3 de novembro de 2006

Whisner Fraga: opinião sobre Os Cus de Judas


Provavelmente a culpa seja minha. Culpa não, é muito forte. Inabilidade. Procurei por António Lobo Antunes aqui no Leia livro e nada. Ele deve estar por aí, eu é que não me dou bem com esses mecanismos de busca, vivem me traindo. Alguém já deve ter feito algum comentário sobre o romancista português, mas, vá lá, não tem importância. Sempre há algo a dizer sobre um grande escritor.

A literatura de Antunes é sobretudo a da desilusão. Médico psiquiatra, é dono de uma narrativa intrincada, cheia de reviravoltas, idas e vindas, que deixa o leitor desatento meio perdido. E é um exímio artesão, arquiteta metáforas como ninguém.

António Lobo Antunes é um best seller. Hoje consegue o pão de cada dia por meio de suas palavras, o que causa inveja. Isso, evidentemente, sem fazer muitas concessões, o que dá ainda mais nos nervos de outros escritores e intelectuais. A crítica não é muito boazinha com ele.

Um de seus primeiros livros, "Os cus de Judas", foi o escolhido para ser alvo desta resenha. Porque foi até bem vendido no Brasil, muita gente conhece. Em 1971, Lobo Antunes embarca para a Angola, onde presenciará um cenário de guerra. É daí que nasce Os cus de Judas. O romance aborda a independência angolana, as injustiças, a violência, a condição humana em um conflito em que não há regras e a vida nada representa.

O narrador do romance está em Portugal e relembra, de uma maneira crua e sem rodeios, o que passou em Angola. As marcas de injustiças que transformaram o protagonista do livro em um ser desesperançado.
Vai um trecho da obra para que vocês tenham idéia do que estou falando:

“Às terças e sextas-feiras, uma cabo-verdiana que nunca vi, e com quem comunico por intermédio de mensagens cerimoniosas depositadas no armário da cozinha, repõe os objectos e os móveis na ordem excessivamente geométrica da solidão, a que a falta de pó confere a impessoalidade asséptica de uma sala de pensos, e pendura no arame da varanda a minha monótona roupa de homem que nenhum soutien alegra de sugestões conjugais. De tempos a tempos, mulheres encontradas por acaso no canto de sofá de uma reunião de amigos, como quem descobre trocos inesperados no bolso do casaco de Inverno, sobem comigo no elevador para uma rápida imitação do deslumbramento e da ternura de que conheço já de cor os mínimos detalhes, desde o desenvolto uísque inicial ao primeiro soslaio de desejo suficientemente longo para não ser sincero, até o amor acabar no chapinhar do bidé, onde as grandes efusões se desvanecem à custa de sabonete, raiva e água morna. Despedimo-nos no vestíbulo trocando números de telefone que imediatamente se esquecem e um beijo desiludido que a falta de bâton torna incolor, e elas evaporam-se da minha vida abandonando no lençol a mancha de clara de ovo que constitui como que o selo branco que certifica o amor acabado: apenas um perfume estranho, a vestir-me os sovacos de odores de cocote, e um traço de base no pescoço descoberto na manhã seguinte durante o hara-kiri sangrento da barba, me garantem a breve passagem real pela minha cama do que cuidava já serem os imprecisos artefactos que a melancolia inventa.”
  
Estão diante de um texto grandioso, nada fácil, mas vale a aventura, o esforço, a luta. A recompensa é um prazer estético indizível e único.


por Wisner Fraga
(Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo)
31.10.2006

1 de novembro de 2006

Eunice Cabral: sobre Ontem Não Te Vi Em Babiblónia


Terrenos baldios

Os leitores de António Lobo Antunes já perceberam que, sobretudo desde Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo (2003), o universo ficcional do autor se tornou denso, apesar da aparente simplicidade no registo da linguagem oral, e impenetrável a uma só leitura. Nessa medida, o último romance publicado do autor, Ontem Não Te Vi Em Babilónia, confirma esta última tendência da sua ficção. Um dos trabalhos da interpretação deste romance consiste em perceber o mundo em que o romance como texto literário projecta para fora de si mesmo pelo movimento de autonomia típico da arte. Esta declaração acaba por se juntar àquela noção, bem característica do percurso da literatura do século XX (período no qual ainda nos situamos), que afirma que a obra de arte, de facto, pertence a uma entidade suprapessoal (à própria obra do autor entendida como um macrotexto dotado de autonomia, à crítica, à teoria) e não apenas a uma assinatura, a um nome claramente identificado como sendo o do seu autor. Em suma, não há autor mas textos, assim como não há só texto mas interpretação como parte integrante do mesmo. Apesar de esta ser uma afirmação característica daquele pensamento estético que, aos olhos de muitos dos leitores desta obra, pode parecer «linguagem especializada» de estudioso da literatura ou de crítico, é de notar que o próprio António Lobo Antunes a verbalizou recentemente, de forma semelhante, no tom de desprendimento usado frequentemente por todo o criador de arte: não é verdade que este escritor, numa entrevista dada em Abril de 2006 a Ana Sousa Dias para a RTP 2, disse que sentia que os seus livros eram cada vez menos dele, autor, e que eram escritos por uma mão - a sua, visivelmente - que ia escrevendo um texto que poderia ser considerado de outros? Esta espécie de impessoalidade é uma das realizações efectivas de Ontem Não Te Vi Em Babilónia, revelando-se na atenção ao silêncio, às perturbações da linguagem, à intransmissibilidade da experiência humana.

As falas, neste romance, resistem a um discurso comum e maioritário; dizem, insistentemente, a diferença, sem que esta chegue a ser ou a construir uma ou várias identidades reconhecíveis como tais. Trata-se de uma impessoalidade que vem muito depois de um período (o início da carreira literária deste autor) em que os romances eram fortemente autobiográficos, tingidos por uma «exibição» muito bem conseguida (porque articulada de modo original) de referências constantes à cultura, não apenas portuguesa mas ocidental (escritores, obras literárias, pintores, filmes, actores, figuras icónicas, etc.) e, ainda, de dados de uma contextualização socio-histórica perturbante e, por essa razão, vulneravelmente formulados, trazidos para a literatura portuguesa em primeira mão, actualizando-a, nesse sentido, de forma feliz. A figura central do narrador-protagonista era a de alguém que se encontrava no lado errado da realidade portuguesa, depois da avalanche dos vários desastres que assolaram as masculinidade portuguesa: o retorno da guerra colonial (entretanto, descrita em toda a sua crueza), o divórcio, a estranheza da terra de origem, a deriva por bares e por espaços tornados irreconhecíveis, a noite inabitável, o dia cinzento repartido entre o emprego e áreas em reconstrução difícil de vida, ainda informes, a desolação da pertença a uma geração perdia, o amor transformado em indiferença e em impossibilidade, a ausência de referências e de pontos de apoio num tempo de marcos desgastados.

De facto, uma das razões da notoriedade desta ficção é a capacidade de inovação na verbalização frontal de um mal estar, muito português, ao qual os romances antunianos têm vindo, ao longo de quase três décadas, a dar corpo e fala. Também já conhecíamos a veia burlesca e satírica, medonhamente lúcida dos primeiros romances do autor, que se expande em realizações memoráveis nas obras da década de 90 de Novecentos, em que uma parte da sua pessoa real se jogava ficcionalmente, com muito arrojo, reescrevendo, de modo oblíquo, algumas facetas autobiográficas anteriores. Outros são romances que regressam ao passado português, partindo de um ponto de vista profundamente desencantado mas simultaneamente irónico e paródico. Entretanto, para além da capacidade de inovação constante, não há nenhuma outra semelhança entre o último romance de António Lobo Antunes e, por exemplo, o primeiro, Memória de Elefante(1979). Nesse sentido, este último romance situa-se nos antípodas dos três primeiros publicados nos quais o protagonista, médico perdido no labirinto da vida moderna, dada com justeza como demasiado complexa, formulando a angústia portuguesa desses anos nos termos da constatação espantada e inconformada: «Se calhar é isto a vida.» A deriva individualizada do único narrador revela-se um trajecto  que ambiciona mais do que aquele tempo presente pôde dar e é dito num registo de solidão e de desgraça que se expande nas citações urbanas, modernas e culturalizadas de todo o romance: o amigo é Max Brod, o narrador é Franz Kafka, uma doente mental é Charlotte Brönte.

