22/04/2007

Da leitora Cristina: «voto de melhoras»

Gostaria de passar o meu voto de melhoras ao nosso grande escritor António Lobo Antunes... amanhã terei o prazer de participar numa homenagem a este grande senhor.

Obrigada

Cristina


Cristina
e-mail de 22.04.2007

21/04/2007

Da leitora Maria Valentina Mendes: «Caro António»

Caro António

Desculpe tratá-lo assim, mas faço-o em nome de um encontro juvenil que tivemos em 1958, do qual certamente se não recorda, e que em mim deixou uma agradável lembrança (50 anos é assim tanto tempo?...). No Carnaval desse ano, fui na companhia do meu irmão mais novo, colega e amigo do seu irmão João no “Camões”, a um “assalto” na vossa casa em Benfica.

Eu, que perdera uns meses antes o meu avô materno, o único que conheci, médico e republicano a quem venerava, e cursava já o 6º ano de História, sentia-me um pouco deslocada, com os meus 16 anos, nessa reunião de jovens “miúdos”. O António, não sei se o mais velho dos rapazes, mas pela certa o mais “adulto” …nos seus 15 anos, aproximou-se de mim, começámos a conversar e assim ficámos durante todo o tempo que a festa durou. Diverti-me imenso com o seu humor irreverente e o estilo um tanto “enfant terrible” !!!

Nunca mais nos voltámos a ver, porém quando publicou o primeiro livro passei a acompanhar a sua actividade de escritor, hoje justamente consagrado como um dos maiores da nossa língua.

Ao ler a “Crónica do Hospital” na “Visão” de 12 do corrente, recordei este pequeno episódio e senti vontade de lhe agradecer a lufada de ar fresco que então trouxe até mim com a sua presença, desejando que, vencida a tempestade, a Primavera traga, não só para os “pardais” mas também para si, um merecido e bem-aventurado futuro!

Bia


Maria Valentina Mendes
e-mail de 21.04.2007

19/04/2007

Da leitora Cristina Machado: «António»

António

Leio-o desde a Memória.... e agora tenho o Ontem não te encontrei ... à cabeceira . Sou viciada nos seus livros e adoro as suas crónicas. Gostava de dizer que estamos todos consigo mas que em algumas fases da nossa vida estamos irremediavelmente sós. Gostava de lhe poder dedicar um poema mas não sou poeta, gostava de lhe dedicar um texto mas não me saem as palavras certas. Obrigada pelos seus livros e estamos todos à espera dos próximos.

