20 de dezembro de 2004

Rosemary Gonçalo Afonso disserta sobre Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura


Instantâneos na noite escura de António Lobo Antunes

Não entres tão depressa nessa noite escura é o 14º romance de António Lobo Antunes. Dividida em 35 capítulos e sete sequências, ordenadas conforme os dias da criação do mundo, a narrativa reúne um conjunto de vozes que se cruzam, entrecortadas por fragmentos de diálogos, monólogos incompletos e frases inacabadas, reveladores de uma instigante viagem através da memória.

A doença do pai das irmãs Ana Maria e Maria Clara desencadeia as reflexões que evidenciam a insatisfação pessoal das personagens e o sentimento de fracasso que as domina.

As formas de expressão escolhidas pelo autor são as visitas ao psicólogo e o diário de Maria Clara, dona da voz mais frequente que se percebe na polifonia de vozes que percorrem a narrativa. Sem nenhuma ordem aparente na sequência cronológica dos acontecimentos, a memória impõe-se como o único fio condutor da estória.

Uma vez que a cronologia e a veracidade dos fatos são pouco importantes, percebemos que tornar críveis as personagens não é uma prioridade, e sim mostrar as experiências que as marcaram mais profundamente. Esse aspecto da narrativa mostra que o enredo é o que menos interessa ao autor, reiterando o que afirmou durante uma entrevista para o jornal "Folha de São Paulo": Para mim, muitas vezes a intriga não é mais do que o prego no qual se penduram os quadros. Ou ainda, citando Clarice Lispector: As palavras são apenas anzóis, para apanhar o que está nas entrelinhas.[1]

Embora o valor da intriga seja minimizado, não podemos ignorar que as situações descritas nos revelam, sutilmente, um retrato da sociedade portuguesa daquele período, cobrindo um espaço desde os primeiros anos após a Revolução de 25 de abril de 1974 e o fim dos anos 90, quando alguns benefícios da integração à Comunidade Europeia passaram a fazer parte do dia-a-dia dos portugueses.

São esses dois aspectos: a viagem pela memória e os instantâneos da realidade exterior, que pretendemos destacar no presente trabalho.

A viagem pela memória é sugerida desde o capítulo inicial, que começa com lembranças, preenchidas pela imaginação: O meu pai nunca me deixou entrar aqui. Devia sentar-se na cadeira de baloiço e olhar do postigo o jardim lá em baixo, o portão, a rua, eu pequena a brincar às fadas com a minha irmã no rebordo do lago[2].

Mais do que saudades da infância, de um tempo em que os problemas parecem tão distantes, a frase revela que a repressão foi um aspecto marcante na educação de Maria Clara. Embora o uso do imperativo seja frequente entre os portugueses, mesmo em situações de total descontração - e o romance deixa transparecer essa característica pela repetição das frases: Cala-te![3] ou Calem-se[4] -, é significativa a intensidade com que as frases imperativas povoam a memória da personagem: Pede desculpa ao teu avô Maria Clara.[5] Precisamos ter uma conversa menina.[6] Vá para casa Clarinha.[7].

Em sua interpretação filosófica do pensamento de Freud, Marcuse nos lembra que, de acordo com a teoria deste

a história do homem é a história da sua repressão. A cultura coage tanto a sua existência social como a biológica, não só partes do ser humano, mas também a sua própria estrutura instintiva. Contudo, essa coação é a própria precondição do progresso. Se tivessem liberdade de perseguir seus objetivos naturais, os instintos básicos do homem seriam incompatíveis com toda a associação e preservação duradoura: destruiriam até aquilo a que se unem ou em que conjugam.[8]


Submetida à repressão constante, a natureza do homem é inevitavelmente transformada, assim como os seus "valores", para garantir o bem-estar da sociedade.

Ao nascer, os instintos do homem conduzem-no à busca da concretização imediata de todas as suas necessidades, ou seja, à busca do prazer. Ao controlar esses instintos, para satisfazer às exigências da sociedade, o homem transforma o princípio de prazer, sugerido por Freud, em princípio de realidade. (...) O indivíduo chega à compreensão traumática de que uma plena e indolor gratificação de suas necessidades é impossível.[9]

Essa "compreensão traumática" nem sempre é consciente. O conjunto de regras impostas pelas diferentes instituições presentes na sociedade - família, escola e igreja, entre outras - impedem a realização imediata das necessidades individuais, mas não eliminam essas necessidades. Para viver em sociedade, o indivíduo concorda apenas em adiar a realização dos seus desejos, ou em fazer concessões, transformando-os. Quando o cotidiano não satisfaz aos seus anseios ele sente-se burlado, perdido. E, sobretudo, muito só.

A insatisfação com o momento presente, a solidão e o ensimesmamento são as afinidades que se percebem entre personagens do romance. Os fragmentos de diálogos mostram que apenas assuntos superficiais e pequenos problemas imediatos são discutidos entre os familiares. As personagens não conseguem expor abertamente as suas angústias: se eu pudesse conversar com alguém e podendo conversar com alguém se conseguisse falar[10]. A dificuldade de comunicação faz com que se sintam aprisionadas.

No último capítulo, Maria Clara, sufocada pela rotina, é assaltada pelo impulso de fugir, literalmente.


Hoje estava capaz de me ir embora: as paredes da casa apertam-me, tudo me parece tão pequeno, tão inútil, tão estranho. Entrar na cozinha. Fazer o almoço. Servi-lo. Esperar pela refeição seguinte. Apagar o fogão. Servi-la Atender a meio da tarde a voz do meu marido a saber como estou, receber as cartas da Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar as cartas de Ana de que não compreendo o endereço. Abandonar os telefonemas e as cartas também. Hoje estou mesmo capaz de me ir embora antes que fique louca como os cães, correndo em círculos na noite[11].