Nenhum dos tópicos, nenhuma das imagens, apresentados neste último romance, tem sequer uma remota parecença com o que costumamos chamar «cultura». O que é narrado - não por um único narrador, mas vários, sem hierarquia entre si - decorre das vísceras das personagens, numa noite assombrada pelas «verdades»nunca confessadas no que têm de mais cru e vil. As vozes deste último romance respondem que já estamos «perdidos» desde sempre e que é isto mesmo a vida. A única esperança vem do título, que é uma frase enigmática, aliás, sem a mínima relação com o texto do romance: quem diz «ontem não te vi» é alguém que esperava ter visto outra pessoa; teve a expectativa de avistar outra, num determinado lugar. E, ainda por cima, confessa confiantemente essa expectativa, que se malogrou, à outra («ontem não te vi em Babilónia»). Ora, todo o discurso do romance nega qualquer saída positiva, ao inscrever uma incomunicabilidade irremediável: encontramo-nos miseravelmente sós, às voltas com partes de descrições da realidade e de nós mesmos, sem ninguém à nossa espera. Neste último romance, o discurso é o do inferno português, a vida interna sombria e anónima, os seus crimes afectivos, desamorosos, as suas ausências em relação aos outros e a si mesmo. Para contar este inferno, o romance não usa nenhuma referência culturalizada que pudesse servir de caução a tanto sofrimento; apenas surgem, aqui ou ali, referências de passagem ao contexto político passado, cheio de fealdade e de horror (a prisão dos opositores ao regime salazarista, o forte de Peniche, o comunismo percebido como um «crime» por um dos protagonistas). A realidade narrada é feita numa tonalidade viscosa, apresentada em frases e palavras ditas sem premeditação ou consciência da sua significação ou mesmo do seu alvo, pairando num registo fantasmagórico à procura, por vezes, de ecos de uma unidade perdida. A desagregação é uma característica constante no «dizer» de todos os narradores que «entram em cena», fazendo «jorrar» discursivamente a suas vidas, ao sabor de uma noite de insónia e de torpor, entre o estado semi-acordado e o adormecimento, sem que o alívio do sono alguma vez chegue.

Se o leitor desejar tréguas ou uma nesga de esperança, terá que imaginar outras paisagens a partir do título, passando por todos estes terrenos baldios e aceitando, desde já, que esta falta de vínculo entre o romance propriamente dito e o seu «nome» é significativo. De facto, uma das razões de ser da arte é a resistência à comunicação, à mediação que submerge todos os fenómenos na homologação e no nivelamento, é a afirmação intransigente da autonomia da proposta artística. Neste caso, os romances de António Lobo Antunes resistem de um modo ostensivo à tendência dos circuitos da comunicação, a da dissolução dos conteúdos, pela afirmação de um outro tipo de discurso fundado na palavra que institui um mundo do «desinteresse interessado», o estético. A última proposta literária do autor, Ontem Não Te Vi Em Babilónia, resiste a um mundo completamente integrado e homogéneo em que os conteúdos se apresentam como uma mera execução de um programa pré-estabelecido pela representação da identidade e não da diferença. A diferença - encontrada no trabalho de escuta de que é feito, também, o texto literário - faz-se pela discordância, pelo conflito e pela aspiração ao que é árduo e difícil. Face e contra a arte como mercadoria (variável segundo os circuitos pelos quais vai existindo), este romance estabelece uma determinada relação com a sua leitura, a que se dispões a admitir os vazios de significação, o inexprimível. Simples sinal de distinção provocado pela dificuldade real da leitura? Não parece ser assim. O que define uma relação diz respeito ao que não é da ordem da necessidade, ao que não se encontra determinado de fora. Desfazer, deslocar o sentido parecem ser propósitos mais eficazes da obra artística, e que produzem uma experiência que tem efeito no leitor: obra literária e a vida são começo, devir, caminho ainda não trilhado no desconhecido. Desta dificuldade e deste tempo preenchido pela leitura (necessariamente longo), decorrerá, por isso mesmo, um melhor conhecimento do que no humano existe de maninho, de baldio, de selvagem. E a esperança, que este romance cria no leitor que se dispõe a escutar este texto - talvez acabando por se situar na improbabilidade definida pela última frase do romance: «porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro» -, só virá depois do reconhecimento da estranheza do inferno de uma noite habitada por várias vozes narrativas. Qualquer esperança só se vislumbra, sempre, depois do inferno.

A estrutura externa do romance é constituída por seis partes correspondentes à duração de uma noite, desde a meia-noite às cinco horas da manhã, o tempo presente aglutinador de falas de personagens que vão dizendo o seu mundo entre consciência e inconsciência. Nem esta noite se fez para dormir, nem para amar; fez-se para exprimir o ódio, o ressentimento, a desistência, a dor que entorpece qualquer vislumbre de sentimento positivo, numa espécie de duplicação deslocada e extemporânea da existência intra-uterina, pertence ao domínio da mucosidade, de prematuração de que a vida humana é também feita pelo inacabamento de que dá provas constantes. As vozes narrativas procuram, parecendo já desesperar, um sentido de vida que escapa logo que se põe em marcha; daí a necessidade da recorrência, da repetição dos nomes próprios, das designações de parentesco (pai, mãe, filha, avó), de palavras e de frases como gritos de um socorro que nunca virá. As personagens estão ligadas entre si quer por laços familiares, quer por proximidades criadas pela actividade profissional mas nada as vincula umas às outras excepto um isolamento a que nada nem ninguém consegue pôr cobro. Uma doméstica de nome Ana Emília, um ex-polícia da pide, a sua mulher, enfermeira num hospital de província chamada Alice, a irmã daquele são os narradores principais de existências que germinam na maior das sombras, a ausência de esperança. As personagens femininas são as que se aventuram mais ousadamente no domínio do que se convencionou chamar "amor": no presente nocturno, este é recordado através de cenas obsidiantes e recorrentes, sempre portadoras da inércia e da rasura de humanidade. Da falta de «amor», resta, por exemplo, uma mulher baixa, gorda, grisalha, que dá de comer às galinhas, batendo numa lata, a chamá-las ou, então, surge uma das personagens masculinas para quem o «amor» é um rosto desconhecido, projectado no estore, o único ser por quem é capaz de soluçar de amor.


O suicídio de uma rapariga de quinze anos que diz que vai ao quintal enquanto espera que a chamem para jantar, que lança um fio de estendal de roupa numa macieira, que sobe a um escadote que derruba em seguida enforcando-se e que deixa como mensagem final uma boneca sentada na relva é o acontecimento central do romance. Apesar de quase todos os narradores (excepto dois) recordarem pormenores desta cena (são ao todo oito os narradores, relacionando-se entre si), é uma ocorrência inexplicável, que aparece e desaparece nos discursos que a vão rememorando distorcidamente como um conjunto de gestos cristalizados, intensos nas suas trevas enigmáticas, no seu poder negativamente simbólico: é boneca que gira em vez da rapariga, é a mãe da rapariga que a imagina , ainda viva, a regressar do quintal, sentar-se à mesa e jantar; é o pai (cuja paternidade é apenas hipotética) que se lembra do desconforto sentido ao comprar aquela boneca e de a ter oferecido sem convicção. O quintal torna-se, entretanto, o lugar da casa do qual alguns saem, à socapa, sem serem vistos, assumindo-se, não como visitas, mas como gatunos de intimidades. O suicídio é o episódio basilar desta comunidade de participantes involuntários de um serviço fúnebre no qual nenhum conhece o seu lugar ou a extensão da sua contribuição. Este acontecimento traumático cria correspondências nas configurações das várias consciências das personagens do romance, sendo que cada uma delas apresenta dados divergentes do que aconteceu. É, por esta razão, uma ocorrência que desarticula, que amontoa, que desarruma factos, que dá a ver a insensatez do que se empreende na vida, que desune e que «mata» silenciosamente quem a pensa e quem a recorda. Um suicídio é uma transgressão em relação ao mundo humano: é um acto que representa a quebra de um compromisso que a vida estabelece com cada pessoa: continuar a viver, aconteça o que acontecer. O suicida, considerando que «não foi tido nem achado» na celebração desse contrato, rompe com o pacto fundador; ao perpetuar-se na memória do que lhe eram próximos, confere à vida, depois do seu desaparecimento da face da terra, um halo sobrenatural e fantasmagórico que o existir efectivamente tem mas do qual nos esquecemos, um e outro dia. A intensidade emocional que o suicídio lança à sua volta, desagregando a comunidade familiar, fá-la viver uma «travessia do deserto», que é, neste romance, esta noite em que cada personagem se diz, se explica através de um registo de violência. De facto, o que é narrado é da ordem da ferida por sarar, dos acontecimentos percebidos como corpos estranhos, sem que haja a possibilidade de os integrar, elaborando-os. A impessoalidade, referida no início, expões o desespero, não oferecendo soluções de superação: resta a luz indecisa, contudo persistente, do título do romance.