Cristina Machado


Cristina Machado
e-mail de 19.04.2007

12/04/2007

Crónica do Hospital


Não quero aqui ninguém. Quero ficar sozinho a medir isto, a minha doença, a minha mortalidade, o meu espanto. Por mais que repetisse – Um dia destes não acreditava que o dia destes chegasse.
E agora, Março de 2007, veio com a brutalidade de uma explosão no peito. Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como e velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé, dúzias de histórias de criaturas que passaram por isso que tu tens agora e estão óptimas. Recuperando aos poucos da anestesia vou dando-me conta de que um bicho horrível em mim, ratando, ratando.
Dois sentimentos opostos
- Vou lutar, não vou lutar
e o primeiro fala antes do outro
– Chamem o Henrique.
Um Grande cirurgião, um colega de curso, um amigo, uma das muito poucas pessoas a quem entregaria sem hesitações o meu corpo. Este texto talvez vá um pouco desconexo, desculpem, ainda estou fraco, a cabeça tem lacunas, falta-me vocabulário, há mais de nove dias que não pegava numa caneta e é dificil reaprender a andar. O meu medo que o Henrique não pudesse. Mas disse a quem lhe fala
- eu vou já lá abaixo
e enquanto me faziam uma TAC vi-o atrás do vidro, sério, a apertar a boca. Depois veio ter comigo
- Opero-te amanhã de manhã
e queria que soubesses, Henrique, a esperança que as tuas palavras me trouxeram. Não só esperança: o que não sei dizer. Ou antes sei mas tenho vergonha. Contento-me em pensar que tu sabes também. Sei que sabes. Basta a maneira de protestares, de mão contrariada
- Não me agradeças, não me agradeças
basta o teu afecto pragmático diante das minhas perguntas
- Uma coisa de cada vez
o modo como me disseste
- Eu trato-te
como diante da minha aflição, aflição sim senhor, deixemo-nos de tretas
- E se houver metástases no fígado?
- Eu tiro-as
e eu tentando pôr-me no teu lugar pensando como deve ser penoso operar um amigo. Um amigo desde os dezoito anos. Em como deve ser penoso, em como deve ter sido penoso para o Henrique trabalhar com uma carga afectiva em cima dele, naquelas circunstâncias.
Mexeu-me todo: tirou a vesícula, tirou o apêndice, até as glândulas seminais andou a ver. Isto há dez dias, onze dias. Escrevo do hospital onde estou, é a primeira vez que uma pessegada destas me sucede.
Magro,magro. Com uma algália ainda: é uma sorte que uma algália ainda, tive mil trezentos e seis tubos a saírem de mim. Espero que na revista entendam a caligrafia tremida da crónica. Suceda o que suceder, uma coisa tenho por certa: isto alterou, de cabo a rabo, a minha vida.
Ignoro em que sentido, ignoro como.
Sei que alterou. Santa Maria. O que farei daqui para a frente, se existir daqui para a frente? Livros, claro, foi para isso que me mandaram para o meio de vós. Quando isto sucedeu lutava com um, tinha outro pronto,já antigo, pronto há um ano e tal, para Outubro. Para dar tempo aos tradutores de o traduzirem e saírem mais ou menos na mesma altura que em Portugal. Esse livro tem a melhor prosa que fiz até hoje, parece recitado por um anjo.
Aquele em que trabalhava é apenas um embrião, cerca de metade do primeiro esboço, falta-lhe quase tudo. A partir de agora, se calhar, falta-lhe tudo.
Voltarei a ele? Uma coisa de cada vez, não é Henrique? Vamos a ver. De uma forma ou outra a gente luta sempre.
Momentos de quase esperança, momentos de desânimo. Não: momentos de muito desânimo, e momentos de desânimo maior, como se me obrigassem a escolher entre o que não vale nada e o que vale ainda menos.
Este mês deram-me um prémio literário. Estão sempre a dar-me prémios e claro que tenho prazer nisso, não sou mentiroso nem hipócrita. Toda a gente foi muito simpática.
e sem que eles sonhassem
(sonhava eu)
o cancro
ratando, ratando, injusto, teimoso, cego. Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não – sim. Por enquanto meço o meu espanto, à medida que nas árvores da cerca uns pardais fazem ninho. A primavera mal começou e eles truca, ninho. Obrigado, Senhor, por haver futuro para alguém.

António Lobo Antunes

(texto e imagem recolhidos da revista Visão)

07/04/2007

Gonçalo Figueiredo Augusto: duas opiniões sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


1.

Li este romance, desculpem, vivi este romance entre agosto e outubro. Arrependo-me de não o ter lido, redesculpem, de não o ter vivido mais cedo, de não ter conhecido mais cedo a Maria Clara, as fantasias dela, as invenções, a inocência na forma de diário, a inveja da irmã

«A sua filha Ana Maria parece uma estrangeira» 
«A Maria Clara é o homem da casa» 

lamento não ter conhecido mais cedo a velha com a boininha ridícula que apostava a fortuna da família no casino, lamento não ter entrado mais cedo na casa do Estoril com as fotografias do senhor general e do Presidente Krüger cobertas de pó nas prateleiras, os pretos e os árabes a invadirem os corredores da casa, a Adelaide a escoltar a 

«Menina»
(a filha da menina
«Senhora»
a mãe da senhora
«Menina»).

Creio que deveria ter entrado mais cedo na casa do Estoril, no diário da Maria Clara, no andar da Leopoldina em Alcoitão, no percurso das camionetas do Murtal, na clínica onde o coração do Luís Filipe desenhava adeuses no ecrã da máquina, no lago onde um menino de barro para a água, tenho pena de só ter conhecido a Maria Clara muito tempo depois das outras pessoas a conhecerem. Gostei da Maria Clara, gostei muito do romance (ou poema, como o António lhe chamou). Recordo o final do último capítulo, ficou escrito na minha mente: «Há momentos na vida em que necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro.» Fechei o livro mas o romance (ou o poema) permaneceu na minha cabeça (ainda lá está), tenho muita pena por não ter lido, desculpem, por não ter vivido o romance (o poema, bolas) há mais tempo. Espero que vão a correr a uma livraria para conhecerem a Maria Clara, vale a pena conhecê-la, vale a pena viver este livro. O título é uma tradução livre de um verso do Dylan Thomas: Do not go gentle into that good night. Traduções à parte, experimentem olhar pela janela do vosso quarto (pelas janelas dentro de vós) e procurem a Maria Clara. Vale a pena conhecê-la. Ela é o homem da casa.

2.

