27/01/2007

almaro: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Curiosamente (e ironicamente, uma vez que são autores que nutrem antipatias mutuas) a empatia para com António Lobo Antunes foi idêntica com a que tive com Saramago. O primeiro livro que me ofereceram de Saramago foi o “Ano da Morte de Ricardo Reis”, […]. Não o consegui ler, julgo que na altura não passei da primeira página, e quando assim é, quando me arrasto nas letras, perdido nas frases, esqueço o livro […]. Lembro-me que na altura o coloquei na prateleira, algures junto aos livros não prioritários, que para se ler um livro é preciso afinidade, e na altura não estava afim. Não me recordo como o livro saiu da prateleira e viajou para a mala de trabalho, que nessa altura viajava muito. Fiquei de tal maneira preso às páginas de Saramago que dei comigo a ter pena de as virar e ficava a saboreá-las como quem degusta um vinho do Porto velho de xistos e de sol. Com António Lobo Antunes o processo foi idêntico, mas levou mais tempo a entrar no seu universo literário, culpa minha que tentei ler livros da sua ultima fase ( que farei quando tudo arde?) sem passar pelas notáveis fases intermédias.

“Ontem não te vi em Babilónia” acaba por ter sido o primeiro livro que li desta sua última fase, (que segundo o próprio deveria ter sido única), por inteiro, com o prazer de ler e de me deixar ir no movimento da caneta e da insónia relatada a várias vozes, com diversos sentires.

Na verdade não é um romance, ou melhor, não é um romance na sua forma tradicional de contar uma história e essa história ter personagens que a vivem. Neste livro o processo foi ao contrário, é o livro que cria as personagens. O livro é na verdade o cenário (protagonista) principal, que se escreve na noite e que vive na noite. As personagens escrevem-se, as personagens são a ponta da caneta, a insónia é a do autor, que provavelmente incomodado com o latir de cães desacordou no livro, a na necessidade do livro. Uma insónia (sabe quem a já teve), alonga o tempo, tudo se arrasta numa lentidão como quem gira á volta de um vazio. “Ontem não te vi na Babilónia” gira à volta de uma criança que se pendura em corda de enforcado numa macieira e deixa em repouso (caída, morta) uma boneca na relva, que a mãe corta doentiamente. As personagens têm o ritmo, a insónia permite e repetem-se numa lengalenga que nos envolve (vezes, em angustia) de tal forma que sentimos o tempo nas páginas que se lêem com o prazer de descobrir o António e a sua mestria de traçar imagens literárias únicas. O livro nasce já com morte anunciada (que sabemos no fim que anunciada hora e tudo).

(cinco da manhã e acabou-se, a única coisa que me dizem é que: cinco da manhã e acabou-se sem que eu compreenda o que se acabou, contem-me, cinco da manhã e então, no caso de não precisarem de mim, posso dormir, não posso?)

desabafa a personagem…

Sabe-se que é um livro que só tem uma noite, e as personagens também o sabem e apressam-se a partir das quatro da manhã (aliás, o capitulo mais conseguido do livro-romance) a acelerar a sua própria escrita. É um livro que se constrói, como se as personagens escorregassem na tinta e tomassem forma (como fantasmas das páginas).

-Não se vai embora você?
impaciente comigo, o seu livro quase no fim visto que dia, guarde os papéis, a caneta e levante as sobrancelhas da mesa onde desenha as letras torcido na cadeira, quatro da manhã graças a Deus, quase cinco, acabou-se, na janela diante da sua uma senhora numa cadeira de baloiço que há-de cobri-lo com o xaile, você não imaginando que a morte uma pessoa real, sem mistério a defender-se do frio, o seu nome
- António
ao mesmo, tempo que um barulhinho no vestíbulo, cochichos que o procuram na casa, espreitam o corredor, não o acham, os homens de casaco e gravata junto a si e um martelo, uma pistola, uma lâmina
(quatro horas da manhã graças a Deus, quase cinco)
e não tem importância visto que o seu livro no fim, tantos meses para chegar aqui e duvidando se chegaria de maneira que alegre-se, olhe a janela onde a senhora da cadeira de baloiço
-António

O António (o Antunes, o Próprio) revela-se aqui e ali, como maestro, obrigando as personagens a escrever, aparecendo várias vezes no auge da insónia “(continua a escrever)“ como que obrigando-se à escravatura da escrita, esquecendo-se por vezes que é ele e não a personagem que escreve, relevando ao leitor o seu processo criativo, a forma como experimenta as palavras, como lhes tira o som e a imagem, como as apaga, ou como escrevendo com a pressa de não deixar fugir uma ideia que se sobrepôs à cena, a sobrepõe para não se esquecer dela, para mais tarde a rever e a colocar em sitio certo. Sitio esse que acaba por não ser encontrado ficando tudo como está, para gozo do autor e nosso, que entendemos o seu divertimento e damos connosco a sorrir e a pensar no silêncio (grande sacana, a gozar comigo!)

