20/02/2006

António Lobo Antunes, A arte de não cair


Diário de Notícias - suplemento 6ª - entrevista de Ana Marques Gastão
17 Fevereiro 2006



Caçador de Infâncias


O romance que já não é romance, a crónica de galope curto, a escrita a correr como água no sobrado. O amor, a amizade, a infância, a morte, Deus. A entrevista com António Lobo Antunes, no momento em que lança o Terceiro Livro de Crónicas (Dom Quixote), fala dos livros, essa coisa “enterrada debaixo de um aluvião de palavras”.

Este diálogo poderia iniciar-se pelo espaço entre as palavras. Muito da sua obra passa por aí, seja no romance seja na crónica?
Aquilo que se escreve tem de ser suficientemente poroso para que o leitor possa criar o seu livro. Leva-se tempo a compreender que a retenção da informação é o mais importante. Os bons escritores policiais fazem-no bem. Por snobismo não os lemos e perdemos muito do ponto de vista técnico, porque isto é um ofício e, como qualquer outro, requer trabalho. Perguntaram um dia a João Cabral (de Melo Neto), um homem que parece ter nascido sem ascendentes, como se inspirava. Ele respondeu quase indignado: “Escrevo um poema quando decido que vou escrever um poema.” Da mesma maneira que Victor Hugo se sentava às nove da manhã à secretária… A gente escreve porque decide escrever.

E aí entra o silêncio… O seu silêncio é um silêncio-memória?
O problema é como transformar as palavras em silêncio.

À semelhança da composição musical, o espaço entre as notas é vital? No fundo, o que faz dir-se-ia uma partitura…
Um pouco. Sinatra é espantoso a usar as pausas quando canta, como Schubert nosImpromptus. Quando o silêncio se torna angustiante, quase insuportável, vem a nota seguinte salvá-lo. Inapreensível e ao mesmo tempo tão concreto…

Porque Schubert decide; decide não cair.
E sabe manter o silêncio sem cair. Larga um trapézio e segura outro. Quando escrevi oFado Alexandrino, dei-o ao Zé Cardoso Pires para ler e ele não dizia nada. Então pergunte. “Ó Zé, que achaste?” “Não sei, ainda só li duas vezes.” Quando voltei a pegar nele, entendo onde é que ele hesitou, sei o que ele mudou. Um livro bem construído é um ovo.

A inspiração para Artaud era um feto, estava lá tudo. Desse tudo parte-se para a estruturação…
E não está tudo nas primeiras versões? Como se um livro fosse uma coisa enterrada debaixo daquele aluvião de palavras, uma estátua soterrada num jardim.

Um livro é uma Pompeia?
[Risos]. De algum modo, sim. Eugénio chamou a um livro seu Ofício da Paciência. É um pouco isso.

Acaba de publicar o Terceiro Livro de Crónicas. Não as considera literatura, mas quem está de fora vê-as como um espaço de continuidade em relação ao romance. Entende-as assim?
As crónicas tiveram um princípio simples: a editora não me pagava, nem ao Zé, e eu já estava a viver da escrita. Providencialmente, apareceu-me um homem chamado Vicente Jorge Silva, então director do Público, a pedir-me uns textos. O Zé e eu passámos a escrever alternadamente aos domingos. Pensei que tinha de fazer umas coisas ligeiras, divertidas, que interessassem às pessoas, mas eu tinha o galope muito largo e havia que parar quando pensava que ia começar. Era puramente alimentar e feito sem nenhum prazer.

Mas há uma ligação temática e formal ao romance…
Ia contando umas histórias, mas as crónicas tiravam-me tempo para os livros, por isso quando voltaram a pagar-me, e as traduções me permitiram sobreviver sem ter de as fazer, larguei-as. Depois retomei-as mais tarde, percebendo que podia usá-las como uma espécie de diário paralelo aos romances. Nelas posso dizer o que quero, nos livros digo o que eles querem. Pensar é ouvir com atenção. Para escutar é preciso escutar a voz que dirige a mão.

São as ressonâncias musicais da sua obra. Há vozes…
Pergunto-me se não se tratará de uma única voz. Fala-se muito de polifonia, mas eu interrogo-me.

Não será polifonia, mas Eus separados que falam…
Sim, mais isso, Eus que mudam, vêm e vão. Nas crónicas não. Sento-me, a primeira palavra chega e depois acabam por se engendrar umas às outras.

As suas personagens não o são num sentido clássico, como em Beckett?
Somos tão diferentes… Em Paris perguntei ao Bourgois se ele gostava do Beckett. E ele respondeu: “Je respecte.” Há escritores de quem não se gosta e a palavra para eles é essa, respeito.

As vozes de Beckett exprimem a incapacidade de chegar ao Outro. Na sua obra passa também tudo por aí?
No Beckett aquilo sangra. Para mim, o seu livro mais perfeito é Molloy, embora possa aceitar que os outros são melhores do ponto de vista técnico. Julgo que sou muito primitivo no sentido da vocação animal, para usar um título do Herberto Helder. Há livros que me chateiam de morte ou não os compreendo, então não digo que não gosto, tenho vergonha. Mas não gosto.

As suas crónicas são muitas vezes evocações, imagens míticas de um tempo de harmonia na infância ou formas de registo da falha, da brecha, da desintegração…
Guardamos, com frequência, recordações gratas da infância. Mas, em geral, são dramaticamente infelizes, porque temos censores em cima de nós, pessoas que tendem a normalizar-nos no sentido normativo, desde educar os esfíncteres, a não por os cotovelos em cima da mesa. O Alexandre Dumas perguntava-se, no diário, porque é que havia tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos. E punha-se a reflectir se não seria um problema de educação. Isso faz-me lembrar uma frase da Gertrude Stein a propósito da importância de ir para Paris: “Não é tanto o que Paris dá, é o que Paris não tira.”

Como se equilibra o voo interior com a disciplina, a educação?
Já reparou como os desenhos das crianças são fascinantes até aprenderem a perspectiva? Quando começam a desenhar a três dimensões, perde-se tudo. Uccello, que a inventou, quando a mulher o chamava para a cama, ficava a dizer: “Como ela é doce, a perspectiva…” E não se deitava com a mulher. A pergunta será: “Como manter a virgindade do olhar?” Talvez com uma sabedoria que é aparentemente contraditória.

Como se faz o “retrato de família” depois de se entender o que foi amputado na infância? Há crónicas suas a partir de fotografias, nomeadamente a que abre o livro…
Não tenho respostas gerais, sou só uma pessoa. Os retratos sempre me fizeram sonhar, os que encontramos nas casas dos parentes idosos, das tias-avós que vivem rodeadas deles: aqueles fundos enevoados que parecem as lágrimas dos fotógrafos… Tive muitas vezes a sensação de que os olhos daquelas pessoas se mexiam, me censuravam ou acarinhavam. Uma boa parte de mim continua animista, a dar vida aos objectos.

Que lhe ficou da infância, “o orgulho, a paciência, a solidão”?
Isso são as coisas necessárias para escrever, bem como a sensação de que não me vou deixar vencer por um livro. Só vale a pena começarmos um romance quando temos a certeza de que não somos capazes de o fazer. São os livros que ensinam, mas não sei de onde vêm. O Eduardo Lourenço, num colóquio sobre a minha obra em Évora, citou um soneto do meu não caro Pessoa: “Emissário de um rei desconhecido/eu cumpro informes instruções d’Além”. É a mão a andar sozinha.

E a mão é cega?
Sim… tem as suas próprias leis, porque se quisermos entortá-la ela só vai para aonde quer. Então não vale a pena fazermos planos. Até ao livro A Morte de Carlos Gardel, fi-los sempre por medo, por defesa, até me aperceber de que os romances têm temperamento, fisionomia, carácter.

Há uma inevitabilidade na escrita?
É essa a palavra, inevitabilidade.

Ana Hatherley fala da mão inteligente…
Os franceses chamam-lhe a mão feliz.

Uma mão feliz que escreve com tristeza?
Sim, e no sentido de encontrar a palavra certa, mas ainda não é isso que faz um grande livro. São necessárias variantes diversas para que ele nasça, não sei de onde.

Disse que escreveu um dos seus romances num estado próximo dos sonhos, de sonambulismo. É uma concepção de escrita muito próxima do romantismo, essa sensação de que um livro lhe pode ser “ditado por um anjo”?
Mensageiro…

Porquê um anjo?
Porque não posso com sinceridade chamar àquilo meu. É como se os livros fossem aquelas coisas que existem por cima dos armários onde não chegamos. Então, em bicos de pés, tenta-se lá ir com a mão.

A tal mão que não vê?
Mas que pode ver uma lâmpada fundida ou uma coisa boa. Estamos a falar com palavras de coisas que lhes são anteriores.

De antes do tempo?
Coisas intraduzíveis em palavras, anteriores. Como rodear tudo com palavras e vertebrá-lo num todo coerente? Por isso acordamos com um livro, deitamo-nos com ele. Um escritor espanhol, Sánchez Ferlosio, de quem eu gosto muito, casado com outra escritora, que morreu em 2000, chamada Cármen Martín Gaite, disse um dia: “A Cármen e uma viúva que tem o morto em casa.” Esta é a melhor definição do artista [risos].

Quase tudo deixa de existir?
A pessoa está tão obcecada, tão dentro daquilo, que nem a solidão existe. É uma relação carnal. O livro passa a ser a vida. Então, sobra pouco tempo para os outros. Tendemos a afastar tudo o que possa perturbá-lo. São exigentes os romances, pedem atenção, dádiva. O problema é que se não se escreve tudo fica sem sentido.

E no intervalo dos livros?
Temos ainda o livro anterior dentro de nós. É angustiante. Exactamente como se estivéssemos cheios de cães pretos que se matam uns aos outros. Há em simultâneo um sentimento de culpabilidade e de infidelidade se não se escreve. Talvez seja uma concepção quase religiosa, de missão.

A memória tem um papel essencial no nascimento dos livros?
A imaginação é feita de memória. Os neurologistas sabem isso, porque as pessoas que tiveram AVC ficam privadas de imaginação que não é mais do que a forma como arranjamos, rearranjamos e rerrearranjamos a nossa memória.