Tinha planeado escrever algo mais simples sobre este livro, mas o livro é demasiado bom para ficar diminuído à minha preguiça. Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura foi publicado em Outubro de 2000 e eu envergonho-me de só o ter lido 4 anos depois. A narrativa é esmagadora e ao mesmo tempo é indizível. Há uma personagem central, Maria Clara, com a qual atravessamos os 35 capítulos do livro, divido em 7 partes – os 7 dias da criação. Maria Clara é uma rapariga ingénua que nada sabe sobre a vida: inveja a irmã Ana Maria, lamenta a distância do pai Luís Filipe, observa a família despedaçada em que se insere, inventa-lhe um passado, inventa-lhe vários passados na tentativa de descobrir os segredos da família guardados num sótão escuro e coberto de pó.

Com Maria Clara somos convidados a entrar na casa do Estoril com as fotografias do senhor general e do Presidente Krüger cobertas de pó nas prateleiras e a partilhar as suas fantasias, as suas invenções, a inocência na forma de diário.

Com Maria Clara vamos conhecer a avó com a boininha ridícula que apostava a fortuna da família no casino, a empregada Adelaide que a escoltava para todo o lado, os pretos e os árabes que invadiam os corredores da casa, o distante pai Luís Filipe que agoniza na clínica onde o seu coração desenha adeuses no ecrã da máquina.

Com Maria Clara vamos conhecer Leopoldina e o andar em Alcoitão, as camionetas do Murtal, os últimos dias do avô cego.

E no meio de tudo Maria Clara descobre o seu corpo, as suas formas, fica estática diante do espelho a observar-se. Maria Clara descobre-se e nós descobrimo-nos também, assistindo ao desmoronar de uma família onde se desconhecem uns aos outros. No final, nas últimas linhas do último capítulo, uma Maria Clara adulta e infeliz confessa-nos: «Há momentos na vida em que necessitamos tanto de um sorriso. À falta de melhor toco-me com o dedo no vidro.»

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura não é com certeza um livro fácil de ler para quem não conhece a escrita de Lobo Antunes – o título é uma tradução livre de um verso de Dylan Thomas: Do not go gentle into that good night – mas fica um conselho: abram a alma entrem no livro com o espanto de quem se olha a um espelho e percebe já não ser o mesmo.


por Gonçalo Figueiredo Augusto

1. 04.12.2004

2. 20.06.2006

04/02/2007

Manuel Barata disserta sobre O Manual dos Inquisidores


O Manual dos Inquisidores ou as misérias do estado novo

O MANUAL DOS INQUISIDORES, de António Lobo Antunes, é um romance que surpreende pela quantidade inusitada de narradores. Constituído por vinte e nove capítulos, a que o autor ora chama “comentário”(14) ora “relato” (15), sendo cada comentador e cada relator um narrador. As reincidências ocorrem nos chamados relatos: João (3), Titina (3), Paula (3), Milá (3) e Francisco (3). No tocante a comentários, não há reincidências. Os relatores antes enumerados são o filho (de Francisco e Isabel, a legítima), a governanta, a filha (de Francisco e da cozinheira), a amante de Francisco e o próprio Dr. Francisco. Toda a narrativa gira, por conseguinte, à volta deste Dr. Francisco, um prócere do chamado salazarismo e das pessoas que lhe estão mais próximas A inclusão de Titina no grupo dos relatores, compreende-se pelo facto de ela ser muito mais que uma mera governanta. D. Albertina é, com efeito, aquela que preenche o lugar deixado vago por Isabel, prodigalizando afecto ao filho e ao pai. Nomeadamente àquele, que ela considera seu filho. A inclusão de D. Albertina na categoria dos relatores, explica a exclusão de Isabel.

As narrativas com vários narradores não constituem novidade. Já nos finais do séc. XVIII, Choderlos de Laclos, nas suas celebérrimas Les Liaisons Dangereuses (1781), embora usando o género epistolar, construiu uma longa narrativa, na qual os autores de cartas também são muitos, mas sobressaindo largamente os protagonistas, Valmont e Marteuil. Em GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS, João de Melo, autor coetâneo de António Lobo Antunes, institui uma quantidade notável de narradores, para nos dar, igualmente, uma extensa e bela obra de ficção narrativa. Estes são, todavia, apenas dois exemplos que me ocorrem enquanto escrevo.

