27/10/2006

Da leitora Helena Oliveira: «Obrigado»

Acabei de ver a sua entrevista na RTP e, depois de acabar fiquei com a
sensação de que estaria ali toda a noite a ouvi-lo.

Obrigado:
*Pela sua humildade
*Pela profundidade que põe em cada palavra que sai da sua boca
*Por ser muito bonito por fora mas muito mais bonito por dentro

Helena Oliveira


Helena Oliveira
e-mail de 27.10.2006

22/10/2006

Isabel Lucas: sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Cabeças que não dormem

O novo livro de Lobo Antunes passa-se numa noite de insónia. Uma torrente de memórias não filtradas de gente ao adormecer.

"Chamo-me António Lobo Antunes, nasci em São Sebastião da Pedreira e ando a escrever um livro." É um dos momentos em que a realidade irrompe pela ficção e acentua a ideia de delírio. É António Lobo Antunes o autor, narrador e personagem no seu último romanceOntem não te vi em Babilónia, o 18º desde a estreia em 1979 com Memória de Elefante. Um Lobo Antunes triplo que dura o tempo desta frase, ainda que o autor se vá sugerindo noutras ao longo das 479 páginas desta ficção que dura uma noite.

É uma frase entre parêntesis que aparece no texto ao fim da noite. Ou seja, um aparte próximo do fim do livro. É o fim de uma noite de insónia que vai longa e começou com quatro personagens a tentar adormecer à mesma hora em lugares diferentes. Lisboa, Évora, Estremoz, Portalegre... Estão sozinhas com as suas memórias e inquietações numa vigília que se vai tornando mais delirante, por vezes quase demencial, à medida que a madrugada avança.

Da meia-noite às cinco da manhã uma mulher que perdeu uma filha, outra mulher que nunca teve filhos, um ex-polícia do antigamente e um ainda mais antigo proprietário rural vão desfiando as suas vidas numa catadupa de lembranças que não passam por qualquer filtro. E o único fio condutor dessa narrativa - que são, afinal, várias, fragmentadas -, é feito das imagens e das vozes (a dos que já morrerem e a dos vivos) que surgem comoflashes na desordem da insónia. A memória na sua cadência onde todos os tempos se misturam para contar o tempo de um país. "(o que é a memória santo Deus, zonas até então ocultas à mostra com que intenção, que motivo...)", interroga-se alguém, e outra vez os parêntesis, numa interrogação que não espera resposta porque esta história, estas vidas também se contam com silêncios e no desfilar do dito e não dito se apreendem as relações entre os vários insones.

O livro está dividido em horas que, por sua vez se dividem por personagens, em sub capítulos. Além dos dois homens e das duas mulheres, surgem pontualmente outras personagens, na sua falta de sono, todas se contam na primeira pessoa. Por exemplo Ana Emília, a que perdeu a filha, e que à uma da manhã se pergunta "serei a única pessoa com nome neste livro?", sem saber de Alice, a quem o sono também não chega numa cama longe dali. E é a mesma Ana Emília quem fala dessa fronteira sono/vigília, um tempo que transforma as coisas: "quando estou muitas horas acordada a minha cara principia a tornar-se da mesma matéria que as coisas do escuro e deixa de ser cara, os braços deixam de ser braços consoante os móveis deixam de ser móveis e perderam o nome". Ela que depois dirá: "é possível que por estar acordada há muitas horas suponha coisas que não há..." É neste tempo entre o sono e o sonho que decorre o livro.

António Lobo Antunes terminara o romance quando se deslocou a Jerusalém para receber um dos mais prestigiados prémios literários a que foi dado o nome dessa cidade. Foi em Fevereiro de 2005. Ainda não havia título para o livro, o mesmo livro que o António Lobo Antunes nascido em São Sebastião da Pedreira escreveu andar "a escrever", incluindo-se a si nessa escrita. O título ocorreu-lhe justamente em Jerusalém, ao ler uma frase em escrita cuneiforme gravada numa placa de argila com a data de 3000 a. C. A frase era "Ontem não te vi em Babilónia".

[...]



por Isabel Lucas

artigo citado do suplemento 6ª, do Diário de Notícias
20.10.2006

07/10/2006

Gregório Dantas: Primeiro Pesadelo



Memória de elefante, livro de estréia do consagrado Lobo Antunes, é marco do romance português pós-Revolução dos Cravos.

