4 de fevereiro de 2007

Manuel Barata disserta sobre O Manual dos Inquisidores


O Manual dos Inquisidores ou as misérias do estado novo

O MANUAL DOS INQUISIDORES, de António Lobo Antunes, é um romance que surpreende pela quantidade inusitada de narradores. Constituído por vinte e nove capítulos, a que o autor ora chama “comentário”(14) ora “relato” (15), sendo cada comentador e cada relator um narrador. As reincidências ocorrem nos chamados relatos: João (3), Titina (3), Paula (3), Milá (3) e Francisco (3). No tocante a comentários, não há reincidências. Os relatores antes enumerados são o filho (de Francisco e Isabel, a legítima), a governanta, a filha (de Francisco e da cozinheira), a amante de Francisco e o próprio Dr. Francisco. Toda a narrativa gira, por conseguinte, à volta deste Dr. Francisco, um prócere do chamado salazarismo e das pessoas que lhe estão mais próximas A inclusão de Titina no grupo dos relatores, compreende-se pelo facto de ela ser muito mais que uma mera governanta. D. Albertina é, com efeito, aquela que preenche o lugar deixado vago por Isabel, prodigalizando afecto ao filho e ao pai. Nomeadamente àquele, que ela considera seu filho. A inclusão de D. Albertina na categoria dos relatores, explica a exclusão de Isabel.

As narrativas com vários narradores não constituem novidade. Já nos finais do séc. XVIII, Choderlos de Laclos, nas suas celebérrimas Les Liaisons Dangereuses (1781), embora usando o género epistolar, construiu uma longa narrativa, na qual os autores de cartas também são muitos, mas sobressaindo largamente os protagonistas, Valmont e Marteuil. Em GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS, João de Melo, autor coetâneo de António Lobo Antunes, institui uma quantidade notável de narradores, para nos dar, igualmente, uma extensa e bela obra de ficção narrativa. Estes são, todavia, apenas dois exemplos que me ocorrem enquanto escrevo.

Esta polifonia extremada, que é indubitavelmente importante sob o ponto de vista técnico-narrativo, que os universitários tanto apreciam, é-o ainda mais no que concerne à matéria narrada e a uma relação que se me afigura óbvia: história/História. Neste romance do autor de A MORTE DE CARLOS GARDEL são narradas, em simultâneo, duas histórias: a do Dr. Francisco, que fora director-geral da Pide e depois ministro do Dr. Salazar, que há-de ficar a ser ministro toda a vida, como se ser ou ter sido ministro de Salazar fosse um cargo ou título para o resto da vida; a do país, governado por Salazar, primeiro, e por Marcelo Caetano, depois, onde pontificavam aventesmas como esta personagem desta ficção antunesiana

Ainda relativamente ao mais alto cargo que terá desempenhado, a questão não é completamente esclarecida. A mãe de Sofia, numa daquelas inúmeras analepses, fala, com ironia, do tempo em que teria sido secretário de Estado; porém, os empregados do próprio e os funcionários do Estado com os quais se relaciona, nomeadamente o major, tratam-no sempre por ministro. Esta ambiguidade remete-nos para a forma anormal como o poder de Estado era exercido, onde tudo gravitava à volta do Príncipe e do seu círculo de amigos, sendo pouco relevante o cargo. No reino do puro arbítrio, este Dr. Francisco mandava espancar, metia e tirava pessoas da prisão e podia enviar para Cabo Verde, quem lhe aprouvesse.

Numa narrativa com tantas vozes e personagens, convém desde já deixar esclarecido que todos os relatores são personagens principais. Seguindo a ordem do texto: João, Titina, Paula, Milá e o próprio Dr. Francisco. Esta personagem, sempre presente ao longo dos relatos e comentários, é a primeira das principais e aquela à volta da qual se estrutura toda a intriga. Isabel também poderia ser incluída neste grupo de personagens; porém, o autor tê-la-á excluído pelas razões já aduzidas. Abandonou Francisco e o filho, trocando-os por Pedro, este, que, mais tarde, há-de ser o responsável pela destruição do casamento de João e pelo desaparecimento da quinta de Palmela. O comportamento adúltero de Isabel, que nunca quis responder à pergunta sacramental deste romance de António Lobo Antunes “Tu gostas de mim não gostas Isabel?”, há-de ter repercussões na vida de Francisco e das mulheres da quinta (a cozinheira e Odete), de Paula e de Milá, nomeadamente. Em suma, Isabel, para quem gostar ou não gostar não tinha qualquer significado, é a grande responsável pelo comportamento animalesco e louco de Francisco, que nunca conseguiu ultrapassar, num tempo de pensamento único e de princípios muito rígidos, o facto de a mulher o ter traído. É curioso notar também como aquilo que era importante para Francisco, não fazia qualquer sentido para Isabel: gostar.

HISTÓRIA(S)

De uma forma linear, a história deste romance de Lobo Antunes poder-se-ia resumir assim, como se se tratasse de um conto popular. Era uma vez um ministro e amigo de um Príncipe muito importante, que casou com uma senhora chamada Isabel. Levou-a para a sua quinta de Palmela, onde tinha governanta, cozinheira, caseiro, tractorista e outros trabalhadores. Cedo, a dita senhora se fartou da vida da quinta e do senhor da quinta, que começa a enganar com um tratante de nome Pedro, homem poderoso devido aos seus negócios. Do casamento do ministro com D. Isabel nascera entretanto um menino, de nome João, que é criado sem os cuidados da mãe e do pai.
 
A vida do casal, que nunca conhecera momentos de paixão, foi-se deteriorando, deteriorando, até que D. Isabel decidiu sair da quinta, abandonando o marido e o filho de tenra idade. Este cresceu com os cuidados e o afecto da governanta da casa, que se chamava Albertina. O pobre marido enganado pede a intervenção do chefe da polícia secreta do Príncipe, mas é aconselhado a não levantar ondas, porque o amante da senhora era homem de muito poder económico e financeiro e não podia ser molestado. Contrariado, o ministro acata a decisão do Príncipe, que lhe é transmitida pelo chefe da polícia secreta.
 
Daqui em diante assiste-se à degradação moral continuada do senhor da quinta de Palmela, que exerce o seu poder de uma forma despótica, nomeadamente no que concerne à sexualidade, onde predomina a mais pura das animalidades. Convém não esquecer que é o veterinário que assiste aos partos. Da relação do senhor da Quinta com a cozinheira nasce Paula, que é criada em Alcácer do Sal, longe dos progenitores, porque as aparências assim o exigiam.
 
O grotesco Dr. Francisco, no entanto, nunca esquece Isabel. E arranja mesmo uma namorada, a quem põe casa como se dizia então, e tenta que esta seja um duplo de Isabel. Através deste “arranjinho”, demonstra-se não só a arbitrariedade do poder, mas também o modo como se utilizavam abusivamente os meios do Estado, para que uma eminência do regime montasse o seu teatro. Milá chega a vestir roupas de Isabel e acompanha o Ministro a um encontro com Salazar, no forte de S. Julião.
 
Abreviando: o tempo passa e acontece o 25 de Abril. O universo de Francisco vai ruir como um baralho de cartas. Envelhece e é internado num lar, onde acaba por morrer. O casamento de João desfaz-se e a Quinta dá lugar a uma urbanização muito lucrativa para Pedro, o amante de Isabel. Paula ainda tenta ser herdeira de coisa nenhuma e João junta-se com uma empregada do Lar onde está internada D. Titina. Um fim muito triste, como diria, a rematar, o contador popular.

