05/09/2005

Matilde Ferreira Neves: Comentário a O Manual dos Inquisidores


«(...) os operários da fábrica que discursavam na rua a tratarem-nos por camaradas, a prometerem-nos casas de graça, a afirmarem que éramos livres e eu pensei

- Livres de quê?

já que a miséria permanecia a mesma só que com mais gritaria, mais bêbedos e mais desordem por não haver polícia» - Eis o retrato do pós de 25 de Abril que Lobo Antunes nos desenha em traços de quase caricatura no seu livro O Manual dos Inquisidores.

Uma obra que nos fala acerca do fascismo vigente antes e mesmo depois do 25 de Abril cuja narração é feita por personagens que se sucedem e alternam, que se revelam ao serem inquiridas por um narrador incógnito (trata-se, no fundo, de um romance eleborado pelas próprias personagens). O autor trabalha este romance no sentido de torná-lo, de algum modo, intemporal, constituindo uma amálgama do ontem e do hoje, apresentando-nos um elenco de tipos sociais que ainda persiste nos nossos dias, na tentativa de mostrar-nos que, se calhar, a sociedade não terá evoluído tanto como as pessoas o pretendem.

Temporalmente situado entre os anos 60 e 70, o Manual dos Inquisidores relata-nos as relações de poder de um ministro de Salazar, à volta do qual girará a própria narração do livro. Ministro que sendo cruel, é também capaz de amar, que sendo duro, é também carente, que abandonado e traído pela esposa, tentará reencontrá-la em outras mulheres, ora de forma agressiva e máscula («- Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão.»), ora de forma terna («(- Isabel

o meu pai em segredo, de lábios contra o chão, de ventre contra o chão

- Isabel

o meu pai quase terno

- Isabel)»). - Pinta-se, no decorrer da obra, o retrato de um homem prepotente e iludido pelo próprio poder, confrontado, no limite, com a solidão e com os seus fantasmas pessoais, que acabará derrotado pela idade e pela senilidade a ela inerente, vencido por uma obssessão extrema contra os comunistas, que o seu filho saberá descrever: «o meu pai que um ano depois da revolução teimava em esperar os comunistas (...)

- Já não há nada que me consigam tirar».-Um ministro despojado do amor e do poder, que se transformará numa sombra apenas, exilado numa clínica onde virá a perecer.

O Manual dos Inquisidores é um livro que reflecte o poder e os seus abusos na época salazarista(«aquilo que um protegido do professor Salazar afirma, por mais estranho que seja, ou é verdade ou os jornais vão garantir amanhã que é verdade o que equivale ao mesmo, e se a gente os contraria dá com os costados na polícia, de farol na cara e um chefe de brigada a convencer-nos com estalos evangelizadores, de que lado se acham o interesse do país, a virtude e a razão.»); no qual a gente pobre, conformada, apesar da miséria, não sentia pena nem raiva, nem nada, a não ser algum conforto por ainda persistir.

Uma viagem alucinante, ao real que nos transtorna e que, por vezes, nos leva ao riso: «e após a morte do meu pobre ofereceram-me um pobre mais novo que durasse mais tempo, saudável, ainda sem tosse, baptizado e com as vacinas em dia, aconselhado pelo senhor prior por não ter vícios nem ser capaz de me faltar ao respeito, que tive de mandar embora no Natal seguinte e de me queixar da sua falta de educação nas noelistas porque caí na asneira de lhe dar dez escudos e ao recomendar-lhe

- Agora veja lá não gaste isso tudo em aguardente

respondeu-me malcriadíssimo a virar e a revirar a moeda

- Claro que não menina claro que não fique descansada que vou direitinho ao stand e compro um Alfa Romeo»).

Relações de poder frustradas, relações amorosas falhadas, que deixam entrever as carências mais diversas («e no entanto eu gostava de si pai, gostava de si, não fui capaz de dizer-lhe mas gostava de si», «o meu pai que não me recordo de conversar comigo, me dar um beijo, me pegar ao colo»).

