6 de abril de 2006

Da leitora Augusta: «este poema é para si»

Este poema é para si.

Passam noites passam dias
E essas estrelas que vias
Ontem pela noite no jardim
Se elas pudessem chorar
Faziam prantos por mim

Minha alma é vagabunda
E não a posso encontrar
Estou tão só neste mundo
Que só o quero deixar

Amargo é o sabor que sinto
No trago da minha vida
Vão-se os dias vão-se as noites
E não encontro a saída

Debrucei-me no rio
Para ver além do fundo
Vi as nuvens passar
E vi-me em outro mundo


Vi-me livre a vaguear
No mundo do esquecimento
De novo voltei a olhar
E tudo me foi diferente

Levantei meu copo para a lua
E a lua não quis aceitar
Era uma bola de fogo
Que estava a queimar

E fui-me embora a chorar
Sozinha desamparada
Como cega fui andando
Para poder te encontrar

E tu não estavas lá
Já tinhas ido embora
Ouvi no fundo um murmúrio
D’alguém só, d’alguém que
Chora...

Uma entre tantas leitoras que o admiram, mas talvez com uma diferença: às vezes gostava de estar aí sentada, muito quietinha ao seu lado só para o ouvir pensar.

Augusta
e-mail de 06.04.2006

3 de abril de 2006

Gisela Alina Pena disserta sobre Segundo Livro de Crónicas


Receita para me lerem: o Segundo Livro de Crónicas de Lobo Antunes

A produção literária de Lobo Antunes parece demarcar-se do conceito clássico de narração, para convocar uma “aparente” desconstrução genealógica, em relação ao cânone literário. Uma tendência para a reconversão dos géneros literários, que pode ser o reflexo de uma contingência histórico-cultural e ideológica, possibilitada pelo Portugal do século XX, o Portugal contemporâneo de Lobo Antunes, o Portugal pós-revolucionário, abatido por um profundíssimo mal-estar social e civilizacional e, por isso, redimensionado pelo olhar subversivo do escritor, convocando, desde 1979, a aflição de um mundo sem sentido, de fronteiras físicas e mentais desumanizadas.

A perplexidade instaurada por esse olhar passa, sobretudo, pela fuga, na cena literária, ao constrangimento da censura pidesca e pela inauguração de um mundo de liberdade, traduzido com palavras em liberdade. Os códigos da vida social e a sua elaboração pela ficção de Lobo Antunes sugerem uma escrita que parece estar longe de ser um produto ligeiro, comparativamente ao romance, por responder a imperativos de sobrevivência “alimentar”, enunciativos e pragmáticos: o curto alcance do texto, limitado na sua extensão, a consciência das expectativas de um público de jornal e a sua periodicidade quinzenal. Adivinha-se a irrisão do cronista, sentado no seu lugar de cúmplice disfarçado, face a uma concepção ingénua, menor e lateral da sua inserção cronística. É na crónica, pela sua brevidade, concisão e fluidez temática, suportada, no entanto, por uma estrutura fortemente elaborada e pensada, o lugar onde questiona o que de mais profundo conforma a condição humana e esclarece o que é a sua arte literária.

A experiência da crónica, na escrita de Lobo Antunes, apesar de recente, adivinha-se ser um marco importante no percurso ficcional traçado pelo autor. É possível encontrar três grandes momentos na sua obra literária enunciados pelo próprio em 1994, numa entrevista a Rodrigues da Silva: “Os livros que escrevi agrupam-se em três ciclos. Um primeiro de aprendizagem, com Memórias de ElefanteOs Cus de Judas e Conhecimento do Inferno; um segundo, o das epopeias, com Explicações dos PássarosFado AlexandrinoAuto dos Danados e As Naus, em que o país é a personagem principal; o terceiro, Tratados das Paixões da AlmaA Ordem Natural das Coisas e A Morte de Carlos Gardel, uma mistura dos dois ciclos anteriores, e a que eu chamaria de a “Trilogia de Benfica”.

A crónica assume-se como um universo de expressão narrativa, com uma geografia e uma latitude reduzidas, mas tensamente alinhavada e, por isso, acolhida no lugar de género, porque a logística subjectiva e discursiva prepara, ensaia e prolonga a ficção. Lobo Antunes escreve o projecto da dinâmica do fragmento. O fragmento parece ser “a categoria literária”.

As crónicas instauram o poético claro-escuro da vida, o relato que vira a alma do avesso e faz tremer por dentro pelo poder da memória, obrigando-nos a percorrer os recônditos espaços do passado e da intimidade, numa busca pela restauração de uma tranquilidade e de uma identidade perseguidas. Com ternura e amargura, atravessamos o mundo de pequenos heróis e de episódios de vivência pessoal e infantil. Memórias despoletadas pela nostalgia de um passado perdido, motivações, fragmentos que desencadeiam imagens irremediavelmente penduradas no tempo e em nós também. Ouve-se uma Angola feliz, na viagem introspectiva que convoca para o seu discurso, e os seus espaços e as suas pessoas e os seus lugares, mas, sobretudo, a dor da perda dos outros e de si. Às narrativas empresta o tom de desabafo lírico, decorrente da sua perturbação emotiva, da sua recordação pessoal e do registo subjectivo que percorre transversalmente os textos.

“Proíbo que me tirem radiografias para que as árvores de África não apareçam a tremer na película”, (Antunes, 2002: 217). Procedimentos discursivos e temáticos recorrentes percorrem as suas crónicas: a expressão memorial de um lugar tensamente sentido, dir-se-ia Angola, elemento temático que contamina a memória do narrador; o eco de uma gargalhada feliz da criança ausente, cuja vibração provoca batimentos de percussão ensurdecedora no narrador que a escuta, instalado no lugar de adulto onde agora se encontra, revendo o outro que foi no seu espaço de crescimento, “No nosso sangue existem mais ausências do que glóbulos. E uma análise à velocidade de sedimentação mostrará tudo em suspenso.”, (Antunes, 2002: 217); a expressão da subjectividade do narrador no discurso de memória e auto – biográfico, como a memória invocada pelo universo da família, da casa, da baixa de Benfica, da profissão de médico, da condição de escritor, da experiência militar, da relação com as filhas, das pessoas, mas igualmente da dor da perda dos outros e de si. Tudo atravessado pela aguda frustração de uma nostalgia pelo tempo passado e perdido, pelas pessoas que insistem em não ficar, pela vida que ensina tarde demais.

