08/11/2006

Emissário de um rei desconhecido


Jornal de Letras
Entrevista de Rodrigues da Silva
25.10.2006


"Mais dois, três livros e pararei"


«Quero dar trabalho aos críticos para 500 anos» - diz (citando Joyce) António Lobo Antunes nesta entrevista, na qual prevê parar de escrever daqui a dois ou três livros. Mas, por enquanto, aos 64 anos, ele mantém-se e melhor que nunca. Ontem Não Te Vi Em Babilónia (ed. Dom Quixote) o seu último livro [...] aí está para o provar. O JL já o leu e gostou muito, como aqui damos conta através de um longo artigo de Eunice Cabral, inserto após a entrevista que António Lobo Antunes aproveita para dizer que Portugal não é um país pequeno e periférico, mas central e muito grande.

Sereno, contido e infinitamente menos polémico do que outrora, António Lobo Antunes revela-se aqui um escritor de uma imensa profundidade. Dir-se-ia que fala agora como agora escreve, com - é ele que o diz - o conhecimento que a vida traz. O qual lhe permite acabar um livro de quase 500 páginas com esta frase lapidar: «O que escrevo pode ler-se no escuro». Quanto ao mais, pouco interessa: a entrevista decorreu num fim de tarde, no local onde Lobo Antunes passa os dias a escrever, o inóspito e impessoal armazém de um primo, ali para os lados do Conde Redondo. Eram seis da tarde, uma conversa entre velhos amigos.


Quando combinámos a entrevista, disseste-me que eu precisava de ler este livro mais que uma vez. É assim que gostarias que ele fosse lido pelos leitores?
Tal como os precedentes, penso é que este fica diferente a cada leitura. Como me acontece com os grandes autores de quem gosto. Tenho de ler duas, três, quatro vezes; há sempre muitas coisas que perdemos na primeira leitura.

É verdade. Só à segunda leitura da página 134 é que notei uma das muitas imagens fortíssimas do teu livro. Vou ler-te só um bocadinho: «O silêncio (...) não somos a gente a ouvi-lo, é ele a ouvir-nos a nós, esconde-se na nossa mão que se fecha, numa dobra de tecido, nas gavetas onde nada cabe salvo alfinetes, botões, pensamos "Vou tirar o silêncio dali" e ao abrir as gavetas o outono no lugar do silêncio e o amarelo a tingir-nos, as janelas soltas da fachada vão tombar e não tombam, deslizam um centímetro ou dois e permanecem». Tens razão quando dizes que os grande livros não podem ser lidos uma vez. E este é um grande livro.
Há livros que já li 20 vezes e mais - A Morte de Ivan Illitch, os livros do Conrad... Não vale a pena escreveres se não for para seres o melhor. Isto é válido para qualquer escritor: Tchekov é o melhor, Tolstoi é o melhor, Conrad é o melhor. Por isso me espanta a rapidez com que se escreve e a quantidade de livros que se publicam. A rapidez não propriamente, Stendhal demorou 54 dias com A Cartuxa de Parma. Não é à rapidez que me refiro, mas ao tempo interior. Por vezes necessitas de anos. Neste livro, por exemplo, está a tua vida toda. Ainda agora na Suécia, uma leitora me dizia: «Em todos os seus livros você conta a sua história.» Num certo sentido é verdade: não fazes mais do que contar a tua história, sob ângulos diferentes. E voltar a ela. E voltar a ela. Constantemente.

Ontem não te vi em Babilónia é o título. Mas onde está Babilónia podia estar outro lugar qualquer. Porque este é um livro de desencontros. Toda a gente evoca alguém com quem viveu desencontrado.
Nunca pensei nesses termos. Nem em nenhuns. A única coisa em que pensei foi em fazer o livro; estava tão preocupado com os problemas que, a cada passo, ele levantava...

Como te surgiu o título?
Foi muito difícil. Já tinha acabado o livro e ainda não tinha título. E um dia, estava a passear por um texto do poeta cubano Eliseo Diego, dei com a frase escrita há 5 mil anos, num fragmento de argila. Tive essa felicidade. Como com o título Exortação aos Crocodilos, que apareceu quando estava a ler uma tradução de Octávio Paz. Aliás, o título do livro a seguir a este (já acabado e entregue, deve sair dentro de um ano) encontrei-o no Evangelho segundo São Lucas.

Qual é o título?
O Meu Nome É Legião. Cristo aproxima-se de um homem possuído por muitos demónios e pergunta-lhe: «Como é que te chamas?» Ele responde-lhe «o meu nome é legião», porque há muitos como ele.

Voltemos a Ontem Não Te Vi em Babilónia. Os narradores são espectros e evocam espectros. Pelo que, no final, podemos perguntar se esta vigília da meia-noite às cinco da manhã não foi um sonho. Ou vários.
Para mim não são espectros. São pessoas reais, concretas. Nunca as senti como espectros. Como tem acontecido nos últimos livros, aconteceu-me chorar enquanto escrevia. Começamos por escrever livros autobiográficos, mas acho que estes agora o devem ser muito mais porque me comovem quando os estou a escrever. Portanto, tenho hoje uma partilha minha muito mais intensa com as pessoas que povoam o livro e com a própria escrita. A propósito dos meus livros, fala-se muito de escrita polifónica. Penso que não: é sempre a mesma voz que modula, que muda, que se altera. É uma única voz que habita o livro e tem uma densidade humana muito grande. O princípio de um livro é sempre muito difícil, há sempre falsas partidas, até a voz aparecer. Muitas vezes é uma voz escondida, menos aparente, mas ao mesmo tempo é curioso como eu evoluí. Nunca pensei que, tendo partido da Memória de Elefante [1979], viesse a chegar aqui,. Foi um caminho muito longo, feito com muito trabalho, mas acho que, finalmente, começo a escrever livros parecidos comigo. Desapareceu a personagem que no fundo (e à superfície) era o autor.

Num dos capítulos deste livro contei os adjectivos qualificativos: 30 em 15 páginas. Na Memória de Elefante eram capazes de ser 30 numa página.
Se aparecem 30, 25 estão a mais. Vamos ver se nos próximos livros há menos. Há palavras que foram criadas para não serem ditas, para não serem usadas. Tens de despir os livros de toda a ganga desnecessária, com o sentimento que o tempo te é medido, que cada livro é negociado com a morte.

A morte habita este livro de uma ponta à outra.
Eu digo a minha morte.

Sim, mas eu digo que a morte (desde as mortes de facto às interiores) habita este livro.
As pessoas morrem e ressuscitam. É como se o livro fosse um jogo de espelhos interminável; nunca se sabe onde está a verdade. Estou-me a lembrar de Saint-Beuve, para quem não havia profundidade, havia uma infinidade de superfícies, portanto a possibilidade de poderes jogar com essa infinidade e fazê-las reflectir umas às outras.

