15 de janeiro de 2006

Manuel Barata: D'este viver aqui neste papel descripto - ensaio


1. As chamadas “cartas de guerra” de António Lobo Antunes, reunidas no volume "D’este viver aqui neste papel descripto", são, também, um poderoso documento sobre a guerra colonial. Embora dirigidas a sua mulher, o autor constrói ao longo dos dois anos de comissão, isto é, entre 7 Janeiro de 1971 e 30 de Janeiro de 1973, através de múltiplas notações, um libelo acusatório contra as abjectas condições a que os homens estavam sujeitos, nos aquartelamentos das zonas de guerra.

2. Porém, o conteúdo destas cartas não se esgota nos valiosos apontamentos sobre a guerra e na profunda relação amorosa com Maria José e ainda com a outra Maria José, a quem, até ao nascimento, chamará muitas vezes o “cafeco”, que significa criança em quimbundo. Através das cartas apreendemos também o mundo de relações do autor e da extrema atenção que presta a todos aqueles com quem se relacionava e com quem se continua a relacionar através da escrita de aerogramas. Todos os familiares lhe conhecem o gosto pela leitura e muitos enviam-lhe livros e revistas. De resto, é até curioso notar que António sugere a Maria José que sugira livros que gostaria de ler, mas que não está disposto a comprar, porque é absolutamente proibido gastar dinheiro. Esta sua natureza poupadinha vai ser motivo de um tópico. Também merecerão destaque neste trabalho testemunhos extraordinários que relevam do ponto de vista da antropologia e ainda impressões sobre arte e literatura.

3. Estamos, pois, em presença de uma obra ímpar, que, apesar dos mil milhões de beijos enviados por António a Maria José, a destinatária, extravasa vastamente a temática amor. Dir-se-ia até, que, expurgadas das fórmulas mais ou menos canónicas dos começos e dos impagáveis modos de terminar, estas cartas são, obviamente, muito mais do que simples cartas de amor. Decidir se este é ou não o primeiro grande romance do autor de memória de elefante, é tarefa que não assumimos neste pequeno e despretensioso estudo.

4. No entanto, não temos nenhum problema em afirmar peremptoriamente, que, doravante, estas cartas terão de ser lidas e relidas, por todos os que vierem a debruçar-se sobre os catorze anos da Guerra Colonial. Pois esta determinou toda a vida portuguesa, quer no rectângulo europeu, onde se procedia à incorporação, treino e mobilização de homens, quer nas chamadas Províncias Ultramarinas, onde se situavam os múltiplos teatros de operações. E marca ainda hoje, volvidos mais de trinta anos, de forma indelével, gerações de portuguesa.

5. Embora sejam o testemunho subjectivo de um indivíduo, jovem médico e aspirante a escritor, as cartas possuem a força das confissões espontâneas. A visão do autor é dada silenciosamente, na puridade dos seus aposentos, como notas de um quotidiano, que, apesar da distância, quer partilhar com a mulher amada. Assim, cremos que estas cartas, primordialmente (?) amorosas, são mais objectivas do que os relatórios militares e as notícias necrológicas, sabendo nós que uns e outros eram vigiados e censurados. Acresce a tudo isto, que, também nós, ainda que em teatros operacionais e época diferentes, cumprimos serviço militar obrigatório, na menina dos olhos dos colonialistas, isto é, em Angola. Não sabendo as surpresas que o tempo ainda nos pode reservar, António Lobo Antunes terá sido, até ao momento presente e através das suas cartas, aquele que, de 1961 a 1975, melhor verbalizou a vivência da Guerra Colonial.

6. “Porque é que vieram interromper-nos tão brutalmente?” A pergunta é formulada na carta de 1.6.71, escrita no Chiúme, Leste de Angola, quando o então alferes miliciano Lobo Antunes, cumpria o serviço Militar obrigatório. É dirigida a Maria José, sua mulher, ainda estudante e grávida de Maria José, a primogénita do casal. O autor estava no fim do mês quinto da sua estada em Angola e Chiúme era já o seu terceiro teatro de operações. Passara anteriormente por Gago Coutinho, onde, apesar de tudo, tinha uma certa vida de relação. No Ninda, conhecera Ernesto Melo Antunes a quem tece rasgados elogios e do qual será amigo para sempre. Chiúme é o buraco dos buracos, o lugar onde a DO chega com menos regularidade e há o célebre P., na messe, que não é, propriamente, um modelo de higiene. É no Chiúme, finalmente, que o autor faz referência explícita, reproduzindo de cor os dois versos finais, à Canção X de Camões. E finalmente, porque essa célebre composição de Camões já andava pressentida há muito, nestas cartas.

7. A pergunta em epígrafe, que admite várias interpretações, podia ter sido formulada por dezenas de milhar de jovens soldados que, num dado momento das suas vidas, viam as suas vidas interrompidas. As interrupções eram múltiplas: as luas-de-mel, os cursos, a aprendizagem de profissões, os namoros, muitos e muitos projectos futuros, no limite, a própria vida. Era tudo tão violento, nomeadamente, para quem já tinha alguma instrução escolar e política. O povoléu, ignaro e obediente, psiquicamente treinado para combater pela Pátria, batia-se, quase sempre, até aos limites da insensatez. Quantas narrativas de actos de grande bravura terão ficado por contar?

7.1. Passados apenas quinze dias e já o jovem alferes, médico de formação, notava que iria “pagar um preço muito caro pela possibilidade de voltar a viver” em Portugal (carta de 31.1.71.). As notações sobre a guerra são agora frequentes. Mais tarde há-de, já calejado e aparentemente mais conformado, poupar Maria José aos relatos horripilantes de mortos, amputados, feridos e desaparecidos. À exaltação inicial, vai opor-se um homem mais ponderado e quiçá mais conformado. “Escrevo-te de manhã, no gabinete da enfermaria, enquanto espero três evacuados” (carta de 10.2.71); porém, e também para terminar este subtópico, aqui ficam mais palavras de Lobo Antunes: “ Dos feridos gravíssimos de ontem – três sujeitos cheios de balas – não há notícias, mas espero que se salvem. Entretanto o morto – o guia – foi abandonado na mata às feras”( carta de 11.2.71).

7.2. A guerra não era apenas operações e mais operações militares e mortos e feridos e evacuados. Daí, a pertinência da observação que segue: “ É incrível a guerra que aqui fazemos, sozinhos e sem meios, contra um inimigo cada vez mais numeroso e bem preparado” (carta de 11.2.71). E onde muitos outros meteram o bedelho, passe o plebeísmo, como nota o futuro autor de As Naus: /.../ o nosso exército prolifera e vive no meio de uma confusão e de uma desordem indescritíveis” e mais à frente: “Chegam hoje os pilotos(17) nos seus pássaros gigantes, e não sei de onde é que estes franceses vêm e por que diabo colaboram nisto” (carta de 15.2.71).

7.3. E apesar da guerra ser uma actividade colectiva, onde acontecem os actos mais bárbaros e as solidariedades mais grandiosas, António sabe que ele e os restantes camaradas de armas, nomeadamente os mais esclarecidos, combatem fora da sua terra e em defesa de uma causa iníqua. Combatem pelos execráveis passadores de angolares por escudos, pelos novos-ricos que vão às festas em Luanda e que tudo fazem para que as suas crias masculinas não conheçam os tenebrosos teatros de operações. Não espanta, pois, esta constatação: “Cada um vive quase somente para si próprio e para as cartas que recebe, preocupado com a própria sobrevivência e mais nada” (carta de 17.3.71). Esta guerra, decididamente, era sentida como algo que era imposto e cujo absurdo as elites iam interiorizando. Não admira, assim, que, no pós-25 de Abril, a situação nunca mais se tivesse estabilizado. Todos os sobreviventes queriam voltar ao verdadeiro solo pátrio e ao seio das suas famílias. Cá, no rectângulo europeu, ficou célebre a palavra de ordem: NEM MAIS UM SOLDADO PARA AS COLÓNIAS!

7.4. Não eram, contudo, os tempos da incorporação e da mobilização, que marcavam o início das angústias familiares. A guerra começava a ser tema obrigatório para os rapazes e respectivas famílias, por altura dos quinze/dezasseis anos. Apesar de tudo, António Lobo Antunes terá iniciado o serviço militar já depois dos vinte e cinco anos, facto que lhe permitiu uma abordagem mais adulta e pontuada por uma imensa discrição. Porém, não deixam de ser dignas de registo as seguintes palavras de António:” O meu instinto conservador e comodista tem evoluído muito, e o ponteiro desloca-se, dia a dia, para a esquerda: não posso continuar a viver como o tenho feito até aqui” (carta de 15.5.71). É curioso notar que o futuro escritor, que se referia aos guerrilheiros por terroristas e que até mantinha uma relação amigável com o responsável da Pide, em Gago Coutinho, há-de deixar cair aquela denominação e esta amizade no esquecimento.

7.5. António Lobo Antunes é filho de uma futura grande família do reino. O pai é médico especialista e de nomeada. O irmão mais velho segue, segundo cremos, as peugadas do pai. António já é médico. E os restantes membros do clã hão-de desempenhar papéis noutras áreas, a saber: advocacia, música e diplomacia, nomeadamente. O nosso mancebo, compreensível mas tardiamente mancebo, vai transmitir, através das suas cartas – as cartas a Maria José -, a sua visão da guerra colonial e das actividades correlativas. A primeira grande nota de uma situação burlesca é dada ainda durante a viagem, na carta de 14.1.71, onde o futuro escritor descreve o ambiente das refeições, no paquete: “ Ao jantar e ao almoço, uma velha oxigenada, com duplo queixo e chinelos, toca piano com uma dificuldade míope, e ao lanche (chá e bolos), servido por uma nuvem de criados, a orquestra «Vera Cruz», qual deles com a melhor pinta de chulo lisboeta, magrinhos, brilhantinados, de olhar maroto, esfolam música de cabaré de putas.” Tendo em conta o puritanismo da sociedade portuguesa do início da década de setenta do século passado, imagine o putativo leitor a cara daquela panóplia de tias e avós, se lessem aquela prosa enérgica e realista de António.