“As pessoas de quem gostámos e partiram amputam-nos cruelmente de partes vivas nossas, e a sua falta obriga-nos a coxear por dentro.”, (Antunes, 2002: 217). Uma imagem belíssima, carregada de lirismo confessional, que veicula a angústia profunda e aguda da memória do outro que dolorosamente perdeu. Dele, criança. Da infância, de um tempo em que a existência faz sentido, de um tempo de ordem, de inocência e de paz: “Fomos tão poucos dantes!”, (Antunes, 2002: 218). À deriva, num presente asfixiante, tem sede de inocência e nostalgia do universo familiar protegido, até porque a consciência dolorosa da perda ainda não se configurava. Só os outros morriam e “eles” pareciam eternos: “Esqueceste-te das estátuas com o nome das estações, do roseiral? Das pestanas transparentes dos porcos? Do mês de Junho em que tudo era verde, nítido, claro? De trazeres pilhas de livros para o jardim? De como te chamavas nesse tempo? Que António eras tu? Dos versinhos que escrevias? De ires ser escritor? Tão fácil ser escritor não é verdade? Tão fácil respirar.” (Antunes, 2002: 218). Mais difícil é experimentar e suportar a incomensurabilidade do tempo, da morte que não se compreende, porque parece não se aceitar, de pedaços de memória que ficam suspensos, cristalizando o eixo da vida, prolongando o sofrimento que ela causa, adensando o impacto emotivo nele próprio e no leitor que toma conhecimento dela por esse meio.

O narrador e a maioria das personagens das crónicas desfilam num mundo desumanizado, numa sociedade e numa época claramente marcadas pelos sentimentos empedernidos que dificultam e limitam os relacionamentos, mergulhados que estão num autismo atroador e de frustração aguda: os pequenos heróis, a memória do pai, da mãe e dos avós, das figuras míticas que povoam o espaço interior do narrador, Angola, as marcas sociais do universo da família, da casa e do bairro de Benfica, a criança que foi outro e a memória nostálgica desse fragmento.

Na crónicas, convoca a introspecção e obriga ao confronto com situações, pessoas, lugares, sentidos e emoções, de tal forma próximos e familiares, que nunca questionados por nós, na maior parte dos casos. Respiramo-los inconscientemente e, de súbito, dá-se a revelação. Por isso, projectamos, no reflexo das “páginas-espelho” das suas crónicas, sonhos e catástrofes, desejos e recordações, o pulso que Lobo Antunes nos toma para sentir o seu ritmo.

Regressamos da sua leitura já não os mesmos. Anestesiados e endurecidos por uma sociedade que nos consome e desgasta, as crónicas interrogam-nos já não sobre a vivência do narrador, mas sobre as nossas. O “perigo” que a sua leitura pode constituir é o de vermos e ouvirmos aquilo que nervosamente procuramos silenciar, porque dói. Somos nós mesmos que ali estamos redimensionados. Será que procuramos essa verdade? Certamente.

“A verdadeira aventura que proponho é aquela em que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana”. (Antunes, 2002: 109). O leitor actualiza o acto da leitura a partir do momento em que aceita a “chave” do texto e acompanha o narrador no ímpeto do dizer a memória. O leitor torna-se leitor de si e o exercício da memória, a literatura.

Nas crónicas, onde ensaia a metáfora das “páginas – espelho”, denuncia as ligações complexas que o indivíduo instaura no seu universo, problematiza a profunda dificuldade de apreensão e vivência do real e da sua conversão em instituição literária. O esforço do leitor em juntar pedaços de memória implica que, ao participar no desenvolvimento da narração da memória, se constitua, também, como parte integrante da ficção e reconheça, ao mesmo tempo, aquilo que em si existe de profundamente humano e paradoxal, fazendo-o interrogar sobre aquilo que existe de tosco no seu quotidiano e acenando à transfiguração plástica, através do bisturi que a sua “página-espelho”opera.

As crónicas de Lobo Antunes, citando Carlos Reis, colocam-se naquele lugar de onde é possível ver, “diante dos nossos olhos, às vezes tão cegos para a evidência das coisas, fluir esse mundo feito das experiências do escritor e também das nossas vidas, mundo que transporta no seu curso e na História colectiva, de que mal nos apercebemos, por dela estarmos tão perto.” Desse lugar selecto, de onde se vê “um mundo matizado pela ternura de um olhar dividido entre a lúcida consciência de si e a nostalgia de um tempo de aniversários familiares em que era possível, diz Lobo Antunes, ser indecentemente feliz.”
  
BIBLIOGRAFIA:
ANTUNES, António Lobo. (2002), Segundo Livro de Crónicas, Lisboa, Publicações Dom Quixote.
CABRAL, Eunice, JORGE, Carlos e ZURBACH, Christine, (2003), A Escrita e o Mundo em António Lobo Antunes,Actas do Colóquio Internacional António Lobo Antunes da Universidade de Évora, Évora, Publicações Dom Quixote.
REIS, Carlos, (1995), O Conhecimento da Literatura, Introdução aos Estudos Literários, Coimbra, Almedina.


por Gisela Alina Pena
não datado

30 de março de 2006

Pedro: opinião sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


O espaço exterior deixa de ser apenas uma imagem inerte, transformando-se num poço de sentimentos, um passado e um presente de relações inter-pessoais, de sofrimento e de felicidade. Os vários elementos que compõem os lugares vão sendo descritos separadamente, sobrepondo-se ao longo do livro até construir uma imagem por inteiro. Lobo Antunes volta ao passado e ao mesmo local muitas vezes ao longo da narrativa, chegando a um auge onde deixa de ser necessário referir o nome do sítio ou da pessoa, dando apenas um elemento da paisagem para que o leitor perceba onde a personagem está e consequentemente o que sente (um elemento da paisagem transforma-se na sua totalidade), "e as gaivotas não é verdade, detestava-las e no entanto não esqueceste as gaivotas, a forma como devoravam o peixe, esses gritos de criança à tarde", para quê mais palavras? porque dizer eu odiava o meu pai Travesti, a minha mãe Puta, o degredo da minha vida associada aos meus progenitores, se posso dizer "odiava as gaivotas do Bico da Areia!".