Nada ingênua, Maria Clara não se vai embora. Sabe que não pode fugir de si mesma tão facilmente: "o diário a persegue". Precisa empreender a viagem interior, enfrentar os seus "fantasmas", percorrer "os atalhos entre o que deixamos e o que esperamos encontrar", mencionados na nossa epígrafe. Tentar descobrir quando foi que se afastou da menina que "brincava às fadas com a irmã no rebordo do lago".

Não é por acaso que a epígrafe do romance foi retirada de um tratado de psicologia. Embora já não exerça com frequência a profissão de psiquiatra, o autor não o é impunemente. Ele próprio afirma, em entrevista ao Jornal de Letras:

[...] o que os estrangeiros dizem que trago para a literatura não é mais do que a adaptação à literatura de técnicas de psicoterapia: as pessoas iluminarem-se umas às outras e a concomitância do passado, do presente e do futuro.[12]


Respeitando as técnicas de psicoterapia, a narrativa dá livre curso aos corredores da memória e é a fantasia que domina. Como afirma Marcuse:

A libertação psicanalítica da memória faz explodir a racionalidade do indivíduo reprimido. À medida que a cognição cede lugar à recognição, as imagens e impulsos proibidos da infância começam a contar a verdade que a razão nega. A regressão assume uma função progressiva. O passado redescoberto produz e apresenta padrões críticos que são tabus para o presente. Além disso, a restauração da memória é acompanhada pela recuperação do conteúdo cognitivo da fantasia.[13]


As personagens são construídas e desconstruídas frequentemente, modificadas pelo conteúdo cognitivo da fantasia durante o exercício de restauração da memória. Talvez seja tudo fruto da imaginação de Maria Clara, mesmo as vozes que não lhe pertencem, como é sugerido no penúltimo capítulo em frases como: Deixei de me inquietar porque afinal está tudo como sempre foi, a moradia intacta, o meu pai connosco,[14] ou ainda, na cave, no sótão, atrás do guarda-fato, mas qual guarda-fato, no compartimento com porta para a escada, mas qual escada[15].

Os fatos são questionáveis, mas deixam perceber os tabus que assombraram Maria Clara, e que assombram a sociedade, entre eles: as dúvidas sobre a sexualidade (duas frases a perseguem): - A Maria Clara é o homem da casa.[16] e (amor entre mulheres normalidade ou doença: o ponto de vista dos[17]; o envolvimento de familiares com atividades ilegais (o pai é traficante de armas): -Quais armas? / um baú de facturas no sótão, morteiros, bazucas, revólveres, minas, a minha mãe se eu lhe contasse / (descanse pai, não conto)[18]; e os sentimentos pouco nobres (como a inveja): (...) a expressão da Ana ao zangar-se comigo, um grito de raiva a aumentar-lhe a boca, a beleza que me fazia sofrer e eu odiava, o cabelo loiro e o meu quase preto[19]

Tentar descobrir o momento em que perdemos o rumo da nossa própria vida, eis uma proposta antiga do autor. Em seu livro Memória de Elefante um personagem angustiado avalia o seu passado, buscando respostas para a pergunta que o persegue e que deixa tão evidente a sua sensação de fracasso: Quando é que eu me fodi?[20].

Em Não entres tão depressa nessa noite escura o autor consegue se superar e vai muito além de sugerir essa busca, indica caminhos: a viagem interior; nunca desvinculada da avaliação dos acontecimentos externos ou dos hábitos de comportamento que se verificam na sociedade que nos cerca. Uma grande interrogação, porém, permanece: o meio será causa ou consequência das nossas crises existenciais?

Na busca de respostas para o seu próprio conflito interior o autor expõe o seu país: também Portugal está em causa no romance.

Um Eça de Queiróz contemporâneo, assim consideramos Lobo Antunes. Retratar a sociedade portuguesa é sua outra proposta, sem alegorias, confirmando o que declarou ao jornal "Folha de São Paulo" durante uma entrevista: "não sou Deus, não invento nada"[21].

Vive imaginando as suas personagens e até sonha com elas. O contacto com a sociedade dá-se através de uma janela virada para o Tejo, numa casa que tem pouco mais do que o indispensável. Aquele é o ponto de observação do 'psiquiatra social'. E o que observa ele? Um mundo doente, demente, vazio, desesperado, apático, sem sinais de esperança — uma catástrofe. Mas de tanto olhar através do vidro de uma janela, acabou por colher o seu reflexo. António Lobo Antunes transformou-se numa personagem do microcosmos lusitano, digna de um dos seus romances.[22]

Menos acusador do que em obras anteriores, mas igualmente crítico, Lobo Antunes aguarda o "salto qualitativo" que nem a Revolução de 25 de abril de 1974 nem a adesão à Comunidade Europeia, em 1986, proporcionaram aos portugueses. Talvez, em nenhuma de suas obras anteriores tenha sido tão benevolente com os seus compatriotas. Retrata-os com uma surpreendente sensibilidade e mostra um notável cuidado com a linguagem, tornando viável a categoria de poema que ele mesmo atribui ao romance. Criar uma certa confusão na categoria aponta, com certeza, para a crise de gêneros que se percebe nos romances contemporâneos, mas também nos prepara para passagens indiscutivelmente poéticas, como a seguinte:

não pedia auxílio, não chamava ninguém, limitava-me a escutar o Tejo e os ramos em torno do Casino inventando uma brisa que não existe em julho e uma desordem de morcegos que o rio despedira há séculos para as faldas da serra[23]

A realidade exterior e os momentos históricos vividos pelo país são reproduzidos exaustivamente. Passamos a destacar alguns desses instantâneos:

Ao extinguir os abusos praticados pelo Estado Novo (regime ditatorial imposto por Salazar) a Revolução foi traumática para uma parte da população, que viu os seus privilégios cerceados e sua estabilidade econômica abalada. A decadência obrigou-os a alterar sensivelmente o seu estilo de vida para sobreviver com as novas limitações financeiras. Como nos lembra Joaquim Vieira: A elite dirigente do antigo regime, a sua oligarquia económica e a classe média alta são, na realidade, as vítimas da revolução.[24]

