31 de dezembro de 2005

Rogério Santos: O livro de António Lobo Antunes


D'este viver aqui neste papel descripto é um livro de amor que decorre com a guerra colonial como pano de fundo. Os aerogramas (ou cartas) que o alferes miliciano Lobo Antunes mandava para a mulher Maria José (Fonseca Costa) Lobo Antunes são a expressão do amor à distância e relata o dia a dia da vida de um militar destacado em Angola durante a guerra, no caso dele entre 1971 e 1973.

O livro lê-se como um romance pleno de acção, mesmo que muitas das cartas contenham versões minimais de outras. A repetição das cartas tem a ver com a monotonia dos dias, longe dos familiares e dos amigos queridos e afastado do conforto de uma cidade (Lisboa), onde o autor vivia. Mas há três ou quatro temas que, embora se repetindo ao longo das cartas, ilustram uma progressão. É como a nossa vida quotidina: fazemos gestos semelhantes todos os dias, mas vamos alterando um pouco esses gestos, porque envelhecemos ou ganhamos experiência.
 
A saudade da mulher (e da filha que vai nascer aqui em Lisboa quando ele está lá longe, em Gago Coutinho - o nome de então de uma vila angolana perto da fronteira com a Zâmbia). Daí que as cartas comecem sempre com "minha jóia querida" e acabem com "gosto tudo de ti". Outra linha constante é a referência à sua necessidade de escrever, ele que debutava e seria bastante mais tarde reconhecido como grande escritor. Escrevia ele a 5 de Abril de 1971 (p. 117): "Tenho continuado a história, agora a caminho da página número 70, vamos a ver se consigo que fique boa". A 21 de Maio do mesmo ano (p. 171): "Entretanto lá vou empurrando a história para a frente". No dia 8 de Julho (p. 232) escrevia: "Acabada a primeira parte, eis-me a trotar na segunda".
 
O atraso de correspondência era outra constante da vida do seu dia a dia: "Desde 4ª feira passada (hoje é 3ª) que não recebo notícias tuas e que nada sei a teu respeito" (6 de Abril de 1971, p. 118) . Muitas vezes, considera que o amor entre ele e a mulher está a chegar ao fim, pois ela não lhe responde. Mas das suas cartas percebe-se que ela se queixava do mesmo. Cada aerograma demorava muitos dias, devido aos circuitos complexos de correio no interior de Angola. Hoje, tais lamentações não seriam possíveis, graças ao telemóvel e, em especial, a internet [há poucas semanas, uma reportagem de televisão mostrava os soldados destacados em missão internacional no Afeganistão com uso de internet e envio de imagens fotográficas. O tempo de demora reduziu-se a instantes].
 
O dia a dia sem motivos novos levava a um remoer constante das mesmas ideias. Mas o autor não assumia que nelas pensava todos os dias: "Há muito que não falo da criança [a mulher ficara grávida quando ele embarcou para Angola], mas tenho pensado muito nela" (26 de Abril de 1971, p. 140). Lobo Antunes abordara a situação no dia anterior. Depois, é o seu conselho quanto ao nome da criança a nascer; querendo uma rapariga, propõe o nome de Maria José, o que virá a acontecer .
 
Um tema marginal, mas que retoma com alguma regularidade é o da compra de bebidas brancas a preços baixos: "A propósito de oficiais, cada um tem direito por mês a 3 garrafas, duas de uísque e uma de conhaque, de marcas estupendas, a preços de cerca de 100$00. [...] Embora não goste de nada disso (e tenho pena) ficamos cheios de alcoóis para os visitantes do nosso quimbo" (carta de 29 de Março de 1971, p. 109.Quimbo em umbundo, a língua da região, significa casa). Já a 20 de Janeiro de 1972 (p. 338), dá conta de uma alteração: "já não vendem mais garrafas aos senhores oficiais, por aqueles preços convidativos". E, por mais de uma vez, conta que militares de visita a Portugal serão transportadores de algumas dessas garrafas.
 
Retenho ainda da leitura do livro: 1) o conhecimento que ele adquiriu com o capitão Ernesto Melo Antunes, comandante de uma das companhias do seu batalhão (certamente aí colocado depois de, em 1969, ter sido o único oficial das Forças Armadas portuguesas a fazer parte de uma lista oposicional à linha do regime, ele que seria um dos oficiais do 25 de Abril de 1974 e que assumiu uma posição de liderança, com o Documento dos Nove, uma posição moderada após a radicalização à esquerda do regime em 1975 e 1975. Melo Antunes, homem culto, emprestava livros e revistas como o Nouvel Observateur e jogou xadrez com Lobo Antunes, ensinando-lhe várias entradas, como o livro indica); 2) a tomada de consciência política (apesar de, numa primeira fase, parecer favorável à situação, vai-se distanciando da posição oficial); 3) a leitura das bibliotecas (fracas) dos outros colegas quando os seus livros já tinham sido lidos; 4) os boatos (ficar na frente de combate todo o tempo da comissão e não rodar para um sítio mais calmo; uma segunda comissão); 5) as mortes de soldados, a que se acresce o facto de, como médico, acompanhar todos esses casos de modo directo.

 
por Rogério Santos
16.12.2005

27 de dezembro de 2005

Eduardo Alves: opinião sobre O Manual dos Inquisidores

Por entre uma salada russa feita de ingredientes sociais com bêbedos, pobres, oportunistas e simples sonhadores surge um conjunto restrito de pessoas. Escolhidas pelo autor para constarem como personagens de monta num livro histórico e intemporal. O burburinho social que se vive logo após o mês de Abril do ano de 1974 serve de sustentação a este retrato colectivo que António Lobo Antunes imprime na chapa da escrita. Como uma foto feita de palavras, o médico-escritor, narrador por excelência, transforma-se na consciência de um povo que tinha acabado de cair por terra e começa agora a erguer-se do chão.

O fascismo aparece como grande herança do regime salazarista. Isto porque, na óptica deste antigo combatente, a sociedade mal se transformou com a revolução, apenas se maquilhou para surgir com uma outra imagem, mas da mesma forma. Desigual, carregada de vícios e sustentada por jogo de poder. Um dos ministros de Salazar ganha mesmo o estatuto de personagem principal em dezenas de páginas do romance. A crueldade das decisões vai contrastando com a capacidade de bem-querer a alguns. Poder e liberdade de acção extravasam para alguns, enquanto a maioria, os pobres que já estavam na miséria, sentiam na pele e no corpo os malefícios destas políticas. Para aqueles que levantavam a voz, a polícia vinha com “estalos evangélicos” colocar o tom de voz num timbre mais baixo. Leitura intemporal, que ainda hoje encontra muitas semelhanças com a realidade.

por Eduardo Alves
Universidade da Beira Interior
Novembro de 2004

18 de dezembro de 2005

Arancha Oña Santiago: Heróico anti-herói

Memória de Elefante é a primeira obra da galardoada carreira literária de António Lobo Antunes; entre os múltiplos prémios recebidos destacam-se: o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Rosalía del Castro do PEN Club Galego, o Prémio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, o Prémio União Latina de Escritores e o Prémio Jerusalém.

No presente romance, a personagem principal comunica com a voz grave de débeis ressonâncias a partir da subjectividade mais profunda do seu ser, através de uma prosa poética plena de analogias artísticas insuspeitas e surpreendentes, angustiadas metáforas, alegorias, paradoxos, diálogos opacos e fustigantes monólogos existencialistas, numa ambiguidade dualista plena de incerteza, dirimindo entre a banalidade e o transcendental.

Fugindo do excessivo e exuberante racionalismo matemático, do pragmatismo, da autoridade idealista e positivista, do por vezes presunçoso espiritualismo e do avassalador materialismo, em suma, contra qualquer autoridade, o protagonista apresenta-se num mundo de desorientação, de confusão e de uma crise fertilíssima.

