24 de novembro de 2005

João de Melo: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 82 de Novembro de 1984 – pp. 104 a 106


Concebido como plano de cobertura dum período de cerca de dez anos da realidade portuguesa [pós 25 de Abril]*, e hipoteticamente confinado, no tempo, à década de 70,Fado Alexandrino assenta num estrutura de três painéis, a que correspondem as epígrafes de «Antes», «A» e «Depois da Revolução». Três painéis que se constituem, cada um deles, em 12 capítulos de acção, de micro e macro-histórias, discursos cruzados e vivências mais ou menos protagonizadas pelos cinco personagens principais da obra. Nesta aparente simetria estrutural, com tudo o que possa ser rigoroso e calculado, procura implicar-se uma ordem de tempo(s), pessoas, factos e análises, de forma a que (a)pareça problematizada a junção da História, no seu sentido positivo, com a verosimilhança da ficção narrativa. Daí que a primeira questão acerca deste romance possa ser suscitada pela forma seguinte: será que a sua ficção é susceptível de catalogar-se, prontamente, como «histórica»? Se for certo dizer-se que podem existir romances «históricos» que da História colham uma visão precária, algo condicionada e até esmorecida, então Fado Alexandrino pode perfeitamente perfilar-se como exemplo de uma obra literária que tem por si as margens de ambiguidade suficientes para ser duplamente interpretada: é «histórica», no ponto em que observa referências e os limites dum período bem determinado da nossa vivência colectiva; mas não é «histórica», se a sua finalidade literária e sobretudo o acervo das suas análises subjectivas puderem suscitar discordâncias de fundo ou se subsistirem factos objectivos que a contraditem. O levantamento destas duas hipóteses não tem de considerar-se gratuito, já porque se trata de um autor cuja obra, no seu conjunto, se centra nalguma tradição da nossa prosa historicista, já porque me parece ser esse um dos problemas que mais frequentemente vêm sendo introduzidos nos debates acerca da nova escrita lusitana. E se a escrita do Autor possui a noção prática do novo e o pendor poético e metafórico (por vezes mesmo barroco) que muitos lhe reconhecem; se o seu êxito editorial radica, acima de tudo, no reconhecimento duma competência específica, duma voz ou mesmo dum idiolecto de literatura, parece-me a mim que é mais problemática, neste Fado, a concepção do que avisão justa da História da nossa Revolução.

Não tanto por razões ideológicas objectivas, mas sobretudo ao nível duma avaliação sintomática do período histórico, político e social a que este romance se reporta, sou levado a considerar que a visão do Autor sobre as transformações operadas se ressente de um excessivo pessimismo, acabando até por desembocar numa espécie de delta da dissolução sem remédio, aliás antevista desde a primeira página do livro. Neste ponto, teria eu preferido vislumbrar um outro clima de variações periodológicas que melhor se coadunasse com os desesperos, euforias, ilusões e desilusões do «Antes», «A» e do «Depois» dessa Revolução. Preferia também  ter visto um mais intenso cromatismo de situações que dessem ao fundo romanesco uma melhor sucessão dos tempos específicos. Ao contrário disso, o Autor parece incorrer num tom quase unívoco, arrastando sob o mesmo discurso períodos tão distintos como o estertor final da ditadura marcelista, o sucesso do golpe de Estado e o que se lhe seguiu. Curiosamente, a mole humana que apoiou e pressionou, nas ruas, as transformações operadas neste país passa quase despercebida às expectativas do leitor. Bem sei que teria sido fácil ao Autor envolver o universo relativamente fechado do seu romance com alguns garridos episódios de rua, que infelizmente se constituíram já em péssima literatura, pela mão de outros escritores; mas nem por isso a aparente omissão desse barómetro temporal, que é o fervor fecundo das multidões, me parece ter sido uma alternativa feliz. Ou só o será, no ponto em que a aposta do Autor é seria, pela recusa do fácil e a escolha do caminho mais longo.

A perspectiva escolhida é, se assim se pode dizer, a do tabuleiro de xadrez cujas peças maiores são constituídas por um grupo de ex-militares que se reúnem num jantar com o ex-comandante dum Batalhão expedicionário em Moçambique e à mesa procedem ao exercício duma memória de 10 anos sobre si mesmos e sobre o Portugal de «antes», «durante» e «após» Abril. E são peças secundárias desse jogo vivencial as relações multi-multiplicadas dos 5 (um Tenente-Coronel, um Comandante de Companhia, um Tenente, um Alferes e um Soldado), com uma série de segundos-planos familiares, profissionais e outros. À medida que o leitor progride na organização desta memória, infunde-se nele a sensação do crepúsculo, do tempo parado, das ilusões traídas, e finda tudo num ambiente de dissolução caótica, onde o cometimento dum crime, na pessoa do Tenente, é quase um acto de antropofagia (começa na cumplicidade dos assassinos e acaba na combina da ocultação do cadáver e no regresso de todos os outros ao marasmo dos dias). Não está implícito em tudo isto que a vida, a solidão sem fundo e as amarguras dos personagens não sejam tão verosímeis como as alegrias ausentes ou as euforias passageiras. A minha especial reserva centra no ponto em que terei de considerar Fado Alexandrino muito mais o romance dos seus personagens do que a visão exemplar, representativa e diversa, de toda uma sociedade que subjaz, em fundo, à montagem dos percursos dos cinco. Se a isto juntarmos os compromissos lógicos dos narradores sucessivos, fica completa a ideia de que este livro se desvia deliberadamente duma sociologia tipológica e portuguesa e acaba por enfocar num universo mais particular do que geral (ou social). É quase umrequiem sobre o tempo. Nenhuma especial vibração sobre palavras e conceitos como, por exemplo, liberdade e justiça. Nenhuma hipótese de futuro, até.

O próprio narrador dominante comunga deste mar de cumplicidades e recusas, a ponto de o seu olhar ser tão ou mais impiedoso e cáustico do que o dos personagens. Lisboa, a cidade-cemitério, é, por isso, um lugar onde sempre quase chove; a fisionomia das coisas é baça e fria; os materiais e os seres longínquos têm, quase sempre, um referente condicionado - o complexo do plástico. Mesmo o humor é violento, ácido e muito macho. Um desgraçado Tenente-Coronel, personagem principal, atravessa todo o calvário das solidões familiares, amorosas e profissionais, e é varrido, como um monte de ossos, de cargo para cargo e de posto em posto, até chegar a general - e tudo para nada. O seu envolvimento no golpe militar é aleatório e indiferente, porém cheio de equívocos e traçados descontínuos. Ele e os outros mostram-se, de facto, incapazes dum ideal, duma relação duradoura e duma firmeza de princípios. Até mesmo o trabalho político de alguns acaba por os conotar com uma espécie de «trânsfugas», com a rasura teórica e com o insucesso total.

Escritos assim, todos estes senãos talvez possam ser tomados como processo de intenção contra uma obra que, além de ter desconcertado alguns, acabou por ganhar quase todas as apostas junto do público. Gostaria, por isso, de deixar ressalvada a ideia de que é forçoso separar a análise anterior do que se me oferece dizer agora acerca de um processo de escrita que está longe de ser vulgar. Em primeiro lugar, Fado Alexandrinoé uma obra onde se acentua uma tessitura de escritas e uma arte combinatória muito segura de experiências narrativas por vezes muito diversas. Depois, a unidade, o fulgor da palavra e da imagem, o poder de escrita que se contém nesta prosa, cifram-se em páginas de inesquecível claridade. Digo mesmo que, se se tratasse de situar este livro no conjunto das anteriores quatro obras do Autor, parecer-me-ia elementar deixar escrito que o considero como o «livro dos seus livros», com tudo o que isso implica de palpável e de convicto. E não apenas porque este processo de melhoria e de maturidade deva ser imputado a um escritor que soma as virtudes do métier a um trabalho dos mais produtivos da actual cena literária portuguesa; mas sobretudo porque alia a exigência a um capital de pesquisas que, estando longe de considerar-se esgotado, é um caso típico de inquietação e daquele húmus criativo que nos torna solitários e nos remete para uma relação sofrida com a vida e com as pessoas. Além do mais, Fado Alexandrino tem tão seguras as aquisições de Explicação dos Pássaros, como acaba por envolver-se também dos mundos e traumas que fizeram de Os Cus de Judas um livro singular. Livro dos livros, também, porque é a retoma subtil dos grandes temas que vêm inspirando quase toda a obra do Autor. O tema da guerra colonial, p. ex., que colocou o escritor num lugar de referência sem precedentes. O inferno dos outros, a solidão punida e punitiva, o espaço do memorizado e do sofrido (visto e experimentado em Memória de Elefante e emConhecimento do Inferno), são outros tantos caminhos recobertos por este livro. Algumas da suas melhores páginas, de resto, bem podem aceitar-se como o refrão ou o coro trágico de todos os percursos, seja nos momentos em que África e o seus cães-de-quartel são reinvocados, seja nas novas solidões dos outros-com-os-outros. O penúltimo capítulo do livro é, por sua vez, um texto de tal intensidade poética, que compensa, por si só, os excessos metafóricos, as espirais de linguagem e as imagens menos felizes que de quando em quando pontuam uma escrita de quase 700 páginas, onde raras são as falhas de gosto e quase nulos os efeitos menores. Fiquem os leitores com a ideia de que a «monumentalidade» deste romance reside tanto nas suas dimensões físicas como na sua estrutura e na sua actualidade. Num país de literatura (quase sempre) apócrifa, e onde os grandes temas sofrem toda a sorte de acidentes e atrasos, até chegarem ao estatuto de ficção distanciada, escrever sobre o Portugal de hoje, como António Lobo Antunes o vem fazendo, é significativo dos muitos méritos e do êxito que os seus livros têm conhecido, aqui e no estrangeiro. Mas lá que a nossa superestrutura crítica não faça esse reconhecimento ou não se tenha apercebido ainda que há um novo conceito de literatura neste país de hoje [1984], é bem outra questão. A História, porém, também ensina que alguns dos nossos vivos serão sempre antepassados nossos.