António Lobo Antunes é um escritor singular. Arredio a modismos, premiações e entrevistas, o autor de Esplendor de Portugal já se mostrou um crítico mordaz não apenas de José Saramago, com quem é constantemente comparado, mas de muitos autores de sua geração: Agustina Bessa-Luís, Virgílio Ferreira e Lídia Jorge são alguns representantes do que Lobo Antunes já chamou de uma literatura menor, chata, interessante apenas à crítica universitária. Tais julgamentos (injustos, é preciso que se diga), além de anedotas com sabor de fofoca, ajudam a compor uma imagem bastante particular, de artista original e algo excêntrico, que não faz concessões ao bom gosto e a literatices. Imagem confirmada por sua literatura, que já foi chamada de anti-acadêmica e barroca, e escapa aos padrões mais correntes de definição. Não à toa, seu Não entres tão depressa nessa noite escura (2000) recebeu, um pouco provocativamente, o subtítulo de "poema".

Médico "por acaso" (leia-se: conveniência familiar), Lobo Antunes pôde se dedicar exclusivamente à literatura após o sucesso de seu primeiro livro, Memória de elefante(1979). Trata-se, de fato, de um marco no romance português pós-Revolução dos Cravos. Após a revolução, em 1974, seguiram-se alguns anos de silêncio criativo, e os esperados títulos que se julgava estarem escondidos no fundo das gavetas, aguardado o fim da ditadura para se revelarem, custaram um pouco a sair.  Talvez de início favorecido por certa avidez por novos títulos, o romance de Lobo Antunes foi um sucesso de crítica e público, junto ao hoje pouco comentado O que diz Molero (1977), de Dinis Machado. A estes se seguiram os próprios livros de Lobo Antunes Os cus de Judas (1979) eConhecimento do inferno (1980), além de Levantado do chão (1980), de José Saramago, O dia dos prodígios (1980), de Lídia Jorge, e um sem-número de títulos de qualidade, responsáveis por aquilo que muitos chamaram de boom do romance português. Além dos estreantes, mantinham uma produção intensa autores como José Cardoso Pires, Fernando Namora, Maria Velho da Costa, Almeida Faria e Augusto Abelaira. Tratava-se, convenhamos, de um time nada desprezível de ficcionistas.

Hoje em dia, Memória de elefante não parece agradar ao seu autor. Lobo Antunes o julga um livro de principiante, charmoso em seus defeitos, cujo mérito seria guardar alguns dos procedimentos desenvolvidos em sua obra posterior. Falsa modéstia ou não, é aparentemente comum entre os críticos de sua obra considerar seus primeiros três romances (que, segundo o autor, comporiam um grande romance em três partes, e não uma trilogia) como textos de aprimoramento de sua obra posterior, mais madura. Mas apenas uma leitura comparativa mais detalhada nos daria a real dimensão destas afirmações. De qualquer forma, é preciso deixar bastante claro que romances comoMemória de elefante e Os cus de Judas são muito mais do que projetos literários incompletos: são obras de uma força narrativa e uma originalidade de que poucas vezes se aproximou a literatura contemporânea.

Lembranças de guerra

O enredo de Memória de elefante, com forte inspiração autobiográfica, é relativamente simples: acompanhamos a vida de um médico psiquiatra durante 24 horas, no hospital, na rua, em um bar. Após uma dolorosa experiência na guerra colonial em Angola, seu casamento se desfaz e o psiquiatra se encontra em um estado de depressão e autocomiseração que se alterna com ataques irados contra a sociedade portuguesa e as instituições de que faz parte.

Logo nas primeiras páginas delineia-se um personagem rancoroso, envolto numa "revolta que o transcendia": revolta contra o porteiro do hospital, com seu gordo sorriso "a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar"; revolta contra a classe dos psiquiatras, estes "etiquetadores pomposos do sofrimento", cuja atividade consiste em recolher dinheiro e exercer a "única forma de maluquice que consiste em vigiar e perseguir a liberdade da loucura alheia"; e revolta contra si mesmo: "puta que pariu a mim", pragueja, depois de maldizer todo o hospital.