Como processo iniciático e por trás da claridade ofuscante do excessivo racionalismo tradicional, o protagonista lança um grito desesperado de sinceridade no concavo espaço do silêncio, sem arrogância, questionando a realidade sem receber uma resposta convincente, pendendo sem equilíbrio algum e contorcendo-se sobre si mesmo numa corda entre o determinismo e a liberdade, entre a fé e o agnosticismo, entre o absoluto e o relativismo moral.

Exorta o inanimado e o animado, metamorfoseando a existência para a compreender, jogando com a fantasia e a realidade da percepção, formando um puzzle de elementos congruentes e incongruentes. Evoca o caos dentro de uma ordem aparente e uma ordem dentro do caos, expulsando tudo isso através desenlaçado novelo da liberdade.

Psiquiatra de profissão, sendo um fardo por vezes difícil de carregar, a personagem principal apresenta-se como um indivíduo frágil por condição mas duro por necessidade, desterrado à vida de cabeça ajudado por fórceps, exaltado na análise do seu instável projecto de existência face à aparentemente titânica essência do passado. Projecto de existência individual que só encontrou estabilidade no útero materno e que existe no ermo de um mundo em que não entende as leis da sua harmonia e para o qual são inúteis os ecos harmónicos da tradição.

Na sua subsistência, desliga-se melancolicamente de qualquer memória de autoridades geométricas e ressonâncias de leis universais, sendo incapaz de erguer com suas intenções outra jurisdição que o guie em sua dispersão, aceitando uma desordem que o leva à quase perversa aniquilação do seu próprio ser. Desesperançado perante o rosto de uma realidade a que é incapaz de fazer um diagnóstico definitivo, conforma-se com meros e aproximativos juízos, acalmando a dor com leves analgésicos cujo excesso o leva ao atordoamento, sem encontrar um medicamento contundente que a elimine de raiz.

Enfrentando a realidade com uma vontade dilacerantemente individual agredida por um trágico pessimismo, defende sem muita contundência e com eterna e angustiada dúvida o seu fado de sinuosos acontecimentos, entre os quais a sua participação numa guerra; incorporado de uma solidão dissonante, desmoronada como uma estátua da antiguidade e dissimulada dos fedores do passado.

A nossa personagem enfatiza de forma literária a unicidade da sua pessoa e a sua luta pelo significado da lua liberdade, uma liberdade sem bússola, que ao  mesmo tempo que o oprime, o converte num ser singular e individual, separado da ordem cósmica, permitindo-lhe ajustar a sua identidade sobre a base do sofrimento e do tormento, comunicando existencialmente com a alteridade.

Liberdade cuja cruz é a responsabilidade pela qual sofre uma angústia e uma ansiedade existencial gerada como mecanismo de defesa perante a construção da sua identidade e do seu destino em harmonia ou dissonância com a liberdade dos demais, e como resposta às ameaças e tensões que sofre no seu sistema de valores.

O nosso protagonista é singular na medida em que actua e se realiza com algum pessimismo na conquista e na imputação dos seus próprios actos. Escolhe o seu caminho sem se deixar levar por modelos universais e objectivos, escolha livre unicamente limitada pelas circunstâncias que o rodeiam, pela implicação com compromissos e responsabilidades sem garantias.

Sem uma predisposição ou predestinação prévia, o protagonista experimenta a responsabilidade das suas acções e a subjectividade da sua existência se reconstrói e configura em si mesmo, sobre a base do tormento, reconhecendo tenuemente a alteridade, e na busca da aparentemente prismática verdade. Alteridade na qual de sujeito se converte em objecto, de onde se reflecte um mundo de incompreensíveis estereótipos humanos, alguns confinados ao psiquiátrico, outros na liberdade de movimentos pela vida, mas todos sem manual de instruções.

O nosso psiquiatra luta pela procura de uma linguagem universal que o faça comunicar com a realidade e com os outros, pela saída do labirinto da sua existência. Sensação e experiência linguística mantida única e exclusivamente com a sua saudosa ex-mulher a quem continua amando e não consegue esquecer, mas paradoxalmente não consegue dizê-lo. Experiência que nem sequer teve com sua mãe, que quase morria depois do seu parto, além de sofrer de uma surdez metafórica ou real que o levou à sua incompreensão.

Como os castigos míticos da condenação a uma eternidade infernal, o nosso protagonista sente-se condenado a uma existência angustiosa e incompreensível, através dos rígidos parâmetros da razão herdada.

Submerso nas águas do dualismo, entre a existência e a essência, entre a racionalidade e suas consequências, entre a credulidade e incredulidade, o nosso protagonista vai vogando sobre a decadência da razão, sem forjar ilusões e tocando o fundo do desencanto da existência, encalhando na dor e na crueldade da realidade sincera que marca o seu destino até... ao nada?

por Arancha Oña Santiago
Novembro 2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

17 de dezembro de 2005

Sara Belo Luís: Romance em aerogramas


Com o delicioso mau-feitio que se lhe conhece, António Lobo Antunes dirá porventura que as cartas recolhidas em D'este viver aqui neste papel descripto não terão grande importância. Serão - como as crónicas - material «menor», quando comparadas com os romances, género no qual ele tem vindo a trabalhar ardilosamente. O autor que me desculpe, mas (se de facto assim for) não tem razão. Porque estas cartas de amor - como todas as cartas de amor que da vero o são - nunca se reduzirão a formas mais ou menos rebuscadas de dizer o amor.

As cartas que, de 1971 a 1973, António Lobo Antunes escreveu de Angola à sua primeira mulher são muitas coisas mais para além dos diminutivos carinhosos (os quais ele, aliás, também usa) e das declarações de amor incondicional. São cartas de um oficial que preferiu a guerra ao exílio parisiense. São cartas de um médico branco que dá assistência a uma população negra. São cartas de um homem de 28 anos que vive longe da mulher que ama. São cartas de um pai que não está presente no nascimento da sua primeira filha. São cartas de um filho que confessa que se sente desconfortável com o registo das missivas da mãe. São cartas de um escritor que acredita no seu valor e que não desiste de o querer ser. São cartas de leitor que devora romances para saber como é que os outros o estão a fazer. São cartas de um homem solitário no meio de uma terra que não lhe pertence.

São cartas, aqui se escreveu. A classificação do género epistolar será, porém, demasiado redutora para falar deste livro. Porque nele se mantém o fio condutor de uma narrativa romanesca. Apesar de existirem algumas lacunas (umas voluntárias e atribuíveis ao autor; outras, atribuíveis à censura militar que fez «desaparecer» algumas das cartas), D'este viver aqui neste papel descripto conduz o leitor num romance com um enredo, muitos episódios, meia dúzia de personagens e até algum suspense. O que é senão isso as conversas acerca da casa, das garrafas de bebidas alcoólicas e do dinheiro necessário para comprar um Fiat? O que é senão isso o dilema do remetente no toca à vinda de férias a Lisboa («devo morrer antes disso»)? O que é senão isso a ponderação do casal se todos (pai, mãe e filha mais velha) se deverão juntar em Angola?

Da guerra propriamente dita tem-se, a partir D'este viver aqui neste papel descripto, uma perspectiva loboantuniana. Apesar de não esconder as suas discordâncias ideológicas (e, neste campo, são inesquecíveis os manuais de alfabetização do MPLA), Lobo Antunes não se demora longamente em considerações de carácter político. Nem tal seria de esperar uma vez que se sabia que algumas cartas eram lidas: «Percebes o que eu quero dizer, não percebes?». A guerra - e, sobretudo, o absurdo da guerra - revela-se muitas vezes pela descrição (sucinta) das acções militares, do seu trabalho como médico e, sobretudo, pelo seu quotidiano aparentemente banal. Como seria natural, Lobo Antunes não se estende nos pormenores violentos das amputações, da cólera, das minas e das saídas para o mato. Tudo isso - no qual depois o escritor se baseou para escrever Os Cus de Judas - fica dito em poucas linhas para proteger a destinatária das cartas de preocupações inúteis.