Esta polifonia extremada, que é indubitavelmente importante sob o ponto de vista técnico-narrativo, que os universitários tanto apreciam, é-o ainda mais no que concerne à matéria narrada e a uma relação que se me afigura óbvia: história/História. Neste romance do autor de A MORTE DE CARLOS GARDEL são narradas, em simultâneo, duas histórias: a do Dr. Francisco, que fora director-geral da Pide e depois ministro do Dr. Salazar, que há-de ficar a ser ministro toda a vida, como se ser ou ter sido ministro de Salazar fosse um cargo ou título para o resto da vida; a do país, governado por Salazar, primeiro, e por Marcelo Caetano, depois, onde pontificavam aventesmas como esta personagem desta ficção antunesiana

Ainda relativamente ao mais alto cargo que terá desempenhado, a questão não é completamente esclarecida. A mãe de Sofia, numa daquelas inúmeras analepses, fala, com ironia, do tempo em que teria sido secretário de Estado; porém, os empregados do próprio e os funcionários do Estado com os quais se relaciona, nomeadamente o major, tratam-no sempre por ministro. Esta ambiguidade remete-nos para a forma anormal como o poder de Estado era exercido, onde tudo gravitava à volta do Príncipe e do seu círculo de amigos, sendo pouco relevante o cargo. No reino do puro arbítrio, este Dr. Francisco mandava espancar, metia e tirava pessoas da prisão e podia enviar para Cabo Verde, quem lhe aprouvesse.

Numa narrativa com tantas vozes e personagens, convém desde já deixar esclarecido que todos os relatores são personagens principais. Seguindo a ordem do texto: João, Titina, Paula, Milá e o próprio Dr. Francisco. Esta personagem, sempre presente ao longo dos relatos e comentários, é a primeira das principais e aquela à volta da qual se estrutura toda a intriga. Isabel também poderia ser incluída neste grupo de personagens; porém, o autor tê-la-á excluído pelas razões já aduzidas. Abandonou Francisco e o filho, trocando-os por Pedro, este, que, mais tarde, há-de ser o responsável pela destruição do casamento de João e pelo desaparecimento da quinta de Palmela. O comportamento adúltero de Isabel, que nunca quis responder à pergunta sacramental deste romance de António Lobo Antunes “Tu gostas de mim não gostas Isabel?”, há-de ter repercussões na vida de Francisco e das mulheres da quinta (a cozinheira e Odete), de Paula e de Milá, nomeadamente. Em suma, Isabel, para quem gostar ou não gostar não tinha qualquer significado, é a grande responsável pelo comportamento animalesco e louco de Francisco, que nunca conseguiu ultrapassar, num tempo de pensamento único e de princípios muito rígidos, o facto de a mulher o ter traído. É curioso notar também como aquilo que era importante para Francisco, não fazia qualquer sentido para Isabel: gostar.

HISTÓRIA(S)

De uma forma linear, a história deste romance de Lobo Antunes poder-se-ia resumir assim, como se se tratasse de um conto popular. Era uma vez um ministro e amigo de um Príncipe muito importante, que casou com uma senhora chamada Isabel. Levou-a para a sua quinta de Palmela, onde tinha governanta, cozinheira, caseiro, tractorista e outros trabalhadores. Cedo, a dita senhora se fartou da vida da quinta e do senhor da quinta, que começa a enganar com um tratante de nome Pedro, homem poderoso devido aos seus negócios. Do casamento do ministro com D. Isabel nascera entretanto um menino, de nome João, que é criado sem os cuidados da mãe e do pai.
 
A vida do casal, que nunca conhecera momentos de paixão, foi-se deteriorando, deteriorando, até que D. Isabel decidiu sair da quinta, abandonando o marido e o filho de tenra idade. Este cresceu com os cuidados e o afecto da governanta da casa, que se chamava Albertina. O pobre marido enganado pede a intervenção do chefe da polícia secreta do Príncipe, mas é aconselhado a não levantar ondas, porque o amante da senhora era homem de muito poder económico e financeiro e não podia ser molestado. Contrariado, o ministro acata a decisão do Príncipe, que lhe é transmitida pelo chefe da polícia secreta.
 
Daqui em diante assiste-se à degradação moral continuada do senhor da quinta de Palmela, que exerce o seu poder de uma forma despótica, nomeadamente no que concerne à sexualidade, onde predomina a mais pura das animalidades. Convém não esquecer que é o veterinário que assiste aos partos. Da relação do senhor da Quinta com a cozinheira nasce Paula, que é criada em Alcácer do Sal, longe dos progenitores, porque as aparências assim o exigiam.
 
O grotesco Dr. Francisco, no entanto, nunca esquece Isabel. E arranja mesmo uma namorada, a quem põe casa como se dizia então, e tenta que esta seja um duplo de Isabel. Através deste “arranjinho”, demonstra-se não só a arbitrariedade do poder, mas também o modo como se utilizavam abusivamente os meios do Estado, para que uma eminência do regime montasse o seu teatro. Milá chega a vestir roupas de Isabel e acompanha o Ministro a um encontro com Salazar, no forte de S. Julião.
 