A memória é a “sensação que dura”? É isso que o escritor tenta, fazer perdurá-la?
E dar trabalho aos críticos para 500 anos. Compreendo mal o que estou a fazer. Ainda é muito cedo para perceber o que eu possa ter trazido ou não. Há uma quantidade de pessoas a tentar escrever à António Lobo Antunes aqui, em França, na Alemanha. Apesar de ser surpreendente, é mau, porque se quero fazer coisas boas tenho de escrever contra os escritores de quem gosto. Contra o Tolstoi, contra o português que Camões nos deu e continuamos a falar. Assombroso como ele transformou a língua portuguesa!

No fundo, reformula-se a tradição…
Às vezes, trata-se apenas de glosar. Basta uma palavra. No fundo, que é a obra arte? A pequena deslocação. Céline falava da técnica dos corantes. O grande artista traz uma forma diferente de colorir.

Os seus livros libertaram-se da narrativa para se afirmarem como estrutura poética. A poesia pode ser memória excessiva?
Sou um poeta falhado, e quando percebi que o era caiu-me o mundo em cima. Tinha construído toda a minha vida com os preceitos de Max Jacob para chegar à conclusão de que não tinha talento. Depois de ler aquele soneto de Quevedo, “Aislado en la paz de estos desiertos/con pocos, pero doctos libros juntos/vivo en conversación con los difuntos/y escucho con mis ojos a los muertos”, que se pode escrever? Está tudo dito.

A escrita não deixa de ser uma conversa com a morte…
Mas este soneto é sobre a vida.

Sim, feito por alguém com a percepção da finitude.
Consciente de que essa finitude não existe porque ele é um elo de uma corrente que começou antes dele e acaba depois dele.

E, no entanto, ele vai morrer, os dele vão morrer.
Ele está a ouvi-los com os olhos, por isso está vivo. Nos tempos livres tento traduzir os poetas latinos: Ovídio, Virgílio, Horácio que diz: “Para criar é preciso uma breve desordem precedida de furor artístico.”

Há um caos inicial que se reconstrói?
Um vazio. Depois, a pouco e pouco, o romance começa a encontrar o caminho como água no sobrado.

Quando se chega a esse estado de paisagem líquida há prazer?
Talvez como no orgasmo, mas eu sou homem e por isso tenho a infelicidade de ter orgasmos mais curtos.

Liga a escrita ao erotismo?
Ao acto sexual. A associação não é só minha, muitos a fizeram antes de mim, alguns tornavam-se abstinentes enquanto escreviam.

O seu texto nunca é liso, embora haja cada vez mais nudez…
Gostava que ele corresse como água.

Mas tem rugosidades, é labiríntico…
Vamo-nos despindo da gordura. Camões é tão substantivo: “Oh quem tanto pudesse que fartasse/este meu duro génio de vinganças.” Não há aqui um adjectivo. Está duro. É muito difícil de fazer.

Como se conjuga o delírio com o rigor?
A solução está na visita de Eça a Antero. Ele estava a destruir poemas. Agarrava as folhas, dobrava-as muito bem vincadas, depois em quatro e só então cortava à faca com cuidado. O Eça perguntou-lhe porquê ele respondeu: “Porque até no delírio é necessária ordem.” É um dos artistas portugueses por quem tenho mais respeito – nunca perdoou ao Eça as suas falhas de carácter. Era uma referência ética, um magnífico poeta.

É invulgar o lado ensaístico da sua poesia…
Não só isso. O meu editor francês, Christian Bourgois, esteve a morrer com um cancro e suportou as coisas com uma enorme serenidade. Um dia eu disse à mulher: “O teu marido foi de uma coragem extraordinária.” E ela respondeu-me: “Não é coragem, é elegância.” A cobardia é de uma deselegância total. Isso vi na guerra: um oficial a borrar-se de medo.

A cobardia não é o mesmo que o medo.
A coragem é não ter medo de ter medo. Medo tinha eu que me fartava. Quando havia uma coluna, os rapazes eram sorteados para decidir quem iria guiar o rebenta-minas e, quando vinham despedir-se de mim, entregavam-me, às vezes, o testamento sem uma palavra. Com uma elegância… Como príncipes. Por isso me indigna ver os portugueses viver mal, porque somos um povo extraordinário. Tenho um imenso orgulho em ser português.

Como é esse combate com a morte?
Não falávamos na morte, era tão próxima. Deslocávamo-nos com os nossos caixões. Cada um tinha escolhido o seu sem tristeza.

Escolhiam entre ser comediantes ou mártires, como dizia Céline?
Era uma forma de esconjurar.

Que sentiu quando viu publicadas as cartas de guerra, D’este viver aqui neste papel descripto?
A maior ambivalência, mas percebi as razões profundas das minhas filhas. Talvez não fosse, porém, má ideia que tivessem esperado que eu morresse. Gostaria que as cartas fossem lidas para que não voltassem a acontecer situações daquelas e que funcionassem como uma homenagem aos mortos, aos que lá ficaram sem voz. No fundo, escrevemos por aqueles que não têm voz. Tenho medo que sejam lidas por voyeuristas, como se estivessem a assistir a uma relação pelo buraco da fechadura. E deve-se respeito, sobretudo a esse um milhão e 500 mil miúdos que ficaram com a vida estragada pela guerra.

Sentiu-se útil como médico na guerra colonial?
O ter lá estado foi importante para mim por ter descoberto os outros e por ter aprendido a sentir-me igual aos outros. Deixei de ter uma concepção ptolomaica do mundo do qual eu era o centro. Não tinha a menor consciência políticas, cresci protegido, as greves estudantis passaram-me ao lado. Escrevia e jogava xadrez e, de repente, sou colocado na guerra. Para mim, a morte não existia, os meus avós tinha 40 anos quando eu nasci.

Qual é a diferença entre esse homem de 28 anos e o de hoje?
Foi na guerra que eu nasci e comecei a ser o que sou hoje, já habitado pelo sonho de escrever. Não concebo a vida de outra forma, mas perdi muita coisa, eu sei.

E a morte que viu de perto é essa “suspensão dentro da gente”?
Não sei o que é. No outro dia tive um pesadelo: tinha morrido há 20 anos e as pessoas estavam a discutir os meus livros. Fiquei furioso porque não era nada daquilo e queria voltar, mas não podia. A sorte dos livros preocupava-me.

Há um certo de desejo de ser bem lido, compreendido?
Não sei, mas com que parte a gente compreende?

Com aquilo que chamamos alma, com o corpo, a razão?
Qual o melhor crítico de teatro? O rabo. Quando não nos dói a peça é boa. O melhor crítico musical é a espinha: quando sinto arrepios, a música é boa. Com literatura será diferente porque não são possíveis orgasmos ao longo de 300 páginas. O certo é que escrever cansa, cansa o corpo.

Porque a escrita é uma imobilidade móvel. Proust, a propósito da memória, diz que somos transportados para trás e de trás para a frente…
Claro que é e as outras artes também. Quem me pintou o retrato pela primeira vez foi o Pomar. E ele dizia: “Mexe-te!” Ao mesmo tempo aquele homem tornava-se intimidativo porque o rosto estava transformado e ele andava de um lado para o outro. Uma vez a mulher a dias perguntou-lhe: “Porque é que o senhor trabalha tanto se já tem os filhos criados?”

Há algo de alucinatório na escrita?
Claro que há. Que é o delírio? Construir a partir de uma premissa errada um edifício lógico. Escrever é isso: “Vamos fazer de conta que” e aquilo acaba por se tornar real. Dir-se-ia a “incredibilidade suspensa” de Coleridge. Como leitor, procuro sempre ver como está feito e começo logo com vontade de corrigir. É preciso que seja O Monte dos Vendavais para que isso não aconteça.

Fala nesse livro especialmente porquê?
Porque se trata de um livro assombrante, como Emily Brontë que o escreveu. Se estivesse viva, apaixonava por ela, estou apaixonado por ela, mas acho que tentaria consumar essa paixão. Um bom livro é o que foi escrito só para mim. Ela escreveu só para mim. Os livros bons são os que não dormem, os que vemos quando acordamos a meio da noite e estão lá a olhar para nós, a interrogar-nos.

Um pouco como a amizade, mais desinteressada do que o amor, que nos desvenda.
E revela-nos, não sei se é mais desinteressada. Posso aceitar a infidelidade no amor, não na amizade. A morte de um amigo é uma ferida aberta. Uma mulher podemos “substituí-la” por outra, às vezes. Acho que era o António Lobo Antunes que dizia que são precisas muitas mulheres para esquecer uma mulher inteligente.

Isso é um pouco cruel…
Um afecto sem objecto é tão doloroso… A amizade, como o amor, é feita de atenção. Perdemo-nos por pequenas coisas e um belo dia acordamos ao lado de um estranho. Um livro acaba assim, enjoa-se de nós. Tentamos corrigir e ele não quer, a gente estende a mão e ele encolhe o braço.

O amor tem esse lado da idealização?
Porque gostamos de uma pessoa que inventámos a partir dela.

É a cristalização de que falava Stendhal?
Exacto. O outro que construímos a partir de um outro com o qual muitas vezes nem sequer entramos em relação. Com os livros tenho a sensação de que deveria ter trabalhado mais, feito melhor, corrigido mais, mesmo com este cagarim à volta da obra.

Para quê?
Para conseguir realizar o meu sonho. Já não desejo escrever romances, quero por toda a vida entre as capas de um livro.

A sua escrita vive num mundo de incomunicabilidades, de impossibilidades. Luta contra o tédio?
Não sei, eu nunca me aborreço.

Mas vê o aborrecimento à sua volta?
Assim como vejo coisas espantosas. Ontem a tomar o pequeno-almoço e através da janela da cozinha vi duas miúdas com uma corda e mais três meninas a saltar. Era tão bonito, estava tão comovido com a elegância dos gestos…

Sentiu um desejo de leveza?
E de pureza, de simplicidade, de alegria.