Há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo mas pesa, sente-se dentro o
(ia escrever incómodo e não incómodo conforme não incómodo conforme não tristeza, não dor, como se traduz isto, não sei)
deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa

De tudo ficou-me gravada a imagem do silêncio, escrita desta forma que só Lobo Antunes consegue:

Isto porque no outono ninguém consegue dormir, vamo-nos tornando amarelos da cor do mundo que principia em setembro debaixo do mundo vermelho, o silêncio deixa de afirmar, escuta, demora-se nos objectos insignificantes, não em arcas e armários, em bibelots, cofrezinhos, não somos a gente a ouvi-lo, é ele a ouvir-nos a nós, esconde-se na nossa mão que se fecha, numa dobra de tecido, nas gavetas onde nada cabe salvo alfinetes, botões, pensamos
- Vou tirar o silêncio dali
e ao abrir as gavetas o outono no lugar do silêncio e o amarelo a tingir-nos, as janelas soltas da fachada vão tombar e não tombam, deslizam um centímetro ou dois e permanecem, na rua os gestos distraídos da noite transformam-se num fragmento de muralha ou na doente que faleceu hoje no hospital abraçada à irmã de chapelinho de pena quebrada na cabeça, estremeceram em uníssono, a cama ou uma garganta um som qualquer
(como descrevê-lo?)

por almaro
23.11.2006

18/01/2007

Fernando Mendonça: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 125/126 de Julho de 1992 – pp. 296 e 297

O veio da paródia e a sua mais utilizada vertente, a carnavalização, têm ocupado páginas episódicas na literatura portuguesa, geralmente para sublinhar tipos ou lugares de um universo social em que a burguesia, decadente ou ascendente, confessa até onde pode ir a vacuidade das relações humanas. No século passado, Eça parodiou as instituições românticas, e as críticas de Camilo foram o paraíso do sarcasmo. Em tempos mais recentes, podemos seleccionar uma meia dúzia de bem sucedidas realizações, voltadas para obras e figuras que, por razões justas ou injustas, se tornaram alvos favoritos da sátira. Tudo isso, porém, nunca se apresentou como um projecto global de produção.

Mas agora estamos diante de um livro que utiliza, como procedimento incansável de produção, a paródia: trata-se do romance de António Lobo Antunes Tratado das Paixões da Alma.

É conveniente esclarecer que, quando se fala aqui de paródia, é no remoto significado grego da palavra – canto ou discurso paralelo a outro. No caso do romance de Lobo Antunes, assinalamos, além do exercício da paródia, o da sua sofisticada escrava, a carnavalização. A paródia e a carnavalização interpenetram-se ali, porque os acontecimentos parodiados, transpostos de maneira ridícula ou grotesca, utilizam a linguagem paralela que materializa a degradação. Não são só as coisas que constituem a paródia, mas o modo como as coisas se constituem. E assim se vai da paródia à carnavalização. Exemplificando, a partir do título, pode-se dizer que as «paixões da alma», narradas no livro, se mostram fielmente especulares do seu modelo, mas o modo como se exercitam (ou descrevem) é exemplarmente caricatural. No traço caricatural se espelha, com justeza, a realidade do mundo circunstante. Mas o que é que se parodia e carnavaliza neste romance de Lobo Antunes? Faça-se um breve resumo do que acontece no livro.

Num tempo recentíssimo, o Estado precisa de capturar um grupo de terrorista que vinha praticando atentados contra alvos e personalidades importantes. Um dos componentes do grupo é preso e um Juiz de Instrução é escolhido (a dedo) para conduzir o interrogatório do prisioneiro. Acontece que os dois foram amigos de infância e praticamente criados juntos. A partir desta relação Juiz de Instrução/Homem (terrorista) se instaura o universo romanesco, com os protagonistas e os acontecimentos surgindo das reminiscências que inevitavelmente os dois acordam durante os interrogatórios. A infância, a adolescência, a idade adulta se recriam com os seus conflitos, as suas paixões que, agora, aos poucos, vão de novo imperceptivelmente aproximando as duas personagens.

O tempo da acção é breve, mas as ramificações da mesma se tornam múltiplas e complexas, o discurso narrativo flui num movimento pendular constante entre o passado e o presente, produzindo uma narrativa fracturada mas tranquila, apesar das refracções bruscas que obrigam a uma leitura extremamente atenta e memorizada. Nesse ritmo apropriado da leitura jamais se perde o fio da meada e, no momento exacto, tudo se vai revelando e encaixando – os factos, as pessoas, os nomes. Salvo melhor juízo, é uma das mais complexas estruturas narrativas que o romance português produziu nos últimos tempos, mas é igualmente uma das mais sedutoras leituras que um texto moderno nos pode propor. E, apesar da sua modernidade, é um romance que se lê à velha maneira (leitura aliás a que todos os romances aspiram mas nem sempre conseguem), isto é, quando o leitor subitamente se enreda no texto, como se dele participasse, assim se instalando como narratário obrigatório.

Tem-se falado aqui de paródia e carnavalização como principal carpintaria deste romance. Seria interessante dar alguns exemplos dessa prática, ao mesmo tempo cómica e documental. Dois momentos do livro seriam suficientes: quando os terroristas decidem atacar a sede da Polícia Judiciária; quando a Polícia Judiciária resolve atacar os terroristas. A imitação da realidade é insuperavelmente cómica, pelo ridículo e incompetência dos terroristas, dos seus gestos, do seu linguajar, o mesmo acontecendo com os agentes e a tropa que organizam o cerco aos terroristas – a melhor maneira de carnavalizar o cerco foi fazer acreditar aos populares presentes que se tratava de um filme.