Há vários lugares evocados: Estremoz, Évora, Lisboa, Pragal, Vendas Novas, até Luxemburgo. Mas os cenários são irreconhecíveis.
Cada vez mais - espero - os livros vêm de partes tuas que não atinges, nem alcanças. Muitas vezes nem sabes porque as nomeias assim; podiam chamar-se Évora, Lisboa ou outra coisa qualquer. Mas necessitas de nomes que te sirvam de referência, se não perdes-te no teu trabalho. Tirando isso, não precisas de nomes de pessoas e lugares, até porque não estás a contar uma história, estás a tentar contar não a tua vida, mas a nossa vida, na parte de trevas, na humanidade truncada. Dizes que há mortes, mas aquilo que há é uma quantidade de realidades sobrepostas, sempre em movimento. Exactamente como na vida. Quando eu dizia «negociar com a morte», referia-me à minha própria morte e à possibilidade de ela ainda me permitir escrever mais dois ou três livros. Sinto que estou perto do fim, enquanto pessoa que escreve livros. Isso para mim é muito claro.

Porquê?
Começas a sentir isso quando já há pouca sopa no tacho. Mais dois ou três livros e acabou. Mesmo que continue vivo pararei. É uma coisa que encaro sem dramatismo nenhum. Cada vez sou mais humilde porque a gente não sabe nada do que é escrever, mas, agora que dizem que eu trouxe qualquer coisa de único, começo a sentir que é verdade e isso não é prolongável por muito mais tempo. Começo a sentir que atingi aquilo que queria dizer. Ainda não perfeitamente. Espero que melhor no livro a seguir e em mais um ou dois. Três, no máximo, e deixo de escrever. Não sei o que vou fazer, mas acho que chegou.  Terei sempre uma dívida contigo: foste a primeira pessoa que me escreveu aquando da Memória de Elefante, um livro de um desconhecido, um primeiro livro que descobriste por acaso e que não corresponde nada ao que escrevo hoje. Mas foi muito importante para mim e para mais pessoas - espero. Aliás, espanta-me muito que, publicado agora em Espanha, já tenha feito cinco edições. Esse, sim, era romance. Se eu pudesse voltar ao princípio, talvez tivesse começado só a partir de O Esplendor de Portugal [1997, 12º livro do autor].

Neste, a última frase é esta: «Aquilo que escrevo pode ler-se no escuro.»
Sim, porque não estás a ler o livro, mas o teu livro. Ele passou a ser teu. E se estás a ler o teu livro , estás a escrever o teu livro ao lê-lo e, a partir de certa altura, já não precisas de luz, já existe uma tal intimidade entre ti e ti mesmo... Este conhecimento chega tarde - o conhecimento que a vida traz chega sempre tarde. É pena este não me ter chegado quando comecei a publicar, há 25 anos ou 26 anos.

Há 27.
Nessa altura ainda estava cheio de ideias feitas sobre o que deveria ser um livro. Agora tens que deixar que o livro seja o que ele quer ser, independente de ti.

Demoraste quanto tempo a escrever este?
Uma vez perguntaram ao Picasso quanto tempo ele demorara a pintar...

... Conheço a frase.
Não vou repetir a história. Em termos de escrita, demorei cerca de dois anos. A escrever todos os dias, incluindo sábados, domingos, etc., 14, 15 horas. Mais o tempo que estás a dormir. Uma vez perguntei ao Amos Oz quantas horas ele escrevia por dia, a mulher estava presente e respondeu logo: «24». É a única coisa possível. Não podes escrever e fazeres outra coisa. Não se podem fazer bons livros a ser-se jornalista, médico ou o que quer que seja. Estás de tal maneira ocupado com o livro que não tens tempo para mais nada, tens que sacrificar-lhe as outras partes da tua vida. E isto não é voluntário, émalgré toi: o livro existe cada vez mais, cada vez mais. O primeiro terço é muito penoso de escrever: dez, doze versões, até encontrares o tom. Quando o encontras, o livro corre muito rapidamente. Os capítulos iniciais demoram-me doze/treze dias, os finais quatro/cinco.

Neste os narradores não têm nome. Excepto um: Ana Emília.
Para mim, é sempre a mesma voz. Nem sei se é narrador. Tu estás a escrever aquilo que te estão a ditar. O problema é conseguires esse estado, daí que os primeiros capítulos sejam muito arrancados, porque a voz ainda não começou a ditar. Há que esperar que chegue... Com trabalho, paciência, dedicação maníaca e total. O leitor, se for atento, nota que nas primeiras 50/60 páginas ainda estás a tentar encontrar a voz e ainda há coisas que não são só do livro, ainda há impurezas que não têm a ver com ele, mas contigo, com o teu desejo de escrever.

O passado, em especial a infância, está sempre presente em quase todas as evocações dos vários narradores...
Eu queria que todos os tempos estivessem presentes nos meus livros, e não apenas a infância. Também o presente e o futuro. A memória é importante, mas também há memória do futuro e do presente. Tens que ser cada vez mais ambicioso. Só podes começar um livro quando tens a certeza de que não vais ser capaz, porque só então escrever se torna uma luta com o material, e a tua vida se vai estreitando porque estás de tal modo habitado pelo livro, numa relação simbiótica, que formas corpo com ele. E quero do leitor a mesma atitude: que tenha o livro não à frente dos olhos, mas dentro de si.

No tal ler no escuro...
Sim, mas pergunto-me se não haverá uma claridade no meio disso tudo. Se atravessares a tua casa à noite, os grande livros que tens na estante são fosforescentes, consegues vê-los no escuro. A um grande livro (Os Irmão Karamazov, por exemplo) sente-lhes a existência física, nem que seja numa edição pobre. Há ali qualquer coisa que te chama, que faz parte de ti.

Falaste na Memória de Elefante e nas diferenças de então para cá. Mas neste manténs uma das tuas constantes de sempre: o sentimento da perda. Todos os narradores falam disso.
Voltaste a falar em narradores.

Pronto: o narrador multiplicado.
Não lhe chamaria narrador. Nunca pensei nisso. Há perdas e há ganhos. Quero é que tudo isso lá esteja dentro. Não olho para os livros assim. Eu acho... Em última análise é impossível falar de um livro. Estás a dizer de fora e o importante é estar lá dentro. Ao princípio, quando começava um livro tinha um plano detalhado, agora nem plano tenho, fico à espera. Sei que o livro se vai organizar.

Ele organiza-se. Mas estas pessoas sofrem das suas perdas, sentem-se magoadas, injustiçadas. E, curiosamente, todas elas, guardam um segredo. Um segredo que as habita e lhes povoa a solidão.
Isso tem mais a ver connosco do que com o livro. Ele muda consoante o nosso estado de espírito.