Que é isso da pureza?
Não sei definir. Fico como o Santo Agostinho quando lhe perguntaram o que era o tempo: “Se não me perguntas sei o que é, se me perguntas já não sei.” É como tomar banho por dentro, como ser Páscoa lá na Beira Alta quando era miúdo.

Tem dito que vai parar de escrever num dado momento…
Porque sei que vou começar a cair. Para já, peço a Deus que eu viva até acabar o livro que estou a fazer, mas tenho a noção de que Deus se está nas tintas para os meus livros.

Que relação tem com Deus?
Não é o Deus da doutrina, nem de uma igreja qualquer. Cheguei por meio dos físicos. Eram homens crentes e muitos deles escreveram sobre essa relação. Einstein disse que os netos tinham de Deus a ideia do vertebrado gasoso. Deus é alguém que temos de tomar como modelo quando estamos a trabalhar para fazer os livros quase tão perfeitos como a criação [risos].

Que pretende com os seus livros?
Que as pessoas adoeçam deles. Histórias bem contadas há aos pontapés, parecem todos filhos do Saul Bellow ou netos do Nabokov.

Há sempre uma voz autobiográfica, mesmo fugitiva, nos seus livros?
Vou inventando infâncias. A minha já a esgotei.

Não se sente um caçador de palavras?
Não sei…

Escreve-se ou não com os olhos?
Com o corpo todo, com uma esferográfica. Era incapaz de escrever no computador.

É uma coisa de bicho, a escrita?
Se for no sentido do Camões, de bicho da terra… A escrita é a razão e a salvação. Que sentido fazia a vida se eu não escrevesse?

Não gosta que lhe mexam nas canetas?
As minhas filhas estavam proibidas de mexer nas canetas e no papel. Se escrevem pela mão de outros, já não farão o que quero. Infantil, claro. A solução é não viver com criaturas que fazem este trabalho. Teria dificuldade em viver com uma mulher que escrevesse. Eu nunca seria o mais importante na vida dela, viria sempre depois dos livros.


Diário de Notícias
suplemento 
17.02.2006

17/02/2006

Antônio Panciarelli: Fado Alexandrino - um romance em versos dodecassílabos


Um dos mais complexos e fascinantes romances de Lobo Antunes é Fado Alexandrino (Rocco editores, 2002), escrito em 1983. É o seu quinto livro de prosa e se trata de uma obra romanesca, com estrutura de poema alexandrino, ou seja, com versos de doze sílabas, cujo texto compõe-se de três partes: antes da revolução, a revolução e depois da revolução. Cada uma delas está dividida em doze capítulos, que podem ser visualizados como uma métrica poética do verso dodecassílabo. Assim, cada uma das partes forma um grande poema; isto é, a história é contada em três grandes poemas. O romance tem ao todo 600 páginas, que representam 50 estrofes. 

As personagens de Fado Alexandrino não carregam o traço de herói, nem possuem o destino predefinido. São ambíguas, construídas durante a diegese em que a estratégia narrativa é encenar a perda ou a ausência de modelos organizadores de sentido linear. Através de fendas, as pequenas narrativas em estado de desordem montam e desarrumam a seqüência para o receptor. Essas pequenas narrativas é que compõem a grande fábula e, por isso, pode-se falar em narrativas por encaixe e alternância.

Tem-se, então, uma polifonia em que imperam o plurivocalismo, a pluridiscursividade, a interdiscursividade, a heteroglossia ou a hibridização, postulados que, apesar de se revestirem de nuanças distintivas, apontam quase sempre para o cruzamento dialógico de várias vozes, das diferentes personagens, decorrentes da adoção de diversos pontos de vista, contraditórios ou em confronto.

Lobo Antunes utiliza uma arquitetura polifônica com vozes que polemizam entre si, se completam ou respondem umas às outras. Impõe-se o intertextual sobre o textual - não se trata aqui de uma dimensão derivada de intertextualidade, mas sim de uma dimensão primeira de que o texto deriva. Podem-se observar, neste romance, os conceitos definidos pelo lingüista russo Mikhail Bakhtin sobre polifonia e dialogismo.

Na escrita de Lobo Antunes, as personagens também emitem diferentes vozes não unificadas por uma única ideologia, filosofia ou personalidade. Há, durante a trajetória da narrativa de Fado Alexandrino, uma multiplicidade de vozes fragmentadas em seus discursos e contraditórias em seu desenvolvimento. A criação romanesca do autor privilegia essa multiplicidade e um entrecruzar de vozes em que o princípio da identidade dilui-se e o aqui e agora dificilmente instauram fronteiras.

As vozes viajam constantemente, atravessando a fronteira de tempo e espaço, mas deixando sempre uma trilha para que o receptor possa acompanhar o desenrolar da trama. O resultado disto é um processo que faz a narrativa avançar pelo entrecruzar, por vezes coerente, mas muitas vezes contraditório e mesmo paradoxal, dos vários discursos que representam o fluir de diversas consciências em torno de um acontecimento central que unifica a acção.

Octávio Paz, em Signos em rotação, afirma que o carácter singular do romance provém, em primeiro lugar, de sua linguagem. 1 É prosa? Se consideradas as epopéias, evidentemente sim. No entanto, se estas forem comparadas aos gêneros clássicos da prosa - o ensaio, o discurso, o tratado, a epístola ou a história -, percebe-se que não obedecem às mesmas leis.

O que torna Fado Alexandrino um romance inovador em termos de linguagem é uma descrição pormenorizadamente trabalhada que satura de informações a ilusão de real que o texto oferece, suprimindo banalidades ou recursos estilísticos desnecessários, mas construindo artesanalmente uma carga metafórica de analogias semânticas espessas. São exemplos disso trechos como “a caixa de sapatos esmagava os telhados”, ou “as órbitas vazadas das janelas fitam o sujeito”. 2 Tais características a tornam uma obra peculiar em que a objetividade narrativa do texto não impede, entretanto, que o autor utilize sinestesias e silepses em todo o romance.

O conjunto de idéias e representações que servem para justificar e explicar a ordem social, as condições de vida do homem e as relações que ele mantém com os outros homens é o que comumente denomina-se ideologia.

A ideologia é constituída pela realidade e, ao mesmo tempo, constitui a realidade, já que não se caracteriza por ser um conjunto de idéias surgidas do nada ou da mente privilegiada de alguns pensadores. A ideologia é, sim, fruto de uma série de decorrências resultantes de fatores sociais, econômicos, políticos e intelectuais, revelada pela análise do discurso no plano da semântica discursiva.

Existe ainda o que se convencionou chamar de “ideologia dominante”, aquela que é imposta persuasivamente sobre a classe dominada com o objetivo implícito de obter a legitimação de seu poder. Ao colonizar países africanos, Portugal impôs sua ideologia e seu conceito de sociedade européia aos povos colonizados.

A narrativa de Lobo Antunes está impregnada com esses conceitos e valores e, ao retratar Portugal entre 1972 e 1982, não se preocupou apenas em definir suas personagens como arquétipos que estariam de um lado ou de outro em um campo de batalha, mas sim em mostrar suas personagens lidando mais com o comezinho, com a luta diária pela sobrevivência e pela reintegração em uma sociedade que os definira como “os retornados”.  Há, entretanto, em todo o romance a preocupação em mostrar as marcas que a colonização portuguesa deixou na África.

Logo após o 25 de abril de 1974 e a descolonização feita atabalhoadamente nas colônias africanas, Portugal passou a viver com uma população que não deveria mais fazer parte da vida lisboeta. Não havia mais lugar para acolher os emigrantes que voltavam de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe. Essa população que era, literalmente, despejada no parque público de Monsanto recebeu da imprensa portuguesa a alcunha de “os retornados”.

Logo se originou no país uma comunidade de segunda classe - os emigrantes que perderam tudo na África e passaram a viver acampados nos jardins de Monsanto. Lobo Antunes não coloca as personagens de Fado Alexandrino nesse mega-acampamento, mas as distribui pela periferia da cidade, situando-as junto à classe média baixa. Ao colocar as personagens em bairros como Pixeleira, Cabo Ruivo, Intendente ou Anjos, o autor traça o retrato de um verdadeiro “cordão sanitário” que foi criado ao redor de Lisboa e da classe média que não precisou emigrar.

A temática central de Fado Alexandrino é a guerra colonial na África, contada por meio das reminiscências de um grupo de militares que combateram em Moçambique. Aborda o retorno a uma Lisboa desconhecida, que sofreu com a rápida e desorganizada urbanização, com a re-inserção no ambiente familiar na periferia da cidade e, sobretudo, com a dificuldade para sobreviver fora da caserna.

O título da obra também remete ao fado, palavra originária do latim fatu, que significa destino. Em Portugal, o fado está diretamente ligado a um ritmo musical originário dos cânticos dos mouros que permaneceram nos arredores de Lisboa, mesmo após a reconquista cristã. A dolência e a melancolia daqueles cantos, comuns ao fado, estão na base desse ritmo. No entanto, o significado que Lobo Antunes dá a essa palavra refere-se mais ao destino lusitano do que à canção.


Antônio Panciarelli
artigo citado de Sibila - Estado Crítico
não datado

21/01/2006

Jordi Joan Baños: Cartas de amor e guerra


Como a corda em casa do enforcado, a guerra de Angola é o trauma omnipresente em toda a obra de António Lobo Antunes. Agora por fim, aparece em português - em breve em várias outras línguas - um livro em que aquele sangrento epílogo colonial constitui a coluna vertebral da sua escrita. Ainda que desta vez não se trate de um romance, mas da recuperação das centenas de cartas que um médico recém-casado enviou a sua esposa grávida, ao longo de 1971 e 1972.