Um romance real e humano que, apesar de tudo, termina com o ministro esperançoso, cuja frase inacabada que fecha o livro nos relembra, talvez, que fica sempre algo por dizer...


por Matilde Ferreira Neves
citado daqui
[não datado]

30/08/2005

Bruno Carriço: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Eu hei-de escrever assim (quem dera)

Terminei hoje de ler "Eu hei-de amar uma pedra", de António Lobo Antunes. Foi a primeira vez que li algo deste autor, mas duvido que seja a última!

Quando comecei o livro, estranhei bastante a escrita, confesso. A pontuação é quase inexistente e as apóstrofes são abundantes, o que requer alguma adaptação de quem lê (falo por mim, claro). Ultrapassada esta "fase" de adaptação, a leitura já se faz de forma mais natural e começa-se a apreciar verdadeiramente o génio de Lobo Antunes.

Folha a folha, fui descobrindo autênticas preciosidades nesta obra. Preciosidades, sobretudo, na descrição de gestos/coisas banalíssimas. Tenho pena de não ter marcado várias destas passagens, para agora ilustrar o que me "seduziu", mas são tantas páginas que mais me valia ler o livro de novo, se as tentasse procurar. Marquei apenas dois pequenos excertos, quando me apercebi que queria partilhá-los com o blog (e convosco, por consequência).

Começo por perguntar: como descreveriam um negativo de fotografia?

Parece uma coisa sem jeito, mas Lobo Antunes atira-nos com "...a minha mãe a esmiuçar negativos onde fantasmas, não pessoas, com o branco e o preto ao contrário, feições pretas, roupas de aparição que flutuavam...".

Dei por mim a imaginar negativos e a verificar como estas palavras traduzem o que vejo neles. Que simplicidade...

Relógios de estações de comboio/metro são outra coisa que nos fartamos de ver e que só nos interessam se precisarmos de saber as horas. É natural.

A atenção de Lobo Antunes é que é outra!

"...disseste nove menos vinte no instante em que o impulso do ponteiro nove menos dezanove, não o traço grosso, um traço fininho, o relógio sem números, quatro traços fininhos entre dois traços grossos ou seja quarenta e oito traços fininhos e apenas doze grossos..."

Arrisco-me a dizer que, além de grande escritor, Lobo Antunes dava um fotógrafo fantástico, pela sua capacidade de observação.

"...e o relógio do metropolitano prestes às nove menos dezoito que se percebia no ponteiro a vibrar para o salto, não mudava para o traço seguinte
(traço fino neste caso)
cobria-o por completo, apoderava-se dele, anulava-o..."

Sempre reparei naquele instante em que o ponteiro dos minutos se prepara para avançar, nestes relógios, e naquela pequena tremedeira, naquela hesitação. Nunca me passou de uma simples e patética observação. Até à altura em que li esta passagem!

E podia demorar-me aqui mais umas horas, enumerando estes deliciosos registos, mas acho que já mostrei a minha admiração de forma clara e o post já deve estar a dar sono a muita gente! :)

O título desta entrada é uma ambição, nunca uma obsessão!

por Bruno Carriço
15.04.2005

18/08/2005

Gonçalo Mira: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Este ano celebram-se os 25 anos de carreira de um dos mais importantes e incontornáveis nomes da literatura portuguesa: António Lobo Antunes. E que melhor forma de celebrar a efeméride do que com um novo romance? Foi, exactamente, o que fez Lobo Antunes, presenteando os seus fiéis leitores com um novo romance, intitulado “Eu hei-de amar uma pedra”.