* no texto original está "mais recente"

João de Melo
Colóquio Letras 82
Fundação Calouste Gulbenkian
Novembro de 1984

26 de outubro de 2005

Francisco Solano: Primeiros abalos


Aos 37 anos, António Lobo Antunes publicou o seu primeiro romance e deixou clara a sua intenção de renovar a maneira de contar. Memória de Elefante é uma indagação à alma humana.

O estilo não é um dom, mas sim fruto de muitíssimas horas de trabalho, de escrever constantemente, de emendar e cortar páginas, de não encontrar nunca satisfação. E, não obstante, há que chegar à máxima exigência e precisão, até que seja a mão quem escreva - a mão -, não a vontade. Lobo Antunes tem insistido, mais que uma vez, em que escrever é deixar que a mão busque as palavras: "Os livros já estão escritos, e tu apenas os descobres porque estendes a mão". Surpreende tanta humildade, tanta cuidadosa paciência. Não há nesta opinião qualquer vaidade sobre a qualidade do escritor, nem auréola de distinção de uma tarefa que se reduz a imenso trabalho. E isto disse um escritor que, na última década, tem vindo a publicar romances perturbadores, no limite do prodígio verbal, carregados de emoção e calamidade, que imprimem o processo de desconstrução da memória, revelam as maranhas dos sentimentos e nos hipnotizam com a expressão do indizível. Porém se os últimos livros do escritor português, empenhado em alargar ao limite o território do romance, subvertem o rito conciliador da leitura, na sua primeira obra já se aprecia o embrião do que viria a ser o seu estilo, a forma rebelde do seu talento, o seu fastio perante a convenção narrativa e, pode dizer-se, o pesar de ter que se dobrar numa composição de índole autobiográfica. Publicado em 1979, quando contava com 37 anos - Lobo Antunes poupou-se antes de aparecer em público -,Memória de Elefante anuncia um escritor perplexo, cuja introspecção da sua própria crise matrimonial se transforma na matéria efervescente e delirante de um homem cuja única garantia de estar vivo é a omissão do seu nome na página de necrologia dos jornais e que deve sobrepor-se, contra todos os prognósticos, à "vontade de se vomitar a si mesmo".

O protagonista é um psiquiatra na agonia da mudança, que não sabe que vai ser de si, em que se vai converter, depois de ter decidido separar-se da mulher que ama. Perdido em Lisboa, que se configura como uma cidade de estímulos tão mórbidos como inúteis, rival de si mesmo ("detestava cada vez mais emocionar-se"), ressentido contra a sua profissão ("o psiquiatra assemelha-se aos vendedores de automóveis na sua loquacidade demasiado delicada e bem vestida") e raivoso contra todos ("que se defendiam melhor do polvo gelatinoso da depressão"), assistimos à emergência dos atributos mais inextrincáveis do ser humano, aos impulsos mais desesperados e à suspicácia existencial de que não há saída, de que "é realmente muito fodido ser homem, não é?". Contada por uma voz só aparentemente externa, já que surge das entranhas da personagem, a narrativa desenvolve-se à maneira de uma confissão mortificante que, ao pôr-se por escrito, permite suportar a angústia de uma solidão aborrecida e desejada, único lugar de onde se reconhece e mitiga, paradoxalmente, a angústia da autodestruição.

Assim o tormento do psiquiatra, causa da sua depressão, não radica na sua crise conjugal, nem na sua beligerância contra o homem comum, mas tem origem na sua vocação radical pela escrita, uma paixão que antecipa o fracasso ao comprovar que "os romances e poemas que perpetrava sem escrever formavam como que uma prolongação narcisista sem conexão com a vida, arquitectura oca de palavras, desenho de frases vazias de emoção". Contra essa separação entre escrita e vida se estenderá depois toda a obra posterior de Lobo Antunes. Mas em Memória de Elefante essa ruptura, como o divórcio dolorosamente assumido do psiquiatra, está bem apetrechada de belas imagens, metáforas engenhosas e piruetas verbais - tudo temperado, ainda, com nutridas menções culturais - , que se acumulam para decorar o texto de "efeitos literários" e povoar a narrativa com um barroquismo falseado. Não obstante, incluindo esses mimetismos e excessos, o romance alcança um nível e intensidade admiráveis, e se impõe com tal convicção na análise da alma humana que invejariam Camus ou Dostoievsky. Primeiro abalo de uma novelística excepcional, poder-se-ia dizer sem presunção que aqui está já Lobo Antunes por inteiro.


por Francisco Solano
01.10.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

6 de outubro de 2005

Ángel Basanta: Segundo libro de crónicas


Este Segundo Livro de Crónicas de Lobo Antunes, um dos romancistas mais importantes da literatura portuguesa das últimas décadas, é a continuação do que foi publicado há alguns anos [Livro de Crónicas].

Na sequência do primeiro, também esta segunda compilação é composta por artigos que o escritor  tem vindo a escrever na imprensa de diferentes países, entre eles Espanha. Faz tempo que Lobo Antunes ganhou um merecido reconhecimento como escritor entre o os maiores da literatura europeia actual. Por isso estas crónicas, que são o testemunho íntimo do pensamento, das ansiedades e das aflições do criador de grandes romances como O Esplendor de PortugalExortação aos Crocodilos e  Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, entre outros, guardam um elevado interesse para aqueles que pretendem conhecer mais sobre o escritor que tem vindo a colocar o melhor da sua vida nos seus livros, uma vez que o homem e o escritor são o mesmo na sua pessoa.

O livro tem 78 crónicas que compõem uma autobiografia parcial, aos poucos, fragmentada. Na sua maioria os textos estão escritos na primeira pessoa, num tom confessional, orientado para a reflexão ou para a narrativa, segundo o tema tratado em cada caso. Pelo que foi dito anteriormente, os mais interessantes são aqueles em que o autor reflecte sobre o seu trabalho pondo a descoberto a sua insegurança literária em considerações sobre a sua escrita. A permanente ambição sempre insatisfatória do autor arde em vermelho vivo nas matérias incandescentes que o homem e o escritor põem no fogo da criação literária. São muitos o textos que abordam estas questões. Entre outros, destacam-se  "Receita para me lerem" e "Assobiar no escuro". Neles oferece-nos uma escrita poética e a leitura autocrítica das suas obras, a partir de uma focalização supra genérica e a profunda convicção na dignidade do romance. Aqui mostra a sua angustiante concepção da literatura: "A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente", a qual conduz "ao encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do espírito". "Gostaria que os meus romances não estivessem nas livrarias ao lado dos outros, mas afastados e numa caixa hermética, para que não contagiem as narrativas alheias ou os leitores desprevenidos: é que sai caro buscar uma mentira e encontrar uma verdade" (págs. 91 e 92 [109 e 110 na 1ª edição portuguesa] ).