Pois, mas isto está lá.
Não sei. Queria que estivesse lá tudo. Escrevi até hoje cerca de 20 livros, não escreverei muitos mais, mas quero deixar uma marca muito intensa. Quero dar trabalho aos críticos para 500 anos, como dizia o Joyce. Se não for assim, não vale a pena. Tenho a sensação que é ainda muito cedo para se compreender o que escrevo. Eu próprio folheio um livro meu e pergunto-me como é que aquilo saiu de mim. O que não se passava em relação aos primeiros livros. Hoje penso: «Eu não escrevo assim tão bem. Eu nunca fui capaz de dizer isto.» Como quando estamos em bicos de pés à procura de coisas em cima dos armários, os livros andam por aí à espera que alguém os escreva. Com o tempo as tuas mãos vão aumentado e a tua capacidade de abarcar também.

Digamos então que não neste teu livro, mas neste meu livro, notei que a mágoa afectiva é muito mais profunda quando o narrador tem a voz de uma mulher.
Não sei, mas o António Lobo Antunes que tu conheces há tantos anos sempre achou que a salvação do Homem estava na Mulher. Quanto ao António Lobo Antunes que escreve os livros não sei o que ele pensa.

Eu não sei o que ele pensa, mas sei que, quando são as mulheres a evocar, a dor é muito mais profunda, as queixas muito mais sofridas, notando-se também um vislumbre daquilo a que poderíamos chamar amor.
Não sei. Sei que o livro foi feito com alegria. Uma vez, sobre o que eu escrevia, o Eduardo Lourenço disse que lhe fazia lembrar o soneto de Pessoa: «Emissário de um rei desconhecido / eu cumpro informes instruções de além.» O Eduardo foi até hoje das pessoas que melhor me leu. Não é o único, claro. Acho até que em Portugal as pessoas estão cada vez mais abertas a estes livros. E há pessoas que têm escrito sobre eles de uma maneira inteligente e sensível. No outro dia li uma entrevista em que o Alberto Manguel dizia que eu levei a ficção para outras zonas, para outras áreas. E acrescentava: «Claro que é difícil ler, mas depois é extremamente compensador porque há uma mistura de inteligência e de poesia». Sinto cada vez mais que a autoria não é minha, aliás penso mesmo que os livros deveriam ser publicados sem nome de autor. Os livros são nossos: O Grande Gatsby pertence-te a ti, O Monte dos Vendavais pertence-te a ti. Foste tu que os escreveste quando os leste.

Já sei que não vais estar de acordo, mas penso que, cada vez mais, uma de duas: ou as tuas crónicas se aproximam dos teus livros, ou os teus livros adoptaram o tom de muitas das tuas crónicas. Há uma semelhança tão grande entre as personagens...
As crónicas são coisas que faço como quem bebe um copo de água.

Já sabia que ias dizer isso. Mas experimenta ler as crónicas como se não as tivesses escrito...
Há uma certa cedência à facilidade. No outro dia fui ler uma e retiraram-me metade do título. Diga-se que só tenho a dizer bem da Visão: têm sido de extraordinária correcção e profissionalismo comigo. Fui ler a crónica - uma em que contava as coisas, as emoções e os sentimentos sem nunca os mencionar, apenas através da tradução dos gestos. Não sei se leste essa.

Leio todas.
Sobre uma mulher que anuncia que está grávida. Foi feita com a mesma rapidez que as outras, e deixou-me muito contente, mas depois lia-a no avião e contentou-me menos. Nunca tinha experimentado aquilo e não vou certamente fazer isso nos livros. Agora estou a tentar começar um (claro que comecei mal, o que fiz vai direito para o lixo), contando as emoções apenas através de factos, de objectos. Mas, como dizem os ingleses, isso não é a minha taça de chá. A minha é outra, é este magma...

Magma que é o mesmo do das crónicas. Já reparaste? Até a estrutura narrativa é muitas vezes semelhante.
Nas crónicas o espaço é muito curto.

Eu disse estrutura narrativa, não tamanho.
Pois, mas nas crónicas tens de ter o trote curto, o espaço é pequeno. Nos livros podes alargar-te e galopar no teu passo. Para mim são dois trabalhos diferentes. Nas crónicas sinto que tenho que ficar à superfície das coisas, não posso descer tanto. Fico-me por pequenos retratos, instantâneos, bocadinhos da vida das pessoas.

Exactamente, mas esses retratos, esses bocadinhos da vida são uma pequena montra de que o livro é a loja.
Há um certo constrangimento nas crónicas. E também tento distrair as pessoas. E sobretudo nunca falar de ninguém. Seria muito fácil usar aquilo para denegrir pessoas.

Mas já tens dito bem. Lembro-me de uma crónica notável sobre o Egito Gonçalves. E de outra sobre o Abelaira.
É evidente. É uma questão de honestidade e de ética. Só falo de pessoas de quem gosto. E às vezes bem vontade tinha de falar de outras coisas, da actualidade, mas acho que não devo. Tenho esse direito enquanto cidadão, não enquanto escritor. Nos livros quero dar a vida toda, nas crónicas... Não sei, não as releio. Só quando as reúno em livro.

O êxito editorial, qual é?
Isso cada vez me preocupa menos.

Já sei: pergunto por curiosidade.
Nunca perguntei, mas os livros vendem bastante mais. Por estranho que te possa parecer.

E as cartas [D'este Viver Aqui Neste Papel Descripto] ?
Não faço ideia. Fizeram uma primeira edição de 50 mil.

Cartas que não incluis na tua bibliografia...
O livro não é meu, nem o li, seria incapaz.

Eu sei, mas quando temos o livro em casa e nos perguntam «de quem é?» que é queres que responda?
Quando escrevia as cartas o que eu queria dizer era «ainda estou vivo». Nesse sentido, é como se as cartas fossem um grito e os livros um comentário a esse grito. E talvez no fundo os livros digam também isto: «Ainda estamos vivos». Por exemplo: todos os anos, vejo o Concerto de Ano Novo, transmitido de Viena pela Eurovisão com música de Strauss. E comove-me às lágrimas porque é uma tal vitória sobre a morte. Há quem diga que Strauss é um compositor superficial, que não se compara com Bach, com Beethoven, etc., mas, caramba, há nele uma tal explosão de vida, uma tal vitória sobre aquilo que é reles, sobre aquilo que é perecível... Quando tocam aquela marcha, começas a perguntar-te, como nos Evangelhos: «Morte, onde está a tua vitória?» E aquilo viverá enquanto houver homens sobre a Terra. E aquilo que tu queres fazer é isso: livros que existam enquanto existirem homens sobre a Terra. Não é importante a tiragem agora (o Stendhal tinha razão), o que será a tiragem daqui a cem anos? Ainda haverá leitores? Há pessoas que publicam maus livros (no meu entender) e dizem: «Pus os portugueses a ler». Isso é mentira: puseram os portugueses a lê-los a eles. Do mesmo modo que eu não ponho os portugueses a ler, ponho alguns portugueses a lerem-me a mim.

Falaste «daqui a cem anos». Creio que, através dos teus livros (e também das crónicas), traças um certo retrato deste país. Um retrato em negativo, como se visto do avesso. Se daqui a 50 anos os historiadores quiserem saber como era Portugal em 2006, talvez recorram a ti como fonte documental.
É possível, mas a minha ambição não é fazer documentos.