É uma boa sensação quando acabamos de ler este livro. E isto é paradoxal porque eu adorei o livro. E, supostamente, quando se gosta muito de um livro, queremos que nunca acabe. Mas Lobo Antunes é diferente de tudo o resto. O livro é belo, aliás belíssimo, mas dói. Dói porque as suas personagens sofrem e fazem-nos sofrer. Vivem uma existência angustiante, sentimentos inconfessados, segredos, medos, saudades, amores. Um turbilhão de sentimentos que nos deixa completamente atordoados. Depois há um constante apelo ao passado, aquilo que marcou a infância de cada e que nos mostra exactamente porque é que aquela pessoa é como é. E nisto António Lobo Antunes é exímio. A sua obra vive de personagens fortíssimos, no sentido em que são construídos na perfeição. Simplesmente na perfeição. Têm os seus defeitos, as suas virtudes porque são humanos. Precisamente humanos. E é essa outra palavra chave para este romance e para a obra de Lobo Antunes. Neste romance existem humanos iguais àqueles que moram no nosso prédio, iguais àqueles que costumam ir ao nosso café,  iguais àqueles com que nos cruzamos todos os dias. E é isso que torna Lobo Antunes, na minha humilde opinião, o maior escritor português e um dos maiores a nível internacional, na actualidade: sabe criar personagens que nós conhecemos.

Quando comprei o anterior romance do autor, "Boa tarde às coisas aqui em baixo", foi-me oferecido um pequeno livrinho onde estava uma “receita” para ler Lobo Antunes, escrita pelo próprio. Dizia ele que os seus livros não são para ser lidos, mas sim apanhados, como se apanha uma doença. E é mesmo verdade. Além disso dizia também que o que importa não é a história mas sim as personagens e o que elas sentem. Lobo Antunes viaja ao âmago dos sentimentos humanos como nenhum outro escritor.

Este romance, "Eu hei-de amar uma pedra", conta uma história de amor entre um senhor e uma senhora que já não são jovens, que se encontram depois de passados muitos anos sem se verem. Ele julgava-a morta e, portanto, fez a sua vida: casou, teve filhos. E ao encontrá-la de novo, viva, a paixão que tinham vivido renasce e começam a encontrar-se numa pensão. Mas este belíssimo romance conta muito mais do que isto. Descubram-no por vós próprios. Recomendo vivamente a toda a gente que ainda não descobriu este maravilhoso autor, que o descubra, pois ainda vão a tempo.

Para quando o Nobel deste senhor?

por Gonçalo Mira
2003

08/08/2005

Belém Barbosa: opinião sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


«o passado continua a acontecer em simultâneo com o presente»

Fotografias, Consultas, Visitas, Narrativas - quatro partes onde se organizam histórias individuais de solidão e desamor, de impossibilidade de amar gerada por carência profunda, por rejeição, por abandono.

Um colega de Lobo Antunes ter-lhe-á contado uma história de um amor impossível que se manteve ao longo de mais de 50 anos em encontros secretos numa hospedaria de Lisboa: um casal que se reencontra casualmente, depois de uma separação abrupta por razões de saúde, a que ela supostamente não teria sobrevivido.

O escritor deixou-se seduzir e, pela primeira vez nos seus livros, um homem (que nunca tem a palavra) sabe que é amado; uma mulher mantém-se firme a seu lado, sem nada aceitar em troca, renovando semanalmente a sua intenção de não o deixar nunca. A envolvente é de uma solidão urbana extrema, que mais sublinha a impossibilidade deste amor.

Quanto à forma, mantém-se o apurado rendilhado narrativo de Lobo Antunes, mais difícil na primeira parte, em que os fragmentos da história se apresentam soltos, as personagens desligadas do enquadramento social e localizadas nas fotografias que nos vão sendo mostradas. Depois, pouco a pouco, penetramos nos segredos e no passado emocionalmente devastado de cada um dos seres, de que não se conseguem libertar.
  
por Belém Barbosa
Abril 2005

21/07/2005

Dauro Veras: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Quatro mulheres compartilham um segredo terrível ligado aos homens com quem vivem. Suas memórias e a opressão de carregar o segredo compõem o cenário deste romance do português António Lobo Antunes. Por meio dos monólogos interiores de Mimi, Fátima, Celina e Simone, o escritor conta a história fictícia da rede de extrema-direita que cometeu atentados em Portugal nos anos setenta.