7.6. A guerra é uma fonte de medos por excelência: os actores têm medo de morrer, de ficar estropiados, de ser preteridos no amor, de ser esquecidos por amigos, familiares e até pela mulher amada. Não espanta, assim, que o futuro autor de Cus de Judas , logo na primeira carta, a de 7.1.71, em tom imperativo, mas com patética sinceridade, escreva: “Lembra-te de mim”. De resto, esta fórmula vai ser repetida assim ou modificada em dezenas e dezenas de cartas: “lembra-te de mim, sempre/../”, “ /.../ tem paciência e lembra-te, de quando em quando, de mim”, “/.../ lembra-te de mim, tem saudades minhas e gosta um bocadinho do teu marido desterrado”, “Minha noiva linda, nunca te esqueças de mim”. António teme até – e o seu temor é tão humano!...-, que os outros o esqueçam. Daí esta tão comovente confissão nobreana: /.../ espero que continuem a pensar no António coitado/.../” Nobre, o espantoso poeta do SÓ, há-de ser referido explicitamente em duas das cartas e está presente, implicitamente, em muitas outras. Este António, tal como o poeta, é aquele que está longe da sua terra, das coisas e dos seres que lhe são queridos e que vive, também ele, só e corroído pela saudade, já muito longe da sua “torre de leite”. “92 dias separam-nos. Todas as manhãs desconto um. Vivo desta aritmética da saudade/.../”, escreve na carta de 28.6.71.

8. “Porque é que vieram interromper-nos tão brutalmente?” António casara em Agosto de 1970 e embarcou para Angola em 6 de Janeiro de 1971. O casal, apesar dos meses entretanto decorridos e de Maria José já se encontrar grávida, vivia ainda uma prolongada lua-de-mel. Era um dos efeitos da guerra. Vivia-se o dia presente como se do último se tratasse. A guerra conferia a tudo, e ao amor também, um carácter de urgência. Deixo aqui um verso de Ramos Rosa: “Não posso adiar o amor para outro século”.

8.1. As cartas escritas por António são apaixonadíssimas. Aqui se transcrevem algumas das fórmulas iniciais, que, de certo modo, atestam essa mesma paixão: “Meu querido amor”, com noventa e quatro ocorrências; “Minha jóia querida”, repetida em quarenta e cinco missivas”; “Minha querida jóia”, surge quarenta e uma vez; para “Meu amor querido”, contamos vinte e seis; e “Meu amor” é utilizada em quinze cartas. Porém, o trabalho de joalheiro vai mais longe, utilizando ainda as fórmulas seguintes: “Minha jóia”, “Minha jóia adorada”, “Minha querida jóia linda”, “Minha amada jóia”, “Minha jóia preciosa e querida”, “Minha jóia zangada”, etc.
Ainda no âmbito destes começos, note-se o emprego de “Minha linda senhora” e também “Minha alma amada”, que, ainda que este amor se alimente de carne, remete para códigos amorosos antigos que o autor conhece bem e que não utilizará por acaso. Nomeadamente a fórmula “Minha alma amada”, que configura uma identidade espiritual plena entre os dois amantes. Maria José é o primeiro leitor de António e este confere grande importância à sua opinião. Devido à separação, Melo Antunes também há-de ler excertos, em primeira-mão, e dar alguns conselhos ao jovem escritor.
Como todos os casais, mesmo à distância, os “amuos” também acontecem, ainda que para António sejam sol de pouca dura. Diz o que tem a dizer, directa e incisivamente, e retoma a relação com a ternura de sempre. É nestes momentos que inicia as cartas com expressões diferentes das habituais: “Maria José”, “Sr.ª D. Maria José” e “Minha Senhora”´. O ciúme também não está completamente ausente, quando, numa das cartas, diz que se vive bem, em sua casa, na sua ausência. Outros exemplos poderiam ser dados.

8.2. Os finais das cerca de trezentas cartas são memoráveis e muitos deles constituem verdadeiros hinos ao amor. Outros, por sua vez, tocam-nos pelo insólito e pelo imenso humor de António. É justo que se diga, neste preciso momento, que os finais das cartas são profundamente caóticos. Há sempre uns milhões de beijos para acrescentar, um “lembra-te de mim”, mais beijos, um “GTS”, etc., que nos dão conta da profunda solidão em que vive este homem e da falta física que lhe faz a mulher amada.

8.3. Nós sabemos, de saber de experiência feito, quanto doíam as carências afectivas. Sabemos, com saber de experiência feito, com se iludia essa dor. Sabemos, com saber de experiência feito, a quanta sordidez nos obrigou a guerra. Houve outros Antónios, mas deve ser aqui transcrito este testemunho: “ As minhas saudades tuas são imensas. É tão triste esta longuíssima separação” (carta de 10.5.71) e diz-lhe imediatamente: “Com nenhuma mulher dormirei senão contigo, a mãe do Toino – ou da Zézinha. Milhões de beijos /.../” (carta de 10.5.71). E no entanto, este homem morre de desejo: “Coloco o meu pénis na forquilha do teu corpo” (carta de 20.1.71) e remata esta carta com ” Milhões e milhões de saudades apaixonadas, de beijos, de festas, de carícias e de abraços/.../”.
Dias depois, com os sentidos já na ordem, se é que pode falar assim, escreve: “ o teu Van Gogh (tinha tido um problema numa orelha) adora-te, minha gazelinha adorada, meu diamante querido, minha pérola e minha estrela” (carta de 21.1.71); todavia, o seu amor nunca deixa de ser superlativo: “Gosto tanto tanto tanto de ti” (carta de 27.1.71). Alguns dias depois, o desejo voltava: “Eu queria tanto voltar a ver-te! Deves estar, com certeza, cada vez mais bonita. E gorda. E barriguda. Apetece-me tanto deitar-me em cima de ti e penetrar-te” (carta de 1.2.71). Passados alguns meses, já próximo do primeiro reencontro, escreve: “Hoje tenho andado com uma terrível vontade sexual. Prepara-te para coitos homéricos” (carta de 13.7.71) e num dos aerogramas seguintes reitera:” Gosto tudo de ti, meu amor querido. E prepara-te para tetraquotidianos combates singulares” (carta de 20.7.71).
Mais palavras para quê?

9. A escrita é a obsessão das obsessões de António Lobo Antunes, que também é, como havemos de ver mais tarde, um grande devorador de livros. Não dissemos grande leitor, propositadamente, ainda que do seu currículo conste uma plêiade de autores de narrativas, que começa com Homero, no séc.VIII a.C. e chega aos seus contemporâneos, estrangeiros e nacionais. Há neste homem um dado relevante: é detentor de uma memória prodigiosa, uma memória onde tudo se inscreve e nada se apaga. Tem, na verdade, uma memória de elefante.

9.1. Antes de avançarmos neste ponto que denominamos a obsessão das obsessões, queremos aqui realçar o facto de Lobo Antunes ter deixado manuscritos em Portugal, os quais manda destruir a Maria José, na carta de 27.3.71. E diz mesmo que ficaria muito zangado, se, porventura, encontrasse as suas “historietas miseráveis”, quando viesse a Portugal. Mas quem tem acompanhado a vida do autor, sabe que escreveu desde sempre. Pelo menos, é essa a ideia que deixa passar em todas as entrevistas, quando perguntado sobre o assunto. E as cartas reiteram definitivamente essa ideia, e, outra ainda, a da escrita como trabalho oficinal. Atente-se nas próprias palavras do autor acerca do Voo: “ O problema tem sido reduzir a minha prosa a uma simplicidade bem legível. Cortar o pescoço à eloquência”, Chiúme, 7.6.71. Eloquente!

9.2. A escrita é o oxigénio de Lobo Antunes. Parece predestinado para escrever livros e daí que, no interior da própria família, o olhem diferentemente. As palavras do próprio autor: “No fundo agrada-me que assim seja, sempre gostei muito do amor, sobretudo do que eles têm por mim, que, não sei se já reparaste, é diferente do que sentem pelos meus irmãos, porque eles têm a sensação de que possuo qualquer coisa de irresponsável e imprevisível e de que farei um dia algo de heróico e de louco e de sublime, que eles não sabem bem o que será mas que os mantém em suspense”, carta de 12.4.71. E curiosamente, esta é uma das poucas missivas em que não fala da “história” ou histórias, tanto faz.

9.3. A inscrição da sua escrita, nesta grande narrativa epistolar, é iniciada com uma intenção: ”Qualquer dia recomeço a escrever (carta de 29.1.71)” e dois dias depois avisa:”/.../começo, de novo, a pensar no livro/.../”. Na carta de 7.2.71, escreve: “ Começo a assentar e a serenar. Comecei, talvez por isso, e a escrever um novo Dilúvio /.../ “Na missiva de 11.2.7, assegura: “ A história cá se vai fazendo com o pouco tempo que para ela tenho, com facilidade e sem muletas.”; para asseverar, cinco dias depois: “ A minha história lá avança entretanto, e parece-me genial...". A 24 de Fevereiro, afirma: “/.../ Tenho avançado o Dilúvio contra ventos e marés, e espero tê-lo pronto e genial antes das férias.” Apesar do tom optimista em que se expressa; nota-se já, todavia, que algo não vai inteiramente bem com este livro, que trazia iniciado de Lisboa e que há-de abandonar.

9.4. Na carta de 13.3.71, António, eufórico, revela a Maria José: “Ontem passou-me uma coisa pela cabeça e comecei a escrever uma história completamente nova, com uma facilidade incrível. É uma coisa que me tem entusiasmado para lá de todas as palavras, e que excede, mesmo, tudo quanto me julgava capaz de fazer”. E não se cansa de tecer elogios ao seu novo projecto, que conta ainda apenas com dez páginas, mas que será um romance “assombroso” e o mais “revolucionário” de todos os que já lera. E assevera que não está “a ser pedante, nem aldrabão, nem exagerado”. É o dia triunfal de Lobo Antunes que, de resto, já era um velho conhecido de Fernando António e conhecia a génese dos heterónimos.

