2 de setembro de 2006

«Isto parece um namoro, é impublicável»


Selecções Reader's Digest
Entrevista de Anabela Mota Ribeiro
Verão 2006


Nesta entrevista fala-se da generosidade, do medo e da atenção ao outro.


António Lobo Antunes é o escritor que quer meter a vida toda num livro, num gesto, numa expressão. Traduz magistralmente, em livros inclassificáveis, a essência do humano, na sua grandeza e miséria.

Nesta entrevista fala-se de generosidade, do medo, da atenção ao outro. Fala-se dos livros e das razões por que vale a pena viver. E da eternidade.

Nasceu em Lisboa, licenciou-se em Medicina, tem três filhas. Passou dos 60. É publicado no mundo inteiro, com sucesso e prestígio inquestionáveis. Escreve numa letra miudinha. Está mais magro!

Dantes, arquitectava os livros; agora, quer desaprender de escrever para que a mão siga livremente e o livro se revele ele mesmo.
O livro falhava o plano, ia em direcções diferentes daquilo que tinha imaginado. Tornava-se um organismo vivo, com as suas ideias próprias, com uma maneira de ser e uma fisionomia. Exigências, diferentes texturas. Neste livro que vou publicar agora, a única ideia que tinha era: como é que a noite se transforma em manhã. Não tinha mais nada na cabeça. Depois, o problema é o começar. Tem imensas falsas partidas, a gente faz uma, e duas, e três, e quatro, e cinco, até o livro encontrar o caminho dele. Há pessoas que falam em livros polifónicos; a mim parece-me sempre a mesma voz. Que vem ao longo dos livros e vai ganhando modulações diferentes.

Os seus romances têm vários «eus» que comunicam?
Eles não são romances.

Então, são solilóquios? Diários?
Não sei. Tenho que arranjar uma definição para aquilo. Parecem sonhos, não é? O romance para mim implica uma história, uma determinada estrutura. Claro que a Memória de Elefante, o Fado Alexandrino são romances nesse sentido. Estes não têm nada que ver com isso, não sei o que são. São livros.

Eu gostava de perceber a relação de prazer, de descoberta, de espanto que mantém agora com a vida.
Não sei se mantenho: tenho, às vezes.

Parece uma relação mais jubilatória.
Não sou muito expansivo para fora, e às vezes sou para dentro, mas é um bocado assustador.

Porque é que é assustador?
Porque uma pessoa fica vulnerável. Fica toda nua. E ao tocarem-lhe, tocam-lhe por dentro da pele. Como se estivesse tudo à vista, como se não fosse possível ocultar nada. Mas isso também acontece quando a gente olha para os outros. Olhar para ver. Quando comecei a dieta, de repente tornei-me diferente. Implicou um sacrifício enorme ...

O que é que o fez começar a dieta?
 ... deixar as porcarias todas que gostava de comer, quando estava a escrever a meio da noite e as coisas não me estavam a correr bem. Mamava uma tablete de chocolate inteira, bolachas e bolos e não sei quê.

Saboreava o chocolate ou anulava a frustração?
Nunca me senti frustrado a escrever, a vida tem sido generosa comigo. Tenho estes momentos de alegria tão intensos. Há alturas em que, quando as palavras são aquelas, está-se a escrever e a chorar ao mesmo tempo. Já me aconteceu.

Isso já me aconteceu ao ler um livro seu.
Mas são momentos tão raros, é uma alegria tão rara. Parece que é um anjo que está a fazer aquilo pela sua mão, e era exactamente aquilo. Eu não sabia que sabia. Como as crianças que sabem mais do que pensam. Acontece com certas pessoas. Ontem estava a olhar uma senhora velhota, toda deformada, quando estava a andar. Eram oito e meia, ainda era de dia. E, caramba, a velhice é tão injusta, a decadência é tão injusta! Eles não mereciam ser aquilo. Nessas caras, há de vez em quando um olhar, um gesto, e aparece a pessoa que é de facto, que está escondida por baixo daquelas roupas, daquelas deformações dos ossos. O terrível não é ser velho, é envelhecer.

O que é envelhecer? É perder a ingenuidade?
A vida trata mal as pessoas, a vida é tão injusta. Tenho conhecido hospitais, tenho ido lá como doente, e vejo ali centenas de pessoas. Olhamos para elas e vemos o terror e a solidão, enormes, ali, em todas as idades. E os médicos passam sem olhar. Quando era interno, fazia a mesma coisa, passava com a bata por aquela gente que estava ali indefesa, à mercê.

Está a dizer-me que estima cada vez mais a generosidade?
Eu não. A gente é que a vê cada vez mais à volta. As pessoas não são assim tão más. Os maus verdadeiros, puros, é raro encontrá-los. Às vezes, entrelaçam as pernas nas nossas e ficamos muito espantados por não conseguirmos livrar-nos deles.

Perguntei-lhe porque é que começou a dieta.
Porque me estava a desrespeitar demais. E apetecia-me voltar a ser bonito. É engraçado, agora vejo outra vez os olhos das mulheres na rua. Coisa inocente, não é?

Olham para si porque sabem que é o António Lobo Antunes.
Sabem lá quem é o António Lobo Antunes neste bairro! Não sabem. Não sou locutor de televisão, nada disso. Faço redacções e ninguém me vê nunca nos sítios.

Está a posar.
Não, não, estou a falar o mais sinceramente que há. Olhe para estes tipos da tasca onde costumo ir comer: não sabem quem eu sou, felizmente.

Porque é que procura o anonimato?
Sou uma pessoa anónima. Não tenho nenhuma importância colectiva. Faço uns livros que espero que daqui a 500 anos ainda dêem trabalho aos críticos. Já cá não estou para ver. Como os Jerónimos. Entre o Camões e o Vasco da Gama! Vivemos em função de eternidades, de maneira que não morremos nunca. Por exemplo, a minha mãe: são eternidades de um ano, dois anos ou cinco anos. Quando temos 20 anos, vivemos em função de eternidades que nunca vão passar. O que é tremendo é ver um muro no fim da estrada. E para a maior parte das pessoas o muro pode estar a uma distância de três metros, mas esses três metros não vão passar nunca. Olhe a Maria Antonieta no cadafalso, a dizer para o carrasco: «Só mais um minuto, senhor carrasco.» Aquele minuto, para ela, era uma vida inteira.

Sonha com a sua morte?
Não. Ultimamente, desde o almoço (com camaradas da guerra), ando a sonhar com a guerra – isso é muito desagradável. Em regra, nunca me lembro dos sonhos. Tenho tanta coisa dentro de mim ... Agora, acabei um livro e não tenho nada dentro de mim. Estou aqui tão pobre como um morto. E não sei o que vou fazer depois, vou-me aborrecer aí durante dois ou três meses. E ficar cheio de medo de não ser capaz de fazer mais nada, de escrever mais nada. É um medo constante.

O que é que o entretém quando não está a escrever? Quando está a escrever, isso justifica as horas.
Mesmo quando estou a escrever, faço outras coisas. Claro que faço outras coisas, também vivo.

Pensei que escrever era viver.
Quando estou sem fazer nada, sinto-me culpado, são muitas horas. É como se me tivessem dado uma coisa que eu tinha que transmitir, e sinto-me infiel. Depois, vejo toda a gente a trabalhar menos. Tenho muito tempo para ler, mas a maior parte dos livros aborrecem-me. Dão-me vontade de começar a corrigir. Sei lá o que é que faço mais... Olho para as coisas. Não tenho os passatempos que as outras pessoas têm, não jogo cartas, nunca fui à Internet.

Não teme a solidão?
A solidão não me custa, nunca me custou. Éramos muitos irmãos, mas eu brincava sozinho. E gosto muito da minha família, tive muita sorte. Tentaram tirar-me o menos possível. O problema da educação não é tanto o que dá, é o que tira. Não sei se era fácil ou não lidar comigo. Ao contrário dos outros, não era bom aluno, não ia às aulas, tinha um comportamento permanentemente transgressivo. Isso não devia ser confortável para os pais, os pais querem que a gente tire um curso. Eu disse ao meu pai que queria trabalhar numa biblioteca itinerante da Gulbenkian. Já viu o que era ter aqueles livros todos para ler?