António Lobo Antunes é um "estajonovista" da literatura, um perfeccionista da frase e um homem de rotinas. Um escritor fechado no seu mundo que se gaba de vender centenas de milhares de volumosos romances "sem contar alguma história". O estúdio de seu primo, onde se "esconde" para escrever desde há dois anos, está no mesmo edifício onde há três décadas deu uma consulta, muito perto daquele que foi o seu anterior refúgio de escritor: o hospital Miguel Bombarda. No dito estúdio, em cuja entrada se destaca um coqueiro de plástico de três metros, o romancista aceita conceder a La Vanguardia a sua até agora única entrevista sobre D'este viver aqui neste papel descripto. Uma compilação da iniciativa das suas duas filhas - os direitos de autor estão no seu nome - que o apresentam como uma homenagem ao amor dos seus pais e, particularmente, da sua mãe, Maria José, já falecida.

"O que sinto perante aquelas cartas é muita ambivalência", confessa. "Surpreende-me ser a mesma pessoa. Agora reli algumas, poucas. Nunca pensei publica-las e não sei se têm valor literário, porque onde jogo a vida é nos livros que agora escrevo. Mas quem sabe sirva para que as pessoas compreendam o horror da guerra e a destruição de uma geração. Na apresentação do livro foi muito comovedor ver chorar aqueles homens que estavam morrendo e matando durante muito tempo, fazendo uma guerra praticamente sem recursos. A alguns já não os via há trinta anos e foi como se viesse vindo a estar com eles um pouco todos os dias. Como sabe, nunca falei da guerra, nem sequer com os meus camaradas, e nunca escrevi sobre ela. É demasiado horrendo. Ao voltar a Portugal surpreendeu-me a ausência de culpabilidade".

Nas suas cartas, Antunes também critica a arrogância dos colonos portugueses, aos que em teoria se defendia: "Não merecem a terra extraordinária em que vivem", escreve, antes de apelidá-los de "vendedores de carros". "A quem pertence a um país cansado vão bem estes verdes, estes sons, esta exuberância animal. Seria possível construir um Brasil aqui, uma mestiçagem, se não fosse já demasiado tarde", conclui.

Porém quem espera encontrar uma visão profunda sobre a guerra, ficará decepcionado, uma vez que as cartas representam muito mais uma forma de escape para o então jovem médico militar. "É certo, havia uma auto censura porque havia um risco, as cartas eram interceptadas. Ainda que, na realidade, que nos poderiam fazer, quando já vivíamos em Angola, o pior sítio?". Sem esquecer a censura do regime: "Jorge Amado estava proibido, por exemplo, e Fellini era censurado Em seu lugar mandavam-nos filmes de Joselito, comoManolito, pão e vinho".

Por isso escreve: "um dia serei mais claro. A maior parte das coisas não as posso contar, e as minhas opiniões sobre esta guerra não devem ser escritas. Isto é tudo muito diferente de como se pensa". Até ao dia de hoje não mudou de atitude.

Repentinamente, entre muita lamechice de recém-casado, irrompe a brutalidade da guerra. "Ontem amputei dois dedos". Ou uma bomba fizera voar a perna de um soldado, que na sua aflição repete uma e outra vez: "Quando meu pai souber, mata-se". Porém, e apesar do seu trabalho médico, a mentalidade do Lobo Antunes de então "amigo íntimo do chefe da Pide (polícia secreta)" pode parecer inquietante: "Logo vou passear no T6 (os aviões de guerra que por aqui há) para lhe tomar o gosto. Vão bombardear Chalala-Nango com napalm e não quero perder uma coisa dessas. Lembra-me muitas vezes as fotografias que mostram a população vietnamita em aldeias devastadas". Do "chefe da Pide, meu amigo íntimo", hoje reconhece: A guerra mudou-me muito, também a minha visão das coisas". E já então escrevia: "Não voltarei a ser a pessoa que fui, nunca mais. Começo a compreender que não se pode viver sem uma consciência política da vida. Meu instinto conservador e comodista evoluiu muito".

O romancista opina que com a experiência bélica "desaparece a vaidade" e se conquista "a humildade". Ainda que as suas palavras, pelo menos as de então o contradigam: "Creio sinceramente estar em posse de uma obra prima. Vamos ser ricos, bonitos, inteligentes e célebres. Tenho em mãos o melhor e mais revolucionário romance que nunca li. Valeu a pena que acreditasses em mim, porque, finalmente, me tornei um escritor de uma elegância corrosiva inigualável. Às vezes penso se não serei uma reencarnação de Victor Hugo".

A Antunes causa-lhe apreensão que o livro "seja lido pelos motivos errados" ou, dito de outra maneira, por voyeurismo. Não é em vão, o livro reproduz sem disfarce suas confissões íntimas: "Quero possuir-te com uma fúria de cavador cavalgando uma marquesa. Quero que tenhas um olhar desdenhoso e lento, um riso extravagante, um desprezo de monossílabos". Ou, mais adiante, "vão ser 35 dias de coitos ininterruptos", ou "quero violar-te com a fúria de um ocupante alemão". Mas aquele livro que acreditava ser genial, que iria chamar-se Dilúvio ou Voo, nunca saiu do chão.

As cartas dão a imagem de uma guerra suis generis própria de Gila, na que um batalhão alega ter sofrido dois mortos e 126 baixas. Ou na que os portugueses acabam por se dar conta de que a alegre despedida ao ritmo do merengue com que obsequiam os nativos cada vez que saem de patrulha é na realidade um sinal para os guerrilheiros. Ainda que Lobo  não se deixe dobrar: "O risco é mínimo porque estes tipos nunca acertam", escreve.

Em 1972, depois de muito suplicar, recebe a visita da sua esposa e da primeira das suas duas filhas, recém nascida. Sua mulher, Maria José, a única branca entre milhares de negros, adoece e tem de ser internada. Mais tarde regressam a Portugal, e para António será ainda mais duro aguentar os últimos meses, até cumprir os dois anos de serviço. Os seus aerogramas deixam de ser diários. "Vou-me afundando numa apatia total. Não faço nada, nada me apetece. Chego a pensar que sairei daqui para um hospital psiquiátrico, como paciente". Sairia como escritor.

(...)

por Jordi Joan Baños
La Vanguardia (citado deste site)
31.12.2005

15/01/2006

Manuel Barata: D'este viver aqui neste papel descripto - ensaio


1. As chamadas “cartas de guerra” de António Lobo Antunes, reunidas no volume "D’este viver aqui neste papel descripto", são, também, um poderoso documento sobre a guerra colonial. Embora dirigidas a sua mulher, o autor constrói ao longo dos dois anos de comissão, isto é, entre 7 Janeiro de 1971 e 30 de Janeiro de 1973, através de múltiplas notações, um libelo acusatório contra as abjectas condições a que os homens estavam sujeitos, nos aquartelamentos das zonas de guerra.

2. Porém, o conteúdo destas cartas não se esgota nos valiosos apontamentos sobre a guerra e na profunda relação amorosa com Maria José e ainda com a outra Maria José, a quem, até ao nascimento, chamará muitas vezes o “cafeco”, que significa criança em quimbundo. Através das cartas apreendemos também o mundo de relações do autor e da extrema atenção que presta a todos aqueles com quem se relacionava e com quem se continua a relacionar através da escrita de aerogramas. Todos os familiares lhe conhecem o gosto pela leitura e muitos enviam-lhe livros e revistas. De resto, é até curioso notar que António sugere a Maria José que sugira livros que gostaria de ler, mas que não está disposto a comprar, porque é absolutamente proibido gastar dinheiro. Esta sua natureza poupadinha vai ser motivo de um tópico. Também merecerão destaque neste trabalho testemunhos extraordinários que relevam do ponto de vista da antropologia e ainda impressões sobre arte e literatura.

3. Estamos, pois, em presença de uma obra ímpar, que, apesar dos mil milhões de beijos enviados por António a Maria José, a destinatária, extravasa vastamente a temática amor. Dir-se-ia até, que, expurgadas das fórmulas mais ou menos canónicas dos começos e dos impagáveis modos de terminar, estas cartas são, obviamente, muito mais do que simples cartas de amor. Decidir se este é ou não o primeiro grande romance do autor de memória de elefante, é tarefa que não assumimos neste pequeno e despretensioso estudo.

4. No entanto, não temos nenhum problema em afirmar peremptoriamente, que, doravante, estas cartas terão de ser lidas e relidas, por todos os que vierem a debruçar-se sobre os catorze anos da Guerra Colonial. Pois esta determinou toda a vida portuguesa, quer no rectângulo europeu, onde se procedia à incorporação, treino e mobilização de homens, quer nas chamadas Províncias Ultramarinas, onde se situavam os múltiplos teatros de operações. E marca ainda hoje, volvidos mais de trinta anos, de forma indelével, gerações de portuguesa.

5. Embora sejam o testemunho subjectivo de um indivíduo, jovem médico e aspirante a escritor, as cartas possuem a força das confissões espontâneas. A visão do autor é dada silenciosamente, na puridade dos seus aposentos, como notas de um quotidiano, que, apesar da distância, quer partilhar com a mulher amada. Assim, cremos que estas cartas, primordialmente (?) amorosas, são mais objectivas do que os relatórios militares e as notícias necrológicas, sabendo nós que uns e outros eram vigiados e censurados. Acresce a tudo isto, que, também nós, ainda que em teatros operacionais e época diferentes, cumprimos serviço militar obrigatório, na menina dos olhos dos colonialistas, isto é, em Angola. Não sabendo as surpresas que o tempo ainda nos pode reservar, António Lobo Antunes terá sido, até ao momento presente e através das suas cartas, aquele que, de 1961 a 1975, melhor verbalizou a vivência da Guerra Colonial.

6. “Porque é que vieram interromper-nos tão brutalmente?” A pergunta é formulada na carta de 1.6.71, escrita no Chiúme, Leste de Angola, quando o então alferes miliciano Lobo Antunes, cumpria o serviço Militar obrigatório. É dirigida a Maria José, sua mulher, ainda estudante e grávida de Maria José, a primogénita do casal. O autor estava no fim do mês quinto da sua estada em Angola e Chiúme era já o seu terceiro teatro de operações. Passara anteriormente por Gago Coutinho, onde, apesar de tudo, tinha uma certa vida de relação. No Ninda, conhecera Ernesto Melo Antunes a quem tece rasgados elogios e do qual será amigo para sempre. Chiúme é o buraco dos buracos, o lugar onde a DO chega com menos regularidade e há o célebre P., na messe, que não é, propriamente, um modelo de higiene. É no Chiúme, finalmente, que o autor faz referência explícita, reproduzindo de cor os dois versos finais, à Canção X de Camões. E finalmente, porque essa célebre composição de Camões já andava pressentida há muito, nestas cartas.