Abreviando: o tempo passa e acontece o 25 de Abril. O universo de Francisco vai ruir como um baralho de cartas. Envelhece e é internado num lar, onde acaba por morrer. O casamento de João desfaz-se e a Quinta dá lugar a uma urbanização muito lucrativa para Pedro, o amante de Isabel. Paula ainda tenta ser herdeira de coisa nenhuma e João junta-se com uma empregada do Lar onde está internada D. Titina. Um fim muito triste, como diria, a rematar, o contador popular.

A QUINTA

A quinta é, por sinédoque, Portugal. O Dr. Francisco é o seu dono e nela exerce um poder despótico, que só foi desafiado por Pedro e Isabel. Naquele microcosmo, o proprietário é a Lei e o Direito. É amigo de Salazar e faz na sua propriedade o mesmo que o amigo faz ou permite que se faça no país. Traído pela mulher e impossibilitado de se vingar por razões de Estado, abusa sexualmente das mulheres da quinta, nomeadamente de Odete, a filha do caseiro, que é pouco mais do que uma criança. “Quietinha rapariga” há-de repetir Francisco inúmeras vezes, nos estábulos da quinta e contra as manjedouras. É assim como que um direito de pernada, mas com cheiro a urina e excrementos.

NOTAS FINAIS

A curiosidade maior deste romance do autor de Cus de Judas residirá, em minha opinião, no magistral tratamento do tempo, ou seja, no uso das anacronias, um incessante vaivém entre o presente da narrativa e a memória de cada narrador, que baralham qualquer leitor menos preparado.

As personagens, medíocres pela natureza das coisas, tendo sobrevivido ao grande naufrágio, com um pé no passado e outro no presente, apresentam marcas de profundos traumatismos, que as impossibilitam de compreender o presente. Dir-se-ia que o universo diegético é tão louco e perverso como perverso e louco foi o regime de Oliveira Salazar, que Lobo Antunes caricatura com imensa mestria.
 
Numa nota final, direi que algumas das personagens são totalmente inverosímeis, nomeadamente Titina que, apesar de ser governanta de um político amigo e ajudante do ditador de Santa Comba, não tinha que ser entendida em botânica. Num país de hortênsias, uma criada a falar de hidrângeas, francamente!

POST SCRIPTUM – Esta abordagem, necessariamente incompleta, fica a dever-se a questões extraordinárias da minha vida pessoal. Queria-a mais elaborada e minuciosa, porque considero O MANUAL DOS INQUISIDORES o melhor romance do autor. Porém, como não tenho mais tempo disponível para esta obra, deixo aqui o resultado despretensioso da minha leitura.


por Manuel Barata
12.11.2006

Um autor sem inspiração


Courrier Internacional
Janeiro de 2007


Na sua primeira visita ao México, o escritor explica, em entrevista, que a sua obra resulta  mais do trabalho que das musas. Partilha também a sua opinião sobre a América Latina e a sua literatura.


Com 64 anos, António Lobo Antunes, uma das vozes com maior prestígio e reconhecimento internacional do Portugal contemporâneo, não associa a escrita a uma actividade que lhe cause prazer nem acredita na inspiração.

«Estar com uma mulher dá-me imenso prazer, mas escrever um livro não. Além disso, quando os autores falam de inspiração, não há inspiração nenhuma: faz-se um livro porque se decide começá-lo e levámo-lo até ao fim o melhor que podemos», diz. Assim, para o autor de títulos como A Ordem Natural das CoisasFado AlexandrinoA Morte de Carlos GardelEu Hei-de Amar Uma Pedra e Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, além da sua mais recente obra, Ontem não te vi em Babilónia [todos na Dom Quixote], os primeiros capítulos continuam muito difíceis.

«O prazer começa na segunda metade da obra, quando o livro começa a escrever-se sozinho e a minha mão escreve sozinha, quando o livro me dita o que quer. Mas faço muitas versões dos primeiros capítulos, até me sentir satisfeito. Porque escrevo e penso: "ainda não é isto, ainda não é isto..."», comenta. Escrever é uma coisa que demora toda a vida a aprender e a experiência, assegura Lobo Antunes, é como os flutuadores dos hidroaviões: não servem para nada quando estamos no ar.

«Neste trabalho, não sabemos nada. E então quanto mais escrevemos, mais humildes nos tornamos, porque se trata de um trabalho muito difícil», reconhece. Psiquiatra de formação, iniciou a sua carreira literária em 1979, com a publicação de Memória de Elefante, aos 37 anos. Abandonou a medicina, decidiu entregar-se à actividade literária e, desde então, o seu objectivo tem sido mudar a arte de escrever.

O problema é que há milhares maneiras de o fazer, afirma. «Todos os grandes escritores o fazem, não é verdade? O problema é encontrar a voz exacta. Porque uma pessoa pode escrever o que quiser, mas o livro é um organismo vivo, que tem as suas leis, a sua fisionomia, o seu carácter, um temperamento muito diferente do nosso, e encontrar aquele que é próprio do livro é muito difícil, nos primeiros capítulos», esclarece.

