30/08/2006

Da leitora Conceição Ramos-Lopes: «Apetece-me chamar-te Estrangeiro»

Apetece-me chamar-te Estrangeiro
mas não te sigo
é madrugada agora
e diluo-me de te não ter
Das janelas dos teus olhos
nasceu uma vela branca
e a tua língua
escorreu uma gaivota
Os teus braços
desfraldaram mares de espuma
e um medo azul
ancorou-me a este cais
onde acenas sem partir

Amanheceu e eu já não sou
 
A António Lobo Antunes

Conceição Ramos-Lopes
e-mail de 30.08.2006

29/08/2006

José Romero P. Seguín: Impressões sobre o romance «El Resplandor de Portugal»


Ler o romance de António Lobo Antunes, "O Esplendor de Portugal", é como ler espelhos inquietos. Mas não num lugar asséptico, cómodo e decente para tão plácida tarefa, mas sim lê-los de pé ou de cócoras lá onde eles apodrecem já esquecidos e também lá onde mal vivem não menos esquecidos.

Luanda e Lisboa, Lisboa e Luanda, África e Europa definitivamente, malditas ambas na sombria e decadente imagem da memória ao menor fulgor de esperança. Assim são as personagens. Sente-se que as imagens entram e saem em si confundidas como na forja do espelho corrompido as silhuetas que não sabem onde começa a sombra que são e a sombra que foram. Para ir dotando de sentido o que não tem sentido, das vidas derrotadas para lá da culpa. Vidas atadas a um esplendor urdido sobre a miséria dos outros e como tal miserável.

África ofereceu-lhes para além da ambiciosa oportunidade de medrar economicamente, a possibilidade de serem um grotesco arremedo desse estatuto de dignidade que na orgulhosa e decrépita Europa lhes era negado. Procuravam, e assim o exprimem, em África, algo mais que riqueza, a estima social, a necessária reafirmação pessoal da sua singular condição, e um dia descobrem nos fracos e humilhados olhos dos negros que os servem e que não são senão os negros dos brancos filhos da metrópole. E o que é mais terrível, é que em tão pobre viagem tenham dilapidado não só as suas vidas como também a de milhares de homens. Mas como compreendê-lo, simplesmente não podem permitir-se a tal, devem-se à legítima vontade de sobreviver, e que melhor para eles que viver através da memória para recordar sem outra culpa que a de não permitir nunca que a imagem os mostre terríveis e completos no espelho de sua alma.

Os povos derrotam-se homem a homem, e uma vez derrotados, tudo quanto nasce das suas mãos é feito sob este terrível desígnio, até que homem a homem se levantam como povo, para um esplendor fugaz mas capaz de dotá-los da dignidade que como povo merecem. A colonização junto com a ditadura sufocou e derrotou Portugal, a revolução dos cravos elevou-o à mais digna das vitórias. Essa é uma flor oculta que Antunes não define, mas sobre a qual cimenta a magnífica catedral dos seus sonhos.


por José Romero P. Seguín, escritor
enviado por e-mail em 29.08.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

10/08/2006

Da leitora Conceição Ramos-Lopes: «Neo-»

Neo-


Olhos de se cumprir
um pouco
Portugal
Prosa sem cabresto
Páginas de génio
pessoano
a quantas (?) décadas
de intervalo
Olhos de destilar
surrealismo
Ou álcool
O fascínio
de recônditas
etílicas
profundezas
Associações
para mim
tudescas
Longínqua herança
de azul
e laivos de ouro
Associações...

Ao Escritor português meu fétiche.
Bruxelas, 1992

Conceição Ramos-Lopes
e-mail de 10.08.2006

16/07/2006

Bruno Silva: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


A "Exortação aos Crocodilos" de António Lobo Antunes é um dos mais expoentes trabalhos na carreira deste escritor. O tipo de narração fragmentada é a marca distinta de um livro nada fácil de absorver, e que valeu a António Lobo Antunes a nomeação para Prémio Nobel da Literatura.