9.5. É verdadeiramente impressionante a quantidade de autores que, aos vinte e oito anos de idade, António já tinha lido e sobre os quais se permite emitir juízos de valor. Conhece os autores sul-americanos fundamentais, que se expressam em português e espanhol. E, apesar da “sua tenra idade” e da ausência de obra publicada, olha-os de cima para baixo (é assim que quero dizer). Gabriel Garcia Marquez, e, sobretudo, Cem Anos de Solidão, Carlos Fuentes e Cortázar, são dos raros autores, do subcontinente, que se salvam da mira sempre muito crítica do futuro autor de A Morte de Carlos Gardel.

9.6. Os franceses, que conhece abundantemente, passam sem grandes críticas. La Chute de Camus é uma coisa bem escrita. A Peste, lida aos dezasseis anos, era uma coisa extraordinária; mas aos vinte e oito, já era maçadora. De resto, parece não apreciar muito a literatura solar de Camus. Nem uma só referência a O Estrangeiro. André Gide, o esteta, é referido várias vezes, mas sem adjectivos. Copia-lhe o método do caderninho. Acusa Balzac “pela cristalização do romance”. Conhece o antiquíssimo Cyrano de Bergerac. Mostra grande interesse pela Shafo de Alphonse Daudet e lê Samuel Beckett. Quem exerce, no entanto, um grande fascínio sobre o jovem escritor é Céline, que chega a considerar o maior, ainda que determinados juízos de valor reflictam muito o estado de alma do momento em que são formulados.
Ainda uma pequena nota referente à língua francesa. António revela um grande conhecimento da língua – e não será desapropriado dizê-lo – um certo gozo em utilizar expressões da língua de Victor Hugo, ora para valorizar a beleza de Maria José, ora para dizer quanto detestava aquela situação que lhe roubava dois anos da sua vida. Aqui fica o registo de algumas expressões francesas:”tristesse”, “três hasardeux”, “à la longue”, “soyons heureux”, “à en mourir”, “environement”, “refaire une beauté”, “je m’en fiche”, je deteste ça”, etc.

9.7. Quanto aos espanhóis da península, Lobo Antunes não dá conta dos seus conhecimentos. Trata familiarmente Don Miguel de Unamuno, atribui um verso de Lorca a Rosalía de Castro e faz uma referência elogiosa a Jorge Semprún, que lhe foi revelado por Melo Antunes.

9.8. Ainda no que concerne a autores estrangeiros da sua predilecção, para além dos sul-americanos já anteriormente referidos, avultam Joyce e Faulkner. Do primeiro diz: “ /.../ o melhor do mundo é James Joyce” (carta de 7.7.71) e quer o seu retrato, na “nossa casinha”, em lugar de destaque. Em relação a Faulkner, diz que gostaria de ter escrito todos os seus livros. E na mesma carta (Carta de 23.2.72), numa condusão propositadamente torrencial e incoerente e por metonímia, refere Hemingway e Stendhal e Flaubert e e Thomas Mann, etc. e depois lembra-se de Tolstoi, “que é o maior de todos”. Outros autores são citados: Franz Kafka, Gunther Grass, Truman Capote, etc. E talvez seja justo dizer, neste ponto, que, apesar das nossas omissões, a carta de 23.2.72, escrita na Marimba, fixa a árvore genealógica de António Lobo Antunes.

9.9. Era espectável que António Lobo Antunes nos desse mais notícias de autores portugueses. Afirma, curiosamente, que os três maiores escritores portugueses são Camões, Pessoa e Bocage. Deste último lamenta o facto de não o conhecer tão bem como devia. E de andar associado ao anedotário.
Lê ensaios de Jorge de Sena, contos de Almada, romances de Namora e descasca em O’Neill. Acerca da obra deste último, As andorinhas não têm restaurante, diz tratar-se de uma série de prosas sem categoria nenhuma, /.../ Qualquer coisa de fotonovela e nem um cheiro daquela atmosfera russa indefinível/.../, que eu tanto gosto de respirar” (carta de 27.2.71).
Acha que Soeiro Pereira Gomes seguiu demasiado Os Capitães da Areia de Jorge Amado, na Engrenagem; contudo, tece rasgados elogios ao neo-realismo, por ter dado voz ao país real. De Redol lê A Barca dos Sete Lemos e não faz quaisquer comentários.
Não é natural, em nossa humílima opinião, que o futuro autor do Esplendor de Portugal, se tenha esquecido dos grandes novelistas portugueses de oitocentos: Garrett, Camilo e Eça. E ainda de nomes do séc. XX como José Cardoso Pires e Agustina Bessa Luís.
É estranho, não é?

10. António Lobo Antunes revela uma grande sensibilidade pelas questões de natureza antropológica. Ao longo das cartas são abundantes os seus testemunhos, quer no que toca ao modo de organização das populações, à volta dos chefes tribais; quer no que concerne às suas crenças e práticas ancestrais. Não sendo um documento insubstituível ou sequer de referência, as cartas revelam aquele que numa delas se despede como “marido, pai e escritor”, como um homem de grande sensibilidade e de cultura.

10.1. Os merengues, que também servem para avisar os guerrilheiros ( para Lobo Antunes ainda são terroristas) da saída das tropas, “são fabulosos de ritmo e de beleza selvagem. Ao centro, um grupo de homens percute os tambores, e a malta dança de roda, velhos e novos, mulheres com filhos às costas, etc., mexendo-se com uma espantosa facilidade e um ritmo extraordinário, cantando ao mesmo tempo uma melopeia estranhíssima” (carta de 15.2.71).
Ainda que desde sempre “o tricotar subterrâneo” da escrita o tenha absorvido, António é por formação um homem de ciência, mas nem por isso deixa de assistir a certas cerimónias autóctones: “Hoje, domingo, passei a manhã, numa cerimónia curiosa, a assistir è esconjuração de uma doente, para que a doença saísse de dentro dela” e mais à frente: “três homens tocavam tambor e a malta dançava e cantava à volta/.../” (carta de 7.3.71).
Porém, nem todas as práticas eram benfazejas: “Ontem, em consequência de uma feitiçaria, amarraram uma velha a um quimbo e queimaram-na viva no Ninda, rito ainda frequente nestas paragens”(carta de 24.3.71).

10.2. A sexualidade é um daqueles temas que nunca lhe poderia passar ao lado. E a sua condição de médico, permitia-lhe um conhecimento provavelmente vedado a outros: “/.../ os casos impotência masculina são frequentíssimos, e todos os dias oiço tristes queixas de machos desiludidos, exibindo pénis formidáveis e inúteis” (carta de 12.3.71).
Constata que “ Não existe homossexualidade, a não ser numas vagas ligações helénicas entre velhos e miúdos, que se desfazem com a puberdade destes. O beijo é ignorado, as carícias também, e a fornicação faz-se de lado, numa imobilidade de preguiça, durante horas, sem se tocarem, numa indiferença absoluta” (carta de 2.4.71).
A desfloração de uma garota nativa por um coxo grotesco, é assim descrita:” Um coxo/.../ foi-se a uma garota de uns nove anos e, como eles dizem, «tirou-lhe o cabaço»: em vez de oito anos de prisão maior celular., a malta teve uma alegria enorme. Seguem-se oito dias de batuque”.

11. Luanda e os luandenses brancos não mereceram a simpatia do futuro grande escritor. A capital de Angola perpassa pelos olhos do artista como “uma espécie de Areeiro de província, com o mesmo pretensioso gosto suburbano/.../” e os seus habitantes brancos “/.../têm o mesmo indefinível aspecto de vendedores de automóveis/.../” dos da Metrópole. As mulheres são “/.../ tipo locutoras de rádio, demasiado bem vestidas para serem inteiramente honestas.”Nesta carta, a de 16.1.71, fala-nos ainda do Grafanil, que era o grande entreposto humano e mercantil que alimentava toda a guerra, naquele imenso território. Estas eram apenas as primeiras impressões.
Na carta de 21.3.71, Luanda volta a estar sob a mira do artista. Sente-se irritado com a vida da capital, onde nada falta e a fazer fé nas revistas, que publicam as fotografias, há “bailes” e “festas” e “eleições de misses”, enquanto lá longe, nos perímetros dos aquartelamentos, os militares sofrem por todos aqueles que se divertem e os olham com desdém. Mas apesar de não querer pormenorizar por razões óbvias, não deixa de afirmar: “/.../ os brancos locais, sobretudo os das cidades, são de um tipo novo-riquismo saloio e soberbo, verdadeiramente insuportável.” Em suma, são gente “execrável”, que não merece as potencialidades de Angola e aponta-os como ”os descendentes dos degredados”.

12. As notações meteorológicas de Lobo Antunes, para além de fidedignas, dão-nos também “uma visão de artista”. Na curta estada em Luanda e na companhia de outros militares, visita a ilha, mas percebe-se que não gosta do que vê e descobre que “O céu nunca é azul mas maciço, grosso, espesso, triste (carta de 17.1.71). Luanda é apenas uma escala a caminho do Leste. Já em Gago Coutinho, vejamos como o autor descreve as grandes chuvadas: “/.../ têm caído aqui chuvadas gigantescas; em cinco minutos fica tudo alagado de charcos e poças imensas, /.../ as trovoadas, fantásticas de intensidade, desabam em cima de nós numa cadência de Apocalipse” (carta de 31.1.71).
A estação das chuvas vai cessar. Aproxima-se o tempo do cacimbo. As palavras do autor: “O calor tem sido, nestes últimos dias, diabólico, e o céu permanece imperturbável. É o início do cacimbo, mas as noites frias ainda não começaram” (carta de 12.3.71). Está-se, com efeito, num período de transição. Precava-se o leitor, que a coisa vem em crescendo: “ontem à noite desabou aqui uma tempestade imensa, a maior a que até agora assisti, com relâmpagos a caírem por todos os lados, numa sucessão ininterrupta, e os trovões a rebolarem num ruído enorme /.../ “ Mas ainda não era tudo. As trovoadas em Angola, às quais também assistimos, eram fenómenos excepcionais. De novo as palavras do autor das cartas: “Tudo tremia e oscilava. Os raios eram tantos que parecia dia /.../, as casas saíam do escuro numa claridade ofuscante, e o som da água era verdadeiramente ensurdecedor”(carta de 8.8.71). Poderíamos transcrever outros excertos, igualmente realistas e belos, porque as notações de ordem climatérica são abundantes, nestas que também serão, com toda a certeza, comoventes cartas de amor. Cada leitor que tenha passado por Angola, pela imensidão do espaço e da noite, na época das chuvas, sabe que a forma de dizer é a de um artista da palavra, mas a matéria substantiva já está ali toda.