Neste livro o "Cá Dentro" aparece como oposição ao "Lá Fora", o Interior, lugar de opressão e sofrimento, o Exterior, como fuga da tristeza, 
"Julgávamos que se tinha ido embora e as notazinhas a mofarem da gente, o Rui a suspender a guita e veia alguma, uma constelação de feridinhas, atira-lhe uma pedra Paulo, um bocado de tijolo, um torrão, uma merda qualquer que o bicho dá-me cabo dos nervos, o meu quarto nos Anjos a seguir ao quarto da finada,. quase todas as noites despertava cuidando escutá-la, sentava-me na cama a ouvir até me dar conta que era a dona Helena e no dia seguinte rosas novas na jarra, compradas no mercado mais a carne, os tomates, o oregão, não escarlates, quase rosas, procurar os guaches e pintá-las de azul, pintar o sol na parede e as nuvens e as ondas, não as ondas do Bico da Areia, ondas a sério, grandes, quantas vezes ao tornar de Chelas dava com a dona Helena no sofá e o senhor Couceiro a segurar-lhe a mão e como não sou capaz de fazer as coisas de maneira diferente magoá-los por me preocupar com eles, enfurecer-me por os magoar e castigar-me magoando-os mais";

" - Queres apanhar um tabefe não queres malcriada? um cão invisível no quintal antes do nosso..."

 
Pedro
30.03.2006

12 de março de 2006

Maria de Lourdes Soares: Até ao fim do mundo


D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerrao mais recente livro de António Lobo Antunes (Lisboa, 1942), reúne cartas enviadas pelo autor à sua mulher, entre 1971 e 1973, quando ele combateu no Leste de Angola, na fase final da guerra colonial portuguesaAssinam o prefácio as organizadoras do volume, Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes, filhas do casal. O projeto do livro, extremamente cuidadoso, além dos aerogramas, inclui fotografias e algumas notas, que “fazem algumas contextualizações da época e explicam parte das referências feitas nas cartas”, assim com um glossário, “que trata da linguagem relativa à África, à guerra e a alguma gíria usada nas cartas” (ANTUNES, 2005: 12).

A leitura deste livro provoca ao mesmo tempo comoção e reflexão. Comove e faz refletir já a partir do contraste entre a emanação de felicidade da fotografia da capa – um jovem casal de noivos - e os presságios de desgraça, evidenciados no subtítulo. A comoção desta foto amplia-se na foto em página dupla, referente ao aerograma de 17.5.71 (ANTUNES, 2005: 164-165), ante a beleza e desprevenida alegria das faces dos nubentes, vivendo a ilusão de um futuro que logo se quebrará. Punge pela maravilhada inocência do que está no começo, pela promessa de felicidade, pura potencialidade de ser – o casamento, a profissão, a literatura, os sonhos... -, e que irremediavelmente será atingida pelas “malhas que o império tece”, como diria Fernando Pessoa (PESSOA, 1977: 146). Toca-nos porque essa é também a nossa história, de alguma forma contemporâneos e de alguma maneira atingidos pelo monstro da guerra e pelo espectro da morte.

Os quase trezentos aerogramas do médico alferes à amada Maria José (dois dos quais dedicados à filha recém-nascida, batizada, por decisão de Lobo Antunes, com o nome da esposa) constituem “uma espécie de diário do amor ausente [aerograma de 12.11.71]” (ANTUNES, 2005: 294), um amor suspenso, em pleno vigor da juventude, adiado por contingências históricas, por uma guerra absurda e inútil como soem ser todas as guerras. Ele parte deixando para trás um casamento recém-iniciado, a esposa grávida, impedido de acompanhar a gestação, o nascimento e os primeiros meses de vida da filha. “Porque não nos deixam ser felizes? Porque nos tiram assim alguns dos melhores anos da nossa vida? [aerograma de 15.6.71]” (ANTUNES, 2005: 198).

O material epistolográfico constitui um longo e obsessivo discurso da ausência. Nas palavras de Roland Barthes, “devo infinitamente ao ausente o discurso da sua ausência; situação com efeito extraordinária; o outro está ausente como referente, presente como alocutário” (BARTHES, 1986: 29). Escrita compulsiva, praticamente diária, a tentar enunciar o amor por toda a parte, ocupando todo o espaço disponível no papel, inclusive as margens, e a suplicar angustiadamente pela pronta resposta. Ainda com Roland Barthes, esta é a dialética particular da carta de amor: “como desejo, a carta de amor espera sua resposta; ela impõe implicitamente ao outro de responder, sem o que a imagem dele se altera, se torna outra” (BARTHES, 1986: 33).

O autor dessas cartas de amor em tempo de guerra do Ultramar revela-se, portanto, um remetente apaixonado e, como tal, hiperbólico no envio de beijos e na enumeração das qualidades da amada, objeto de singulares epítetos e comparações, de que serve de exemplo o início desta longa carta-poema: “Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa (...) [aerograma de 17. 4.7] ” (ANTUNES, 2005: 131).

Quanto mais proclama a desmedida e quase insuportável dor da ausência, mais grita a dor da guerra, dor nem sempre descrita, quase abafada, controlada, por várias razões (para não afligir a esposa grávida, por não ser permitido tocar nesse assunto em aerogramas...). A saudade e o desespero crescentes tornam-se materialmente visíveis na grafia alterada do aerograma de 5.4.72, que apresenta letras imensas e algumas expressões em maiúsculas: “Tudo visto e pesado, prós e contras, VEM, VEM JÁ. Estou farto de viver sem ti. Espero apenas que me digas o dia, e que seja o mais próximo possível. Espero-te com todo amor do mundo. António” (ANTUNES, 2005: 396).
O livro põe-nos diante das fronteiras do literário: (Auto)biografia? Romance epistolar?Memórias do Ultramar? Contribui para o seu caráter híbrido o material nele incluído: algumas fotografias referidas nas cartas (registros do “viver aqui neste papel descripto” do remetente, em flagrantes de campanha, e também da destinatária, mantendo-se sempre esplendorosamente bela durante a gravidez e após o parto) e reproduções da cartilha de alfabetização do MPLA [aerograma de 1.3. 71] (ANTUNES, 2005: 70-71), que agregam à dimensão estética outras dimensões, notadamente as de cunho histórico e sócio-cultural.