Apesar do que diz, o autor português, um dos favoritos nas listas de nomes que, ano após ano, são elaboradas quando se aproxima a atribuição do Prémio Nobel, já não se imagina afastado da literatura: «A minha vida não tem muito sentido sem a literatura. Há um factor homeostático em tudo isto, e isso é muito importante para a escrita e, em geral, para tudo».

Lobo Antunes nunca tinha estado no México. A visita à Feira Internacional do Livro de Guadalajara [no final de Novembro [2006]] foi o seu primeiro contacto físico com o país, que só conhece através o que viu nos filmes e, sobretudo, através do que leu.

«A literatura mexicana sempre me pareceu muito importante. E os escritores da América Latina fazem parte da minha visa desde os meus 18 ou 20 anos, quando começou o "boom". Conheci alguns escritores, ou melhor, alguns livros, durante a guerra de Angola. Foi assim que conheci Juan Rulfo, Carlos Fuentes e algumas tradições de Octávio Paz», conta.

Só se pode começar um livro quando temos a certeza de que não somos capazes de o escrever, porque, dessa maneira, o livro torna-se numa luta, afirma Lobo Antunes. «Assim, vai-se escrevendo e pensando: "Não vou deixar que um livro me derrote". E trabalhamos, trabalhamos, até que saia bem», acrescenta.

Lobo Antunes nasceu em Lisboa, a 1 de Setembro de 1942. Aos 7 anos decidiu que queria ser escritor, mas, aos 16 , o pai mandou-o para a Faculdade de Medicina. No entanto, nunca deixou de escrever. Quando acabou os estudos, foi obrigado a ingressar no exército português, durante a guerra de Angola, da qual só regressou em 1973. Essa experiência marcou  a sua vida e, sobretudo, a sua obra. A beleza da sua prosa, o pormenor e o rigor com que os seus livros são construídos, bem como as complexas tramas que os suportam, fizeram com que as críticas que lhe são feitas, especializadas ou não, se dividam entre a admiração e o desprezo por aquilo que consideram como afectação e sobranceria.

Perante isto, Lobo Antunes assume um compromisso com os seus leitores, cujo número aumenta ano após ano, e agradece a «fé» que, assegura, nem sempre é partilhada. «Tenho medo de decepcionar as pessoas que tiveram em mim um fé que nunca partilhei. Nunca imaginei que isto viria a acontecer-me: todas essas traduções, todos esses prémios. As pessoas foram sempre muito generosas comigo», diz.

O escritor manifesta a sua gratidão mas, ao mesmo tempo, distancia-se e volta às obras, que considera organismos vivos. «Vamos como cegos, até que o livro começa a ter vida própria, começa a caminhar sozinho, já não precisa de nós, só precisa da nossa mão. Porque, nos grandes momentos do livro, temos a sensação de que no-lo estão a ditar». afirma. E como se poderá explicar essa sensação? «Não é possível racionalizar as emoções, não sei como explicar. Tem a ver com a natureza do livro. É uma questão de trabalho: quanto mais se trabalha, melhor é o livro. Não acredito nos que dizem que a escrita lhes sai com muita facilidades. É preciso trabalhar, não há nenhum segredo».

«A única coisa que faço é escrever e um livro representa dois anos de vida. Escrevo todos os dias, sábados e domingos. Agora, o mais que posso fazer é negociar coma morte: "Deixa-me escrever o meu livro, deixa-me acabá-lo, porque, se o publicam sem estar acabado, não fica bem, é uma merda"», declara o escritor, que um dia garantiu que é muito difícil alguém publicar um bom romance antes dos 40 anos. Continuará a pensar o mesmo? «Diria que antes dos 30. É preciso viver primeiro, porque nós não inventamos nada, caso contrário seríamos ladrões. Pode-se escrever boa poesia aos 18 anos, mas é muito difícil escrever um bom romance antes do 30, porque falamos de nós mesmos, pois todos os livros são autobiografias. Por isso, é preciso viver, viver como homem comum  entre homens comuns. Só um homem comum pode fazer grandes coisas», sustenta.

Os críticos de Lobo Antunes dizem que, depois de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, o seu universo literário se tornou mais denso. «Não sei, porque não li os meus livros. Só os escrevi», explica o escritor. Mas sente alguma mudança no seu processo criativo? «Bem, ao princípio escrevia histórias. Agora não me interessa escrever romances, histórias. Isso não me interessa. O que me interessa é preencher o espaço entre as capas do livro. É tudo. Para começar preciso de uma história, mas depois preciso de a destruir, como uma hiena. O enredo já não me interessa muito, porque estou a trabalhar com coisas anteriores às palavras. É isso que me interessa agora».