Exemplificando esse aspecto, lembramos o envolvimento do pai de Maria Clara com o tráfico de armas, apesar dos riscos envolvidos, para manter o padrão de vida a que a família estava habituada. A ausência do dinheiro proporcionado por esse comércio seria, seguramente, o fim de uma série de luxos até então rotineiros:

Nesta casa esvaziada de tudo excepto de reposteiros que envelhecem e lembranças de grandeza, a minha mulher obrigada a vender pratos, tremós, a mandar embora o chofer, a descuidar os canteiros, o jardim transformado num matagal de ervas ruins açucaradas pelas cordas que sobram (...) o escritório aberto a livrá-las do relento dos árabes e pretos incrustado nos estofos, nos móveis, o dinheiro deles a permitir à minha mulher que o chofer e os canteiros, que a modista, que as compras, [25]


A revolução proporcionou mudanças rápidas mas, apesar do ideal de liberdade, não conseguiu eliminar os inúmeros preconceitos de uma sociedade altamente estratificada, como o era (e ainda é) a sociedade portuguesa. Tanto os preconceitos raciais como os de classe social são evidenciados no decorrer da narrativa; a própria história do pai de Maria Clara, possivelmente de origem humilde, deve ser esquecida: o teu pai não tem família quando nos conhecemos já não tinha família.[26] e eu danada com as generosidades do meu pai (...) os cuidados dele com os pobres, nunca diante de nós, às ocultas, como se pertencesse à mesma raça e era óbvio que não pertencia apesar das peúgas de risquinhas e do modo de pegar nos talheres.[27]

A estratificação social foi mantida pelo antigo regime com tanta naturalidade, que fazia lembrar o período da monarquia. Essa prática acentuou preconceitos que não serão facilmente ultrapassados:

(...)

não sei defini-lo mas farejo-o à légua
que vocês, sem dar por isso, nos pegam, é a
miséria que cheira, não são os corpos nem a roupa,
a miséria que cheira como a vida cheira, qualquer coisa desagradável que
carregam convosco[28]


Outra consequência da agitação que se verificou logo a seguir ao 25 de abril foi a invasão de propriedades. Como nos lembra Joaquim Vieira, em suas Crónicas do séc XX.

Descobre-se a ocupação como uma eficaz arma de contestação à posse ou orientação tradicionais do que é ocupado. Ocupam-se palacetes, quintas, terras, matas, fábricas e outras empresas, residências, restaurantes, escolas, clubes, órgãos de informação, câmaras municipais, juntas de freguesia, casas do povo, ministérios e até hospitais. A ocupação torna-se uma actividade rotineira em 1975, quase sempre com o beneplácito e proteção dos militares.[29]

No romance, essa situação é também lembrada:
 
Os motoristas, os carregadores, os operários
A baterem a sola no chão como se enxotassem um bicho
- Vá-se embora senhora
Donos da gente como sempre que os pobres
Quando foi da revolução ocuparam-nos as casas[30]

Perdidos num emaranhado de crises, as personagens nos dão conta da realidade que se alterara. Sejam elas frutos da imaginação de Maria Clara ou não, mostram a dificuldade de adaptação de uma grande parte da população à nova realidade do país. Destacamos a avó, que saía todos os dias às ocultas, a seguir ao almoço, de boininha ridícula no cocoruto, a bolsa de retrós e as suas jóias falsas, para jogar na roleta do Casino.[31] ; a empregada Adelaide, sombra protetora da patroa a quem chamava de menina e que tinha como tesouro uma moldura quebrada com elas duas novíssimas, ou que a empregada jurava serem as duas, dissolvidas numa mancha castanha[32]; e ainda o avô, que uma tarde trancou-se no cubículo que prolongava o escritório e quis matar-se com a pistola descarregada[33]

Entre aqueles que já eram adultos em 1974, os mais velhos no século atual, ainda é possível detectar a atitude de fuga da realidade por parte dos privilegiados do antigo regime; e a subserviência dos menos favorecidos, resultante da dependência e idolatria que desenvolveram pelos seus patrões no passado.

Não entres tão depressa nessa noite escura nos revela a narrativa contemporânea com todos os seus impasses: a fragmentação, o desaparecimento da trama e dos personagens (que são desconstruídos), a ausência do narrador, a contestação política (mostrando os valores decadentes, a crise dos valores burgueses e a crítica ao lado social). Aponta ainda para a crise dos valores estéticos ao chamar o romance de poema.

Espelho da sociedade portuguesa, o romance é uma tentativa do autor de encontrar a si mesmo através da arte. A viagem interior que sugere seria o exercício indispensável para tentarmos compreender as nossas próprias angústias.

Na circularidade que a narrativa oferece, proporcionando o diálogo com o passado na busca de um sentido para o momento presente, voltamos à epígrafe escolhida por Lobo Antunes para abrir o seu trabalho e fechamos com ela o nosso:

Los locos van libres por las salas y pasillos o
por las habitaciones de los hombres, sin que
ello inspire el menor recelo de evasión o
desorden. Incluso algunos de ellos,
pertenecientes a familias distinguidas,
acompañan a las visitas, hacen los honores de
la casa. Guardan las más suaves formas de
cortesía y buena educación.[34]