O título do livro remete à literatura, mais precisamente a um trecho de uma carta de um dos poetas ligados ao grupo de Fernando Pessoa, Ângelo de Lima (Porto, 1872 - Lisboa, 1921), que viveu muitos anos internado para tratamento psiquiátrico em Hospitais do Porto e de Lisboa. Ângelo de Lima sempre foi muito apreciado por Lobo Antunes, segundo informam as organizadoras do livro, e o seu caso clínico por ele estudado, de que resultou o premiado trabalho: “Loucura e criação artística: Ângelo de Lima, poeta de Orpheu”. O titulo deste volume de cartas anteriormente havia sido escolhido por Lobo Antunes e recusado pela editora para dar nome ao que viria a ser o seu primeiro romance: Memória de elefante (1979): “o título original de Memória de Elefante era a frase final da autobiografia de Ângelo de Lima, deixo de viver aqui, neste papel onde escrevo, mas o editor disse que era muito comercial, que era muito grande” (ANTUNES, 1982). Nessa primeira escolha, portanto, já se desenhavam e entrelaçavam as duas linhas que marcariam a trajetória do autor: a sua paixão pela literatura e o seu imenso interesse pela psiquiatria.

Literatura, aliás, é um dos mais fortes temas que atravessam as missivas de António Lobo Antunes, tendo a destinatária como interlocutora privilegiada e leitora primeira de excertos de seus escritos, que incluíam também algumas tentativas poéticas. Assim, tomamos conhecimento de suas leituras, dos autores amados e detestados e, sobretudo, da sua postura sempre exigente face à literatura, inclusive diante dos próprios escritos (a ponto de pedir à mulher para deitar ao lixo alguns textos que deixara em Portugal ou de ele mesmo destruir inúmeras páginas escritas em Angola). E surpreendemo-nos a acompanhar o nascimento de um escritor, um Lobo Antunes ainda desconhecido, às voltas com a escrita do seu primeiro título, oscilando entre a euforia de quem conseguiu escrever páginas perfeitas e a convicção de que tudo precisa ser revisto ou destruído.

Há uma expressão obsessivamente reiterada em D’este viver aqui neste papel descripto,afirmando o amor “até ao fim do mundo”, figura análoga a “eu-te-amo”, que se refere ao “repetido proferimento do grito de amor”, na acepção de Roland Barthes: “eu-te-amo não é uma frase: não transmite um sentido, mas se prende a uma situação-limite: ‘aquela em que o sujeito está suspenso numa ligação especular com o outro’. É uma holofrase” (BARTHES, 1986: 97-98). Esta expressão nos remete a um dos elementos presentes no mais apaixonante dos mitos portugueses: o dos amores de D. Pedro e Inês de Castro, episódio amoroso cantado por Camões e por muitos outros poetas, ficcionistas e pintores ao longo dos séculos. Segundo conhecidas interpretações da epígrafe dos túmulos de Pedro e Inês («A:E AFIN DO MUNDO»), a inscrição pode significar “Até ao fim do mundo”, e consigna o amor eterno jurado pelos célebres amantes. Por esta razão, um dos cognomes de D. Pedro é “O-Até-ao-Fim-do-Mundo-Apaixonado” (Note-se, aliás, que os seus demais cognomes – Pedro-o-cru e Pedro-o-justiceiro – de certo modo também estão relacionados ao seu “desvario” pela linda Inês).

Parte dessa expressão – “fim do mundo” - aparece também na correspondência de Lobo Antunes enviada à amada, mas bem menos vezes e com outro sentido, não ligado às eternas juras de amor, mas ao sentido corrente em Portugal de lugar inóspito, distante da terra natal, desprovido de tudo: “Isto é o fim do mundo: pântanos e areia. A pior zona de guerra de Angola: 126 baixas no batalhão que rendemos, embora apenas com dois mortos, mas com amputações várias. Minas por todo o lado” [aerograma de 27.1.71] (ANTUNES, 2005: 29). Em suma, um lugar situado nos “cus de Judas”, expressão que dá título ao segundo romance de Lobo Antunes (1979), palco onde se desenrola o “gigantesco, inacreditável absurdo da guerra”, conforme o narrador deste livro, um ex-miliciano recém-retornado ao seu país (ANTUNES, 1984: 44). Segundo depoimento do autor, “Curiosamente a Memória de Elefante é que era o título do livro Os Cus de Judas.Os Cus de Judas foram arranjados depois, na altura da obra sair. A expressão quer dizer traidores, para negros” (ANTUNES, 1982).

E é este sentido de traição, de dupla traição, de irreparável traição do destino (um dos possíveis nomes dos senhores da guerra), que a expressão parece sublinhar. Roubou aos amantes os melhores anos. Manchou-lhes a promessa de felicidade. Secou no escritor estreante o pendor para a poesia. Abortou sonhos. Mutilou corpos e almas. Deixou em todos envolvidos, de aquém e de além mar, marcas indeléveis, feridas difíceis de cicatrizar. No campo devastado dos amores e da guerra, entre ruínas e destroços, algo, porém, insiste em fulgir ainda, uma declaração de amor, entoada em forma de pungente canção do exílio, no aerograma de 13.4.71: “Estar aqui traz-me constantemente à memória, não sei porquê, paisagens como aquela estrada entre Santarém e Alpiarça, com os plátanos fechando-se por cima das cabeças, o jardim público de Montemor, a Golegã deserta a qualquer hora e de portas fechadas, o Tejo assoreado reduzido a imensos bancos de areia. Eu gosto desesperadamente do meu país e da minha amada língua portuguesa, a mais bela de todas. Quero ser enterrado aí, onde quer que morra, sob o ‘vento que muxe coma unha vaca’ ”[1] (ANTUNES, 2005: 126). Consola um pouco pensar que, apesar de todos os pesares, este persistente afeto do soldado-escritor por sua língua e pelo seu “pequeno e triste país de viúvas a descer para o mar [aerograma de 13.4.71]” (ANTUNES, 2005: 126) nada nem ninguém conseguiu minar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, António Lobo. Memória de elefante. Lisboa: Vega, 1979.
––––––. Os cus de judas. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1984.
––––––. Entrevista com António Lobo Antunes. Jornal de letras, artes e idéias, Ano I, nº 23, Janeiro de 1982.
––––––. D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da guerra. Organização e prefácio Maria José Lobo Antunes e Joana Lobo Antunes. Lisboa: Dom Quixote, 2005.
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. 6ª ed. Tradução de Hortência dos Santos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.
PESSOA, Fernando. Obra poética. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.