O que, do ponto de vista literário, impressiona no romance D'este viver aqui neste papel descripto é a elegância de uma prosa escrita ao correr da pena no espaço reduzido dos aerogramas editados pelo Movimento Nacional Feminino e transportados gratuitamente pela TAP para a Metrópole. Maria José e Joana Lobo Antunes, as filhas de António Lobo Antunes e responsáveis pela organização do volume, dizem no prefácio que apenas corrigiram as gralhas e actualizaram a ortografia. Aquelas cartas estão como se fossem massacradas como agora sabemos que são massacrados os romances de António Lobo Antunes. Escritos e reescritos, lidos e relidos, riscados e emendados numa obsessão como um ostinato rigore que o autor não esconde. O que se estranha é que nenhuma daquelas cartas parece possuir uma hesitação sobre uma só palavra, uma frase rasurada ou sequer castigada. Ao autor, toda aquela torrente como que lhe é - usemos o adjectivo, correndo os imensos riscos que ele contém - como que instintiva.

Lobo Antunes expõe-se nestas missivas que ele nunca pensou que, algum dia, pudessem vir a ser lidas por mais do que uma pessoa. É o escritor que vacila perante o seu próprio talento (umas vezes) e o escritor que ousa achar-se genial (outras vezes). É o marido que está seguro de que é amado (umas vezes) e o marido que, à distância, tem dúvidas sobre a correspondência do seu amor (outras vezes). É por esta razão que D'este viver aqui neste papel descripto contém, mais do que tudo, um homem lá dentro. Um homem que no Portugal dos '70 não tem vergonha de chamar «pratinho de arroz doce» à sua mulher. Um homem sem pachorra para ler as Matchs que as suas tias zelosamente lhe enviam. E um homem muito mais frágil do que aquele que se vê nas entrevistas a fazer afirmações seguríssimas. Que, diga-se em abono da verdade, apenas desconcertam os mais desprevenidos.


por Sara Belo Luís
citado do Jornal de Letras
Novembro 2005

24 de novembro de 2005

João de Melo: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 82 de Novembro de 1984 – pp. 104 a 106


Concebido como plano de cobertura dum período de cerca de dez anos da realidade portuguesa [pós 25 de Abril]*, e hipoteticamente confinado, no tempo, à década de 70,Fado Alexandrino assenta num estrutura de três painéis, a que correspondem as epígrafes de «Antes», «A» e «Depois da Revolução». Três painéis que se constituem, cada um deles, em 12 capítulos de acção, de micro e macro-histórias, discursos cruzados e vivências mais ou menos protagonizadas pelos cinco personagens principais da obra. Nesta aparente simetria estrutural, com tudo o que possa ser rigoroso e calculado, procura implicar-se uma ordem de tempo(s), pessoas, factos e análises, de forma a que (a)pareça problematizada a junção da História, no seu sentido positivo, com a verosimilhança da ficção narrativa. Daí que a primeira questão acerca deste romance possa ser suscitada pela forma seguinte: será que a sua ficção é susceptível de catalogar-se, prontamente, como «histórica»? Se for certo dizer-se que podem existir romances «históricos» que da História colham uma visão precária, algo condicionada e até esmorecida, então Fado Alexandrino pode perfeitamente perfilar-se como exemplo de uma obra literária que tem por si as margens de ambiguidade suficientes para ser duplamente interpretada: é «histórica», no ponto em que observa referências e os limites dum período bem determinado da nossa vivência colectiva; mas não é «histórica», se a sua finalidade literária e sobretudo o acervo das suas análises subjectivas puderem suscitar discordâncias de fundo ou se subsistirem factos objectivos que a contraditem. O levantamento destas duas hipóteses não tem de considerar-se gratuito, já porque se trata de um autor cuja obra, no seu conjunto, se centra nalguma tradição da nossa prosa historicista, já porque me parece ser esse um dos problemas que mais frequentemente vêm sendo introduzidos nos debates acerca da nova escrita lusitana. E se a escrita do Autor possui a noção prática do novo e o pendor poético e metafórico (por vezes mesmo barroco) que muitos lhe reconhecem; se o seu êxito editorial radica, acima de tudo, no reconhecimento duma competência específica, duma voz ou mesmo dum idiolecto de literatura, parece-me a mim que é mais problemática, neste Fado, a concepção do que avisão justa da História da nossa Revolução.

Não tanto por razões ideológicas objectivas, mas sobretudo ao nível duma avaliação sintomática do período histórico, político e social a que este romance se reporta, sou levado a considerar que a visão do Autor sobre as transformações operadas se ressente de um excessivo pessimismo, acabando até por desembocar numa espécie de delta da dissolução sem remédio, aliás antevista desde a primeira página do livro. Neste ponto, teria eu preferido vislumbrar um outro clima de variações periodológicas que melhor se coadunasse com os desesperos, euforias, ilusões e desilusões do «Antes», «A» e do «Depois» dessa Revolução. Preferia também  ter visto um mais intenso cromatismo de situações que dessem ao fundo romanesco uma melhor sucessão dos tempos específicos. Ao contrário disso, o Autor parece incorrer num tom quase unívoco, arrastando sob o mesmo discurso períodos tão distintos como o estertor final da ditadura marcelista, o sucesso do golpe de Estado e o que se lhe seguiu. Curiosamente, a mole humana que apoiou e pressionou, nas ruas, as transformações operadas neste país passa quase despercebida às expectativas do leitor. Bem sei que teria sido fácil ao Autor envolver o universo relativamente fechado do seu romance com alguns garridos episódios de rua, que infelizmente se constituíram já em péssima literatura, pela mão de outros escritores; mas nem por isso a aparente omissão desse barómetro temporal, que é o fervor fecundo das multidões, me parece ter sido uma alternativa feliz. Ou só o será, no ponto em que a aposta do Autor é seria, pela recusa do fácil e a escolha do caminho mais longo.

A perspectiva escolhida é, se assim se pode dizer, a do tabuleiro de xadrez cujas peças maiores são constituídas por um grupo de ex-militares que se reúnem num jantar com o ex-comandante dum Batalhão expedicionário em Moçambique e à mesa procedem ao exercício duma memória de 10 anos sobre si mesmos e sobre o Portugal de «antes», «durante» e «após» Abril. E são peças secundárias desse jogo vivencial as relações multi-multiplicadas dos 5 (um Tenente-Coronel, um Comandante de Companhia, um Tenente, um Alferes e um Soldado), com uma série de segundos-planos familiares, profissionais e outros. À medida que o leitor progride na organização desta memória, infunde-se nele a sensação do crepúsculo, do tempo parado, das ilusões traídas, e finda tudo num ambiente de dissolução caótica, onde o cometimento dum crime, na pessoa do Tenente, é quase um acto de antropofagia (começa na cumplicidade dos assassinos e acaba na combina da ocultação do cadáver e no regresso de todos os outros ao marasmo dos dias). Não está implícito em tudo isto que a vida, a solidão sem fundo e as amarguras dos personagens não sejam tão verosímeis como as alegrias ausentes ou as euforias passageiras. A minha especial reserva centra no ponto em que terei de considerar Fado Alexandrino muito mais o romance dos seus personagens do que a visão exemplar, representativa e diversa, de toda uma sociedade que subjaz, em fundo, à montagem dos percursos dos cinco. Se a isto juntarmos os compromissos lógicos dos narradores sucessivos, fica completa a ideia de que este livro se desvia deliberadamente duma sociologia tipológica e portuguesa e acaba por enfocar num universo mais particular do que geral (ou social). É quase umrequiem sobre o tempo. Nenhuma especial vibração sobre palavras e conceitos como, por exemplo, liberdade e justiça. Nenhuma hipótese de futuro, até.