A narrativa inicia-se em terceira pessoa, mas é de tal modo contaminada pela voz do protagonista que, por vezes, estabelece-se um único fluxo de pensamento, que discorre sobre pequenas observações do espaço e das pessoas à sua volta, ao mesmo tempo em que é assaltado por esta memória "de elefante", que não pode simplesmente ignorar. Misturam-se lembranças da guerra, de um núcleo familiar desfeito e de uma infância não idealizada: "Quando é que eu me fodi?", pergunta a si mesmo, em busca de um "trauma" primordial na infância que tivesse provocado seu atual estado.

O conflito básico desta personalidade tumultuada está condensado no fragmento abaixo:
Entre a Angola que perdera e a Lisboa que não reganhara o médico sentia-se duplamente órfão, e esta condição de despaisado continuara dolorosamente a prolongar-se porque muita coisa se alterara na sua ausência [...]: no fundo era como se, através dele, se repetisse um Fr. Luís de Sousa de blazer.

No drama de Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, dado como morto na batalha de Alcácer Quibir, retorna à sua casa e encontra sua esposa novamente casada. A vida prosseguiu sem ele, que não se encaixa na nova ordem da família e do país: daí ele se dizer "ninguém". Em sentido semelhante, psiquiatra de Lobo Antunes é um estrangeiro, um estranho em sua própria cidade, em seu trabalho, em sua família.

A comparação revela também um dos procedimentos mais marcantes do romance, o da intertextualidade. Sem forças para racionalizar a crise que enfrenta, o psiquiatra só consegue dar forma a determinadas impressões e sentimentos por meio das referências literárias: em um momento particularmente curioso, ele se compara à gaivota de Anton Tchekhov, aproximando a angústia da referida peça à escrita de F. Scott Fitzgerald. Estão presentes ainda nomes considerados centrais na literatura de Lobo Antunes, como Louis-Ferdinand Celine e Dylan Thomas, além de Cesário Verde, Luís de Camões, e até Charlie Parker e Paul Simon.

E as referências à música popular e a ícones da cultura pop, como John Wayne, não são discriminadas da cultura mais letrada. Da mesma forma, o tom elevado e solene de determinadas reflexões alterna-se com um rebaixamento de tom que pode beirar o escatológico, e expressões de repertório poético substituem palavras do mais baixo calão. Tais contradições compõem não apenas um quadro de oscilações de temperamento, como também a dificuldade em achar um registro que represente sua crise pessoal. Resultam dessas contradições laivos de uma cínica ironia, passível até mesmo de gerar humor, mesmo que amargo.

Mas a característica formal mais marcante de Memória de elefante é o ostensivo uso da linguagem metafórica, da prosopopéia, e da animalização de coisas e pessoas. A cidade é transfigurada metaforicamente, em um procedimento que já foi apontado (equivocadamente) como tributário do realismo mágico latino-americano. Alternam-se muitas metáforas visuais, algo absurdas, fruto de um estado de quase delírio. Assim, os óculos da arquivista do hospital "lhe aumentavam os olhos até às proporções de hirsutos insectos gigantescos cercados de enormes patas de pestanas"; os internos flutuam "na claridade das janelas como viajantes submarinos entre duas águas"; uma estante rotativa é um "pinheiro de metal adubado por um estrume de jornais de direita empilhados no chão"; e, na rua, os carros se movimentam lânguidos, "à maneira de grandes gatos ávidos, tripulados por senhores que envelheciam como as violetas murcham, numa doçura magoada". O resultado é de pesadelo.

O mundo do qual se está alheio se transforma, monstruosamente. Encadeiam-se idéias, imagens, em associações regidas pelo ritmo da memória, e que deixam entrever a angústia de não conseguir se comunicar, a assumida incapacidade em abandonar seu estado de isolamento interior, o adiamento constante de um novo início (que ainda é possível):

O psiquiatra desejou com desespero um esperanto que abolisse as distâncias exteriores e interiores que separam as pessoas, aparelho verbal capaz de abrir janelas de manhã nas fundas noites de cada criatura como certos poemas de Ezra Pound nos mostram de súbito os sótãos de nós mesmos num maravilhamento de revelação: a certeza de ter topado um companheiro de viagem em banco à primeira vista vazio e a alegria da partilha inesperada.

Talvez a saída seja mesmo escrever, apesar de tudo: não por acaso, no romance seguinte, Os cus de Judas, o protagonista assume a narrativa, em primeira pessoa. E foi assim com o próprio Lobo Antunes, que consolidou uma vasta produção literária, uma das mais originais dos últimos 30 anos.