Para se dar uma ideia aproximada do que é este romance de Lobo Antunes seria preciso um espaço bem maior do que aquele de que aqui naturalmente se dispõe. É um romance no qual o tempo da narrativa é longo e abrangente, e, se a acção é breve, como se disse atrás, as recorrências onde se instalam todos os intervenientes que, de uma forma ou de outra, fala da história recente (e menos recente) da vida portuguesa, as recorrências, repita-se, são a máquina que produz o universo fundamentalmente inquisitivo do romance.

Sim. Não é só o Homem (terrorista) que é interrogado. É a vida, com as suas paixões, rudimentares ou complexas, que se interroga e questiona. A lição final é a mesma para o Juiz e para o terrorista: ambos serão assassinados pelos órgãos de segurança.

Não é a primeira vez que o Autor se arroga o direito da paródia, mas nunca ela foi tão intensa nem tão relevante a carnavalização como neste Tratado das Paixões da Alma. Mas há algo ainda que é preciso dizer e com certa urgência. António Lobo Antunes acena-nos, neste romance, com uma conclusão, à qual chegamos sem muita dificuldade. Por detrás do rosto da paródia e do seu corolário, desvela-se um outro que não é caricaturável, antes carrega nos olhos e na boca uma notícia tão aforística quanto desoladora, e isso ao longo das centenas de páginas do livro: que quanto mais as coisas mudam, mais são a mesma coisa.


Fernando Mendonça
Colóquio Letras 125/126
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 1992

11/01/2007

Portnoy: opinião de leitura


António Lobo Antunes: Tratado de las pasiones del alma e Qué haré cuando todo arde?

Não se pode resistir à tentação de ler um romance com um título tão maravilhoso:Tratado das Paixões da Alma.

É o meu segundo romance de Lobo Antunes, depois de Que Farei Quando Tudo Arde?. São dez anos de diferença que existem entre a escrita dos dois romances, e a comparação entre si supostamente daria uma clara visão sobre o estilo literário de Lobo Antunes. Porém, dois romances  tão separadas no tempo, e algumas das crónicas do escritor publicadas no Babelia - El País, não implicam demasiado conhecimento da obra de um escritor para se empreender uma crítica séria e tirar conclusões a respeito.

Penso que se tivesse que escolher um autor português para o laurear com o Prémio Nobel, não teria dúvida alguma que, antes da tresnoitada filosofia new-age de Saramago, uma narrativa infestada de conformismo e lugares comuns, viesse a apostar em Lobo Antunes, mais arriscado literariamente e menos comprometido socialmente. De facto, as normas para o Prémio Nobel da Literatura implicam que deve conceder-se "a quem haja produzido no campo da literatura a obra mais destacada, na direcção correcta", o que se mostra bastante ambíguo, ao que se junta "o que suponha uma contribuição notável à sociedade"... mais ambiguidade.

Mas deixemos de lado as minhas fobias pessoais.

Lobo Antunes é um escritor que trabalha especialmente a forma das suas obras. Como afirmou numa entrevista:

«Interessa-me o trabalho com as palavras. As histórias dos meus livros não me interessam nada» (..) «A estrutura, sim; (...). Interessa-me tentar traduzir em palavras o que por definição é intraduzível (as emoções, os impulsos) e estruturá-lo num todo coerente. A intriga não me preocupa; o que procuro é estar mais perto do coração, da vida».

Desta forma, esforçando-se em mostrar ao leitor esse mundo interior de impulsos e emoções, cria os romances nos quais o ritmo temporal está completamente truncado. Se bem que o conjunto da obra, os sucessivos capítulos, mostram uma certa continuidade temporal, mantêm uma evolução da história sobre a linha do tempo, o interior de cada capítulo, estruturado em diversos blocos, mostram um caos temporal fruto da indagação do autor na memória das suas personagens.

Tentar uma sinopse dos seus romances é um trabalho infrutífero: uma sinopse não acrescenta nada a uma literatura em que é primordial o uso de palavras para captar conceitos abstractos. Não obstante, tanto Tratado das Paixões da Alma, como Que Farei Quando tudo Arde? são, apesar do que se possa pensar pelo que acabo de dizer, romances em que o humano está muito acima da técnica narrativa. Lobo Antunes empurra-nos para uma frenética descida às entranhas da mente humana, das paixões mais ocultas e os sentimentos mais recônditos, empregando ara isso um tremendo labirinto de palavras que dispõem frases que dispõem parágrafos que não se enlaçam temporalmente com o seguinte, nem com o anterior. Lobo Antunes exige, é inflexível  literariamente.