Mas a literatura, como criação do autor e a sua recriação na leitura, ainda que sendo mais importante, mais a música, o cinema e a arte em geral não são os únicos temas desta autobiografia dispersa. A memória do escritor lisboeta evoca e revisita experiências da sua infância com a sua família, recorda o horror vivido em Angola, o seu desinteresse pelo exercício da medicina (que abandonou: Lobo é psiquiatra) para se dedicar por inteiro à literatura, rememora a comunhão fraternal com os amigos da sua vida (como Cardoso Pires e Eugénio de Andrade), revive a sua relação conflituosa com Portugal, conta alguns episódios de viagens e reflecte sobre o amor, a dor e a morte. De tudo isto se fala nesta confissão plural de um escritor fundamental do nosso tempo, tão necessário nesta época de mentiras e frivolidades que nos dificulta a compreendermo-nos como seres humanos com as nossas aflições e o nosso desamparo no inexorável passar do tempo.

por Ángel Basanta
17.02.2005
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

5 de setembro de 2005

Matilde Ferreira Neves: Comentário a O Manual dos Inquisidores


«(...) os operários da fábrica que discursavam na rua a tratarem-nos por camaradas, a prometerem-nos casas de graça, a afirmarem que éramos livres e eu pensei

- Livres de quê?

já que a miséria permanecia a mesma só que com mais gritaria, mais bêbedos e mais desordem por não haver polícia» - Eis o retrato do pós de 25 de Abril que Lobo Antunes nos desenha em traços de quase caricatura no seu livro O Manual dos Inquisidores.

Uma obra que nos fala acerca do fascismo vigente antes e mesmo depois do 25 de Abril cuja narração é feita por personagens que se sucedem e alternam, que se revelam ao serem inquiridas por um narrador incógnito (trata-se, no fundo, de um romance eleborado pelas próprias personagens). O autor trabalha este romance no sentido de torná-lo, de algum modo, intemporal, constituindo uma amálgama do ontem e do hoje, apresentando-nos um elenco de tipos sociais que ainda persiste nos nossos dias, na tentativa de mostrar-nos que, se calhar, a sociedade não terá evoluído tanto como as pessoas o pretendem.

Temporalmente situado entre os anos 60 e 70, o Manual dos Inquisidores relata-nos as relações de poder de um ministro de Salazar, à volta do qual girará a própria narração do livro. Ministro que sendo cruel, é também capaz de amar, que sendo duro, é também carente, que abandonado e traído pela esposa, tentará reencontrá-la em outras mulheres, ora de forma agressiva e máscula («- Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão.»), ora de forma terna («(- Isabel

o meu pai em segredo, de lábios contra o chão, de ventre contra o chão

- Isabel

o meu pai quase terno

- Isabel)»). - Pinta-se, no decorrer da obra, o retrato de um homem prepotente e iludido pelo próprio poder, confrontado, no limite, com a solidão e com os seus fantasmas pessoais, que acabará derrotado pela idade e pela senilidade a ela inerente, vencido por uma obssessão extrema contra os comunistas, que o seu filho saberá descrever: «o meu pai que um ano depois da revolução teimava em esperar os comunistas (...)

- Já não há nada que me consigam tirar».-Um ministro despojado do amor e do poder, que se transformará numa sombra apenas, exilado numa clínica onde virá a perecer.

O Manual dos Inquisidores é um livro que reflecte o poder e os seus abusos na época salazarista(«aquilo que um protegido do professor Salazar afirma, por mais estranho que seja, ou é verdade ou os jornais vão garantir amanhã que é verdade o que equivale ao mesmo, e se a gente os contraria dá com os costados na polícia, de farol na cara e um chefe de brigada a convencer-nos com estalos evangelizadores, de que lado se acham o interesse do país, a virtude e a razão.»); no qual a gente pobre, conformada, apesar da miséria, não sentia pena nem raiva, nem nada, a não ser algum conforto por ainda persistir.

Uma viagem alucinante, ao real que nos transtorna e que, por vezes, nos leva ao riso: «e após a morte do meu pobre ofereceram-me um pobre mais novo que durasse mais tempo, saudável, ainda sem tosse, baptizado e com as vacinas em dia, aconselhado pelo senhor prior por não ter vícios nem ser capaz de me faltar ao respeito, que tive de mandar embora no Natal seguinte e de me queixar da sua falta de educação nas noelistas porque caí na asneira de lhe dar dez escudos e ao recomendar-lhe

- Agora veja lá não gaste isso tudo em aguardente

respondeu-me malcriadíssimo a virar e a revirar a moeda

- Claro que não menina claro que não fique descansada que vou direitinho ao stand e compro um Alfa Romeo»).

Relações de poder frustradas, relações amorosas falhadas, que deixam entrever as carências mais diversas («e no entanto eu gostava de si pai, gostava de si, não fui capaz de dizer-lhe mas gostava de si», «o meu pai que não me recordo de conversar comigo, me dar um beijo, me pegar ao colo»).

Um romance real e humano que, apesar de tudo, termina com o ministro esperançoso, cuja frase inacabada que fecha o livro nos relembra, talvez, que fica sempre algo por dizer...


por Matilde Ferreira Neves
citado daqui
[não datado]

30 de agosto de 2005

Bruno Carriço: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Eu hei-de escrever assim (quem dera)

Terminei hoje de ler "Eu hei-de amar uma pedra", de António Lobo Antunes. Foi a primeira vez que li algo deste autor, mas duvido que seja a última!

Quando comecei o livro, estranhei bastante a escrita, confesso. A pontuação é quase inexistente e as apóstrofes são abundantes, o que requer alguma adaptação de quem lê (falo por mim, claro). Ultrapassada esta "fase" de adaptação, a leitura já se faz de forma mais natural e começa-se a apreciar verdadeiramente o génio de Lobo Antunes.

Folha a folha, fui descobrindo autênticas preciosidades nesta obra. Preciosidades, sobretudo, na descrição de gestos/coisas banalíssimas. Tenho pena de não ter marcado várias destas passagens, para agora ilustrar o que me "seduziu", mas são tantas páginas que mais me valia ler o livro de novo, se as tentasse procurar. Marquei apenas dois pequenos excertos, quando me apercebi que queria partilhá-los com o blog (e convosco, por consequência).

Começo por perguntar: como descreveriam um negativo de fotografia?

Parece uma coisa sem jeito, mas Lobo Antunes atira-nos com "...a minha mãe a esmiuçar negativos onde fantasmas, não pessoas, com o branco e o preto ao contrário, feições pretas, roupas de aparição que flutuavam...".

Dei por mim a imaginar negativos e a verificar como estas palavras traduzem o que vejo neles. Que simplicidade...

Relógios de estações de comboio/metro são outra coisa que nos fartamos de ver e que só nos interessam se precisarmos de saber as horas. É natural.

A atenção de Lobo Antunes é que é outra!

"...disseste nove menos vinte no instante em que o impulso do ponteiro nove menos dezanove, não o traço grosso, um traço fininho, o relógio sem números, quatro traços fininhos entre dois traços grossos ou seja quarenta e oito traços fininhos e apenas doze grossos..."

Arrisco-me a dizer que, além de grande escritor, Lobo Antunes dava um fotógrafo fantástico, pela sua capacidade de observação.

"...e o relógio do metropolitano prestes às nove menos dezoito que se percebia no ponteiro a vibrar para o salto, não mudava para o traço seguinte
(traço fino neste caso)
cobria-o por completo, apoderava-se dele, anulava-o..."

Sempre reparei naquele instante em que o ponteiro dos minutos se prepara para avançar, nestes relógios, e naquela pequena tremedeira, naquela hesitação. Nunca me passou de uma simples e patética observação. Até à altura em que li esta passagem!

E podia demorar-me aqui mais umas horas, enumerando estes deliciosos registos, mas acho que já mostrei a minha admiração de forma clara e o post já deve estar a dar sono a muita gente! :)

O título desta entrada é uma ambição, nunca uma obsessão!

por Bruno Carriço
15.04.2005

18 de agosto de 2005

Gonçalo Mira: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Este ano celebram-se os 25 anos de carreira de um dos mais importantes e incontornáveis nomes da literatura portuguesa: António Lobo Antunes. E que melhor forma de celebrar a efeméride do que com um novo romance? Foi, exactamente, o que fez Lobo Antunes, presenteando os seus fiéis leitores com um novo romance, intitulado “Eu hei-de amar uma pedra”.

É uma boa sensação quando acabamos de ler este livro. E isto é paradoxal porque eu adorei o livro. E, supostamente, quando se gosta muito de um livro, queremos que nunca acabe. Mas Lobo Antunes é diferente de tudo o resto. O livro é belo, aliás belíssimo, mas dói. Dói porque as suas personagens sofrem e fazem-nos sofrer. Vivem uma existência angustiante, sentimentos inconfessados, segredos, medos, saudades, amores. Um turbilhão de sentimentos que nos deixa completamente atordoados. Depois há um constante apelo ao passado, aquilo que marcou a infância de cada e que nos mostra exactamente porque é que aquela pessoa é como é. E nisto António Lobo Antunes é exímio. A sua obra vive de personagens fortíssimos, no sentido em que são construídos na perfeição. Simplesmente na perfeição. Têm os seus defeitos, as suas virtudes porque são humanos. Precisamente humanos. E é essa outra palavra chave para este romance e para a obra de Lobo Antunes. Neste romance existem humanos iguais àqueles que moram no nosso prédio, iguais àqueles que costumam ir ao nosso café,  iguais àqueles com que nos cruzamos todos os dias. E é isso que torna Lobo Antunes, na minha humilde opinião, o maior escritor português e um dos maiores a nível internacional, na actualidade: sabe criar personagens que nós conhecemos.