O próprio narrador dominante comunga deste mar de cumplicidades e recusas, a ponto de o seu olhar ser tão ou mais impiedoso e cáustico do que o dos personagens. Lisboa, a cidade-cemitério, é, por isso, um lugar onde sempre quase chove; a fisionomia das coisas é baça e fria; os materiais e os seres longínquos têm, quase sempre, um referente condicionado - o complexo do plástico. Mesmo o humor é violento, ácido e muito macho. Um desgraçado Tenente-Coronel, personagem principal, atravessa todo o calvário das solidões familiares, amorosas e profissionais, e é varrido, como um monte de ossos, de cargo para cargo e de posto em posto, até chegar a general - e tudo para nada. O seu envolvimento no golpe militar é aleatório e indiferente, porém cheio de equívocos e traçados descontínuos. Ele e os outros mostram-se, de facto, incapazes dum ideal, duma relação duradoura e duma firmeza de princípios. Até mesmo o trabalho político de alguns acaba por os conotar com uma espécie de «trânsfugas», com a rasura teórica e com o insucesso total.

Escritos assim, todos estes senãos talvez possam ser tomados como processo de intenção contra uma obra que, além de ter desconcertado alguns, acabou por ganhar quase todas as apostas junto do público. Gostaria, por isso, de deixar ressalvada a ideia de que é forçoso separar a análise anterior do que se me oferece dizer agora acerca de um processo de escrita que está longe de ser vulgar. Em primeiro lugar, Fado Alexandrinoé uma obra onde se acentua uma tessitura de escritas e uma arte combinatória muito segura de experiências narrativas por vezes muito diversas. Depois, a unidade, o fulgor da palavra e da imagem, o poder de escrita que se contém nesta prosa, cifram-se em páginas de inesquecível claridade. Digo mesmo que, se se tratasse de situar este livro no conjunto das anteriores quatro obras do Autor, parecer-me-ia elementar deixar escrito que o considero como o «livro dos seus livros», com tudo o que isso implica de palpável e de convicto. E não apenas porque este processo de melhoria e de maturidade deva ser imputado a um escritor que soma as virtudes do métier a um trabalho dos mais produtivos da actual cena literária portuguesa; mas sobretudo porque alia a exigência a um capital de pesquisas que, estando longe de considerar-se esgotado, é um caso típico de inquietação e daquele húmus criativo que nos torna solitários e nos remete para uma relação sofrida com a vida e com as pessoas. Além do mais, Fado Alexandrino tem tão seguras as aquisições de Explicação dos Pássaros, como acaba por envolver-se também dos mundos e traumas que fizeram de Os Cus de Judas um livro singular. Livro dos livros, também, porque é a retoma subtil dos grandes temas que vêm inspirando quase toda a obra do Autor. O tema da guerra colonial, p. ex., que colocou o escritor num lugar de referência sem precedentes. O inferno dos outros, a solidão punida e punitiva, o espaço do memorizado e do sofrido (visto e experimentado em Memória de Elefante e emConhecimento do Inferno), são outros tantos caminhos recobertos por este livro. Algumas da suas melhores páginas, de resto, bem podem aceitar-se como o refrão ou o coro trágico de todos os percursos, seja nos momentos em que África e o seus cães-de-quartel são reinvocados, seja nas novas solidões dos outros-com-os-outros. O penúltimo capítulo do livro é, por sua vez, um texto de tal intensidade poética, que compensa, por si só, os excessos metafóricos, as espirais de linguagem e as imagens menos felizes que de quando em quando pontuam uma escrita de quase 700 páginas, onde raras são as falhas de gosto e quase nulos os efeitos menores. Fiquem os leitores com a ideia de que a «monumentalidade» deste romance reside tanto nas suas dimensões físicas como na sua estrutura e na sua actualidade. Num país de literatura (quase sempre) apócrifa, e onde os grandes temas sofrem toda a sorte de acidentes e atrasos, até chegarem ao estatuto de ficção distanciada, escrever sobre o Portugal de hoje, como António Lobo Antunes o vem fazendo, é significativo dos muitos méritos e do êxito que os seus livros têm conhecido, aqui e no estrangeiro. Mas lá que a nossa superestrutura crítica não faça esse reconhecimento ou não se tenha apercebido ainda que há um novo conceito de literatura neste país de hoje [1984], é bem outra questão. A História, porém, também ensina que alguns dos nossos vivos serão sempre antepassados nossos.


* no texto original está "mais recente"

João de Melo
Colóquio Letras 82
Fundação Calouste Gulbenkian
Novembro de 1984

26 de outubro de 2005

Francisco Solano: Primeiros abalos


Aos 37 anos, António Lobo Antunes publicou o seu primeiro romance e deixou clara a sua intenção de renovar a maneira de contar. Memória de Elefante é uma indagação à alma humana.

O estilo não é um dom, mas sim fruto de muitíssimas horas de trabalho, de escrever constantemente, de emendar e cortar páginas, de não encontrar nunca satisfação. E, não obstante, há que chegar à máxima exigência e precisão, até que seja a mão quem escreva - a mão -, não a vontade. Lobo Antunes tem insistido, mais que uma vez, em que escrever é deixar que a mão busque as palavras: "Os livros já estão escritos, e tu apenas os descobres porque estendes a mão". Surpreende tanta humildade, tanta cuidadosa paciência. Não há nesta opinião qualquer vaidade sobre a qualidade do escritor, nem auréola de distinção de uma tarefa que se reduz a imenso trabalho. E isto disse um escritor que, na última década, tem vindo a publicar romances perturbadores, no limite do prodígio verbal, carregados de emoção e calamidade, que imprimem o processo de desconstrução da memória, revelam as maranhas dos sentimentos e nos hipnotizam com a expressão do indizível. Porém se os últimos livros do escritor português, empenhado em alargar ao limite o território do romance, subvertem o rito conciliador da leitura, na sua primeira obra já se aprecia o embrião do que viria a ser o seu estilo, a forma rebelde do seu talento, o seu fastio perante a convenção narrativa e, pode dizer-se, o pesar de ter que se dobrar numa composição de índole autobiográfica. Publicado em 1979, quando contava com 37 anos - Lobo Antunes poupou-se antes de aparecer em público -,Memória de Elefante anuncia um escritor perplexo, cuja introspecção da sua própria crise matrimonial se transforma na matéria efervescente e delirante de um homem cuja única garantia de estar vivo é a omissão do seu nome na página de necrologia dos jornais e que deve sobrepor-se, contra todos os prognósticos, à "vontade de se vomitar a si mesmo".

O protagonista é um psiquiatra na agonia da mudança, que não sabe que vai ser de si, em que se vai converter, depois de ter decidido separar-se da mulher que ama. Perdido em Lisboa, que se configura como uma cidade de estímulos tão mórbidos como inúteis, rival de si mesmo ("detestava cada vez mais emocionar-se"), ressentido contra a sua profissão ("o psiquiatra assemelha-se aos vendedores de automóveis na sua loquacidade demasiado delicada e bem vestida") e raivoso contra todos ("que se defendiam melhor do polvo gelatinoso da depressão"), assistimos à emergência dos atributos mais inextrincáveis do ser humano, aos impulsos mais desesperados e à suspicácia existencial de que não há saída, de que "é realmente muito fodido ser homem, não é?". Contada por uma voz só aparentemente externa, já que surge das entranhas da personagem, a narrativa desenvolve-se à maneira de uma confissão mortificante que, ao pôr-se por escrito, permite suportar a angústia de uma solidão aborrecida e desejada, único lugar de onde se reconhece e mitiga, paradoxalmente, a angústia da autodestruição.