A evolução que posso constatar nestes dois romances aponta a uma maior dificuldade tanto na sua composição como na sua leitura: em Que Farei Quando Tudo Arde?, Lobo Antunes desmonta toda a narração ao nível de cada frase, de forma que parece haver uma única voz dominante, diluindo os restantes narradores, diluindo o próprio autor. Nas suas próprias palavras:

«Penso que há somente uma voz que se fragmenta e divide; antes fazia planos detalhados, mas agora parto do nada, de uma ideia vaga, o fio narrativo está para o escritor como a corda para o alpinista, a meta para mim surge de como criar personagens que despertem emoções sem esse fio, vejo-me como uma entidade entre duas instâncias, traduzindo o que as vozes interiores me ditam, já não sei se escrevo ou traduzo mensagens disformes.»

Em Tratado das Paixões da Alma, essa possessão não alcança esses níveis de dissolução. Há uma voz única, a voz de Antunes ou a voz de um narrados omnisciente mas também é um diálogo contínuo entre duas personagens ao longo do tempo, personagens que dialogam com a mesma voz, que são denominados com epítetos relativos à sua profissão (que curioso... como Saramago) e que conversam construindo uma história. No romance de 1990 existe todavia certo interesse no que se conta, na trama narrativa. No de 2001, a trama resolve-se precipitadamente, como que uma obrigação que não interessa ao autor.

Lobo Antunes é um escritor arriscado que pede ao leitor um esforço que talvez nos tempos em que vivemos não estará acostumado. Mas também há que reconhecer que é um escritor irregular: existem fragmentos nos seus romances que se prolongam desnecessariamente, as contínuas repetições em que costuma recriar-se não ajudam a que a narrativa avance fluidamente, conseguindo em certas ocasiões um efeito contrário ao desejado: nessa exploração da alma humana o leitor pode sair enfastiado de tanta mediocridade.

São os seus romances tratados sobre as paixões da alma, tratado literário de lato nível. Talvez não seja o melhor escritor do mundo, mas há que agradecer-lhe o esforço das suas composições titânicas, nas quais sempre encontraremos brilhos de perfeição. Seja como for, há que ler um homem que diz sobre a narrativa contemporânea o seguinte:

«Dá-me a impressão que todos (os livros) são escritos pela mesma pessoa. São histórias bem feitas, no geral, mas a mim não me interessam as histórias bem feitas. Gosto de personagens com densidade. Gosto das pessoas que vivem como que com uma guerra civil interior, pessoas com quem podes ter uma luta, no bom sentido, claro. Gosto das pessoas que esgrimam e deixam seu sangue mesclando-se com o teu como num pacto».

 
Portnoy
21.04.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

06/01/2007

Le Monde Diplomatique (Brasil): sobre Exortação Aos Crocodilos


Um romance sobre a revolução portuguesa

Quando o Prêmio Nobel de Literatura foi atribuído a José Saramago, algumas vozes levantaram-se para lamentar que o júri não tivesse preferido Antonio Lobo Antunes. Sem querer entrar numa polêmica inútil, dada a dificuldade de comparar os méritos dos dois autores, diríamos que seu Exortação aos crocodilos prova mais uma vez que ele é um grande escritor, um daqueles que os séculos contam nos dedos das mãos. O romance é composto de um coro a quatro vozes que intervêm sucessivamente oito vezes, um pouco sob a forma de um padrão: trinta e dois capítulos de uma extraordinária profusão de imagens poéticas, sustentadas por uma escrita de extrema tensão — falou-se a seu respeito de um estilo modelado pelo de Céline  — e por uma construção de impecável rigor, que evoca para o leitor lembranças da música barroca e da pintura cubista.

Emília (que todos chamam de "Mimi" e que é surda), Fátima (afilhada de um bispo lascivo), Celina (preocupada com os primeiros estragos do tempo em sua beleza congelada) e Simone (obesa, mas gostaria de se chamar Cintia) recitam, uma de cada vez, monólogos sobre seus pais, sua juventude perdida, seus maridos, seus amantes, suas preocupações, seus sonhos e lembranças, a morte que as oprime cada vez de mais perto. A própria morte e a morte dos outros, esses comunistas e democratas que seus homens decidiram exterminar acreditando fazer desaparecer a Revolução dos Cravos graças a sua miserável conspiração apoiada por militares espanhóis (Franco ainda estava vivo), pelo embaixador americano e por agentes secretos da África do Sul (Mandela ainda estava preso).

 

Sensível, mas empolgante como um thriller


Esta conjuração realmente existiu, agrupada em torno do general Spínola, e realmente custou a vida de comunistas, democratas e do primeiro ministro Sá Carneiro. A genialidade de Lobo Antunes é falar dela apenas indiretamente, através do envolvimento mais ou menos definido dessas quatro mulheres. Essa mistura de emoções íntimas, de delírios oníricos, de reflexões irônicas ou desiludidas e de cenas de massacres, de torturas e de atentados, coloca de uma forma inteiramente nova uma das questões mais antigas que a humanidade enfrenta: o mal. Nenhuma resposta é proposta, muito menos uma "compreensão" qualquer.

O romance é também um espantoso thriller. Pouco a pouco acreditamos entrever, por meio das lembranças das narradoras, em que trauma profundo se insere a anomia que lhes permite não apenas tolerar como participar de todos esses crimes. As quatro pertencem a uma outra época, à de um Portugal paralisado no passado, aterrorizado pela Igreja e seu inferno prometido às almas pecadoras, povoado de famílias de camponeses e comerciantes destruídas por incestos, tudo isso adormecido sob um regime político ditatorial. Tendo como exemplo os homens a sua volta, as quatro estão profundamente desajustadas à modernidade que acaba de irromper, ao mesmo tempo que os militares revolucionários voltam da África em um certo 25 de abril, o que, evidentemente não justifica nada.