Quando comprei o anterior romance do autor, "Boa tarde às coisas aqui em baixo", foi-me oferecido um pequeno livrinho onde estava uma “receita” para ler Lobo Antunes, escrita pelo próprio. Dizia ele que os seus livros não são para ser lidos, mas sim apanhados, como se apanha uma doença. E é mesmo verdade. Além disso dizia também que o que importa não é a história mas sim as personagens e o que elas sentem. Lobo Antunes viaja ao âmago dos sentimentos humanos como nenhum outro escritor.

Este romance, "Eu hei-de amar uma pedra", conta uma história de amor entre um senhor e uma senhora que já não são jovens, que se encontram depois de passados muitos anos sem se verem. Ele julgava-a morta e, portanto, fez a sua vida: casou, teve filhos. E ao encontrá-la de novo, viva, a paixão que tinham vivido renasce e começam a encontrar-se numa pensão. Mas este belíssimo romance conta muito mais do que isto. Descubram-no por vós próprios. Recomendo vivamente a toda a gente que ainda não descobriu este maravilhoso autor, que o descubra, pois ainda vão a tempo.

Para quando o Nobel deste senhor?

por Gonçalo Mira
2003

8 de agosto de 2005

Belém Barbosa: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


«o passado continua a acontecer em simultâneo com o presente»

Fotografias, Consultas, Visitas, Narrativas - quatro partes onde se organizam histórias individuais de solidão e desamor, de impossibilidade de amar gerada por carência profunda, por rejeição, por abandono.

Um colega de Lobo Antunes ter-lhe-á contado uma história de um amor impossível que se manteve ao longo de mais de 50 anos em encontros secretos numa hospedaria de Lisboa: um casal que se reencontra casualmente, depois de uma separação abrupta por razões de saúde, a que ela supostamente não teria sobrevivido.

O escritor deixou-se seduzir e, pela primeira vez nos seus livros, um homem (que nunca tem a palavra) sabe que é amado; uma mulher mantém-se firme a seu lado, sem nada aceitar em troca, renovando semanalmente a sua intenção de não o deixar nunca. A envolvente é de uma solidão urbana extrema, que mais sublinha a impossibilidade deste amor.

Quanto à forma, mantém-se o apurado rendilhado narrativo de Lobo Antunes, mais difícil na primeira parte, em que os fragmentos da história se apresentam soltos, as personagens desligadas do enquadramento social e localizadas nas fotografias que nos vão sendo mostradas. Depois, pouco a pouco, penetramos nos segredos e no passado emocionalmente devastado de cada um dos seres, de que não se conseguem libertar.
  
por Belém Barbosa
Abril 2005

21 de julho de 2005

Dauro Veras: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Quatro mulheres compartilham um segredo terrível ligado aos homens com quem vivem. Suas memórias e a opressão de carregar o segredo compõem o cenário deste romance do português António Lobo Antunes. Por meio dos monólogos interiores de Mimi, Fátima, Celina e Simone, o escritor conta a história fictícia da rede de extrema-direita que cometeu atentados em Portugal nos anos setenta.

Elas expõem seus pensamentos de forma fragmentada, alternando-se umas às outras capítulo após capítulo. Mimi é surda e sofre de câncer. Na sua lembrança está sempre presente a avó, matriarca que mergulhava a trança dos cabelos em aguardente e que lhe ensinou a fórmula da coca-cola. Seu marido participa da organização terrorista, trabalhando para um bispo católico. Fátima é afilhada e amante do bispo. Celina é a esposa atormentada e depois viúva de um homem rico. E Simone namora o rapaz que monta as bombas.

Lobo Antunes não apresenta amenidades ao leitor. Exige-lhe dedicação para avançar entre palavras interrompidas, digressões, misturas de vozes e tempos, longos trechos sem ponto final. É preciso ir, pouco a pouco, montando um quebra-cabeças de estilhaços, composto de imagens da infância, sabores, objectos de estimação, humilhações quotidianas. A culpa está presente em todos, de uma forma ou de outra: o general e o bispo são mandantes de assassinatos. Militares e diplomatas articulam o contrabando de armas. As mulheres são cúmplices silenciosas. Elas têm em comum entre si uma profunda solidão.

A linguagem inusitada parece, a princípio, uma barreira para a fluência da narrativa. Mas aos poucos vai-se penetrando na consciência sofrida das protagonistas, percebe-se seus desejos, medos e frustrações. Da metade para o fim o ritmo se acelera e alusões que pareciam enigmáticas começam a ganhar sentido. Mas para cada leitor, esse sentido será único, com peças montadas a seu modo e outras que não se encaixam. Assim como a verdade permite distintas interpretações, o universo mental das quatro mulheres oferece um campo vasto para que se desfrute o romance com uma verdadeira sensação de co-autor.


por Dauro Veras
Junho 2001

1 de junho de 2005

Rafael Conte: sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Amor e morte em Lobo Antunes

No romance do autor português confluem duas histórias: a relação com sua mulher e a fascinante história de uma doente mental de quem tratou como psiquiatra. Narrativa, poesia e ensaio, na sua obra mais autobiográfica.
   
António Lobo Antunes - talvez o escritor mais importante e original do romance de hoje a nível mundial, recentemente premiado com o União Latina e o Jerusalém 2005 - persiste e assina de novo o seu último livro, o décimo sétimo ou décimo oitavo segundo creio, imperturbável a todas as mudanças que sucedem à sua volta, dedicado até à exasperação numa escrita que o "abduz" (não encontro outra palavra) por inteiro.

António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) é um escritor muito complexo, de acesso difícil mas que fascina os seus leitores quando o são de verdade, pois acabam arrebatados pelo poder da sua escrita, que os arrasta para além da sua compreensão lógica "normal". Uma escrita "poética", que vem de um pré enamoramento da poesia que escreveu na sua juventude mas que destruiu por completo; porém este pressuposto do poético é o que preside sempre em toda a sua narrativa. Ao mesmo tempo, a sua experiência africana - foi médico militar durante quase três anos na guerra de Angola, uma das suas grandes experiências vitais, que surge em vários romances seus - fê-lo experimentar um novo conceito do tempo: em África aprendeu a simultaneidade do tempo (pois o passado só vive no presente e o futuro desconhece-se) que nos seus livros se entrecruza com a multiplicidade dos cenários, das vozes e das personagens, o que converte a sua prosa em algo muito complexo para quem procura ler romances "normais", com argumentos seguidos na sua cronologia e discurso narrativo, segundo o que é habitual no mercado do nosso consumo literário.

O seu discurso é no fundo "poético" e pratica a simultaneidade contínua de tempos, vozes e cenários em que o leitor pensa que existe um discurso intelectual que o nutre totalmente e o sustenta, como se o ensaístico se filtrasse assim mesmo no narrativo. O que não é, poesia, ensaio e narrativa são os três pilares que sustentam à sua vez esta obra singular, sem que possamos separá-los do enredo. Daí que os seus livros tenham de ser lidos com a máxima atenção, e não perder qualquer detalhe, incluindo as entrelinhas que acompanham o discurso, pois tudo quer dizer algo. Um exemplo: ao iniciar o novo livro, há uma dedicatória digamos que "negativa" que se afirma na sua ausência: "Nesta página estava uma dedicatória aos meus pais. Ainda está." Com ela se manifesta um dos vectores principais do romance, na formação das relações difíceis (pouco dedicadas, raramente carinhosas, mas sempre irrepreensíveis) do autor com os seus próprios pais, com quem teve sempre uma falta de comunicação, repleta de reticências (diziam que não o liam, ou não o entendiam), mas sempre tão irrecusáveis que a sua ausência futura não as interromperá mais.