Assim o tormento do psiquiatra, causa da sua depressão, não radica na sua crise conjugal, nem na sua beligerância contra o homem comum, mas tem origem na sua vocação radical pela escrita, uma paixão que antecipa o fracasso ao comprovar que "os romances e poemas que perpetrava sem escrever formavam como que uma prolongação narcisista sem conexão com a vida, arquitectura oca de palavras, desenho de frases vazias de emoção". Contra essa separação entre escrita e vida se estenderá depois toda a obra posterior de Lobo Antunes. Mas em Memória de Elefante essa ruptura, como o divórcio dolorosamente assumido do psiquiatra, está bem apetrechada de belas imagens, metáforas engenhosas e piruetas verbais - tudo temperado, ainda, com nutridas menções culturais - , que se acumulam para decorar o texto de "efeitos literários" e povoar a narrativa com um barroquismo falseado. Não obstante, incluindo esses mimetismos e excessos, o romance alcança um nível e intensidade admiráveis, e se impõe com tal convicção na análise da alma humana que invejariam Camus ou Dostoievsky. Primeiro abalo de uma novelística excepcional, poder-se-ia dizer sem presunção que aqui está já Lobo Antunes por inteiro.


por Francisco Solano
01.10.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

6 de outubro de 2005

Ángel Basanta: Segundo libro de crónicas


Este Segundo Livro de Crónicas de Lobo Antunes, um dos romancistas mais importantes da literatura portuguesa das últimas décadas, é a continuação do que foi publicado há alguns anos [Livro de Crónicas].

Na sequência do primeiro, também esta segunda compilação é composta por artigos que o escritor  tem vindo a escrever na imprensa de diferentes países, entre eles Espanha. Faz tempo que Lobo Antunes ganhou um merecido reconhecimento como escritor entre o os maiores da literatura europeia actual. Por isso estas crónicas, que são o testemunho íntimo do pensamento, das ansiedades e das aflições do criador de grandes romances como O Esplendor de PortugalExortação aos Crocodilos e  Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, entre outros, guardam um elevado interesse para aqueles que pretendem conhecer mais sobre o escritor que tem vindo a colocar o melhor da sua vida nos seus livros, uma vez que o homem e o escritor são o mesmo na sua pessoa.

O livro tem 78 crónicas que compõem uma autobiografia parcial, aos poucos, fragmentada. Na sua maioria os textos estão escritos na primeira pessoa, num tom confessional, orientado para a reflexão ou para a narrativa, segundo o tema tratado em cada caso. Pelo que foi dito anteriormente, os mais interessantes são aqueles em que o autor reflecte sobre o seu trabalho pondo a descoberto a sua insegurança literária em considerações sobre a sua escrita. A permanente ambição sempre insatisfatória do autor arde em vermelho vivo nas matérias incandescentes que o homem e o escritor põem no fogo da criação literária. São muitos o textos que abordam estas questões. Entre outros, destacam-se  "Receita para me lerem" e "Assobiar no escuro". Neles oferece-nos uma escrita poética e a leitura autocrítica das suas obras, a partir de uma focalização supra genérica e a profunda convicção na dignidade do romance. Aqui mostra a sua angustiante concepção da literatura: "A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente", a qual conduz "ao encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do espírito". "Gostaria que os meus romances não estivessem nas livrarias ao lado dos outros, mas afastados e numa caixa hermética, para que não contagiem as narrativas alheias ou os leitores desprevenidos: é que sai caro buscar uma mentira e encontrar uma verdade" (págs. 91 e 92 [109 e 110 na 1ª edição portuguesa] ).

Mas a literatura, como criação do autor e a sua recriação na leitura, ainda que sendo mais importante, mais a música, o cinema e a arte em geral não são os únicos temas desta autobiografia dispersa. A memória do escritor lisboeta evoca e revisita experiências da sua infância com a sua família, recorda o horror vivido em Angola, o seu desinteresse pelo exercício da medicina (que abandonou: Lobo é psiquiatra) para se dedicar por inteiro à literatura, rememora a comunhão fraternal com os amigos da sua vida (como Cardoso Pires e Eugénio de Andrade), revive a sua relação conflituosa com Portugal, conta alguns episódios de viagens e reflecte sobre o amor, a dor e a morte. De tudo isto se fala nesta confissão plural de um escritor fundamental do nosso tempo, tão necessário nesta época de mentiras e frivolidades que nos dificulta a compreendermo-nos como seres humanos com as nossas aflições e o nosso desamparo no inexorável passar do tempo.

por Ángel Basanta
17.02.2005
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

5 de setembro de 2005

Matilde Ferreira Neves: Comentário a O Manual dos Inquisidores


«(...) os operários da fábrica que discursavam na rua a tratarem-nos por camaradas, a prometerem-nos casas de graça, a afirmarem que éramos livres e eu pensei

- Livres de quê?

já que a miséria permanecia a mesma só que com mais gritaria, mais bêbedos e mais desordem por não haver polícia» - Eis o retrato do pós de 25 de Abril que Lobo Antunes nos desenha em traços de quase caricatura no seu livro O Manual dos Inquisidores.

Uma obra que nos fala acerca do fascismo vigente antes e mesmo depois do 25 de Abril cuja narração é feita por personagens que se sucedem e alternam, que se revelam ao serem inquiridas por um narrador incógnito (trata-se, no fundo, de um romance eleborado pelas próprias personagens). O autor trabalha este romance no sentido de torná-lo, de algum modo, intemporal, constituindo uma amálgama do ontem e do hoje, apresentando-nos um elenco de tipos sociais que ainda persiste nos nossos dias, na tentativa de mostrar-nos que, se calhar, a sociedade não terá evoluído tanto como as pessoas o pretendem.

Temporalmente situado entre os anos 60 e 70, o Manual dos Inquisidores relata-nos as relações de poder de um ministro de Salazar, à volta do qual girará a própria narração do livro. Ministro que sendo cruel, é também capaz de amar, que sendo duro, é também carente, que abandonado e traído pela esposa, tentará reencontrá-la em outras mulheres, ora de forma agressiva e máscula («- Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão.»), ora de forma terna («(- Isabel

o meu pai em segredo, de lábios contra o chão, de ventre contra o chão

- Isabel

o meu pai quase terno

- Isabel)»). - Pinta-se, no decorrer da obra, o retrato de um homem prepotente e iludido pelo próprio poder, confrontado, no limite, com a solidão e com os seus fantasmas pessoais, que acabará derrotado pela idade e pela senilidade a ela inerente, vencido por uma obssessão extrema contra os comunistas, que o seu filho saberá descrever: «o meu pai que um ano depois da revolução teimava em esperar os comunistas (...)

- Já não há nada que me consigam tirar».-Um ministro despojado do amor e do poder, que se transformará numa sombra apenas, exilado numa clínica onde virá a perecer.

O Manual dos Inquisidores é um livro que reflecte o poder e os seus abusos na época salazarista(«aquilo que um protegido do professor Salazar afirma, por mais estranho que seja, ou é verdade ou os jornais vão garantir amanhã que é verdade o que equivale ao mesmo, e se a gente os contraria dá com os costados na polícia, de farol na cara e um chefe de brigada a convencer-nos com estalos evangelizadores, de que lado se acham o interesse do país, a virtude e a razão.»); no qual a gente pobre, conformada, apesar da miséria, não sentia pena nem raiva, nem nada, a não ser algum conforto por ainda persistir.

Uma viagem alucinante, ao real que nos transtorna e que, por vezes, nos leva ao riso: «e após a morte do meu pobre ofereceram-me um pobre mais novo que durasse mais tempo, saudável, ainda sem tosse, baptizado e com as vacinas em dia, aconselhado pelo senhor prior por não ter vícios nem ser capaz de me faltar ao respeito, que tive de mandar embora no Natal seguinte e de me queixar da sua falta de educação nas noelistas porque caí na asneira de lhe dar dez escudos e ao recomendar-lhe

- Agora veja lá não gaste isso tudo em aguardente

respondeu-me malcriadíssimo a virar e a revirar a moeda

- Claro que não menina claro que não fique descansada que vou direitinho ao stand e compro um Alfa Romeo»).