13. Há um só aspecto nestas cartas – e por que não dizer uma linha de força -, que nos chocou do princípio ao fim: a relação de António com o dinheiro e as restantes coisas materiais. Sabemos que era casado e que contraíra determinadas responsabilidades, mas também sabemos que a sua família vivia muito acima da média das famílias daqueles soldados - e até muitos graduados - , que nada tinham e que por isso mesmo viam na tropa uma forma de fugir a quotidianos ainda mais pobres. E que o seu vencimento de alferes e os dinheiros recebidos do exercício da sua profissão junto das comunidades locais, formavam uma massa monetária verdadeiramente invejável.
António conta os tostões um a um e sabe a totalidade do dinheiro que já enviou, que irá receber, aquele com que fica e ainda amealha, para depois comprar um carrinho e outras coisas. Compra arte indígena, feita por encomenda, mas confessa depois que tinha gasto uma ridicularia de angolares.
Ainda neste capítulo, e porque também revela uma personalidade, destaque-se o envio de uísques e outras bebidas por diversos portadores. António não bebe, mas sabe que o material é bom e que a compra é um bom negócio.

por Manuel Barata
12.01.2006

31 de dezembro de 2005

Rogério Santos: O livro de António Lobo Antunes


D'este viver aqui neste papel descripto é um livro de amor que decorre com a guerra colonial como pano de fundo. Os aerogramas (ou cartas) que o alferes miliciano Lobo Antunes mandava para a mulher Maria José (Fonseca Costa) Lobo Antunes são a expressão do amor à distância e relata o dia a dia da vida de um militar destacado em Angola durante a guerra, no caso dele entre 1971 e 1973.

O livro lê-se como um romance pleno de acção, mesmo que muitas das cartas contenham versões minimais de outras. A repetição das cartas tem a ver com a monotonia dos dias, longe dos familiares e dos amigos queridos e afastado do conforto de uma cidade (Lisboa), onde o autor vivia. Mas há três ou quatro temas que, embora se repetindo ao longo das cartas, ilustram uma progressão. É como a nossa vida quotidina: fazemos gestos semelhantes todos os dias, mas vamos alterando um pouco esses gestos, porque envelhecemos ou ganhamos experiência.
 
A saudade da mulher (e da filha que vai nascer aqui em Lisboa quando ele está lá longe, em Gago Coutinho - o nome de então de uma vila angolana perto da fronteira com a Zâmbia). Daí que as cartas comecem sempre com "minha jóia querida" e acabem com "gosto tudo de ti". Outra linha constante é a referência à sua necessidade de escrever, ele que debutava e seria bastante mais tarde reconhecido como grande escritor. Escrevia ele a 5 de Abril de 1971 (p. 117): "Tenho continuado a história, agora a caminho da página número 70, vamos a ver se consigo que fique boa". A 21 de Maio do mesmo ano (p. 171): "Entretanto lá vou empurrando a história para a frente". No dia 8 de Julho (p. 232) escrevia: "Acabada a primeira parte, eis-me a trotar na segunda".
 
O atraso de correspondência era outra constante da vida do seu dia a dia: "Desde 4ª feira passada (hoje é 3ª) que não recebo notícias tuas e que nada sei a teu respeito" (6 de Abril de 1971, p. 118) . Muitas vezes, considera que o amor entre ele e a mulher está a chegar ao fim, pois ela não lhe responde. Mas das suas cartas percebe-se que ela se queixava do mesmo. Cada aerograma demorava muitos dias, devido aos circuitos complexos de correio no interior de Angola. Hoje, tais lamentações não seriam possíveis, graças ao telemóvel e, em especial, a internet [há poucas semanas, uma reportagem de televisão mostrava os soldados destacados em missão internacional no Afeganistão com uso de internet e envio de imagens fotográficas. O tempo de demora reduziu-se a instantes].
 
O dia a dia sem motivos novos levava a um remoer constante das mesmas ideias. Mas o autor não assumia que nelas pensava todos os dias: "Há muito que não falo da criança [a mulher ficara grávida quando ele embarcou para Angola], mas tenho pensado muito nela" (26 de Abril de 1971, p. 140). Lobo Antunes abordara a situação no dia anterior. Depois, é o seu conselho quanto ao nome da criança a nascer; querendo uma rapariga, propõe o nome de Maria José, o que virá a acontecer .
 
Um tema marginal, mas que retoma com alguma regularidade é o da compra de bebidas brancas a preços baixos: "A propósito de oficiais, cada um tem direito por mês a 3 garrafas, duas de uísque e uma de conhaque, de marcas estupendas, a preços de cerca de 100$00. [...] Embora não goste de nada disso (e tenho pena) ficamos cheios de alcoóis para os visitantes do nosso quimbo" (carta de 29 de Março de 1971, p. 109.Quimbo em umbundo, a língua da região, significa casa). Já a 20 de Janeiro de 1972 (p. 338), dá conta de uma alteração: "já não vendem mais garrafas aos senhores oficiais, por aqueles preços convidativos". E, por mais de uma vez, conta que militares de visita a Portugal serão transportadores de algumas dessas garrafas.
 
Retenho ainda da leitura do livro: 1) o conhecimento que ele adquiriu com o capitão Ernesto Melo Antunes, comandante de uma das companhias do seu batalhão (certamente aí colocado depois de, em 1969, ter sido o único oficial das Forças Armadas portuguesas a fazer parte de uma lista oposicional à linha do regime, ele que seria um dos oficiais do 25 de Abril de 1974 e que assumiu uma posição de liderança, com o Documento dos Nove, uma posição moderada após a radicalização à esquerda do regime em 1975 e 1975. Melo Antunes, homem culto, emprestava livros e revistas como o Nouvel Observateur e jogou xadrez com Lobo Antunes, ensinando-lhe várias entradas, como o livro indica); 2) a tomada de consciência política (apesar de, numa primeira fase, parecer favorável à situação, vai-se distanciando da posição oficial); 3) a leitura das bibliotecas (fracas) dos outros colegas quando os seus livros já tinham sido lidos; 4) os boatos (ficar na frente de combate todo o tempo da comissão e não rodar para um sítio mais calmo; uma segunda comissão); 5) as mortes de soldados, a que se acresce o facto de, como médico, acompanhar todos esses casos de modo directo.

 
por Rogério Santos
16.12.2005

27 de dezembro de 2005

Eduardo Alves: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

Por entre uma salada russa feita de ingredientes sociais com bêbedos, pobres, oportunistas e simples sonhadores surge um conjunto restrito de pessoas. Escolhidas pelo autor para constarem como personagens de monta num livro histórico e intemporal. O burburinho social que se vive logo após o mês de Abril do ano de 1974 serve de sustentação a este retrato colectivo que António Lobo Antunes imprime na chapa da escrita. Como uma foto feita de palavras, o médico-escritor, narrador por excelência, transforma-se na consciência de um povo que tinha acabado de cair por terra e começa agora a erguer-se do chão.

O fascismo aparece como grande herança do regime salazarista. Isto porque, na óptica deste antigo combatente, a sociedade mal se transformou com a revolução, apenas se maquilhou para surgir com uma outra imagem, mas da mesma forma. Desigual, carregada de vícios e sustentada por jogo de poder. Um dos ministros de Salazar ganha mesmo o estatuto de personagem principal em dezenas de páginas do romance. A crueldade das decisões vai contrastando com a capacidade de bem-querer a alguns. Poder e liberdade de acção extravasam para alguns, enquanto a maioria, os pobres que já estavam na miséria, sentiam na pele e no corpo os malefícios destas políticas. Para aqueles que levantavam a voz, a polícia vinha com “estalos evangélicos” colocar o tom de voz num timbre mais baixo. Leitura intemporal, que ainda hoje encontra muitas semelhanças com a realidade.

por Eduardo Alves
Universidade da Beira Interior
Novembro de 2004

18 de dezembro de 2005

Arancha Oña Santiago: Heróico anti-herói

Memória de Elefante é a primeira obra da galardoada carreira literária de António Lobo Antunes; entre os múltiplos prémios recebidos destacam-se: o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Rosalía del Castro do PEN Club Galego, o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, o Prémio União Latina de Escritores e o Prémio Jerusalém.

No presente romance, a personagem principal comunica com a voz grave de débeis ressonâncias a partir da subjectividade mais profunda do seu ser, através de uma prosa poética plena de analogias artísticas insuspeitas e surpreendentes, angustiadas metáforas, alegorias, paradoxos, diálogos opacos e fustigantes monólogos existencialistas, numa ambiguidade dualista plena de incerteza, dirimindo entre a banalidade e o transcendental.

Fugindo do excessivo e exuberante racionalismo matemático, do pragmatismo, da autoridade idealista e positivista, do por vezes presunçoso espiritualismo e do avassalador materialismo, em suma, contra qualquer autoridade, o protagonista apresenta-se num mundo de desorientação, de confusão e de uma crise fertilíssima.

Como processo iniciático e por trás da claridade ofuscante do excessivo racionalismo tradicional, o protagonista lança um grito desesperado de sinceridade no concavo espaço do silêncio, sem arrogância, questionando a realidade sem receber uma resposta convincente, pendendo sem equilíbrio algum e contorcendo-se sobre si mesmo numa corda entre o determinismo e a liberdade, entre a fé e o agnosticismo, entre o absoluto e o relativismo moral.

Exorta o inanimado e o animado, metamorfoseando a existência para a compreender, jogando com a fantasia e a realidade da percepção, formando um puzzle de elementos congruentes e incongruentes. Evoca o caos dentro de uma ordem aparente e uma ordem dentro do caos, expulsando tudo isso através desenlaçado novelo da liberdade.