A QUINTA

A quinta é, por sinédoque, Portugal. O Dr. Francisco é o seu dono e nela exerce um poder despótico, que só foi desafiado por Pedro e Isabel. Naquele microcosmo, o proprietário é a Lei e o Direito. É amigo de Salazar e faz na sua propriedade o mesmo que o amigo faz ou permite que se faça no país. Traído pela mulher e impossibilitado de se vingar por razões de Estado, abusa sexualmente das mulheres da quinta, nomeadamente de Odete, a filha do caseiro, que é pouco mais do que uma criança. “Quietinha rapariga” há-de repetir Francisco inúmeras vezes, nos estábulos da quinta e contra as manjedouras. É assim como que um direito de pernada, mas com cheiro a urina e excrementos.

NOTAS FINAIS

A curiosidade maior deste romance do autor de Cus de Judas residirá, em minha opinião, no magistral tratamento do tempo, ou seja, no uso das anacronias, um incessante vaivém entre o presente da narrativa e a memória de cada narrador, que baralham qualquer leitor menos preparado.

As personagens, medíocres pela natureza das coisas, tendo sobrevivido ao grande naufrágio, com um pé no passado e outro no presente, apresentam marcas de profundos traumatismos, que as impossibilitam de compreender o presente. Dir-se-ia que o universo diegético é tão louco e perverso como perverso e louco foi o regime de Oliveira Salazar, que Lobo Antunes caricatura com imensa mestria.
 
Numa nota final, direi que algumas das personagens são totalmente inverosímeis, nomeadamente Titina que, apesar de ser governanta de um político amigo e ajudante do ditador de Santa Comba, não tinha que ser entendida em botânica. Num país de hortênsias, uma criada a falar de hidrângeas, francamente!

POST SCRIPTUM – Esta abordagem, necessariamente incompleta, fica a dever-se a questões extraordinárias da minha vida pessoal. Queria-a mais elaborada e minuciosa, porque considero O MANUAL DOS INQUISIDORES o melhor romance do autor. Porém, como não tenho mais tempo disponível para esta obra, deixo aqui o resultado despretensioso da minha leitura.


por Manuel Barata
12.11.2006

Um autor sem inspiração


Courrier Internacional
Janeiro de 2007


Na sua primeira visita ao México, o escritor explica, em entrevista, que a sua obra resulta  mais do trabalho que das musas. Partilha também a sua opinião sobre a América Latina e a sua literatura.


Com 64 anos, António Lobo Antunes, uma das vozes com maior prestígio e reconhecimento internacional do Portugal contemporâneo, não associa a escrita a uma actividade que lhe cause prazer nem acredita na inspiração.

«Estar com uma mulher dá-me imenso prazer, mas escrever um livro não. Além disso, quando os autores falam de inspiração, não há inspiração nenhuma: faz-se um livro porque se decide começá-lo e levámo-lo até ao fim o melhor que podemos», diz. Assim, para o autor de títulos como A Ordem Natural das CoisasFado AlexandrinoA Morte de Carlos GardelEu Hei-de Amar Uma Pedra e Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, além da sua mais recente obra, Ontem não te vi em Babilónia [todos na Dom Quixote], os primeiros capítulos continuam muito difíceis.

«O prazer começa na segunda metade da obra, quando o livro começa a escrever-se sozinho e a minha mão escreve sozinha, quando o livro me dita o que quer. Mas faço muitas versões dos primeiros capítulos, até me sentir satisfeito. Porque escrevo e penso: "ainda não é isto, ainda não é isto..."», comenta. Escrever é uma coisa que demora toda a vida a aprender e a experiência, assegura Lobo Antunes, é como os flutuadores dos hidroaviões: não servem para nada quando estamos no ar.

«Neste trabalho, não sabemos nada. E então quanto mais escrevemos, mais humildes nos tornamos, porque se trata de um trabalho muito difícil», reconhece. Psiquiatra de formação, iniciou a sua carreira literária em 1979, com a publicação de Memória de Elefante, aos 37 anos. Abandonou a medicina, decidiu entregar-se à actividade literária e, desde então, o seu objectivo tem sido mudar a arte de escrever.

O problema é que há milhares maneiras de o fazer, afirma. «Todos os grandes escritores o fazem, não é verdade? O problema é encontrar a voz exacta. Porque uma pessoa pode escrever o que quiser, mas o livro é um organismo vivo, que tem as suas leis, a sua fisionomia, o seu carácter, um temperamento muito diferente do nosso, e encontrar aquele que é próprio do livro é muito difícil, nos primeiros capítulos», esclarece.

Apesar do que diz, o autor português, um dos favoritos nas listas de nomes que, ano após ano, são elaboradas quando se aproxima a atribuição do Prémio Nobel, já não se imagina afastado da literatura: «A minha vida não tem muito sentido sem a literatura. Há um factor homeostático em tudo isto, e isso é muito importante para a escrita e, em geral, para tudo».

Lobo Antunes nunca tinha estado no México. A visita à Feira Internacional do Livro de Guadalajara [no final de Novembro [2006]] foi o seu primeiro contacto físico com o país, que só conhece através o que viu nos filmes e, sobretudo, através do que leu.

«A literatura mexicana sempre me pareceu muito importante. E os escritores da América Latina fazem parte da minha visa desde os meus 18 ou 20 anos, quando começou o "boom". Conheci alguns escritores, ou melhor, alguns livros, durante a guerra de Angola. Foi assim que conheci Juan Rulfo, Carlos Fuentes e algumas tradições de Octávio Paz», conta.

Só se pode começar um livro quando temos a certeza de que não somos capazes de o escrever, porque, dessa maneira, o livro torna-se numa luta, afirma Lobo Antunes. «Assim, vai-se escrevendo e pensando: "Não vou deixar que um livro me derrote". E trabalhamos, trabalhamos, até que saia bem», acrescenta.

Lobo Antunes nasceu em Lisboa, a 1 de Setembro de 1942. Aos 7 anos decidiu que queria ser escritor, mas, aos 16 , o pai mandou-o para a Faculdade de Medicina. No entanto, nunca deixou de escrever. Quando acabou os estudos, foi obrigado a ingressar no exército português, durante a guerra de Angola, da qual só regressou em 1973. Essa experiência marcou  a sua vida e, sobretudo, a sua obra. A beleza da sua prosa, o pormenor e o rigor com que os seus livros são construídos, bem como as complexas tramas que os suportam, fizeram com que as críticas que lhe são feitas, especializadas ou não, se dividam entre a admiração e o desprezo por aquilo que consideram como afectação e sobranceria.

Perante isto, Lobo Antunes assume um compromisso com os seus leitores, cujo número aumenta ano após ano, e agradece a «fé» que, assegura, nem sempre é partilhada. «Tenho medo de decepcionar as pessoas que tiveram em mim um fé que nunca partilhei. Nunca imaginei que isto viria a acontecer-me: todas essas traduções, todos esses prémios. As pessoas foram sempre muito generosas comigo», diz.

O escritor manifesta a sua gratidão mas, ao mesmo tempo, distancia-se e volta às obras, que considera organismos vivos. «Vamos como cegos, até que o livro começa a ter vida própria, começa a caminhar sozinho, já não precisa de nós, só precisa da nossa mão. Porque, nos grandes momentos do livro, temos a sensação de que no-lo estão a ditar». afirma. E como se poderá explicar essa sensação? «Não é possível racionalizar as emoções, não sei como explicar. Tem a ver com a natureza do livro. É uma questão de trabalho: quanto mais se trabalha, melhor é o livro. Não acredito nos que dizem que a escrita lhes sai com muita facilidades. É preciso trabalhar, não há nenhum segredo».