A tua ambição não é fazer documentos, mas o que escreves é um documento.
Embora cada vez goste mais de ser português e cada vez vez tenha mais orgulho no meu país. É-me insuportável ouvir dizer «somos um país pequeno e periférico». Para mim Portugal é central e muito grande.

Mas 28% dos portugueses não se importavam de ser espanhóis.
Falo num sentido mais profundo. Somos estas pedras, estas pessoas... Quando volto do estrangeiro, pelas pessoas sei logo qual é o avião que vem para Portugal. Reconheço-as logo e reconheço-me a mim. Foi aqui que nasci, é aqui que quero morrer. No meu país. No nosso país. Durante muito tempo pensei ir viver para o estrangeiro. Hoje seria incapaz. Sinto que pertenço a isto e que isto me pertence também. Neste último mês dei autógrafos em Bruxelas, em Paris, em Estocolmo. É muito melhor dar autógrafos em Lisboa.

Que foste fazer a Estocolmo?
Fui inaugurar um Centro de Estudos Latino-Americanos e ao lançamento da tradução de um livro meu. Fiquei surpreendido: eram centenas de pessoas. Não sabia que havia tanta gente que me lia na Suécia. Tem sido uma surpresa para mim, porque não faço auto-publicidade, não apareço, não vou , as pessoas não me vêem, os prémios vêm e eu não digo nada, aliás que é que os prémios têm a ver com a Literatura? Claro que são agradáveis, sobretudo quando vêm com dinheiro, porque ninguém enriquece a escrever. Aquilo que ganho  dá-me para ter uma vida com dignidade, mais nada. Não dá para ser rico. E mau sinal seria, porque estaria a escrever livros sobre o hoje. Que passará a ser ontem quando for amanhã.

Já reparaste que as tuas personagens são sempre a pobre gente anónima? Nos livros como nas crónicas.
Isso é verdade. As pessoas que mais me interessam são as que pertencem ao que normalmente se chama (não gosto do termo) pequena burguesia. Parecem-me pessoas interiormente muito mais ricas.

Como é que as descobres? Vives fechado neste armazém a escrever...
Elas vêm sozinhas...

Isso é um modo subtil de...
Não é, não. Cresci nos subúrbios, em Benfica, na altura uma zona muito pobre: patiozinhos, pequenas casas, etc. E quando estava no hospital (herdei isso do meu pai) interessavam-me muito mais as pessoas com empregos humildes, porque estava sempre a aprender coisas sobre a vida.

E expressões. Uma utiliza-la várias vezes neste livro. «Derivado de...»
«Derivado a...». Cresci com esse português. Ia de eléctrico para o liceu, andei sempre em escolas públicas e fui-me apercebendo que havia uma riqueza muito maior no interior dessas pessoas. Aliás, quem compra os livros não são as classes altas, é a classe média baixa. E isso é dramático, porque não têm dinheiro e os livros são muito caros. Há pessoas para quem gastar três ou quatro contos num livro faz muita diferença. E há um público muito novo - 17/18/19 anos - sem independência financeira, sem acesso aos livros. Isso passava-se comigo: às vezes ia a pé para o liceu para poder ir aos fins-de-semana aos alfarrabistas, à Barateira. Agora vou sempre a uma livraria...

À de Cascais?
A uma livraria determinada. Descobri coisas maravilhosas, porque as pessoas morrem e os herdeiros vendem os livros. Uma coisa para mim inimaginável, porque não sou capaz de me separar dos livros, mesmo dos de que não gosto.

Não és capaz de te livrar dos livros, mas caminhamos para um mundo em que o livro tende a ser virtual.
Espero que continue a existir enquanto objecto.

Depois, como é que dás autógrafos num livro só existente na Net?
Talvez por isso continue a haver o livro-objecto. Mas há coisas mais alarmantes do que isso. Daqui a 30 anos só haver 150 pessoas que gostam de Ana Karenina.

Com menos de 30 anos, só conheço uma pessoa que tenha lido Guerra e Paz.
Os miúdos lêem mais do que pensamos.

Lembrei-me de Guerra e Paz porque falaste em Ana Karenina.
Espero que as pessoas continuem a ler Tolstoi. E António Lobo Antunes.

No teu caso, acho que vai acontecer o que aconteceu com o Pessoa: quanto mais tarde mais lido serás.
Vamos ver. Dói-me muito ver os autores que nasceram à roda dos anos 20 que já morreram e não vendem nada. Independentemente de gostarmos ou não, era uma geração com 10 ou 15 escritores com dignidade. Vou dizer nomes ao acaso: Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Augusto Abelaira, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca, etc., etc., etc. Agora não há tantos.

Posso acrescentar duas?
Posso juntar uma série deles.

As minhas duas têm a ver com os teu livros, como também com o Tchekov, que citaste há pouco. São a Irene Lisboa e a Maria Judite de Carvalho.
Sim... Conheço-as mal.

Há outra que também vai ser lida cada vez mais: Agustina.
Não sei. Sempre foi uma paixão tua. É uma pessoa de quem só recebi atenções e generosidade e que tem sido para mim excepcional. Custa-me que o Zé Cardoso Pires não venda, que o Carlos Oliveira não venda, que o Aquilino não venda, que o Antero, uma das minhas paixões, e o Cesário não vendam. Custa-me porque são grandes poetas e pessoas que te mostram a ti mesmo. Às vezes falava de  com o Eugénio de Andrade e estávamos ambos de acordo: é o grande livro da nossa literatura. As cartas [de António Nobre] são detestáveis, o homem era detestável, mas o livro é extraordinário. E quando pensas que foi escrito entre os 17 e os 24 anos, ainda com mais admiração ficas. E quando vês as provas todas corrigidas e emendadas... Mas escritores vivos que respeites são muito poucos, dois ou três, não mais. Ora toda essa geração que citei tinha nomes importantes para nós. E que me ajudaram imenso. É evidente que queria chegar mais longe do que eles.

O livro [foi] lançado [...] com a apresentação do José Eduardo Agualusa e do Ricardo Araújo Pereira. Foste tu quem os escolheu?
Fui. Escolhi-os para os homenagear, não a mim. O José Eduardo Agualusa tem tudo para ser um grande escritor, mas é preguiçoso - já lho disse. Ao outro rapaz nunca o vi, mas penso que a escrita dele é revolucionária, traz qualquer coisa de novo. Para além de ter muito talento e de escrever muito bem.