Relações de poder frustradas, relações amorosas falhadas, que deixam entrever as carências mais diversas («e no entanto eu gostava de si pai, gostava de si, não fui capaz de dizer-lhe mas gostava de si», «o meu pai que não me recordo de conversar comigo, me dar um beijo, me pegar ao colo»).

Um romance real e humano que, apesar de tudo, termina com o ministro esperançoso, cuja frase inacabada que fecha o livro nos relembra, talvez, que fica sempre algo por dizer...


por Matilde Ferreira Neves
citado daqui
[não datado]

30 de agosto de 2005

Bruno Carriço: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Eu hei-de escrever assim (quem dera)

Terminei hoje de ler "Eu hei-de amar uma pedra", de António Lobo Antunes. Foi a primeira vez que li algo deste autor, mas duvido que seja a última!

Quando comecei o livro, estranhei bastante a escrita, confesso. A pontuação é quase inexistente e as apóstrofes são abundantes, o que requer alguma adaptação de quem lê (falo por mim, claro). Ultrapassada esta "fase" de adaptação, a leitura já se faz de forma mais natural e começa-se a apreciar verdadeiramente o génio de Lobo Antunes.

Folha a folha, fui descobrindo autênticas preciosidades nesta obra. Preciosidades, sobretudo, na descrição de gestos/coisas banalíssimas. Tenho pena de não ter marcado várias destas passagens, para agora ilustrar o que me "seduziu", mas são tantas páginas que mais me valia ler o livro de novo, se as tentasse procurar. Marquei apenas dois pequenos excertos, quando me apercebi que queria partilhá-los com o blog (e convosco, por consequência).

Começo por perguntar: como descreveriam um negativo de fotografia?

Parece uma coisa sem jeito, mas Lobo Antunes atira-nos com "...a minha mãe a esmiuçar negativos onde fantasmas, não pessoas, com o branco e o preto ao contrário, feições pretas, roupas de aparição que flutuavam...".

Dei por mim a imaginar negativos e a verificar como estas palavras traduzem o que vejo neles. Que simplicidade...

Relógios de estações de comboio/metro são outra coisa que nos fartamos de ver e que só nos interessam se precisarmos de saber as horas. É natural.

A atenção de Lobo Antunes é que é outra!

"...disseste nove menos vinte no instante em que o impulso do ponteiro nove menos dezanove, não o traço grosso, um traço fininho, o relógio sem números, quatro traços fininhos entre dois traços grossos ou seja quarenta e oito traços fininhos e apenas doze grossos..."

Arrisco-me a dizer que, além de grande escritor, Lobo Antunes dava um fotógrafo fantástico, pela sua capacidade de observação.

"...e o relógio do metropolitano prestes às nove menos dezoito que se percebia no ponteiro a vibrar para o salto, não mudava para o traço seguinte
(traço fino neste caso)
cobria-o por completo, apoderava-se dele, anulava-o..."

Sempre reparei naquele instante em que o ponteiro dos minutos se prepara para avançar, nestes relógios, e naquela pequena tremedeira, naquela hesitação. Nunca me passou de uma simples e patética observação. Até à altura em que li esta passagem!

E podia demorar-me aqui mais umas horas, enumerando estes deliciosos registos, mas acho que já mostrei a minha admiração de forma clara e o post já deve estar a dar sono a muita gente! :)

O título desta entrada é uma ambição, nunca uma obsessão!

por Bruno Carriço
15.04.2005

18 de agosto de 2005

Gonçalo Mira: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Este ano celebram-se os 25 anos de carreira de um dos mais importantes e incontornáveis nomes da literatura portuguesa: António Lobo Antunes. E que melhor forma de celebrar a efeméride do que com um novo romance? Foi, exactamente, o que fez Lobo Antunes, presenteando os seus fiéis leitores com um novo romance, intitulado “Eu hei-de amar uma pedra”.

É uma boa sensação quando acabamos de ler este livro. E isto é paradoxal porque eu adorei o livro. E, supostamente, quando se gosta muito de um livro, queremos que nunca acabe. Mas Lobo Antunes é diferente de tudo o resto. O livro é belo, aliás belíssimo, mas dói. Dói porque as suas personagens sofrem e fazem-nos sofrer. Vivem uma existência angustiante, sentimentos inconfessados, segredos, medos, saudades, amores. Um turbilhão de sentimentos que nos deixa completamente atordoados. Depois há um constante apelo ao passado, aquilo que marcou a infância de cada e que nos mostra exactamente porque é que aquela pessoa é como é. E nisto António Lobo Antunes é exímio. A sua obra vive de personagens fortíssimos, no sentido em que são construídos na perfeição. Simplesmente na perfeição. Têm os seus defeitos, as suas virtudes porque são humanos. Precisamente humanos. E é essa outra palavra chave para este romance e para a obra de Lobo Antunes. Neste romance existem humanos iguais àqueles que moram no nosso prédio, iguais àqueles que costumam ir ao nosso café,  iguais àqueles com que nos cruzamos todos os dias. E é isso que torna Lobo Antunes, na minha humilde opinião, o maior escritor português e um dos maiores a nível internacional, na actualidade: sabe criar personagens que nós conhecemos.

Quando comprei o anterior romance do autor, "Boa tarde às coisas aqui em baixo", foi-me oferecido um pequeno livrinho onde estava uma “receita” para ler Lobo Antunes, escrita pelo próprio. Dizia ele que os seus livros não são para ser lidos, mas sim apanhados, como se apanha uma doença. E é mesmo verdade. Além disso dizia também que o que importa não é a história mas sim as personagens e o que elas sentem. Lobo Antunes viaja ao âmago dos sentimentos humanos como nenhum outro escritor.

Este romance, "Eu hei-de amar uma pedra", conta uma história de amor entre um senhor e uma senhora que já não são jovens, que se encontram depois de passados muitos anos sem se verem. Ele julgava-a morta e, portanto, fez a sua vida: casou, teve filhos. E ao encontrá-la de novo, viva, a paixão que tinham vivido renasce e começam a encontrar-se numa pensão. Mas este belíssimo romance conta muito mais do que isto. Descubram-no por vós próprios. Recomendo vivamente a toda a gente que ainda não descobriu este maravilhoso autor, que o descubra, pois ainda vão a tempo.

Para quando o Nobel deste senhor?

por Gonçalo Mira
2003

8 de agosto de 2005

Belém Barbosa: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


«o passado continua a acontecer em simultâneo com o presente»

Fotografias, Consultas, Visitas, Narrativas - quatro partes onde se organizam histórias individuais de solidão e desamor, de impossibilidade de amar gerada por carência profunda, por rejeição, por abandono.

Um colega de Lobo Antunes ter-lhe-á contado uma história de um amor impossível que se manteve ao longo de mais de 50 anos em encontros secretos numa hospedaria de Lisboa: um casal que se reencontra casualmente, depois de uma separação abrupta por razões de saúde, a que ela supostamente não teria sobrevivido.

O escritor deixou-se seduzir e, pela primeira vez nos seus livros, um homem (que nunca tem a palavra) sabe que é amado; uma mulher mantém-se firme a seu lado, sem nada aceitar em troca, renovando semanalmente a sua intenção de não o deixar nunca. A envolvente é de uma solidão urbana extrema, que mais sublinha a impossibilidade deste amor.

