18/06/2007

Ágata: opinião sobre Os Cus de Judas


Este livro, de primeira publicação portuguesa em 1979, faz 28 anos que viaja pelo mundo e por coincidência chegou às minhas mãos graças à iniciativa dos Ayuntamientos, o intercâmbio de livros. Isto de poder aceder a um livro sem que gastemos dinheiro é muito bom, designadamente as famosas trocas de livros que se promovem em várias cidades do mundo como Santiago do Chile, Bogotá, Madrid ou Barcelona.

O meu conhecimento sobre a obra de Antunes é muito escasso, apenas por algumas resenhas literárias da Babelia, uma ou outra entrevista, frases soltas de alguns amigos e pouco mais. Por isso mesmo e com a certeza de que jamais poderei ler tudo o quanto desejaria, encaro a leitura de autores para mim desconhecidos com a paixão própria dos adolescentes, aguentando o afã de terminar e lançar ao vento as minhas muito pessoais considerações com o intuito de que outros leitores, mais experimentados ou conhecedores de determinada obra partilhem comigo e com os nossos bloggers as suas leituras.

Assim com esse tremor nas mãos empenhei-me a ler “Os Cus de Judas”. Neste livro, Antunes narra-nos a experiência do seu protagonista durante a guerra de Angola, fala dos efeitos da violência que o homem tem de suportar, e como esta se converte num factor determinante da identidade individual e colectiva dos seres humanos, factor esse que quem convive com a guerra não consegue analisar com a devida distância, ainda que, por entre as frinchas da consciência vai colocando perguntas incontestáveis: como serão os seres humanos formados na guerra?, serão capazes, de amar?, se sobrevivem, serão capazes de seguir a vida sem rancores e vinganças?, ou estarão condenados a repetir a violência para sempre? Educarão os seus filhos para continuarem o seu legado sangrento? Como pode viver alguém em guerra desprovido de afectos, de carinhos, de ternuras quotidianas? Assassinar um homem melhora a sociedade?

Num documentário sobre a guerra na Sierra Leona, um dos refugiados contava como os guerrilheiros o haviam obrigado a matar o seu próprio filho a golpes de morteiro na presença da mãe; este testemunho de um feito hediondo, sádico, acaba por ser eufemizado perante a contundência das palavras suaves e comedidas do homem que o protagonizou quando termina a sua intervenção dizendo “quando dois elefantes lutam entre si, sofrem as ervas e as plantas pequenas que jamais voltarão a crescer”. Este é o destino da natureza humana submetida à pressão da violência, a desesperança do homem calejado pelas balas.

Não obstante, voltando ao protagonista, recapitulando o seu processo de assimilação perante a crueldade dos seus companheiros de batalha, logram sair, como raios de esperança, experiências humanas que contradizem a maldade engendrada pela violência tal como: “as mulheres negras, Sofia, permanecem silenciosas enquanto parem, silenciosas e serenas nas esteiras à medida que a cabeça de um filho rompe devagar no intervalo das coxas, ganha forma, se solta, um ombro se desembaraça da prega de útero que o prende, o tronco desliza para fora da vagina como o pénis a seguir ao coito, num único movimento implacável e liso, sem dor, apenas a doce separação de duas vidas…”

Os cus de Judas não é apenas Angola, são todos os países em guerra, é o país onde vivem diariamente todos os homens, mulheres e crianças que tiveram a desgraça de haver nascido em zonas de conflito, nem mais nem menos que nos confins do mundo.


por Ágata
28.05.2007
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

07/05/2007

Do leitor Artur Carvalho: «Olá Mestre»

Olá Mestre:

Deixando passar a torrente incómoda de toda a situação crítica e muito íntima que deve ter sido a sua saúde nos últimos tempos, venho mais uma vez, porque já o fiz em ocasião anterior, expressar-lhe o meu mais profundo agradecimento (e de toda a minha geração) pelo que nos ensinou, pelo que nos acarinhou e pelo que nos fez crescer com um conforto mínimo que é o das histórias.