Psiquiatra de profissão, sendo um fardo por vezes difícil de carregar, a personagem principal apresenta-se como um indivíduo frágil por condição mas duro por necessidade, desterrado à vida de cabeça ajudado por fórceps, exaltado na análise do seu instável projecto de existência face à aparentemente titânica essência do passado. Projecto de existência individual que só encontrou estabilidade no útero materno e que existe no ermo de um mundo em que não entende as leis da sua harmonia e para o qual são inúteis os ecos harmónicos da tradição.

Na sua subsistência, desliga-se melancolicamente de qualquer memória de autoridades geométricas e ressonâncias de leis universais, sendo incapaz de erguer com suas intenções outra jurisdição que o guie em sua dispersão, aceitando uma desordem que o leva à quase perversa aniquilação do seu próprio ser. Desesperançado perante o rosto de uma realidade a que é incapaz de fazer um diagnóstico definitivo, conforma-se com meros e aproximativos juízos, acalmando a dor com leves analgésicos cujo excesso o leva ao atordoamento, sem encontrar um medicamento contundente que a elimine de raiz.

Enfrentando a realidade com uma vontade dilacerantemente individual agredida por um trágico pessimismo, defende sem muita contundência e com eterna e angustiada dúvida o seu fado de sinuosos acontecimentos, entre os quais a sua participação numa guerra; incorporado de uma solidão dissonante, desmoronada como uma estátua da antiguidade e dissimulada dos fedores do passado.

A nossa personagem enfatiza de forma literária a unicidade da sua pessoa e a sua luta pelo significado da lua liberdade, uma liberdade sem bússola, que ao  mesmo tempo que o oprime, o converte num ser singular e individual, separado da ordem cósmica, permitindo-lhe ajustar a sua identidade sobre a base do sofrimento e do tormento, comunicando existencialmente com a alteridade.

Liberdade cuja cruz é a responsabilidade pela qual sofre uma angústia e uma ansiedade existencial gerada como mecanismo de defesa perante a construção da sua identidade e do seu destino em harmonia ou dissonância com a liberdade dos demais, e como resposta às ameaças e tensões que sofre no seu sistema de valores.

O nosso protagonista é singular na medida em que actua e se realiza com algum pessimismo na conquista e na imputação dos seus próprios actos. Escolhe o seu caminho sem se deixar levar por modelos universais e objectivos, escolha livre unicamente limitada pelas circunstâncias que o rodeiam, pela implicação com compromissos e responsabilidades sem garantias.

Sem uma predisposição ou predestinação prévia, o protagonista experimenta a responsabilidade das suas acções e a subjectividade da sua existência se reconstrói e configura em si mesmo, sobre a base do tormento, reconhecendo tenuemente a alteridade, e na busca da aparentemente prismática verdade. Alteridade na qual de sujeito se converte em objecto, de onde se reflecte um mundo de incompreensíveis estereótipos humanos, alguns confinados ao psiquiátrico, outros na liberdade de movimentos pela vida, mas todos sem manual de instruções.

O nosso psiquiatra luta pela procura de uma linguagem universal que o faça comunicar com a realidade e com os outros, pela saída do labirinto da sua existência. Sensação e experiência linguística mantida única e exclusivamente com a sua saudosa ex-mulher a quem continua amando e não consegue esquecer, mas paradoxalmente não consegue dizê-lo. Experiência que nem sequer teve com sua mãe, que quase morria depois do seu parto, além de sofrer de uma surdez metafórica ou real que o levou à sua incompreensão.

Como os castigos míticos da condenação a uma eternidade infernal, o nosso protagonista sente-se condenado a uma existência angustiosa e incompreensível, através dos rígidos parâmetros da razão herdada.

Submerso nas águas do dualismo, entre a existência e a essência, entre a racionalidade e suas consequências, entre a credulidade e incredulidade, o nosso protagonista vai vogando sobre a decadência da razão, sem forjar ilusões e tocando o fundo do desencanto da existência, encalhando na dor e na crueldade da realidade sincera que marca o seu destino até... ao nada?

por Arancha Oña Santiago
Novembro 2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

17 de dezembro de 2005

Sara Belo Luís: Romance em aerogramas


Com o delicioso mau-feitio que se lhe conhece, António Lobo Antunes dirá porventura que as cartas recolhidas em D'este viver aqui neste papel descripto não terão grande importância. Serão - como as crónicas - material «menor», quando comparadas com os romances, género no qual ele tem vindo a trabalhar ardilosamente. O autor que me desculpe, mas (se de facto assim for) não tem razão. Porque estas cartas de amor - como todas as cartas de amor que da vero o são - nunca se reduzirão a formas mais ou menos rebuscadas de dizer o amor.

As cartas que, de 1971 a 1973, António Lobo Antunes escreveu de Angola à sua primeira mulher são muitas coisas mais para além dos diminutivos carinhosos (os quais ele, aliás, também usa) e das declarações de amor incondicional. São cartas de um oficial que preferiu a guerra ao exílio parisiense. São cartas de um médico branco que dá assistência a uma população negra. São cartas de um homem de 28 anos que vive longe da mulher que ama. São cartas de um pai que não está presente no nascimento da sua primeira filha. São cartas de um filho que confessa que se sente desconfortável com o registo das missivas da mãe. São cartas de um escritor que acredita no seu valor e que não desiste de o querer ser. São cartas de leitor que devora romances para saber como é que os outros o estão a fazer. São cartas de um homem solitário no meio de uma terra que não lhe pertence.

São cartas, aqui se escreveu. A classificação do género epistolar será, porém, demasiado redutora para falar deste livro. Porque nele se mantém o fio condutor de uma narrativa romanesca. Apesar de existirem algumas lacunas (umas voluntárias e atribuíveis ao autor; outras, atribuíveis à censura militar que fez «desaparecer» algumas das cartas), D'este viver aqui neste papel descripto conduz o leitor num romance com um enredo, muitos episódios, meia dúzia de personagens e até algum suspense. O que é senão isso as conversas acerca da casa, das garrafas de bebidas alcoólicas e do dinheiro necessário para comprar um Fiat? O que é senão isso o dilema do remetente no toca à vinda de férias a Lisboa («devo morrer antes disso»)? O que é senão isso a ponderação do casal se todos (pai, mãe e filha mais velha) se deverão juntar em Angola?

Da guerra propriamente dita tem-se, a partir D'este viver aqui neste papel descripto, uma perspectiva loboantuniana. Apesar de não esconder as suas discordâncias ideológicas (e, neste campo, são inesquecíveis os manuais de alfabetização do MPLA), Lobo Antunes não se demora longamente em considerações de carácter político. Nem tal seria de esperar uma vez que se sabia que algumas cartas eram lidas: «Percebes o que eu quero dizer, não percebes?». A guerra - e, sobretudo, o absurdo da guerra - revela-se muitas vezes pela descrição (sucinta) das acções militares, do seu trabalho como médico e, sobretudo, pelo seu quotidiano aparentemente banal. Como seria natural, Lobo Antunes não se estende nos pormenores violentos das amputações, da cólera, das minas e das saídas para o mato. Tudo isso - no qual depois o escritor se baseou para escrever Os Cus de Judas - fica dito em poucas linhas para proteger a destinatária das cartas de preocupações inúteis.

O que, do ponto de vista literário, impressiona no romance D'este viver aqui neste papel descripto é a elegância de uma prosa escrita ao correr da pena no espaço reduzido dos aerogramas editados pelo Movimento Nacional Feminino e transportados gratuitamente pela TAP para a Metrópole. Maria José e Joana Lobo Antunes, as filhas de António Lobo Antunes e responsáveis pela organização do volume, dizem no prefácio que apenas corrigiram as gralhas e actualizaram a ortografia. Aquelas cartas estão como se fossem massacradas como agora sabemos que são massacrados os romances de António Lobo Antunes. Escritos e reescritos, lidos e relidos, riscados e emendados numa obsessão como um ostinato rigore que o autor não esconde. O que se estranha é que nenhuma daquelas cartas parece possuir uma hesitação sobre uma só palavra, uma frase rasurada ou sequer castigada. Ao autor, toda aquela torrente como que lhe é - usemos o adjectivo, correndo os imensos riscos que ele contém - como que instintiva.

Lobo Antunes expõe-se nestas missivas que ele nunca pensou que, algum dia, pudessem vir a ser lidas por mais do que uma pessoa. É o escritor que vacila perante o seu próprio talento (umas vezes) e o escritor que ousa achar-se genial (outras vezes). É o marido que está seguro de que é amado (umas vezes) e o marido que, à distância, tem dúvidas sobre a correspondência do seu amor (outras vezes). É por esta razão que D'este viver aqui neste papel descripto contém, mais do que tudo, um homem lá dentro. Um homem que no Portugal dos '70 não tem vergonha de chamar «pratinho de arroz doce» à sua mulher. Um homem sem pachorra para ler as Matchs que as suas tias zelosamente lhe enviam. E um homem muito mais frágil do que aquele que se vê nas entrevistas a fazer afirmações seguríssimas. Que, diga-se em abono da verdade, apenas desconcertam os mais desprevenidos.


por Sara Belo Luís
citado do Jornal de Letras
Novembro 2005

24 de novembro de 2005

João de Melo: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 82 de Novembro de 1984 – pp. 104 a 106


Concebido como plano de cobertura dum período de cerca de dez anos da realidade portuguesa [pós 25 de Abril]*, e hipoteticamente confinado, no tempo, à década de 70,Fado Alexandrino assenta num estrutura de três painéis, a que correspondem as epígrafes de «Antes», «A» e «Depois da Revolução». Três painéis que se constituem, cada um deles, em 12 capítulos de acção, de micro e macro-histórias, discursos cruzados e vivências mais ou menos protagonizadas pelos cinco personagens principais da obra. Nesta aparente simetria estrutural, com tudo o que possa ser rigoroso e calculado, procura implicar-se uma ordem de tempo(s), pessoas, factos e análises, de forma a que (a)pareça problematizada a junção da História, no seu sentido positivo, com a verosimilhança da ficção narrativa. Daí que a primeira questão acerca deste romance possa ser suscitada pela forma seguinte: será que a sua ficção é susceptível de catalogar-se, prontamente, como «histórica»? Se for certo dizer-se que podem existir romances «históricos» que da História colham uma visão precária, algo condicionada e até esmorecida, então Fado Alexandrino pode perfeitamente perfilar-se como exemplo de uma obra literária que tem por si as margens de ambiguidade suficientes para ser duplamente interpretada: é «histórica», no ponto em que observa referências e os limites dum período bem determinado da nossa vivência colectiva; mas não é «histórica», se a sua finalidade literária e sobretudo o acervo das suas análises subjectivas puderem suscitar discordâncias de fundo ou se subsistirem factos objectivos que a contraditem. O levantamento destas duas hipóteses não tem de considerar-se gratuito, já porque se trata de um autor cuja obra, no seu conjunto, se centra nalguma tradição da nossa prosa historicista, já porque me parece ser esse um dos problemas que mais frequentemente vêm sendo introduzidos nos debates acerca da nova escrita lusitana. E se a escrita do Autor possui a noção prática do novo e o pendor poético e metafórico (por vezes mesmo barroco) que muitos lhe reconhecem; se o seu êxito editorial radica, acima de tudo, no reconhecimento duma competência específica, duma voz ou mesmo dum idiolecto de literatura, parece-me a mim que é mais problemática, neste Fado, a concepção do que avisão justa da História da nossa Revolução.