Com eles homenageias também o futuro, porque são ambos bastante mais novos do que tu.
Nisso não pensei. Há poetas de 20 e tal anos que me parecem de qualidade. Prosadores, é mais difícil. É muito difícil escrever-se um grande romance com menos de 30 anos. Aliás um grande livro é uma coisa rara. Por isso é que sinto que não posso ser eu o autor destes livros: são bons demais para o que sou capaz. É alguém que os está a fazer através de mim. Por isso tens de ser humilde perante eles. Às vezes pergunto-me se aquele nome que ali está - António Lobo Antunes - não é uma impostura. Porque ele não é o autor, o autor é essa tal voz, esse tal emissário de que falava o Eduardo Lourenço. Uma vez disse-lhe que, no fundo, o que ele faz é ficção. Àquilo que ele escreve eu chamaria O Arquipélago da Insónia. Mas é difícil falar de um amigo, de uma pessoa por quem tens imenso carinho e muito respeito. E de que tens recebido... Eu acho que tenho sido feliz. Tu lembras-te de, no princípio, toda a gente me atacar? Espero que ainda haja alguns que...

No princípio tu também atacavas. Há 27 anos, aquando da nossa primeira entrevista, só disseste bem do Nuno Bragança e do Luiz Pacheco.
Achava que trazia uma coisa nova e queria dizer isso a toda a gente. Se reparares bem, não há praticamente nada que se publique em Portugal que não tenha a minha marca, inclusive em escritores mais velhos do que eu. Isso não se passa só em Portugal, mas uma vez que estamos aqui... A arca não é minha, é dos livros que têm o meu nome. E isso não me traz vaidade, porque tu tens que escrever contra os escritores de quem gostas. Fazes parte de um contínuo que começou muito antes de ti e há-de acabar muito depois. E os escritores de quem mais continuo a gostar são sempre os mesmos: Horácio, Ovídio, Virgílio. São os meus grandes rivais, que queria ultrapassar. Horácio dizia «nem um dia sem uma linha», «o escritor tem que escrever dez horas: duas para escrever e oito para corrigir.» Há poemas babilónicos com 5 mil anos em que o poeta afirma «já está tudo dito, que é que eu vou dizer agora?» Na mesma altura em que descobri este título babilónico, descobri também uma carta de um pai egípcio em que ele dizia ao filho «tens que estudar, se não não serás nada na vida,» Os problemas são sempre os mesmos. E aquilo que tu podes desejar é iluminá-los, dá-los a ver. És uma pessoa que mostra, que vem mostrar e fazer perguntas, e as perguntas contêm em si as respostas, uma pessoa que vem trazer inquietações, medos, alegrias, a vida toda.

Fala-me de O Meu Nome é Legião...
É um grupo de miúdos negros ou mestiços, nascidos em Portugal e que não pertencem a Portugal, nem a África. O livro é sobre um gang desses miúdos que assaltam, roubam, etc. Um gang que a Polícia persegue e que vai tentando matar um a um. Crianças de 12/13/14 anos. Só sai daqui a um ano, provavelmente primeiro noutros países, porque não podes dar mais do que um livro por ano às pessoas.

Em quantos países estás publicado?
Por toda a parte. Ultimamente, assinei contratos para a publicação da obra toda em Taiwan, na China e no Vietname. Isso é uma coisa de que não falo. Às vezes vejo  nos jornais que fulano foi traduzido. Dá-me vontade de rir a vontade que as pessoas têm de dizer que foram traduzidas. Não foste tu, foi o que tu escreveste. Mudei para uma agência que trabalha sobretudo com autores latino-americanos e espanhóis, de de Cármen Ballcells. É onde está o García Márquez, o Vargas Llosa, o Onetti, etc. Embora muito diferentes de mim, são escritores de quem me sinto próximo. Como pessoas, não pelo que escrevem.

Conheces o turco Ohran Pamuk, que ganhou o Nobel?
Nunca tinha ouvido o nome. Queriam que eu ficasse em Estocolmo para comentar. Recusei, porque, da mesma maneira que nunca fiz um comentário a um prémio que me deram, também não comento prémios que não me dão. A Academia Sueca decidiu atribuir-lhe o prémio e está no seu direito de o fazer. Posso estar em acordo ou em desacordo, mas não digo. Nem em privado. Não é importante. O importante é continuares a escrever. Há pouco tempo recebi o Prémio Internacional Latino-Americano de Literatura José Danoso, agora todos os seis meses vem um prémio. Tens que relativizar. Não dar importância a isso. O livro em si é que é importante. E que tenhas ficado contente (contente é impossível), mas em paz com o que fizeste porque ficaste com a consciência que fizeste o melhor que pudeste e se não foste mais longe foi porque não tinhas essa capacidade. Estou a citar o Matisse. E, no entanto, vais ao Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, aquilo não tem janelas, mas os quadros do Matisse são janelas cheias de luz. Através delas podes ver tão longe! Daí que me pareça impossível comparar escritores. Da única vez que fiz parte de um júri não fui capaz de votar. Foi há muitos anos e pedi ao Fernando Assis Pacheco para votar por mim. Detestaria voltar a estar num júri. Primeiro porque a maior parte dos livros não prestam, depois porque a hesitação é sempre enorme. Como escolher entre A Educação Sentimental e Vermelho e Negro? Se os prémios vêm acompanhados de dinheiro é bom. Lembro-me de um prémio que me deram e eu estava reticente em aceitar. A Agustina era presidente do júri e disse-me: «Aceite, filho, porque são não sei quantos euros...» É evidente que o dinheiro é agradável. Não ando a pedir esmola, mas não sou rico. Se fosse rico não trabalhava aqui.

Trabalhavas onde? Sempre trabalhaste em sítios completamente inóspitos. Aquando da entrevista a propósito d'A Morte de Carlos Gardel, entrevistei-te em casa, na Afonso III, tinhas uma mesa, uma cadeira e tudo o mais espalhado pelo chão.
Também é verdade. Em casa escrevo na cozinha. Felizmente os meus pais tinham muito pouco dinheiro, viviam com grande austeridade e isso foi muito bom para mim. Não preciso de muito dinheiro porque não tenho onde gastá-lo. Se quero viajar oferecem-me as viagens, compro alguns livros mas também mos oferecem. Não bebo, não vou a bares, faço uma vida social reduzida, tenho muito poucos amigos.

Há um jovem colega meu que queria que eu escrevesse sobre o teu dia-a-dia. Eu disse-lhe que não dava, porque passas o dia inteiro a escrever, almoças num restaurante que, graças ao Eduardo Prado Coelho, já se sabe onde é...
Depois de aparecer isso no jornal deixei de lá ir almoçar. Almoço sempre em sítios onde possa ter privacidade, sítios baratos, porque gosto.

Ainda vais ao McDonald's?
Não, mas vontade não me falta. Estava com a tensão arterial muito alta, fiz uma dieta, emagreci 15 quilos. Tantos que me disseram que continuasse a fumar, porque a dieta já é um sacrifício horrível. E ainda queria escrever mais dois livros.

Há bocado eram três.
Se forem três melhor, mas não sei se farei mais.

Uma vez disseste-me que, a partir dos 70 anos, ninguém devia escrever. Tens 64, mais três livros a dois anos cada um, bate certo.
Fiz 64 mas não sinto nada isso. Acho a velhice uma ignomínia.