1] ELEK MACHADO, Cassiano. "Fado' ensaia todo Lobo Antunes, diz crítica. Jornal Folha de São Paulo, 03 ago. 2002, p. E12.
[2] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura. 5 ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p.15.
[3] Idem, p.517 e 519. [4] Idem, p.45. [5] Idem, p.60. [6] Idem, p.113. [7] Idem, p.525.
[8] MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização — uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores,1968, p.33.
[9] MARCUSE, Herbert. Op.cit., p.34.
[10] LOBO ANTUNES. Op. cit., p. 388. [11] Idem, p. 551.
[12] LOBO ANTUNES. " A constância do esforço criativo". Jornal de letras, artes e idéias. Ano XVI/n.677. Lisboa: 25 set. — 8 out, 1996, p.14.
[13] MARCUSE.T. Op cit., p. 39.
[14] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 527. [15] Idem, p. 527. [16] Idem, p. 30. [17] Idem, p. 237. [18] Idem, p. 45. [19] Idem, p. 47.
[20] LOBO ANTUNES, António. Memória de Elefante. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1991, p.25.
[21] ELEK MACHADO. Op. cit., p. E13.
[22] HALPERN, Manuel. "Personagem de Romance". Jornal de Letras, artes e idéias. Ano XX / nº783. Lisboa. 04-17 out. 2000.
[23] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p.196.
[24] VIEIRA, Joaquim. Portugal séc. XX — crónica em imagens 1970-1980. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000, p. 163.
[25] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 207.
[26] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p. 42. [27] Idem, p. 264. [28] Idem, p. 143.
[29] VIEIRA. Op. cit., p. 164.
[30] LOBO ANTUNES. Não entres tão depressa nessa noite escura, p.237. [31] Idem, p.17. [32] Idem, p.21. [33] Idem, p.24. [34] Idem, p.09.

 
por Profª Rosemary Gonçalo Afonso
Janeiro - Março 2004

17 de dezembro de 2004

Ängela Beatriz Faria disserta sobre O Esplendor de Portugal


O ESPLENDOR DE PORTUGAL, de António Lobo Antunes: "o desencantamento do mundo e a desrazão"
Um povo que não reflecte sobre a própria
história arrisca-se a perder a identidade.
("A guerra distante" - Joaquim Vieira)