Atordoante, pelas múltiplas vozes narrativas, cria um texto delirante mas ao mesmo tempo belo, com uma assombrosa autenticidade estilística. A narração é feita exclusivamente por quatro mulheres que vivem engajadas no mundo de antigos polícias da PIDE que torturam comunistas e organizam atentados de direita movidos por um saudosismo do regime de Salazar. Mimi é surda e só consegue ouvir o som das coisas e não das pessoas, despojada de interesse é escolhida por um milionário para casar. Celina vê-se obrigada a casar ainda cedo com um homem mais velho, como vingança torna-se amante de um milionário (justamente o marido de Mimi). Fátima é sobrinha de um bispo conspirador. Simone, gorda e complexada, encontra alívio para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi.

Este trabalho, de Lobo Antunes, possui uma leitura ofegante, a qual nos permite o ingresso na estrutura psíquica das quatro mulheres. Poderíamos dizer, que inspira-se em cada signo o ar irrespirável daquele mundo execrável dos homens, que as mulheres habitam com uma sofreguidão pautada por cada pensamento, cada impulso, cada emoção ou uma mescla organizada e não gratuita de todas essas pulsões, ao mesmo tempo que consegue construir esses "imaginários femininos" com uma ternura e sensibilidade ímpares. Um estilo possuído por uma mestria soberba e que vicia. Um bom exemplo da literatura contemporânea portuguesa que revela domínio da linguagem e na construção romanesca.

A formação de psiquiatra de António Lobo Antunes tem papel preponderante nesta sua obra, que é um lampejo esquizofrénico, um surto de êxtase resultado de uma técnica espantosa. No final, ficamos com a impressão que de o livro não será igual numa segunda leitura e uma segunda leitura recomenda-se.


Bruno Silva
13.07.2006

11/06/2006

Patrícia Camargo disserta sobre O Manual dos Inquisidores


Ascensão e queda: a questão da traição na obra O Manual dos Inquisidores de António Lobo Antunes

"O autor é o que dá à inquietante linguagem da ficção, as suas unidades, os seus nós de coerência, a sua inserção no real".
(Michel Foucault, A ordem do discurso, 1999) 1


O significado do texto literário é algo construído ou produzido, em um processo de interação entre duas partes: o texto e o leitor. O papel do leitor é seguir as instruções ou orientações do texto e produzir o seu sentido que não representa algo, mas possui o caráter do acontecimento. O leitor percebe o texto de uma maneira global. A experiência da leitura não se dá apenas pelo texto em si, nem só pela subjetividade do leitor. Trata-se da junção destes dois fatores, o que inicia o processo de construção de sentido, no texto. Segundo Barthes(apud COMPAGNON, 1996), o leitor deveria encarar o ato da leitura como uma investigação, uma busca por pistas para desvendar o texto, já Iser(apud COMPAGNON, 1996) procura pensar a leitura como uma viagem, ou seja, cada nova leitura possibilita o leitor verificar novos detalhes até então despercebidos, pois a cada viagem podemos mudar nosso modo de construir nossa visão sobre o objeto estético.

Tendo em mente as abordagens teóricas acima citadas, podemos notar que os procedimentos de escrita utilizados por António Lobo Antunes apontam para uma estrutura fragmentada, estilhaçada, numa construção de base contemporânea, possibilitando assim uma grande gama de leituras, pois o autor procura construir seus personagens em estado de relato, por meio de representações mnemônicas dos discursos, articulados como texto, com a finalidade de interrogar/denunciar a ficções públicas portuguesas.

Nesse sentido, o tema central dessa obra aponta para a questão do poder, seja a manutenção do poder, o desejo de poder, todas as nuances referentes à microfísica do poder, sempre numa dupla perspectiva: no plano das questões "emocionais" das personagens, bem como, no plano da retrospectiva histórica portuguesa (denúncia das ficções públicas construídas no período ditatorial do salazarismo).