Como no título se diz também que o narrador (o poeta que nos fala, por quem os outros nos falam, as vozes à sua vez narradoras que surgem em cada situação ou cenário, buscando-se a si mesmas através delas - e deles) "há-de amar uma pedra" (verso de um antigo cancioneiro português) que conclui: "Beijar o teu coração". Assim temos o segundo vector para entender o romance, pois trata-se, como acontece quase sempre com este escritor, de uma história de amor implacável, e que venha a terminar com a morte. É outro elemento autobiográfico no romance (os detalhes autobiográficos abundam nos seus últimos livros, muito mais que nos primeiros [...] ainda que elementos da sua própria experiência abundem em toda a obra desde o princípio, daquela Memória de Elefante - 1979 - que era a sua própria) e que não é mais do que a evocação do seu amor com a sua primeira mulher e mãe das suas duas filhas mais velhas, com quem se casou muito jovem, compartilhou os primeiros segredos e aventuras da juventude, do sexo à aventura africana, e de quem se separou inopinadamente depois da "revolução dos cravos"  (revolução de que estava certo, mesmo sem ter participado) com a explosão de liberdades que Portugal conheceu entretanto. O matrimónio desfez-se, ainda que o casal se desse razoavelmente bem, mas mais tarde sua esposa ficou fatalmente doente que o marido, médico sempre, ficou do lado dela, regressando ao seio familiar. Com esta segunda linha narrativa - a do amor destruído pela morte - completa-se a história da incomunicação paterno-filial inicial, mas ainda falta a história central, surgida da doença mental de uma paciente já idosa (de quem se diz reiteradamente que a sua idade pôs de acordo os seus anos e o seu corpo) e de quem tratou no seu exercício da medicina.

Para ordenar este caos aparente, Lobo Antunes divide o livro em quatro partes que facilitam os leitores precipitados, ainda que depois, em cada uma das partes, faça as suas devidas correspondências (ou interferências). A primeira, intitulada As fotografias, baseia-se em imagens da sua própria existência, que começa com uma foto da sua mãe tirada num dos seus aniversários - como digo, este é um livro claramente autobiográfico - e logo se complica, debulhando a sua vida ao longo de mais dez fotografias. Mas logo vêm "as consultas" (cinco) e "as visitas" (três) que se referem às consultas médicas com a doente encontrada no hospital lisboeta onde tratou a citada paciente, primeiro como profissional e depois prolongando o seu trabalho sobre um tema cuja personagem o fascinou. Por último, sete "relatos" completam a história deste livro no fundo inesgotável, baseado em três pilares incontestáveis - a relação com seus pais, o amor pela sua primeira esposa falecida e a paciente inexaurível que o importuna até a um final que talvez não venha a chegar. Três relações difíceis e de certo modo impossíveis, que se entrecruzam no interior da existência de um narrador infatigável, e que reaparece em ocasiões com o seu apelido inicial (o "pimpolho" que cresce) e até com o seu nome próprio ou para fechar um livro numa verdade inesgotável. É o mesmo livro de sempre? Talvez, mas as histórias seguem encavalitadas como sempre, tropeçaremos na mesma pedra em que se convertem os sucessivos rostos cegos dos amantes - e a imagem de Magritte do frontispício que nos mostra cegos é perfeita - que estão condenados a não ver-se, a converterem-se na pedra que têm que beijar por meio da autodestruição e frente à morte, porque trata-se de uma história condenada a repetir-se até ao final, pois é essa a sua esperança, a última a morrer, e menos mal, mas continuar amando a pedra e beijando o coração, haja coragem.

por Rafael Conte
14.05.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

4 de maio de 2005

Carlos Eduardo Ortolan Miranda disserta sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


A TAUROMAQUIA CRUEL DE LOBO ANTUNES

Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, o autor português leva ao ápice sua literatura radical

Existem em nós divisões, alienações, guerras e palavras.
Paul Nizan, Aden, Arábia

A literatura contemporânea de Portugal tem desempenhado um papel de destaque na prosa e na poesia européias. Contrariamente à relativa vaga de reduzida inspiração de nossas letras, que têm se debatido à deriva em uma discussão um tanto inócua entre os transgressores e os acadêmicos, os lusitanos ostentam uma produção literária do mais alto nível e que, estranhamente (ou nem tanto), é quase completamente desconhecida entre nós.

Dentre os autores que pouca ou nenhuma divulgação tiveram no Brasil, destacaria a poesia reflexiva, erudita, de tom elevado e lírico de Nuno Júdice, o experimentalismo dos romances de Almeida Faria, a prosa intimista, tensa, no limite do discurso poético de Rui Nunes, os contos angustiados de Pedro Paixão, o monólogo interior de Augusto Abelaira e as crônicas desabusadas e saborosíssimas de Miguel Esteves Cardoso. As ficcionistas portuguesas também comparecem com importância, notadamente as romancistas Agustina Bessa-Luís, Teolinda Gersão, Lídia Jorge e Inês Pedrosa.

Alguns escritores têm conseguido, entretanto, furar o bloqueio intelectual e aportar às livrarias nacionais. É o caso de António Lobo Antunes, cujo mais recente romance, “Boa tarde às coisas aqui em baixo” (pela editora Objetiva, que adquiriu os direitos de toda a obra do autor) teve lançamento quase simultâneo no Brasil e em Portugal.

Tanto melhor para a cultura nacional. Escritor profundamente original, o médico psiquiatra nascido em Lisboa é um outsider das letras portuguesas, muito embora seja autor dos mais premiados e incensados pela crítica literária internacional, e considerado a voz mais importante da literatura atual de seu país.

No lugar do sentimentalismo e do derramamento romântico que habitualmente caracterizam parte da literatura de Portugal, Lobo Antunes erigiu uma obra vigorosa e desafiadora, na qual, através de influências de autores como Faulkner e Céline, acompanhamos um roteiro para um passeio ao inferno das situações-limite da condição humana.

Nessa direção, a vivência de Lobo Antunes como médico do exército português na guerra colonial de Angola fornece a matéria histórica para a maioria de seus romances, como em “Os cus de Judas” (pela Objetiva), “Fado alexandrino” e “O esplendor de Portugal” (editora Rocco), já também publicados entre nós.

Essa comédia humana do horror e do desespero perpassa hospitais psiquiátricos, a insanidade da guerra, a morte sem honra, a miséria dos colonizados e a sanha destruidora dos colonizadores. Entretanto, desse ideário de niilismo e terra arrasada, graças à arte do escritor poderoso e de imaginação aparentemente inextingüível, emana uma poesia difícil, de imagens incomuns e que jamais apela ao efeito simples da prestidigitação verbal. “Boa tarde às coisas aqui em baixo” não é um livro de digestão fácil, como já deve ter atentado o leitor. Além da temática pessimista já apresentada, é nesse romance que os aspectos técnicos, as soluções formais para a realização da narrativa atingem o grau de maior radicalidade já encontrado na obra do autor.

O entrecho é razoavelmente simples, quase banal (e, de fato, praticamente se dissolve no transcorrer do livro): um agente do exército português é enviado a Angola. O objetivo: eliminar um seu antecessor, que cumprira tarefa similar.

A partir daí, distendem-se as preferências de Lobo Antunes pela narrativa fragmentária, pela constituição polifônica do romance, na qual as diversas vozes e percepções das múltiplas personagens parecem ecoar umas às outras num jogo especular no qual a totalidade não parece poder ser reconstituída.

Um agente procura um agente que procurava um agente. Nessa ciranda de personagens enlouquecidos, os matadores confundem-se com suas vítimas, os carrascos são, simultaneamente, caça e caçador, instrumento e objeto, perseguição e alvo. Uma arena de touros cegos que buscam, feridos, a saída do labirinto.

Não é casual que o topos da tauromaquia compareça nesse teatro de títeres, que perceberão que apenas cumprem ordens de traficantes de diamantes da metrópole colonial; sendo inextricavelmente matador e touro, as personagens da corrida combatem pela estrita sobrevivência, e a consciência se debate entre o passado e o presente, numa arena em que a pergunta pelo sentido não parece mais ter relevância efetiva e na qual o sacrifício não trará remissão.

Temos então um libelo pacifista contra a guerra colonial e o massacre inútil, mas financeiramente lucrativo, uma versão atual para o “Coração das trevas”, de Conrad?
Lobo Antunes insurgiu-se sempre contra tais leituras reducionistas de sua obra (que também não se aplicam a Conrad, vale destacar). Embora a experiência traumática da guerra perpasse indelevelmente o livro e forneça-lhe o substrato histórico e o entrecho, a constante remissão a planos móveis, temporais e espaciais, impede a leitura puramente sociológica, na acepção vulgar do termo. Não se trata apenas de um romance sobre a guerra colonial, mas, em termos mais ambiciosos, da luta da consciência em sua tentativa de compreensão de nosso estar no mundo.