Um amigo meu diz que um romance só está concluído quando encontramos a sua voz. E essa pode ser um personagem ou um pensamento. No seu caso, faltava-me dizer-lhe que admiro a sua coragem na tentativa de encontrar o verbo, a voz da literatura, aquele princípio onde tudo começou. O verbo a partir do qual tudo começa a fazer sentido. Descobri isso ao ler Eu Hei-de Amar uma Pedra. Demorei meses a digeri-lo e só lá para a página 300 e tal é que acabei por ouvir a voz do romance. Mais vale tarde que nunca.

Despeço-me não fugindo ao lugar comum mas sincero de lhe desejar rápidas melhoras, que tudo corra bem na perseguição ao verbo e, quando o encontrar… deixe-nos espreitar um bocadinho. Um grande abraço do seu sempre leitor

Artur Guilherme Carvalho.


Artur Carvalho
e-mail de 07.05.2007

03/05/2007

Ricardo Turnes: opinião sobre Memória de Elefante


Em "Memória de Elefante", primeiro romance de uma obra já extensa, António Lobo Antunes escreve e expõe, com alguns rodeios mas sem papas na língua, muito exactamente aquilo que lhe vai na alma, e nós, leitores, sorvemos o texto como vindo de alguém que se utiliza da escrita com o único propósito de exorcizar fantasmas pessoais; é um livro auto-biográfico e auto-examinatório, em que o personagem central, um psiquiatra à beira dos quarenta anos a braços com uma aguda crise de consciência, dorido consigo próprio e descrente no mundo que o rodeia ("bati no fundo, bati no fundo, bati no fundo"), retornado da guerra do ultramar, divorciado há pouco tempo de uma mulher que ainda ama sofregamente, deambula por uma cidade de Lisboa decadente, sombria, viscosa, e que parece ser a metáfora exterior, reflexo maldito e irrecuperável, da dor que o aflige.

A acção, toda ela murada de nauseabundos contornos citadinos, decorre ao longo de um ou dois dias, durante os quais seguimos a par e passo as acções do psiquiatra, ao mesmo tempo que penetramos na sua caixa de memórias de infância, memórias da guerra, e recordações de uma vida de casado de onde sobressaem a saudade de duas filhas-criança e a angústia de um amor presente, ainda que apenas em sentidos, porque ausente de presença.

Todo o turbilhão de recordações vai surgindo na cabeça do psiquiatra em catadupa, cada fragmento do passado pescado à laia de ganchos descendo da realidade quotidiana urbana - pormenores da vida real que por uma ou outra razão captam a atenção do protagonista, lançando-o num passado de amarga efervescência, prendendo-o a um lodo do qual não se consegue libertar. Sobra espaço, no meio de um certo narcisismo teatral, para uma crítica atenta ao costume social, ao hábito bairrista, e à decadência de valores numa sociedade essencialmente hipócrita.

No estilo, que de início se nos afigura como macarrónico e prolixo, Lobo Antunes serve-se de imagens, metáforas e comparações até à exaustão - uma exaustão a que nos habituamos com algum desconforto mas que acaba por se tornar familiar a ponto de ser bem-vinda, e é nessa quase confusão de palavras que insere, não sabemos nós como, o mais impressionante conjunto de referências sociais e culturais de que há memória, com evidente destaque para temas da literatura e da música. É também um estilo que transpira a poesia, com belos momentos de criação literária, mesmo quando é expressa vontade do autor enveredar pelo sórdido e pelo rasca seboso, deixando-nos as narinas afogadas em odores peganhentos, como aqueles lançados aos lençóis por uma mão frenética em noite escura e solitária. E se é verdade que começamos por nos rir do uso ostensivo de vocabulário-calão, às páginas tantas a coisa já não tem qualquer piada; fala-se então muito a sério de dor e de saudade.

Este Lobo Antunes de "Memória de Elefante" assemelha-se a um enorme diamante em bruto, sujo nas faces, por lapidar, um diamante que mais tarde virá a ser trabalhado pelo mais dotado dos artesãos, dando então origem a uma valiosíssima peça de museu; por enquanto, conserva ainda uma quantidade de arestas irregulares, uma sujidade térrea característica de alguns anos de erosão, e uma certa refulgência fosca e distorcida - propriedades que, não lhe retirando preciosidade, o tornam numa raridade verdadeira e incomum (e desculpem-me o pleonasmo).