O conhecimento do mundo exterior, sem o conhecimento
de si mesmo, desertifica o mundo e não nos traz felicidade.
( Vestígios: escritos de filosofia e crítica social - Olgária Matos)
O esplendor de Portugal, décimo segundo romance de António Lobo Antunes, publicado em Lisboa, em 1997, referencia o entrecruzamento da perspectiva história e da configuração de subjetividades presentes nas epígrafes selecionadas por nós.
O título, sarcástico e instigante (bem ao gosto do autor), veio a ser retirado de um dos versos da letra do Hino Nacional, da autoria de Henrique Lopes de Mendonça, erigido como epígrafe do novo romance e apresenta um diálogo intertextual com o Hino adotado pela República ("Contra os bretões, marchar, marchar!") e seu sentido antibritânico incutido por causa do Ultimatum, como tão bem assinalou Carlos reis, no ensaio crítico publicado no JL e intitulado "Um romance repetitivo":
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente e imortal,
levantai hoje de novo
o esplendor de Portugal!
Dentre as brumas da memória
ó Pátria sente-se a voz
dos teus egrégios avós
que te há de levar à vitória.
Às armas, às armas,
sobre a terra e sobre o mar!
Às armas, às armas,
pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!
Este texto fundador de uma nacionalidade, uma vez recontextualizado em um período pós-colonial, leva o leitor a refletir sobre uma das questões formuladas pelos romances portugueses contemporâneos e que diz respeito ao vazio existencial, decorrente do colapso das grandes narrativas de transformação social como o comunismo e o socialismo, que eram, de algum modo, sistemas éticos transformados em projetos políticos. Finda a utopia revolucionária político-social, instaurou-se uma antiutopia, marcada pelo "desencantamento do mundo e pela desrazão".
É exatamente isto que surge na plenitude criativa da escrita de Lobo Antunes: "brumas" recentes da memória e da História serão desveladas neste romance, que se configura como um diário (não canônico) de membros de uma família, seu poder e decadência em África, em períodos que antecedem a guerra colonial e após a independência das colônias. Neste tempo assinalado historicamente e cuja aventura é partir ou ficar, o leitor atento observará, segundo o ensaísta citado há pouco, a "refutação das mitologias públicas e privadas, como a pátria e seu esplendor, a família e seus rituais". O fulgor ou resplendor1, a grandeza ou a suntuosidade característicos de um momento solar e eufórico do Império português cederão lugar a um tempo pós-colonial e a espaços degradados: Angola destroçada, referenciada em ruínas e ocupada pelo FNLA, pela UNITA, tropas "fandangas" do Governo, sul-africanos, mercenários russos, americanos, cubanos, belgas, franceses e ingleses; os musseques e Luanda, a cidade inacabada e dos "defuntos"; Lisboa a desprezar e rejeitar os colonos recém-chegados, "despaisados" e desterritorializados na geografia do exílio (OEP, 256-7).
Esta discursiva da pós-colonialidade, epopéia às avessas, inscreve uma "simultaneidade de sentires, filamentos de memórias refletindo-se no espelho quebrado da perda das identidades"2 ou da sua busca. Assim, as vozes múltiplas que preenchem as páginas dos diários se auto-definem e ao processo histórico, assinalando a sua condição de marginalizadas pela sociedade: Carlos, filho bastardo e mestiço, à espera inútil dos irmãos que expulsara de casa, em uma noite de Natal; Rui, epiléptico e isolado da família em uma casa de saúde, por transgredir regras de bom comportamento; Clarisse, fixada à imagem do pai e considerada prostituta, cujo meio de sobrevivência consiste em relacionar-se com vários homens, para manter o luxo a que se tinha acostumado; Isilda, mãe dos três, colonizadora expulsa da própria fazenda em África, ao ser inaugurada uma nova "ordem" social, sempre acompanhada de uma empregada africana – Maria da Boa Morte –, errante pelas picadas de Marimbanguengo, com "um pano do Congo amarrado à cintura e matacanhas nos dedos" (OEP, 177), na sua "sina de inventar um presente que deixou há anos de existir" (OEP, 87).
Nesta epopéia às avessas, prenhe de armadilhas, Isilda insiste em recusar a realidade (julga que Maria da Boa Morte representa a própria morte e ordena que levante do chão, em que jaz ensangüentada – OEP, 367) e, em sua fuga, empreende uma viagem em busca de salvação (e não mais de riqueza, como no tempo da expansão ultramarina). Ela e sua tripulação jamais alcançarão a Ilha dos Amores, ficarão no meio do caminho, pois irão deparar-se com os soldados – adamastores bem sucedidos que concretizam a ameaça. Encontram, em sua navegação existencial e à deriva, o Cabo das Tormentas e não o da Boa Esperança. Ao pressentirem a trágica morte que se aproximava, compreendem que "estavam inchadas como os cadáveres da guerra à espera que o capim se fechasse sobre elas depois da partida dos pássaros" (OEP, 329).
Ao referir-se ao seu ofício de escrever, durante uma entrevista, Lobo Antunes pronunciou-se:
[...] o que os estrangeiros dizem que trago para a literatura não é mais do que a adaptação à literatura de técnicas de psicoterapia: as pessoas iluminarem-se uma às outras e a concomitância do passado, do presente e do futuro. "A escrita é um delírio controlado" – já lá dizia Antero e antes dele, Horácio: "Uma bela desordem, precedida de furor poético, eis uma ode."3
Esta singular escrita do autor torna-se capaz de revelar a crise da subjetividade coerente, o ensimesmamento e a "escrita de si", característica do período finissecular. Ao se pronunciarem, autobiograficamente, através de monólogos interiores ou solilóquios, na pseudo-escrita de um diário, as personagens iluminam-se umas as outras, através do fluxo da consciência. Desejos, emoções e paixões surgem como categorias políticas e, como afirma Olgária Matos,
É por não ser nunca idêntica a si mesma, que a identidade se apresenta na grande metáfora da viagem – deslocamento mo espaço e no tempo, referida mo território interno do próprio viajante; nela arriscamos nossa própria transformação.4
Na configuração deste diário não ortodoxo (que não obedece a uma sucessão cronológica e nem contém confissões de uma única personagem, mas sim de várias), observa-se a fixação de memórias estilhaçadas e fragmentárias, imagens repetitivas e vozes entrelaçadas, passíveis de superpor tempos e espaços diferenciados. Há uma voz – a da Lena – única capaz de aludir a uma precisa sucessão temporal. Há uma data central e redundante – o 24 de dezembro de 1995 – que concentra solidões individuais e personagens interiorizados sobre si próprios. As evocações de Carlos, Rui e Clarisse ocuparão, respectivamente, cinco capítulos cada, distribuídos seqüencialmente pelas três partes que compõem o romance e ocorrerão do dia do natal, data simbólica do nascimento do Deus-menino, considerado, pela teologia cristã, "infinitamente perfeito, criador e regulador do universo, causa necessária e fim último de tudo o que existe." Portanto, não será gratuita, a inscrição irônica – FINIS LAUS DEO –, no último capítulo do romance, também assinalado por esta data, e que nos relata o assassinato da mãe, Isilda, esquecida pelos filhos, espoliada da fazenda de arroz, girassol, algodão e milho. No entanto, no momento da morte, em que é impossível "marchar contra os canhões" ou metralhadoras "dos tropas do Governo de gravatas coloridas, óculos escuros espelhados de armação metálica como se fosse de prata" (OEP, 395), torna-se capaz de vivenciar o simulacro ou o símile enganador da harmonia desejada. Vejamos:
[...] mas não tinha medo por ser dia, os tropas, mesmo o dos botins de verniz não iam roubar-me nem levar-me com eles nem fazer-me mal, não havia um só quarto às escuras em Malange, erguiam as metralhadoras, fixavam-me com a mira, desapareciam atrás das armas, o modo como os músculos endureceram, o modo como as bocas se cerraram e eu a trotar na areia na direcção dos meus pais, de chapéu de palha a escorregar para a nuca, feliz, sem precisar de perguntar-lhe se gostavam de mim. FINIS LAUS DEO (OEP, 395)
É interessante observar que as outras datas aleatórias que surgem no romance descrevem um percurso fragmentário (de 24 de julho de 1978 a 7 de setembro de 1995) e são preenchidas pela voz desta personagem feminina que descreve o apogeu econômico do início da colonização em África e sua derrocada gradativa, as relações entre as diferentes raças e classes sociais, a violência, o desamor, a traição, a coerção e os genocídios praticados.
Sua enunciação discursiva é reiteradamente marcada por determinadas frases significativas, como, "a casa está morta" (OEP, 92), "por que sou mulher" (OEP, 108) e "Angola acabou para mim" (OEP, 237) ou "A tua casa é do povo camarada" (OEP, 87). Além disso, esta personagem, cujo ego reconstituído para uma satisfação narcísica busca escapar da morte cruel, ao vivenciar o desalento tematiza a questão do espelho e viaja dentro de sua própria interioridade:
Quando à noite me sento ao toucador para tirar a maquilhagem pergunto-me se fui eu que envelheci ou foi o espelho do quarto. Deve ter sido o espelho: estes olhos deixaram de me pertencer, esta cara não é a minha, estas rugas e estas nódoas na pele serão manchas da idade ou ácido do estanho a corroer o vidro? Dantes, no tempo do meu pai...(OEP, 51)
Esta freqüente intersecção de planos temporais, evidenciada no exemplo citado, percorre toda a narrativa e permite aos personagens angustiados e desamparados a ilusão de assumirem-se como demiurgos ou possíveis deuses da criação, ao paralisarem o tempo e fixarem imagens ou sons obsediantes, como por exemplo, a associação feita por Carlos entre o bater do pêndulo do relógio e o do coração:
[...] quando eu não tinha adormecido, não podia adormecer, nunca poderia adormecer, tinha de ficar horas e horas de olhos abertos, quieto no escuro para que ninguém morresse dado que enquanto qualquer coisa no meu peito oscilasse da esquerda para a direita e da direita para a esquerda continuávamos a existir, a casa, os meus pais, a minha avó, a Maria da Boa Morte, eu, continuaríamos todos, para sempre, a existir. (OEP, 77)
Constata-se, no entanto, que no mundo pós-moderno e pós-colonial, o desamparo virou desalento, pois os sujeitos da escrita vivem permanentemente numa condição de risco e de perda dos referenciais que funcionavam como interlocutores. Ao especularem sobre o próprio destino, vêem-se refletidos no espelho do país e suas identidades surgem estilhaçadas e tornam-se simulacros, em meio a fragmentos e ruínas reais ou simbólicas.
Em O Esplendor de Portugal, Lobo Antunes define o labirinto crítico da situação política e econômica da colonização portuguesa em África, através da voz de uma das personagens evocadas pela filha:
O meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África não era dinheiro nem poder mas pretos sem dinheiro e sem poder algum que nos dessem a ilusão do dinheiro e do poder que de facto ainda que o tivéssemos não tínhamos por não sermos mais que tolerados, aceites com desprezo em Portugal, olhados como olhávamos os bailundos que trabalhavam para nós e portanto de certo modo éramos os pretos dos outros da mesma forma que os pretos possuíam os seus pretos ainda em degraus sucessivos descendo ao fundo da miséria, aleijados, leprosos, escravos de escravos, cães, o meu pai costumava explicar que aquilo que tínhamos vindo procurar em África era transformar a vingança de mandar no que fingíamos ser a dignidade de mandar, morando em casas que macaqueavam casas européias e qualquer europeu desprezaria considerando-as como considerávamos as cubatas em torno, numa idêntica repulsa e idêntico desdém... (OEP, 255)
No entanto, o fim deste longo processo de desterritorialização colonial suscita, como nos aponta Boaventura de Souza Santo, em Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade, diferentes movimentos de reterritorialização (o país retoma, depois de cinco séculos, os limites de seu território). E, em decorrência disto, invertem-se os papéis antes definidos, o que obriga os personagens, expulsos de Angola, a sentirem-se excêntricos e marginalizados em sua própria pátria.
Este mesmo procedimento pode ser observado no romance As naus, publicado em 1988, em que figuras emblemáticas da História-pátria tiveram suas identidades de base redimensionadas e, carnavalizantemente, minimizadas. Se antes eram pessoas autênticas em relação ao seu desejo, de acordo com projetos existenciais definidos, agora apresentam-se combalidas pela dor e pela solidão, brutalmente afetadas em seu cotidiano expectante e vazio, impossibilitadas de viver como desejariam.
Todas essas subjetividades malogradas vivenciam a perda das certezas e da estabilidade adquirida. Ao privilegiar o reflexivo, o desdobramento e a consciência infeliz, os autores contemporâneos configuram a antiutopia, capaz de deflagrar, segundo Baudrillard, a "contra-razão, a desterritorialização, a indeterminação do sujeito e da linguagem, a neutralização de todos os valores, da morte da cultura."5
Em O esplendor de Portugal, isso evidencia-se, inclusive, através da delação e da perda dos valores humanistas. Em uma das cenas mais chocantes, Isilda indica, friamente, aos tropas do Governo, o amante e chefe de polícia escondido dentro de um tronco de árvore, o que o leva a ser sumariamente executado. Observa-se, no espaço romanesco, a impiedade das personagens, que se ferem umas às outras sem o menor escrúpulo.
No entanto, o que nos fascina nos romances de Lobo Antunes é que qualquer registro trágico surge acompanhado de uma atitude carnavalizadora e transgressora, fazendo com que o leitor desate a rir. Mas convém lembrar que, dentro do contexto de O esplendor de Portugal, isto transforma-se no grotesco, como atestam, particularmente, duas cenas: o noivo bêbado estatelado no carpete a proteger-se do futuro sogro "que lhe tocava com o bico do sapato, intrigado, a assegurar-se que o embrulho de linho sujo respirava e vivia" e a dizer: "– Onde diabo desencantaste este palhaço Isilda?" (OE, 57) e o menino Rui a destroçar todos os brinquedos de corda encontrados em uma retrosaria ("ursos de feltro, patos de plástico, pingüins, girafas, sapos"), a julgar que troçavam dele, transtornado com um "panda que pestanejava vagidos mecânicos" e dizia, sem parar, "My name is Jimmy", ao passo que a vendedora, atônita, perguntava-se: "– O que é isto?", enquanto uma "velhota de luxo carregado acompanhada do neto gordo e assustadiço de calções", ordenava: "– Telefone à polícia menina Graciete que é um doido". (OEP, 169)
O humor, portanto, torna-se uma forma de auto-irrisão, método de distanciamento e forma de compensação, o que nos possibilita afirmar o primado do "freudiano princípio do prazer que tenta vingar-se de um adverso princípio da realidade."6
Em As naus, por exemplo, há relatos que configuram o riso libertador e autocomplacente que se sobrepõe a um desgostoso e desgastante real. O casal anônimo, que verbaliza a situação dos retornados de África, após a descolonização, e que se considera "múmias sem préstimo espantadas", torna-se capaz de carnavalizar a situação opressora.
Na ficção de Lobo Antunes, a energia criadora alia-se ao conhecimento técnico das palavras, revelando uma maturidade de escrita absoluta, capaz de comover o leitor, fazê-lo rir e sentir-se cada vez mais perto da vida.
Esta forma cultural portuguesa de estar no mundo revela que o esplendor de Portugal, numa época de "desencantamento do mundo e de desrazão", reside, magistralmente, no espaço da escrita.