Ele sentiria vergonha de o filho escolher um caminho assim?
Ele disse-me: «Ah, se tu queres ser escritor, o melhor é tirares um curso técnico, talvez te ensine a pensar ou te discipline o estudo.» Ele tinha razão. Os primeiros anos do curso (de Medicina) não gostei porque era cadáver, cadáver, cadáver. Mas depois, nos últimos anos, quando comecei a ver as pessoas que sofrem, aí, sim, tornou-se apaixonante.

O sofrimento dos outros desperta a ternura, que é um sentimento essencial em si.Não, porque eu não era capaz de a mostrar.

Mas sentia-a ou não?
Às vezes, sentia-me indignado. Por exemplo, no estágio de pediatria puseram-me ao serviço de crianças com doenças terminais. Porque é que crianças de três, quatro anos, iam morrer e sofriam tanto, a chamarem aos gritos pela injecção de morfina? Qual o sentido disto? A pessoa zangava-se com Deus. Eu zangava-me. Contei isto numa crónica: um miúdo de que gostava muito morreu. O empregado embrulhou-o num lençol. Eu estava na porta das enfermarias e vi o homem afastar-se com o miúdo morto ao colo, e um dos pés dele saía do lençol. Isto continua dentro de mim. Como é que vou tirar isto fora? Às vezes, penso que escrevo para este pé. Chamava-se José Francisco, nunca mais esqueci. Sensação de impotência, não podia fazer nada por ele. E era tão alegre.

Houve um tempo em que foi «tão alegre»?
Sempre fui mais ou menos como sou agora. É preciso estar com atenção, porque manifesto pouco. É por pudor. Tenho um pudor muito grande, sempre. É terrível as pessoas que têm um coração debaixo de cada objecto.

Ainda não conseguiu pôr fora o pudor?
Ai, isso espero mantê-lo. Não quero dar às pessoas aquilo que elas não querem – é desconfortável. Como quando deixa de gostar de alguém e dorme na beirinha da cama na esperança de que não lhe toquem. Nunca lhe aconteceu?

Não, felizmente.
Há-de acontecer.

Espero que não.
Já sabia que ia dizer isso. Ou os amigos que telefonam a dizer: «Há que tempos que não te vejo, anda almoçar comigo», e não lhe apetece nada. Às vezes não se sabe que afinal não se tinha vontade. E depois não quer ser indelicada. Como ir embora sem magoar as pessoas sem que elas se sintam abandonadas? É um sentimento tão intenso, levamos a vida a ser abandonados, todos nós. Todos guardamos dentro de nós uma criança triste. A maior parte das vidas não tomamos atenção a esta criança, com uma sede inextinguível de amor, de ternura, de atenção. Mozart, naquele concerto que deu para a corte francesa, toda a gente aplaudia e ele foi a correr sentar-se ao colo da Maria Antonieta, aimez-moi, aimez-moi. Em todos nós existe isto. A vontade que gostem de nós incondicionalmente.

Sublinho o «incondicionalmente».
Mas é. Até ao fim. Faça a gente o que fizer. Temos sempre a sensação de que as pessoas que gostavam de nós assim já cá não estão, já morreram, e não é verdade.

Porque é que há um desfasamento entre a sua imagem pública e aquilo que realmente é?
As pessoas inventam. Nunca me viu com mau feitio. Não sei o que é que pensam. A mim não me dizem.

Então, digo eu: diz-se que está reconciliado com a vida e com as pessoas e que agora lhes dá oportunidade e espaço.
Eu não disse que estava reconciliado.

Houve um tempo em que estava recluso, misantropo, não falava com ninguém. As pessoas vão lá saber como é que eu estou! Têm mais que fazer. As pessoas não se preocupam connosco. Há um pequeno grupo de pessoas que gostam de nós, muito pequeno. Para a maior parte das pessoas, somos completamente indiferentes, como é natural.

O que está a dizer é que mesmo aquelas que se interessam pelo Lobo Antunes escritor, que o admiram, não se interessam pelo seu íntimo reduto. Eu não vejo as caras das pessoas que me lêem. Vejo na Feira do Livro ou no estrangeiro quando assino livros, coisas assim. É muito agradável ver as caras das pessoas, vê-las, existem. Há muita gente nova e sinto-me grato, porque me permitem viver disto, viver de escrever. Uma vez, numa sessão de autógrafos, há uns anos, um homem pousou o livro e disse-me: «Ponha aí o seu nome, porque sou eu que lhe pago para você viver.» Tinha toda a razão: se ele não comprasse os livros, eu não podia viver deles. Fui no sábado à Feira do Livro e vi pessoas, mas depois não há tempo para conversar, as pessoas de trás têm pressa e fazem bicha. Acho que fiz sempre mais ou menos como agora.

Mas as pessoas achavam que era outro: inacessível, maldisposto, vaidoso. Sabe, as pessoas são muito especiais. Foram dizer à minha mãe há uns tempos que o meu irmão João operava bêbado. Ele nunca bebeu. Normalmente, não falam para dizer bem. O Oliveira Martins dizia do Costa Cabral: «Pelo ódio que lhe tinham se media o seu tamanho.» Mas não há nenhum motivo para me odiarem, não tenho nenhuma importância.

A inveja é um grande motivo.
Sim, mas é um sentimento que se autodestrói. Ninguém sofre tanto como um invejoso. E sofre cada vez mais com aquilo que imagina que são os sucessos do objecto de inveja. E mal eles sabem que a maior parte das vezes o objecto de inveja está cheio de dúvidas e tem mais incertezas do que ele acerca de si mesmo ...

Tem cada vez mais dúvidas?
Claro que sim. Não tenho muitas gloriosas certezas. Não tenho nenhumas, quase. Somos tão contraditórios ...

É extraordinário quando descobrimos que temos tempestades dentro de nós e que não o sabíamos.
Uma guerra civil permanente. Se a Emily Brontë fosse viva, estava apaixonado por ela, queria conhecê-la e estar com ela. Claro que sim, uma mulher que tem aquilo tudo nas tripas ... É como se estivéssemos cheios de cães que se mordem, que lutam uns com os outros. E as pessoas olham para nós por fora, e se não olharem com atenção... Ainda bem que às vezes não olham com atenção. E agora? Tem aí as perguntinhas todas (na folha que tenho no colo)?

Quais perguntas? Isto são coisas que disse e escreveu e que eu recolhi. Disse uma coisa espantosa: «Toda a nossa vida é como escrever sem borracha.»
Não pode voltar atrás e apagar. É uma pena. A quantidade de asneiras que fiz. Coisas seguramente inúteis, a mim e a outros, falta de atenção. Perdoo cada vez menos: egoísmos, coisas mal feitas. Fiz tanta asneira. Voltar atrás é impossível.

O que é que gostaria de poder refazer?
Se voltasse atrás? Acho que teria vivido tudo da mesma maneira. Não faço a menor ideia. Não tinha fugido quando a minha avó me dava a mão e eu ficava todo hirto. Me dava a mão à mesa. Me fazia festas nas mãos e eu via as mãos dela, tinha rugas. E ficava muito aflito.

Aflito porquê e hirto porquê?
Porque quando nos dão a mão de uma maneira desinteressada desconfiamos sempre. Achamos que há alguma coisa por trás. Ela, coitada, o que é que podia querer de mim? Não tinha nada para lhe dar, era um miúdo.

Já me tinha ocorrido a palavra «gratuito».
Para ela era sempre sentido, era amor. E eu talvez me assustasse de tanto amor. Isso assusta-nos, ficamos desprevenidos em face disso. A generosidade não é muito frequente e o amor também não. Quando o meu avô me abraçava na rua e me dava beijos, eu pensava: «Vão pensar que somos um casal de maricas», e esperava que aquilo acabasse o mais depressa possível. E agora tenho umas saudades loucas de quando ele me punha a mão no pescoço. E dizia «António», que era o nome dele também, de uma maneira tão boa. Ou quando telefonava para o meu pai e o meu pai tinha uma voz maravilhosa.

Sente muitas saudades do seu pai?
Não. Nem sei o que sinto por ele. Alguma inveja, porque nunca se aborreceu e tinha uma grande capacidade de entusiasmo. É evidente que foi importante para mim. Escrevi uma crónica quando morreu (há dois anos) que diz exactamente o que sinto por ele, e não mudou. A palavra «amor» não sei se é uma palavra que possa aplicar. Deixou-me muitas coisas escritas sobre ele. Fez-me impressão porque nunca tínhamos conversado. Na minha família não se falava das coisas íntimas. É tudo ...