«A única coisa que faço é escrever e um livro representa dois anos de vida. Escrevo todos os dias, sábados e domingos. Agora, o mais que posso fazer é negociar coma morte: "Deixa-me escrever o meu livro, deixa-me acabá-lo, porque, se o publicam sem estar acabado, não fica bem, é uma merda"», declara o escritor, que um dia garantiu que é muito difícil alguém publicar um bom romance antes dos 40 anos. Continuará a pensar o mesmo? «Diria que antes dos 30. É preciso viver primeiro, porque nós não inventamos nada, caso contrário seríamos ladrões. Pode-se escrever boa poesia aos 18 anos, mas é muito difícil escrever um bom romance antes do 30, porque falamos de nós mesmos, pois todos os livros são autobiografias. Por isso, é preciso viver, viver como homem comum  entre homens comuns. Só um homem comum pode fazer grandes coisas», sustenta.

Os críticos de Lobo Antunes dizem que, depois de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, o seu universo literário se tornou mais denso. «Não sei, porque não li os meus livros. Só os escrevi», explica o escritor. Mas sente alguma mudança no seu processo criativo? «Bem, ao princípio escrevia histórias. Agora não me interessa escrever romances, histórias. Isso não me interessa. O que me interessa é preencher o espaço entre as capas do livro. É tudo. Para começar preciso de uma história, mas depois preciso de a destruir, como uma hiena. O enredo já não me interessa muito, porque estou a trabalhar com coisas anteriores às palavras. É isso que me interessa agora».

Em entrevistas, Lobo Antunes recorda frequentemente que, ao princípio, nenhuma editora queria os seus livros, nem em Portugal, nem noutros países. Mas, quando saiu o seu segundo romance, Os Cus de Judas (1979), recebeu uma carta de Thomas Colchie, na qual este lhe dizia que queria ser o seu agente literário. «Fiquei muito surpreendido, porque ele já tinha muitos autores importantes, como Ernesto Sábato e Guillermo Cabrera Infante», confessa.

Com o tempo tornou-se um autor de renome internacional e recebeu prémios como Jerusalém (2005), o da União Latina Internacional (2003), o Rosalía de Castro (1999) e o France Culture (1996), entre outros. No entanto, para Lobo Antunes, os galardões não são importantes, porque não têm nada que ver com a literatura.

«Ao princípio, receber prémios dava-me prazer e, ao mesmo tempo, inquietava-me. Os prémios são bons porque é muito difícil para quem escreve ser um escritor profissional. Lamento que pessoas com talento tenham de trabalhar noutra profissão e só possam escrever à noite e aos fins-de-semana. Isso aconteceu comigo há 10 ou ou 15 anos, quando me matava, porque escrevia das 11h da noite às 4 da manhã. Escrever requer todo o nosso tempo e é mais importante do que a nossa vida e o nosso trabalho», comenta. Por isso, quando viaja, pede sempre aos seus editores que lhe deixem quatro ou cinco horas por dia para trabalhar. «Se não se trabalhar todos os dias, perde-se a mão. Além disso, conheço escritores que têm muito talento, que escreveram livros muito bons e que, depois, não resistiram às tentações da fama e não lhes resta tempo para trabalhar. Não vou dizer nomes, porque são pessoas que admiro e respeito e alguns até são amigos meus. Uns, inclusive, são latino-americanos, muito conhecidos e tudo, mas já não têm tempo para escrever. Se tivessem arranjado tempo para escrever mais, teriam feito coisas muito melhores», garante Lobo Antunes.

Na sua fotobiografia, publicada há dois anos, figura o testemunho da mãe de Lobo Antunes que afirma: "Desde que o conheço, só houve duas coisas que lhe interessaram  na visa: os livros e as mulheres". E o autor reconhece que existe um lado mundano na literatura, mas que é uma coisa que não tem que ver com a literatura em si. «A tentação é muito grande, as mulheres são muito bonitas, mas é preciso resistir-lhes tanto quanto for possível», afirma.

Respostas directas

Nos seus livros, a infelicidade ou a incapacidade de comunicar a experiência humana são marcas distintivas. Considera-se Lobo Antunes um homem sem esperança?
Não, mas tenho consciência de que faço parte de uma corrente contínua que começou muito antes de mim e que terminará muito depois. Não, não sou um homem sem esperança. Acredito no homem. Não acredito em Bush, mas acredito no homem. Há pouco tempo, li um livro de Carlos Fuentes, Contra Bush [inédito em português], muito inteligente, muito bem feito. Esses livros fazem-se com ideias, mas aquilo que eu faço, aquilo que fazem os escritores, não se faz com ideias. Pedro Páramo [de Rulfo, publicado em português pelas Edições 70 e pala Cavalo de Ferro] não foi escrito com ideias.

Só com palavras.
Sim, só com palavras. É curioso. Pedro Páramo era um livro que eu não compreendia: lia-o e voltava a lê-lo e não o compreendia. Não compreendia que estavam todos mortos, por isso o livro não fazia sentido nenhum para mim. Sentia-me fascinado, mas ficava de fora.

E nunca lhe interessou enveredar pelo terreno das ideias?
Não tenho tempo. Eu só escrevi livros como os que faço. Não escrevi mais nada, nem relatos nem poesia.. Escrevo umas crónicas para os jornais, mas é tudo.

Declarou que faz romances porque não sabe fazer poesia. Teria gostado de ser poeta?
Se tivesse podido escrever poesia, penso que nunca teria tentado escrever prosa. O que acontece, porém, é que toda essa história das definições de géneros cada vez me interessa menos. Quando se começa um livro, é isso que se quer fazer, um livro, um livro total que tenha tudo, poesia, prosa, tudo: a vida.

Porque pensa que subsiste a ideia dos géneros literários?
Porque temos a mania dos rótulos, temos uma necessidade idiota de catalogar as pessoas.

Quais os autores de que Lobo Antunes gosta?
Amos Oz é um amigo, um homem de quem gosto. Apesar de escrever coisas que não têm nada a ver comigo, gosto do homem. é um homem humilde, encantador, foi muito simpático comigo e é um amigo, é um homem que respeito, embora não esteja de acordo com ele. Aborrece-me que tenha apoiado esta última guerra. Fiquei muito surpreendido com a sua posição, mas não falei com ele depois disso. Talvez tenha razões que não conheço.

Quais os outros autores que lhe suscitam empatia?
Gosto de Juan Marsé, porque é um homem com um sentido ético da vida. Gosto de Javier Marías. Estou a falar de escritores de língua  espanhola, mas é sempre possível esquecermo-nos de algum nome. Depois, se um amigo lê isto e não vê o seu nome, diz: "Olha o cabrão esqueceu-se de mim". E há também os escritores de que gosto e que nunca conheci, mas cujos livros foram importantes para mim, como os de Emily Brontë, Tolstoi, Tchekov. Embora, na verdade, cada vez leia menos romances. Não me interessam, porque, quando começo a lê-los, dá-me vontade de os corrigir. De um modo geral, os escritores não me despertam muita curiosidade. Os livros sim, como os de Sánchez Ferlosio, para continuar com os de língua espanhola.

Que acha da língua espanhola?
Gosto muito da definição do espanhol de Cervantes. Cervantes dizia que o espenhol era português com menos Ss (esses). É um idioma muito bom. Na Colômbia, falam um espanhol maravilhoso, muito bonito.

Como vê a América Latina?
É muito importante, é a parte mais importante do mundo.

Porquê?
Porque são pobres, como nós. Quando perguntaram ao treinador porque era tão boa a equipa da Hungria dos anos 50, ele respondeu: "Porque éramos pobres".

Pode explicar isso?
Não é muito difícil de perceber: é porque nestes países acontecem coisas. Em França, por exemplo, não acontece nada e a literatura é muito má. Por outro lado, eu acredito muito na latinidade, cada vez me sinto mais latino. E somos muito diferentes do resto do mundo. Estive há pouco tempo em Estocolmo e somos muito diferentes deles, o nosso trabalho é muito melhor que o deles.