Seja como for, não se sai ileso desta leitura: é próprio da arte impor-se ao mesmo tempo como fonte de admiração, reflexão e emoções intrincadamente emaranhadas.


artigo citado do site
Março de 2000

16/12/2006

Três opiniões sobre A História do Hidroavião

Paulo Ferreira
O deus inteligível

Dizer que António Lobo Antunes é o melhor escritor português (pelo menos vivo) é tão redundante quanto insuficiente. António Lobo Antunes é um deus inteligível cujos evangelhos vão sendo de há uns anos a esta parte divulgados anualmente. Não consta contudo que tenha criado o mundo em 7 dias. Não consta sequer que tenha tirado algum dia para descansar. Na verdade, o homem que não acredita que se possa escrever bons livros antes dos 40 anos, trabalha compulsivamente no seu ofício largas horas do dia. Escreve escreve escreve. E não tem problemas em dizer que no seu ofício, mais do que escritores, existem bois que marram.

Contrariando o que vinha a ser prática, António Lobo Antunes este ano optou por não lançar um romance. O que apresenta é um conto à primeira vista poderá ser catalogado de infantil. Tem uma capa dura e uma fonte grada; um formato que se aproxima do género e ilustrações (lindíssimas, diga-se) impressas no papel couché, da autoria do amigo Vitorino.

Contudo, ao lermos o texto, percebemos que o mesmo atinge jovens e graúdos. É um daqueles livros que se poderá contar (não ler textualmente) ao público mais infantil, mas que os adultos poderão repousar o olhar sem prejuízo de estarem perante um texto escrito para crianças – porque de facto este não é um texto para crianças. O mesmo poderá ser lido tanto aos 8 como aos 40 anos, tirando de cada uma das leituras as interpretações que o entendimento assim o permita e consiga.

É um livro inteligente pois claro, onde Lobo Antunes está presente de corpo e alma, ou de estilo e universo se quiser. Existe África, e Lisboa também está lá, ou vice versa. Existem relações humanas à flor da pele e as memórias do médico que esteve no Ultramar, borbulhando intensamente; temos as imagens (únicas) de Lobo Antunes e até as marcas repetitivas de oralidade do autor.

Contando a história de dois amigos vindos de África, (“Como é Lisboa, Artur?”), com a nostalgia daquele continente a morder-lhes a pele, Lisboa é o cenário para evasão de outro mundo que não aquele que fora cadinho de mais de 40 anos de memórias, onde um deles “foi motorista de camião ao serviço dos holandeses dos diamantes”. Comovente o retrato humano dos dois personagens, onde Lisboa serve apenas para retratar a dimensão triste de dois homens arrancados brutalmente do seu útero.

Face ao livro, e não ao que aqui se escreve, sugiro-lhe pois que largue este jornal e corra. Para a livraria mais próxima; não espere pelo local mais confortável para folhear a obra. Abra-a ali mesmo e leia. Traga-o para casa. Aconselha-se releitura e repetição como se de uma oração se tratasse.

Título: A História do Hidroavião
Autor: António Lobo Antunes. Ilustrações de Vitorino
Editora: Publicações Dom Quixote
Nr. Páginas: 30

por Paulo Ferreira
Jornal de Vila Franca
16.11.2005

***


«Uma comovente história de amor e saudade por África e uma estranha viagem de hidroavião sobre Lisboa, ilustrada por um músico, Vitorino. António Lobo Antunes no seu melhor.» (1998) As palavras citadas encontram-se registadas na contracapa de A História do Hidroavião e parecem resumir o núcleo semântico de toda a narrativa. Acrescentaríamos, porém, a essa “história de amor e saudade” a palavra trágica, porque é, de facto, de um retrato profundamente trágico, que redunda numa metáfora de sabor amargo, que se trata.

O tratamento ficcional de problemáticas atinentes à descolonização portuguesa constitui, a nosso ver, um topos da produção literária de António Lobo Antunes. A verdade é que o autor do recém-editado romance Que farei quando tudo arde? escreve, frequentemente, sobre Portugal de um modo pessimista e desencantado, castigando um passado para muitos marcado, de forma indelével, por dissabores, nunca superados. (É o caso, por exemplo, de As Naus, história(s) feita(s) de um pedaço relevante da História de Portugal do séc. XX, por nela se prefigurarem diversos relatos de vidas que partilham o movimento de retorno à Pátria, fruto do processo de descolonização sequente ao 25 de Abril de 1974).