[1] António Lobo Antunes atribui o verso citado à poeta galega Rosalia de Castro [Santiago de Compostela, 1837 – Padrón, 1885]. Na realidade, porém, de acordo com a nota das organizadoras, “a citação é de Garcia Lorca, conforme vem correctamente identificada mais à frente” (ANTUNES, 2005: 126).

por Maria de Lourdes Soares
em CiFEFiL (Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos - Brasil)
12.02.2006

20 de fevereiro de 2006

Ana Marques Gastão: opinião sobre Terceiro Livro de Crónicas


Laboratório do romance

Uma palavra e depois outra, a origem que designa o texto, o movimento de algo para nascer. Palavras que se geram umas às outras. Às crónicas - um outro conjunto é agora[Fevereiro de 2006] publicado num terceiro volume -, António Lobo Antunes já chamou "prosinhas". Vivem, no entanto, como espaço de continuidade, contaminação e até no interior do labirinto dos romances. São um laboratório da literatura, ou mesmo um diário, conforme lhes chama, escrito ao correr da pena. Há sempre, no entanto, uma voz fugitiva, a do autor de Que Farei Quando Tudo Arde?, escapando-se, fragmentária, sombra difusa de infâncias várias que passam da mão para o papel, partitura de silêncios que resiste, porém, contra a mudez.

"A arte é ser absolutamente si próprio", disse Baudelaire. A condição do escritor passa por ser o mesmo saindo de si mesmo, esse "cego de mãos vazias a tropeçar", a "tentar vencer Deus a toda a largura do tabuleiro". O registo poético, o tom auto-irónico, a rememoração de tempos outros, mitificados ou dissecados à faca, avançam e recuam como peças de um puzzle de cheiros e retratos, sentimentos e ressentimentos, impossibilidades e incomunicabilidades e incomunicabilidades, expostas para dentro em nódulos dispersivos e, não obstante, coerentes. De construção arquitectónica exemplar, estes textos são povoados por figuras à solta nos romances. Não será por acaso que os títulos adaptam, por vezes, os da ficção: Explicação aos Paisanos ou  Tratado dos Crepúsculos.

Angústia e desejo de limpidez habitam as páginas numa caligrafia líquida. "Escrever consiste em trazer para cima", cavar. Mesmo nas crónicas, mesmo nas crónicas...


por Ana Marques Gastão
em Diário de Notícias (suplemento 6ª)
17.02.2006

António Lobo Antunes, A arte de não cair


Diário de Notícias - suplemento 6ª - entrevista de Ana Marques Gastão
17 Fevereiro 2006



Caçador de Infâncias


O romance que já não é romance, a crónica de galope curto, a escrita a correr como água no sobrado. O amor, a amizade, a infância, a morte, Deus. A entrevista com António Lobo Antunes, no momento em que lança o Terceiro Livro de Crónicas (Dom Quixote), fala dos livros, essa coisa “enterrada debaixo de um aluvião de palavras”.

Este diálogo poderia iniciar-se pelo espaço entre as palavras. Muito da sua obra passa por aí, seja no romance seja na crónica?
Aquilo que se escreve tem de ser suficientemente poroso para que o leitor possa criar o seu livro. Leva-se tempo a compreender que a retenção da informação é o mais importante. Os bons escritores policiais fazem-no bem. Por snobismo não os lemos e perdemos muito do ponto de vista técnico, porque isto é um ofício e, como qualquer outro, requer trabalho. Perguntaram um dia a João Cabral (de Melo Neto), um homem que parece ter nascido sem ascendentes, como se inspirava. Ele respondeu quase indignado: “Escrevo um poema quando decido que vou escrever um poema.” Da mesma maneira que Victor Hugo se sentava às nove da manhã à secretária… A gente escreve porque decide escrever.

E aí entra o silêncio… O seu silêncio é um silêncio-memória?
O problema é como transformar as palavras em silêncio.

À semelhança da composição musical, o espaço entre as notas é vital? No fundo, o que faz dir-se-ia uma partitura…
Um pouco. Sinatra é espantoso a usar as pausas quando canta, como Schubert nosImpromptus. Quando o silêncio se torna angustiante, quase insuportável, vem a nota seguinte salvá-lo. Inapreensível e ao mesmo tempo tão concreto…

Porque Schubert decide; decide não cair.
E sabe manter o silêncio sem cair. Larga um trapézio e segura outro. Quando escrevi oFado Alexandrino, dei-o ao Zé Cardoso Pires para ler e ele não dizia nada. Então pergunte. “Ó Zé, que achaste?” “Não sei, ainda só li duas vezes.” Quando voltei a pegar nele, entendo onde é que ele hesitou, sei o que ele mudou. Um livro bem construído é um ovo.

A inspiração para Artaud era um feto, estava lá tudo. Desse tudo parte-se para a estruturação…
E não está tudo nas primeiras versões? Como se um livro fosse uma coisa enterrada debaixo daquele aluvião de palavras, uma estátua soterrada num jardim.

Um livro é uma Pompeia?
[Risos]. De algum modo, sim. Eugénio chamou a um livro seu Ofício da Paciência. É um pouco isso.

Acaba de publicar o Terceiro Livro de Crónicas. Não as considera literatura, mas quem está de fora vê-as como um espaço de continuidade em relação ao romance. Entende-as assim?
As crónicas tiveram um princípio simples: a editora não me pagava, nem ao Zé, e eu já estava a viver da escrita. Providencialmente, apareceu-me um homem chamado Vicente Jorge Silva, então director do Público, a pedir-me uns textos. O Zé e eu passámos a escrever alternadamente aos domingos. Pensei que tinha de fazer umas coisas ligeiras, divertidas, que interessassem às pessoas, mas eu tinha o galope muito largo e havia que parar quando pensava que ia começar. Era puramente alimentar e feito sem nenhum prazer.