Tácito?
Sim, undersaid. E havia um grande pudor. Então, acerca do sofrimento,..., era uma coisa em que não se falava. Talvez fosse uma forma de elegância. Mas eu sentia alguma falta disso. Apetecia-me pôr a cabeça num colo, mas nunca havia muitos colos disponíveis, nunca há. Ou então há e nós temos medo de lá pôr a cabeça. Ou que ponham a cabeça no nosso.

Há pouco estava a dizer que não queria perder o pudor ...
Ah, mas há momentos em que me apetece perder completamente. E sentir pele e cheiro e carne e mãos.

E humanidade.
Mais do que isso. Uma vida toda em uníssono com a minha. [Hesitação.]

O que é que ia dizer?
Parvoíces. Isso não pode aparecer nos jornais.

Porquê?
Porque as pessoas têm direito aos livros, não têm direito a mim. Isto não parece uma entrevista, parece um namoro. É impublicável.

Está a tentar namorar comigo?
Não. Sei lá. Acho que não se tenta namorar, ou se namora ou não se namora.

Eu não entendo isto como um namoro.
As pessoas não são para se cercar como fortalezas sem víveres. São para se entrar lá dentro. Não é ficar à espera de que elas morram à fome dentro da cidade. Quando estava a falar em namoro, estava a falar em dizer coisas que normalmente não se dizem para os jornais.

Na entrevista, há momentos em que vai falando cada vez mais baixo, cada vez mais baixo; e existe uma coincidência entre o tom e a interioridade daquilo que vai dizendo.Sempre falei baixo porque cresci num sítio em que se gritava muito. Desde criança que tenho horror a gritos. Não devo ter gritado mais do que três ou quatro vezes na vida.

O que é que foi tão grave que o fez gritar e perder a cabeça?
Das poucas vezes em que me impaciento é com o automóvel. A vez em que me enfureci mais foi na guerra. Por causa de um oficial aconteceram coisas más. Eu pensava que a expressão «borrar-se de medo» fosse uma figura de retórica, e afinal é verdade. O espectáculo da cobardia física é horrível.

Tinha medo?
Claro que tinha medo, tinha medo que me fartava. Mas a certa altura deixei de ter medo e as coisas passaram a correr melhor. Por exemplo, houve uma altura em que éramos bombardeados sempre às onze da noite. Comia-se às cinco, porque às seis era noite naquele sítio, perto do equador. E até às onze horas, até começar a metralhadora a que a gente chamava «a costureirinha», taque-taque-taque, era uma ansiedade muito grande. Depois, uma calma enorme. Esses momentos de espera eram terríveis. Gritei essa vez, pouco mais. A pessoa, quando grita, fica feia. Os olhos desorbitam, ficam caras estranhíssimas.

E fica-se cansado, exaurido, sobretudo se é tão raro.Não sei, é uma experiência que não tenho. Cresci num bairro pobre. As mães chamavam os filhos aos gritos, ouviam-se na rua. Ou maridos que voltavam bêbados e havia cenas descomunais. Esses ainda os oiço, esses gritos.

Pareciam-lhe gritos de afectuosidade, esses das mães que chamavam os filhos?Não eram de afecto, elas estavam era furiosas.

Mas queriam-nos com fúria. Imagino que isto contrastasse com a sua experiência.Na minha família também gritavam que se fartavam, do lado do meu pai; do lado da minha mãe, as pessoas eram mais calmas. Era tudo vivido com grande rebuliço, cenas, discussões. Tenho uma memória mais ou menos vaga disso.

Outra frase sua: «Inquieta-me o tempo que tenho à frente. [Sinto] uma angústia que tento preencher com trabalho.»
A gente não diz as coisas assim. As entrevistas são situações muito peculiares. Há sempre uma certa tendência para posar de perfil, para dar uma imagem boa ao jornalista e através do jornalista às pessoas que irão ver ou ler. São situações muito artificiais. É difícil que a pessoa seja realmente aquilo que é.

Queremos sempre que gostem de nós, no fim de contas ...
Não sei bem se é gostar ... Acaba por ser, mas é um tipo de gostar que é pouco importante.

Eu achei que íamos falar sobre inocência e medo.
Então, fale.

Gosta de falar disso?
Se gosto? Não. Desde que começámos, estou ansioso que isto acabe.

É assim tão desagradável?
É. Não é a vida. A Anabela a fazer o papel de jornalista, e eu a fazer o papel de escritor que está a falar de coisas. Não é essa a imagem que eu tenho de mim para mim mesmo.

Então acabamos.
Acho óptimo.


citado do site das Selecções Reader's Digest
Verão de 2006

1 de setembro de 2006

Palabras que se evaporan, por Jesus Aguado (El País) acerca de Fado Alexandrino

edición Mondadori, 2006
António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) es uno de los mayores poetas de la literatura contemporánea. Aunque su carrera la haya hecho como novelista - y también, vaya esto por delante, sea uno de los escasísimos grandes de la novela actual -, en su obra hay tal densidad poética, ese amor a la palabra recién nacida y ese dejarse fecundar por la imagen y el ritmo que emanan de ella, que la sensación que queda después de leerla se parece mucho a esa especie de estupor iniciático que siempre produce un buen poema. Esta cualidad la comparte con Paradiso, La muerte de Virgilio, La búsqueda del santo grial o El Kalevala, libros en los que se siente respirar al lenguaje a medida que éste se cuenta en voz alta una historia, y en los que el relato no se construye según modelos arquitectónicos sino biológicos -el revoloteo de la mariposa, el rizoma, el zigzag de los cardúmenes, el descenso de la lava-, algo a lo que aspira la mejor poesía. En las entrevistas Lobo Antunes afirma de manera reiterada que le hubiera gustado ser poeta porque entonces no habría perdido el tiempo escribiendo novelas, lo cual no deja de sonar extraño: en Esplendor de Portugal, Buenas tardes a las cosas de ahí abajo, En el culo del mundo, Exhortación a los cocodrilos, Yo he de amar a una piedra o Fado alejandrino hay tanta poesía que uno sale de su inmersión en ellos tambaleándose como de un sueño, de una visión o de una enfermedad.

Fado alejandrino, el quinto libro de António Lobo Antunes, que ahora se reedita en España con nueva traducción, fue el primero que obtuvo un gran éxito de crítica, el que lanzó a su autor al escenario internacional. En él cuatro militares de distinta graduación y clase social se reúnen, después de muchos años, en un burdel para recordar, mientras se emborrachan, su participación en la guerra de Mozambique, repasar sus peripecias personales desde entonces y contarnos cómo les ha afectado la evolución de Portugal, que, además del cruel proceso de descolonización de sus posesiones en África, viviera en abril de 1974 la Revolución de los Claveles contra la dictadura de Caetano. Sobre este fondo, estructurado en tres partes - antes, durante y después de la Revolución-, Lobo Antunes construye una novela coral en la que las voces de los protagonistas se van amalgamando, o devorando mutuamente, hasta escucharse como una única voz, como un único murmullo: el amargo inconsciente colectivo de varias generaciones portuguesas desmenuzadas por la guerra, el fascismo y el posterior desencanto con la democracia. La desilusión de unas existencias truncadas y la tristeza por una revolución que prometió más de lo que dio, tema también de Manual de inquisidores, dando un manotazo al puzle bien encajado de la realidad y de la historia: el desorden de piezas - tiempos verbales, personas del verbo, cronología de los hechos - como crítica a la verdad oficial y como propuesta de un orden más justo no impuesto desde arriba, desde las instituciones, sino desde abajo, desde los individuos. Y todo ello sin resquicio para la esperanza, sin connivencia con la posibilidad de un futuro mejor porque éste siempre acaba echando sus raíces en el pasado tenebroso. (En esto se diferencia de En el culo del mundo, novela que es en tantas cosas antecedente de Fado alejandrino, donde el horror de la guerra de Angola experimentado por el protagonista confía en poder cauterizarse con el amor o por lo menos con la comunicación).