7. A pergunta em epígrafe, que admite várias interpretações, podia ter sido formulada por dezenas de milhar de jovens soldados que, num dado momento das suas vidas, viam as suas vidas interrompidas. As interrupções eram múltiplas: as luas-de-mel, os cursos, a aprendizagem de profissões, os namoros, muitos e muitos projectos futuros, no limite, a própria vida. Era tudo tão violento, nomeadamente, para quem já tinha alguma instrução escolar e política. O povoléu, ignaro e obediente, psiquicamente treinado para combater pela Pátria, batia-se, quase sempre, até aos limites da insensatez. Quantas narrativas de actos de grande bravura terão ficado por contar?

7.1. Passados apenas quinze dias e já o jovem alferes, médico de formação, notava que iria “pagar um preço muito caro pela possibilidade de voltar a viver” em Portugal (carta de 31.1.71.). As notações sobre a guerra são agora frequentes. Mais tarde há-de, já calejado e aparentemente mais conformado, poupar Maria José aos relatos horripilantes de mortos, amputados, feridos e desaparecidos. À exaltação inicial, vai opor-se um homem mais ponderado e quiçá mais conformado. “Escrevo-te de manhã, no gabinete da enfermaria, enquanto espero três evacuados” (carta de 10.2.71); porém, e também para terminar este subtópico, aqui ficam mais palavras de Lobo Antunes: “ Dos feridos gravíssimos de ontem – três sujeitos cheios de balas – não há notícias, mas espero que se salvem. Entretanto o morto – o guia – foi abandonado na mata às feras”( carta de 11.2.71).

7.2. A guerra não era apenas operações e mais operações militares e mortos e feridos e evacuados. Daí, a pertinência da observação que segue: “ É incrível a guerra que aqui fazemos, sozinhos e sem meios, contra um inimigo cada vez mais numeroso e bem preparado” (carta de 11.2.71). E onde muitos outros meteram o bedelho, passe o plebeísmo, como nota o futuro autor de As Naus: /.../ o nosso exército prolifera e vive no meio de uma confusão e de uma desordem indescritíveis” e mais à frente: “Chegam hoje os pilotos(17) nos seus pássaros gigantes, e não sei de onde é que estes franceses vêm e por que diabo colaboram nisto” (carta de 15.2.71).

7.3. E apesar da guerra ser uma actividade colectiva, onde acontecem os actos mais bárbaros e as solidariedades mais grandiosas, António sabe que ele e os restantes camaradas de armas, nomeadamente os mais esclarecidos, combatem fora da sua terra e em defesa de uma causa iníqua. Combatem pelos execráveis passadores de angolares por escudos, pelos novos-ricos que vão às festas em Luanda e que tudo fazem para que as suas crias masculinas não conheçam os tenebrosos teatros de operações. Não espanta, pois, esta constatação: “Cada um vive quase somente para si próprio e para as cartas que recebe, preocupado com a própria sobrevivência e mais nada” (carta de 17.3.71). Esta guerra, decididamente, era sentida como algo que era imposto e cujo absurdo as elites iam interiorizando. Não admira, assim, que, no pós-25 de Abril, a situação nunca mais se tivesse estabilizado. Todos os sobreviventes queriam voltar ao verdadeiro solo pátrio e ao seio das suas famílias. Cá, no rectângulo europeu, ficou célebre a palavra de ordem: NEM MAIS UM SOLDADO PARA AS COLÓNIAS!

7.4. Não eram, contudo, os tempos da incorporação e da mobilização, que marcavam o início das angústias familiares. A guerra começava a ser tema obrigatório para os rapazes e respectivas famílias, por altura dos quinze/dezasseis anos. Apesar de tudo, António Lobo Antunes terá iniciado o serviço militar já depois dos vinte e cinco anos, facto que lhe permitiu uma abordagem mais adulta e pontuada por uma imensa discrição. Porém, não deixam de ser dignas de registo as seguintes palavras de António:” O meu instinto conservador e comodista tem evoluído muito, e o ponteiro desloca-se, dia a dia, para a esquerda: não posso continuar a viver como o tenho feito até aqui” (carta de 15.5.71). É curioso notar que o futuro escritor, que se referia aos guerrilheiros por terroristas e que até mantinha uma relação amigável com o responsável da Pide, em Gago Coutinho, há-de deixar cair aquela denominação e esta amizade no esquecimento.

7.5. António Lobo Antunes é filho de uma futura grande família do reino. O pai é médico especialista e de nomeada. O irmão mais velho segue, segundo cremos, as peugadas do pai. António já é médico. E os restantes membros do clã hão-de desempenhar papéis noutras áreas, a saber: advocacia, música e diplomacia, nomeadamente. O nosso mancebo, compreensível mas tardiamente mancebo, vai transmitir, através das suas cartas – as cartas a Maria José -, a sua visão da guerra colonial e das actividades correlativas. A primeira grande nota de uma situação burlesca é dada ainda durante a viagem, na carta de 14.1.71, onde o futuro escritor descreve o ambiente das refeições, no paquete: “ Ao jantar e ao almoço, uma velha oxigenada, com duplo queixo e chinelos, toca piano com uma dificuldade míope, e ao lanche (chá e bolos), servido por uma nuvem de criados, a orquestra «Vera Cruz», qual deles com a melhor pinta de chulo lisboeta, magrinhos, brilhantinados, de olhar maroto, esfolam música de cabaré de putas.” Tendo em conta o puritanismo da sociedade portuguesa do início da década de setenta do século passado, imagine o putativo leitor a cara daquela panóplia de tias e avós, se lessem aquela prosa enérgica e realista de António.

7.6. A guerra é uma fonte de medos por excelência: os actores têm medo de morrer, de ficar estropiados, de ser preteridos no amor, de ser esquecidos por amigos, familiares e até pela mulher amada. Não espanta, assim, que o futuro autor de Cus de Judas , logo na primeira carta, a de 7.1.71, em tom imperativo, mas com patética sinceridade, escreva: “Lembra-te de mim”. De resto, esta fórmula vai ser repetida assim ou modificada em dezenas e dezenas de cartas: “lembra-te de mim, sempre/../”, “ /.../ tem paciência e lembra-te, de quando em quando, de mim”, “/.../ lembra-te de mim, tem saudades minhas e gosta um bocadinho do teu marido desterrado”, “Minha noiva linda, nunca te esqueças de mim”. António teme até – e o seu temor é tão humano!...-, que os outros o esqueçam. Daí esta tão comovente confissão nobreana: /.../ espero que continuem a pensar no António coitado/.../” Nobre, o espantoso poeta do SÓ, há-de ser referido explicitamente em duas das cartas e está presente, implicitamente, em muitas outras. Este António, tal como o poeta, é aquele que está longe da sua terra, das coisas e dos seres que lhe são queridos e que vive, também ele, só e corroído pela saudade, já muito longe da sua “torre de leite”. “92 dias separam-nos. Todas as manhãs desconto um. Vivo desta aritmética da saudade/.../”, escreve na carta de 28.6.71.

8. “Porque é que vieram interromper-nos tão brutalmente?” António casara em Agosto de 1970 e embarcou para Angola em 6 de Janeiro de 1971. O casal, apesar dos meses entretanto decorridos e de Maria José já se encontrar grávida, vivia ainda uma prolongada lua-de-mel. Era um dos efeitos da guerra. Vivia-se o dia presente como se do último se tratasse. A guerra conferia a tudo, e ao amor também, um carácter de urgência. Deixo aqui um verso de Ramos Rosa: “Não posso adiar o amor para outro século”.

8.1. As cartas escritas por António são apaixonadíssimas. Aqui se transcrevem algumas das fórmulas iniciais, que, de certo modo, atestam essa mesma paixão: “Meu querido amor”, com noventa e quatro ocorrências; “Minha jóia querida”, repetida em quarenta e cinco missivas”; “Minha querida jóia”, surge quarenta e uma vez; para “Meu amor querido”, contamos vinte e seis; e “Meu amor” é utilizada em quinze cartas. Porém, o trabalho de joalheiro vai mais longe, utilizando ainda as fórmulas seguintes: “Minha jóia”, “Minha jóia adorada”, “Minha querida jóia linda”, “Minha amada jóia”, “Minha jóia preciosa e querida”, “Minha jóia zangada”, etc.
Ainda no âmbito destes começos, note-se o emprego de “Minha linda senhora” e também “Minha alma amada”, que, ainda que este amor se alimente de carne, remete para códigos amorosos antigos que o autor conhece bem e que não utilizará por acaso. Nomeadamente a fórmula “Minha alma amada”, que configura uma identidade espiritual plena entre os dois amantes. Maria José é o primeiro leitor de António e este confere grande importância à sua opinião. Devido à separação, Melo Antunes também há-de ler excertos, em primeira-mão, e dar alguns conselhos ao jovem escritor.
Como todos os casais, mesmo à distância, os “amuos” também acontecem, ainda que para António sejam sol de pouca dura. Diz o que tem a dizer, directa e incisivamente, e retoma a relação com a ternura de sempre. É nestes momentos que inicia as cartas com expressões diferentes das habituais: “Maria José”, “Sr.ª D. Maria José” e “Minha Senhora”´. O ciúme também não está completamente ausente, quando, numa das cartas, diz que se vive bem, em sua casa, na sua ausência. Outros exemplos poderiam ser dados.

8.2. Os finais das cerca de trezentas cartas são memoráveis e muitos deles constituem verdadeiros hinos ao amor. Outros, por sua vez, tocam-nos pelo insólito e pelo imenso humor de António. É justo que se diga, neste preciso momento, que os finais das cartas são profundamente caóticos. Há sempre uns milhões de beijos para acrescentar, um “lembra-te de mim”, mais beijos, um “GTS”, etc., que nos dão conta da profunda solidão em que vive este homem e da falta física que lhe faz a mulher amada.