De fato, os matadores (e futuros touros abatidos) comprazem-se em relembrar Portugal estando em Angola, e vice-versa. Assim, das descrições da barbárie e do genocídio, do massacre da população civil e do racismo, da missão inglória de um homicídio por motivo econômico a mando oficial do Estado, passamos às recordações da vida familiar dos assassinos, ao plano da memória dos seus dramas domésticos de desamor e solidão, de suas lembranças infantis e pequenas alegrias e desencantos cotidianos.
Presente e passado (na ausência de futuro), Portugal e Angola, relativa paz doméstica e atualidade horrenda movem-se em dialética cruel e insolúvel. A reflexão especular, a rotação espiral ou o movimento pendular, demarcados pelo uso de repetições de frases, que pontuam, como coro musical, o ritmo do romance, traduzem essa ação inútil, essa história que não se realiza, a não ser como negação, trabalho de touro-Sísifo.
Como toda grande obra de arte, a obra de Lobo Antunes é um convite à viagem. Viagem interior em que contemplamos o sublime e o grotesco, a dor e o sorriso, a gratuidade e o desejo de ordenação de um mundo que se afigura caos e desesperança. De algum modo, mesmo exauridos e tocados pelo universo de horror, sentimos que se opera em nós o milagre propiciado pela literatura. Jamais seremos os mesmos depois da leitura de António Lobo Antunes, esse taumaturgo da palavra.


por Carlos Eduardo Ortolan Miranda
É tradutor e crítico, mestrando em filosofia na USP.
via Trópico (Brasil)
não datado

30 de abril de 2005

Belém Barbosa: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


«existo ao mesmo tempo em todos os lugares da minha vida»

A memória é um dos elementos fundamentais da obra de Lobo Antunes. Cada ser é, em cada momento, invadido pelo seu passado, incapaz de controlar memórias que se atropelam umas às outras e se misturam com o presente. As personagens são complexas, muito ricas de passado e sequiosas de comunicar, envoltas que estão no silêncio, no esquecimento, num não-lugar familiar e social.

«a única coisa que pretendo é que me deixem em paz sozinha comigo ou antes sozinha com isto que não sou eu e em que me tornei»

Essa sede de comunicação torna o discurso tenso e ritmado, em que pontuação omissa pela urgência de falar é compensada pela expressividade e pela poesia.

Tal como o tempo/memória, também “o que sou; o que penso que sou; o que gostaria de ser” não são estanques. Por vezes, o que é afirmado como real não é mais do que uma máscara/projecção dos desejos, como é expressa, por exemplo, no título da obra.

«o tempo imóvel, quer dizer muita coisa a passar em mim»

Lobo Antunes disse em várias entrevistas que cada livro é a reescrita dos anteriores. Neste seu último romance, a ligação aos demais livros é feita pelo reaparecimento de imagens e personagens que marcaram leituras anteriores, como o comboio, uma capeline, os carvalhos impossíveis. As próprias personagens brincam com o escritor, provocam-no: “deste-te bem com os pavões noutro livro?”

Apesar dos constantes reflexos de livros anteriores – provavelmente uma finíssima rede de reencontros, uma filigrana que sugere releituras, este livro não necessita de um profundo conhecimento prévio da obra antuniana; beneficia-a, é certo, mas não invalida a leitura menos experiente.

Como sedução primeira, um interessante exercício de germinação do livro, que ocupa o seu prólogo: o narrador (escritor?) inicia a narração com lentas hesitações, (não sei se ela disse; se calhar; não estou certo...), e avança não muito até questionar “será que remendo com palavras ou falo do que aconteceu de facto”, assim lançando um mote para conhecer, camada a camada, um ser que se expõe.

por Belém Barbosa
Novembro 2004

24 de março de 2005

Correio Braziliense: artigo sobre Fado Alexandrino


Podres da humanidade

O português António Lobo Antunes segue o caminho dos grandes escritores do século 20. No longo romance Fado Alexandrino, ele relata à exaustão a realidade sombria da Lisboa pós-guerra.

Ao ver publicado o seu Finnegans Wake, em 1940, o escritor irlandês James Joyce garantiu ao mundo literário da época que aquele livro iria dar muito trabalho aos críticos pelos próximos 300 anos. Tinha razão: Finnegans Wake foi escrito numa linguagem mais cifrada e atordoante, praticamente intraduzível, do que a do seu Ulisses, que é de 1922, considerado por grande parte dos críticos um dos maiores monumentos da ficção do século 20. Para escrever o Finnegans, dizem que Joyce reuniu palavras de um arsenal de mais de 60 idiomas e com esse método procurou narrar a saga da Irlanda, suas lendas, a história da cultura popular de suas raízes e da agonia humana.
  
A verdade é que depois desses esforços ficou difícil inventar algo em literatura que não fizesse os doutores da academia torcer o nariz, afirmar que esse ou aquele texto já nascia velho. Mas a história da criação humana é rica e imprevisível e a sua literatura após Joyce foi ainda mais robustecida por pelo menos uma dúzia de obras de valor escritas por nomes como William Faulkner, Marcel Proust, Louis-Ferdinand Céline com o seu magnífico Viagem ao Fim da Noite, Thomas Mann e a sua incrível Montanha Mágica, Albert Camus, João Guimarães Rosa, Ernesto Sabato, Jorge Luis Borges.
  
O problema é que ao varar a primeira metade do século passado a cultura não só literária, universal, entrou em declínio e mesmo algumas das obras escritas nas décadas de 30 e 40 já refletiam os murmúrios de agonia de um homem atônito com o advento do século das máquinas, das descobertas científicas, da morte dos valores, um homem que ainda parecia escutar o grito angustiado de Nietzsche que afirmou a morte de Deus. De um lado o mundo parecia entender as transformações como um portal do inferno que se abria com as garras das duas grandes guerras; de outro, alguém ainda podia sussurrar que essa era a história da humanidade, portanto repleta de abandono, ódio, renascimentos, com as revoluções sociais e individuais procurando erguer a arquitetura do mundo pela retomada dos valores, de uma economia que escravizava populações inteiras na Europa e nas Áfricas ainda povoadas de colonizadores sanguinários. É neste universo em que se encaixa o Fado Alexandrino, de António Lobo Antunes, obra que dá prosseguimento ao seu projeto literário de traduzir na ficção a realidade sombria dos anos da guerra colonial.
 
Sim, o mundo do jeito que está feito é inadaptável ao homem, por isso preciso de um pouco de demência e de luar, tudo o que não seja daqui, vibrava a voz de um solitário Camus que a duras penas salvava-se do suicídio dia a dia e todos os dias procurava reconstruir o seu mundo interior com a energia da arte enquanto a Europa e a sua Argélia ardiam sobre as cinzas de uma guerra que se foi encerrada para os generais se estendia pelas ruas de Paris, Londres, Calcutá, Bangladesh, Berlim e o mundo inteiro bombardeados pela dor e pela brutalidade de seus ditadores. Nesse cenário de destruição foram erigidas grandes obras da literatura, das artes plásticas (Picasso, Matisse, Dalí) num esforço natural da criação humana que nas figuras míticas da Fênix e de Sísifo possui a qualidade de renascer da pedra ou do fogo. É também nesse cenário, mas outros tempos, onde ecoa a voz de Antunes que costuma resumir a vida numa luta diária contra a depressão com a ajuda da literatura: ‘‘Escrever, para mim, é fuga ou equilíbrio’’.
  
Com Viagem ao Fim da Noite, Céline descortinava para o meio literário do começo da década de 1950 um cenário de absoluta violência que a guerra impõe, um horizonte fechado, cerrado na escuridão do fim e da vertigem, de tonalidade escatológica (no sentido dos tratados que estudam os excrementos) com a brutalidade poética de sua palavra cortante pondo no esgoto das crenças qualquer tipo de esperança. Era médico e escritor como o português António Lobo Antunes, e como poeta da prosa moderna acabou se entregando, dividido entre o médico e o poeta: ‘‘A literatura não merece tanto sofrimento’’. Mas foi longe no que fez e deixou no universo cartesiano do chamado fluxo da consciência diversos herdeiros de um verbo pretensamente inquieto e soluçante como alguns representantes da nouvelle vague, no cinema, os escritores do nouveau roman, entre outros autores de tantas correntes literárias que buscavam e clamavam pelo novo mas que pouco ou quase nada de marcante deixaram para a idade contemporânea. Afinal, quem ainda consegue se interessar pelo novo romance francês do final do século passado, ou pelos epígonos de Joyce e Faulkner, pela poesia concreta da mais dura lavra da inspiração que não aconteceu ou pelos escritores norte-americanos pós-Salinger?
  