Sobre o autor

Antonio Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. É psiquiatra e escritor, autor de cerca de 15 livros, entre eles Os cus de JudasBoa tarde às coisas aqui de baixo eEsplendor de Portugal. Lutou em Angola, na Guerra Colonial Portuguesa, entre os anos de 1970 e 1973, fato que marcou profundamente a sua obra.


por Gregório Dantas
em RascunhoO jornal de literatura do Brasil
Junho de 2006

28/09/2006

Jorge Mayer: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Leer a Lobo

Ler Lobo Antunes foi para mim uma experiência perturbadora. Isento de preconceitos e de boas intenções, numa manhã fria - não tão distante como quisera - não pude resistir ao chamamento de um volume - o pormenor de Os Amantes de René Magritte na capa - com um título que operou sobre mim uma espécie de encantamento: Eu Hei-de Amar Uma Pedra, engodo de uma frase do dogma da religião que escolhi professar. Amar uma pedra que nada pode dar em troca do meu amor, uma pedra que - preciosa ou não - nunca será mais que uma pedra. Todas as pedras, a pedra.

Leitor cego por uma curiosidade que confina com a anarquia, sem pensá-lo, lancei-me a ler os últimos parágrafos. Fi-lo como quem, sabendo-se envenenado, engole vorazmente a primeira coisa que se lhe pareça um antídoto. O acaso não podia ter feito por mim nada melhor. Levei com uma machadada certeira à altura de uns olhos que não chegaram a assombrar-se e já estavam feridos sem remédio. Tinham visto que o murro póstumo do escritor se permitia a uma última insolência, afinal credora da minha mais terna indignação.

Mas de que se valeu este livro - pensei - para dizer-me que se trata somente de um livro, para despedir-se de mim - à hora cinzenta das doze badaladas - que me sentia uma folha em branco, que guardava para ele todas as perguntas. Que desplante, que falta de respeito, que maus modos, fazê-lo sentir a um convidado de pedra, um intruso. Quem escreve isto, o que me está propondo. A fome pediu-me mais e para lhe valer contei os dias e as noites, as moedas e as privações, até que reuni todo o dinheiro para comprá-lo. Desde então tem andado comigo para toda a parte.

Quem é o Lobo? António Lobo Antunes é um prolífico romancista português, autor de títulos como Tratado das Paixões da AlmaA Ordem Natural das Coisas ou Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, médico psiquiatra de profissão, um tipo que aos quinze anos aprendeu a ser agradecido com o povo. A manifestação deu-se com a volta do correio de uma carta sua a Louis-Ferdinand Céline a propósito de Viagem Ao Fim da Noite.

Os livros de Lobo são o registo de uma paciência de ourives. Disse que trabalha até doze horas por dia. De manhã no estúdio de José, um seu primo, pintor, e quem sabe daí não haja a pretensão de igualar As Meninas de Velázquez, "a pintura das pinturas", como gosta de exemplificar; de tarde num consultório do hospital psiquiátrico onde dava as suas consultas, talvez buscando a resposta à pergunta deleuziana: que sanidade bastaria para libertar a vida lá onde está encarcerada no e pelo homem, nos e pelos organismos e os géneros?

O leitor não encontrará nos livros de Lobo a hospitalidade que gostaria de receber de um bom anfitrião. Pelo contrário, deverá lidar com enxames de palavras ligadas com uma gramática cheia de prodígios - Lobo dirá que isso que outros lêem como maravilha "é o que se teve de fazer para encontrar a solução para um problema técnico" - com que representa os atritos entre personagens atormentados por ambientes tensos. Muitas vozes são uma única voz que salta de eu em eu, de angústia em angústia, no dorso de um discurso que longe de esclarecer ao leitor acerca de situações e personagens forja uma espécie de cristal poético que desdenha todas as aparências. Sua escrita flúi. De novo Deleuze, que desta vez fala da escrita como fluxo: "um fluxo entre outros, sem nenhum privilégio diante dos outros, e que mantém relações corrente e contracorrente ou de remoinho com outros fluxos de merda, de esperma, de diálogo, de acção, de erotismo, de dinheiro, de política, etc.".