Porquê?
Porque temos uma relação mais conflituosa coma vida, porque temos menos medo das emoções, porque não somos tão bem educados, porque não fazemos cerimónias com a vida, porque a mordemos, porque lhe batemos, porque somos mais intensos. temos uma carnalidade maior. Lá, ninguém toca em nada fisicamente, em nada. Ninguém nos convida para sua casa, comem nos restaurantes, são culturas muito diferentes.

Que vai fazer em seguida, António?
Estou a tentar começar um livro, mas não sei se é um livro ou não. Era o que estava a fazer, quando chegou esta chamada.

Lamento tê-lo interrompido.
Não faz mal.

Que expectativas tem sobre a Feira Internacional do Livro de Guadalajara e sobre o México?
Nunca estive no México, é a primeira vez. Aquilo que vi  do México foram os filmes e, sobretudo, os livros, a literatura mexicana, que sempre me pareceu muito importante. Os escritores da América Latina estiveram presentes na minha vida desde os meus 18 ou 20 anos, quando começou o "boom".  Conheci alguns escritores, ou melhor, alguns livros durante a guerra de Angola. Conheci Juan Rulfo, Carlos Fuentes e algumas traduções de Octavio Paz, mas, de um modo geral, havia muito pouco. Conhecia um pouco da história do México, porque homens como Zapata eram figuras muito importantes para nós, durante a ditadura, porque os víamos, embora isto possa parecer um paradoxo, como figuras da liberdade que não tínhamos. Além disso, as pessoas são muito parecidas, tão latinas como nós e, por isso, afectivamente, sentíamo-nos muito próximos dos mexicanos. Tenho uma prima mexicana, porque está casada com um primo meu, mas e tudo. Estive na Colômbia e na Argentina e fiquei muito impressionado com a generosidade e o calor dos leitores e das pessoas. As pessoas são iguais, quero dizer, a maneira de ser e reagir é muito igual à nossa. E, para mim, além de uma surpresa, isso foi uma alegria muito grande porque me senti em casa.

Há alguma coisa especial que queira partilhar com os seus leitores mexicanos?
Não sei o que vou dizer. Nunca sei o que vou dizer antes de começar a falar, nunca preparo nada. Nunca escrevo nada. A única vez que escrevi qualquer coisa foi quando me atribuíram o Prémio Jerusalém e fi-lo porque tinha de ser publicado. Mas nunca escrevo nada. Falo como me sai. No momento.


citado do Courrier Internacional
artigo de Jaime Reyes Rodriguez
Janeiro de 2007

3 de fevereiro de 2007

«Um escritor não se faz aos trinta»


Janeiro de 2007


António Lobo Antunes passou pela região para apresentar o seu último romance, «Ontem não te vi na Babilónia». Oportunidade para o «OvarNews» o ouvir sobre a sua vida e obra 


Como é que define «Ontem não te vi na Babilónia»?
Se eu pudesse falar dele em cinco minutos, não ia passar dois anos a escrevê-lo. Não é fácil resumir em meia dúzia de palavras aquilo que me levou dois anos de vida a fazer. É um livro que vem na sequência dos outros. Será destinado a ter as habituais controvérsias que, não sei bem por que carga de água, provoco no meu país. Agora, penso que é um livro que tem de ser lido sem qualquer pretensão ou ideia prévia. Eu costumo dizer que um livro é um cofre que tem de ser lido com uma chave e nós temos sempre tendência a abri-lo com a nossa própria chave e a nossa experiência de vida e de leitores, dos nossos sonhos, do nosso passado. E, normalmente, quando um livro é bom, ele traz a sua própria chave e deve ser lido sem ideias pré-concebidas. Não vou resumi-lo porque não é possível. Como todos os livros, ele foi um trabalho que me deu, ao mesmo tempo, algum sofrimento e alguma dificuldade, sobretudo a primeira parte. Na segunda metade, como sempre me acontece, o livro já anda sozinho, sem a minha intervenção, parece que alguém mo está a ditar. E é isto... Eu quando começo um livro, nunca tenho nada na cabeça. Aliás, nos últimos dez livros, não tenho plano, não tenho ideias, nada. Diz-se que um livro é um acto de inspiração, mas não é nada disso.
Uma pessoa escreve um livro porque decide começar um livro, nada mais. A inspiração, por vezes, chega quando nos levantamos da mesa depois de estar um dia inteiro a escrever.
Às vezes questiono-me porque é que passei estes anos todos a escrever e ainda não encontrei resposta. A verdade é que, quando não escrevo, sinto-me desconfortável, como se estivesse vestido sem ter tomado banho.

Quais são as suas maiores referências literárias? O que é que o emociona mais quando lê?
De facto, quando se faz essa pergunta a um escritor, todos têm tendência em responder Cervantes, Tolstoi, por aí fora. É mentira. Eu comecei a escrever por causa do «Mandrake», «Flash Gordon» e dos livros para as crianças que era o que lia quando era miúdo. As pessoas tendem sempre a compor um perfil de intelectual quando na realidade um escritor não começa aos trinta anos, são os livros para crianças que acordam em si o desejo de escrever. Eu não quero escrever «odisseias» nem «Ilíadas», quero escrever livros como os livros que lia quando era criança. Se eu tiver que falar nas grandes referências, terei de falar nessas, porque sem eles nunca escreveria nada. E depois tinha a sorte de ter um pai que gostava muito de livros e tinha uma biblioteca muito grande e eu comecei a ler os livros dele. Aliás, nós éramos muitos irmãos e quando estávamos doentes, ele sentava-se na beira da cama e lia-nos os autores de que gostava. Foi incutindo o gosto da leitura nos filhos. Mas o meu gosto por ler já vinha de trás, dos livros para crianças e das «Selecções do Reader’s Digest» que a minha avó coleccionava. Eu gostava muito porque tinha artigos interessantes, como por exemplo «O nosso amor começou na leprosaria», «Perdi a vista mas ganhei uma fortuna», «Confissões de uma estudante católica». Era o que eu gostava de ler (risos).
Eu nasci na Beira Alta, onde chove muito e quando estava a chover eu não podia sair e então ficava em casa a ler. Foram estes livros que sempre achei interessantes. Sabe, aquilo a que chamam romances, não me interessam muito. O que leio agora é poesia. Como a minha família veio do Brasil, em casa do meu avô só havia livros brasileiros e então lia os autores do Pará: Raul Pompéia, Monteiro Lobato, José de Alencar, Machado de Assis, Aluísio de Azevedo e por aí fora. Fui muito influenciado por eles. Em especial por poetas, como Drummond ou João Cabral de Melo Neto, este último sem antecedentes e sem continuadores, o grande, grande poeta da língua portuguesa do século XX. Ainda conheci, quer um quer outro. Depois com o tempo, é claro, que a gente vai descobrindo outros autores, no meu caso os russos do século XIX, como Tolstoi, e os ingleses e norte-americanos, dos princípios do século XX. Mas sem o Pato Donald ou as Selecções do «Reader’s Digest», eu nunca teria escrito nada. O que eu me pergunto é porque é que os meus irmãos, que tiveram a mesma formação que eu, nunca escreveram nada, felizmente... São pessoas normais, saudáveis e com empregos como deve ser.