Con Fado alejandrino pasa como con muchos de los otros libros de Lobo Antunes: a medida que uno avanza por ellos le queda la sensación de que las palabras se evaporan, de que se van condensando a causa de un calor que ponen a medias el texto y el lector. Palabras que se fugan a su origen después de iluminarnos, palabras que desaparecen para dejarnos dormidos entre las sábanas de las páginas blancas. ¿No es esto poesía, la razón de ser de cualquier poema?


por Jesus Aguado
en El País
12.08.2006

31 de agosto de 2006

Lourenço Bray: opinião sobre Fado Alexandrino


A melhor escrita resulta essencialmente de um desequilíbrio. É por isso verdade o velho cliché de que as pessoas quando estão “deprimidas” ou em estados considerados frágeis criam mais, estão num estado mais introspectivo e por isso mais próximas das questões básicas do quem sou eu, de onde vim e para onde vou. Porque precisam de pensar nisso. Se a vida fosse feita de praia, surf, peixinho fresco assado, bom vinho, fogueiras crepitantes onde um grupo de eternos jovens se reúne para tocar guitarra e fumar cigarros que não dão cancro no pulmão, de olhos postos nas faúlhas de fogo que espiralam em direcção ao firmamento, se fosse assim, a literatura morria.

O escritor reage ao que o rodeia, transformando as suas experiências em escrita. A experiência de vida, a par da leitura, é fundamental para a escrita. É muito difícil escrever algo com substância com menos de 30 anos porque não se viveu o suficiente, nem se leu o suficiente. O escritor quase nunca pode agir para se rodear daquilo que em princípio o estimulará a escrever textos melhores, isso é a vida que escolhe. A vida do Lobo Antunes estará marcada por experiências extremas, elas aparecem no Fado Alexandrino. Não há limites, Lobo Antunes escalpeliza as relações humanas como se lhes fizesse autópsias e sentimos que estamos perante um limite da arte: a perfeição. Não existe outro escritor que domine melhor a escrita e a palavra como Lobo Antunes. Se fizessem o equivalente no cinema seria algo do calibre de um Ingmar Bergman.

Mas quero evitar autopsiar eu o Fado Alexandrino até porque não tenho jeito para isso. O problema evidente que a obra de Lobo Antunes suscita a qualquer escritor é que se pode ler muito e ser culto mas que não se pode fugir de uma vida completamente banal, estéril e desinteressante. Pode-se transformar a literatura que se leu, e o cinema e tudo mais em textos, até em mais literatura, mas faltará sempre uma marca, uma voz única, uma espécie de assinatura de vida que distingue um grande escritor de um assim assim erudito que nunca consegue escrever uma só linha sincera.

É verdade que enfrentei estas 600 páginas do Fado Alexandrino com o incentivo extra do livro me ter sido oferecido pelo Lobo Antunes na futuramente mítica sessão de autógrafos da Feira do Livro.

Estava um pouco amuado com ele, comecei a ler o Esplendor de Portugal e desisti às 100 páginas, aborrecido de morte com “mais do mesmo”. O Lobo Antunes exige uma aprendizagem progressiva para a sua linguagem e universo muito particulares. Este Fado Alexandrino é um excelente ponto de partida. Fica-se viciado. Não conhecem viciados em Lobo Antunes? Aquelas pessoas que estão sempre a ler um livro de Lobo Antunes? (…)

 
Lourenço Bray
04.07.2006

30 de agosto de 2006

Da leitora Conceição Ramos-Lopes: «Apetece-me chamar-te Estrangeiro»

Apetece-me chamar-te Estrangeiro
mas não te sigo
é madrugada agora
e diluo-me de te não ter
Das janelas dos teus olhos
nasceu uma vela branca
e a tua língua
escorreu uma gaivota
Os teus braços
desfraldaram mares de espuma
e um medo azul
ancorou-me a este cais
onde acenas sem partir

Amanheceu e eu já não sou
 
A António Lobo Antunes

Conceição Ramos-Lopes
e-mail de 30.08.2006

29 de agosto de 2006

José Romero P. Seguín: Impressões sobre o romance «El Resplandor de Portugal»


Ler o romance de António Lobo Antunes, "O Esplendor de Portugal", é como ler espelhos inquietos. Mas não num lugar asséptico, cómodo e decente para tão plácida tarefa, mas sim lê-los de pé ou de cócoras lá onde eles apodrecem já esquecidos e também lá onde mal vivem não menos esquecidos.

Luanda e Lisboa, Lisboa e Luanda, África e Europa definitivamente, malditas ambas na sombria e decadente imagem da memória ao menor fulgor de esperança. Assim são as personagens. Sente-se que as imagens entram e saem em si confundidas como na forja do espelho corrompido as silhuetas que não sabem onde começa a sombra que são e a sombra que foram. Para ir dotando de sentido o que não tem sentido, das vidas derrotadas para lá da culpa. Vidas atadas a um esplendor urdido sobre a miséria dos outros e como tal miserável.

África ofereceu-lhes para além da ambiciosa oportunidade de medrar economicamente, a possibilidade de serem um grotesco arremedo desse estatuto de dignidade que na orgulhosa e decrépita Europa lhes era negado. Procuravam, e assim o exprimem, em África, algo mais que riqueza, a estima social, a necessária reafirmação pessoal da sua singular condição, e um dia descobrem nos fracos e humilhados olhos dos negros que os servem e que não são senão os negros dos brancos filhos da metrópole. E o que é mais terrível, é que em tão pobre viagem tenham dilapidado não só as suas vidas como também a de milhares de homens. Mas como compreendê-lo, simplesmente não podem permitir-se a tal, devem-se à legítima vontade de sobreviver, e que melhor para eles que viver através da memória para recordar sem outra culpa que a de não permitir nunca que a imagem os mostre terríveis e completos no espelho de sua alma.

Os povos derrotam-se homem a homem, e uma vez derrotados, tudo quanto nasce das suas mãos é feito sob este terrível desígnio, até que homem a homem se levantam como povo, para um esplendor fugaz mas capaz de dotá-los da dignidade que como povo merecem. A colonização junto com a ditadura sufocou e derrotou Portugal, a revolução dos cravos elevou-o à mais digna das vitórias. Essa é uma flor oculta que Antunes não define, mas sobre a qual cimenta a magnífica catedral dos seus sonhos.


por José Romero P. Seguín, escritor
enviado por e-mail em 29.08.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

10 de agosto de 2006

Da leitora Conceição Ramos-Lopes: «Neo-»

Neo-


Olhos de se cumprir
um pouco
Portugal
Prosa sem cabresto
Páginas de génio
pessoano
a quantas (?) décadas
de intervalo
Olhos de destilar
surrealismo
Ou álcool
O fascínio
de recônditas
etílicas
profundezas
Associações
para mim
tudescas
Longínqua herança
de azul
e laivos de ouro
Associações...

Ao Escritor português meu fétiche.
Bruxelas, 1992

Conceição Ramos-Lopes
e-mail de 10.08.2006

16 de julho de 2006

Bruno Silva: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


A "Exortação aos Crocodilos" de António Lobo Antunes é um dos mais expoentes trabalhos na carreira deste escritor. O tipo de narração fragmentada é a marca distinta de um livro nada fácil de absorver, e que valeu a António Lobo Antunes a nomeação para Prémio Nobel da Literatura.

Atordoante, pelas múltiplas vozes narrativas, cria um texto delirante mas ao mesmo tempo belo, com uma assombrosa autenticidade estilística. A narração é feita exclusivamente por quatro mulheres que vivem engajadas no mundo de antigos polícias da PIDE que torturam comunistas e organizam atentados de direita movidos por um saudosismo do regime de Salazar. Mimi é surda e só consegue ouvir o som das coisas e não das pessoas, despojada de interesse é escolhida por um milionário para casar. Celina vê-se obrigada a casar ainda cedo com um homem mais velho, como vingança torna-se amante de um milionário (justamente o marido de Mimi). Fátima é sobrinha de um bispo conspirador. Simone, gorda e complexada, encontra alívio para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi.

Este trabalho, de Lobo Antunes, possui uma leitura ofegante, a qual nos permite o ingresso na estrutura psíquica das quatro mulheres. Poderíamos dizer, que inspira-se em cada signo o ar irrespirável daquele mundo execrável dos homens, que as mulheres habitam com uma sofreguidão pautada por cada pensamento, cada impulso, cada emoção ou uma mescla organizada e não gratuita de todas essas pulsões, ao mesmo tempo que consegue construir esses "imaginários femininos" com uma ternura e sensibilidade ímpares. Um estilo possuído por uma mestria soberba e que vicia. Um bom exemplo da literatura contemporânea portuguesa que revela domínio da linguagem e na construção romanesca.