Quanto à forma, mantém-se o apurado rendilhado narrativo de Lobo Antunes, mais difícil na primeira parte, em que os fragmentos da história se apresentam soltos, as personagens desligadas do enquadramento social e localizadas nas fotografias que nos vão sendo mostradas. Depois, pouco a pouco, penetramos nos segredos e no passado emocionalmente devastado de cada um dos seres, de que não se conseguem libertar.
  
por Belém Barbosa
Abril 2005

21 de julho de 2005

Dauro Veras: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Quatro mulheres compartilham um segredo terrível ligado aos homens com quem vivem. Suas memórias e a opressão de carregar o segredo compõem o cenário deste romance do português António Lobo Antunes. Por meio dos monólogos interiores de Mimi, Fátima, Celina e Simone, o escritor conta a história fictícia da rede de extrema-direita que cometeu atentados em Portugal nos anos setenta.

Elas expõem seus pensamentos de forma fragmentada, alternando-se umas às outras capítulo após capítulo. Mimi é surda e sofre de câncer. Na sua lembrança está sempre presente a avó, matriarca que mergulhava a trança dos cabelos em aguardente e que lhe ensinou a fórmula da coca-cola. Seu marido participa da organização terrorista, trabalhando para um bispo católico. Fátima é afilhada e amante do bispo. Celina é a esposa atormentada e depois viúva de um homem rico. E Simone namora o rapaz que monta as bombas.

Lobo Antunes não apresenta amenidades ao leitor. Exige-lhe dedicação para avançar entre palavras interrompidas, digressões, misturas de vozes e tempos, longos trechos sem ponto final. É preciso ir, pouco a pouco, montando um quebra-cabeças de estilhaços, composto de imagens da infância, sabores, objectos de estimação, humilhações quotidianas. A culpa está presente em todos, de uma forma ou de outra: o general e o bispo são mandantes de assassinatos. Militares e diplomatas articulam o contrabando de armas. As mulheres são cúmplices silenciosas. Elas têm em comum entre si uma profunda solidão.

A linguagem inusitada parece, a princípio, uma barreira para a fluência da narrativa. Mas aos poucos vai-se penetrando na consciência sofrida das protagonistas, percebe-se seus desejos, medos e frustrações. Da metade para o fim o ritmo se acelera e alusões que pareciam enigmáticas começam a ganhar sentido. Mas para cada leitor, esse sentido será único, com peças montadas a seu modo e outras que não se encaixam. Assim como a verdade permite distintas interpretações, o universo mental das quatro mulheres oferece um campo vasto para que se desfrute o romance com uma verdadeira sensação de co-autor.


por Dauro Veras
Junho 2001

1 de junho de 2005

Rafael Conte: sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Amor e morte em Lobo Antunes

No romance do autor português confluem duas histórias: a relação com sua mulher e a fascinante história de uma doente mental de quem tratou como psiquiatra. Narrativa, poesia e ensaio, na sua obra mais autobiográfica.
   
António Lobo Antunes - talvez o escritor mais importante e original do romance de hoje a nível mundial, recentemente premiado com o União Latina e o Jerusalém 2005 - persiste e assina de novo o seu último livro, o décimo sétimo ou décimo oitavo segundo creio, imperturbável a todas as mudanças que sucedem à sua volta, dedicado até à exasperação numa escrita que o "abduz" (não encontro outra palavra) por inteiro.

António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) é um escritor muito complexo, de acesso difícil mas que fascina os seus leitores quando o são de verdade, pois acabam arrebatados pelo poder da sua escrita, que os arrasta para além da sua compreensão lógica "normal". Uma escrita "poética", que vem de um pré enamoramento da poesia que escreveu na sua juventude mas que destruiu por completo; porém este pressuposto do poético é o que preside sempre em toda a sua narrativa. Ao mesmo tempo, a sua experiência africana - foi médico militar durante quase três anos na guerra de Angola, uma das suas grandes experiências vitais, que surge em vários romances seus - fê-lo experimentar um novo conceito do tempo: em África aprendeu a simultaneidade do tempo (pois o passado só vive no presente e o futuro desconhece-se) que nos seus livros se entrecruza com a multiplicidade dos cenários, das vozes e das personagens, o que converte a sua prosa em algo muito complexo para quem procura ler romances "normais", com argumentos seguidos na sua cronologia e discurso narrativo, segundo o que é habitual no mercado do nosso consumo literário.

O seu discurso é no fundo "poético" e pratica a simultaneidade contínua de tempos, vozes e cenários em que o leitor pensa que existe um discurso intelectual que o nutre totalmente e o sustenta, como se o ensaístico se filtrasse assim mesmo no narrativo. O que não é, poesia, ensaio e narrativa são os três pilares que sustentam à sua vez esta obra singular, sem que possamos separá-los do enredo. Daí que os seus livros tenham de ser lidos com a máxima atenção, e não perder qualquer detalhe, incluindo as entrelinhas que acompanham o discurso, pois tudo quer dizer algo. Um exemplo: ao iniciar o novo livro, há uma dedicatória digamos que "negativa" que se afirma na sua ausência: "Nesta página estava uma dedicatória aos meus pais. Ainda está." Com ela se manifesta um dos vectores principais do romance, na formação das relações difíceis (pouco dedicadas, raramente carinhosas, mas sempre irrepreensíveis) do autor com os seus próprios pais, com quem teve sempre uma falta de comunicação, repleta de reticências (diziam que não o liam, ou não o entendiam), mas sempre tão irrecusáveis que a sua ausência futura não as interromperá mais.

Como no título se diz também que o narrador (o poeta que nos fala, por quem os outros nos falam, as vozes à sua vez narradoras que surgem em cada situação ou cenário, buscando-se a si mesmas através delas - e deles) "há-de amar uma pedra" (verso de um antigo cancioneiro português) que conclui: "Beijar o teu coração". Assim temos o segundo vector para entender o romance, pois trata-se, como acontece quase sempre com este escritor, de uma história de amor implacável, e que venha a terminar com a morte. É outro elemento autobiográfico no romance (os detalhes autobiográficos abundam nos seus últimos livros, muito mais que nos primeiros [...] ainda que elementos da sua própria experiência abundem em toda a obra desde o princípio, daquela Memória de Elefante - 1979 - que era a sua própria) e que não é mais do que a evocação do seu amor com a sua primeira mulher e mãe das suas duas filhas mais velhas, com quem se casou muito jovem, compartilhou os primeiros segredos e aventuras da juventude, do sexo à aventura africana, e de quem se separou inopinadamente depois da "revolução dos cravos"  (revolução de que estava certo, mesmo sem ter participado) com a explosão de liberdades que Portugal conheceu entretanto. O matrimónio desfez-se, ainda que o casal se desse razoavelmente bem, mas mais tarde sua esposa ficou fatalmente doente que o marido, médico sempre, ficou do lado dela, regressando ao seio familiar. Com esta segunda linha narrativa - a do amor destruído pela morte - completa-se a história da incomunicação paterno-filial inicial, mas ainda falta a história central, surgida da doença mental de uma paciente já idosa (de quem se diz reiteradamente que a sua idade pôs de acordo os seus anos e o seu corpo) e de quem tratou no seu exercício da medicina.