Os personagens ao longo da trama procuram relatar suas imagens mentais rememorando o tempo passado e mesclando os vários momentos de suas vidas, tanto em relação aos momentos de ascensão como os de queda em relação ao poder, criando assim imagens sobrepostas que formam uma estrutura caledoscópica. Nessa teia de discursos que ao longo da trama se adensam cada vez mais, podemos elaborar um número vasto de análises partindo dos relatos de qualquer um desses personagens. Uma possível leitura da obra é aquela que se refere à questão da traição ao poder, ficando bastante evidenciada em relação aos relatos referentes à personagem Isabel e dos relatos que fazem referencia ao caso do General Humberto Delgado.

Na perspectiva da denúncia da ficção pública do período ditatorial salazarista, Lobo Antunes articula os discursos das personagens sempre com um olhar retrospectivo sobre os acontecimentos históricos entrelaçados em suas próprias memórias afetivas. Logo, o caso ocorrido com o General Humberto Delgado é apresentado ao leitor por meio de um jogo entre elementos do real (fatos históricos) e uma construção ficcional, ou seja, através do relato do personagem Tomás, o motorista do ministro Francisco, que indagado por um suposto "interrogador", conta como esse episódio ocorreu.

De início Tomás se coloca numa postura de desconfiança procurando levar seus relatos para fatos mais corriqueiros, demonstrando o profundo medo de falar sobre questões políticas, que ainda pairava em Portugal, tempos depois da derrocada do governo salazarista. Mas o desejo de expurgar as dores sobre o fato ocorrido leva o personagem a narrar todo o horror promovido contra Humberto Delgado naquela noite fatídica.

Observa-se que Lobo Antunes ao criar esse jogo entre ficção e história, aborda um ponto crucial quando se pensa nas relações de poder, a questão do respeito ao poder, e a falta dele sendo encarada como traição. É notório que o General Humberto Delgado numa famosa entrevista realizada em maio de 1958 no café Chave de Ouro, quando lhe foi perguntado que postura tomaria face ao primeiro-ministro (Presidente do Conselho dos Ministros) António de Oliveira Salazar, respondeu com a célebre frase "Obviamente, demito-o", logo, esta frase incendiou os espíritos dos agitadores comunistas de então que o apoiaram e o aclamaram durante a campanha.

Salazar viu na pessoa de Humberto Delgado uma ameaça ao regime ditatorial, e com o caso do paquete "Santa Maria", que chamou a atenção do mundo para os problemas da ditadura portuguesa, Delgado enfureceu ainda mais o primeiro-ministro que primava por lançar mão de que a pátria portuguesa era um império do Minho ao Timor, buscando assim inculcar na mente do povo português ideias que não correspondiam à realidade por eles vivenciada.

Para Salazar, o ato de descredenciar os valores por ele estabelecido na sociedade portuguesa de então, realizado por Humberto Delgado, era algo encarado como uma traição máxima, pois não só primava por causar uma ameaça ao poder, mas também por desqualificar a pátria, uma humilhação ímpar, para um ditador que tinha no discurso de império sua máxima. Sendo assim, Delgado representava uma ameaça a ser extirpada, pois desmistificou os valores falidos do governo, causando na figura de Salazar uma profunda humilhação frente ao mundo. Logo, a sentença de morte veio apenas concretizar algo que já era de se esperar. Na narrativa, especificamente no XXIII relato, o da personagem Milá, há a descrição de um encontro entre o ministro Francisco e Salazar, onde os dois tramam o que fazer com o General Delgado:

major de torrada na mão, que mal o senhor ministro se afastou a combinar com o professor
Salazar o destino do general
(- Mata-se prende-se mata-se é melhor matar-se mata-se)
 2

Na maioria dos casos, das traições políticas, a punição para o traidor é a morte, não foi diferente no caso de Humberto Delgado, em fevereiro de 1965, na fronteira espanhola em Villanueva del Fresno, o general foi executado em uma emboscada a mando de Salazar. Porém, esse foi um momento decisivo para a derrocada do governo ditatorial português.