E chegou a ser jogador profissional de hóquei em patins…
Sim, eu joguei hóquei em patins no Benfica e ganhava bem. Entre o liceu, os treinos e os jogos, restava-me pouco tempo e isso assustava muito os meus pais. Porque eu, em vez de estudar, ou estava nos treinos e nos jogos ou a ler e a escrever. Para o meu pai e para a minha mãe, isso era muito complicado. E eu adorava aquilo dos campeonatos da Europa, andar com o equipamento da selecção e do Benfica. E para um miúdo de 16 ou 17 anos, isso era muito importante. Os meus pais diziam-me que quando acabasse o hóquei eu ia andar a pedir esmola.
Para os meus colegas do Benfica era muito estranho eu chegar a um estágio com livros. Para eles, que liam o «Record» e «A Bola», era esquisitíssimo. Eles perguntavam-me o que estava a fazer e eu tinha vergonha, porque aquilo de ler e escrever era uma actividade mais ou menos secreta…

A relação do título com as suas obras é uma relação complexa?
Os títulos são sempre uma confusão. É como dar um nome a um filho, não é? Há pessoas que quando começam um livro já têm um título, mas eu quando começo nunca tenho título nenhum. Não sei se vai sair rapaz ou rapariga, imaginemos que dou o nome de Vanessa e depois sai um matulão qualquer… Não sei o que vai sair, não sei como o livro vai ficar e, normalmente, até ao fim do livro não há titulo nenhum. E depois começo a ficar a preocupado à procura dos títulos. Eles acabam por aparecer, mais tarde ou mais cedo. É como na vida. Fazemos planos disto e daquilo, mas a vida encarrega-se de furar os planos tudo e a acaba por ser diferente daquilo que imaginávamos. Quem nunca pensou que ia ser feliz ao lado deste homem ou daquela mulher e ao fim de algum tempo, começamos a dormir num canto da cama na esperança que não nos toquem? Isso já aconteceu com muita gente. E tudo nos irrita, até a maneira de cruzar a perna, ou de atender o telefone ou os tiques verbais que toda a gente tem, e aquilo que para nós era matéria de encantamento, torna-se… só queremos que nos deixem em paz e não nos toquem. Beijos que demorem um segundo parece que nunca mais acabam e os lábios parecem bifes. Isto acontece também com os livros e os títulos aparecem sempre no fim do livro. Bem, nem sempre. Isso não aconteceu num livro chamado «Fado Alexandrino», que foi mais cedo. Nessa altura, o Diniz Machado estava a viver comigo após ter enviuvado, o que foi muito doloroso para ele, e eu e ele estávamos a escrever na mesma mesa para darmos coragem um ao outro. Ele estava a escrever um livro que se chamava «Fado Alexandrino» - o meu não tinha título nenhum. E eu disse-lhe que aquele título ficava bem no meu livro. E ele disse que estava bem e concordou. Os títulos às vezes aparecem de maneira surpreendente e, sobretudo, quando menos se espera.

Então, não há mesmo relação entre título e obra?Existe uma relação, mas não tem nexo lógico, no sentido aristotélico-cartesiano da palavra, há, sim, um nexo afectivo qualquer que por vezes nos escapa. É como tudo na vida. Porque é que eu gosto de A e não gosto de B, porque é que sou amigo desta pessoa e não sou amigo daquela? A amizade, tal como o amor é uma coisa instantânea, absoluta. A gente conhece uma pessoa e de repente até ficamos amigos de infância, seja qual a for altura da nossa vida. Há uma lógica dos afectos e das emoções e que nada tem a ver com a lógica da filosofia que nos ensinaram na escola. É como os livros e os poemas, obedece a um outro tipo de lógica, uma meta-lógica e são máquinas de mover, no fundo. É impossível racionalizar sobre as emoções. Ou melhor, é possível fazê-lo à posteriori: uma pessoa tem esta ou aquela qualidade, mas não é por nada disso que se gosta de outra pessoa. É por algo que nos escapa. Os neurologistas dizem que é por causa dos cheiros, que é algo de inconsciente, como os animais, não sei… Tenho dois irmãos que são neurologistas e tenho lido muito sobre isso. Está provado que nós, humanos, somos atraídos por cheiros que nos são inconscientes, isso é que é o «sex-appeal»… Com os livros, provavelmente, é a mesma coisa, é também uma questão de cheiro.

Porque é que acha que devemos ler o seu último livro?
Eu não acho nada porque não sou propagandista de mim mesmo, não sou caixeiro-viajante. Ler dá muito trabalho e é muito difícil para os portugueses e os meus livros são muito caros para o nosso poder de compra. Há pessoas que se gastarem 20 euros num livro depois ficam aflitas. Os livros são caros. As pessoas perdem muito tempo a irem para o trabalho, a virem do trabalho, depois em casa, o marido, a mulher, filhos, Internet, os jornais, tudo puxa para não lerem. E ao fim-de-semana, têm o centro comercial. Eu não posso deixar de ser grato a quem compra os meus livros. E depois, nunca nenhum governo teve uma política cultural, nunca se ensinou verdadeiramente a ler e mesmo assim eu acho que em Portugal se lê imenso. A quantidade de portugueses que lêem e compram livros é extraordinária para um país como o nosso, a viver como nós vivemos, com a vida miserável que nós temos, com as dificuldades que sobram, os salários que não sobem, os impostos, as preocupações constantes, o quotidiano penoso, enfim. Não acho nada que os portugueses lêem pouco e também não acho nada que os adolescentes lêem pouco. Eu quando vou dar autógrafos, há sempre uma fila enorme e a maioria são miúdos, mas miúdos mesmo, de 16 ou 17 anos, o que me faz ter alguma esperança. Então, era o que faltava dizer para me lerem. É um acto de liberdade ler se se quiser.

Mas será que os portugueses lêem bem, quer dizer, os portugueses lêem em qualidade?
As editoras existem para vender livros, não são entidades de beneficência e muitas vezes têm que sacrificar a qualidade a outros livros de qualidade duvidosa, como por exemplo, o «Kama Sutra: 120 maneiras de levar a mulher ao êxtase» ou as «120 maneiras de levar o homem ao êxtase». Eu acho que basta uma maneira de levar um homem ao êxtase... 120 maneiras matam um homem ou fica tubérculos (risos)… São estes livros que vendem e que as pessoas acabam por comprar. E aqueles livros de auto-ajuda, do tipo «Psicanalise-se a si mesmo», ou então aqueles livros meio esotéricos ou relacionados com a religião, que é um filão que sempre existiu antes do Dan Brown, sempre existiu e sempre existirá, ou então os livros daquelas senhoras que gostavam de fazer amor com campeões de «body-board» nas salas de prova da Zara. A sério. É muito mais fácil ler isto. Se nós em casa tivermos a revista «Caras» ao lado da Bíblia, começamos por ler a «Caras». As pessoas não resistem, gostam de ver a vida dos outros.
Eu tenho três filhas e no início elas não liam. Isso de início não me preocupava, achava que era o percurso delas, nem queriam ouvir falar em escritores, porque eram as pessoas com quem eu me dava. Mas depois começaram a ler por iniciativa delas, livros que eu nem sequer gostava. Eu nem tentei que elas lessem o que eu gostava. Até porque a principal função de um pai e de uma mãe é servir para que eles não gostem de nós. O nosso amor por eles é sempre estável, mas o deles por nós é muito ambivalente e mesmo depois de mortos – o meu pai morreu há dois anos e continua a mudar dentro de mim. O julgamento que um filho faz do pai na adolescência é normalmente pautado por uma crueldade e injustiça enormes. Normalmente, começamos a conhecer melhor os nossos pais quando temos filhos.

Este título - «Ontem não te vi na Babilónia» - dá a sensação de que se está a «meter» com os potenciais leitores…
É engraçado, não tinha pensado nisso. Mas já aconteceu a mim próprio… Havia um grande escritor americano que dizia que lia o primeiro parágrafo e a última linha. Eu, normalmente, faço isso e se me interessa leio o resto. Sabe, mandam-me muitos livros. Acho que não há português que não tenha um manuscrito. E quando me perguntam se acho realmente se devem escrever eu digo sempre sim, porque enquanto escrevem não se drogam. Estão ali sentados, não chateiam a família… Mas o pior é que alguns escrevem mesmo bem. Escrever é barato, o papel e as canetas são baratos…
Mas é verdade, às vezes os títulos apelam. No outro dia comprei uma peça de um dramaturgo americano chamada «A pele dos nossos dentes» e só a comprei porque gostei do título.