Para ordenar este caos aparente, Lobo Antunes divide o livro em quatro partes que facilitam os leitores precipitados, ainda que depois, em cada uma das partes, faça as suas devidas correspondências (ou interferências). A primeira, intitulada As fotografias, baseia-se em imagens da sua própria existência, que começa com uma foto da sua mãe tirada num dos seus aniversários - como digo, este é um livro claramente autobiográfico - e logo se complica, debulhando a sua vida ao longo de mais dez fotografias. Mas logo vêm "as consultas" (cinco) e "as visitas" (três) que se referem às consultas médicas com a doente encontrada no hospital lisboeta onde tratou a citada paciente, primeiro como profissional e depois prolongando o seu trabalho sobre um tema cuja personagem o fascinou. Por último, sete "relatos" completam a história deste livro no fundo inesgotável, baseado em três pilares incontestáveis - a relação com seus pais, o amor pela sua primeira esposa falecida e a paciente inexaurível que o importuna até a um final que talvez não venha a chegar. Três relações difíceis e de certo modo impossíveis, que se entrecruzam no interior da existência de um narrador infatigável, e que reaparece em ocasiões com o seu apelido inicial (o "pimpolho" que cresce) e até com o seu nome próprio ou para fechar um livro numa verdade inesgotável. É o mesmo livro de sempre? Talvez, mas as histórias seguem encavalitadas como sempre, tropeçaremos na mesma pedra em que se convertem os sucessivos rostos cegos dos amantes - e a imagem de Magritte do frontispício que nos mostra cegos é perfeita - que estão condenados a não ver-se, a converterem-se na pedra que têm que beijar por meio da autodestruição e frente à morte, porque trata-se de uma história condenada a repetir-se até ao final, pois é essa a sua esperança, a última a morrer, e menos mal, mas continuar amando a pedra e beijando o coração, haja coragem.

por Rafael Conte
14.05.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

4 de maio de 2005

Carlos Eduardo Ortolan Miranda disserta sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


A TAUROMAQUIA CRUEL DE LOBO ANTUNES

Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, o autor português leva ao ápice sua literatura radical

Existem em nós divisões, alienações, guerras e palavras.
Paul Nizan, Aden, Arábia

A literatura contemporânea de Portugal tem desempenhado um papel de destaque na prosa e na poesia européias. Contrariamente à relativa vaga de reduzida inspiração de nossas letras, que têm se debatido à deriva em uma discussão um tanto inócua entre os transgressores e os acadêmicos, os lusitanos ostentam uma produção literária do mais alto nível e que, estranhamente (ou nem tanto), é quase completamente desconhecida entre nós.

Dentre os autores que pouca ou nenhuma divulgação tiveram no Brasil, destacaria a poesia reflexiva, erudita, de tom elevado e lírico de Nuno Júdice, o experimentalismo dos romances de Almeida Faria, a prosa intimista, tensa, no limite do discurso poético de Rui Nunes, os contos angustiados de Pedro Paixão, o monólogo interior de Augusto Abelaira e as crônicas desabusadas e saborosíssimas de Miguel Esteves Cardoso. As ficcionistas portuguesas também comparecem com importância, notadamente as romancistas Agustina Bessa-Luís, Teolinda Gersão, Lídia Jorge e Inês Pedrosa.

Alguns escritores têm conseguido, entretanto, furar o bloqueio intelectual e aportar às livrarias nacionais. É o caso de António Lobo Antunes, cujo mais recente romance, “Boa tarde às coisas aqui em baixo” (pela editora Objetiva, que adquiriu os direitos de toda a obra do autor) teve lançamento quase simultâneo no Brasil e em Portugal.

Tanto melhor para a cultura nacional. Escritor profundamente original, o médico psiquiatra nascido em Lisboa é um outsider das letras portuguesas, muito embora seja autor dos mais premiados e incensados pela crítica literária internacional, e considerado a voz mais importante da literatura atual de seu país.

No lugar do sentimentalismo e do derramamento romântico que habitualmente caracterizam parte da literatura de Portugal, Lobo Antunes erigiu uma obra vigorosa e desafiadora, na qual, através de influências de autores como Faulkner e Céline, acompanhamos um roteiro para um passeio ao inferno das situações-limite da condição humana.

Nessa direção, a vivência de Lobo Antunes como médico do exército português na guerra colonial de Angola fornece a matéria histórica para a maioria de seus romances, como em “Os cus de Judas” (pela Objetiva), “Fado alexandrino” e “O esplendor de Portugal” (editora Rocco), já também publicados entre nós.

Essa comédia humana do horror e do desespero perpassa hospitais psiquiátricos, a insanidade da guerra, a morte sem honra, a miséria dos colonizados e a sanha destruidora dos colonizadores. Entretanto, desse ideário de niilismo e terra arrasada, graças à arte do escritor poderoso e de imaginação aparentemente inextingüível, emana uma poesia difícil, de imagens incomuns e que jamais apela ao efeito simples da prestidigitação verbal. “Boa tarde às coisas aqui em baixo” não é um livro de digestão fácil, como já deve ter atentado o leitor. Além da temática pessimista já apresentada, é nesse romance que os aspectos técnicos, as soluções formais para a realização da narrativa atingem o grau de maior radicalidade já encontrado na obra do autor.

O entrecho é razoavelmente simples, quase banal (e, de fato, praticamente se dissolve no transcorrer do livro): um agente do exército português é enviado a Angola. O objetivo: eliminar um seu antecessor, que cumprira tarefa similar.

A partir daí, distendem-se as preferências de Lobo Antunes pela narrativa fragmentária, pela constituição polifônica do romance, na qual as diversas vozes e percepções das múltiplas personagens parecem ecoar umas às outras num jogo especular no qual a totalidade não parece poder ser reconstituída.

Um agente procura um agente que procurava um agente. Nessa ciranda de personagens enlouquecidos, os matadores confundem-se com suas vítimas, os carrascos são, simultaneamente, caça e caçador, instrumento e objeto, perseguição e alvo. Uma arena de touros cegos que buscam, feridos, a saída do labirinto.

Não é casual que o topos da tauromaquia compareça nesse teatro de títeres, que perceberão que apenas cumprem ordens de traficantes de diamantes da metrópole colonial; sendo inextricavelmente matador e touro, as personagens da corrida combatem pela estrita sobrevivência, e a consciência se debate entre o passado e o presente, numa arena em que a pergunta pelo sentido não parece mais ter relevância efetiva e na qual o sacrifício não trará remissão.

Temos então um libelo pacifista contra a guerra colonial e o massacre inútil, mas financeiramente lucrativo, uma versão atual para o “Coração das trevas”, de Conrad?
Lobo Antunes insurgiu-se sempre contra tais leituras reducionistas de sua obra (que também não se aplicam a Conrad, vale destacar). Embora a experiência traumática da guerra perpasse indelevelmente o livro e forneça-lhe o substrato histórico e o entrecho, a constante remissão a planos móveis, temporais e espaciais, impede a leitura puramente sociológica, na acepção vulgar do termo. Não se trata apenas de um romance sobre a guerra colonial, mas, em termos mais ambiciosos, da luta da consciência em sua tentativa de compreensão de nosso estar no mundo.

De fato, os matadores (e futuros touros abatidos) comprazem-se em relembrar Portugal estando em Angola, e vice-versa. Assim, das descrições da barbárie e do genocídio, do massacre da população civil e do racismo, da missão inglória de um homicídio por motivo econômico a mando oficial do Estado, passamos às recordações da vida familiar dos assassinos, ao plano da memória dos seus dramas domésticos de desamor e solidão, de suas lembranças infantis e pequenas alegrias e desencantos cotidianos.
Presente e passado (na ausência de futuro), Portugal e Angola, relativa paz doméstica e atualidade horrenda movem-se em dialética cruel e insolúvel. A reflexão especular, a rotação espiral ou o movimento pendular, demarcados pelo uso de repetições de frases, que pontuam, como coro musical, o ritmo do romance, traduzem essa ação inútil, essa história que não se realiza, a não ser como negação, trabalho de touro-Sísifo.
Como toda grande obra de arte, a obra de Lobo Antunes é um convite à viagem. Viagem interior em que contemplamos o sublime e o grotesco, a dor e o sorriso, a gratuidade e o desejo de ordenação de um mundo que se afigura caos e desesperança. De algum modo, mesmo exauridos e tocados pelo universo de horror, sentimos que se opera em nós o milagre propiciado pela literatura. Jamais seremos os mesmos depois da leitura de António Lobo Antunes, esse taumaturgo da palavra.


por Carlos Eduardo Ortolan Miranda
É tradutor e crítico, mestrando em filosofia na USP.
via Trópico (Brasil)
não datado

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...