No transcorrer da trama de Lobo Antunes, vem à tona uma outra história de traição, no caso a traição conjugal da personagem Isabel em relação ao ministro Francisco. O leitor tem contato com os fatos ocorridos através das vozes de vários personagens que de alguma forma entraram em contato com esse caso de traição conjugal. E podemos observar como essas duas traições guardam muitas coisas em comum.

Em relação à traição executada pela personagem Isabel, temos de um lado a presença obscura da imagem da mãe nos relatos do personagem João, já que ela o abandou ainda muito pequeno, de outro vemos o discurso da governanta Titina que observava a questão de uma outra ótica, pois presenciou o transcorrer dos acontecimentos com uma certa proximidade. Porém, é preciso levar em consideração que Titina tinha uma motivação amorosa para com Francisco, logo, suas observações sobre Isabel deixam transparecer essas emoções, não são palavras de modo algum inocentes, esses relatos estão contaminados pelos desejos de Titina, ou seja, é a visão da personagem sobre o assunto.
No relato X, do veterinário Luís, há algumas pistas esclarecedoras sobre a questão da humilhação pela qual Francisco passou depois da traição de Isabel, vejamos:

E ainda que os matasse a todos os desenhos e as palavras lá estavam a gritarem de troça furando a camada de cal
O MINISTRO É CORNUDO
E como é que se faz para apagar a humilhação, o ultraje, 
(...) proibiu todos de conversarem fosse com quem fosse. 3
 
Para uma pessoa importante, um ministro do governo, amigo próximo do primeiro-ministro Salazar, passar por uma humilhação desse porte era algo extremo. Se no momento em que casou com Isabel, Francisco julgou estar vivendo seu momento de apogeu, tendo um cargo de confiança junto ao governo, uma família feliz, uma quinta bem cuidada, ou seja, um prenúncio de uma vida cada vez mais próspera e bem sucedida, com a traição de Isabel sua derrocada começa a se delinear. Tanto assim, que é justamente a partir desse momento que Francisco começa a exercer toda sua tirania em relação aos seus subordinados (os constantes abusos sexuais da empregada e a da filha do caseiro, por exemplo, sempre permeados da frase: "Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu para que saiba quem é o patrão" 4) sugere a forte necessidade de auto-afirmação por parte do personagem.

Na tentativa de sanar a dor da ausência da esposa, Francisco tenta criar uma "outra" Isabel através de Milá, e a moça por uma questão financeira se vê obrigada a ficar subordinada aos caprichos do ministro. Milá segue num processo de despersonalização, de perda de identidade, pois Francisco procurava estabelecer um sistema de manutenção do poder, obrigando a moça a vestir-se e agir tal qual Isabel. Quanto a essas formas de organização do poder, Michel Foucault nos diz:

Mas quando penso na mecânica do poder, penso em sua forma capilar de existir, no ponto em que o poder encontra o nível dos indivíduos, atinge seus corpos, vem se inserir em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, sua vida quotidiana. 5

Nessa luta pela manutenção do poder Francisco não poupou esforços, ocorre que a vergonha e a humilhação acarretada pela traição fizeram com que ele partisse em uma luta incessante por encontrar Isabel, a fim de entender o motivo da traição. Observamos que ao encontrar a esposa vivendo em uma condição social bem inferior aquela proporcionada por ele, Francisco se desespera, pois não entende os reais motivos daquela situação. Ele só consegue pensar que ela jamais o amou, e que foi um amor por outro homem que a fez se sujeitar àquela situação.

Esse caso só fica de fato esclarecido no relato de Isabel, onde ela mostra claramente porque resolveu abandonar o lar e partir. As circunstancias que uniram Isabel a Francisco foram as mais conturbadas possíveis, por conta disso ela nunca se sentiu inserida numa relação familiar bem estabelecida, jamais sentiu um afeto maior por seu marido, recebia por parte dele uma cobrança excessiva em relação aos seus sentimentos. Francisco repetia exaustivamente: "Gostas de mim não gostas Isabel?" 6. E essa cobrança extrema, doentia, essa exigência de amor era algo insuportável para personagem.