O português António Lobo Antunes se inscreve na melhor e na maioria das correntes literárias citadas, vem desenvolvendo sua obra a partir da experiência de médico militar, da leitura de grandes poetas e ficcionistas da era moderna, com a diferença de ser dono de um talento para a poesia capaz de causar a um só tempo repulsa e encantamento, se comparado a um Allan Robbe-Grillet, por exemplo, e outros identificados com a literatura engajada do pós-guerra.
  
Ao enfileirar-se, no entanto, ao lado de um Céline ou de um Marcel Proust na força das descrições mais alucinantes de ambientes e pessoas de uma Lisboa pós-Revolução dos Cravos, o autor de Fado Alexandrino vai às raias do exagero e chega a ser até cansativo. Trata-se de uma obra híbrida e a sensação ao final da leitura é que o livro de Lobo Antunes — com suas 607 páginas — poderia ser muito maior se fosse menos extenso. Com o seu anarquismo virulento, a sua prosa que beira o esgar da esquizofrenia criativa, em alguns momentos, seu desejo cruel de pintar uma Lisboa eternamente sob o manto pardo e podre das derrotas humanas e das crises sociais; uma cidade que ao longo dos últimos 30 anos se transformou num depósito de imigrantes e de ex-combates mutilados por dentro e por fora após o chamado Vietnã Português, as guerras coloniais que eclodiram nos anos 60 em países como Angola e Moçambique, o escritor de A Ordem Natural das Coisas parece a todo instante querer convidar o leitor para a desesperança e a revolta.
  
Os personagens principais são militares que resolvem se reunir num restaurante sujo e sombrio de Lisboa para resgatar os dias de guerra, a memória de uma sociedade que naufragou nas campanhas militares de Salazar, ditador sanguinário que a exemplo dos ditadores do mundo inteiro levou à ruína um povo que agonizou durante 14 anos debaixo da violência e do desperdício da guerra, que poderia ter renascido com a Revolução dos Cravos, mas que ainda luta para renascer. Aí entra o aspecto político da obra, a crítica aos ideais da revolução vistos por um anarquista convicto como Lobo, aliás o motivo que o afastou para sempre de seu conterrâneo e desafeto José Saramago, marxista de carteirinha, e, entre outros, um dos eixos do romance que não convence nem emociona o leitor.
  
Há momentos, porém, de extrema poesia na obra, sobretudo quando alguns personagens como o alferes e o soldado resolvem relembrar a fase antes e durante a guerra colonial. Enquanto se empanturram de sanduíches e azeitonas e se afogam em garrafas de uísque barato e do pior champagne da casa, mostram-se em muitos momentos como verdadeiros rebotalhos humanos, mas que embora embrutecidos pelo sangue e pelo nada da violência ainda conseguem contemplar suas próprias ilusões pelas janelas do bar sumindo no horizonte do Tejo como se fossem barquinhos de papel. ‘‘Não me apetece puto esta monótona existência de alforreca, o primeiro copo num bar, a seguir ao emprego, sentindo-me infeliz, sentindo-me culpado, sentindo-me sozinho (...), entre objetos de louça e postais dos anos vinte, o meu surdo, veemente desejo (...) de ganhar, meu capitão, a adolescência que não tive’’, urra o soldado bêbado de lembranças da mulher que o deixou e de uma cidade que cresceu e ficou feia, imunda e perigosa como a maioria das cidades do mundo.

Sim, a prosa de Lobo Antunes faz escorrer enxames de palavras que o escritor parece despejá-las não de um balde de sintonia com a criação, mas de uma torrente após uma tempestade de visões do presente e do passado. A feiúra dos personagens, a terra sempre em ruínas e sem a emoção de um cartão-postal do passado, o sangue e o vômito, um homicídio e a cumplicidade dos assassinos, a náusea do tenente-coronel em seus dias de escriturário, pós-revolução (Kafka?), o horror do alferes pelas putas de Lisboa, enfim tudo em Fado Alexandrino remete às cloacas da humanidade. Ninguém escapa da virulência, da morbidez e da poesia aterradora deste que, como Céline, mas diferente dele, tentou narrar o pavor da guerra empregando uma escrita aparentemente nova porque fora dos esquadros da gramática normativa e da sintaxe.
  
O próprio Lobo Antunes costuma dizer em entrevistas que não se preocupa com o fio da narrativa, mas cuida de erguer personagens. Aos 60 anos, sempre lembrado para o prêmio Nobel de Literatura, o psiquiatra António Lobo Antunes começou a se dedicar ao ofício da literatura a partir de 1985 e afastou-se da medicina. ‘‘Escrevo livros para corrigir os outros, e ainda tenho muitos para corrigir’’, afirmou a um jornal português. Lobo Antunes é autor de 15 romances, a maioria publicada no Brasil pela editora Rocco. Certa vez queimou a primeira versão deste Fado, mais de 700 páginas, e o que está publicado é um terço das primeiras versões.


autor desconhecido
artigo citado de Correio Braziliense
edição 07.07.2002

28 de fevereiro de 2005

Cristina Robalo Cordeiro: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 149/150 de Julho de 1998 – pp. 431 e 432


«Escrever é sempre estruturar um delírio», diz Lobo Antunes, em entrevista ao jornal francês Le Monde de Novembro de 1997. Estruturar significa dispor as diversas partes em composição lógica dotada de sentido, construir um todo rigoroso, necessário e suficiente. E delírio, um estado de agitação emocional causado pela persistência de ideias em oposição manifesta com a realidade (ou com o bom senso), que conduz a uma construção simbólica em que entramos e nos instalamos em atitude de «suspensão de incredulidade».O Esplendor de Portugal é a estruturação perfeita de um delírio sem defeitos.

Angola. Imagens de uma terra por onde escorre toda a nostalgia do paraíso perdido. Angola e os caminhos de Angola, e as cores e os cheiros e o céu de Angola. Memória - ainda e cada vez mais - de elefante guardada como um bem, e que a fractura do tempo restitui agora em anéis que progressivamente se vão apertando.

Lisboa também, terra onde desaguam as mágoas dos que a ela regressam sem lhe pertencerem, estranhos ao palpitar da cidade onde tudo parece acanhado, tacanho, insípido, incolor.

Angola, Lisboa e uma família: Isilda, a mãe, Amadeu, o pai alcoólico, e os filhos: Clarisse, a leviana, Rui, o louco, Carlos, o mestiço, que casa com Lena, a repudiada, e algumas outras figuras a gravitar em torno deste núcleo central - família quebrada, desmembrada que equaciona a vida num misto paradoxal de paixão e de ressentimento.

Angola, Lisboa, uma família, em teia de palavras que constroem um universo imaginário através de uma composição exemplar: três partes, todas com dez capítulos, nos quais alternam sempre duas vozes: a da mãe, e as de cada um dos filhos, respectivamente Carlos, Rui e Clarisse. A voz da mãe, presente, pois, em cinco capítulos de cada parte, atravessa o tempo, varrendo anos por onde perpassa não apenas o presente do mundo que se desmoronou - de 24 de Julho de 1978 a 24 de Dezembro de 1995 - mas também uma época passada onde se entrevê certo brilho do mundo antigo, e que no seu discurso se confundem e misturam labirinticamente. Esta voz - como eco distante - entrelaça-se metodicamente com a dos cantos solitários dos filhos para lhes servir de referência e ir dando sentido aos farrapos dispersos das representações que configuraram o seu mundo mental e afectivo. Imagem de fidelidade - alegoria também do mundo que resiste: batida por todos os ventos, bons e maus, Isilda ampara, compõe, cola os estilhaços das coisas, para se deixar por fim confundir com a própria terra que a acolheu, rendida à sua força, aspirada pelo seu magnetismo.

A voz dos filhos ouve-se em monólogos interiores de temporalidade simultânea - voz de três consciências em noite de consoada «desunida», ligada pelo fio do pensamento que vai de uns para os outros. Carlos espera os irmãos, que não vê há quinze anos, para a ceia de Natal do ano de 1995, no seu pequeno, triste e degradado apartamento da Ajuda. Rui e Clarisse furtam-se ao encontro cheio de um sentido que já não faz sentido. As escassas horas de reunião familiar - que não chega a ter lugar - preenchem-nas os três irmãos, cada um no seu canto - e capítulo -, a embater na disforia dos seus quotidianos e a percorrer a lembrança de sítios e de gentes, lembrança que ora os aproxima ora os afasta, num movimento em tudo igual ao da vida. E são então as imagens de uma infância de alegrias e de invejas, de cumplicidades e de denúncias, de descobertas e de misteriosos segredos mal guardados pelos adultos e que não escapam ao olhar ao mesmo tempo ingénuo e lúcido das crianças que foram - as saídas da mãe, as visitas do chefe da polícia, a doença do Rui, a origem do Carlos, a causa do alcoolismo do pai. E também a presença de figuras tutelares, guardiãs de mundos ancestrais e opostos, pressagiadoras de um mal indizível e antigo: a avó, a Maria da Boa Morte. E dos objectos familiares - a boneca sem braço, o relógio da casa, «a esfera de vidro com renas a puxarem um trenó», as máscaras de madeira - onde bate o coração da vida de cada um.