O facto de ser licenciado em medicina ajudou-o a escrever da maneira que o faz?
Não, acho que até é uma complicação. Eu nem quis ser médico, porque já havia vários na minha família. Eu queria era ser jogador e trabalhar numa livraria. Mas o meu pai veio com uma conversa que eu ia ser um desgraçado toda a vida e tinha de tirar um curso. E eu respondi-lhe que estava bem mas ia para letras. Ele também não gostou, respondendo que assim estaria condenado a ser professor de Liceu. Lembrei-me de ir para medicina, até porque já havia um esqueleto lá em casa. Mas depois foi horrível, porque a cadeira de anatomia tinha quatro calhamaços e quando os pesei na balança da minha mãe aquilo tinha 5,400 kg e eu recusei-me a meter aquilo tudo na cabeça. Então não ia às aulas, nem aos exames, o que deixava o meu pai e os professores, que eram amigos do meu pai, muito preocupados. Então a minha mãe prometeu que me dava a carta de condução se eu fizesse as cadeiras todas e tirei o curso assim.
Foi difícil porque eu nunca tinha visto ninguém morto. E foi difícil porque eu gostava dos doentes, mas o sofrimento sempre foi incompreensível para mim. Aquelas urgências cheias de doentes apavorados, com os olhos cheios de medo, por quem os médicos passam sem um sorriso, sem um olhar. Nunca me habituei. No estágio, colocaram-me numa pediatria de miúdos com cancros terminais, a quem se calavam os gritos com injecções de morfina. Tornei-me amigo de um miúdo com leucemia terminal, o José Francisco. A maneira como as crianças encaram a morte é extraordinária, porque elas sabem que vão morrer. E um dia o José Francisco morreu. Veio o empregado da morgue, embrulhou-o num pano e levou-o. Eu estava na enfermaria, ao fundo, e vi o empregado a afastar-se com a criança ao colo e um pé do José Francisco sobrava e baloiçava à medida que ele se afastava. Esse pé nunca me abandonou até hoje, eu tinha 22 anos, e muitas vezes penso que é para esse pé que escrevo.


citado do sítio OvarNews
não datado

27 de janeiro de 2007

almaro: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Curiosamente (e ironicamente, uma vez que são autores que nutrem antipatias mutuas) a empatia para com António Lobo Antunes foi idêntica com a que tive com Saramago. O primeiro livro que me ofereceram de Saramago foi o “Ano da Morte de Ricardo Reis”, […]. Não o consegui ler, julgo que na altura não passei da primeira página, e quando assim é, quando me arrasto nas letras, perdido nas frases, esqueço o livro […]. Lembro-me que na altura o coloquei na prateleira, algures junto aos livros não prioritários, que para se ler um livro é preciso afinidade, e na altura não estava afim. Não me recordo como o livro saiu da prateleira e viajou para a mala de trabalho, que nessa altura viajava muito. Fiquei de tal maneira preso às páginas de Saramago que dei comigo a ter pena de as virar e ficava a saboreá-las como quem degusta um vinho do Porto velho de xistos e de sol. Com António Lobo Antunes o processo foi idêntico, mas levou mais tempo a entrar no seu universo literário, culpa minha que tentei ler livros da sua ultima fase ( que farei quando tudo arde?) sem passar pelas notáveis fases intermédias.

“Ontem não te vi em Babilónia” acaba por ter sido o primeiro livro que li desta sua última fase, (que segundo o próprio deveria ter sido única), por inteiro, com o prazer de ler e de me deixar ir no movimento da caneta e da insónia relatada a várias vozes, com diversos sentires.

Na verdade não é um romance, ou melhor, não é um romance na sua forma tradicional de contar uma história e essa história ter personagens que a vivem. Neste livro o processo foi ao contrário, é o livro que cria as personagens. O livro é na verdade o cenário (protagonista) principal, que se escreve na noite e que vive na noite. As personagens escrevem-se, as personagens são a ponta da caneta, a insónia é a do autor, que provavelmente incomodado com o latir de cães desacordou no livro, a na necessidade do livro. Uma insónia (sabe quem a já teve), alonga o tempo, tudo se arrasta numa lentidão como quem gira á volta de um vazio. “Ontem não te vi na Babilónia” gira à volta de uma criança que se pendura em corda de enforcado numa macieira e deixa em repouso (caída, morta) uma boneca na relva, que a mãe corta doentiamente. As personagens têm o ritmo, a insónia permite e repetem-se numa lengalenga que nos envolve (vezes, em angustia) de tal forma que sentimos o tempo nas páginas que se lêem com o prazer de descobrir o António e a sua mestria de traçar imagens literárias únicas. O livro nasce já com morte anunciada (que sabemos no fim que anunciada hora e tudo).

(cinco da manhã e acabou-se, a única coisa que me dizem é que: cinco da manhã e acabou-se sem que eu compreenda o que se acabou, contem-me, cinco da manhã e então, no caso de não precisarem de mim, posso dormir, não posso?)

desabafa a personagem…

Sabe-se que é um livro que só tem uma noite, e as personagens também o sabem e apressam-se a partir das quatro da manhã (aliás, o capitulo mais conseguido do livro-romance) a acelerar a sua própria escrita. É um livro que se constrói, como se as personagens escorregassem na tinta e tomassem forma (como fantasmas das páginas).

-Não se vai embora você?
impaciente comigo, o seu livro quase no fim visto que dia, guarde os papéis, a caneta e levante as sobrancelhas da mesa onde desenha as letras torcido na cadeira, quatro da manhã graças a Deus, quase cinco, acabou-se, na janela diante da sua uma senhora numa cadeira de baloiço que há-de cobri-lo com o xaile, você não imaginando que a morte uma pessoa real, sem mistério a defender-se do frio, o seu nome
- António
ao mesmo, tempo que um barulhinho no vestíbulo, cochichos que o procuram na casa, espreitam o corredor, não o acham, os homens de casaco e gravata junto a si e um martelo, uma pistola, uma lâmina
(quatro horas da manhã graças a Deus, quase cinco)
e não tem importância visto que o seu livro no fim, tantos meses para chegar aqui e duvidando se chegaria de maneira que alegre-se, olhe a janela onde a senhora da cadeira de baloiço
-António

O António (o Antunes, o Próprio) revela-se aqui e ali, como maestro, obrigando as personagens a escrever, aparecendo várias vezes no auge da insónia “(continua a escrever)“ como que obrigando-se à escravatura da escrita, esquecendo-se por vezes que é ele e não a personagem que escreve, relevando ao leitor o seu processo criativo, a forma como experimenta as palavras, como lhes tira o som e a imagem, como as apaga, ou como escrevendo com a pressa de não deixar fugir uma ideia que se sobrepôs à cena, a sobrepõe para não se esquecer dela, para mais tarde a rever e a colocar em sitio certo. Sitio esse que acaba por não ser encontrado ficando tudo como está, para gozo do autor e nosso, que entendemos o seu divertimento e damos connosco a sorrir e a pensar no silêncio (grande sacana, a gozar comigo!)