Isabel não compreendia essa insistência, pois seu pai e seu filho jamais cobraram isso dela, por isso tinha uma enorme vontade de perguntar: "A que chamas gostar Francisco?"7, porque o conceito de amor de ambos era bem divergente. Tanto assim, que no relato de Isabel percebemos que as intenções em relação a Pedro não foram motivadas por um "amor maior", o abandono do lar se deu por conta de uma busca por um modo de sentir-se livre. Ela sabia que seu relacionamento com Pedro também não passava de uma farsa tal qual o casamento com Francisco. Podemos observar isso na seguinte passagem: "Eu que não lhe pedira nada, que não queria nada, a quem não apetecia nada salvo estar sozinha sem homens a perseguirem-me com seus interrogatórios sem sentido" 8. Ela afirma também:

Foi para ficar sozinha que aceitei o apartamento em Lisboa, uma sala, uma marquise onde não me inquietavam, não me aborreciam, não me visitavam nem me tocavam nem me faziam perguntas, onde me deixavam em paz. 9

O desejo de Isabel era ser livre, ser dona de sua própria vida, não ter de dar satisfações de seus sentimentos. Em tempo algum ela demonstrou querer ferir os sentimentos de Francisco, mas como não havia diálogo entre as partes, ele acreditava na traição pura e simples e a punição para os traidores, assim como no caso do General Humberto Delgado, Isabel também é punida com a morte.

Pensando no sentido dicionarizado do conceito traição, que vem do latim "traditione", significando conduta ou defeito de quem, perfidamente, entrega, denuncia ou vende alguém ou alguma coisa ao inimigo, consubstanciando-se em infidelidade, perfídia, deslealdade. Traidor, por outro lado, vem do latim "traditore", ou seja, aquele que atraiçoa, sendo perigoso com aparência de seguro. O traidor, assim, é sempre insidioso, disfarçando o seu escopo através da perfídia, do estratagema. Nesse caso, os dois casos guardam enormes semelhanças: tanto Isabel, quanto General Delgado ambos tinham um desejo de liberdade frente a formas opressoras de poder. Nessa busca por serem livres enfrentaram o poder sem medo, sendo por isso considerados traidores.

Observamos então que depois dessas "traições" de Isabel e Humberto Delgado, eles também sofreram uma forma de "traição mortal" por parte de seus algozes, e em muito pouco tempo depois tanto Francisco como Salazar passaram da ascensão à queda total por conta desses atos.

Ou seja, António Lobo Antunes consegue criar uma construção literária que integra perfeitamente essa dupla perspectiva, tanto no plano das questões emocionais das personagens, como na retrospectiva histórica portuguesa, trabalhando a questão da memória de um modo singular, assim como afirma Andréas Huyssen:

Não requer muita sofisticação teórica ver que todas as representações - sejam na linguagem, na narrativa, na imagem ou no som gravado - estão baseadas na memória. Representação sempre vem depois, embora alguns meios de comunicação tentem nos fornecer a ilusão da "pura presença". Mas ao invés de nos guiar até alguma origem supostamente autêntica, ou nos dar um acesso verificável ao real, a memória, até mesmo, ou especialmente, por vir sempre depois, é em si baseada na representação. O passado não está simplesmente ali na memória, mas tem de ser articulado para se transformar em memória. 10
 
E assim, podemos constatar que esse processo de transformação/articulação do passado em memória é algo muito explorado por Lobo Antunes em sua construção ficcional. Sendo suas obras construções contemporâneas que obrigam o leitor a empreitar sempre novas "investigações", como prega Barthes, e sair de sua condição de leitor passivo, como advoga Iser , ou seja, estimulando o leitor a embarcar nessa "viagem" que nos faz mudar de visão a cada nova leitura.