por Eunice Cabral
artigo citado do Jornal de Letras, nº 941
Outubro de 2006

27 de outubro de 2006

Da leitora Helena Oliveira: «Obrigado»

Acabei de ver a sua entrevista na RTP e, depois de acabar fiquei com a
sensação de que estaria ali toda a noite a ouvi-lo.

Obrigado:
*Pela sua humildade
*Pela profundidade que põe em cada palavra que sai da sua boca
*Por ser muito bonito por fora mas muito mais bonito por dentro

Helena Oliveira


Helena Oliveira
e-mail de 27.10.2006

22 de outubro de 2006

Isabel Lucas: sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Cabeças que não dormem

O novo livro de Lobo Antunes passa-se numa noite de insónia. Uma torrente de memórias não filtradas de gente ao adormecer.

"Chamo-me António Lobo Antunes, nasci em São Sebastião da Pedreira e ando a escrever um livro." É um dos momentos em que a realidade irrompe pela ficção e acentua a ideia de delírio. É António Lobo Antunes o autor, narrador e personagem no seu último romanceOntem não te vi em Babilónia, o 18º desde a estreia em 1979 com Memória de Elefante. Um Lobo Antunes triplo que dura o tempo desta frase, ainda que o autor se vá sugerindo noutras ao longo das 479 páginas desta ficção que dura uma noite.

É uma frase entre parêntesis que aparece no texto ao fim da noite. Ou seja, um aparte próximo do fim do livro. É o fim de uma noite de insónia que vai longa e começou com quatro personagens a tentar adormecer à mesma hora em lugares diferentes. Lisboa, Évora, Estremoz, Portalegre... Estão sozinhas com as suas memórias e inquietações numa vigília que se vai tornando mais delirante, por vezes quase demencial, à medida que a madrugada avança.

Da meia-noite às cinco da manhã uma mulher que perdeu uma filha, outra mulher que nunca teve filhos, um ex-polícia do antigamente e um ainda mais antigo proprietário rural vão desfiando as suas vidas numa catadupa de lembranças que não passam por qualquer filtro. E o único fio condutor dessa narrativa - que são, afinal, várias, fragmentadas -, é feito das imagens e das vozes (a dos que já morrerem e a dos vivos) que surgem comoflashes na desordem da insónia. A memória na sua cadência onde todos os tempos se misturam para contar o tempo de um país. "(o que é a memória santo Deus, zonas até então ocultas à mostra com que intenção, que motivo...)", interroga-se alguém, e outra vez os parêntesis, numa interrogação que não espera resposta porque esta história, estas vidas também se contam com silêncios e no desfilar do dito e não dito se apreendem as relações entre os vários insones.

O livro está dividido em horas que, por sua vez se dividem por personagens, em sub capítulos. Além dos dois homens e das duas mulheres, surgem pontualmente outras personagens, na sua falta de sono, todas se contam na primeira pessoa. Por exemplo Ana Emília, a que perdeu a filha, e que à uma da manhã se pergunta "serei a única pessoa com nome neste livro?", sem saber de Alice, a quem o sono também não chega numa cama longe dali. E é a mesma Ana Emília quem fala dessa fronteira sono/vigília, um tempo que transforma as coisas: "quando estou muitas horas acordada a minha cara principia a tornar-se da mesma matéria que as coisas do escuro e deixa de ser cara, os braços deixam de ser braços consoante os móveis deixam de ser móveis e perderam o nome". Ela que depois dirá: "é possível que por estar acordada há muitas horas suponha coisas que não há..." É neste tempo entre o sono e o sonho que decorre o livro.

António Lobo Antunes terminara o romance quando se deslocou a Jerusalém para receber um dos mais prestigiados prémios literários a que foi dado o nome dessa cidade. Foi em Fevereiro de 2005. Ainda não havia título para o livro, o mesmo livro que o António Lobo Antunes nascido em São Sebastião da Pedreira escreveu andar "a escrever", incluindo-se a si nessa escrita. O título ocorreu-lhe justamente em Jerusalém, ao ler uma frase em escrita cuneiforme gravada numa placa de argila com a data de 3000 a. C. A frase era "Ontem não te vi em Babilónia".

[...]



por Isabel Lucas

artigo citado do suplemento 6ª, do Diário de Notícias
20.10.2006

7 de outubro de 2006

Gregório Dantas: Primeiro Pesadelo



Memória de elefante, livro de estréia do consagrado Lobo Antunes, é marco do romance português pós-Revolução dos Cravos.

António Lobo Antunes é um escritor singular. Arredio a modismos, premiações e entrevistas, o autor de Esplendor de Portugal já se mostrou um crítico mordaz não apenas de José Saramago, com quem é constantemente comparado, mas de muitos autores de sua geração: Agustina Bessa-Luís, Virgílio Ferreira e Lídia Jorge são alguns representantes do que Lobo Antunes já chamou de uma literatura menor, chata, interessante apenas à crítica universitária. Tais julgamentos (injustos, é preciso que se diga), além de anedotas com sabor de fofoca, ajudam a compor uma imagem bastante particular, de artista original e algo excêntrico, que não faz concessões ao bom gosto e a literatices. Imagem confirmada por sua literatura, que já foi chamada de anti-acadêmica e barroca, e escapa aos padrões mais correntes de definição. Não à toa, seu Não entres tão depressa nessa noite escura (2000) recebeu, um pouco provocativamente, o subtítulo de "poema".

Médico "por acaso" (leia-se: conveniência familiar), Lobo Antunes pôde se dedicar exclusivamente à literatura após o sucesso de seu primeiro livro, Memória de elefante(1979). Trata-se, de fato, de um marco no romance português pós-Revolução dos Cravos. Após a revolução, em 1974, seguiram-se alguns anos de silêncio criativo, e os esperados títulos que se julgava estarem escondidos no fundo das gavetas, aguardado o fim da ditadura para se revelarem, custaram um pouco a sair.  Talvez de início favorecido por certa avidez por novos títulos, o romance de Lobo Antunes foi um sucesso de crítica e público, junto ao hoje pouco comentado O que diz Molero (1977), de Dinis Machado. A estes se seguiram os próprios livros de Lobo Antunes Os cus de Judas (1979) eConhecimento do inferno (1980), além de Levantado do chão (1980), de José Saramago, O dia dos prodígios (1980), de Lídia Jorge, e um sem-número de títulos de qualidade, responsáveis por aquilo que muitos chamaram de boom do romance português. Além dos estreantes, mantinham uma produção intensa autores como José Cardoso Pires, Fernando Namora, Maria Velho da Costa, Almeida Faria e Augusto Abelaira. Tratava-se, convenhamos, de um time nada desprezível de ficcionistas.