Em A História do Hidroavião, o espaço a partir do qual se equaciona o presente em face do passado é, mais uma vez e à semelhança do que ocorre, por exemplo, na obra As Naus, Lisboa. A centralidade da capital nesta narrativa só pode, no entanto, ser encarada num plano físico, já que o protagonista da diegese - um homem «que tinha chegado de África (...)», após quarenta e sete anos, «... sem mais roupa que a do corpo e sem mais bagagem que um baralho de cartas...» (Antunes, 1998: 2) -, situado em Lisboa, invoca constantemente África, fazendo desta o cerne espacial da história, através de conjunto de viagens sonhadas, interiores e íntimas. Aliás, e em oposição às referências evocativas a Luanda, a imagem de Lisboa que o narrador oferece é a de uma cidade malvada, feia, tétrica, suja e nada hospitaleira. Trata-se, portanto, da recriação de um cenário disfémico, do qual sobressaem barracas, caldos, «cachorros vadios sempre à cata de sobras» (idem, ibidem: 16) e «os pântanos do Tejo» (idem, ibidem: 12).

Misturam-se, assim, dois espaços, Lisboa e Luanda, correspondentes, respectivamente, ao presente e ao passado. E é neste sentido que a uma sobrevivência precária, miserável, real e presente se contrapõem vivências passadas, luminosas e aprazíveis. Por isso, talvez, o protagonista, representante do reverso humano do império Português, pareça não buscar sequer um sentido para a vida, porque a Vida já foi, em África.
A quebrar ligeiramente o desencanto que emana do texto, parece estar o hidroavião. Se, à primeira vista, a sua aparência - «...era um esqueleto de morcego, com a pele de lona, a desfazer-se debaixo da surpresa das gaivotas...» (idem, ibidem: 2) - não ilumina a vida dos retornados habitantes de Cabo Ruivo, no desfecho da narrativa, este meio simbólico acaba por proporcionar a evasão misteriosa do homem, que vivia a jogar cartas, e do seu companheiro cego, que, lapidar e ininterruptamente, indagava: «- Como é Lisboa, Artur?» (idem, ibidem: 7, 8, 9, 12).

Seguindo as palavras de José António Gomes (1997: 81), «Relato de sonhos “por percorrer” e desejos por realizar, de que a imagem do hidroavião abandonado é uma metáfora, o texto de Lobo Antunes detém-se na descrição de um ambiente suburbano, das personagens e seus devaneios, abordando cenas da vida de um grupo de retornados de África, gente dilacerada pelo corte forçado com o passado, com uma terra de excessos e abundância: “- Como é Lisboa, Artur? (...) - Lisboa é esta infelicidade, amigo.”».

A título conclusivo, e tendo em conta a densidade psicológica e/ou a complexidade dramática das personagens, bem como as portas que o desfecho da diegese abre à fantasia - Artur e o Cego parecem ter voado de hidroavião e ter desaparecido em direcção a Luanda -, A História do Hidroavião é, em nosso entender, um conto exemplar, um testemunho vivo de que, para António Lobo Antunes, o que interessa verdadeiramente «são pessoas que tenham uma espessura de vida.» (Antunes, 1994)

por Sara Silva
não datado



***



E se o Lobo aparasse as garras para não arranhar a interpretação dos leitores mais novos? Concebesse uma crónica afiada nas asas, pronta a levantar voo, via sonho, pronta a descolar num leque de leitores, aeródromo, mais extenso? E, na iminência das ilustrações, chamasse outra vez o lápis deste amigo?

Imaginar a pena de António Lobo Antunes num universo de literatura infanto-juvenil (ou para maiores de 10, ou para todos) é, à primeira vista, tão surpreendente como encontrarA história do Hidroavião a espreitar numa prateleira arrumada em preços baixos. As asas de um avião, desenhado pela pureza artística de Vitorino, a acenarem ruidosamente (asas por momentos braços). Leva-me contigo se ainda crês no conceito de voar. E, para sorte do desejo, ainda há muito quem acredite em tal recurso de estilo.
Dizia eu, tão inesperado como encontrá-la – qual anónimo no metro – sem saber de onde vinha, se vinha, porque ia, que existia. Mas esta história, ao contrário dos desconhecidos, vinha, vinha mesmo, existia, vinha para ficar.
E, mesmo assim, por mais penoso e difícil que pareça, a imaginação dorme e acorda na realidade – na inevitabilidade de um texto delicioso.
Em A história de um hidroavião, Lobo Antunes (nota: futuro Prémio Nobel da Literatura) semeia o néctar da lucidez, de como a vida dos cruéis obstáculos pode ser tão bem contada. Raízes de África (haverá raiz mais instintiva na sua prosa?) numa Lisboa demasiado descolorada pela vontade de fuga, de regresso, no direito da árvore voltar à raiz, do homem cego a tactear a luz do útero. Numa Lisboa que nunca pertence a quem não a deseja. E, no caso extremo da personagem cega que ilumina o texto, a quem nem a conseguiu ver.
A história do Hidroavião é uma crónica maior – por (também) ser para os mais pequenos, desconfio. É a síntese implacável da incapacidade humana em adaptar-se (conformar-se) a destinos afastados do coração, da trágica obsessão por nunca desistir, mesmo que tal signifique perder-se no azul, agarrado a um balão de sonho.

Lobo Antunes ajustou a sua sensibilidade às ventoinhas de um hidroavião imprevisível. Vitorino, o indomável cantautor, deu tons, linhas e cor à imprevisibilidade do aparelho. O hidroavião e a sua história são a prova irrefutável de que qualquer carcaça, desde que sonhadora, tem como génese um vírus de voo.

por Sílvio Mendes
não datado

08/12/2006

Sílvio Mendes: opinião sobre A Morte de Carlos Gardel


Espanto, fascínio. Das palavras mais barrigudas, porque compostas por justa-precisão.