Mas há uma ligação temática e formal ao romance…
Ia contando umas histórias, mas as crónicas tiravam-me tempo para os livros, por isso quando voltaram a pagar-me, e as traduções me permitiram sobreviver sem ter de as fazer, larguei-as. Depois retomei-as mais tarde, percebendo que podia usá-las como uma espécie de diário paralelo aos romances. Nelas posso dizer o que quero, nos livros digo o que eles querem. Pensar é ouvir com atenção. Para escutar é preciso escutar a voz que dirige a mão.

São as ressonâncias musicais da sua obra. Há vozes…
Pergunto-me se não se tratará de uma única voz. Fala-se muito de polifonia, mas eu interrogo-me.

Não será polifonia, mas Eus separados que falam…
Sim, mais isso, Eus que mudam, vêm e vão. Nas crónicas não. Sento-me, a primeira palavra chega e depois acabam por se engendrar umas às outras.

As suas personagens não o são num sentido clássico, como em Beckett?
Somos tão diferentes… Em Paris perguntei ao Bourgois se ele gostava do Beckett. E ele respondeu: “Je respecte.” Há escritores de quem não se gosta e a palavra para eles é essa, respeito.

As vozes de Beckett exprimem a incapacidade de chegar ao Outro. Na sua obra passa também tudo por aí?
No Beckett aquilo sangra. Para mim, o seu livro mais perfeito é Molloy, embora possa aceitar que os outros são melhores do ponto de vista técnico. Julgo que sou muito primitivo no sentido da vocação animal, para usar um título do Herberto Helder. Há livros que me chateiam de morte ou não os compreendo, então não digo que não gosto, tenho vergonha. Mas não gosto.

As suas crónicas são muitas vezes evocações, imagens míticas de um tempo de harmonia na infância ou formas de registo da falha, da brecha, da desintegração…
Guardamos, com frequência, recordações gratas da infância. Mas, em geral, são dramaticamente infelizes, porque temos censores em cima de nós, pessoas que tendem a normalizar-nos no sentido normativo, desde educar os esfíncteres, a não por os cotovelos em cima da mesa. O Alexandre Dumas perguntava-se, no diário, porque é que havia tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos. E punha-se a reflectir se não seria um problema de educação. Isso faz-me lembrar uma frase da Gertrude Stein a propósito da importância de ir para Paris: “Não é tanto o que Paris dá, é o que Paris não tira.”

Como se equilibra o voo interior com a disciplina, a educação?
Já reparou como os desenhos das crianças são fascinantes até aprenderem a perspectiva? Quando começam a desenhar a três dimensões, perde-se tudo. Uccello, que a inventou, quando a mulher o chamava para a cama, ficava a dizer: “Como ela é doce, a perspectiva…” E não se deitava com a mulher. A pergunta será: “Como manter a virgindade do olhar?” Talvez com uma sabedoria que é aparentemente contraditória.

Como se faz o “retrato de família” depois de se entender o que foi amputado na infância? Há crónicas suas a partir de fotografias, nomeadamente a que abre o livro…
Não tenho respostas gerais, sou só uma pessoa. Os retratos sempre me fizeram sonhar, os que encontramos nas casas dos parentes idosos, das tias-avós que vivem rodeadas deles: aqueles fundos enevoados que parecem as lágrimas dos fotógrafos… Tive muitas vezes a sensação de que os olhos daquelas pessoas se mexiam, me censuravam ou acarinhavam. Uma boa parte de mim continua animista, a dar vida aos objectos.

Que lhe ficou da infância, “o orgulho, a paciência, a solidão”?
Isso são as coisas necessárias para escrever, bem como a sensação de que não me vou deixar vencer por um livro. Só vale a pena começarmos um romance quando temos a certeza de que não somos capazes de o fazer. São os livros que ensinam, mas não sei de onde vêm. O Eduardo Lourenço, num colóquio sobre a minha obra em Évora, citou um soneto do meu não caro Pessoa: “Emissário de um rei desconhecido/eu cumpro informes instruções d’Além”. É a mão a andar sozinha.

E a mão é cega?
Sim… tem as suas próprias leis, porque se quisermos entortá-la ela só vai para aonde quer. Então não vale a pena fazermos planos. Até ao livro A Morte de Carlos Gardel, fi-los sempre por medo, por defesa, até me aperceber de que os romances têm temperamento, fisionomia, carácter.

Há uma inevitabilidade na escrita?
É essa a palavra, inevitabilidade.

Ana Hatherley fala da mão inteligente…
Os franceses chamam-lhe a mão feliz.

Uma mão feliz que escreve com tristeza?
Sim, e no sentido de encontrar a palavra certa, mas ainda não é isso que faz um grande livro. São necessárias variantes diversas para que ele nasça, não sei de onde.

Disse que escreveu um dos seus romances num estado próximo dos sonhos, de sonambulismo. É uma concepção de escrita muito próxima do romantismo, essa sensação de que um livro lhe pode ser “ditado por um anjo”?
Mensageiro…

Porquê um anjo?
Porque não posso com sinceridade chamar àquilo meu. É como se os livros fossem aquelas coisas que existem por cima dos armários onde não chegamos. Então, em bicos de pés, tenta-se lá ir com a mão.

A tal mão que não vê?
Mas que pode ver uma lâmpada fundida ou uma coisa boa. Estamos a falar com palavras de coisas que lhes são anteriores.

De antes do tempo?
Coisas intraduzíveis em palavras, anteriores. Como rodear tudo com palavras e vertebrá-lo num todo coerente? Por isso acordamos com um livro, deitamo-nos com ele. Um escritor espanhol, Sánchez Ferlosio, de quem eu gosto muito, casado com outra escritora, que morreu em 2000, chamada Cármen Martín Gaite, disse um dia: “A Cármen e uma viúva que tem o morto em casa.” Esta é a melhor definição do artista [risos].

Quase tudo deixa de existir?
A pessoa está tão obcecada, tão dentro daquilo, que nem a solidão existe. É uma relação carnal. O livro passa a ser a vida. Então, sobra pouco tempo para os outros. Tendemos a afastar tudo o que possa perturbá-lo. São exigentes os romances, pedem atenção, dádiva. O problema é que se não se escreve tudo fica sem sentido.