Hoje em dia, Memória de elefante não parece agradar ao seu autor. Lobo Antunes o julga um livro de principiante, charmoso em seus defeitos, cujo mérito seria guardar alguns dos procedimentos desenvolvidos em sua obra posterior. Falsa modéstia ou não, é aparentemente comum entre os críticos de sua obra considerar seus primeiros três romances (que, segundo o autor, comporiam um grande romance em três partes, e não uma trilogia) como textos de aprimoramento de sua obra posterior, mais madura. Mas apenas uma leitura comparativa mais detalhada nos daria a real dimensão destas afirmações. De qualquer forma, é preciso deixar bastante claro que romances comoMemória de elefante e Os cus de Judas são muito mais do que projetos literários incompletos: são obras de uma força narrativa e uma originalidade de que poucas vezes se aproximou a literatura contemporânea.

Lembranças de guerra

O enredo de Memória de elefante, com forte inspiração autobiográfica, é relativamente simples: acompanhamos a vida de um médico psiquiatra durante 24 horas, no hospital, na rua, em um bar. Após uma dolorosa experiência na guerra colonial em Angola, seu casamento se desfaz e o psiquiatra se encontra em um estado de depressão e autocomiseração que se alterna com ataques irados contra a sociedade portuguesa e as instituições de que faz parte.

Logo nas primeiras páginas delineia-se um personagem rancoroso, envolto numa "revolta que o transcendia": revolta contra o porteiro do hospital, com seu gordo sorriso "a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar"; revolta contra a classe dos psiquiatras, estes "etiquetadores pomposos do sofrimento", cuja atividade consiste em recolher dinheiro e exercer a "única forma de maluquice que consiste em vigiar e perseguir a liberdade da loucura alheia"; e revolta contra si mesmo: "puta que pariu a mim", pragueja, depois de maldizer todo o hospital.

A narrativa inicia-se em terceira pessoa, mas é de tal modo contaminada pela voz do protagonista que, por vezes, estabelece-se um único fluxo de pensamento, que discorre sobre pequenas observações do espaço e das pessoas à sua volta, ao mesmo tempo em que é assaltado por esta memória "de elefante", que não pode simplesmente ignorar. Misturam-se lembranças da guerra, de um núcleo familiar desfeito e de uma infância não idealizada: "Quando é que eu me fodi?", pergunta a si mesmo, em busca de um "trauma" primordial na infância que tivesse provocado seu atual estado.

O conflito básico desta personalidade tumultuada está condensado no fragmento abaixo:
Entre a Angola que perdera e a Lisboa que não reganhara o médico sentia-se duplamente órfão, e esta condição de despaisado continuara dolorosamente a prolongar-se porque muita coisa se alterara na sua ausência [...]: no fundo era como se, através dele, se repetisse um Fr. Luís de Sousa de blazer.

No drama de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, dado como morto na batalha de Alcácer Quibir, retorna à sua casa e encontra sua esposa novamente casada. A vida prosseguiu sem ele, que não se encaixa na nova ordem da família e do país: daí ele se dizer "ninguém". Em sentido semelhante, psiquiatra de Lobo Antunes é um estrangeiro, um estranho em sua própria cidade, em seu trabalho, em sua família.

A comparação revela também um dos procedimentos mais marcantes do romance, o da intertextualidade. Sem forças para racionalizar a crise que enfrenta, o psiquiatra só consegue dar forma a determinadas impressões e sentimentos por meio das referências literárias: em um momento particularmente curioso, ele se compara à gaivota de Anton Tchekhov, aproximando a angústia da referida peça à escrita de F. Scott Fitzgerald. Estão presentes ainda nomes considerados centrais na literatura de Lobo Antunes, como Louis-Ferdinand Celine e Dylan Thomas, além de Cesário Verde, Luís de Camões, e até Charlie Parker e Paul Simon.

E as referências à música popular e a ícones da cultura pop, como John Wayne, não são discriminadas da cultura mais letrada. Da mesma forma, o tom elevado e solene de determinadas reflexões alterna-se com um rebaixamento de tom que pode beirar o escatológico, e expressões de repertório poético substituem palavras do mais baixo calão. Tais contradições compõem não apenas um quadro de oscilações de temperamento, como também a dificuldade em achar um registro que represente sua crise pessoal. Resultam dessas contradições laivos de uma cínica ironia, passível até mesmo de gerar humor, mesmo que amargo.

Mas a característica formal mais marcante de Memória de elefante é o ostensivo uso da linguagem metafórica, da prosopopéia, e da animalização de coisas e pessoas. A cidade é transfigurada metaforicamente, em um procedimento que já foi apontado (equivocadamente) como tributário do realismo mágico latino-americano. Alternam-se muitas metáforas visuais, algo absurdas, fruto de um estado de quase delírio. Assim, os óculos da arquivista do hospital "lhe aumentavam os olhos até às proporções de hirsutos insectos gigantescos cercados de enormes patas de pestanas"; os internos flutuam "na claridade das janelas como viajantes submarinos entre duas águas"; uma estante rotativa é um "pinheiro de metal adubado por um estrume de jornais de direita empilhados no chão"; e, na rua, os carros se movimentam lânguidos, "à maneira de grandes gatos ávidos, tripulados por senhores que envelheciam como as violetas murcham, numa doçura magoada". O resultado é de pesadelo.

O mundo do qual se está alheio se transforma, monstruosamente. Encadeiam-se idéias, imagens, em associações regidas pelo ritmo da memória, e que deixam entrever a angústia de não conseguir se comunicar, a assumida incapacidade em abandonar seu estado de isolamento interior, o adiamento constante de um novo início (que ainda é possível):

O psiquiatra desejou com desespero um esperanto que abolisse as distâncias exteriores e interiores que separam as pessoas, aparelho verbal capaz de abrir janelas de manhã nas fundas noites de cada criatura como certos poemas de Ezra Pound nos mostram de súbito os sótãos de nós mesmos num maravilhamento de revelação: a certeza de ter topado um companheiro de viagem em banco à primeira vista vazio e a alegria da partilha inesperada.

Talvez a saída seja mesmo escrever, apesar de tudo: não por acaso, no romance seguinte, Os cus de Judas, o protagonista assume a narrativa, em primeira pessoa. E foi assim com o próprio Lobo Antunes, que consolidou uma vasta produção literária, uma das mais originais dos últimos 30 anos.

Sobre o autor

Antonio Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. É psiquiatra e escritor, autor de cerca de 15 livros, entre eles Os cus de JudasBoa tarde às coisas aqui de baixo eEsplendor de Portugal. Lutou em Angola, na Guerra Colonial Portuguesa, entre os anos de 1970 e 1973, fato que marcou profundamente a sua obra.


por Gregório Dantas
em RascunhoO jornal de literatura do Brasil
Junho de 2006

28 de setembro de 2006

Jorge Mayer: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Leer a Lobo

Ler Lobo Antunes foi para mim uma experiência perturbadora. Isento de preconceitos e de boas intenções, numa manhã fria - não tão distante como quisera - não pude resistir ao chamamento de um volume - o pormenor de Os Amantes de René Magritte na capa - com um título que operou sobre mim uma espécie de encantamento: Eu Hei-de Amar Uma Pedra, engodo de uma frase do dogma da religião que escolhi professar. Amar uma pedra que nada pode dar em troca do meu amor, uma pedra que - preciosa ou não - nunca será mais que uma pedra. Todas as pedras, a pedra.

Leitor cego por uma curiosidade que confina com a anarquia, sem pensá-lo, lancei-me a ler os últimos parágrafos. Fi-lo como quem, sabendo-se envenenado, engole vorazmente a primeira coisa que se lhe pareça um antídoto. O acaso não podia ter feito por mim nada melhor. Levei com uma machadada certeira à altura de uns olhos que não chegaram a assombrar-se e já estavam feridos sem remédio. Tinham visto que o murro póstumo do escritor se permitia a uma última insolência, afinal credora da minha mais terna indignação.

Mas de que se valeu este livro - pensei - para dizer-me que se trata somente de um livro, para despedir-se de mim - à hora cinzenta das doze badaladas - que me sentia uma folha em branco, que guardava para ele todas as perguntas. Que desplante, que falta de respeito, que maus modos, fazê-lo sentir a um convidado de pedra, um intruso. Quem escreve isto, o que me está propondo. A fome pediu-me mais e para lhe valer contei os dias e as noites, as moedas e as privações, até que reuni todo o dinheiro para comprá-lo. Desde então tem andado comigo para toda a parte.