Elas expõem seus pensamentos de forma fragmentada, alternando-se umas às outras capítulo após capítulo. Mimi é surda e sofre de câncer. Na sua lembrança está sempre presente a avó, matriarca que mergulhava a trança dos cabelos em aguardente e que lhe ensinou a fórmula da coca-cola. Seu marido participa da organização terrorista, trabalhando para um bispo católico. Fátima é afilhada e amante do bispo. Celina é a esposa atormentada e depois viúva de um homem rico. E Simone namora o rapaz que monta as bombas.

Lobo Antunes não apresenta amenidades ao leitor. Exige-lhe dedicação para avançar entre palavras interrompidas, digressões, misturas de vozes e tempos, longos trechos sem ponto final. É preciso ir, pouco a pouco, montando um quebra-cabeças de estilhaços, composto de imagens da infância, sabores, objectos de estimação, humilhações quotidianas. A culpa está presente em todos, de uma forma ou de outra: o general e o bispo são mandantes de assassinatos. Militares e diplomatas articulam o contrabando de armas. As mulheres são cúmplices silenciosas. Elas têm em comum entre si uma profunda solidão.

A linguagem inusitada parece, a princípio, uma barreira para a fluência da narrativa. Mas aos poucos vai-se penetrando na consciência sofrida das protagonistas, percebe-se seus desejos, medos e frustrações. Da metade para o fim o ritmo se acelera e alusões que pareciam enigmáticas começam a ganhar sentido. Mas para cada leitor, esse sentido será único, com peças montadas a seu modo e outras que não se encaixam. Assim como a verdade permite distintas interpretações, o universo mental das quatro mulheres oferece um campo vasto para que se desfrute o romance com uma verdadeira sensação de co-autor.


por Dauro Veras
Junho 2001

01/06/2005

Rafael Conte: sobre Eu Hei-de Amar Uma Pedra


Amor e morte em Lobo Antunes

No romance do autor português confluem duas histórias: a relação com sua mulher e a fascinante história de uma doente mental de quem tratou como psiquiatra. Narrativa, poesia e ensaio, na sua obra mais autobiográfica.
   
António Lobo Antunes - talvez o escritor mais importante e original do romance de hoje a nível mundial, recentemente premiado com o União Latina e o Jerusalém 2005 - persiste e assina de novo o seu último livro, o décimo sétimo ou décimo oitavo segundo creio, imperturbável a todas as mudanças que sucedem à sua volta, dedicado até à exasperação numa escrita que o "abduz" (não encontro outra palavra) por inteiro.

António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) é um escritor muito complexo, de acesso difícil mas que fascina os seus leitores quando o são de verdade, pois acabam arrebatados pelo poder da sua escrita, que os arrasta para além da sua compreensão lógica "normal". Uma escrita "poética", que vem de um pré enamoramento da poesia que escreveu na sua juventude mas que destruiu por completo; porém este pressuposto do poético é o que preside sempre em toda a sua narrativa. Ao mesmo tempo, a sua experiência africana - foi médico militar durante quase três anos na guerra de Angola, uma das suas grandes experiências vitais, que surge em vários romances seus - fê-lo experimentar um novo conceito do tempo: em África aprendeu a simultaneidade do tempo (pois o passado só vive no presente e o futuro desconhece-se) que nos seus livros se entrecruza com a multiplicidade dos cenários, das vozes e das personagens, o que converte a sua prosa em algo muito complexo para quem procura ler romances "normais", com argumentos seguidos na sua cronologia e discurso narrativo, segundo o que é habitual no mercado do nosso consumo literário.