A formação de psiquiatra de António Lobo Antunes tem papel preponderante nesta sua obra, que é um lampejo esquizofrénico, um surto de êxtase resultado de uma técnica espantosa. No final, ficamos com a impressão que de o livro não será igual numa segunda leitura e uma segunda leitura recomenda-se.


Bruno Silva
13.07.2006

11 de junho de 2006

Patrícia Camargo disserta sobre O Manual dos Inquisidores


Ascensão e queda: a questão da traição na obra O Manual dos Inquisidores de António Lobo Antunes

"O autor é o que dá à inquietante linguagem da ficção, as suas unidades, os seus nós de coerência, a sua inserção no real".
(Michel Foucault, A ordem do discurso, 1999) 1


O significado do texto literário é algo construído ou produzido, em um processo de interação entre duas partes: o texto e o leitor. O papel do leitor é seguir as instruções ou orientações do texto e produzir o seu sentido que não representa algo, mas possui o caráter do acontecimento. O leitor percebe o texto de uma maneira global. A experiência da leitura não se dá apenas pelo texto em si, nem só pela subjetividade do leitor. Trata-se da junção destes dois fatores, o que inicia o processo de construção de sentido, no texto. Segundo Barthes(apud COMPAGNON, 1996), o leitor deveria encarar o ato da leitura como uma investigação, uma busca por pistas para desvendar o texto, já Iser(apud COMPAGNON, 1996) procura pensar a leitura como uma viagem, ou seja, cada nova leitura possibilita o leitor verificar novos detalhes até então despercebidos, pois a cada viagem podemos mudar nosso modo de construir nossa visão sobre o objeto estético.

Tendo em mente as abordagens teóricas acima citadas, podemos notar que os procedimentos de escrita utilizados por António Lobo Antunes apontam para uma estrutura fragmentada, estilhaçada, numa construção de base contemporânea, possibilitando assim uma grande gama de leituras, pois o autor procura construir seus personagens em estado de relato, por meio de representações mnemônicas dos discursos, articulados como texto, com a finalidade de interrogar/denunciar a ficções públicas portuguesas.

Nesse sentido, o tema central dessa obra aponta para a questão do poder, seja a manutenção do poder, o desejo de poder, todas as nuances referentes à microfísica do poder, sempre numa dupla perspectiva: no plano das questões "emocionais" das personagens, bem como, no plano da retrospectiva histórica portuguesa (denúncia das ficções públicas construídas no período ditatorial do salazarismo).

Os personagens ao longo da trama procuram relatar suas imagens mentais rememorando o tempo passado e mesclando os vários momentos de suas vidas, tanto em relação aos momentos de ascensão como os de queda em relação ao poder, criando assim imagens sobrepostas que formam uma estrutura caledoscópica. Nessa teia de discursos que ao longo da trama se adensam cada vez mais, podemos elaborar um número vasto de análises partindo dos relatos de qualquer um desses personagens. Uma possível leitura da obra é aquela que se refere à questão da traição ao poder, ficando bastante evidenciada em relação aos relatos referentes à personagem Isabel e dos relatos que fazem referencia ao caso do General Humberto Delgado.

Na perspectiva da denúncia da ficção pública do período ditatorial salazarista, Lobo Antunes articula os discursos das personagens sempre com um olhar retrospectivo sobre os acontecimentos históricos entrelaçados em suas próprias memórias afetivas. Logo, o caso ocorrido com o General Humberto Delgado é apresentado ao leitor por meio de um jogo entre elementos do real (fatos históricos) e uma construção ficcional, ou seja, através do relato do personagem Tomás, o motorista do ministro Francisco, que indagado por um suposto "interrogador", conta como esse episódio ocorreu.

De início Tomás se coloca numa postura de desconfiança procurando levar seus relatos para fatos mais corriqueiros, demonstrando o profundo medo de falar sobre questões políticas, que ainda pairava em Portugal, tempos depois da derrocada do governo salazarista. Mas o desejo de expurgar as dores sobre o fato ocorrido leva o personagem a narrar todo o horror promovido contra Humberto Delgado naquela noite fatídica.

Observa-se que Lobo Antunes ao criar esse jogo entre ficção e história, aborda um ponto crucial quando se pensa nas relações de poder, a questão do respeito ao poder, e a falta dele sendo encarada como traição. É notório que o General Humberto Delgado numa famosa entrevista realizada em maio de 1958 no café Chave de Ouro, quando lhe foi perguntado que postura tomaria face ao primeiro-ministro (Presidente do Conselho dos Ministros) António de Oliveira Salazar, respondeu com a célebre frase "Obviamente, demito-o", logo, esta frase incendiou os espíritos dos agitadores comunistas de então que o apoiaram e o aclamaram durante a campanha.

Salazar viu na pessoa de Humberto Delgado uma ameaça ao regime ditatorial, e com o caso do paquete "Santa Maria", que chamou a atenção do mundo para os problemas da ditadura portuguesa, Delgado enfureceu ainda mais o primeiro-ministro que primava por lançar mão de que a pátria portuguesa era um império do Minho ao Timor, buscando assim inculcar na mente do povo português ideias que não correspondiam à realidade por eles vivenciada.

Para Salazar, o ato de descredenciar os valores por ele estabelecido na sociedade portuguesa de então, realizado por Humberto Delgado, era algo encarado como uma traição máxima, pois não só primava por causar uma ameaça ao poder, mas também por desqualificar a pátria, uma humilhação ímpar, para um ditador que tinha no discurso de império sua máxima. Sendo assim, Delgado representava uma ameaça a ser extirpada, pois desmistificou os valores falidos do governo, causando na figura de Salazar uma profunda humilhação frente ao mundo. Logo, a sentença de morte veio apenas concretizar algo que já era de se esperar. Na narrativa, especificamente no XXIII relato, o da personagem Milá, há a descrição de um encontro entre o ministro Francisco e Salazar, onde os dois tramam o que fazer com o General Delgado:

major de torrada na mão, que mal o senhor ministro se afastou a combinar com o professor
Salazar o destino do general
(- Mata-se prende-se mata-se é melhor matar-se mata-se)
 2

Na maioria dos casos, das traições políticas, a punição para o traidor é a morte, não foi diferente no caso de Humberto Delgado, em fevereiro de 1965, na fronteira espanhola em Villanueva del Fresno, o general foi executado em uma emboscada a mando de Salazar. Porém, esse foi um momento decisivo para a derrocada do governo ditatorial português.

No transcorrer da trama de Lobo Antunes, vem à tona uma outra história de traição, no caso a traição conjugal da personagem Isabel em relação ao ministro Francisco. O leitor tem contato com os fatos ocorridos através das vozes de vários personagens que de alguma forma entraram em contato com esse caso de traição conjugal. E podemos observar como essas duas traições guardam muitas coisas em comum.

Em relação à traição executada pela personagem Isabel, temos de um lado a presença obscura da imagem da mãe nos relatos do personagem João, já que ela o abandou ainda muito pequeno, de outro vemos o discurso da governanta Titina que observava a questão de uma outra ótica, pois presenciou o transcorrer dos acontecimentos com uma certa proximidade. Porém, é preciso levar em consideração que Titina tinha uma motivação amorosa para com Francisco, logo, suas observações sobre Isabel deixam transparecer essas emoções, não são palavras de modo algum inocentes, esses relatos estão contaminados pelos desejos de Titina, ou seja, é a visão da personagem sobre o assunto.
No relato X, do veterinário Luís, há algumas pistas esclarecedoras sobre a questão da humilhação pela qual Francisco passou depois da traição de Isabel, vejamos:

E ainda que os matasse a todos os desenhos e as palavras lá estavam a gritarem de troça furando a camada de cal
O MINISTRO É CORNUDO
E como é que se faz para apagar a humilhação, o ultraje, 
(...) proibiu todos de conversarem fosse com quem fosse. 3
 
Para uma pessoa importante, um ministro do governo, amigo próximo do primeiro-ministro Salazar, passar por uma humilhação desse porte era algo extremo. Se no momento em que casou com Isabel, Francisco julgou estar vivendo seu momento de apogeu, tendo um cargo de confiança junto ao governo, uma família feliz, uma quinta bem cuidada, ou seja, um prenúncio de uma vida cada vez mais próspera e bem sucedida, com a traição de Isabel sua derrocada começa a se delinear. Tanto assim, que é justamente a partir desse momento que Francisco começa a exercer toda sua tirania em relação aos seus subordinados (os constantes abusos sexuais da empregada e a da filha do caseiro, por exemplo, sempre permeados da frase: "Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu para que saiba quem é o patrão" 4) sugere a forte necessidade de auto-afirmação por parte do personagem.