Referências bibliográficas
ANTUNES, António Lobo. O esplendor de Portugal. Lisboa: Dom Quixote, 1997.
------. As naus. Lisboa: Dom Quixote, 1988.
BAUDRILLARD, Jean. América. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
REIS, Carlos. António Lobo Antunes. Um romance repetitivo. JL: Jornal de letras, artes e ideias. Lisboa: 705. 22 out-4 nov., 1997.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. Porto: Ed. Afrontamento, 1994.
 Notas
1. REIS, Carlos, António Lobo Antunes – Um romance repetitivo. JL: Jornal de Letras, artes e idéias. Ano XVII, nº 705, 22 de out. a 4 de nov., 1997. P. 24.
2. SILVA, Rodrigues da. Do outro lado do céu... Ensaio publicado no JL, Ano XVI, nº 677, 25 de set. a 8 de out., 1966 sobre O manual dos inquisidores, de António Lobo Antunes.
3. LOBO ANTUNES, António. A constância do esforço criativo. JL, Ano XVI. nº 677, 25 de set. a 8 de out., 1996, p. 14.
4. MATOS, Olgária. Vestígios: escritos de filosofia e crítica social. São Paulo: Palas Athea, 1998. p. 151.
5. BAUDRILLARD, Jean. América. Trad. de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco,1986. p. 84
6. TEIXEIRA, Rui de Azevedo. A guerra colonial e o romance português. Lisboa: Editora Notícias, 1998. p. 213