Todos os narradores deste livro falam da idade com mágoa.
É natural. Grande parte do livro foi escrita depois da morte do meu pai. Sabes? Só ficas adulto depois do teu pai morrer, porque deixou de existir a última coisa que existia entre ti e a morte.

Como na guerra, quando rendíamos o pelotão que vinha do mato e avançávamos com o nosso.
Então apercebes-te que és perecível. Os nossos pais defendem-nos da morte: estão entre nós e ela. É evidente que uma relação de qualquer homem com o pai é de uma ambivalência extraordinária, cheia de sentimentos contraditórios.

E há vários pais evocados neste livro.
Sim, com sentimentos muito misturados.  E muitas vezes somos de uma terrível injustiça com os nossos pais. Não temos em atenção o que eles sofreram quando foram filhos. Tenho a noção de que muitas vezes, dentro de mim, fui injusto com o meu pai. Como com muita gente. Mas, tanto quanto é possível, acho que estou em paz com ele. É curioso como, dentro de nós, continuam a mudar as pessoas de quem nós gostámos e que morreram. Não se mantêm estáticas. E as nossas relações com elas vão mudando também. O meu pai, ao aproximar-se da morte, passou a falar muito mais do pai. Tinha 80 e tal anos, e o pai continuava vivo dentro dele. Espero que continuemos vivos dentro dos nossos filhos. Vamos continuar com certeza, mesmo se com sentimentos misturados. As nossas relações com os filhos são muito mais quimicamente puras do que as deles connosco. Só depois de nós morrermos é que começam a olhar para nós de forma mais objectiva.
Eu não li este livro, mas se o lesse olhava-o de maneira mais objectiva, porque já saiu de mim, já morreu para mim, está a viver noutro lado qualquer. E já não precisa de mim. Um livro acabado é isto: um livro que já não precisa de ti para continuar a viver. E, da mesma maneira que a nossa relação com os pais se torna diferente com o tempo, daqui a 20 anos este livro será diferente do que é agora. Só espero que não ganhe rugas depressa.


in Jornal de Letras, nº 941
25.10.2006

05/11/2006

"Tenho a sensação de que ando a negociar com a morte"


Pública (suplemento dominical do jornal Público)
entrevista de Alexandra Lucas Coelho
29 Outubro 2006



Diz de si próprio que está cada vez mais autista, mas acaba por falar do Iraque e de Israel. De elogiar Sócrates, Cavaco, Soares, Ribeiro e Castro. Acha que é óbvio que o Governo é corajoso e os sindicatos são primários. De resto, não tem tempo para o mundo. Acaba de publicar "Ontem não te vi em Babilónia". Tem outro livro pronto. E começou a escrever outro, à volta de um autista.


Ainda não é desta que pode morrer (na última entrevista o PÚBLICO tinha dito que já podia morrer). Deram-lhe uma coisa, é o que ele acha. É o emissário de um rei desconhecido, como no soneto de Pessoa (que, aliás, não é um escritor dos seus). Por isso, ao fim de um mês sem escrever sente-se infiel. Não só ninguém escreve como ele (repete ele, e é verdade), como escreve "cada vez melhor".

A arrogância é um luxo a que António Lobo Antunes se pode dar, como poucos. E dá, com um quê de quem sobretudo se diverte a ver a cara dos outros. Ainda escreve cada vez melhor, podia ele acrescentar. É a cada livro que estende o limite. Não vê muitos para a frente e tem horror à decadência.

Entre o dia em que esta entrevista aconteceu (segunda-feira) e hoje, aconteceram, pelo menos, a sessão de lançamento do novo livro [...], a publicação de uma outra entrevista e a transmissão de outra. Quando propôs esta entrevista à Pública, a editora Dom Quixote disse que o António Lobo Antunes estava com vontade de falar sobre o mundo.


Revista Pública
29.10.2006

03/11/2006

Whisner Fraga: opinião sobre Os Cus de Judas


Provavelmente a culpa seja minha. Culpa não, é muito forte. Inabilidade. Procurei por António Lobo Antunes aqui no Leia livro e nada. Ele deve estar por aí, eu é que não me dou bem com esses mecanismos de busca, vivem me traindo. Alguém já deve ter feito algum comentário sobre o romancista português, mas, vá lá, não tem importância. Sempre há algo a dizer sobre um grande escritor.

A literatura de Antunes é sobretudo a da desilusão. Médico psiquiatra, é dono de uma narrativa intrincada, cheia de reviravoltas, idas e vindas, que deixa o leitor desatento meio perdido. E é um exímio artesão, arquiteta metáforas como ninguém.

António Lobo Antunes é um best seller. Hoje consegue o pão de cada dia por meio de suas palavras, o que causa inveja. Isso, evidentemente, sem fazer muitas concessões, o que dá ainda mais nos nervos de outros escritores e intelectuais. A crítica não é muito boazinha com ele.

Um de seus primeiros livros, "Os cus de Judas", foi o escolhido para ser alvo desta resenha. Porque foi até bem vendido no Brasil, muita gente conhece. Em 1971, Lobo Antunes embarca para a Angola, onde presenciará um cenário de guerra. É daí que nasce Os cus de Judas. O romance aborda a independência angolana, as injustiças, a violência, a condição humana em um conflito em que não há regras e a vida nada representa.

O narrador do romance está em Portugal e relembra, de uma maneira crua e sem rodeios, o que passou em Angola. As marcas de injustiças que transformaram o protagonista do livro em um ser desesperançado.
Vai um trecho da obra para que vocês tenham idéia do que estou falando:

“Às terças e sextas-feiras, uma cabo-verdiana que nunca vi, e com quem comunico por intermédio de mensagens cerimoniosas depositadas no armário da cozinha, repõe os objectos e os móveis na ordem excessivamente geométrica da solidão, a que a falta de pó confere a impessoalidade asséptica de uma sala de pensos, e pendura no arame da varanda a minha monótona roupa de homem que nenhum soutien alegra de sugestões conjugais. De tempos a tempos, mulheres encontradas por acaso no canto de sofá de uma reunião de amigos, como quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno, sobem comigo no elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que conheço já de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidé, onde as grandes efusões se desvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna. Despedimo-nos no vestíbulo trocando números de telefone que imediatamente se esquecem e um beijo desiludido que a falta de bâton torna incolor, e elas evaporam-se da minha vida abandonando no lençol a mancha de clara de ovo que constitui como que o selo branco que certifica o amor acabado: apenas um perfume estranho, a vestir-me os sovacos de odores de cocote, e um traço de base no pescoço descoberto na manhã seguinte durante o hara-kiri sangrento da barba, me garantem a breve passagem real pela minha cama do que cuidava já serem os imprecisos artefactos que a melancolia inventa.”
  