É uma surpresa intensa, este livro, mesmo para quem à partida não espera nada, nem sequer ser surpreendido. Talvez que seja altura, agora que o autor foi galardoado com o prémio Camões, de descobrir Lobo Antunes – comece-se pois pelo início…

Ricardo Turnes
21.03.2007

26/04/2007

Da leitora Maria Castilho: «António Lobo Antunes...»

António Lobo Antunes,
O seu último Livro  " Ontem não te vi ..."  repousa na m/ mesinha de cabeceira. É o meu companheiro de solidão.
OBRIGADA por existir e por proporcionar aos seus leitores trabalhos de um tal calibre. Obrigada.
            Este Poema é para si.
            Espero que goste e que, pelo menos, tenha o mérito de o distrair um pouco:
                            O MALMEQUER ...
                Para saber se me amavas
                Desfolhei o Malmequer !
                Uma a uma as pétalas arranquei
                                    e perguntei:
                        BEM ME QUER ?
                        MAL ME QUER ?
                Enquanto isso fazia,
                        Olhava para ti e sorria !
                Que me amavas, respondeu !
                Não me surpreendeu,
                Pois isso eu já sabia,
                Olhando para ti ... Eu sorria !
                Teus olhos estavam molhados,
                Brilhantes de tanto Amor,
                Teus lábios Quentes,
                           Ardentes,
                       ...     Me beijaram com calor !
                        Teus olhos estavam molhados,
                                de COMOÇÃO e d' AMOR ! ...
       
Drª Maria Castilho
e-mail de 26.04.2007

23/04/2007

Do leitor Anselmo Ruiz de Alarcón Jaramillo: «mucho ánimo»

Quiero dar mucho ánimo a António. Desde Sevilla, un apasionado lector que lucha y sobrevive a un cáncer y un infarto (sobre todo leyendo, leyendo a António Lobo Antunes). Con todo el cariño : Ánimo. (Perdón por no expresarme en portugués, me gustaría muchísimo hacerlo, pero no me atrevo).


Anselmo Ruiz de Alarcón Jaramillo
e-mail de 23.04.2007

22/04/2007

Da leitora Cristina: «voto de melhoras»

Gostaria de passar o meu voto de melhoras ao nosso grande escritor António Lobo Antunes... amanhã terei o prazer de participar numa homenagem a este grande senhor.

Obrigada

Cristina


Cristina
e-mail de 22.04.2007

21/04/2007

Da leitora Maria Valentina Mendes: «Caro António»

Caro António

Desculpe tratá-lo assim, mas faço-o em nome de um encontro juvenil que tivemos em 1958, do qual certamente se não recorda, e que em mim deixou uma agradável lembrança (50 anos é assim tanto tempo?...). No Carnaval desse ano, fui na companhia do meu irmão mais novo, colega e amigo do seu irmão João no “Camões”, a um “assalto” na vossa casa em Benfica.

Eu, que perdera uns meses antes o meu avô materno, o único que conheci, médico e republicano a quem venerava, e cursava já o 6º ano de História, sentia-me um pouco deslocada, com os meus 16 anos, nessa reunião de jovens “miúdos”. O António, não sei se o mais velho dos rapazes, mas pela certa o mais “adulto” …nos seus 15 anos, aproximou-se de mim, começámos a conversar e assim ficámos durante todo o tempo que a festa durou. Diverti-me imenso com o seu humor irreverente e o estilo um tanto “enfant terrible” !!!

Nunca mais nos voltámos a ver, porém quando publicou o primeiro livro passei a acompanhar a sua actividade de escritor, hoje justamente consagrado como um dos maiores da nossa língua.

Ao ler a “Crónica do Hospital” na “Visão” de 12 do corrente, recordei este pequeno episódio e senti vontade de lhe agradecer a lufada de ar fresco que então trouxe até mim com a sua presença, desejando que, vencida a tempestade, a Primavera traga, não só para os “pardais” mas também para si, um merecido e bem-aventurado futuro!

Bia


Maria Valentina Mendes
e-mail de 21.04.2007

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...