8.3. Nós sabemos, de saber de experiência feito, quanto doíam as carências afectivas. Sabemos, com saber de experiência feito, com se iludia essa dor. Sabemos, com saber de experiência feito, a quanta sordidez nos obrigou a guerra. Houve outros Antónios, mas deve ser aqui transcrito este testemunho: “ As minhas saudades tuas são imensas. É tão triste esta longuíssima separação” (carta de 10.5.71) e diz-lhe imediatamente: “Com nenhuma mulher dormirei senão contigo, a mãe do Toino – ou da Zézinha. Milhões de beijos /.../” (carta de 10.5.71). E no entanto, este homem morre de desejo: “Coloco o meu pénis na forquilha do teu corpo” (carta de 20.1.71) e remata esta carta com ” Milhões e milhões de saudades apaixonadas, de beijos, de festas, de carícias e de abraços/.../”.
Dias depois, com os sentidos já na ordem, se é que pode falar assim, escreve: “ o teu Van Gogh (tinha tido um problema numa orelha) adora-te, minha gazelinha adorada, meu diamante querido, minha pérola e minha estrela” (carta de 21.1.71); todavia, o seu amor nunca deixa de ser superlativo: “Gosto tanto tanto tanto de ti” (carta de 27.1.71). Alguns dias depois, o desejo voltava: “Eu queria tanto voltar a ver-te! Deves estar, com certeza, cada vez mais bonita. E gorda. E barriguda. Apetece-me tanto deitar-me em cima de ti e penetrar-te” (carta de 1.2.71). Passados alguns meses, já próximo do primeiro reencontro, escreve: “Hoje tenho andado com uma terrível vontade sexual. Prepara-te para coitos homéricos” (carta de 13.7.71) e num dos aerogramas seguintes reitera:” Gosto tudo de ti, meu amor querido. E prepara-te para tetraquotidianos combates singulares” (carta de 20.7.71).
Mais palavras para quê?

9. A escrita é a obsessão das obsessões de António Lobo Antunes, que também é, como havemos de ver mais tarde, um grande devorador de livros. Não dissemos grande leitor, propositadamente, ainda que do seu currículo conste uma plêiade de autores de narrativas, que começa com Homero, no séc.VIII a.C. e chega aos seus contemporâneos, estrangeiros e nacionais. Há neste homem um dado relevante: é detentor de uma memória prodigiosa, uma memória onde tudo se inscreve e nada se apaga. Tem, na verdade, uma memória de elefante.

9.1. Antes de avançarmos neste ponto que denominamos a obsessão das obsessões, queremos aqui realçar o facto de Lobo Antunes ter deixado manuscritos em Portugal, os quais manda destruir a Maria José, na carta de 27.3.71. E diz mesmo que ficaria muito zangado, se, porventura, encontrasse as suas “historietas miseráveis”, quando viesse a Portugal. Mas quem tem acompanhado a vida do autor, sabe que escreveu desde sempre. Pelo menos, é essa a ideia que deixa passar em todas as entrevistas, quando perguntado sobre o assunto. E as cartas reiteram definitivamente essa ideia, e, outra ainda, a da escrita como trabalho oficinal. Atente-se nas próprias palavras do autor acerca do Voo: “ O problema tem sido reduzir a minha prosa a uma simplicidade bem legível. Cortar o pescoço à eloquência”, Chiúme, 7.6.71. Eloquente!

9.2. A escrita é o oxigénio de Lobo Antunes. Parece predestinado para escrever livros e daí que, no interior da própria família, o olhem diferentemente. As palavras do próprio autor: “No fundo agrada-me que assim seja, sempre gostei muito do amor, sobretudo do que eles têm por mim, que, não sei se já reparaste, é diferente do que sentem pelos meus irmãos, porque eles têm a sensação de que possuo qualquer coisa de irresponsável e imprevisível e de que farei um dia algo de heróico e de louco e de sublime, que eles não sabem bem o que será mas que os mantém em suspense”, carta de 12.4.71. E curiosamente, esta é uma das poucas missivas em que não fala da “história” ou histórias, tanto faz.

9.3. A inscrição da sua escrita, nesta grande narrativa epistolar, é iniciada com uma intenção: ”Qualquer dia recomeço a escrever (carta de 29.1.71)” e dois dias depois avisa:”/.../começo, de novo, a pensar no livro/.../”. Na carta de 7.2.71, escreve: “ Começo a assentar e a serenar. Comecei, talvez por isso, e a escrever um novo Dilúvio /.../ “Na missiva de 11.2.7, assegura: “ A história cá se vai fazendo com o pouco tempo que para ela tenho, com facilidade e sem muletas.”; para asseverar, cinco dias depois: “ A minha história lá avança entretanto, e parece-me genial...". A 24 de Fevereiro, afirma: “/.../ Tenho avançado o Dilúvio contra ventos e marés, e espero tê-lo pronto e genial antes das férias.” Apesar do tom optimista em que se expressa; nota-se já, todavia, que algo não vai inteiramente bem com este livro, que trazia iniciado de Lisboa e que há-de abandonar.

9.4. Na carta de 13.3.71, António, eufórico, revela a Maria José: “Ontem passou-me uma coisa pela cabeça e comecei a escrever uma história completamente nova, com uma facilidade incrível. É uma coisa que me tem entusiasmado para lá de todas as palavras, e que excede, mesmo, tudo quanto me julgava capaz de fazer”. E não se cansa de tecer elogios ao seu novo projecto, que conta ainda apenas com dez páginas, mas que será um romance “assombroso” e o mais “revolucionário” de todos os que já lera. E assevera que não está “a ser pedante, nem aldrabão, nem exagerado”. É o dia triunfal de Lobo Antunes que, de resto, já era um velho conhecido de Fernando António e conhecia a génese dos heterónimos.

9.5. É verdadeiramente impressionante a quantidade de autores que, aos vinte e oito anos de idade, António já tinha lido e sobre os quais se permite emitir juízos de valor. Conhece os autores sul-americanos fundamentais, que se expressam em português e espanhol. E, apesar da “sua tenra idade” e da ausência de obra publicada, olha-os de cima para baixo (é assim que quero dizer). Gabriel Garcia Marquez, e, sobretudo, Cem Anos de Solidão, Carlos Fuentes e Cortázar, são dos raros autores, do subcontinente, que se salvam da mira sempre muito crítica do futuro autor de A Morte de Carlos Gardel.

9.6. Os franceses, que conhece abundantemente, passam sem grandes críticas. La Chute de Camus é uma coisa bem escrita. A Peste, lida aos dezasseis anos, era uma coisa extraordinária; mas aos vinte e oito, já era maçadora. De resto, parece não apreciar muito a literatura solar de Camus. Nem uma só referência a O Estrangeiro. André Gide, o esteta, é referido várias vezes, mas sem adjectivos. Copia-lhe o método do caderninho. Acusa Balzac “pela cristalização do romance”. Conhece o antiquíssimo Cyrano de Bergerac. Mostra grande interesse pela Shafo de Alphonse Daudet e lê Samuel Beckett. Quem exerce, no entanto, um grande fascínio sobre o jovem escritor é Céline, que chega a considerar o maior, ainda que determinados juízos de valor reflictam muito o estado de alma do momento em que são formulados.
Ainda uma pequena nota referente à língua francesa. António revela um grande conhecimento da língua – e não será desapropriado dizê-lo – um certo gozo em utilizar expressões da língua de Victor Hugo, ora para valorizar a beleza de Maria José, ora para dizer quanto detestava aquela situação que lhe roubava dois anos da sua vida. Aqui fica o registo de algumas expressões francesas:”tristesse”, “três hasardeux”, “à la longue”, “soyons heureux”, “à en mourir”, “environement”, “refaire une beauté”, “je m’en fiche”, je deteste ça”, etc.

9.7. Quanto aos espanhóis da península, Lobo Antunes não dá conta dos seus conhecimentos. Trata familiarmente Don Miguel de Unamuno, atribui um verso de Lorca a Rosalía de Castro e faz uma referência elogiosa a Jorge Semprún, que lhe foi revelado por Melo Antunes.

9.8. Ainda no que concerne a autores estrangeiros da sua predilecção, para além dos sul-americanos já anteriormente referidos, avultam Joyce e Faulkner. Do primeiro diz: “ /.../ o melhor do mundo é James Joyce” (carta de 7.7.71) e quer o seu retrato, na “nossa casinha”, em lugar de destaque. Em relação a Faulkner, diz que gostaria de ter escrito todos os seus livros. E na mesma carta (Carta de 23.2.72), numa condusão propositadamente torrencial e incoerente e por metonímia, refere Hemingway e Stendhal e Flaubert e e Thomas Mann, etc. e depois lembra-se de Tolstoi, “que é o maior de todos”. Outros autores são citados: Franz Kafka, Gunther Grass, Truman Capote, etc. E talvez seja justo dizer, neste ponto, que, apesar das nossas omissões, a carta de 23.2.72, escrita na Marimba, fixa a árvore genealógica de António Lobo Antunes.

9.9. Era espectável que António Lobo Antunes nos desse mais notícias de autores portugueses. Afirma, curiosamente, que os três maiores escritores portugueses são Camões, Pessoa e Bocage. Deste último lamenta o facto de não o conhecer tão bem como devia. E de andar associado ao anedotário.
Lê ensaios de Jorge de Sena, contos de Almada, romances de Namora e descasca em O’Neill. Acerca da obra deste último, As andorinhas não têm restaurante, diz tratar-se de uma série de prosas sem categoria nenhuma, /.../ Qualquer coisa de fotonovela e nem um cheiro daquela atmosfera russa indefinível/.../, que eu tanto gosto de respirar” (carta de 27.2.71).
Acha que Soeiro Pereira Gomes seguiu demasiado Os Capitães da Areia de Jorge Amado, na Engrenagem; contudo, tece rasgados elogios ao neo-realismo, por ter dado voz ao país real. De Redol lê A Barca dos Sete Lemos e não faz quaisquer comentários.
Não é natural, em nossa humílima opinião, que o futuro autor do Esplendor de Portugal, se tenha esquecido dos grandes novelistas portugueses de oitocentos: Garrett, Camilo e Eça. E ainda de nomes do séc. XX como José Cardoso Pires e Agustina Bessa Luís.
É estranho, não é?