Não tanto por razões ideológicas objectivas, mas sobretudo ao nível duma avaliação sintomática do período histórico, político e social a que este romance se reporta, sou levado a considerar que a visão do Autor sobre as transformações operadas se ressente de um excessivo pessimismo, acabando até por desembocar numa espécie de delta da dissolução sem remédio, aliás antevista desde a primeira página do livro. Neste ponto, teria eu preferido vislumbrar um outro clima de variações periodológicas que melhor se coadunasse com os desesperos, euforias, ilusões e desilusões do «Antes», «A» e do «Depois» dessa Revolução. Preferia também  ter visto um mais intenso cromatismo de situações que dessem ao fundo romanesco uma melhor sucessão dos tempos específicos. Ao contrário disso, o Autor parece incorrer num tom quase unívoco, arrastando sob o mesmo discurso períodos tão distintos como o estertor final da ditadura marcelista, o sucesso do golpe de Estado e o que se lhe seguiu. Curiosamente, a mole humana que apoiou e pressionou, nas ruas, as transformações operadas neste país passa quase despercebida às expectativas do leitor. Bem sei que teria sido fácil ao Autor envolver o universo relativamente fechado do seu romance com alguns garridos episódios de rua, que infelizmente se constituíram já em péssima literatura, pela mão de outros escritores; mas nem por isso a aparente omissão desse barómetro temporal, que é o fervor fecundo das multidões, me parece ter sido uma alternativa feliz. Ou só o será, no ponto em que a aposta do Autor é seria, pela recusa do fácil e a escolha do caminho mais longo.

A perspectiva escolhida é, se assim se pode dizer, a do tabuleiro de xadrez cujas peças maiores são constituídas por um grupo de ex-militares que se reúnem num jantar com o ex-comandante dum Batalhão expedicionário em Moçambique e à mesa procedem ao exercício duma memória de 10 anos sobre si mesmos e sobre o Portugal de «antes», «durante» e «após» Abril. E são peças secundárias desse jogo vivencial as relações multi-multiplicadas dos 5 (um Tenente-Coronel, um Comandante de Companhia, um Tenente, um Alferes e um Soldado), com uma série de segundos-planos familiares, profissionais e outros. À medida que o leitor progride na organização desta memória, infunde-se nele a sensação do crepúsculo, do tempo parado, das ilusões traídas, e finda tudo num ambiente de dissolução caótica, onde o cometimento dum crime, na pessoa do Tenente, é quase um acto de antropofagia (começa na cumplicidade dos assassinos e acaba na combina da ocultação do cadáver e no regresso de todos os outros ao marasmo dos dias). Não está implícito em tudo isto que a vida, a solidão sem fundo e as amarguras dos personagens não sejam tão verosímeis como as alegrias ausentes ou as euforias passageiras. A minha especial reserva centra no ponto em que terei de considerar Fado Alexandrino muito mais o romance dos seus personagens do que a visão exemplar, representativa e diversa, de toda uma sociedade que subjaz, em fundo, à montagem dos percursos dos cinco. Se a isto juntarmos os compromissos lógicos dos narradores sucessivos, fica completa a ideia de que este livro se desvia deliberadamente duma sociologia tipológica e portuguesa e acaba por enfocar num universo mais particular do que geral (ou social). É quase umrequiem sobre o tempo. Nenhuma especial vibração sobre palavras e conceitos como, por exemplo, liberdade e justiça. Nenhuma hipótese de futuro, até.

O próprio narrador dominante comunga deste mar de cumplicidades e recusas, a ponto de o seu olhar ser tão ou mais impiedoso e cáustico do que o dos personagens. Lisboa, a cidade-cemitério, é, por isso, um lugar onde sempre quase chove; a fisionomia das coisas é baça e fria; os materiais e os seres longínquos têm, quase sempre, um referente condicionado - o complexo do plástico. Mesmo o humor é violento, ácido e muito macho. Um desgraçado Tenente-Coronel, personagem principal, atravessa todo o calvário das solidões familiares, amorosas e profissionais, e é varrido, como um monte de ossos, de cargo para cargo e de posto em posto, até chegar a general - e tudo para nada. O seu envolvimento no golpe militar é aleatório e indiferente, porém cheio de equívocos e traçados descontínuos. Ele e os outros mostram-se, de facto, incapazes dum ideal, duma relação duradoura e duma firmeza de princípios. Até mesmo o trabalho político de alguns acaba por os conotar com uma espécie de «trânsfugas», com a rasura teórica e com o insucesso total.

Escritos assim, todos estes senãos talvez possam ser tomados como processo de intenção contra uma obra que, além de ter desconcertado alguns, acabou por ganhar quase todas as apostas junto do público. Gostaria, por isso, de deixar ressalvada a ideia de que é forçoso separar a análise anterior do que se me oferece dizer agora acerca de um processo de escrita que está longe de ser vulgar. Em primeiro lugar, Fado Alexandrinoé uma obra onde se acentua uma tessitura de escritas e uma arte combinatória muito segura de experiências narrativas por vezes muito diversas. Depois, a unidade, o fulgor da palavra e da imagem, o poder de escrita que se contém nesta prosa, cifram-se em páginas de inesquecível claridade. Digo mesmo que, se se tratasse de situar este livro no conjunto das anteriores quatro obras do Autor, parecer-me-ia elementar deixar escrito que o considero como o «livro dos seus livros», com tudo o que isso implica de palpável e de convicto. E não apenas porque este processo de melhoria e de maturidade deva ser imputado a um escritor que soma as virtudes do métier a um trabalho dos mais produtivos da actual cena literária portuguesa; mas sobretudo porque alia a exigência a um capital de pesquisas que, estando longe de considerar-se esgotado, é um caso típico de inquietação e daquele húmus criativo que nos torna solitários e nos remete para uma relação sofrida com a vida e com as pessoas. Além do mais, Fado Alexandrino tem tão seguras as aquisições de Explicação dos Pássaros, como acaba por envolver-se também dos mundos e traumas que fizeram de Os Cus de Judas um livro singular. Livro dos livros, também, porque é a retoma subtil dos grandes temas que vêm inspirando quase toda a obra do Autor. O tema da guerra colonial, p. ex., que colocou o escritor num lugar de referência sem precedentes. O inferno dos outros, a solidão punida e punitiva, o espaço do memorizado e do sofrido (visto e experimentado em Memória de Elefante e emConhecimento do Inferno), são outros tantos caminhos recobertos por este livro. Algumas da suas melhores páginas, de resto, bem podem aceitar-se como o refrão ou o coro trágico de todos os percursos, seja nos momentos em que África e o seus cães-de-quartel são reinvocados, seja nas novas solidões dos outros-com-os-outros. O penúltimo capítulo do livro é, por sua vez, um texto de tal intensidade poética, que compensa, por si só, os excessos metafóricos, as espirais de linguagem e as imagens menos felizes que de quando em quando pontuam uma escrita de quase 700 páginas, onde raras são as falhas de gosto e quase nulos os efeitos menores. Fiquem os leitores com a ideia de que a «monumentalidade» deste romance reside tanto nas suas dimensões físicas como na sua estrutura e na sua actualidade. Num país de literatura (quase sempre) apócrifa, e onde os grandes temas sofrem toda a sorte de acidentes e atrasos, até chegarem ao estatuto de ficção distanciada, escrever sobre o Portugal de hoje, como António Lobo Antunes o vem fazendo, é significativo dos muitos méritos e do êxito que os seus livros têm conhecido, aqui e no estrangeiro. Mas lá que a nossa superestrutura crítica não faça esse reconhecimento ou não se tenha apercebido ainda que há um novo conceito de literatura neste país de hoje [1984], é bem outra questão. A História, porém, também ensina que alguns dos nossos vivos serão sempre antepassados nossos.


* no texto original está "mais recente"

João de Melo
Colóquio Letras 82
Fundação Calouste Gulbenkian
Novembro de 1984

26 de outubro de 2005

Francisco Solano: Primeiros abalos


Aos 37 anos, António Lobo Antunes publicou o seu primeiro romance e deixou clara a sua intenção de renovar a maneira de contar. Memória de Elefante é uma indagação à alma humana.