Quem é o Lobo? António Lobo Antunes é um prolífico romancista português, autor de títulos como Tratado das Paixões da AlmaA Ordem Natural das Coisas ou Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, médico psiquiatra de profissão, um tipo que aos quinze anos aprendeu a ser agradecido com o povo. A manifestação deu-se com a volta do correio de uma carta sua a Louis-Ferdinand Céline a propósito de Viagem Ao Fim da Noite.

Os livros de Lobo são o registo de uma paciência de ourives. Disse que trabalha até doze horas por dia. De manhã no estúdio de José, um seu primo, pintor, e quem sabe daí não haja a pretensão de igualar As Meninas de Velázquez, "a pintura das pinturas", como gosta de exemplificar; de tarde num consultório do hospital psiquiátrico onde dava as suas consultas, talvez buscando a resposta à pergunta deleuziana: que sanidade bastaria para libertar a vida lá onde está encarcerada no e pelo homem, nos e pelos organismos e os géneros?

O leitor não encontrará nos livros de Lobo a hospitalidade que gostaria de receber de um bom anfitrião. Pelo contrário, deverá lidar com enxames de palavras ligadas com uma gramática cheia de prodígios - Lobo dirá que isso que outros lêem como maravilha "é o que se teve de fazer para encontrar a solução para um problema técnico" - com que representa os atritos entre personagens atormentados por ambientes tensos. Muitas vozes são uma única voz que salta de eu em eu, de angústia em angústia, no dorso de um discurso que longe de esclarecer ao leitor acerca de situações e personagens forja uma espécie de cristal poético que desdenha todas as aparências. Sua escrita flúi. De novo Deleuze, que desta vez fala da escrita como fluxo: "um fluxo entre outros, sem nenhum privilégio diante dos outros, e que mantém relações corrente e contracorrente ou de remoinho com outros fluxos de merda, de esperma, de diálogo, de acção, de erotismo, de dinheiro, de política, etc.".

Sobre que é Eu Hei-de Amar Uma Pedra? Isso é algo impossível de colocar em poucas palavras. Primeiro ocorreu-me que fosse um romance cheio de interrupções mas, talvez contagiado pela atmosfera do livro, comecei a colocar em dúvida cada uma das minhas convicções a seu respeito. É um romance e vários outros na sua vez, um romance que chove como um poema de meio milhar de páginas no qual se alternam vozes que denunciam medos  como estribilhos, como bordões. Que exige uma leitura que não se confine a desnudar uma intriga mas a acção inversa: juntar todos os pedaços estilhaçados  de um espelho e nesse caso a dificuldade antes aludida bem poderia ler-se como a última defesa que esboça um eu - desconhecido pelo leitor - antes de se ver reflectido.

Ler Lobo Antunes, finalmente, tem muito em comum com uma cura de sono. Basta passar uma noite de insónia invernal para comprovar que dormir é uma questão térmica. Só superando um limitado horizonte de tibieza é possível deixar-se conquistar. Mais próximo da linha do horizonte, mais profundo o sono. A partir daí, o suave declive até ao novo despertar - porque não nascer? - da intempérie.

por Jorge Mayer
12.06.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Da leitora Ana Martins: «Meu escritor de eleição!»

Meu escritor de eleição!

Gostava tanto de poder conversar dois minutos consigo só para olhar de frente os seus olhos belíssimos!

Desejo-lhe tudo de bom, tenho por si uma simpatia imensa e gostava muito que o meu filho um dia lesse os seus livros com o mesmo prazer com que eu o faço!

Ler os seus livros é entrar numa outra dimensão!

Ana


Ana Martins
e-mail de 28.09.2006

13 de setembro de 2006

Gonçalo Mira: opinião sobre Os Cus de Judas


Segundo romance a ser publicado por António Lobo Antunes, no mesmo ano de Memória de Elefante (1979), Os Cus de Judas mantém o cunho marcadamente autobiográfico. Se no primeiro romance se abordava mais a separação do autor da sua mulher e o seu trabalho enquanto psiquiatra, neste segundo romance o tema dominante é a guerra colonial em Angola, na qual António Lobo Antunes participou.
Logo aqui, Os Cus de Judas ganha pontos em relação ao seu antecessor: a guerra colonial é, sem grandes dúvidas, um tema bastante mais forte. Embora o livro principie com um ritmo mais lento, acaba por assumir uma maior velocidade à medida que a guerra vai assumindo o papel principal da narrativa. A história é narrada por um homem (a personagem autobiográfica) que se dirige a uma mulher que este tenta conquistar. Desenrolam-se então em paralelo as duas acções: a do homem com a mulher e a do passado do homem na guerra colonial.

Estilisticamente, Os Cus de Judas difere muito pouco de Memória de Elefante e estão ambos ainda longe do estilo que actualmente caracteriza a escrita deste autor. Eu confesso-me um grande admirador de Lobo Antunes e aprecio bastante o seu estilo dos primeiros romances. No entanto, acredito que os romances mais recentes são livros melhores, se é que se pode classificar livros desta forma.

Neste romance há uma guerra que não faz sentido, há pequenos pormenores que a descrevem muito melhor do que os traços gerais. Lobo Antunes é um pouco isto: o constatar da importância dos pormenores e, acima de tudo, da sua maior importância relativamente aos traços gerais. Resumir uma guerra em meia dúzia de factos pode ser útil, mas dizer quantos milhares ou milhões de mortos houve, nunca causará tanto impacto como os pormenores de determinadas mortes. É que, quer queiramos quer não, um número nunca deixa de ser um número e um pormenor facilmente se transforma numa imagem. E António Lobo Antunes parece sabê-lo muito bem.

Os Cus de Judas é um grande livro de um grande autor da língua portuguesa contemporânea.

por Gonçalo Mira
13.06.2006

11 de setembro de 2006

Moacyr Godoy Moreira: opinião sobre Memória de Elefante


“Entre a Angola que perdera e a Lisboa que não reganhara, o médico sentia-se duplamente órfão (...) Fizera da vida uma camisola de forças em que se lhe tornava impossível mover-se atado pelas correias do desgosto de si próprio e do isolamento que o impregnava de uma amarga tristeza sem manhãs...”

Assim caracteriza-se o protagonista de Memória de elefante, livro de estreia de António Lobo Antunes, recém lançado no Brasil com 26 anos de atraso. Já bastante conhecido por aqui, a obra demonstra a força narrativa do autor português, um dos mais traduzidos e respeitados em terras ao redor do globo. A quarta capa do volume ressalta, a propósito, uma citação da revista Vogue: “O maior escritor vivo da língua portuguesa.” Critérios de valor à parte, trata-se de um escritor com amplo domínio técnico e que produz livros de particular força inventiva e narrativa.

Considerado pelo próprio autor como parte de uma trilogia, junto com Os cus de Judas e O esplendor de Portugal, que seriam na verdade um único romance em três partes, Memória de elefante narra um dia na vida de um psiquiatra de Lisboa, mergulhado nas tramas do passado em busca de elementos que o façam sentir-se vivo. A existência angustiante que tortura o personagem, assombrado pela culpa da separação da mulher e a distância insustentável das duas filhas, o ambiente profissional degradado no qual segue imerso e as rememoração da infância e adolescência, também conturbadas, alinhavam os movimentos lentificados deste homem, ao largo do dia que dolorosamente se desenrola.

Mesmo em meio à degradação humana, imagens de dentes postiços, gengivas nuas e dentaduras, e a abundância de termos como melancolia, tristeza e solidão, há esparsos momentos de beleza: “Uma claridade mediterrânea aureolava as grades da varanda como se banhassem num aquário iluminado pela lâmpada intensíssima de uma primavera irreal.” E mais adiante: “ E lembrou-se do momento exacto antes da ejaculação, quando o corpo, transformado numa vaga que sobe em sucessivos roldões de prazer, cada vez mais forte, mais pesada, mais densa, estoira de súbito numa explosão de espuma do tamanho do mundo, em que pedaços nossos voam independentes de nós para cada canto do lençol, e adormecemos liquefeitos, numa moleza sem cor, náufragos jubilosos da ternura.”