Em entrevistas, Lobo Antunes recorda frequentemente que, ao princípio, nenhuma editora queria os seus livros, nem em Portugal, nem noutros países. Mas, quando saiu o seu segundo romance, Os Cus de Judas (1979), recebeu uma carta de Thomas Colchie, na qual este lhe dizia que queria ser o seu agente literário. «Fiquei muito surpreendido, porque ele já tinha muitos autores importantes, como Ernesto Sábato e Guillermo Cabrera Infante», confessa.

Com o tempo tornou-se um autor de renome internacional e recebeu prémios como Jerusalém (2005), o da União Latina Internacional (2003), o Rosalía de Castro (1999) e o France Culture (1996), entre outros. No entanto, para Lobo Antunes, os galardões não são importantes, porque não têm nada que ver com a literatura.

«Ao princípio, receber prémios dava-me prazer e, ao mesmo tempo, inquietava-me. Os prémios são bons porque é muito difícil para quem escreve ser um escritor profissional. Lamento que pessoas com talento tenham de trabalhar noutra profissão e só possam escrever à noite e aos fins-de-semana. Isso aconteceu comigo há 10 ou ou 15 anos, quando me matava, porque escrevia das 11h da noite às 4 da manhã. Escrever requer todo o nosso tempo e é mais importante do que a nossa vida e o nosso trabalho», comenta. Por isso, quando viaja, pede sempre aos seus editores que lhe deixem quatro ou cinco horas por dia para trabalhar. «Se não se trabalhar todos os dias, perde-se a mão. Além disso, conheço escritores que têm muito talento, que escreveram livros muito bons e que, depois, não resistiram às tentações da fama e não lhes resta tempo para trabalhar. Não vou dizer nomes, porque são pessoas que admiro e respeito e alguns até são amigos meus. Uns, inclusive, são latino-americanos, muito conhecidos e tudo, mas já não têm tempo para escrever. Se tivessem arranjado tempo para escrever mais, teriam feito coisas muito melhores», garante Lobo Antunes.

Na sua fotobiografia, publicada há dois anos, figura o testemunho da mãe de Lobo Antunes que afirma: "Desde que o conheço, só houve duas coisas que lhe interessaram  na visa: os livros e as mulheres". E o autor reconhece que existe um lado mundano na literatura, mas que é uma coisa que não tem que ver com a literatura em si. «A tentação é muito grande, as mulheres são muito bonitas, mas é preciso resistir-lhes tanto quanto for possível», afirma.

Respostas directas

Nos seus livros, a infelicidade ou a incapacidade de comunicar a experiência humana são marcas distintivas. Considera-se Lobo Antunes um homem sem esperança?
Não, mas tenho consciência de que faço parte de uma corrente contínua que começou muito antes de mim e que terminará muito depois. Não, não sou um homem sem esperança. Acredito no homem. Não acredito em Bush, mas acredito no homem. Há pouco tempo, li um livro de Carlos Fuentes, Contra Bush [inédito em português], muito inteligente, muito bem feito. Esses livros fazem-se com ideias, mas aquilo que eu faço, aquilo que fazem os escritores, não se faz com ideias. Pedro Páramo [de Rulfo, publicado em português pelas Edições 70 e pala Cavalo de Ferro] não foi escrito com ideias.

Só com palavras.
Sim, só com palavras. É curioso. Pedro Páramo era um livro que eu não compreendia: lia-o e voltava a lê-lo e não o compreendia. Não compreendia que estavam todos mortos, por isso o livro não fazia sentido nenhum para mim. Sentia-me fascinado, mas ficava de fora.

E nunca lhe interessou enveredar pelo terreno das ideias?
Não tenho tempo. Eu só escrevi livros como os que faço. Não escrevi mais nada, nem relatos nem poesia.. Escrevo umas crónicas para os jornais, mas é tudo.

Declarou que faz romances porque não sabe fazer poesia. Teria gostado de ser poeta?
Se tivesse podido escrever poesia, penso que nunca teria tentado escrever prosa. O que acontece, porém, é que toda essa história das definições de géneros cada vez me interessa menos. Quando se começa um livro, é isso que se quer fazer, um livro, um livro total que tenha tudo, poesia, prosa, tudo: a vida.

Porque pensa que subsiste a ideia dos géneros literários?
Porque temos a mania dos rótulos, temos uma necessidade idiota de catalogar as pessoas.