Na tentativa de sanar a dor da ausência da esposa, Francisco tenta criar uma "outra" Isabel através de Milá, e a moça por uma questão financeira se vê obrigada a ficar subordinada aos caprichos do ministro. Milá segue num processo de despersonalização, de perda de identidade, pois Francisco procurava estabelecer um sistema de manutenção do poder, obrigando a moça a vestir-se e agir tal qual Isabel. Quanto a essas formas de organização do poder, Michel Foucault nos diz:

Mas quando penso na mecânica do poder, penso em sua forma capilar de existir, no ponto em que o poder encontra o nível dos indivíduos, atinge seus corpos, vem se inserir em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, sua vida quotidiana. 5

Nessa luta pela manutenção do poder Francisco não poupou esforços, ocorre que a vergonha e a humilhação acarretada pela traição fizeram com que ele partisse em uma luta incessante por encontrar Isabel, a fim de entender o motivo da traição. Observamos que ao encontrar a esposa vivendo em uma condição social bem inferior aquela proporcionada por ele, Francisco se desespera, pois não entende os reais motivos daquela situação. Ele só consegue pensar que ela jamais o amou, e que foi um amor por outro homem que a fez se sujeitar àquela situação.

Esse caso só fica de fato esclarecido no relato de Isabel, onde ela mostra claramente porque resolveu abandonar o lar e partir. As circunstancias que uniram Isabel a Francisco foram as mais conturbadas possíveis, por conta disso ela nunca se sentiu inserida numa relação familiar bem estabelecida, jamais sentiu um afeto maior por seu marido, recebia por parte dele uma cobrança excessiva em relação aos seus sentimentos. Francisco repetia exaustivamente: "Gostas de mim não gostas Isabel?" 6. E essa cobrança extrema, doentia, essa exigência de amor era algo insuportável para personagem.

Isabel não compreendia essa insistência, pois seu pai e seu filho jamais cobraram isso dela, por isso tinha uma enorme vontade de perguntar: "A que chamas gostar Francisco?"7, porque o conceito de amor de ambos era bem divergente. Tanto assim, que no relato de Isabel percebemos que as intenções em relação a Pedro não foram motivadas por um "amor maior", o abandono do lar se deu por conta de uma busca por um modo de sentir-se livre. Ela sabia que seu relacionamento com Pedro também não passava de uma farsa tal qual o casamento com Francisco. Podemos observar isso na seguinte passagem: "Eu que não lhe pedira nada, que não queria nada, a quem não apetecia nada salvo estar sozinha sem homens a perseguirem-me com seus interrogatórios sem sentido" 8. Ela afirma também:

Foi para ficar sozinha que aceitei o apartamento em Lisboa, uma sala, uma marquise onde não me inquietavam, não me aborreciam, não me visitavam nem me tocavam nem me faziam perguntas, onde me deixavam em paz. 9

O desejo de Isabel era ser livre, ser dona de sua própria vida, não ter de dar satisfações de seus sentimentos. Em tempo algum ela demonstrou querer ferir os sentimentos de Francisco, mas como não havia diálogo entre as partes, ele acreditava na traição pura e simples e a punição para os traidores, assim como no caso do General Humberto Delgado, Isabel também é punida com a morte.

Pensando no sentido dicionarizado do conceito traição, que vem do latim "traditione", significando conduta ou defeito de quem, perfidamente, entrega, denuncia ou vende alguém ou alguma coisa ao inimigo, consubstanciando-se em infidelidade, perfídia, deslealdade. Traidor, por outro lado, vem do latim "traditore", ou seja, aquele que atraiçoa, sendo perigoso com aparência de seguro. O traidor, assim, é sempre insidioso, disfarçando o seu escopo através da perfídia, do estratagema. Nesse caso, os dois casos guardam enormes semelhanças: tanto Isabel, quanto General Delgado ambos tinham um desejo de liberdade frente a formas opressoras de poder. Nessa busca por serem livres enfrentaram o poder sem medo, sendo por isso considerados traidores.

Observamos então que depois dessas "traições" de Isabel e Humberto Delgado, eles também sofreram uma forma de "traição mortal" por parte de seus algozes, e em muito pouco tempo depois tanto Francisco como Salazar passaram da ascensão à queda total por conta desses atos.

Ou seja, António Lobo Antunes consegue criar uma construção literária que integra perfeitamente essa dupla perspectiva, tanto no plano das questões emocionais das personagens, como na retrospectiva histórica portuguesa, trabalhando a questão da memória de um modo singular, assim como afirma Andréas Huyssen:

Não requer muita sofisticação teórica ver que todas as representações - sejam na linguagem, na narrativa, na imagem ou no som gravado - estão baseadas na memória. Representação sempre vem depois, embora alguns meios de comunicação tentem nos fornecer a ilusão da "pura presença". Mas ao invés de nos guiar até alguma origem supostamente autêntica, ou nos dar um acesso verificável ao real, a memória, até mesmo, ou especialmente, por vir sempre depois, é em si baseada na representação. O passado não está simplesmente ali na memória, mas tem de ser articulado para se transformar em memória. 10
 
E assim, podemos constatar que esse processo de transformação/articulação do passado em memória é algo muito explorado por Lobo Antunes em sua construção ficcional. Sendo suas obras construções contemporâneas que obrigam o leitor a empreitar sempre novas "investigações", como prega Barthes, e sair de sua condição de leitor passivo, como advoga Iser , ou seja, estimulando o leitor a embarcar nessa "viagem" que nos faz mudar de visão a cada nova leitura.


Notas
1 FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996, p. 97.
2 ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote, 1997, p.336/337.
3 Op. cit., p. 163.
4 Op. cit., p. 13.
5 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder, 3 ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982, p. 108.
6 ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote, 1997, p.396.
7 Op. cit., p. 397.
8 Op. cit., p. 400. (Grifo próprio)
9 Op. cit., p. 400.
10 HUYSSEN, Andréas. Memórias do Modernismo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997, p. 14.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote, 1997.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder, 3 ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.
HUYSSEN, Andréas. Memórias do Modernismo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997.


por Patrícia Camargo
[não datado]

17 de maio de 2006

artigo do suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante (Brasil) Sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo [excerto]


[...]
Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, em termos de invenção ou criação literária, é uma espécie de último degrau a que um escritor, que opta pela prática experimental, consegue chegar. Podemos arriscar qualificá-lo como um escritor que se propõe ir além das conquistas experimentais até então cristalizadas por Rabelais, Sterne, Lewis Carroll, Édouard Dujardin, James Joyce e Cortázar.

António Lobo Antunes empreende uma luta titânica contra o Minotauro no labirinto do texto. De posse do fio de Ariadne, na busca da saída, ele trava uma batalha decisiva. Para encontrar a saída, Antunes usa de vários pretextos, entre eles fratura, mutilação, adulteração e bifurcação do fio da meada, para convencer o Minotauro de que está perdido, deixando no ar a idéia de que o fio se partiu em inúmeros pedaços. Mas apenas quebra o fio e se esconde, sempre numa pequena volta. E, quando o Minotauro, que já conhece o caminho de cor e salteado e, com certeza, já está cansado de trilhá-lo, e guardá-lo indefinidamente, resolve deixar que o protagonista, no caso o próprio texto, desconstrua a meada, após efetuar remendos que possibilitem a arte dos desvios. Então, percebe-se que ele aceita deliberadamente a própria morte. Essa alegoria implica em compreender-se que a morte do Minotauro representa a vida do texto pós-moderno.

A narrativa de Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo é propositadamente descosturada, pois conscientemente armada como O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. Só que em Cortázar há a fusão de vários romances ou histórias numa mesma narrativa descontínua, mas que se interpenetram de maneira programada e matematicamente progressiva como um tratado virtuosístico.