Porém o leitor vai, ao longo do volume, deparar-se muito mais com a dor, a incompreensão e a incompletude constitutiva que assola a personagem, que belas paisagens lusitanas ou momentos de deleite. Há mesmo instantes beirando o desespero que assombra as tendências suicidas, aqui e ali.

Ao contrário do herói problemático de Lukács, que caracteriza o romance romântico e realista, o médico aqui, mergulha cada vez mais em florestas de incertezas e desconecta-se significativamente de um projeto supostamente edificante proposto pelos autores do século XIX. Considerando-se o contexto em que surge o livro, o aspecto de modernidade do texto multiplica-se de maneira notável, visto que surgiu imediatamente após a Revolução dos Cravos, momento memorável em que Portugal livrou-se da nefasta ditadura de Salazar.

Neste nascer de uma nova nação, empenhada em fazer-se destituída do ranço do totalitarismo, a fragmentação narrativa que surge em variados momentos (“e de repente vi-me multiplicado até à náusea nos espelhos biselados, dezenas de eus aflitos mirando-se uns aos outros em pasmo de pavor”; “como se o cotovelo da esquerda e o da direita funcionassem como talas que agüentavam unindo os ossos estilhaçados de seu desespero e os impediam de se espalhar no chão”) reflete a fragmentação da estrutura psicológica das personagens, que numa leitura sustentada por pensadores como Theodor Adorno e Walter Benjamin, permitem acessar o conteúdo oculto da história recente do país, possibilitando reconstruir verdadeiramente a devastação causada pela violência política progressiva.

A angústia do personagem exacerba-se ao lembrar as filhas e da situação atual, após a separação: “A imagem das filhas, visitadas aos domingo numa quase furtividade de licença de caserna, atravessou-lhe obliquamente a cabeça num desses feixes de luz poeirenta que os postigos do sótão transformaram numa espécie triste de alegria.” Em meio à dificuldade de lidar com a situação insustentável da rotina trabalho-lembranças-culpas, o narrador segue como que em transe, colado ao personagem, como se a narrativa fosse em primeira pessoa, sobrevivendo mais que vivenciando suas experiências. Em seus diálogos imaginários com a ex-mulher, torna-se cada vez mais perturbado, odiando a pessoa de Dylan Thomas, por exemplo, poeta por quem ela nutria grande admiração, em termos literários.

A névoa da perturbação adensa-se e o onírico, a memória e os fatos reais passam a não ter um limite muito claro, misturando-se; fluindo de um domínio a outro sem a preocupação da lógica, lógica esta que inexiste quando se trata do universo interior e abalado pelo sofrimento que habita o íntimo de cada um de nós.


por Moacyr Godoy Moreira
10.08.2006

2 de setembro de 2006

«Isto parece um namoro, é impublicável»


Selecções Reader's Digest
Entrevista de Anabela Mota Ribeiro
Verão 2006


Nesta entrevista fala-se da generosidade, do medo e da atenção ao outro.


António Lobo Antunes é o escritor que quer meter a vida toda num livro, num gesto, numa expressão. Traduz magistralmente, em livros inclassificáveis, a essência do humano, na sua grandeza e miséria.

Nesta entrevista fala-se de generosidade, do medo, da atenção ao outro. Fala-se dos livros e das razões por que vale a pena viver. E da eternidade.

Nasceu em Lisboa, licenciou-se em Medicina, tem três filhas. Passou dos 60. É publicado no mundo inteiro, com sucesso e prestígio inquestionáveis. Escreve numa letra miudinha. Está mais magro!

Dantes, arquitectava os livros; agora, quer desaprender de escrever para que a mão siga livremente e o livro se revele ele mesmo.
O livro falhava o plano, ia em direcções diferentes daquilo que tinha imaginado. Tornava-se um organismo vivo, com as suas ideias próprias, com uma maneira de ser e uma fisionomia. Exigências, diferentes texturas. Neste livro que vou publicar agora, a única ideia que tinha era: como é que a noite se transforma em manhã. Não tinha mais nada na cabeça. Depois, o problema é o começar. Tem imensas falsas partidas, a gente faz uma, e duas, e três, e quatro, e cinco, até o livro encontrar o caminho dele. Há pessoas que falam em livros polifónicos; a mim parece-me sempre a mesma voz. Que vem ao longo dos livros e vai ganhando modulações diferentes.

Os seus romances têm vários «eus» que comunicam?
Eles não são romances.

Então, são solilóquios? Diários?
Não sei. Tenho que arranjar uma definição para aquilo. Parecem sonhos, não é? O romance para mim implica uma história, uma determinada estrutura. Claro que a Memória de Elefante, o Fado Alexandrino são romances nesse sentido. Estes não têm nada que ver com isso, não sei o que são. São livros.

Eu gostava de perceber a relação de prazer, de descoberta, de espanto que mantém agora com a vida.
Não sei se mantenho: tenho, às vezes.

Parece uma relação mais jubilatória.
Não sou muito expansivo para fora, e às vezes sou para dentro, mas é um bocado assustador.

Porque é que é assustador?
Porque uma pessoa fica vulnerável. Fica toda nua. E ao tocarem-lhe, tocam-lhe por dentro da pele. Como se estivesse tudo à vista, como se não fosse possível ocultar nada. Mas isso também acontece quando a gente olha para os outros. Olhar para ver. Quando comecei a dieta, de repente tornei-me diferente. Implicou um sacrifício enorme ...

O que é que o fez começar a dieta?
 ... deixar as porcarias todas que gostava de comer, quando estava a escrever a meio da noite e as coisas não me estavam a correr bem. Mamava uma tablete de chocolate inteira, bolachas e bolos e não sei quê.

Saboreava o chocolate ou anulava a frustração?
Nunca me senti frustrado a escrever, a vida tem sido generosa comigo. Tenho estes momentos de alegria tão intensos. Há alturas em que, quando as palavras são aquelas, está-se a escrever e a chorar ao mesmo tempo. Já me aconteceu.

Isso já me aconteceu ao ler um livro seu.
Mas são momentos tão raros, é uma alegria tão rara. Parece que é um anjo que está a fazer aquilo pela sua mão, e era exactamente aquilo. Eu não sabia que sabia. Como as crianças que sabem mais do que pensam. Acontece com certas pessoas. Ontem estava a olhar uma senhora velhota, toda deformada, quando estava a andar. Eram oito e meia, ainda era de dia. E, caramba, a velhice é tão injusta, a decadência é tão injusta! Eles não mereciam ser aquilo. Nessas caras, há de vez em quando um olhar, um gesto, e aparece a pessoa que é de facto, que está escondida por baixo daquelas roupas, daquelas deformações dos ossos. O terrível não é ser velho, é envelhecer.

O que é envelhecer? É perder a ingenuidade?
A vida trata mal as pessoas, a vida é tão injusta. Tenho conhecido hospitais, tenho ido lá como doente, e vejo ali centenas de pessoas. Olhamos para elas e vemos o terror e a solidão, enormes, ali, em todas as idades. E os médicos passam sem olhar. Quando era interno, fazia a mesma coisa, passava com a bata por aquela gente que estava ali indefesa, à mercê.

Está a dizer-me que estima cada vez mais a generosidade?
Eu não. A gente é que a vê cada vez mais à volta. As pessoas não são assim tão más. Os maus verdadeiros, puros, é raro encontrá-los. Às vezes, entrelaçam as pernas nas nossas e ficamos muito espantados por não conseguirmos livrar-nos deles.

Perguntei-lhe porque é que começou a dieta.
Porque me estava a desrespeitar demais. E apetecia-me voltar a ser bonito. É engraçado, agora vejo outra vez os olhos das mulheres na rua. Coisa inocente, não é?

Olham para si porque sabem que é o António Lobo Antunes.
Sabem lá quem é o António Lobo Antunes neste bairro! Não sabem. Não sou locutor de televisão, nada disso. Faço redacções e ninguém me vê nunca nos sítios.

