no casamento, na amizade!

Não tenho nem nunca tive ídolos na vida mas existe alguma coisa que me atrai em si como escritor (“ninguém escreve como eu”), como homem, como ser humano com princípios, com um carácter invulgar (creio que comum à família) enfim, uma Figura que me enternece e que eu amo. Sinto-o, quando fala, quando o ouço (pena é ser tão poucas vezes) quando olha insistentemente para a pessoa que o está a entrevistar, ou quase a querer fugir rapidamente dali para fora para seu alívio.

Gostaria de o conhecer, de ter um pequeno texto seu sobre a sua faceta, essa … a mais desconhecida… só para mim.

Manuela


Manuela Pinto
e-mail de 03.12.2007

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...