Em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, a descontinuidade é cinematograficamente flagrante, pois ocorre intermitentemente. Nele, todos os textos apresentam cortes instantâneos no nexo das frases ou como um deslance, um contramolde, provocados no momento da frase enunciada e simultaneamente quebrada, fraturada. Percebe-se que, com isso, o escritor pretende representar com frases rupturadas, aparentemente desconexas, a situação caótica das próprias existências dos angolanos que, nas décadas de 60 e 70, durante a Guerra, como que se diluíam ou eram perdidas de vista. Assim, o traçado estético do discurso romanesco de Antunes soa como algo vertiginoso, mas que escoa, estaca repentinamente, como se todas as frases fossem amputadas; como, de uma maneira ou de outra, acontece com as vidas das pessoas durante e após o término das guerras, pessoas que, sobreviventes do holocausto da guerra, estão mortas na alma, perdidas de suas próprias identidades.

Conforme o próprio comentarista da contracapa da obra em questão se expressa “consagrado como um dos mais importantes romancistas portugueses, indicado ao Nobel de Literatura, António Lobo Antunes volta à temática essencial de sua obra em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo. Neste livro, o autor traça um retrato contemporâneo de Angola, país onde viveu durante a guerra de libertação nacional nos anos 60 e 70.

Homens que somem sem deixar vestígios são os protagonistas deste romance. Assim acontece com o primeiro agente português que viaja à antiga colônia, com uma missão arriscada. Ele não volta, sendo substituído por outro, e depois outro, como na arena os touros vão sendo mortos um a um.

Grande vencedor do XIV Prêmio Internacional União Latina de Literatura, Lobo Antunes exerce com maestria a arte de encantar o leitor, através de uma narrativa subversiva e radicalmente original.”

Como o próprio escritor revela na abertura desta instigante obra literária “romance em três livros com prólogo & epílogo”, António Lobo Antunes, para contar a saga da guerra angolana, que usa como pretexto, ainda que doloroso, para exercitar e esgotar todo seu potencial de conhecimentos sobre criação literária no campo específico da arte romanesca, consegue se superar em tudo quanto antes escreveu e sempre com admirável talento.

António Lobo Antunes é o típico escritor para quem a divisão das composições literárias em gêneros é algo obsoleto e anacrônico, pois ele consegue fundir no mesmo romance todos os gêneros como o fez James Joyce, indo mais além, diluindo os gêneros de tal modo, que em seu texto tudo é apenas pura poesia. Para ele, repetir-se na obra seguinte é sempre um trabalho de preguiçoso.

Obra eminentemente metalingüística, já que o protagonista da história é a própria narrativa, sendo tudo o mais pretexto para que ela se engendre a si mesma. Daí por que ela questiona as próprias construções de textos anteriores discutindo, adulterando e mutilando as técnicas do fluxo da memória e do monólogo interior, no sentido positivo de acrescentar-lhes novos arranjos ou uma gama de possibilidades de fazer com que os textos se desengendrem para um plano de desfechos completamente imprevisíveis.

Aqui a desconstrução do discurso narrativo recria novidades no campo dos flashbacks que passam a ser contínua, ininterrupta e consecutivamente instantâneos.

Os cortes de períodos e frases acontecem em cadeia através de mutações e mutilações de enunciados, cujas seqüências, momentaneamente, ou para sempre, somem, como somem ou desaparecem as pessoas durante as guerras. Assim, famílias inteiras de frases ficam truncadas ou desaparecem, ou se perdem uma das outras, pedaços de sentenças e enunciados se distanciam ou acabam incompletos, exterminados, massacrados, desfamiliarizados como as pessoas durante e após as guerras. Caberá ao leitor, como aos sobreviventes, procurarem nos destroços da linguagem as partes que faltaram ou restaram. Constatamos assim que António Lobo Antunes está envolvido com duas guerras: uma, a de Angola, e a outra, a de uma escrita completamente radical. O ponto crucial é deflagrado contra a ordem preestabelecida das famílias de palavras que corresponde ao massacre ou mutilação das famílias de pessoas. Já não se trata de um recurso meramente paradoxal ou ambíguo, mas do texto mutilado como a retratar a própria mutilação da existência dos seres humanos naquilo que eles têm de mais precioso, que a vida biológica, a identidade. A verosimilhança é tão impressionante que a supra-realidade do texto parece superar a própria realidade da guerra. Assim, o texto transita entre o real geográfico, topográfico, biográfico, beligerante, genocida e o surrealismo da construção do texto cuja tessitura, embora pareça absurda, reflete a própria realidade. Nesse estágio, o escritor atinge a plenitude da arte de escrever, que acontece quando a supra-realidade supera em verosimilhança as atrocidades e massacres da guerra, quando percebe-se o quanto o ser humano, voltando à barbárie, vive mais para a crueldade, o sadismo e o masoquismo, esse estágio radical de aniquilamento do ser humano, reduzido a fera. 

autor não identificado
05.01.2006
excerto do artigo publicado no suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante (Brasil)
leia o artigo completo aqui

8 de maio de 2006

Federico Mengozzi: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


Boa Tarde, Angola

António Lobo Antunes é feito para ser lido, não para ser ouvido. Quem quiser que o escritor português, um dos mais aclamados de seu país, esclareça um ou outro aspecto de seu novo romance, o 16o, Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo, vai esbarrar em dificuldades. Lobo Antunes não é de pegar na mão do leitor e dar o mapa da mina. Ao contrário: imaginando que formou seus leitores ao longo de 25 anos de literatura, acha que eles podem andar com as próprias pernas. 'O escritor ensina seu leitor a ler', arrisca, falando a ÉPOCA. Por isso, depois de muitas delongas, ele sugere que não lhe perguntem nada e dirijam-se ao livro. Mesmo porque ele apenas o escreveu. 'Não o li. Ao menos não com olhos de leitor.'

Em Portugal, 200 mil pessoas seguiram sua recomendação e foram ao livro, recém-lançado e já na sexta edição. É um sucesso. Mas Lobo Antunes, assim como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto (brasileiros que ele cita), não escreve para fazer sucesso. O sucesso, se vier, é conseqüência. 'Por que um escritor escreve? Julgo que nenhum escritor saiba dar uma resposta honesta. E a resposta desonesta não me interessa. Escrevo porque circula em meu sangue.' E mais não diz.

É um livro difícil. O autor discorda e cita a alta vendagem. 'Mas é claro que nem todos os que compram o livro o lerão', reconhece, cético. Uma leitura complexa, com parágrafos que a rigor não começam e a rigor não terminam, sem uma história que se revele com clareza, mas em lampejos, flashes que o leitor junta como pode, de acordo com sua percepção. O cenário é a Angola pós-independente, tempo de descaminhos que Lobo Antunes vê sem condescendência. Assim: 'Quando depois do que chamavam independência, isto é dos pretos a entrarem-lhes a porta e a roubarem-nos, isto é dos pretos a matarem-se uns aos outros, isto é dos pretos a transportarem sem desculpas, insultando-se, batendo-se, as mobílias, os fogões…'

António Lobo Antunes é médico psiquiatra, mas atualmente só se dedica à literatura. Participou, convocado pelo Exército português, da guerra colonial e fez de Angola o cenário de vários de seus livros, como Os Cus de Judas (1979), narrado por um médico como ele, que diz de si mesmo: 'Talvez que a guerra tenha ajudado a fazer de mim o que sou hoje e intimamente recuso: um solteirão melancólico a quem não se telefona e cujo telefonema ninguém espera...' Por que, mais uma vez, Angola? 'É um lugar onde vivi por muito tempo. Mais precisamente, por dois anos e alguns meses, durante a guerra, que equivalem a mais anos de vida. Não, não fui ferido fisicamente. Mas há muitas maneiras de ser ferido. Foi uma guerra cruel.'

Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo volta ao país, mesmo porque, escreve o autor no livro, 'não se foge de Angola'. Um resumo? Lobo Antunes se recusa a fazer isso. 'Se eu pudesse resumir o livro, não o escreveria. Passei dois anos escrevendo.' Não diz, mas deve pensar que não seria mau se o leitor empregasse alguns dias em sua leitura. Tudo se junta no romance, ficção e realidade, devaneios e reflexões, em três partes, mais prólogo e epílogo, nas quais se misturam agentes de espionagem, contrabando de diamantes, atos de corrupção, a Angola que foi, a que é. E o autor, referindo-se à guerra civil, diz coisas como: 'Visto que todas as crianças usam muletas em Angola...' Uma narrativa que não diz, apenas sugere.