Há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo mas pesa, sente-se dentro o
(ia escrever incómodo e não incómodo conforme não incómodo conforme não tristeza, não dor, como se traduz isto, não sei)
deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa

De tudo ficou-me gravada a imagem do silêncio, escrita desta forma que só Lobo Antunes consegue:

Isto porque no outono ninguém consegue dormir, vamo-nos tornando amarelos da cor do mundo que principia em setembro debaixo do mundo vermelho, o silêncio deixa de afirmar, escuta, demora-se nos objectos insignificantes, não em arcas e armários, em bibelots, cofrezinhos, não somos a gente a ouvi-lo, é ele a ouvir-nos a nós, esconde-se na nossa mão que se fecha, numa dobra de tecido, nas gavetas onde nada cabe salvo alfinetes, botões, pensamos
- Vou tirar o silêncio dali
e ao abrir as gavetas o outono no lugar do silêncio e o amarelo a tingir-nos, as janelas soltas da fachada vão tombar e não tombam, deslizam um centímetro ou dois e permanecem, na rua os gestos distraídos da noite transformam-se num fragmento de muralha ou na doente que faleceu hoje no hospital abraçada à irmã de chapelinho de pena quebrada na cabeça, estremeceram em uníssono, a cama ou uma garganta um som qualquer
(como descrevê-lo?)

por almaro
23.11.2006

18 de janeiro de 2007

Fernando Mendonça: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 125/126 de Julho de 1992 – pp. 296 e 297

O veio da paródia e a sua mais utilizada vertente, a carnavalização, têm ocupado páginas episódicas na literatura portuguesa, geralmente para sublinhar tipos ou lugares de um universo social em que a burguesia, decadente ou ascendente, confessa até onde pode ir a vacuidade das relações humanas. No século passado, Eça parodiou as instituições românticas, e as críticas de Camilo foram o paraíso do sarcasmo. Em tempos mais recentes, podemos seleccionar uma meia dúzia de bem sucedidas realizações, voltadas para obras e figuras que, por razões justas ou injustas, se tornaram alvos favoritos da sátira. Tudo isso, porém, nunca se apresentou como um projecto global de produção.

Mas agora estamos diante de um livro que utiliza, como procedimento incansável de produção, a paródia: trata-se do romance de António Lobo Antunes Tratado das Paixões da Alma.

É conveniente esclarecer que, quando se fala aqui de paródia, é no remoto significado grego da palavra – canto ou discurso paralelo a outro. No caso do romance de Lobo Antunes, assinalamos, além do exercício da paródia, o da sua sofisticada escrava, a carnavalização. A paródia e a carnavalização interpenetram-se ali, porque os acontecimentos parodiados, transpostos de maneira ridícula ou grotesca, utilizam a linguagem paralela que materializa a degradação. Não são só as coisas que constituem a paródia, mas o modo como as coisas se constituem. E assim se vai da paródia à carnavalização. Exemplificando, a partir do título, pode-se dizer que as «paixões da alma», narradas no livro, se mostram fielmente especulares do seu modelo, mas o modo como se exercitam (ou descrevem) é exemplarmente caricatural. No traço caricatural se espelha, com justeza, a realidade do mundo circunstante. Mas o que é que se parodia e carnavaliza neste romance de Lobo Antunes? Faça-se um breve resumo do que acontece no livro.

Num tempo recentíssimo, o Estado precisa de capturar um grupo de terrorista que vinha praticando atentados contra alvos e personalidades importantes. Um dos componentes do grupo é preso e um Juiz de Instrução é escolhido (a dedo) para conduzir o interrogatório do prisioneiro. Acontece que os dois foram amigos de infância e praticamente criados juntos. A partir desta relação Juiz de Instrução/Homem (terrorista) se instaura o universo romanesco, com os protagonistas e os acontecimentos surgindo das reminiscências que inevitavelmente os dois acordam durante os interrogatórios. A infância, a adolescência, a idade adulta se recriam com os seus conflitos, as suas paixões que, agora, aos poucos, vão de novo imperceptivelmente aproximando as duas personagens.

O tempo da acção é breve, mas as ramificações da mesma se tornam múltiplas e complexas, o discurso narrativo flui num movimento pendular constante entre o passado e o presente, produzindo uma narrativa fracturada mas tranquila, apesar das refracções bruscas que obrigam a uma leitura extremamente atenta e memorizada. Nesse ritmo apropriado da leitura jamais se perde o fio da meada e, no momento exacto, tudo se vai revelando e encaixando – os factos, as pessoas, os nomes. Salvo melhor juízo, é uma das mais complexas estruturas narrativas que o romance português produziu nos últimos tempos, mas é igualmente uma das mais sedutoras leituras que um texto moderno nos pode propor. E, apesar da sua modernidade, é um romance que se lê à velha maneira (leitura aliás a que todos os romances aspiram mas nem sempre conseguem), isto é, quando o leitor subitamente se enreda no texto, como se dele participasse, assim se instalando como narratário obrigatório.

Tem-se falado aqui de paródia e carnavalização como principal carpintaria deste romance. Seria interessante dar alguns exemplos dessa prática, ao mesmo tempo cómica e documental. Dois momentos do livro seriam suficientes: quando os terroristas decidem atacar a sede da Polícia Judiciária; quando a Polícia Judiciária resolve atacar os terroristas. A imitação da realidade é insuperavelmente cómica, pelo ridículo e incompetência dos terroristas, dos seus gestos, do seu linguajar, o mesmo acontecendo com os agentes e a tropa que organizam o cerco aos terroristas – a melhor maneira de carnavalizar o cerco foi fazer acreditar aos populares presentes que se tratava de um filme.

Para se dar uma ideia aproximada do que é este romance de Lobo Antunes seria preciso um espaço bem maior do que aquele de que aqui naturalmente se dispõe. É um romance no qual o tempo da narrativa é longo e abrangente, e, se a acção é breve, como se disse atrás, as recorrências onde se instalam todos os intervenientes que, de uma forma ou de outra, fala da história recente (e menos recente) da vida portuguesa, as recorrências, repita-se, são a máquina que produz o universo fundamentalmente inquisitivo do romance.

Sim. Não é só o Homem (terrorista) que é interrogado. É a vida, com as suas paixões, rudimentares ou complexas, que se interroga e questiona. A lição final é a mesma para o Juiz e para o terrorista: ambos serão assassinados pelos órgãos de segurança.

Não é a primeira vez que o Autor se arroga o direito da paródia, mas nunca ela foi tão intensa nem tão relevante a carnavalização como neste Tratado das Paixões da Alma. Mas há algo ainda que é preciso dizer e com certa urgência. António Lobo Antunes acena-nos, neste romance, com uma conclusão, à qual chegamos sem muita dificuldade. Por detrás do rosto da paródia e do seu corolário, desvela-se um outro que não é caricaturável, antes carrega nos olhos e na boca uma notícia tão aforística quanto desoladora, e isso ao longo das centenas de páginas do livro: que quanto mais as coisas mudam, mais são a mesma coisa.


Fernando Mendonça
Colóquio Letras 125/126
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 1992

11 de janeiro de 2007

Portnoy: opinião de leitura


António Lobo Antunes: Tratado de las pasiones del alma e Qué haré cuando todo arde?

Não se pode resistir à tentação de ler um romance com um título tão maravilhoso:Tratado das Paixões da Alma.

É o meu segundo romance de Lobo Antunes, depois de Que Farei Quando Tudo Arde?. São dez anos de diferença que existem entre a escrita dos dois romances, e a comparação entre si supostamente daria uma clara visão sobre o estilo literário de Lobo Antunes. Porém, dois romances  tão separadas no tempo, e algumas das crónicas do escritor publicadas no Babelia - El País, não implicam demasiado conhecimento da obra de um escritor para se empreender uma crítica séria e tirar conclusões a respeito.

Penso que se tivesse que escolher um autor português para o laurear com o Prémio Nobel, não teria dúvida alguma que, antes da tresnoitada filosofia new-age de Saramago, uma narrativa infestada de conformismo e lugares comuns, viesse a apostar em Lobo Antunes, mais arriscado literariamente e menos comprometido socialmente. De facto, as normas para o Prémio Nobel da Literatura implicam que deve conceder-se "a quem haja produzido no campo da literatura a obra mais destacada, na direcção correcta", o que se mostra bastante ambíguo, ao que se junta "o que suponha uma contribuição notável à sociedade"... mais ambiguidade.