Sobre que é Eu Hei-de Amar Uma Pedra? Isso é algo impossível de colocar em poucas palavras. Primeiro ocorreu-me que fosse um romance cheio de interrupções mas, talvez contagiado pela atmosfera do livro, comecei a colocar em dúvida cada uma das minhas convicções a seu respeito. É um romance e vários outros na sua vez, um romance que chove como um poema de meio milhar de páginas no qual se alternam vozes que denunciam medos  como estribilhos, como bordões. Que exige uma leitura que não se confine a desnudar uma intriga mas a acção inversa: juntar todos os pedaços estilhaçados  de um espelho e nesse caso a dificuldade antes aludida bem poderia ler-se como a última defesa que esboça um eu - desconhecido pelo leitor - antes de se ver reflectido.

Ler Lobo Antunes, finalmente, tem muito em comum com uma cura de sono. Basta passar uma noite de insónia invernal para comprovar que dormir é uma questão térmica. Só superando um limitado horizonte de tibieza é possível deixar-se conquistar. Mais próximo da linha do horizonte, mais profundo o sono. A partir daí, o suave declive até ao novo despertar - porque não nascer? - da intempérie.

por Jorge Mayer
12.06.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Da leitora Ana Martins: «Meu escritor de eleição!»

Meu escritor de eleição!

Gostava tanto de poder conversar dois minutos consigo só para olhar de frente os seus olhos belíssimos!

Desejo-lhe tudo de bom, tenho por si uma simpatia imensa e gostava muito que o meu filho um dia lesse os seus livros com o mesmo prazer com que eu o faço!

Ler os seus livros é entrar numa outra dimensão!

Ana


Ana Martins
e-mail de 28.09.2006

13/09/2006

Gonçalo Mira: opinião sobre Os Cus de Judas


Segundo romance a ser publicado por António Lobo Antunes, no mesmo ano de Memória de Elefante (1979), Os Cus de Judas mantém o cunho marcadamente autobiográfico. Se no primeiro romance se abordava mais a separação do autor da sua mulher e o seu trabalho enquanto psiquiatra, neste segundo romance o tema dominante é a guerra colonial em Angola, na qual António Lobo Antunes participou.
Logo aqui, Os Cus de Judas ganha pontos em relação ao seu antecessor: a guerra colonial é, sem grandes dúvidas, um tema bastante mais forte. Embora o livro principie com um ritmo mais lento, acaba por assumir uma maior velocidade à medida que a guerra vai assumindo o papel principal da narrativa. A história é narrada por um homem (a personagem autobiográfica) que se dirige a uma mulher que este tenta conquistar. Desenrolam-se então em paralelo as duas acções: a do homem com a mulher e a do passado do homem na guerra colonial.

Estilisticamente, Os Cus de Judas difere muito pouco de Memória de Elefante e estão ambos ainda longe do estilo que actualmente caracteriza a escrita deste autor. Eu confesso-me um grande admirador de Lobo Antunes e aprecio bastante o seu estilo dos primeiros romances. No entanto, acredito que os romances mais recentes são livros melhores, se é que se pode classificar livros desta forma.

Neste romance há uma guerra que não faz sentido, há pequenos pormenores que a descrevem muito melhor do que os traços gerais. Lobo Antunes é um pouco isto: o constatar da importância dos pormenores e, acima de tudo, da sua maior importância relativamente aos traços gerais. Resumir uma guerra em meia dúzia de factos pode ser útil, mas dizer quantos milhares ou milhões de mortos houve, nunca causará tanto impacto como os pormenores de determinadas mortes. É que, quer queiramos quer não, um número nunca deixa de ser um número e um pormenor facilmente se transforma numa imagem. E António Lobo Antunes parece sabê-lo muito bem.

Os Cus de Judas é um grande livro de um grande autor da língua portuguesa contemporânea.

por Gonçalo Mira
13.06.2006

11/09/2006

Moacyr Godoy Moreira: opinião sobre Memória de Elefante


“Entre a Angola que perdera e a Lisboa que não reganhara, o médico sentia-se duplamente órfão (...) Fizera da vida uma camisola de forças em que se lhe tornava impossível mover-se atado pelas correias do desgosto de si próprio e do isolamento que o impregnava de uma amarga tristeza sem manhãs...”

Assim caracteriza-se o protagonista de Memória de elefante, livro de estreia de António Lobo Antunes, recém lançado no Brasil com 26 anos de atraso. Já bastante conhecido por aqui, a obra demonstra a força narrativa do autor português, um dos mais traduzidos e respeitados em terras ao redor do globo. A quarta capa do volume ressalta, a propósito, uma citação da revista Vogue: “O maior escritor vivo da língua portuguesa.” Critérios de valor à parte, trata-se de um escritor com amplo domínio técnico e que produz livros de particular força inventiva e narrativa.