O seu discurso é no fundo "poético" e pratica a simultaneidade contínua de tempos, vozes e cenários em que o leitor pensa que existe um discurso intelectual que o nutre totalmente e o sustenta, como se o ensaístico se filtrasse assim mesmo no narrativo. O que não é, poesia, ensaio e narrativa são os três pilares que sustentam à sua vez esta obra singular, sem que possamos separá-los do enredo. Daí que os seus livros tenham de ser lidos com a máxima atenção, e não perder qualquer detalhe, incluindo as entrelinhas que acompanham o discurso, pois tudo quer dizer algo. Um exemplo: ao iniciar o novo livro, há uma dedicatória digamos que "negativa" que se afirma na sua ausência: "Nesta página estava uma dedicatória aos meus pais. Ainda está." Com ela se manifesta um dos vectores principais do romance, na formação das relações difíceis (pouco dedicadas, raramente carinhosas, mas sempre irrepreensíveis) do autor com os seus próprios pais, com quem teve sempre uma falta de comunicação, repleta de reticências (diziam que não o liam, ou não o entendiam), mas sempre tão irrecusáveis que a sua ausência futura não as interromperá mais.

Como no título se diz também que o narrador (o poeta que nos fala, por quem os outros nos falam, as vozes à sua vez narradoras que surgem em cada situação ou cenário, buscando-se a si mesmas através delas - e deles) "há-de amar uma pedra" (verso de um antigo cancioneiro português) que conclui: "Beijar o teu coração". Assim temos o segundo vector para entender o romance, pois trata-se, como acontece quase sempre com este escritor, de uma história de amor implacável, e que venha a terminar com a morte. É outro elemento autobiográfico no romance (os detalhes autobiográficos abundam nos seus últimos livros, muito mais que nos primeiros [...] ainda que elementos da sua própria experiência abundem em toda a obra desde o princípio, daquela Memória de Elefante - 1979 - que era a sua própria) e que não é mais do que a evocação do seu amor com a sua primeira mulher e mãe das suas duas filhas mais velhas, com quem se casou muito jovem, compartilhou os primeiros segredos e aventuras da juventude, do sexo à aventura africana, e de quem se separou inopinadamente depois da "revolução dos cravos"  (revolução de que estava certo, mesmo sem ter participado) com a explosão de liberdades que Portugal conheceu entretanto. O matrimónio desfez-se, ainda que o casal se desse razoavelmente bem, mas mais tarde sua esposa ficou fatalmente doente que o marido, médico sempre, ficou do lado dela, regressando ao seio familiar. Com esta segunda linha narrativa - a do amor destruído pela morte - completa-se a história da incomunicação paterno-filial inicial, mas ainda falta a história central, surgida da doença mental de uma paciente já idosa (de quem se diz reiteradamente que a sua idade pôs de acordo os seus anos e o seu corpo) e de quem tratou no seu exercício da medicina.

Para ordenar este caos aparente, Lobo Antunes divide o livro em quatro partes que facilitam os leitores precipitados, ainda que depois, em cada uma das partes, faça as suas devidas correspondências (ou interferências). A primeira, intitulada As fotografias, baseia-se em imagens da sua própria existência, que começa com uma foto da sua mãe tirada num dos seus aniversários - como digo, este é um livro claramente autobiográfico - e logo se complica, debulhando a sua vida ao longo de mais dez fotografias. Mas logo vêm "as consultas" (cinco) e "as visitas" (três) que se referem às consultas médicas com a doente encontrada no hospital lisboeta onde tratou a citada paciente, primeiro como profissional e depois prolongando o seu trabalho sobre um tema cuja personagem o fascinou. Por último, sete "relatos" completam a história deste livro no fundo inesgotável, baseado em três pilares incontestáveis - a relação com seus pais, o amor pela sua primeira esposa falecida e a paciente inexaurível que o importuna até a um final que talvez não venha a chegar. Três relações difíceis e de certo modo impossíveis, que se entrecruzam no interior da existência de um narrador infatigável, e que reaparece em ocasiões com o seu apelido inicial (o "pimpolho" que cresce) e até com o seu nome próprio ou para fechar um livro numa verdade inesgotável. É o mesmo livro de sempre? Talvez, mas as histórias seguem encavalitadas como sempre, tropeçaremos na mesma pedra em que se convertem os sucessivos rostos cegos dos amantes - e a imagem de Magritte do frontispício que nos mostra cegos é perfeita - que estão condenados a não ver-se, a converterem-se na pedra que têm que beijar por meio da autodestruição e frente à morte, porque trata-se de uma história condenada a repetir-se até ao final, pois é essa a sua esperança, a última a morrer, e menos mal, mas continuar amando a pedra e beijando o coração, haja coragem.