Mas deixemos de lado as minhas fobias pessoais.

Lobo Antunes é um escritor que trabalha especialmente a forma das suas obras. Como afirmou numa entrevista:

«Interessa-me o trabalho com as palavras. As histórias dos meus livros não me interessam nada» (..) «A estrutura, sim; (...). Interessa-me tentar traduzir em palavras o que por definição é intraduzível (as emoções, os impulsos) e estruturá-lo num todo coerente. A intriga não me preocupa; o que procuro é estar mais perto do coração, da vida».

Desta forma, esforçando-se em mostrar ao leitor esse mundo interior de impulsos e emoções, cria os romances nos quais o ritmo temporal está completamente truncado. Se bem que o conjunto da obra, os sucessivos capítulos, mostram uma certa continuidade temporal, mantêm uma evolução da história sobre a linha do tempo, o interior de cada capítulo, estruturado em diversos blocos, mostram um caos temporal fruto da indagação do autor na memória das suas personagens.

Tentar uma sinopse dos seus romances é um trabalho infrutífero: uma sinopse não acrescenta nada a uma literatura em que é primordial o uso de palavras para captar conceitos abstractos. Não obstante, tanto Tratado das Paixões da Alma, como Que Farei Quando tudo Arde? são, apesar do que se possa pensar pelo que acabo de dizer, romances em que o humano está muito acima da técnica narrativa. Lobo Antunes empurra-nos para uma frenética descida às entranhas da mente humana, das paixões mais ocultas e os sentimentos mais recônditos, empregando ara isso um tremendo labirinto de palavras que dispõem frases que dispõem parágrafos que não se enlaçam temporalmente com o seguinte, nem com o anterior. Lobo Antunes exige, é inflexível  literariamente.

A evolução que posso constatar nestes dois romances aponta a uma maior dificuldade tanto na sua composição como na sua leitura: em Que Farei Quando Tudo Arde?, Lobo Antunes desmonta toda a narração ao nível de cada frase, de forma que parece haver uma única voz dominante, diluindo os restantes narradores, diluindo o próprio autor. Nas suas próprias palavras:

«Penso que há somente uma voz que se fragmenta e divide; antes fazia planos detalhados, mas agora parto do nada, de uma ideia vaga, o fio narrativo está para o escritor como a corda para o alpinista, a meta para mim surge de como criar personagens que despertem emoções sem esse fio, vejo-me como uma entidade entre duas instâncias, traduzindo o que as vozes interiores me ditam, já não sei se escrevo ou traduzo mensagens disformes.»

Em Tratado das Paixões da Alma, essa possessão não alcança esses níveis de dissolução. Há uma voz única, a voz de Antunes ou a voz de um narrados omnisciente mas também é um diálogo contínuo entre duas personagens ao longo do tempo, personagens que dialogam com a mesma voz, que são denominados com epítetos relativos à sua profissão (que curioso... como Saramago) e que conversam construindo uma história. No romance de 1990 existe todavia certo interesse no que se conta, na trama narrativa. No de 2001, a trama resolve-se precipitadamente, como que uma obrigação que não interessa ao autor.

Lobo Antunes é um escritor arriscado que pede ao leitor um esforço que talvez nos tempos em que vivemos não estará acostumado. Mas também há que reconhecer que é um escritor irregular: existem fragmentos nos seus romances que se prolongam desnecessariamente, as contínuas repetições em que costuma recriar-se não ajudam a que a narrativa avance fluidamente, conseguindo em certas ocasiões um efeito contrário ao desejado: nessa exploração da alma humana o leitor pode sair enfastiado de tanta mediocridade.

São os seus romances tratados sobre as paixões da alma, tratado literário de lato nível. Talvez não seja o melhor escritor do mundo, mas há que agradecer-lhe o esforço das suas composições titânicas, nas quais sempre encontraremos brilhos de perfeição. Seja como for, há que ler um homem que diz sobre a narrativa contemporânea o seguinte:

«Dá-me a impressão que todos (os livros) são escritos pela mesma pessoa. São histórias bem feitas, no geral, mas a mim não me interessam as histórias bem feitas. Gosto de personagens com densidade. Gosto das pessoas que vivem como que com uma guerra civil interior, pessoas com quem podes ter uma luta, no bom sentido, claro. Gosto das pessoas que esgrimam e deixam seu sangue mesclando-se com o teu como num pacto».

 
Portnoy
21.04.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

6 de janeiro de 2007

Le Monde Diplomatique (Brasil): sobre Exortação Aos Crocodilos


Um romance sobre a revolução portuguesa

Quando o Prêmio Nobel de Literatura foi atribuído a José Saramago, algumas vozes levantaram-se para lamentar que o júri não tivesse preferido Antonio Lobo Antunes. Sem querer entrar numa polêmica inútil, dada a dificuldade de comparar os méritos dos dois autores, diríamos que seu Exortação aos crocodilos prova mais uma vez que ele é um grande escritor, um daqueles que os séculos contam nos dedos das mãos. O romance é composto de um coro a quatro vozes que intervêm sucessivamente oito vezes, um pouco sob a forma de um padrão: trinta e dois capítulos de uma extraordinária profusão de imagens poéticas, sustentadas por uma escrita de extrema tensão — falou-se a seu respeito de um estilo modelado pelo de Céline  — e por uma construção de impecável rigor, que evoca para o leitor lembranças da música barroca e da pintura cubista.

Emília (que todos chamam de "Mimi" e que é surda), Fátima (afilhada de um bispo lascivo), Celina (preocupada com os primeiros estragos do tempo em sua beleza congelada) e Simone (obesa, mas gostaria de se chamar Cintia) recitam, uma de cada vez, monólogos sobre seus pais, sua juventude perdida, seus maridos, seus amantes, suas preocupações, seus sonhos e lembranças, a morte que as oprime cada vez de mais perto. A própria morte e a morte dos outros, esses comunistas e democratas que seus homens decidiram exterminar acreditando fazer desaparecer a Revolução dos Cravos graças a sua miserável conspiração apoiada por militares espanhóis (Franco ainda estava vivo), pelo embaixador americano e por agentes secretos da África do Sul (Mandela ainda estava preso).

 

Sensível, mas empolgante como um thriller


Esta conjuração realmente existiu, agrupada em torno do general Spínola, e realmente custou a vida de comunistas, democratas e do primeiro ministro Sá Carneiro. A genialidade de Lobo Antunes é falar dela apenas indiretamente, através do envolvimento mais ou menos definido dessas quatro mulheres. Essa mistura de emoções íntimas, de delírios oníricos, de reflexões irônicas ou desiludidas e de cenas de massacres, de torturas e de atentados, coloca de uma forma inteiramente nova uma das questões mais antigas que a humanidade enfrenta: o mal. Nenhuma resposta é proposta, muito menos uma "compreensão" qualquer.

O romance é também um espantoso thriller. Pouco a pouco acreditamos entrever, por meio das lembranças das narradoras, em que trauma profundo se insere a anomia que lhes permite não apenas tolerar como participar de todos esses crimes. As quatro pertencem a uma outra época, à de um Portugal paralisado no passado, aterrorizado pela Igreja e seu inferno prometido às almas pecadoras, povoado de famílias de camponeses e comerciantes destruídas por incestos, tudo isso adormecido sob um regime político ditatorial. Tendo como exemplo os homens a sua volta, as quatro estão profundamente desajustadas à modernidade que acaba de irromper, ao mesmo tempo que os militares revolucionários voltam da África em um certo 25 de abril, o que, evidentemente não justifica nada.

Seja como for, não se sai ileso desta leitura: é próprio da arte impor-se ao mesmo tempo como fonte de admiração, reflexão e emoções intrincadamente emaranhadas.


artigo citado do site
Março de 2000

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...