por Ängela Beatriz Faria
(UFRJ)
[não datado]

8 de dezembro de 2004

Ana Margarida Ramos disserta sobre As Naus


A ficção de uma viagem de regresso à pátria. Um olhar sobre As Naus de António Lobo Antunes
   
Resumo
«Era uma vez um pequeno povo europeu que, embarcado há cinco séculos, depois de muito viajar pelas sete partidas do Mundo, regressa, enfim, à casa tão pobre quanto partira - e deita contas à vida, indeciso ainda quanto ao rumo a traçar. Que fazer, agora? Ou antes: como refazer-se a si próprio numa situação nova, original, em cinco séculos de história volvida?» (Serrão 1989:34)
«Imagine que os retornados voltaram nas naus que sobraram aos naufrágios, e que os caixotes que se acumulavam em Alcântara tinham escritos nomes destes: Luís de Camões, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, Francisco Xavier, Manuel de Sepúlveda.» (Pedrosa 1988:70)

Inserindo-se numa linha ficcional que reflecte a contemporaneidade portuguesa ou a sua história mais ou menos recente, António Lobo Antunes, em As Naus, recria, de uma forma original pelo recurso à paródia e à desconstrução, o conceito de Portugal e a especificidade de ser português. O romance em questão tem como ponto de partida duas histórias diferentes de um mesmo país (a contemporânea e a de há cinco séculos) que são entrecruzadas e metaforizadas de tal modo que tudo é possível. O fio condutor para a leitura da obra As Naus passa por uma visão negativa e pessimista da sociedade portuguesa dos nossos dias. A parodização de figuras e acontecimentos funciona, de acordo com Hutcheon (1985), como uma aproximação afectiva aos elementos retratados e como um afastamento crítico desses mesmos objectos. Aqui também só se parodia aquilo que se ama, se admira e às vezes quase se venera. A história de Portugal (aqui história de Lisboa) apesar de pintada a tons carregados e amargos, dá grandes lições de amor, de orgulho e de patriotismo. Às vezes, é pelo lirismo da alma e da poesia que encontramos a definição de um povo: «pareceu-me que o Tejo cheirava ao odor do teu corpo quando acorda, indiferente ao meu amor por ti» (Antunes 1988: 187) ou «a tonalidade das ondas contra a pedra mudara, agora transparente e doce como o som dos teus olhos» (idem, ibidem: 22).

Esta é, pois, uma história de regresso a casa, ou melhor, de retorno à pátria, dos habitantes dos países africanos recém-independentes, após a «revolução de Lixboa» (Antunes 1988:228). Mas, nem o Portugal que encontram é o mesmo que deixaram anos (ou séculos?) atrás, nem estes retornados são, na sua totalidade, a gente anónima que, em número superior ao meio milhão, desembarcou em Lisboa, no cais de Alcântara, ou fez o trajecto através da ponte-aérea.

É então de descolonização e de retorno que se fala, mas também da partida de navegadores e heróis há cinco séculos atrás. Aliás, os tempos da partida e da chegada ligam-se e misturam-se de tal maneira que estão sempre presentes no imaginário dos retornados aqui transformados em personagens de romance. A própria concepção do tempo neste romance levanta-nos alguns problemas, se tentarmos encontrar no tempo uma linha condutora do romance.

Apesar da ironia na escolha das personagens e do cómico patente em algumas situações, fruto do jogo com tempos e personalidades diversas, o que ressalta deste romance é uma imagem de Portugal profundamente desiludida e dolorida. Tudo parece ter acontecido em vão. O que resta de tantas viagens, descobertas, partidas, naufrágios, epopeias e poetas é um grupo de tuberculosos que, sentados numa qualquer praia, olham o mar e esperam que dele venha a salvação nacional. Portugal surge aqui sem presente nem futuro e parece até perder os vestígios de um passado que muitos querem, à viva força, glorioso.

Por outro lado, a desmitificação das figuras históricas permite a sua humanização e consequente aproximação. Ao pegar em Camões amargurado às voltas com a sua epopeia na gare de Alcântara, em D. Manuel com a sua coroa de plástico, ou ainda em D. Sebastião esfaqueado em Marrocos, o autor persegue a alcança objectivos distintos: critica um povo que vive, ainda hoje, demasiado ligado ao passado; parodia um género literário (romance histórico) também ele excessivamente utilizado, ao mesmo tempo que recorre a alguns dos seus condimentos; reflecte sobre a actualidade de Portugal e desmitifica uma história e alguns mitos (D. Sebastião e Alcácer-Quibir), esvaziando a memória nacional e chamando um país à realidade que continuava a ignorar. É como se Portugal tivesse adormecido durante longos anos (séculos) e fosse agora necessário acordá-lo rapidamente e retirá-lo do adormecimento e da letargia em que se encontra de qualquer forma.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTUNES, A. L. (1988): As Naus, Lisboa, Publicações Dom Quixote
HUTCHEON, L. (1985): Uma teoria da paródia, Lisboa, Edições 70
MATTOSO, J. (1993): História de Portugal (VIII volume), Círculo de Leitores
PEDROSA, I. (1988): "Entrevista com António Lobo Antunes" in Revista Ler, nº 2
SERRÃO, J. (1989): Temas da Cultura Portuguesa II, Lisboa, Livros Horizonte

 
por Ana Margarida Ramos
Revista da Universidade de Aveiro - Letras, nº 18, Aveiro, pp. 7-18 (2001)