por Rafael Conte
14.05.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

04/05/2005

Carlos Eduardo Ortolan Miranda disserta sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


A TAUROMAQUIA CRUEL DE LOBO ANTUNES

Em Boa tarde às coisas aqui em baixo, o autor português leva ao ápice sua literatura radical

Existem em nós divisões, alienações, guerras e palavras.
Paul Nizan, Aden, Arábia

A literatura contemporânea de Portugal tem desempenhado um papel de destaque na prosa e na poesia européias. Contrariamente à relativa vaga de reduzida inspiração de nossas letras, que têm se debatido à deriva em uma discussão um tanto inócua entre os transgressores e os acadêmicos, os lusitanos ostentam uma produção literária do mais alto nível e que, estranhamente (ou nem tanto), é quase completamente desconhecida entre nós.

Dentre os autores que pouca ou nenhuma divulgação tiveram no Brasil, destacaria a poesia reflexiva, erudita, de tom elevado e lírico de Nuno Júdice, o experimentalismo dos romances de Almeida Faria, a prosa intimista, tensa, no limite do discurso poético de Rui Nunes, os contos angustiados de Pedro Paixão, o monólogo interior de Augusto Abelaira e as crônicas desabusadas e saborosíssimas de Miguel Esteves Cardoso. As ficcionistas portuguesas também comparecem com importância, notadamente as romancistas Agustina Bessa-Luís, Teolinda Gersão, Lídia Jorge e Inês Pedrosa.

Alguns escritores têm conseguido, entretanto, furar o bloqueio intelectual e aportar às livrarias nacionais. É o caso de António Lobo Antunes, cujo mais recente romance, “Boa tarde às coisas aqui em baixo” (pela editora Objetiva, que adquiriu os direitos de toda a obra do autor) teve lançamento quase simultâneo no Brasil e em Portugal.

Tanto melhor para a cultura nacional. Escritor profundamente original, o médico psiquiatra nascido em Lisboa é um outsider das letras portuguesas, muito embora seja autor dos mais premiados e incensados pela crítica literária internacional, e considerado a voz mais importante da literatura atual de seu país.

No lugar do sentimentalismo e do derramamento romântico que habitualmente caracterizam parte da literatura de Portugal, Lobo Antunes erigiu uma obra vigorosa e desafiadora, na qual, através de influências de autores como Faulkner e Céline, acompanhamos um roteiro para um passeio ao inferno das situações-limite da condição humana.

Nessa direção, a vivência de Lobo Antunes como médico do exército português na guerra colonial de Angola fornece a matéria histórica para a maioria de seus romances, como em “Os cus de Judas” (pela Objetiva), “Fado alexandrino” e “O esplendor de Portugal” (editora Rocco), já também publicados entre nós.

Essa comédia humana do horror e do desespero perpassa hospitais psiquiátricos, a insanidade da guerra, a morte sem honra, a miséria dos colonizados e a sanha destruidora dos colonizadores. Entretanto, desse ideário de niilismo e terra arrasada, graças à arte do escritor poderoso e de imaginação aparentemente inextingüível, emana uma poesia difícil, de imagens incomuns e que jamais apela ao efeito simples da prestidigitação verbal. “Boa tarde às coisas aqui em baixo” não é um livro de digestão fácil, como já deve ter atentado o leitor. Além da temática pessimista já apresentada, é nesse romance que os aspectos técnicos, as soluções formais para a realização da narrativa atingem o grau de maior radicalidade já encontrado na obra do autor.