Considerado pelo próprio autor como parte de uma trilogia, junto com Os cus de Judas e O esplendor de Portugal, que seriam na verdade um único romance em três partes, Memória de elefante narra um dia na vida de um psiquiatra de Lisboa, mergulhado nas tramas do passado em busca de elementos que o façam sentir-se vivo. A existência angustiante que tortura o personagem, assombrado pela culpa da separação da mulher e a distância insustentável das duas filhas, o ambiente profissional degradado no qual segue imerso e as rememoração da infância e adolescência, também conturbadas, alinhavam os movimentos lentificados deste homem, ao largo do dia que dolorosamente se desenrola.

Mesmo em meio à degradação humana, imagens de dentes postiços, gengivas nuas e dentaduras, e a abundância de termos como melancolia, tristeza e solidão, há esparsos momentos de beleza: “Uma claridade mediterrânea aureolava as grades da varanda como se banhassem num aquário iluminado pela lâmpada intensíssima de uma primavera irreal.” E mais adiante: “ E lembrou-se do momento exacto antes da ejaculação, quando o corpo, transformado numa vaga que sobe em sucessivos roldões de prazer, cada vez mais forte, mais pesada, mais densa, estoira de súbito numa explosão de espuma do tamanho do mundo, em que pedaços nossos voam independentes de nós para cada canto do lençol, e adormecemos liquefeitos, numa moleza sem cor, náufragos jubilosos da ternura.”

Porém o leitor vai, ao longo do volume, deparar-se muito mais com a dor, a incompreensão e a incompletude constitutiva que assola a personagem, que belas paisagens lusitanas ou momentos de deleite. Há mesmo instantes beirando o desespero que assombra as tendências suicidas, aqui e ali.

Ao contrário do herói problemático de Lukács, que caracteriza o romance romântico e realista, o médico aqui, mergulha cada vez mais em florestas de incertezas e desconecta-se significativamente de um projeto supostamente edificante proposto pelos autores do século XIX. Considerando-se o contexto em que surge o livro, o aspecto de modernidade do texto multiplica-se de maneira notável, visto que surgiu imediatamente após a Revolução dos Cravos, momento memorável em que Portugal livrou-se da nefasta ditadura de Salazar.

Neste nascer de uma nova nação, empenhada em fazer-se destituída do ranço do totalitarismo, a fragmentação narrativa que surge em variados momentos (“e de repente vi-me multiplicado até à náusea nos espelhos biselados, dezenas de eus aflitos mirando-se uns aos outros em pasmo de pavor”; “como se o cotovelo da esquerda e o da direita funcionassem como talas que agüentavam unindo os ossos estilhaçados de seu desespero e os impediam de se espalhar no chão”) reflete a fragmentação da estrutura psicológica das personagens, que numa leitura sustentada por pensadores como Theodor Adorno e Walter Benjamin, permitem acessar o conteúdo oculto da história recente do país, possibilitando reconstruir verdadeiramente a devastação causada pela violência política progressiva.

A angústia do personagem exacerba-se ao lembrar as filhas e da situação atual, após a separação: “A imagem das filhas, visitadas aos domingo numa quase furtividade de licença de caserna, atravessou-lhe obliquamente a cabeça num desses feixes de luz poeirenta que os postigos do sótão transformaram numa espécie triste de alegria.” Em meio à dificuldade de lidar com a situação insustentável da rotina trabalho-lembranças-culpas, o narrador segue como que em transe, colado ao personagem, como se a narrativa fosse em primeira pessoa, sobrevivendo mais que vivenciando suas experiências. Em seus diálogos imaginários com a ex-mulher, torna-se cada vez mais perturbado, odiando a pessoa de Dylan Thomas, por exemplo, poeta por quem ela nutria grande admiração, em termos literários.

A névoa da perturbação adensa-se e o onírico, a memória e os fatos reais passam a não ter um limite muito claro, misturando-se; fluindo de um domínio a outro sem a preocupação da lógica, lógica esta que inexiste quando se trata do universo interior e abalado pelo sofrimento que habita o íntimo de cada um de nós.


por Moacyr Godoy Moreira
10.08.2006

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...