E assim todos os momentos, todos os passos da história deste pequeno mundo são difractados por ângulos e olhares diversos - se não mesmo opostos - e todas as fotos deste álbum de família trazem rostos, gestos, posturas ao mesmo tempo reais e aparentes, de seres e de fantasmas, imagens! E a linha da vida das personagens, traçada aqui na fronteira do desencanto e da loucura, mais não faz do que reflectir a imensa, inevitável e atraente desordem do mundo!

Tudo isto no cenário de uma terra saqueada, esventrada, manchada por sangue fratricida, de uma História (de um mundo colonial) que não é costume contar-se assim, pois obriga a pensar as coisas de outro modo: os seres (iguais e diversos), a complexidade ambígua das suas relações, os valores que os regem - expressos pelos mesmos conceitos que nem sempre têm o mesmo valor -, os olhares que os guiam - de olhos que não olham da mesma maneira e que, olhando as mesmas coisas, vêem coisas diferentes.

E os quadros desta polifonia de vozes inquietas são eles próprios invadidos por outras vozes - as de fora: dos mortos que se recusam a morrer, dos ausentes que se recusam à ausência, dos outros (todos) que atormentam a vida (os sonhos ou as ilusões) de quem vive, e sobretudo ainda vozes de dentro: as que se escondem por detrás da consciência, as vozes dos desejos, dos medos e das angústias, que se recusam ao silêncio e gritam a loucura que espreita em cada dobra do ser. De todas estas vozes é feita a voz de cada personagem e por todas elas é habitada (decerto) a do Autor. O que se traduz por uma escrita que sistematicamente se suspende, se interrompe e se retoma mais adiante,cruzada de falas distintas - corporizadas em parágrafos, itálicos, parênteses que se entrelaçam (em mnemotecnia de apelos, alusões, variações, repetições), como se todas falassem ao mesmo tempo sem perderem o rumo do que dizem, dialogando sem dialogarem, entendendo-se sem se ouvirem. Em definitivo, um tecido textual que parece caótico mas não é, feito de fronteiras que o não são - estanques, as parcelas desta grande construção (de mundos, de seres, de emoções) são no entanto porosas e transmutáveis, e entre elas circula um fluido a que se chama vida (que o mesmo é dizer aventura insensata, delírio!) -, balizado por contrários que não encerram contradição: sob o modo dual da dissonância/consonância (discursiva), da transparência/opacidade (psicológica), do contínuo/descontínuo (temporal), em cenário atravessado pela morte (real, fantasmada, imaginada) e por formas várias de desamor, irrompe (em tudo e em todos), como um clamor trazido das profundezas, a força pulsional da vida e dos afectos.

Tudo enredado em prosa narrativa próxima do expressionismo literário, no excesso e navertigem obsessiva das palavras que infinitamente repetem o que é único e, no gosto e da distorção e da hipérbole, transformam o facto em acontecimento, entrançam o físico e o metafísico, a essência e a substância das coisas que aqui parecem brotar de uma mesma acidentalidade (fatal?, mítica?) visionária, arrastam o mundo e os objectos a metamorfoses que os ampliam e transfiguram.

Também o título deste romance de António Lobo Antunes é perfeito: não é com sarcasmo que se evoca «o esplendor de Portugal» em imagens de um submundo degradado e sórdido.  A magia (a ironia?) está na forma como neste mundo brilha O Esplendor de Portugal.


Cristina Robalo Cordeiro
Colóquio Letras 149/150
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 1998

22 de fevereiro de 2005

Nuno Barbosa: Comentário a As Naus


"Nunca encalhei, no entanto, em homens tão amargos como nessa época de dor em que os paquetes volviam ao reyno repletos de gente desiludida e raivosa, com a bagagem de um pacotinho na mão e uma acidez sem cura no peito, humilhados pelos antigos escravos e pela prepotência emplumada dos antropófagos."

As Naus poderiam ser vistas como uma colectânea de registos de retornados de África, fruto do processo de descolonização sequente ao 25 de Abril. Relatos soltos de vidas partilhando o movimento de regresso a uma tal de pátria, caminhos confluentes a um comum destino imposto - "Para onde vamos?"

A questão emergente é a da recusa. Afinal, ninguém quer, realmente, que eles retornem, que venham ocupar Lixboa e o Reyno, que tragam o cheiro de África, que se instalem, essa espécie de portugueses em segunda mão:

- nem a família - "a minha família de queixo amarrado em moedas de prata nas órbitas a fitar-me com reprovação, Este é o que foi para Luanda morar no meio dos pretos em lugar de explorar uma tabacaria na Venezuela ou um escritório de transportes na Alemanha, este é o que montou um comércio de talhante nos museus que, vendia costelas aos cafres, fez um filho a uma mulata, habitava um prefabricado da Cuca, nem um coche, nem um batel possuía, aos domingos espojava-se na sala de calções, a ouvir relatos de futebol e a comer merda da sanzala (...)";

- nem o Estado - "(...) o governo desocupou o hospital de tuberculosos que passaram a tossir nos jardins públicos hemoptises cansadas, e vazou nas enfermarias de muros de cenas de guerra e de actos piedosos, impregnados pelo torpor da morte dos desinfectantes, dos colonos que vagavam à deriva, de trouxa sob o braço, nas imediações dos asilos, na mira de restos de sopa do jantar.";

- nem eles próprios - "Os pretos tomaram conta disto tudo, instalaram ninhos de metralhadoras jugoslavas nas arcadas, assassinaram-se uns aos outros a tiros de canhão, iam e vinham da mata açudados por vinganças sangrentas. O porto encheu-se de canoas e galés, destinadas a carregarem de volta o azedume dos colonos, as cabanas da ilha esvaziaram-se (...)".

Escorraçados por uma nova realidade que se lhes impunha, os colonos portugueses de África do século XX empreendem uma nova epopeia - a volta, repetindo-se a História: vai-se ao encontro do desconhecido. A chegada a Lixboa não difere em intensidade de choque e contraste da acostagem em África ou na Índia ("Desde que regressara de África que até o fluir do tempo se lhe afigurava absurdo (...)").

O paralelo entre a epopeia portuguesa iniciada no século XV e o movimento de descolonização pós 25 de Abril é, aliás, uma constante , sendo que Lobo Antunes articula passado e presente logrando obter um efeito surpreendente e, muitas vezes, originando, pela sobreposição, deliciosos momentos «humorísticos»: "Foi então que topámos com um grande aparato militar de castelhanos protegendo uma tenda alumiada de barraca de feira, centenas de estandartes, bandeiras e cozinhas de campanha, cirurgiões que amolavam bisturis e ilusionistas que divertiam a tropa, e uma sentinela que nos informou que o rei Filipe se reunia com os seus marechais na rulote do Estado-Maior a combinar a invasão de Portugal, porque D. Sebastião, aquele pateta inútil de sandálias e brinco na orelha, sempre a lamber uma mortalha de haxixe, tinha sido esfaqueado num bairro de droga de Marrocos por roubar a um maricas inglês, chamado Oscar Wilde, um saquinho de Liamba."

Mas esta fusão, em que surgem as históricas personagens nacionais da descoberta, agora com papéis frágeis, banais e despidos de glórias, serve para ilustrar como nada mudou, que a cronologia é outra mas o sumo o mesmo, as mesmas pessoas carentes e canalhas, o mesmo país desapaixonado pelas suas gentes, os mesmos sonhos grandiosos e realidades mesquinhas, a mesma dor.

Não admira, portanto, que se aguarde, que se espere por, e que se o materialize num tal de D. Sebastião. Assim:

"Esperámos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos, de mistura com os restos de feira acabada das vagas e os guinchos de borrego da água no sifão das rochas, um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tânger ao pescoço, e tudo o que pudemos observar, enquanto apertávamos os termómetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital, foi o oceano vazio até à linha do horizonte coberta a espaços de uma crosta de vinagreiras, famílias de veraneantes tardios acampados na praia, e os mestres de pesca, de calças enroladas, que olhavam sem entender o nosso bando de gaivotas em roupão, empoleiradas a tossir nos lemes e nas hélices, aguardando, ao som de uma flauta impossível que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível."

Um retornado. Muitos retornados. Um país. Uma recusa. Mútua. Uma História.

 
por Nuno Barbosa
citado daqui
[não datado]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...