O entrecho é razoavelmente simples, quase banal (e, de fato, praticamente se dissolve no transcorrer do livro): um agente do exército português é enviado a Angola. O objetivo: eliminar um seu antecessor, que cumprira tarefa similar.

A partir daí, distendem-se as preferências de Lobo Antunes pela narrativa fragmentária, pela constituição polifônica do romance, na qual as diversas vozes e percepções das múltiplas personagens parecem ecoar umas às outras num jogo especular no qual a totalidade não parece poder ser reconstituída.

Um agente procura um agente que procurava um agente. Nessa ciranda de personagens enlouquecidos, os matadores confundem-se com suas vítimas, os carrascos são, simultaneamente, caça e caçador, instrumento e objeto, perseguição e alvo. Uma arena de touros cegos que buscam, feridos, a saída do labirinto.

Não é casual que o topos da tauromaquia compareça nesse teatro de títeres, que perceberão que apenas cumprem ordens de traficantes de diamantes da metrópole colonial; sendo inextricavelmente matador e touro, as personagens da corrida combatem pela estrita sobrevivência, e a consciência se debate entre o passado e o presente, numa arena em que a pergunta pelo sentido não parece mais ter relevância efetiva e na qual o sacrifício não trará remissão.

Temos então um libelo pacifista contra a guerra colonial e o massacre inútil, mas financeiramente lucrativo, uma versão atual para o “Coração das trevas”, de Conrad?
Lobo Antunes insurgiu-se sempre contra tais leituras reducionistas de sua obra (que também não se aplicam a Conrad, vale destacar). Embora a experiência traumática da guerra perpasse indelevelmente o livro e forneça-lhe o substrato histórico e o entrecho, a constante remissão a planos móveis, temporais e espaciais, impede a leitura puramente sociológica, na acepção vulgar do termo. Não se trata apenas de um romance sobre a guerra colonial, mas, em termos mais ambiciosos, da luta da consciência em sua tentativa de compreensão de nosso estar no mundo.

De fato, os matadores (e futuros touros abatidos) comprazem-se em relembrar Portugal estando em Angola, e vice-versa. Assim, das descrições da barbárie e do genocídio, do massacre da população civil e do racismo, da missão inglória de um homicídio por motivo econômico a mando oficial do Estado, passamos às recordações da vida familiar dos assassinos, ao plano da memória dos seus dramas domésticos de desamor e solidão, de suas lembranças infantis e pequenas alegrias e desencantos cotidianos.
Presente e passado (na ausência de futuro), Portugal e Angola, relativa paz doméstica e atualidade horrenda movem-se em dialética cruel e insolúvel. A reflexão especular, a rotação espiral ou o movimento pendular, demarcados pelo uso de repetições de frases, que pontuam, como coro musical, o ritmo do romance, traduzem essa ação inútil, essa história que não se realiza, a não ser como negação, trabalho de touro-Sísifo.
Como toda grande obra de arte, a obra de Lobo Antunes é um convite à viagem. Viagem interior em que contemplamos o sublime e o grotesco, a dor e o sorriso, a gratuidade e o desejo de ordenação de um mundo que se afigura caos e desesperança. De algum modo, mesmo exauridos e tocados pelo universo de horror, sentimos que se opera em nós o milagre propiciado pela literatura. Jamais seremos os mesmos depois da leitura de António Lobo Antunes, esse taumaturgo da palavra.


por Carlos Eduardo Ortolan Miranda
É tradutor e crítico, mestrando em filosofia na USP.
via Trópico (Brasil)
não datado

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...