O estilo não é um dom, mas sim fruto de muitíssimas horas de trabalho, de escrever constantemente, de emendar e cortar páginas, de não encontrar nunca satisfação. E, não obstante, há que chegar à máxima exigência e precisão, até que seja a mão quem escreva - a mão -, não a vontade. Lobo Antunes tem insistido, mais que uma vez, em que escrever é deixar que a mão busque as palavras: "Os livros já estão escritos, e tu apenas os descobres porque estendes a mão". Surpreende tanta humildade, tanta cuidadosa paciência. Não há nesta opinião qualquer vaidade sobre a qualidade do escritor, nem auréola de distinção de uma tarefa que se reduz a imenso trabalho. E isto disse um escritor que, na última década, tem vindo a publicar romances perturbadores, no limite do prodígio verbal, carregados de emoção e calamidade, que imprimem o processo de desconstrução da memória, revelam as maranhas dos sentimentos e nos hipnotizam com a expressão do indizível. Porém se os últimos livros do escritor português, empenhado em alargar ao limite o território do romance, subvertem o rito conciliador da leitura, na sua primeira obra já se aprecia o embrião do que viria a ser o seu estilo, a forma rebelde do seu talento, o seu fastio perante a convenção narrativa e, pode dizer-se, o pesar de ter que se dobrar numa composição de índole autobiográfica. Publicado em 1979, quando contava com 37 anos - Lobo Antunes poupou-se antes de aparecer em público -,Memória de Elefante anuncia um escritor perplexo, cuja introspecção da sua própria crise matrimonial se transforma na matéria efervescente e delirante de um homem cuja única garantia de estar vivo é a omissão do seu nome na página de necrologia dos jornais e que deve sobrepor-se, contra todos os prognósticos, à "vontade de se vomitar a si mesmo".

O protagonista é um psiquiatra na agonia da mudança, que não sabe que vai ser de si, em que se vai converter, depois de ter decidido separar-se da mulher que ama. Perdido em Lisboa, que se configura como uma cidade de estímulos tão mórbidos como inúteis, rival de si mesmo ("detestava cada vez mais emocionar-se"), ressentido contra a sua profissão ("o psiquiatra assemelha-se aos vendedores de automóveis na sua loquacidade demasiado delicada e bem vestida") e raivoso contra todos ("que se defendiam melhor do polvo gelatinoso da depressão"), assistimos à emergência dos atributos mais inextrincáveis do ser humano, aos impulsos mais desesperados e à suspicácia existencial de que não há saída, de que "é realmente muito fodido ser homem, não é?". Contada por uma voz só aparentemente externa, já que surge das entranhas da personagem, a narrativa desenvolve-se à maneira de uma confissão mortificante que, ao pôr-se por escrito, permite suportar a angústia de uma solidão aborrecida e desejada, único lugar de onde se reconhece e mitiga, paradoxalmente, a angústia da autodestruição.

Assim o tormento do psiquiatra, causa da sua depressão, não radica na sua crise conjugal, nem na sua beligerância contra o homem comum, mas tem origem na sua vocação radical pela escrita, uma paixão que antecipa o fracasso ao comprovar que "os romances e poemas que perpetrava sem escrever formavam como que uma prolongação narcisista sem conexão com a vida, arquitectura oca de palavras, desenho de frases vazias de emoção". Contra essa separação entre escrita e vida se estenderá depois toda a obra posterior de Lobo Antunes. Mas em Memória de Elefante essa ruptura, como o divórcio dolorosamente assumido do psiquiatra, está bem apetrechada de belas imagens, metáforas engenhosas e piruetas verbais - tudo temperado, ainda, com nutridas menções culturais - , que se acumulam para decorar o texto de "efeitos literários" e povoar a narrativa com um barroquismo falseado. Não obstante, incluindo esses mimetismos e excessos, o romance alcança um nível e intensidade admiráveis, e se impõe com tal convicção na análise da alma humana que invejariam Camus ou Dostoievsky. Primeiro abalo de uma novelística excepcional, poder-se-ia dizer sem presunção que aqui está já Lobo Antunes por inteiro.


por Francisco Solano
01.10.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

6 de outubro de 2005

Ángel Basanta: Segundo libro de crónicas


Este Segundo Livro de Crónicas de Lobo Antunes, um dos romancistas mais importantes da literatura portuguesa das últimas décadas, é a continuação do que foi publicado há alguns anos [Livro de Crónicas].

Na sequência do primeiro, também esta segunda compilação é composta por artigos que o escritor  tem vindo a escrever na imprensa de diferentes países, entre eles Espanha. Faz tempo que Lobo Antunes ganhou um merecido reconhecimento como escritor entre o os maiores da literatura europeia actual. Por isso estas crónicas, que são o testemunho íntimo do pensamento, das ansiedades e das aflições do criador de grandes romances como O Esplendor de PortugalExortação aos Crocodilos e  Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, entre outros, guardam um elevado interesse para aqueles que pretendem conhecer mais sobre o escritor que tem vindo a colocar o melhor da sua vida nos seus livros, uma vez que o homem e o escritor são o mesmo na sua pessoa.

O livro tem 78 crónicas que compõem uma autobiografia parcial, aos poucos, fragmentada. Na sua maioria os textos estão escritos na primeira pessoa, num tom confessional, orientado para a reflexão ou para a narrativa, segundo o tema tratado em cada caso. Pelo que foi dito anteriormente, os mais interessantes são aqueles em que o autor reflecte sobre o seu trabalho pondo a descoberto a sua insegurança literária em considerações sobre a sua escrita. A permanente ambição sempre insatisfatória do autor arde em vermelho vivo nas matérias incandescentes que o homem e o escritor põem no fogo da criação literária. São muitos o textos que abordam estas questões. Entre outros, destacam-se  "Receita para me lerem" e "Assobiar no escuro". Neles oferece-nos uma escrita poética e a leitura autocrítica das suas obras, a partir de uma focalização supra genérica e a profunda convicção na dignidade do romance. Aqui mostra a sua angustiante concepção da literatura: "A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente", a qual conduz "ao encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do espírito". "Gostaria que os meus romances não estivessem nas livrarias ao lado dos outros, mas afastados e numa caixa hermética, para que não contagiem as narrativas alheias ou os leitores desprevenidos: é que sai caro buscar uma mentira e encontrar uma verdade" (págs. 91 e 92 [109 e 110 na 1ª edição portuguesa] ).

Mas a literatura, como criação do autor e a sua recriação na leitura, ainda que sendo mais importante, mais a música, o cinema e a arte em geral não são os únicos temas desta autobiografia dispersa. A memória do escritor lisboeta evoca e revisita experiências da sua infância com a sua família, recorda o horror vivido em Angola, o seu desinteresse pelo exercício da medicina (que abandonou: Lobo é psiquiatra) para se dedicar por inteiro à literatura, rememora a comunhão fraternal com os amigos da sua vida (como Cardoso Pires e Eugénio de Andrade), revive a sua relação conflituosa com Portugal, conta alguns episódios de viagens e reflecte sobre o amor, a dor e a morte. De tudo isto se fala nesta confissão plural de um escritor fundamental do nosso tempo, tão necessário nesta época de mentiras e frivolidades que nos dificulta a compreendermo-nos como seres humanos com as nossas aflições e o nosso desamparo no inexorável passar do tempo.

por Ángel Basanta
17.02.2005
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

5 de setembro de 2005

Matilde Ferreira Neves: Comentário a O Manual dos Inquisidores


«(...) os operários da fábrica que discursavam na rua a tratarem-nos por camaradas, a prometerem-nos casas de graça, a afirmarem que éramos livres e eu pensei

- Livres de quê?

já que a miséria permanecia a mesma só que com mais gritaria, mais bêbedos e mais desordem por não haver polícia» - Eis o retrato do pós de 25 de Abril que Lobo Antunes nos desenha em traços de quase caricatura no seu livro O Manual dos Inquisidores.

Uma obra que nos fala acerca do fascismo vigente antes e mesmo depois do 25 de Abril cuja narração é feita por personagens que se sucedem e alternam, que se revelam ao serem inquiridas por um narrador incógnito (trata-se, no fundo, de um romance eleborado pelas próprias personagens). O autor trabalha este romance no sentido de torná-lo, de algum modo, intemporal, constituindo uma amálgama do ontem e do hoje, apresentando-nos um elenco de tipos sociais que ainda persiste nos nossos dias, na tentativa de mostrar-nos que, se calhar, a sociedade não terá evoluído tanto como as pessoas o pretendem.

Temporalmente situado entre os anos 60 e 70, o Manual dos Inquisidores relata-nos as relações de poder de um ministro de Salazar, à volta do qual girará a própria narração do livro. Ministro que sendo cruel, é também capaz de amar, que sendo duro, é também carente, que abandonado e traído pela esposa, tentará reencontrá-la em outras mulheres, ora de forma agressiva e máscula («- Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão.»), ora de forma terna («(- Isabel

o meu pai em segredo, de lábios contra o chão, de ventre contra o chão

- Isabel

o meu pai quase terno

- Isabel)»). - Pinta-se, no decorrer da obra, o retrato de um homem prepotente e iludido pelo próprio poder, confrontado, no limite, com a solidão e com os seus fantasmas pessoais, que acabará derrotado pela idade e pela senilidade a ela inerente, vencido por uma obssessão extrema contra os comunistas, que o seu filho saberá descrever: «o meu pai que um ano depois da revolução teimava em esperar os comunistas (...)

- Já não há nada que me consigam tirar».-Um ministro despojado do amor e do poder, que se transformará numa sombra apenas, exilado numa clínica onde virá a perecer.

O Manual dos Inquisidores é um livro que reflecte o poder e os seus abusos na época salazarista(«aquilo que um protegido do professor Salazar afirma, por mais estranho que seja, ou é verdade ou os jornais vão garantir amanhã que é verdade o que equivale ao mesmo, e se a gente os contraria dá com os costados na polícia, de farol na cara e um chefe de brigada a convencer-nos com estalos evangelizadores, de que lado se acham o interesse do país, a virtude e a razão.»); no qual a gente pobre, conformada, apesar da miséria, não sentia pena nem raiva, nem nada, a não ser algum conforto por ainda persistir.

Uma viagem alucinante, ao real que nos transtorna e que, por vezes, nos leva ao riso: «e após a morte do meu pobre ofereceram-me um pobre mais novo que durasse mais tempo, saudável, ainda sem tosse, baptizado e com as vacinas em dia, aconselhado pelo senhor prior por não ter vícios nem ser capaz de me faltar ao respeito, que tive de mandar embora no Natal seguinte e de me queixar da sua falta de educação nas noelistas porque caí na asneira de lhe dar dez escudos e ao recomendar-lhe

- Agora veja lá não gaste isso tudo em aguardente

respondeu-me malcriadíssimo a virar e a revirar a moeda

- Claro que não menina claro que não fique descansada que vou direitinho ao stand e compro um Alfa Romeo»).