E no intervalo dos livros?
Temos ainda o livro anterior dentro de nós. É angustiante. Exactamente como se estivéssemos cheios de cães pretos que se matam uns aos outros. Há em simultâneo um sentimento de culpabilidade e de infidelidade se não se escreve. Talvez seja uma concepção quase religiosa, de missão.

A memória tem um papel essencial no nascimento dos livros?
A imaginação é feita de memória. Os neurologistas sabem isso, porque as pessoas que tiveram AVC ficam privadas de imaginação que não é mais do que a forma como arranjamos, rearranjamos e rerrearranjamos a nossa memória.

A memória é a “sensação que dura”? É isso que o escritor tenta, fazer perdurá-la?
E dar trabalho aos críticos para 500 anos. Compreendo mal o que estou a fazer. Ainda é muito cedo para perceber o que eu possa ter trazido ou não. Há uma quantidade de pessoas a tentar escrever à António Lobo Antunes aqui, em França, na Alemanha. Apesar de ser surpreendente, é mau, porque se quero fazer coisas boas tenho de escrever contra os escritores de quem gosto. Contra o Tolstoi, contra o português que Camões nos deu e continuamos a falar. Assombroso como ele transformou a língua portuguesa!

No fundo, reformula-se a tradição…
Às vezes, trata-se apenas de glosar. Basta uma palavra. No fundo, que é a obra arte? A pequena deslocação. Céline falava da técnica dos corantes. O grande artista traz uma forma diferente de colorir.

Os seus livros libertaram-se da narrativa para se afirmarem como estrutura poética. A poesia pode ser memória excessiva?
Sou um poeta falhado, e quando percebi que o era caiu-me o mundo em cima. Tinha construído toda a minha vida com os preceitos de Max Jacob para chegar à conclusão de que não tinha talento. Depois de ler aquele soneto de Quevedo, “Aislado en la paz de estos desiertos/con pocos, pero doctos libros juntos/vivo en conversación con los difuntos/y escucho con mis ojos a los muertos”, que se pode escrever? Está tudo dito.

A escrita não deixa de ser uma conversa com a morte…
Mas este soneto é sobre a vida.

Sim, feito por alguém com a percepção da finitude.
Consciente de que essa finitude não existe porque ele é um elo de uma corrente que começou antes dele e acaba depois dele.

E, no entanto, ele vai morrer, os dele vão morrer.
Ele está a ouvi-los com os olhos, por isso está vivo. Nos tempos livres tento traduzir os poetas latinos: Ovídio, Virgílio, Horácio que diz: “Para criar é preciso uma breve desordem precedida de furor artístico.”

Há um caos inicial que se reconstrói?
Um vazio. Depois, a pouco e pouco, o romance começa a encontrar o caminho como água no sobrado.

Quando se chega a esse estado de paisagem líquida há prazer?
Talvez como no orgasmo, mas eu sou homem e por isso tenho a infelicidade de ter orgasmos mais curtos.

Liga a escrita ao erotismo?
Ao acto sexual. A associação não é só minha, muitos a fizeram antes de mim, alguns tornavam-se abstinentes enquanto escreviam.

O seu texto nunca é liso, embora haja cada vez mais nudez…
Gostava que ele corresse como água.

Mas tem rugosidades, é labiríntico…
Vamo-nos despindo da gordura. Camões é tão substantivo: “Oh quem tanto pudesse que fartasse/este meu duro génio de vinganças.” Não há aqui um adjectivo. Está duro. É muito difícil de fazer.

Como se conjuga o delírio com o rigor?
A solução está na visita de Eça a Antero. Ele estava a destruir poemas. Agarrava as folhas, dobrava-as muito bem vincadas, depois em quatro e só então cortava à faca com cuidado. O Eça perguntou-lhe porquê ele respondeu: “Porque até no delírio é necessária ordem.” É um dos artistas portugueses por quem tenho mais respeito – nunca perdoou ao Eça as suas falhas de carácter. Era uma referência ética, um magnífico poeta.

É invulgar o lado ensaístico da sua poesia…
Não só isso. O meu editor francês, Christian Bourgois, esteve a morrer com um cancro e suportou as coisas com uma enorme serenidade. Um dia eu disse à mulher: “O teu marido foi de uma coragem extraordinária.” E ela respondeu-me: “Não é coragem, é elegância.” A cobardia é de uma deselegância total. Isso vi na guerra: um oficial a borrar-se de medo.

A cobardia não é o mesmo que o medo.
A coragem é não ter medo de ter medo. Medo tinha eu que me fartava. Quando havia uma coluna, os rapazes eram sorteados para decidir quem iria guiar o rebenta-minas e, quando vinham despedir-se de mim, entregavam-me, às vezes, o testamento sem uma palavra. Com uma elegância… Como príncipes. Por isso me indigna ver os portugueses viver mal, porque somos um povo extraordinário. Tenho um imenso orgulho em ser português.

Como é esse combate com a morte?
Não falávamos na morte, era tão próxima. Deslocávamo-nos com os nossos caixões. Cada um tinha escolhido o seu sem tristeza.

Escolhiam entre ser comediantes ou mártires, como dizia Céline?
Era uma forma de esconjurar.

Que sentiu quando viu publicadas as cartas de guerra, D’este viver aqui neste papel descripto?
A maior ambivalência, mas percebi as razões profundas das minhas filhas. Talvez não fosse, porém, má ideia que tivessem esperado que eu morresse. Gostaria que as cartas fossem lidas para que não voltassem a acontecer situações daquelas e que funcionassem como uma homenagem aos mortos, aos que lá ficaram sem voz. No fundo, escrevemos por aqueles que não têm voz. Tenho medo que sejam lidas por voyeuristas, como se estivessem a assistir a uma relação pelo buraco da fechadura. E deve-se respeito, sobretudo a esse um milhão e 500 mil miúdos que ficaram com a vida estragada pela guerra.

Sentiu-se útil como médico na guerra colonial?
O ter lá estado foi importante para mim por ter descoberto os outros e por ter aprendido a sentir-me igual aos outros. Deixei de ter uma concepção ptolomaica do mundo do qual eu era o centro. Não tinha a menor consciência políticas, cresci protegido, as greves estudantis passaram-me ao lado. Escrevia e jogava xadrez e, de repente, sou colocado na guerra. Para mim, a morte não existia, os meus avós tinha 40 anos quando eu nasci.