Estão diante de um texto grandioso, nada fácil, mas vale a aventura, o esforço, a luta. A recompensa é um prazer estético indizível e único.


por Wisner Fraga
(Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo)
31.10.2006

01/11/2006

Eunice Cabral: sobre Ontem Não Te Vi Em Babiblónia


Terrenos baldios

Os leitores de António Lobo Antunes já perceberam que, sobretudo desde Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo (2003), o universo ficcional do autor se tornou denso, apesar da aparente simplicidade no registo da linguagem oral, e impenetrável a uma só leitura. Nessa medida, o último romance publicado do autor, Ontem Não Te Vi Em Babilónia, confirma esta última tendência da sua ficção. Um dos trabalhos da interpretação deste romance consiste em perceber o mundo em que o romance como texto literário projecta para fora de si mesmo pelo movimento de autonomia típico da arte. Esta declaração acaba por se juntar àquela noção, bem característica do percurso da literatura do século XX (período no qual ainda nos situamos), que afirma que a obra de arte, de facto, pertence a uma entidade suprapessoal (à própria obra do autor entendida como um macrotexto dotado de autonomia, à crítica, à teoria) e não apenas a uma assinatura, a um nome claramente identificado como sendo o do seu autor. Em suma, não há autor mas textos, assim como não há só texto mas interpretação como parte integrante do mesmo. Apesar de esta ser uma afirmação característica daquele pensamento estético que, aos olhos de muitos dos leitores desta obra, pode parecer «linguagem especializada» de estudioso da literatura ou de crítico, é de notar que o próprio António Lobo Antunes a verbalizou recentemente, de forma semelhante, no tom de desprendimento usado frequentemente por todo o criador de arte: não é verdade que este escritor, numa entrevista dada em Abril de 2006 a Ana Sousa Dias para a RTP 2, disse que sentia que os seus livros eram cada vez menos dele, autor, e que eram escritos por uma mão - a sua, visivelmente - que ia escrevendo um texto que poderia ser considerado de outros? Esta espécie de impessoalidade é uma das realizações efectivas de Ontem Não Te Vi Em Babilónia, revelando-se na atenção ao silêncio, às perturbações da linguagem, à intransmissibilidade da experiência humana.

As falas, neste romance, resistem a um discurso comum e maioritário; dizem, insistentemente, a diferença, sem que esta chegue a ser ou a construir uma ou várias identidades reconhecíveis como tais. Trata-se de uma impessoalidade que vem muito depois de um período (o início da carreira literária deste autor) em que os romances eram fortemente autobiográficos, tingidos por uma «exibição» muito bem conseguida (porque articulada de modo original) de referências constantes à cultura, não apenas portuguesa mas ocidental (escritores, obras literárias, pintores, filmes, actores, figuras icónicas, etc.) e, ainda, de dados de uma contextualização socio-histórica perturbante e, por essa razão, vulneravelmente formulados, trazidos para a literatura portuguesa em primeira mão, actualizando-a, nesse sentido, de forma feliz. A figura central do narrador-protagonista era a de alguém que se encontrava no lado errado da realidade portuguesa, depois da avalanche dos vários desastres que assolaram as masculinidade portuguesa: o retorno da guerra colonial (entretanto, descrita em toda a sua crueza), o divórcio, a estranheza da terra de origem, a deriva por bares e por espaços tornados irreconhecíveis, a noite inabitável, o dia cinzento repartido entre o emprego e áreas em reconstrução difícil de vida, ainda informes, a desolação da pertença a uma geração perdia, o amor transformado em indiferença e em impossibilidade, a ausência de referências e de pontos de apoio num tempo de marcos desgastados.

De facto, uma das razões da notoriedade desta ficção é a capacidade de inovação na verbalização frontal de um mal estar, muito português, ao qual os romances antunianos têm vindo, ao longo de quase três décadas, a dar corpo e fala. Também já conhecíamos a veia burlesca e satírica, medonhamente lúcida dos primeiros romances do autor, que se expande em realizações memoráveis nas obras da década de 90 de Novecentos, em que uma parte da sua pessoa real se jogava ficcionalmente, com muito arrojo, reescrevendo, de modo oblíquo, algumas facetas autobiográficas anteriores. Outros são romances que regressam ao passado português, partindo de um ponto de vista profundamente desencantado mas simultaneamente irónico e paródico. Entretanto, para além da capacidade de inovação constante, não há nenhuma outra semelhança entre o último romance de António Lobo Antunes e, por exemplo, o primeiro, Memória de Elefante(1979). Nesse sentido, este último romance situa-se nos antípodas dos três primeiros publicados nos quais o protagonista, médico perdido no labirinto da vida moderna, dada com justeza como demasiado complexa, formulando a angústia portuguesa desses anos nos termos da constatação espantada e inconformada: «Se calhar é isto a vida.» A deriva individualizada do único narrador revela-se um trajecto  que ambiciona mais do que aquele tempo presente pôde dar e é dito num registo de solidão e de desgraça que se expande nas citações urbanas, modernas e culturalizadas de todo o romance: o amigo é Max Brod, o narrador é Franz Kafka, uma doente mental é Charlotte Brönte.

Nenhum dos tópicos, nenhuma das imagens, apresentados neste último romance, tem sequer uma remota parecença com o que costumamos chamar «cultura». O que é narrado - não por um único narrador, mas vários, sem hierarquia entre si - decorre das vísceras das personagens, numa noite assombrada pelas «verdades»nunca confessadas no que têm de mais cru e vil. As vozes deste último romance respondem que já estamos «perdidos» desde sempre e que é isto mesmo a vida. A única esperança vem do título, que é uma frase enigmática, aliás, sem a mínima relação com o texto do romance: quem diz «ontem não te vi» é alguém que esperava ter visto outra pessoa; teve a expectativa de avistar outra, num determinado lugar. E, ainda por cima, confessa confiantemente essa expectativa, que se malogrou, à outra («ontem não te vi em Babilónia»). Ora, todo o discurso do romance nega qualquer saída positiva, ao inscrever uma incomunicabilidade irremediável: encontramo-nos miseravelmente sós, às voltas com partes de descrições da realidade e de nós mesmos, sem ninguém à nossa espera. Neste último romance, o discurso é o do inferno português, a vida interna sombria e anónima, os seus crimes afectivos, desamorosos, as suas ausências em relação aos outros e a si mesmo. Para contar este inferno, o romance não usa nenhuma referência culturalizada que pudesse servir de caução a tanto sofrimento; apenas surgem, aqui ou ali, referências de passagem ao contexto político passado, cheio de fealdade e de horror (a prisão dos opositores ao regime salazarista, o forte de Peniche, o comunismo percebido como um «crime» por um dos protagonistas). A realidade narrada é feita numa tonalidade viscosa, apresentada em frases e palavras ditas sem premeditação ou consciência da sua significação ou mesmo do seu alvo, pairando num registo fantasmagórico à procura, por vezes, de ecos de uma unidade perdida. A desagregação é uma característica constante no «dizer» de todos os narradores que «entram em cena», fazendo «jorrar» discursivamente a suas vidas, ao sabor de uma noite de insónia e de torpor, entre o estado semi-acordado e o adormecimento, sem que o alívio do sono alguma vez chegue.