10. António Lobo Antunes revela uma grande sensibilidade pelas questões de natureza antropológica. Ao longo das cartas são abundantes os seus testemunhos, quer no que toca ao modo de organização das populações, à volta dos chefes tribais; quer no que concerne às suas crenças e práticas ancestrais. Não sendo um documento insubstituível ou sequer de referência, as cartas revelam aquele que numa delas se despede como “marido, pai e escritor”, como um homem de grande sensibilidade e de cultura.

10.1. Os merengues, que também servem para avisar os guerrilheiros ( para Lobo Antunes ainda são terroristas) da saída das tropas, “são fabulosos de ritmo e de beleza selvagem. Ao centro, um grupo de homens percute os tambores, e a malta dança de roda, velhos e novos, mulheres com filhos às costas, etc., mexendo-se com uma espantosa facilidade e um ritmo extraordinário, cantando ao mesmo tempo uma melopeia estranhíssima” (carta de 15.2.71).
Ainda que desde sempre “o tricotar subterrâneo” da escrita o tenha absorvido, António é por formação um homem de ciência, mas nem por isso deixa de assistir a certas cerimónias autóctones: “Hoje, domingo, passei a manhã, numa cerimónia curiosa, a assistir è esconjuração de uma doente, para que a doença saísse de dentro dela” e mais à frente: “três homens tocavam tambor e a malta dançava e cantava à volta/.../” (carta de 7.3.71).
Porém, nem todas as práticas eram benfazejas: “Ontem, em consequência de uma feitiçaria, amarraram uma velha a um quimbo e queimaram-na viva no Ninda, rito ainda frequente nestas paragens”(carta de 24.3.71).

10.2. A sexualidade é um daqueles temas que nunca lhe poderia passar ao lado. E a sua condição de médico, permitia-lhe um conhecimento provavelmente vedado a outros: “/.../ os casos impotência masculina são frequentíssimos, e todos os dias oiço tristes queixas de machos desiludidos, exibindo pénis formidáveis e inúteis” (carta de 12.3.71).
Constata que “ Não existe homossexualidade, a não ser numas vagas ligações helénicas entre velhos e miúdos, que se desfazem com a puberdade destes. O beijo é ignorado, as carícias também, e a fornicação faz-se de lado, numa imobilidade de preguiça, durante horas, sem se tocarem, numa indiferença absoluta” (carta de 2.4.71).
A desfloração de uma garota nativa por um coxo grotesco, é assim descrita:” Um coxo/.../ foi-se a uma garota de uns nove anos e, como eles dizem, «tirou-lhe o cabaço»: em vez de oito anos de prisão maior celular., a malta teve uma alegria enorme. Seguem-se oito dias de batuque”.

11. Luanda e os luandenses brancos não mereceram a simpatia do futuro grande escritor. A capital de Angola perpassa pelos olhos do artista como “uma espécie de Areeiro de província, com o mesmo pretensioso gosto suburbano/.../” e os seus habitantes brancos “/.../têm o mesmo indefinível aspecto de vendedores de automóveis/.../” dos da Metrópole. As mulheres são “/.../ tipo locutoras de rádio, demasiado bem vestidas para serem inteiramente honestas.”Nesta carta, a de 16.1.71, fala-nos ainda do Grafanil, que era o grande entreposto humano e mercantil que alimentava toda a guerra, naquele imenso território. Estas eram apenas as primeiras impressões.
Na carta de 21.3.71, Luanda volta a estar sob a mira do artista. Sente-se irritado com a vida da capital, onde nada falta e a fazer fé nas revistas, que publicam as fotografias, há “bailes” e “festas” e “eleições de misses”, enquanto lá longe, nos perímetros dos aquartelamentos, os militares sofrem por todos aqueles que se divertem e os olham com desdém. Mas apesar de não querer pormenorizar por razões óbvias, não deixa de afirmar: “/.../ os brancos locais, sobretudo os das cidades, são de um tipo novo-riquismo saloio e soberbo, verdadeiramente insuportável.” Em suma, são gente “execrável”, que não merece as potencialidades de Angola e aponta-os como ”os descendentes dos degredados”.

12. As notações meteorológicas de Lobo Antunes, para além de fidedignas, dão-nos também “uma visão de artista”. Na curta estada em Luanda e na companhia de outros militares, visita a ilha, mas percebe-se que não gosta do que vê e descobre que “O céu nunca é azul mas maciço, grosso, espesso, triste (carta de 17.1.71). Luanda é apenas uma escala a caminho do Leste. Já em Gago Coutinho, vejamos como o autor descreve as grandes chuvadas: “/.../ têm caído aqui chuvadas gigantescas; em cinco minutos fica tudo alagado de charcos e poças imensas, /.../ as trovoadas, fantásticas de intensidade, desabam em cima de nós numa cadência de Apocalipse” (carta de 31.1.71).
A estação das chuvas vai cessar. Aproxima-se o tempo do cacimbo. As palavras do autor: “O calor tem sido, nestes últimos dias, diabólico, e o céu permanece imperturbável. É o início do cacimbo, mas as noites frias ainda não começaram” (carta de 12.3.71). Está-se, com efeito, num período de transição. Precava-se o leitor, que a coisa vem em crescendo: “ontem à noite desabou aqui uma tempestade imensa, a maior a que até agora assisti, com relâmpagos a caírem por todos os lados, numa sucessão ininterrupta, e os trovões a rebolarem num ruído enorme /.../ “ Mas ainda não era tudo. As trovoadas em Angola, às quais também assistimos, eram fenómenos excepcionais. De novo as palavras do autor das cartas: “Tudo tremia e oscilava. Os raios eram tantos que parecia dia /.../, as casas saíam do escuro numa claridade ofuscante, e o som da água era verdadeiramente ensurdecedor”(carta de 8.8.71). Poderíamos transcrever outros excertos, igualmente realistas e belos, porque as notações de ordem climatérica são abundantes, nestas que também serão, com toda a certeza, comoventes cartas de amor. Cada leitor que tenha passado por Angola, pela imensidão do espaço e da noite, na época das chuvas, sabe que a forma de dizer é a de um artista da palavra, mas a matéria substantiva já está ali toda.

13. Há um só aspecto nestas cartas – e por que não dizer uma linha de força -, que nos chocou do princípio ao fim: a relação de António com o dinheiro e as restantes coisas materiais. Sabemos que era casado e que contraíra determinadas responsabilidades, mas também sabemos que a sua família vivia muito acima da média das famílias daqueles soldados - e até muitos graduados - , que nada tinham e que por isso mesmo viam na tropa uma forma de fugir a quotidianos ainda mais pobres. E que o seu vencimento de alferes e os dinheiros recebidos do exercício da sua profissão junto das comunidades locais, formavam uma massa monetária verdadeiramente invejável.
António conta os tostões um a um e sabe a totalidade do dinheiro que já enviou, que irá receber, aquele com que fica e ainda amealha, para depois comprar um carrinho e outras coisas. Compra arte indígena, feita por encomenda, mas confessa depois que tinha gasto uma ridicularia de angolares.
Ainda neste capítulo, e porque também revela uma personalidade, destaque-se o envio de uísques e outras bebidas por diversos portadores. António não bebe, mas sabe que o material é bom e que a compra é um bom negócio.

por Manuel Barata
12.01.2006

31/12/2005

Rogério Santos: O livro de António Lobo Antunes


D'este viver aqui neste papel descripto é um livro de amor que decorre com a guerra colonial como pano de fundo. Os aerogramas (ou cartas) que o alferes miliciano Lobo Antunes mandava para a mulher Maria José (Fonseca Costa) Lobo Antunes são a expressão do amor à distância e relata o dia a dia da vida de um militar destacado em Angola durante a guerra, no caso dele entre 1971 e 1973.

O livro lê-se como um romance pleno de acção, mesmo que muitas das cartas contenham versões minimais de outras. A repetição das cartas tem a ver com a monotonia dos dias, longe dos familiares e dos amigos queridos e afastado do conforto de uma cidade (Lisboa), onde o autor vivia. Mas há três ou quatro temas que, embora se repetindo ao longo das cartas, ilustram uma progressão. É como a nossa vida quotidina: fazemos gestos semelhantes todos os dias, mas vamos alterando um pouco esses gestos, porque envelhecemos ou ganhamos experiência.
 
A saudade da mulher (e da filha que vai nascer aqui em Lisboa quando ele está lá longe, em Gago Coutinho - o nome de então de uma vila angolana perto da fronteira com a Zâmbia). Daí que as cartas comecem sempre com "minha jóia querida" e acabem com "gosto tudo de ti". Outra linha constante é a referência à sua necessidade de escrever, ele que debutava e seria bastante mais tarde reconhecido como grande escritor. Escrevia ele a 5 de Abril de 1971 (p. 117): "Tenho continuado a história, agora a caminho da página número 70, vamos a ver se consigo que fique boa". A 21 de Maio do mesmo ano (p. 171): "Entretanto lá vou empurrando a história para a frente". No dia 8 de Julho (p. 232) escrevia: "Acabada a primeira parte, eis-me a trotar na segunda".
 
O atraso de correspondência era outra constante da vida do seu dia a dia: "Desde 4ª feira passada (hoje é 3ª) que não recebo notícias tuas e que nada sei a teu respeito" (6 de Abril de 1971, p. 118) . Muitas vezes, considera que o amor entre ele e a mulher está a chegar ao fim, pois ela não lhe responde. Mas das suas cartas percebe-se que ela se queixava do mesmo. Cada aerograma demorava muitos dias, devido aos circuitos complexos de correio no interior de Angola. Hoje, tais lamentações não seriam possíveis, graças ao telemóvel e, em especial, a internet [há poucas semanas, uma reportagem de televisão mostrava os soldados destacados em missão internacional no Afeganistão com uso de internet e envio de imagens fotográficas. O tempo de demora reduziu-se a instantes].
 