É justo que as gaste em elogios às garras do Lobo. Associadas a este António é impossível que se gastem, na verdade. Numa verdade que não se impõe, nem na pretensão de sonhar imposições, de tão humilde que é, a verdade, tanto que nem chega a ser certo que não nos minta a todos. Renovam-se a cada estucada selvagem da pata do escravo literário, escravo livre, mas escravo, linha a linha, descarrilada ou nem por isso, verbo a verbo, na conjugação de espinhos e de lanças.

Espanto e fascínio mas sem doçura. Vida dentro de cabeças que a perdem sem saber. Vida a marcar passo nas árvores de Lisboa, no barco que avança sobre o Tejo, vida que avança sobre o escuro, para a morte, vida que pára, parada até à morte. Não dócil, não doce e, parando, livre. A morte de Carlos Gardel não sei o que é. Porque ele está vivo, como é sabido, os aviões não caem e, se caíssem, não seria para o lado terrestre. A lei da gravidade nasce invertida para os que voam. E, portanto, a morte de Carlos Gardel (o maior cantor de tangos de todos os tempos!) só pode ser isso, uma órfã das coisas que não são.

Entre uma homenagem (disfarçada? assumida? qual homenagem qual quê? o Tejo é uma grande lágrima de um só homem) ao grande cantor da brilhantina no cabelo e uma Lisboa sem pele, uma Lisboa que só vive dentro de cada dor, na esfera do inalcançável sentimento de cada ser humano, estaciona esta obra de António Lobo Antunes. Dito por não saber o que é, ainda não, nunca saberei o que é. Obra inadaptável para qualquer outro formato (impossível filmar o pensamento, impossível cantar a perna que balança, o pedaço de perna nu entre as calças e as meias, enquanto os braços agarram o jornal), onde nada é externo, apesar dos prédios, das árvores, da descrição do Tejo e dos palhaços de porcelana, apesar dos nomes de ruas, das espécies de verdura, tudo é memória, tudo vive dentro. De cada abraço falhado por falta de coragem, de cada canção de Gardel, do Livro.

Por una cabeza, Milonga Sentimental, Lejana Tierra Mial, El dia que me quieras e Melodia de Arrabal – cinco celebrações de alma do mago de Buenos Aires - dão nome e timbre e luz e drama e trovões de demência e ternura e sal e bico de pássaro (não pares de cantar, por favor) aos cinco capítulos. Dentro deles (sempre dentro, nada é externo) há a personagem, esquecida da vida, como um corpo esmagado pela cabeça demasiado pesada, que só encontra o nascer do sol num disco de Gardel (homenagem disfarçada ou assumida?), volume máximo, vizinhos a barafustar com vassouras contra a parede, contra o chão e contra a sanidade. E depois, e antes, e sempre, a morte de um rapaz como epicentro – a morte dos que ficam sem saber viver. O combate das emoções às escuras. Um apaixonado por Gardel e outras tantas que nem tanto. Sempre num discurso de dentro, em primeira pessoa, em várias primeiras pessoas que se cruzam no tempo numa convulsão de memórias e emoções e sensibilidades. Para cada uma, um por do sol diferente. A vida não lhes foi prometida com as mesmas cores. E a morte, a vida, um livro cru, na asfixia das páginas.

«Não estou a ser cruel no livro, estou a dizer como é», afirmava Lobo Antunes ao Público, em Abril de 1994. E esse “dizer como é” fica atravessado na ressaca de querer ler mais. Espanto, fascínio – mas dói.


por Sílvio Mendes
não datado

01/12/2006

Necessito de 200 anos para escrever os livros que tenho dentro


La Jornada, México - entrevista de Ericka Montaño Garfias
26.11.06

foto de Carlos Cisneros, La Jornada

Guadalajara, 25 de Novembro. António Lobo Antunes na primeira pessoa: «Vou contar-te uma coisa: quando tinha 23 anos tinha terminado a universidade, estudei  medicina, e puseram-me numa unidade de pediatria de crianças que estavam a morrer, de doenças terminais. Enamorei-me de um menino de quatro anos doente de cancro que se chamava José Francisco, que era muito bonito, tinha uma alegria de viver incrível mas morreu. Quando num hospital morre um adulto, vêm dois homens com uma maca e levam-no para a morgue coberto com um lençol. Mas este menino era apenas uma criança, veio um homem com um lençol e carregou-o debaixo do braço. Eu estava na porta da enfermaria num corredor grande e vi o homem a levar o menino, e um dos dos seus pés saiu do lençol e ia balançando. Pensei: "escrevo para este pé". Ainda hoje penso que escrevo para aquele pé».

Durante a sua visita à Feira Internacional do Livro de Guadalajara, que também é a sua primeira visita ao país, o escritor português fala em entrevista com La Jornada, umas horas antes da conferência magistral que ofereceu como parte das suas actividades e de uns dias a viajar à Cidade do México para uma palestra no Palacio de Bellas Artes.