Notas
1 FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996, p. 97.
2 ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote, 1997, p.336/337.
3 Op. cit., p. 163.
4 Op. cit., p. 13.
5 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder, 3 ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982, p. 108.
6 ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote, 1997, p.396.
7 Op. cit., p. 397.
8 Op. cit., p. 400. (Grifo próprio)
9 Op. cit., p. 400.
10 HUYSSEN, Andréas. Memórias do Modernismo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997, p. 14.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote, 1997.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder, 3 ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.
HUYSSEN, Andréas. Memórias do Modernismo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997.


por Patrícia Camargo
[não datado]

17/05/2006

artigo do suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante (Brasil) Sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo [excerto]


[...]
Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, em termos de invenção ou criação literária, é uma espécie de último degrau a que um escritor, que opta pela prática experimental, consegue chegar. Podemos arriscar qualificá-lo como um escritor que se propõe ir além das conquistas experimentais até então cristalizadas por Rabelais, Sterne, Lewis Carroll, Édouard Dujardin, James Joyce e Cortázar.

António Lobo Antunes empreende uma luta titânica contra o Minotauro no labirinto do texto. De posse do fio de Ariadne, na busca da saída, ele trava uma batalha decisiva. Para encontrar a saída, Antunes usa de vários pretextos, entre eles fratura, mutilação, adulteração e bifurcação do fio da meada, para convencer o Minotauro de que está perdido, deixando no ar a idéia de que o fio se partiu em inúmeros pedaços. Mas apenas quebra o fio e se esconde, sempre numa pequena volta. E, quando o Minotauro, que já conhece o caminho de cor e salteado e, com certeza, já está cansado de trilhá-lo, e guardá-lo indefinidamente, resolve deixar que o protagonista, no caso o próprio texto, desconstrua a meada, após efetuar remendos que possibilitem a arte dos desvios. Então, percebe-se que ele aceita deliberadamente a própria morte. Essa alegoria implica em compreender-se que a morte do Minotauro representa a vida do texto pós-moderno.

A narrativa de Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo é propositadamente descosturada, pois conscientemente armada como O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. Só que em Cortázar há a fusão de vários romances ou histórias numa mesma narrativa descontínua, mas que se interpenetram de maneira programada e matematicamente progressiva como um tratado virtuosístico.

Em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo, a descontinuidade é cinematograficamente flagrante, pois ocorre intermitentemente. Nele, todos os textos apresentam cortes instantâneos no nexo das frases ou como um deslance, um contramolde, provocados no momento da frase enunciada e simultaneamente quebrada, fraturada. Percebe-se que, com isso, o escritor pretende representar com frases rupturadas, aparentemente desconexas, a situação caótica das próprias existências dos angolanos que, nas décadas de 60 e 70, durante a Guerra, como que se diluíam ou eram perdidas de vista. Assim, o traçado estético do discurso romanesco de Antunes soa como algo vertiginoso, mas que escoa, estaca repentinamente, como se todas as frases fossem amputadas; como, de uma maneira ou de outra, acontece com as vidas das pessoas durante e após o término das guerras, pessoas que, sobreviventes do holocausto da guerra, estão mortas na alma, perdidas de suas próprias identidades.

Conforme o próprio comentarista da contracapa da obra em questão se expressa “consagrado como um dos mais importantes romancistas portugueses, indicado ao Nobel de Literatura, António Lobo Antunes volta à temática essencial de sua obra em Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo. Neste livro, o autor traça um retrato contemporâneo de Angola, país onde viveu durante a guerra de libertação nacional nos anos 60 e 70.

Homens que somem sem deixar vestígios são os protagonistas deste romance. Assim acontece com o primeiro agente português que viaja à antiga colônia, com uma missão arriscada. Ele não volta, sendo substituído por outro, e depois outro, como na arena os touros vão sendo mortos um a um.

Grande vencedor do XIV Prêmio Internacional União Latina de Literatura, Lobo Antunes exerce com maestria a arte de encantar o leitor, através de uma narrativa subversiva e radicalmente original.”