Quais os autores de que Lobo Antunes gosta?
Amos Oz é um amigo, um homem de quem gosto. Apesar de escrever coisas que não têm nada a ver comigo, gosto do homem. é um homem humilde, encantador, foi muito simpático comigo e é um amigo, é um homem que respeito, embora não esteja de acordo com ele. Aborrece-me que tenha apoiado esta última guerra. Fiquei muito surpreendido com a sua posição, mas não falei com ele depois disso. Talvez tenha razões que não conheço.

Quais os outros autores que lhe suscitam empatia?
Gosto de Juan Marsé, porque é um homem com um sentido ético da vida. Gosto de Javier Marías. Estou a falar de escritores de língua  espanhola, mas é sempre possível esquecermo-nos de algum nome. Depois, se um amigo lê isto e não vê o seu nome, diz: "Olha o cabrão esqueceu-se de mim". E há também os escritores de que gosto e que nunca conheci, mas cujos livros foram importantes para mim, como os de Emily Brontë, Tolstoi, Tchekov. Embora, na verdade, cada vez leia menos romances. Não me interessam, porque, quando começo a lê-los, dá-me vontade de os corrigir. De um modo geral, os escritores não me despertam muita curiosidade. Os livros sim, como os de Sánchez Ferlosio, para continuar com os de língua espanhola.

Que acha da língua espanhola?
Gosto muito da definição do espanhol de Cervantes. Cervantes dizia que o espenhol era português com menos Ss (esses). É um idioma muito bom. Na Colômbia, falam um espanhol maravilhoso, muito bonito.

Como vê a América Latina?
É muito importante, é a parte mais importante do mundo.

Porquê?
Porque são pobres, como nós. Quando perguntaram ao treinador porque era tão boa a equipa da Hungria dos anos 50, ele respondeu: "Porque éramos pobres".

Pode explicar isso?
Não é muito difícil de perceber: é porque nestes países acontecem coisas. Em França, por exemplo, não acontece nada e a literatura é muito má. Por outro lado, eu acredito muito na latinidade, cada vez me sinto mais latino. E somos muito diferentes do resto do mundo. Estive há pouco tempo em Estocolmo e somos muito diferentes deles, o nosso trabalho é muito melhor que o deles.

Porquê?
Porque temos uma relação mais conflituosa coma vida, porque temos menos medo das emoções, porque não somos tão bem educados, porque não fazemos cerimónias com a vida, porque a mordemos, porque lhe batemos, porque somos mais intensos. temos uma carnalidade maior. Lá, ninguém toca em nada fisicamente, em nada. Ninguém nos convida para sua casa, comem nos restaurantes, são culturas muito diferentes.

Que vai fazer em seguida, António?
Estou a tentar começar um livro, mas não sei se é um livro ou não. Era o que estava a fazer, quando chegou esta chamada.

Lamento tê-lo interrompido.
Não faz mal.

Que expectativas tem sobre a Feira Internacional do Livro de Guadalajara e sobre o México?
Nunca estive no México, é a primeira vez. Aquilo que vi  do México foram os filmes e, sobretudo, os livros, a literatura mexicana, que sempre me pareceu muito importante. Os escritores da América Latina estiveram presentes na minha vida desde os meus 18 ou 20 anos, quando começou o "boom".  Conheci alguns escritores, ou melhor, alguns livros durante a guerra de Angola. Conheci Juan Rulfo, Carlos Fuentes e algumas traduções de Octavio Paz, mas, de um modo geral, havia muito pouco. Conhecia um pouco da história do México, porque homens como Zapata eram figuras muito importantes para nós, durante a ditadura, porque os víamos, embora isto possa parecer um paradoxo, como figuras da liberdade que não tínhamos. Além disso, as pessoas são muito parecidas, tão latinas como nós e, por isso, afectivamente, sentíamo-nos muito próximos dos mexicanos. Tenho uma prima mexicana, porque está casada com um primo meu, mas e tudo. Estive na Colômbia e na Argentina e fiquei muito impressionado com a generosidade e o calor dos leitores e das pessoas. As pessoas são iguais, quero dizer, a maneira de ser e reagir é muito igual à nossa. E, para mim, além de uma surpresa, isso foi uma alegria muito grande porque me senti em casa.

Há alguma coisa especial que queira partilhar com os seus leitores mexicanos?
Não sei o que vou dizer. Nunca sei o que vou dizer antes de começar a falar, nunca preparo nada. Nunca escrevo nada. A única vez que escrevi qualquer coisa foi quando me atribuíram o Prémio Jerusalém e fi-lo porque tinha de ser publicado. Mas nunca escrevo nada. Falo como me sai. No momento.


citado do Courrier Internacional
artigo de Jaime Reyes Rodriguez
Janeiro de 2007

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

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