Na verdade, disse entre a fumaça do seu cigarro, «sinto-me muito mais António do que Lobo Antunes. Lobo Antunes é um homem muito raro que escreve porque não sabe fazer outra coisa, porque não compreende a vida sem o fazer. A minha vida sem isso acabaria sem sentido, e ao mesmo tempo é muito curioso porque me pagam para fazê-lo. Tive muita sorte de viver do que escrevo porque é algo que não se pode fazer: ou és jornalista ou és médico ou tens outra profissão. Tive muita sorte mas não é segredo, é apenas uma questão de trabalho.

«Fazem-me falta uns 200 anos, porque sentes que tens dentro de ti muitos livros e não vais ter tempo de fazê-los. Isso faz-me sentir indignação, por exemplo, provoca-me indignação que Schubert tivesse morrido com 29 anos, ou que Mozart aos 36. Nunca sabes quando será o dia, se será muito tarde, ou mais cedo. Tudo é tão rápido, tudo se passa com tanta rapidez. A gente diz que depois dos trinta o tempo passa muito rápido, mas isso é porque os adultos têm sempre a mesma vida, saem de casa e todos os dias é o mesmo, por isso a impressão de que tudo passa com mais rapidez, reflecte o autor deLivro de CrónicasFado AlexandrinoOs Cus de Judas e Exortação aos Crocodilos.

Reconhecido no mundo como um dos melhores expoentes da literatura, António Lobo Antunes sublinha que não ficou satisfeito com algum dos seus livros, ainda que o tenham colocado como um dos favoritos para o Prémio Nobel, que por certo não lhe interessa e ao qual classifica como "o mais mediático de todos".

Nunca, disse, pensei em termos de sentir-me satisfeito com o que escrevo. «Dos meus livros, todos e nenhum me deixaram contente. Quando os termino fico contente, mas depois de um ou dois meses começo a pensar que podia tê-lo feito melhor, e então começo um novo livro para fazer melhor do que o anterior.»

Uma das coisas que mais o marcaram, para além da sua experiência na guerra de Angola, foi ter nascido no seio de uma família importante, que tinha uma casa grande num dos dos bairros pobres de Lisboa.

«Nasci numa família importante, e toda a vida a mim e aos meus irmãos tivemos um sentimento de culpa muito grande porque as misturas sociais não se faziam e os meus amigos e mulheres que me interessam, e interessavam, não pertenciam a essa classe social em que nasci. Então sentias-te muito só porque a classe de onde tinhas nascido não te interessava e as outras olhavam-te com desconfiança, mas nunca poderia viver com uma mulher do meio onde nasci, não me interessam. Não são ricas por dentro. O que dizem não me interessa, o que pensam não me interessa.

«Com os homens é igual. O que interessava era essa gente que vivia no bairro, a que te diz que a gente que não tem dinheiro não tem alma, que te dizem coisas de grande profundidade.

«Nós temos tendência a confundir cultura com erudição, ter lido muitos livros, visitado muitos museus, mas cozinhar é uma forma de cultura, saber amar é uma forma de cultura. Então tinha a impressão de que o amor não era quimicamente puro, estava o dinheiro, era uma relação de interesse mútuo».

Preocupa-me a desigualdade social

«Talvez exagere porque há excepções, mas ao mesmo tempo escrevo para gente que não pode ler-me, porque as pessoas que me interessam que me leiam não podem fazê-lo porque, por um lado não têm dinheiro para comprar os meus livros; por outro, não sabem ler, alguns estão mortos e para os mortos penso que é muito mais fácil ler, não sei, não estou seguro.

«Preocupa-me esta desigualdade, que se viva mal em países ricos, que haja uma pequena oligarquia que vive muito bem, porque as pessoas que lêem não são as classes sociais mais altas, esses não lêem nada, as pessoas que lêem é a classe média, a classe média baixa, e que não tem dinheiro para comprar livros porque são muito caros. Vi isso em Portugal e na Colômbia: as pessoas que lhe interessam têm uma fome de livros e não têm dinheiro, isso parece-me muito injusto, porque as pessoas que lhe interessam não têm acesso a bens que por direito lhes deviam pertencer como a beleza, a literatura.

«Uma vez uma velha pobre que não sabia ler disse-me uma frase que nunca esqueci: "quem não tem dinheiro não tem alma". E isso me emocionou até às lágrimas porque é tão verdade. No sítio onde vivo agora, em Portugal, há muitas pessoas que estão vivendo muito mal e não têm alma, vão aos hospitais se estão doentes e vês centenas de pessoas nas urgências e os médicos passam por elas sem olhar, não as tocam, não sorriem, não lhes falam. Se tens dinheiro em meia hora atendem-te, cuidam de ti, se és pobre ficas a esperar, sofrendo. Quando era médico isso me indignava porque as pessoas que sobrem estão sempre sós com o seu sofrimento e estão ali esperando horas e horas, esperam três meses para um médico as veja, e depois o médico passa-lhes um papel para uma especialidade e só lá vão dali a ito meses. Isso sim, é muito mais importante que a literatura».


citado da edição on-line de La Jornada
artigo de Ericka Montaño Garfias
26 Novembro 2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...