Lobo Antunes já foi considerado o anti-José Saramago. Ele nem nega, nem confirma. 'Não cabe a mim responder.' É, ao lado de Saramago, o escritor português mais conhecido no Exterior. E, se o colega já levou o Prêmio Nobel, ele continua cotado para recebê-lo, embora não ligue muito. 'Não acho importante.' Enquanto o outro se transformou numa espécie de voz oficial da cultura lusitana, Lobo Antunes continua à margem. Até porque não é português de raiz, e sim descendente de uma família brasileira radicada em Portugal, que guardava autores como José de Alencar e Monteiro Lobato na estante - ainda hoje, tem muitos primos no Brasil. Por isso, sempre cita autores brasileiros. Como Saramago, mora fora de Portugal - a maior parte do tempo em Paris. E costuma lançar seus livros por editoras não-portuguesas.

Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo é um lançamento de acordo com a fama de seu autor: um inovador que vai além da forma e põe o dedo em feridas abertas.

Federico Mengozzi
em Época
[não datado]

1 de maio de 2006

Rafael Narbona: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Lobo Antunes fez-se romancista porque era incapaz de escrever poesia. A sua impotência perante o versejar tem produzido, não obstante, uma escrita deslumbrante que impregnou toda a sua obra de um forte tom lírico. A complexidade dos seus romances nasce desta peculiaridade, mas tal não significa que o fio narrativo tenha sido sacrificado em benefício da imagem ou da metáfora. Nada mais longe de Lobo Antunes que o esteticismo vulgar.

A sua maneira de narrar nada tem de malabarismos verbais, mas sim a busca da palavra essencial. A intenção de fundo está em exceder a simples aparência das coisas para revelar a verdade de personagens incapazes de compreender a natureza dos seus actos. Este propósito justifica o desvio dos assuntos, os espaços em branco, a destruição da sintaxe ou o recurso ao inacabado. Todos estes elementos se juntam em Não entres tão depressa nessa noite escura, compondo uma história que avança entre memórias, fantasias, confissões e surpreendentes rectificações, onde se coloca em questão tudo o que é narrado desde então.

Lobo Antunes organiza o romance em sete dias que correspondem aos sete dias da Criação. São sete dias que agregam em algumas horas as experiências de uma família reunida à volta de um pai moribundo. Uma intervenção cirúrgica servirá para reconstruir as peripécias de personagens da alta burguesia colonial do Portugal salazarista. Por baixo da aparente respeitabilidade esconde-se um passado duvidoso, onde a filha de um antigo governador de Moçambique se casará com um traficante de armas para salvar a maltratada economia da família. O casamento não evitará a catástrofe, quando a antiga colónia consegue a independência e o exílio forçado se impõe. Já na metrópole, não acabarão as fantasias sobre o esplendor perdido, mesmo quando os credores obtêm uma ordem de despejo que desapropria a família do seu único bem.

O narrador é Maria Clara, que reconstrói a história da sua família através dos fragmentos do seu diário, monólogos longos ou breves confissões a um psicólogo. É provável que o exercício da psiquiatria tenha ensinado Lobo Antunes a necessidade de destruir qualquer aparente ordem para reproduzir a maneira de como actua a memória. Talvez seja esta a razão para o narrador se desdobrar em outras vozes e inclusive chegue a questionar a sua idade e género. O resultado não é um enredo caótico mas uma exacta conjugação de vozes, com a unidade de uma grande oração. A polifonia do relato invoca isto a que poderíamos chamar a ética do leitor, segundo a qual não há experiência estética sem um esforço por complementar a obra que se lhe interpela.

Não entres tão depressa... é precedida de um poema de [Eugénio de] Andrade, que especula sobre a devastação do tempo. O curso das formas até à luz não poderá impedir a sua sentença de sombra. Essa é a conclusão de Maria Clara, possível filha ilegítima, adolescente que descobre a sua condição de mulher adulta e mãe, quando ainda tenta encaixar os fragmentos da sua infância. As suas incursões ao baú do sótão apenas lhe permitem resgatar uma foto velha com uma criança balançando num cavalo de madeira. Uma imagem desbotada para recompor um passado escurecido pela culpabilidade, o medo e a mentira. Maria descobrirá que nada é definitivo. A transformação faz parte da natureza das coisas. O murmúrio dos freixos ou a luz nas glicínias insinuam-lhe que não somos nós mas as coisas que nos observam, evidenciando a nossa inserção num mundo onde apenas se reflectem as nossas palavras. Definitivamente, uma grande obra que não se conforma em narrar uma história, antes tenta explorar as possibilidades da linguagem para explicar as relações - sempre equívocas, sempre imperfeitas - entre a memória e a experiência. Tal como Benet ou Faulkner, Lobo Antunes pretende muito mais do que escrever romances. A sua intenção é criar um mundo. Os seus livros corroboram esta sua condição de demiurgo.
 

por Rafael Narbona
05.06.2002
citado de El Cultural
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Mario Merlino: opinião sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Como se lendo a noite fermentasse

edição Siruela (Espanha), 2002

Em português, o título tem sete palavras: Não entres tão depressa nessa noite escura. Sete, como os dias da criação que servem de tecido base, linha divisória entre as partes do extenso relato de António Lobo Antunes. Em castelhano são oito, por ser língua menos rica em contracções. Neste caso o tradutor não encontrou melhor saída que a literal, porque o título acarreta estas palavras.

NÃO. O "não" da desagregação. Uma personagem, Maria Clara, que se dispersa nas vozes das outras, que se escreve a si mesma e escreve os outros como se fosse eles, como autora do universo. O "não" que impõe limites ao leitor para que substitua a preguiça por outro prazer talvez mais voluptuoso: o de deixar-se levar, fazer do seu corpo o corpo de Maria Clara que por sua vez é feito dos fragmentos de outros corpos. O "não" da atenção dispersa, o não do abismo que alude a si mesmo uma entrega amorosa. De modo que, leitor,

NÃO ENTRES como quem espera acção e mais acção, movimento exterior, sacudidas, superação heróica de abismos insondáveis, maiúsculas de triunfo. Sê tu Maria Clara, que é dizer Virgílio e Dante ao mesmo tempo no seu trajecto pelo inferno, agridoce jardim das delícias, ou as figuras femininas e as masculinas.

NÃO ENTRES TÃO firme. Abandona a ideia de firmeza. O mundo é resvaladiço. Este romance é um poema e oferece um formoso exercício de leitura poética da prosa ou, as you like, leitura prosaica da poesia.

NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA. Ou fá-lo sem pressa e sem pausa. O melhor que estas páginas têm é que chovem todo o tempo. Chove a dor e os maus tratos. Chove «Maria Clara-o-homem-da-casa». Chovem as doces dolentes palavras da delicadeza: «A velha senhora pediu um dedo de vinho da Madeira às escondidas. Metade derramou-se no colo, mas a metade que sorveu deu-lhe ânimo». A humidade é coisa poética. Por isso

NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA NESSA obra intitulada em castelhano No entres tan deprisa en esa noche oscura. Faz o seguinte: inicia a viagem num comboio que pare em todos os apeadeiros. Toda a leitura é uma viagem. O poema de Lobo Antunes, distribuído pelos sete dias da criação, brincou com o rigor perverso do mito: uma semana, sim, mas impregnada de todas as turbulências, os arrebatamentos, o caos oportuno e inoportuno da consciência.

NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA NESSA NOITE. Ou inventa a noite que quiseres. Ao fim e ao cabo, ao princípio foi o caos e as trevas. E se a morte está ao virar da esquina, também nos resta fazer da vida uma «desordem prudente» ou uma «ordem demente».

NÃO ENTRES TÃO DEPRESSA NESSA NOITE ESCURA, porque a noite fermenta, como a escrita, como o poema. Porque esta noite vamos fazer a noite lentamente (Alejandra Pizarnik?), por mais que outros teimem não há outra forma que não seja lendo, que é gerúndio em arrebatar o mundo, em condensar a noite muito depressa.
 

por Mario Merlino
tradutor espanhol de António Lobo Antunes
07.06.2002
citado de El Mundo
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...