Relações de poder frustradas, relações amorosas falhadas, que deixam entrever as carências mais diversas («e no entanto eu gostava de si pai, gostava de si, não fui capaz de dizer-lhe mas gostava de si», «o meu pai que não me recordo de conversar comigo, me dar um beijo, me pegar ao colo»).

Um romance real e humano que, apesar de tudo, termina com o ministro esperançoso, cuja frase inacabada que fecha o livro nos relembra, talvez, que fica sempre algo por dizer...


por Matilde Ferreira Neves
citado daqui
[não datado]

30 de agosto de 2005

Bruno Carriço: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Eu hei-de escrever assim (quem dera)

Terminei hoje de ler "Eu hei-de amar uma pedra", de António Lobo Antunes. Foi a primeira vez que li algo deste autor, mas duvido que seja a última!

Quando comecei o livro, estranhei bastante a escrita, confesso. A pontuação é quase inexistente e as apóstrofes são abundantes, o que requer alguma adaptação de quem lê (falo por mim, claro). Ultrapassada esta "fase" de adaptação, a leitura já se faz de forma mais natural e começa-se a apreciar verdadeiramente o génio de Lobo Antunes.

Folha a folha, fui descobrindo autênticas preciosidades nesta obra. Preciosidades, sobretudo, na descrição de gestos/coisas banalíssimas. Tenho pena de não ter marcado várias destas passagens, para agora ilustrar o que me "seduziu", mas são tantas páginas que mais me valia ler o livro de novo, se as tentasse procurar. Marquei apenas dois pequenos excertos, quando me apercebi que queria partilhá-los com o blog (e convosco, por consequência).

Começo por perguntar: como descreveriam um negativo de fotografia?

Parece uma coisa sem jeito, mas Lobo Antunes atira-nos com "...a minha mãe a esmiuçar negativos onde fantasmas, não pessoas, com o branco e o preto ao contrário, feições pretas, roupas de aparição que flutuavam...".

Dei por mim a imaginar negativos e a verificar como estas palavras traduzem o que vejo neles. Que simplicidade...

Relógios de estações de comboio/metro são outra coisa que nos fartamos de ver e que só nos interessam se precisarmos de saber as horas. É natural.

A atenção de Lobo Antunes é que é outra!

"...disseste nove menos vinte no instante em que o impulso do ponteiro nove menos dezanove, não o traço grosso, um traço fininho, o relógio sem números, quatro traços fininhos entre dois traços grossos ou seja quarenta e oito traços fininhos e apenas doze grossos..."

Arrisco-me a dizer que, além de grande escritor, Lobo Antunes dava um fotógrafo fantástico, pela sua capacidade de observação.

"...e o relógio do metropolitano prestes às nove menos dezoito que se percebia no ponteiro a vibrar para o salto, não mudava para o traço seguinte
(traço fino neste caso)
cobria-o por completo, apoderava-se dele, anulava-o..."

Sempre reparei naquele instante em que o ponteiro dos minutos se prepara para avançar, nestes relógios, e naquela pequena tremedeira, naquela hesitação. Nunca me passou de uma simples e patética observação. Até à altura em que li esta passagem!

E podia demorar-me aqui mais umas horas, enumerando estes deliciosos registos, mas acho que já mostrei a minha admiração de forma clara e o post já deve estar a dar sono a muita gente! :)

O título desta entrada é uma ambição, nunca uma obsessão!

por Bruno Carriço
15.04.2005

18 de agosto de 2005

Gonçalo Mira: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Este ano celebram-se os 25 anos de carreira de um dos mais importantes e incontornáveis nomes da literatura portuguesa: António Lobo Antunes. E que melhor forma de celebrar a efeméride do que com um novo romance? Foi, exactamente, o que fez Lobo Antunes, presenteando os seus fiéis leitores com um novo romance, intitulado “Eu hei-de amar uma pedra”.

É uma boa sensação quando acabamos de ler este livro. E isto é paradoxal porque eu adorei o livro. E, supostamente, quando se gosta muito de um livro, queremos que nunca acabe. Mas Lobo Antunes é diferente de tudo o resto. O livro é belo, aliás belíssimo, mas dói. Dói porque as suas personagens sofrem e fazem-nos sofrer. Vivem uma existência angustiante, sentimentos inconfessados, segredos, medos, saudades, amores. Um turbilhão de sentimentos que nos deixa completamente atordoados. Depois há um constante apelo ao passado, aquilo que marcou a infância de cada e que nos mostra exactamente porque é que aquela pessoa é como é. E nisto António Lobo Antunes é exímio. A sua obra vive de personagens fortíssimos, no sentido em que são construídos na perfeição. Simplesmente na perfeição. Têm os seus defeitos, as suas virtudes porque são humanos. Precisamente humanos. E é essa outra palavra chave para este romance e para a obra de Lobo Antunes. Neste romance existem humanos iguais àqueles que moram no nosso prédio, iguais àqueles que costumam ir ao nosso café,  iguais àqueles com que nos cruzamos todos os dias. E é isso que torna Lobo Antunes, na minha humilde opinião, o maior escritor português e um dos maiores a nível internacional, na actualidade: sabe criar personagens que nós conhecemos.

Quando comprei o anterior romance do autor, "Boa tarde às coisas aqui em baixo", foi-me oferecido um pequeno livrinho onde estava uma “receita” para ler Lobo Antunes, escrita pelo próprio. Dizia ele que os seus livros não são para ser lidos, mas sim apanhados, como se apanha uma doença. E é mesmo verdade. Além disso dizia também que o que importa não é a história mas sim as personagens e o que elas sentem. Lobo Antunes viaja ao âmago dos sentimentos humanos como nenhum outro escritor.

Este romance, "Eu hei-de amar uma pedra", conta uma história de amor entre um senhor e uma senhora que já não são jovens, que se encontram depois de passados muitos anos sem se verem. Ele julgava-a morta e, portanto, fez a sua vida: casou, teve filhos. E ao encontrá-la de novo, viva, a paixão que tinham vivido renasce e começam a encontrar-se numa pensão. Mas este belíssimo romance conta muito mais do que isto. Descubram-no por vós próprios. Recomendo vivamente a toda a gente que ainda não descobriu este maravilhoso autor, que o descubra, pois ainda vão a tempo.

Para quando o Nobel deste senhor?

por Gonçalo Mira
2003

8 de agosto de 2005

Belém Barbosa: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


«o passado continua a acontecer em simultâneo com o presente»

Fotografias, Consultas, Visitas, Narrativas - quatro partes onde se organizam histórias individuais de solidão e desamor, de impossibilidade de amar gerada por carência profunda, por rejeição, por abandono.

Um colega de Lobo Antunes ter-lhe-á contado uma história de um amor impossível que se manteve ao longo de mais de 50 anos em encontros secretos numa hospedaria de Lisboa: um casal que se reencontra casualmente, depois de uma separação abrupta por razões de saúde, a que ela supostamente não teria sobrevivido.

O escritor deixou-se seduzir e, pela primeira vez nos seus livros, um homem (que nunca tem a palavra) sabe que é amado; uma mulher mantém-se firme a seu lado, sem nada aceitar em troca, renovando semanalmente a sua intenção de não o deixar nunca. A envolvente é de uma solidão urbana extrema, que mais sublinha a impossibilidade deste amor.

Quanto à forma, mantém-se o apurado rendilhado narrativo de Lobo Antunes, mais difícil na primeira parte, em que os fragmentos da história se apresentam soltos, as personagens desligadas do enquadramento social e localizadas nas fotografias que nos vão sendo mostradas. Depois, pouco a pouco, penetramos nos segredos e no passado emocionalmente devastado de cada um dos seres, de que não se conseguem libertar.
  
por Belém Barbosa
Abril 2005

21 de julho de 2005

Dauro Veras: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Quatro mulheres compartilham um segredo terrível ligado aos homens com quem vivem. Suas memórias e a opressão de carregar o segredo compõem o cenário deste romance do português António Lobo Antunes. Por meio dos monólogos interiores de Mimi, Fátima, Celina e Simone, o escritor conta a história fictícia da rede de extrema-direita que cometeu atentados em Portugal nos anos setenta.

Elas expõem seus pensamentos de forma fragmentada, alternando-se umas às outras capítulo após capítulo. Mimi é surda e sofre de câncer. Na sua lembrança está sempre presente a avó, matriarca que mergulhava a trança dos cabelos em aguardente e que lhe ensinou a fórmula da coca-cola. Seu marido participa da organização terrorista, trabalhando para um bispo católico. Fátima é afilhada e amante do bispo. Celina é a esposa atormentada e depois viúva de um homem rico. E Simone namora o rapaz que monta as bombas.

Lobo Antunes não apresenta amenidades ao leitor. Exige-lhe dedicação para avançar entre palavras interrompidas, digressões, misturas de vozes e tempos, longos trechos sem ponto final. É preciso ir, pouco a pouco, montando um quebra-cabeças de estilhaços, composto de imagens da infância, sabores, objectos de estimação, humilhações quotidianas. A culpa está presente em todos, de uma forma ou de outra: o general e o bispo são mandantes de assassinatos. Militares e diplomatas articulam o contrabando de armas. As mulheres são cúmplices silenciosas. Elas têm em comum entre si uma profunda solidão.

A linguagem inusitada parece, a princípio, uma barreira para a fluência da narrativa. Mas aos poucos vai-se penetrando na consciência sofrida das protagonistas, percebe-se seus desejos, medos e frustrações. Da metade para o fim o ritmo se acelera e alusões que pareciam enigmáticas começam a ganhar sentido. Mas para cada leitor, esse sentido será único, com peças montadas a seu modo e outras que não se encaixam. Assim como a verdade permite distintas interpretações, o universo mental das quatro mulheres oferece um campo vasto para que se desfrute o romance com uma verdadeira sensação de co-autor.


por Dauro Veras
Junho 2001

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...