Está a posar.
Não, não, estou a falar o mais sinceramente que há. Olhe para estes tipos da tasca onde costumo ir comer: não sabem quem eu sou, felizmente.

Porque é que procura o anonimato?
Sou uma pessoa anónima. Não tenho nenhuma importância colectiva. Faço uns livros que espero que daqui a 500 anos ainda dêem trabalho aos críticos. Já cá não estou para ver. Como os Jerónimos. Entre o Camões e o Vasco da Gama! Vivemos em função de eternidades, de maneira que não morremos nunca. Por exemplo, a minha mãe: são eternidades de um ano, dois anos ou cinco anos. Quando temos 20 anos, vivemos em função de eternidades que nunca vão passar. O que é tremendo é ver um muro no fim da estrada. E para a maior parte das pessoas o muro pode estar a uma distância de três metros, mas esses três metros não vão passar nunca. Olhe a Maria Antonieta no cadafalso, a dizer para o carrasco: «Só mais um minuto, senhor carrasco.» Aquele minuto, para ela, era uma vida inteira.

Sonha com a sua morte?
Não. Ultimamente, desde o almoço (com camaradas da guerra), ando a sonhar com a guerra – isso é muito desagradável. Em regra, nunca me lembro dos sonhos. Tenho tanta coisa dentro de mim ... Agora, acabei um livro e não tenho nada dentro de mim. Estou aqui tão pobre como um morto. E não sei o que vou fazer depois, vou-me aborrecer aí durante dois ou três meses. E ficar cheio de medo de não ser capaz de fazer mais nada, de escrever mais nada. É um medo constante.

O que é que o entretém quando não está a escrever? Quando está a escrever, isso justifica as horas.
Mesmo quando estou a escrever, faço outras coisas. Claro que faço outras coisas, também vivo.

Pensei que escrever era viver.
Quando estou sem fazer nada, sinto-me culpado, são muitas horas. É como se me tivessem dado uma coisa que eu tinha que transmitir, e sinto-me infiel. Depois, vejo toda a gente a trabalhar menos. Tenho muito tempo para ler, mas a maior parte dos livros aborrecem-me. Dão-me vontade de começar a corrigir. Sei lá o que é que faço mais... Olho para as coisas. Não tenho os passatempos que as outras pessoas têm, não jogo cartas, nunca fui à Internet.

Não teme a solidão?
A solidão não me custa, nunca me custou. Éramos muitos irmãos, mas eu brincava sozinho. E gosto muito da minha família, tive muita sorte. Tentaram tirar-me o menos possível. O problema da educação não é tanto o que dá, é o que tira. Não sei se era fácil ou não lidar comigo. Ao contrário dos outros, não era bom aluno, não ia às aulas, tinha um comportamento permanentemente transgressivo. Isso não devia ser confortável para os pais, os pais querem que a gente tire um curso. Eu disse ao meu pai que queria trabalhar numa biblioteca itinerante da Gulbenkian. Já viu o que era ter aqueles livros todos para ler?

Ele sentiria vergonha de o filho escolher um caminho assim?
Ele disse-me: «Ah, se tu queres ser escritor, o melhor é tirares um curso técnico, talvez te ensine a pensar ou te discipline o estudo.» Ele tinha razão. Os primeiros anos do curso (de Medicina) não gostei porque era cadáver, cadáver, cadáver. Mas depois, nos últimos anos, quando comecei a ver as pessoas que sofrem, aí, sim, tornou-se apaixonante.

O sofrimento dos outros desperta a ternura, que é um sentimento essencial em si.Não, porque eu não era capaz de a mostrar.

Mas sentia-a ou não?
Às vezes, sentia-me indignado. Por exemplo, no estágio de pediatria puseram-me ao serviço de crianças com doenças terminais. Porque é que crianças de três, quatro anos, iam morrer e sofriam tanto, a chamarem aos gritos pela injecção de morfina? Qual o sentido disto? A pessoa zangava-se com Deus. Eu zangava-me. Contei isto numa crónica: um miúdo de que gostava muito morreu. O empregado embrulhou-o num lençol. Eu estava na porta das enfermarias e vi o homem afastar-se com o miúdo morto ao colo, e um dos pés dele saía do lençol. Isto continua dentro de mim. Como é que vou tirar isto fora? Às vezes, penso que escrevo para este pé. Chamava-se José Francisco, nunca mais esqueci. Sensação de impotência, não podia fazer nada por ele. E era tão alegre.

Houve um tempo em que foi «tão alegre»?
Sempre fui mais ou menos como sou agora. É preciso estar com atenção, porque manifesto pouco. É por pudor. Tenho um pudor muito grande, sempre. É terrível as pessoas que têm um coração debaixo de cada objecto.

Ainda não conseguiu pôr fora o pudor?
Ai, isso espero mantê-lo. Não quero dar às pessoas aquilo que elas não querem – é desconfortável. Como quando deixa de gostar de alguém e dorme na beirinha da cama na esperança de que não lhe toquem. Nunca lhe aconteceu?

Não, felizmente.
Há-de acontecer.

Espero que não.
Já sabia que ia dizer isso. Ou os amigos que telefonam a dizer: «Há que tempos que não te vejo, anda almoçar comigo», e não lhe apetece nada. Às vezes não se sabe que afinal não se tinha vontade. E depois não quer ser indelicada. Como ir embora sem magoar as pessoas sem que elas se sintam abandonadas? É um sentimento tão intenso, levamos a vida a ser abandonados, todos nós. Todos guardamos dentro de nós uma criança triste. A maior parte das vidas não tomamos atenção a esta criança, com uma sede inextinguível de amor, de ternura, de atenção. Mozart, naquele concerto que deu para a corte francesa, toda a gente aplaudia e ele foi a correr sentar-se ao colo da Maria Antonieta, aimez-moi, aimez-moi. Em todos nós existe isto. A vontade que gostem de nós incondicionalmente.

Sublinho o «incondicionalmente».
Mas é. Até ao fim. Faça a gente o que fizer. Temos sempre a sensação de que as pessoas que gostavam de nós assim já cá não estão, já morreram, e não é verdade.

Porque é que há um desfasamento entre a sua imagem pública e aquilo que realmente é?
As pessoas inventam. Nunca me viu com mau feitio. Não sei o que é que pensam. A mim não me dizem.

Então, digo eu: diz-se que está reconciliado com a vida e com as pessoas e que agora lhes dá oportunidade e espaço.
Eu não disse que estava reconciliado.

Houve um tempo em que estava recluso, misantropo, não falava com ninguém. As pessoas vão lá saber como é que eu estou! Têm mais que fazer. As pessoas não se preocupam connosco. Há um pequeno grupo de pessoas que gostam de nós, muito pequeno. Para a maior parte das pessoas, somos completamente indiferentes, como é natural.

O que está a dizer é que mesmo aquelas que se interessam pelo Lobo Antunes escritor, que o admiram, não se interessam pelo seu íntimo reduto. Eu não vejo as caras das pessoas que me lêem. Vejo na Feira do Livro ou no estrangeiro quando assino livros, coisas assim. É muito agradável ver as caras das pessoas, vê-las, existem. Há muita gente nova e sinto-me grato, porque me permitem viver disto, viver de escrever. Uma vez, numa sessão de autógrafos, há uns anos, um homem pousou o livro e disse-me: «Ponha aí o seu nome, porque sou eu que lhe pago para você viver.» Tinha toda a razão: se ele não comprasse os livros, eu não podia viver deles. Fui no sábado à Feira do Livro e vi pessoas, mas depois não há tempo para conversar, as pessoas de trás têm pressa e fazem bicha. Acho que fiz sempre mais ou menos como agora.

Mas as pessoas achavam que era outro: inacessível, maldisposto, vaidoso. Sabe, as pessoas são muito especiais. Foram dizer à minha mãe há uns tempos que o meu irmão João operava bêbado. Ele nunca bebeu. Normalmente, não falam para dizer bem. O Oliveira Martins dizia do Costa Cabral: «Pelo ódio que lhe tinham se media o seu tamanho.» Mas não há nenhum motivo para me odiarem, não tenho nenhuma importância.