O dia a dia sem motivos novos levava a um remoer constante das mesmas ideias. Mas o autor não assumia que nelas pensava todos os dias: "Há muito que não falo da criança [a mulher ficara grávida quando ele embarcou para Angola], mas tenho pensado muito nela" (26 de Abril de 1971, p. 140). Lobo Antunes abordara a situação no dia anterior. Depois, é o seu conselho quanto ao nome da criança a nascer; querendo uma rapariga, propõe o nome de Maria José, o que virá a acontecer .
 
Um tema marginal, mas que retoma com alguma regularidade é o da compra de bebidas brancas a preços baixos: "A propósito de oficiais, cada um tem direito por mês a 3 garrafas, duas de uísque e uma de conhaque, de marcas estupendas, a preços de cerca de 100$00. [...] Embora não goste de nada disso (e tenho pena) ficamos cheios de alcoóis para os visitantes do nosso quimbo" (carta de 29 de Março de 1971, p. 109.Quimbo em umbundo, a língua da região, significa casa). Já a 20 de Janeiro de 1972 (p. 338), dá conta de uma alteração: "já não vendem mais garrafas aos senhores oficiais, por aqueles preços convidativos". E, por mais de uma vez, conta que militares de visita a Portugal serão transportadores de algumas dessas garrafas.
 
Retenho ainda da leitura do livro: 1) o conhecimento que ele adquiriu com o capitão Ernesto Melo Antunes, comandante de uma das companhias do seu batalhão (certamente aí colocado depois de, em 1969, ter sido o único oficial das Forças Armadas portuguesas a fazer parte de uma lista oposicional à linha do regime, ele que seria um dos oficiais do 25 de Abril de 1974 e que assumiu uma posição de liderança, com o Documento dos Nove, uma posição moderada após a radicalização à esquerda do regime em 1975 e 1975. Melo Antunes, homem culto, emprestava livros e revistas como o Nouvel Observateur e jogou xadrez com Lobo Antunes, ensinando-lhe várias entradas, como o livro indica); 2) a tomada de consciência política (apesar de, numa primeira fase, parecer favorável à situação, vai-se distanciando da posição oficial); 3) a leitura das bibliotecas (fracas) dos outros colegas quando os seus livros já tinham sido lidos; 4) os boatos (ficar na frente de combate todo o tempo da comissão e não rodar para um sítio mais calmo; uma segunda comissão); 5) as mortes de soldados, a que se acresce o facto de, como médico, acompanhar todos esses casos de modo directo.

 
por Rogério Santos
16.12.2005

27/12/2005

Eduardo Alves: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

Por entre uma salada russa feita de ingredientes sociais com bêbedos, pobres, oportunistas e simples sonhadores surge um conjunto restrito de pessoas. Escolhidas pelo autor para constarem como personagens de monta num livro histórico e intemporal. O burburinho social que se vive logo após o mês de Abril do ano de 1974 serve de sustentação a este retrato colectivo que António Lobo Antunes imprime na chapa da escrita. Como uma foto feita de palavras, o médico-escritor, narrador por excelência, transforma-se na consciência de um povo que tinha acabado de cair por terra e começa agora a erguer-se do chão.

O fascismo aparece como grande herança do regime salazarista. Isto porque, na óptica deste antigo combatente, a sociedade mal se transformou com a revolução, apenas se maquilhou para surgir com uma outra imagem, mas da mesma forma. Desigual, carregada de vícios e sustentada por jogo de poder. Um dos ministros de Salazar ganha mesmo o estatuto de personagem principal em dezenas de páginas do romance. A crueldade das decisões vai contrastando com a capacidade de bem-querer a alguns. Poder e liberdade de acção extravasam para alguns, enquanto a maioria, os pobres que já estavam na miséria, sentiam na pele e no corpo os malefícios destas políticas. Para aqueles que levantavam a voz, a polícia vinha com “estalos evangélicos” colocar o tom de voz num timbre mais baixo. Leitura intemporal, que ainda hoje encontra muitas semelhanças com a realidade.

por Eduardo Alves
Universidade da Beira Interior
Novembro de 2004

18/12/2005

Arancha Oña Santiago: Heróico anti-herói

Memória de Elefante é a primeira obra da galardoada carreira literária de António Lobo Antunes; entre os múltiplos prémios recebidos destacam-se: o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Rosalía del Castro do PEN Club Galego, o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, o Prémio União Latina de Escritores e o Prémio Jerusalém.

No presente romance, a personagem principal comunica com a voz grave de débeis ressonâncias a partir da subjectividade mais profunda do seu ser, através de uma prosa poética plena de analogias artísticas insuspeitas e surpreendentes, angustiadas metáforas, alegorias, paradoxos, diálogos opacos e fustigantes monólogos existencialistas, numa ambiguidade dualista plena de incerteza, dirimindo entre a banalidade e o transcendental.

Fugindo do excessivo e exuberante racionalismo matemático, do pragmatismo, da autoridade idealista e positivista, do por vezes presunçoso espiritualismo e do avassalador materialismo, em suma, contra qualquer autoridade, o protagonista apresenta-se num mundo de desorientação, de confusão e de uma crise fertilíssima.

Como processo iniciático e por trás da claridade ofuscante do excessivo racionalismo tradicional, o protagonista lança um grito desesperado de sinceridade no concavo espaço do silêncio, sem arrogância, questionando a realidade sem receber uma resposta convincente, pendendo sem equilíbrio algum e contorcendo-se sobre si mesmo numa corda entre o determinismo e a liberdade, entre a fé e o agnosticismo, entre o absoluto e o relativismo moral.

Exorta o inanimado e o animado, metamorfoseando a existência para a compreender, jogando com a fantasia e a realidade da percepção, formando um puzzle de elementos congruentes e incongruentes. Evoca o caos dentro de uma ordem aparente e uma ordem dentro do caos, expulsando tudo isso através desenlaçado novelo da liberdade.

Psiquiatra de profissão, sendo um fardo por vezes difícil de carregar, a personagem principal apresenta-se como um indivíduo frágil por condição mas duro por necessidade, desterrado à vida de cabeça ajudado por fórceps, exaltado na análise do seu instável projecto de existência face à aparentemente titânica essência do passado. Projecto de existência individual que só encontrou estabilidade no útero materno e que existe no ermo de um mundo em que não entende as leis da sua harmonia e para o qual são inúteis os ecos harmónicos da tradição.

Na sua subsistência, desliga-se melancolicamente de qualquer memória de autoridades geométricas e ressonâncias de leis universais, sendo incapaz de erguer com suas intenções outra jurisdição que o guie em sua dispersão, aceitando uma desordem que o leva à quase perversa aniquilação do seu próprio ser. Desesperançado perante o rosto de uma realidade a que é incapaz de fazer um diagnóstico definitivo, conforma-se com meros e aproximativos juízos, acalmando a dor com leves analgésicos cujo excesso o leva ao atordoamento, sem encontrar um medicamento contundente que a elimine de raiz.

Enfrentando a realidade com uma vontade dilacerantemente individual agredida por um trágico pessimismo, defende sem muita contundência e com eterna e angustiada dúvida o seu fado de sinuosos acontecimentos, entre os quais a sua participação numa guerra; incorporado de uma solidão dissonante, desmoronada como uma estátua da antiguidade e dissimulada dos fedores do passado.

A nossa personagem enfatiza de forma literária a unicidade da sua pessoa e a sua luta pelo significado da lua liberdade, uma liberdade sem bússola, que ao  mesmo tempo que o oprime, o converte num ser singular e individual, separado da ordem cósmica, permitindo-lhe ajustar a sua identidade sobre a base do sofrimento e do tormento, comunicando existencialmente com a alteridade.

Liberdade cuja cruz é a responsabilidade pela qual sofre uma angústia e uma ansiedade existencial gerada como mecanismo de defesa perante a construção da sua identidade e do seu destino em harmonia ou dissonância com a liberdade dos demais, e como resposta às ameaças e tensões que sofre no seu sistema de valores.

O nosso protagonista é singular na medida em que actua e se realiza com algum pessimismo na conquista e na imputação dos seus próprios actos. Escolhe o seu caminho sem se deixar levar por modelos universais e objectivos, escolha livre unicamente limitada pelas circunstâncias que o rodeiam, pela implicação com compromissos e responsabilidades sem garantias.

Sem uma predisposição ou predestinação prévia, o protagonista experimenta a responsabilidade das suas acções e a subjectividade da sua existência se reconstrói e configura em si mesmo, sobre a base do tormento, reconhecendo tenuemente a alteridade, e na busca da aparentemente prismática verdade. Alteridade na qual de sujeito se converte em objecto, de onde se reflecte um mundo de incompreensíveis estereótipos humanos, alguns confinados ao psiquiátrico, outros na liberdade de movimentos pela vida, mas todos sem manual de instruções.

O nosso psiquiatra luta pela procura de uma linguagem universal que o faça comunicar com a realidade e com os outros, pela saída do labirinto da sua existência. Sensação e experiência linguística mantida única e exclusivamente com a sua saudosa ex-mulher a quem continua amando e não consegue esquecer, mas paradoxalmente não consegue dizê-lo. Experiência que nem sequer teve com sua mãe, que quase morria depois do seu parto, além de sofrer de uma surdez metafórica ou real que o levou à sua incompreensão.

Como os castigos míticos da condenação a uma eternidade infernal, o nosso protagonista sente-se condenado a uma existência angustiosa e incompreensível, através dos rígidos parâmetros da razão herdada.

Submerso nas águas do dualismo, entre a existência e a essência, entre a racionalidade e suas consequências, entre a credulidade e incredulidade, o nosso protagonista vai vogando sobre a decadência da razão, sem forjar ilusões e tocando o fundo do desencanto da existência, encalhando na dor e na crueldade da realidade sincera que marca o seu destino até... ao nada?

por Arancha Oña Santiago
Novembro 2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...