Como o próprio escritor revela na abertura desta instigante obra literária “romance em três livros com prólogo & epílogo”, António Lobo Antunes, para contar a saga da guerra angolana, que usa como pretexto, ainda que doloroso, para exercitar e esgotar todo seu potencial de conhecimentos sobre criação literária no campo específico da arte romanesca, consegue se superar em tudo quanto antes escreveu e sempre com admirável talento.

António Lobo Antunes é o típico escritor para quem a divisão das composições literárias em gêneros é algo obsoleto e anacrônico, pois ele consegue fundir no mesmo romance todos os gêneros como o fez James Joyce, indo mais além, diluindo os gêneros de tal modo, que em seu texto tudo é apenas pura poesia. Para ele, repetir-se na obra seguinte é sempre um trabalho de preguiçoso.

Obra eminentemente metalingüística, já que o protagonista da história é a própria narrativa, sendo tudo o mais pretexto para que ela se engendre a si mesma. Daí por que ela questiona as próprias construções de textos anteriores discutindo, adulterando e mutilando as técnicas do fluxo da memória e do monólogo interior, no sentido positivo de acrescentar-lhes novos arranjos ou uma gama de possibilidades de fazer com que os textos se desengendrem para um plano de desfechos completamente imprevisíveis.

Aqui a desconstrução do discurso narrativo recria novidades no campo dos flashbacks que passam a ser contínua, ininterrupta e consecutivamente instantâneos.

Os cortes de períodos e frases acontecem em cadeia através de mutações e mutilações de enunciados, cujas seqüências, momentaneamente, ou para sempre, somem, como somem ou desaparecem as pessoas durante as guerras. Assim, famílias inteiras de frases ficam truncadas ou desaparecem, ou se perdem uma das outras, pedaços de sentenças e enunciados se distanciam ou acabam incompletos, exterminados, massacrados, desfamiliarizados como as pessoas durante e após as guerras. Caberá ao leitor, como aos sobreviventes, procurarem nos destroços da linguagem as partes que faltaram ou restaram. Constatamos assim que António Lobo Antunes está envolvido com duas guerras: uma, a de Angola, e a outra, a de uma escrita completamente radical. O ponto crucial é deflagrado contra a ordem preestabelecida das famílias de palavras que corresponde ao massacre ou mutilação das famílias de pessoas. Já não se trata de um recurso meramente paradoxal ou ambíguo, mas do texto mutilado como a retratar a própria mutilação da existência dos seres humanos naquilo que eles têm de mais precioso, que a vida biológica, a identidade. A verosimilhança é tão impressionante que a supra-realidade do texto parece superar a própria realidade da guerra. Assim, o texto transita entre o real geográfico, topográfico, biográfico, beligerante, genocida e o surrealismo da construção do texto cuja tessitura, embora pareça absurda, reflete a própria realidade. Nesse estágio, o escritor atinge a plenitude da arte de escrever, que acontece quando a supra-realidade supera em verosimilhança as atrocidades e massacres da guerra, quando percebe-se o quanto o ser humano, voltando à barbárie, vive mais para a crueldade, o sadismo e o masoquismo, esse estágio radical de aniquilamento do ser humano, reduzido a fera. 

autor não identificado
05.01.2006
excerto do artigo publicado no suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante (Brasil)
leia o artigo completo aqui

08/05/2006

Federico Mengozzi: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


Boa Tarde, Angola

António Lobo Antunes é feito para ser lido, não para ser ouvido. Quem quiser que o escritor português, um dos mais aclamados de seu país, esclareça um ou outro aspecto de seu novo romance, o 16o, Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo, vai esbarrar em dificuldades. Lobo Antunes não é de pegar na mão do leitor e dar o mapa da mina. Ao contrário: imaginando que formou seus leitores ao longo de 25 anos de literatura, acha que eles podem andar com as próprias pernas. 'O escritor ensina seu leitor a ler', arrisca, falando a ÉPOCA. Por isso, depois de muitas delongas, ele sugere que não lhe perguntem nada e dirijam-se ao livro. Mesmo porque ele apenas o escreveu. 'Não o li. Ao menos não com olhos de leitor.'