A inveja é um grande motivo.
Sim, mas é um sentimento que se autodestrói. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E sofre cada vez mais com aquilo que imagina que são os sucessos do objecto de inveja. E mal eles sabem que a maior parte das vezes o objecto de inveja está cheio de dúvidas e tem mais incertezas do que ele acerca de si mesmo ...

Tem cada vez mais dúvidas?
Claro que sim. Não tenho muitas gloriosas certezas. Não tenho nenhumas, quase. Somos tão contraditórios ...

É extraordinário quando descobrimos que temos tempestades dentro de nós e que não o sabíamos.
Uma guerra civil permanente. Se a Emily Brontë fosse viva, estava apaixonado por ela, queria conhecê-la e estar com ela. Claro que sim, uma mulher que tem aquilo tudo nas tripas ... É como se estivéssemos cheios de cães que se mordem, que lutam uns com os outros. E as pessoas olham para nós por fora, e se não olharem com atenção... Ainda bem que às vezes não olham com atenção. E agora? Tem aí as perguntinhas todas (na folha que tenho no colo)?

Quais perguntas? Isto são coisas que disse e escreveu e que eu recolhi. Disse uma coisa espantosa: «Toda a nossa vida é como escrever sem borracha.»
Não pode voltar atrás e apagar. É uma pena. A quantidade de asneiras que fiz. Coisas seguramente inúteis, a mim e a outros, falta de atenção. Perdoo cada vez menos: egoísmos, coisas mal feitas. Fiz tanta asneira. Voltar atrás é impossível.

O que é que gostaria de poder refazer?
Se voltasse atrás? Acho que teria vivido tudo da mesma maneira. Não faço a menor ideia. Não tinha fugido quando a minha avó me dava a mão e eu ficava todo hirto. Me dava a mão à mesa. Me fazia festas nas mãos e eu via as mãos dela, tinha rugas. E ficava muito aflito.

Aflito porquê e hirto porquê?
Porque quando nos dão a mão de uma maneira desinteressada desconfiamos sempre. Achamos que há alguma coisa por trás. Ela, coitada, o que é que podia querer de mim? Não tinha nada para lhe dar, era um miúdo.

Já me tinha ocorrido a palavra «gratuito».
Para ela era sempre sentido, era amor. E eu talvez me assustasse de tanto amor. Isso assusta-nos, ficamos desprevenidos em face disso. A generosidade não é muito frequente e o amor também não. Quando o meu avô me abraçava na rua e me dava beijos, eu pensava: «Vão pensar que somos um casal de maricas», e esperava que aquilo acabasse o mais depressa possível. E agora tenho umas saudades loucas de quando ele me punha a mão no pescoço. E dizia «António», que era o nome dele também, de uma maneira tão boa. Ou quando telefonava para o meu pai e o meu pai tinha uma voz maravilhosa.

Sente muitas saudades do seu pai?
Não. Nem sei o que sinto por ele. Alguma inveja, porque nunca se aborreceu e tinha uma grande capacidade de entusiasmo. É evidente que foi importante para mim. Escrevi uma crónica quando morreu (há dois anos) que diz exactamente o que sinto por ele, e não mudou. A palavra «amor» não sei se é uma palavra que possa aplicar. Deixou-me muitas coisas escritas sobre ele. Fez-me impressão porque nunca tínhamos conversado. Na minha família não se falava das coisas íntimas. É tudo ...

Tácito?
Sim, undersaid. E havia um grande pudor. Então, acerca do sofrimento,..., era uma coisa em que não se falava. Talvez fosse uma forma de elegância. Mas eu sentia alguma falta disso. Apetecia-me pôr a cabeça num colo, mas nunca havia muitos colos disponíveis, nunca há. Ou então há e nós temos medo de lá pôr a cabeça. Ou que ponham a cabeça no nosso.

Há pouco estava a dizer que não queria perder o pudor ...
Ah, mas há momentos em que me apetece perder completamente. E sentir pele e cheiro e carne e mãos.

E humanidade.
Mais do que isso. Uma vida toda em uníssono com a minha. [Hesitação.]

O que é que ia dizer?
Parvoíces. Isso não pode aparecer nos jornais.

Porquê?
Porque as pessoas têm direito aos livros, não têm direito a mim. Isto não parece uma entrevista, parece um namoro. É impublicável.

Está a tentar namorar comigo?
Não. Sei lá. Acho que não se tenta namorar, ou se namora ou não se namora.

Eu não entendo isto como um namoro.
As pessoas não são para se cercar como fortalezas sem víveres. São para se entrar lá dentro. Não é ficar à espera de que elas morram à fome dentro da cidade. Quando estava a falar em namoro, estava a falar em dizer coisas que normalmente não se dizem para os jornais.

Na entrevista, há momentos em que vai falando cada vez mais baixo, cada vez mais baixo; e existe uma coincidência entre o tom e a interioridade daquilo que vai dizendo.Sempre falei baixo porque cresci num sítio em que se gritava muito. Desde criança que tenho horror a gritos. Não devo ter gritado mais do que três ou quatro vezes na vida.

O que é que foi tão grave que o fez gritar e perder a cabeça?
Das poucas vezes em que me impaciento é com o automóvel. A vez em que me enfureci mais foi na guerra. Por causa de um oficial aconteceram coisas más. Eu pensava que a expressão «borrar-se de medo» fosse uma figura de retórica, e afinal é verdade. O espectáculo da cobardia física é horrível.

Tinha medo?
Claro que tinha medo, tinha medo que me fartava. Mas a certa altura deixei de ter medo e as coisas passaram a correr melhor. Por exemplo, houve uma altura em que éramos bombardeados sempre às onze da noite. Comia-se às cinco, porque às seis era noite naquele sítio, perto do equador. E até às onze horas, até começar a metralhadora a que a gente chamava «a costureirinha», taque-taque-taque, era uma ansiedade muito grande. Depois, uma calma enorme. Esses momentos de espera eram terríveis. Gritei essa vez, pouco mais. A pessoa, quando grita, fica feia. Os olhos desorbitam, ficam caras estranhíssimas.

E fica-se cansado, exaurido, sobretudo se é tão raro.Não sei, é uma experiência que não tenho. Cresci num bairro pobre. As mães chamavam os filhos aos gritos, ouviam-se na rua. Ou maridos que voltavam bêbados e havia cenas descomunais. Esses ainda os oiço, esses gritos.

Pareciam-lhe gritos de afectuosidade, esses das mães que chamavam os filhos?Não eram de afecto, elas estavam era furiosas.

Mas queriam-nos com fúria. Imagino que isto contrastasse com a sua experiência.Na minha família também gritavam que se fartavam, do lado do meu pai; do lado da minha mãe, as pessoas eram mais calmas. Era tudo vivido com grande rebuliço, cenas, discussões. Tenho uma memória mais ou menos vaga disso.

Outra frase sua: «Inquieta-me o tempo que tenho à frente. [Sinto] uma angústia que tento preencher com trabalho.»
A gente não diz as coisas assim. As entrevistas são situações muito peculiares. Há sempre uma certa tendência para posar de perfil, para dar uma imagem boa ao jornalista e através do jornalista às pessoas que irão ver ou ler. São situações muito artificiais. É difícil que a pessoa seja realmente aquilo que é.

Queremos sempre que gostem de nós, no fim de contas ...
Não sei bem se é gostar ... Acaba por ser, mas é um tipo de gostar que é pouco importante.

Eu achei que íamos falar sobre inocência e medo.
Então, fale.

Gosta de falar disso?
Se gosto? Não. Desde que começámos, estou ansioso que isto acabe.

É assim tão desagradável?
É. Não é a vida. A Anabela a fazer o papel de jornalista, e eu a fazer o papel de escritor que está a falar de coisas. Não é essa a imagem que eu tenho de mim para mim mesmo.

Então acabamos.
Acho óptimo.


citado do site das Selecções Reader's Digest
Verão de 2006

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...