Se o leitor desejar tréguas ou uma nesga de esperança, terá que imaginar outras paisagens a partir do título, passando por todos estes terrenos baldios e aceitando, desde já, que esta falta de vínculo entre o romance propriamente dito e o seu «nome» é significativo. De facto, uma das razões de ser da arte é a resistência à comunicação, à mediação que submerge todos os fenómenos na homologação e no nivelamento, é a afirmação intransigente da autonomia da proposta artística. Neste caso, os romances de António Lobo Antunes resistem de um modo ostensivo à tendência dos circuitos da comunicação, a da dissolução dos conteúdos, pela afirmação de um outro tipo de discurso fundado na palavra que institui um mundo do «desinteresse interessado», o estético. A última proposta literária do autor, Ontem Não Te Vi Em Babilónia, resiste a um mundo completamente integrado e homogéneo em que os conteúdos se apresentam como uma mera execução de um programa pré-estabelecido pela representação da identidade e não da diferença. A diferença - encontrada no trabalho de escuta de que é feito, também, o texto literário - faz-se pela discordância, pelo conflito e pela aspiração ao que é árduo e difícil. Face e contra a arte como mercadoria (variável segundo os circuitos pelos quais vai existindo), este romance estabelece uma determinada relação com a sua leitura, a que se dispões a admitir os vazios de significação, o inexprimível. Simples sinal de distinção provocado pela dificuldade real da leitura? Não parece ser assim. O que define uma relação diz respeito ao que não é da ordem da necessidade, ao que não se encontra determinado de fora. Desfazer, deslocar o sentido parecem ser propósitos mais eficazes da obra artística, e que produzem uma experiência que tem efeito no leitor: obra literária e a vida são começo, devir, caminho ainda não trilhado no desconhecido. Desta dificuldade e deste tempo preenchido pela leitura (necessariamente longo), decorrerá, por isso mesmo, um melhor conhecimento do que no humano existe de maninho, de baldio, de selvagem. E a esperança, que este romance cria no leitor que se dispõe a escutar este texto - talvez acabando por se situar na improbabilidade definida pela última frase do romance: «porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro» -, só virá depois do reconhecimento da estranheza do inferno de uma noite habitada por várias vozes narrativas. Qualquer esperança só se vislumbra, sempre, depois do inferno.

A estrutura externa do romance é constituída por seis partes correspondentes à duração de uma noite, desde a meia-noite às cinco horas da manhã, o tempo presente aglutinador de falas de personagens que vão dizendo o seu mundo entre consciência e inconsciência. Nem esta noite se fez para dormir, nem para amar; fez-se para exprimir o ódio, o ressentimento, a desistência, a dor que entorpece qualquer vislumbre de sentimento positivo, numa espécie de duplicação deslocada e extemporânea da existência intra-uterina, pertence ao domínio da mucosidade, de prematuração de que a vida humana é também feita pelo inacabamento de que dá provas constantes. As vozes narrativas procuram, parecendo já desesperar, um sentido de vida que escapa logo que se põe em marcha; daí a necessidade da recorrência, da repetição dos nomes próprios, das designações de parentesco (pai, mãe, filha, avó), de palavras e de frases como gritos de um socorro que nunca virá. As personagens estão ligadas entre si quer por laços familiares, quer por proximidades criadas pela actividade profissional mas nada as vincula umas às outras excepto um isolamento a que nada nem ninguém consegue pôr cobro. Uma doméstica de nome Ana Emília, um ex-polícia da pide, a sua mulher, enfermeira num hospital de província chamada Alice, a irmã daquele são os narradores principais de existências que germinam na maior das sombras, a ausência de esperança. As personagens femininas são as que se aventuram mais ousadamente no domínio do que se convencionou chamar "amor": no presente nocturno, este é recordado através de cenas obsidiantes e recorrentes, sempre portadoras da inércia e da rasura de humanidade. Da falta de «amor», resta, por exemplo, uma mulher baixa, gorda, grisalha, que dá de comer às galinhas, batendo numa lata, a chamá-las ou, então, surge uma das personagens masculinas para quem o «amor» é um rosto desconhecido, projectado no estore, o único ser por quem é capaz de soluçar de amor.


O suicídio de uma rapariga de quinze anos que diz que vai ao quintal enquanto espera que a chamem para jantar, que lança um fio de estendal de roupa numa macieira, que sobe a um escadote que derruba em seguida enforcando-se e que deixa como mensagem final uma boneca sentada na relva é o acontecimento central do romance. Apesar de quase todos os narradores (excepto dois) recordarem pormenores desta cena (são ao todo oito os narradores, relacionando-se entre si), é uma ocorrência inexplicável, que aparece e desaparece nos discursos que a vão rememorando distorcidamente como um conjunto de gestos cristalizados, intensos nas suas trevas enigmáticas, no seu poder negativamente simbólico: é boneca que gira em vez da rapariga, é a mãe da rapariga que a imagina , ainda viva, a regressar do quintal, sentar-se à mesa e jantar; é o pai (cuja paternidade é apenas hipotética) que se lembra do desconforto sentido ao comprar aquela boneca e de a ter oferecido sem convicção. O quintal torna-se, entretanto, o lugar da casa do qual alguns saem, à socapa, sem serem vistos, assumindo-se, não como visitas, mas como gatunos de intimidades. O suicídio é o episódio basilar desta comunidade de participantes involuntários de um serviço fúnebre no qual nenhum conhece o seu lugar ou a extensão da sua contribuição. Este acontecimento traumático cria correspondências nas configurações das várias consciências das personagens do romance, sendo que cada uma delas apresenta dados divergentes do que aconteceu. É, por esta razão, uma ocorrência que desarticula, que amontoa, que desarruma factos, que dá a ver a insensatez do que se empreende na vida, que desune e que «mata» silenciosamente quem a pensa e quem a recorda. Um suicídio é uma transgressão em relação ao mundo humano: é um acto que representa a quebra de um compromisso que a vida estabelece com cada pessoa: continuar a viver, aconteça o que acontecer. O suicida, considerando que «não foi tido nem achado» na celebração desse contrato, rompe com o pacto fundador; ao perpetuar-se na memória do que lhe eram próximos, confere à vida, depois do seu desaparecimento da face da terra, um halo sobrenatural e fantasmagórico que o existir efectivamente tem mas do qual nos esquecemos, um e outro dia. A intensidade emocional que o suicídio lança à sua volta, desagregando a comunidade familiar, fá-la viver uma «travessia do deserto», que é, neste romance, esta noite em que cada personagem se diz, se explica através de um registo de violência. De facto, o que é narrado é da ordem da ferida por sarar, dos acontecimentos percebidos como corpos estranhos, sem que haja a possibilidade de os integrar, elaborando-os. A impessoalidade, referida no início, expões o desespero, não oferecendo soluções de superação: resta a luz indecisa, contudo persistente, do título do romance.


por Eunice Cabral
artigo citado do Jornal de Letras, nº 941
Outubro de 2006

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...