Qual é a diferença entre esse homem de 28 anos e o de hoje?
Foi na guerra que eu nasci e comecei a ser o que sou hoje, já habitado pelo sonho de escrever. Não concebo a vida de outra forma, mas perdi muita coisa, eu sei.

E a morte que viu de perto é essa “suspensão dentro da gente”?
Não sei o que é. No outro dia tive um pesadelo: tinha morrido há 20 anos e as pessoas estavam a discutir os meus livros. Fiquei furioso porque não era nada daquilo e queria voltar, mas não podia. A sorte dos livros preocupava-me.

Há um certo de desejo de ser bem lido, compreendido?
Não sei, mas com que parte a gente compreende?

Com aquilo que chamamos alma, com o corpo, a razão?
Qual o melhor crítico de teatro? O rabo. Quando não nos dói a peça é boa. O melhor crítico musical é a espinha: quando sinto arrepios, a música é boa. Com literatura será diferente porque não são possíveis orgasmos ao longo de 300 páginas. O certo é que escrever cansa, cansa o corpo.

Porque a escrita é uma imobilidade móvel. Proust, a propósito da memória, diz que somos transportados para trás e de trás para a frente…
Claro que é e as outras artes também. Quem me pintou o retrato pela primeira vez foi o Pomar. E ele dizia: “Mexe-te!” Ao mesmo tempo aquele homem tornava-se intimidativo porque o rosto estava transformado e ele andava de um lado para o outro. Uma vez a mulher a dias perguntou-lhe: “Porque é que o senhor trabalha tanto se já tem os filhos criados?”

Há algo de alucinatório na escrita?
Claro que há. Que é o delírio? Construir a partir de uma premissa errada um edifício lógico. Escrever é isso: “Vamos fazer de conta que” e aquilo acaba por se tornar real. Dir-se-ia a “incredibilidade suspensa” de Coleridge. Como leitor, procuro sempre ver como está feito e começo logo com vontade de corrigir. É preciso que seja O Monte dos Vendavais para que isso não aconteça.

Fala nesse livro especialmente porquê?
Porque se trata de um livro assombrante, como Emily Brontë que o escreveu. Se estivesse viva, apaixonava por ela, estou apaixonado por ela, mas acho que tentaria consumar essa paixão. Um bom livro é o que foi escrito só para mim. Ela escreveu só para mim. Os livros bons são os que não dormem, os que vemos quando acordamos a meio da noite e estão lá a olhar para nós, a interrogar-nos.

Um pouco como a amizade, mais desinteressada do que o amor, que nos desvenda.
E revela-nos, não sei se é mais desinteressada. Posso aceitar a infidelidade no amor, não na amizade. A morte de um amigo é uma ferida aberta. Uma mulher podemos “substituí-la” por outra, às vezes. Acho que era o António Lobo Antunes que dizia que são precisas muitas mulheres para esquecer uma mulher inteligente.

Isso é um pouco cruel…
Um afecto sem objecto é tão doloroso… A amizade, como o amor, é feita de atenção. Perdemo-nos por pequenas coisas e um belo dia acordamos ao lado de um estranho. Um livro acaba assim, enjoa-se de nós. Tentamos corrigir e ele não quer, a gente estende a mão e ele encolhe o braço.

O amor tem esse lado da idealização?
Porque gostamos de uma pessoa que inventámos a partir dela.

É a cristalização de que falava Stendhal?
Exacto. O outro que construímos a partir de um outro com o qual muitas vezes nem sequer entramos em relação. Com os livros tenho a sensação de que deveria ter trabalhado mais, feito melhor, corrigido mais, mesmo com este cagarim à volta da obra.

Para quê?
Para conseguir realizar o meu sonho. Já não desejo escrever romances, quero por toda a vida entre as capas de um livro.

A sua escrita vive num mundo de incomunicabilidades, de impossibilidades. Luta contra o tédio?
Não sei, eu nunca me aborreço.

Mas vê o aborrecimento à sua volta?
Assim como vejo coisas espantosas. Ontem a tomar o pequeno-almoço e através da janela da cozinha vi duas miúdas com uma corda e mais três meninas a saltar. Era tão bonito, estava tão comovido com a elegância dos gestos…

Sentiu um desejo de leveza?
E de pureza, de simplicidade, de alegria.

Que é isso da pureza?
Não sei definir. Fico como o Santo Agostinho quando lhe perguntaram o que era o tempo: “Se não me perguntas sei o que é, se me perguntas já não sei.” É como tomar banho por dentro, como ser Páscoa lá na Beira Alta quando era miúdo.

Tem dito que vai parar de escrever num dado momento…
Porque sei que vou começar a cair. Para já, peço a Deus que eu viva até acabar o livro que estou a fazer, mas tenho a noção de que Deus se está nas tintas para os meus livros.

Que relação tem com Deus?
Não é o Deus da doutrina, nem de uma igreja qualquer. Cheguei por meio dos físicos. Eram homens crentes e muitos deles escreveram sobre essa relação. Einstein disse que os netos tinham de Deus a ideia do vertebrado gasoso. Deus é alguém que temos de tomar como modelo quando estamos a trabalhar para fazer os livros quase tão perfeitos como a criação [risos].

Que pretende com os seus livros?
Que as pessoas adoeçam deles. Histórias bem contadas há aos pontapés, parecem todos filhos do Saul Bellow ou netos do Nabokov.

Há sempre uma voz autobiográfica, mesmo fugitiva, nos seus livros?
Vou inventando infâncias. A minha já a esgotei.

Não se sente um caçador de palavras?
Não sei…

Escreve-se ou não com os olhos?
Com o corpo todo, com uma esferográfica. Era incapaz de escrever no computador.

É uma coisa de bicho, a escrita?
Se for no sentido do Camões, de bicho da terra… A escrita é a razão e a salvação. Que sentido fazia a vida se eu não escrevesse?

Não gosta que lhe mexam nas canetas?
As minhas filhas estavam proibidas de mexer nas canetas e no papel. Se escrevem pela mão de outros, já não farão o que quero. Infantil, claro. A solução é não viver com criaturas que fazem este trabalho. Teria dificuldade em viver com uma mulher que escrevesse. Eu nunca seria o mais importante na vida dela, viria sempre depois dos livros.


Diário de Notícias
suplemento 
17.02.2006

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...