Em Portugal, 200 mil pessoas seguiram sua recomendação e foram ao livro, recém-lançado e já na sexta edição. É um sucesso. Mas Lobo Antunes, assim como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto (brasileiros que ele cita), não escreve para fazer sucesso. O sucesso, se vier, é conseqüência. 'Por que um escritor escreve? Julgo que nenhum escritor saiba dar uma resposta honesta. E a resposta desonesta não me interessa. Escrevo porque circula em meu sangue.' E mais não diz.

É um livro difícil. O autor discorda e cita a alta vendagem. 'Mas é claro que nem todos os que compram o livro o lerão', reconhece, cético. Uma leitura complexa, com parágrafos que a rigor não começam e a rigor não terminam, sem uma história que se revele com clareza, mas em lampejos, flashes que o leitor junta como pode, de acordo com sua percepção. O cenário é a Angola pós-independente, tempo de descaminhos que Lobo Antunes vê sem condescendência. Assim: 'Quando depois do que chamavam independência, isto é dos pretos a entrarem-lhes a porta e a roubarem-nos, isto é dos pretos a matarem-se uns aos outros, isto é dos pretos a transportarem sem desculpas, insultando-se, batendo-se, as mobílias, os fogões…'

António Lobo Antunes é médico psiquiatra, mas atualmente só se dedica à literatura. Participou, convocado pelo Exército português, da guerra colonial e fez de Angola o cenário de vários de seus livros, como Os Cus de Judas (1979), narrado por um médico como ele, que diz de si mesmo: 'Talvez que a guerra tenha ajudado a fazer de mim o que sou hoje e intimamente recuso: um solteirão melancólico a quem não se telefona e cujo telefonema ninguém espera...' Por que, mais uma vez, Angola? 'É um lugar onde vivi por muito tempo. Mais precisamente, por dois anos e alguns meses, durante a guerra, que equivalem a mais anos de vida. Não, não fui ferido fisicamente. Mas há muitas maneiras de ser ferido. Foi uma guerra cruel.'

Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo volta ao país, mesmo porque, escreve o autor no livro, 'não se foge de Angola'. Um resumo? Lobo Antunes se recusa a fazer isso. 'Se eu pudesse resumir o livro, não o escreveria. Passei dois anos escrevendo.' Não diz, mas deve pensar que não seria mau se o leitor empregasse alguns dias em sua leitura. Tudo se junta no romance, ficção e realidade, devaneios e reflexões, em três partes, mais prólogo e epílogo, nas quais se misturam agentes de espionagem, contrabando de diamantes, atos de corrupção, a Angola que foi, a que é. E o autor, referindo-se à guerra civil, diz coisas como: 'Visto que todas as crianças usam muletas em Angola...' Uma narrativa que não diz, apenas sugere.

Lobo Antunes já foi considerado o anti-José Saramago. Ele nem nega, nem confirma. 'Não cabe a mim responder.' É, ao lado de Saramago, o escritor português mais conhecido no Exterior. E, se o colega já levou o Prêmio Nobel, ele continua cotado para recebê-lo, embora não ligue muito. 'Não acho importante.' Enquanto o outro se transformou numa espécie de voz oficial da cultura lusitana, Lobo Antunes continua à margem. Até porque não é português de raiz, e sim descendente de uma família brasileira radicada em Portugal, que guardava autores como José de Alencar e Monteiro Lobato na estante - ainda hoje, tem muitos primos no Brasil. Por isso, sempre cita autores brasileiros. Como Saramago, mora fora de Portugal - a maior parte do tempo em Paris. E costuma lançar seus livros por editoras não-portuguesas.

Boa Tarde às Coisas aqui em Baixo é um lançamento de acordo com a fama de seu autor: um inovador que vai além da forma e põe o dedo em feridas abertas.

Federico Mengozzi
em Época
[não datado]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...