14 de novembro de 2004

Acho que já podia morrer


Público - entrevista de Adelino Gomes
09 Novembro 2004



Vira as folhas onde escreve, quando entramos. Só falta escondê-las dentro de um livro de Geografia ou História, como, não tarda, nos contará que fazia no tempo da adolescência, em que os pais lhe censuravam a ambição literária.

Passaram 25 anos sobre o lançamento dos seus dois primeiros livros, "Memória de Elefante" e "Os Cus de Judas", em 1979. Aparentemente alheio à azáfama com que a editora prepara a celebração da efeméride, numa festa marcada para o fim do dia de hoje, em Lisboa, António Lobo Antunes debruça-se, desde o princípio da manhã, sobre o tampo de vidro da pequena secretária, quase escondida à esquerda de quem entra na vastidão da garagem emprestada, onde tem trabalhado os seus últimos livros.

A meio da entrevista tomará a iniciativa de mostrar, fugazmente, o resultado da sessão. Frases escritas à mão, numa letra miudinha, delimitadas por traços que parecem marcar deixas das personagens. As quatro horas de hoje deram "um dedo" de texto. Que junto a centenas de outros "dedos", revistos, cortados, refeitos incessantemente, até Março, hão-de constituir a primeira versão do próximo livro.

O anterior, "Eu Hei-de Amar uma Pedra", 17º da sua bibliografia enquanto romancista - só hoje será apresentado oficialmente. Numa sessão ao fim da tarde no São Luiz, em Lisboa, a que a editora de sempre, a Dom Quixote, deu um toque de homenagem internacional.

Se lhe fosse dado escolher, entre vivos e mortos - diz ao PÚBLICO - gostaria de ver lá, a tocar, alguns dos seus ídolos do jazz. "A gente aprende a frasear com eles. Charlie Parker. John Lester. Johnny Rodgers. Thelonious Monk..." O que não quer dizer que gostasse de falar com eles. "Mitificamos as grandes figuras e nem sempre elas correspondem ao que esperamos. É muito raro aparecer um Oscar Wilde; um Churchill a quem perguntam aos 80 anos a que é que atribui o segredo da longevidade: "À ginástica, que nunca pratiquei"; um De Gaulle que confrontado com as reivindicações dos operários de uma fábrica de chocolates que visitava diz: "Vou tomar nota na minha tablette."

António Lobo Antunes, 62 anos, eterno candidato a Nobel da Literatura, o sonho de acabar como Tolstoi: excertos em nove capítulos de uma conversa de três horas.

Esta entrevista é publicada no dia em que se comemoram 25 anos sobre o lançamento do seu primeiro livro ["Memória de Elefante", começado a escrever em 1976 e publicado em 1979].
...vinte e cinco anos! É assustador. Porque se olha para trás e se pensa: "O que eu podia ter feito, o que fiz e o que não devia ter feito da minha vida...'

O que é que fez que gostava de não ter feito?
Não ter magoado pessoas que magoei; não ter sido desatento em situações de amor (amor homem-mulher, amor com os filhos, amor com os amigos); a pouca disponibilidade para as pessoas, por exemplo amigos doentes. Eu ia lá muitas vezes. Mas devia ir mais. Fui agora a Paris visitar o Christian [Bourgois, seu editor em França e grande amigo, a quem foi diagnosticado um cancro há poucos meses]. Fui lá uma semana só para o ver. Mas levei o "tricot". Escrevia todas as noites como um danado. Não sei, espero que rezem pela minha alma pecadora.

Admite a hipótese de um dia parar de escrever para viver? Para fazer algumas dessas coisas que acabou de dizer?
Para fazer? Toda a minha construção mental foi feita para escrever. Eu mesmo me construí todo nesse sentido - para escrever.

No penúltimo livro ["Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", 2003]...
...mas os livros também são silêncio. Já reparou?

O que é que quer dizer com isso?
Quando a gente houve o Sinatra cantar, o que o torna ainda mais extraordinário é o silêncio. Como aquele homem gere as pausas! Outro dia estava a ouvir (tanto quanto consigo ouvir) os "Impromptus" de Schubert, pelo [Alfred] Brendel, salvo erro. Aquilo está cheio de silêncio, meu Deus! Se calhar toda a arte devia tender para o silêncio Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é. Porque nos permite escrever o livro melhor, como leitor.

Como é o silêncio num livro?
Quando perguntaram a Santo Agostinho o que era o tempo, lembra-se o que é que ele respondeu?

Lembro ["Se não me perguntas, sei o que é, e se me perguntas, já não sei."], porque já respondeu dessa forma numa outra entrevista. Aliás é um problema tremendo entrevistá-lo, porque tem dado inúmeras entrevistas.
Foi só esta semana.

Não. No último livro, nos anteriores.
São muitas?

São.

Do trabalho árduo para escrever "como ninguém", antecedido da alegria da frase certa, ou as dores de parto de um novo livro

Está-me a lembrar aquele verso do Régio, da Carta de Amor: Poderia dizer-te sem falsidade, Coisas que ditas, já não são verdade.
Isto às vezes é tremendo porque a gente quer exprimir sentimentos em relação a pessoas e as palavras são gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente é tão mais forte que as palavras... Dizem que o (poeta russo,1799-1837) Putshkin, quando usa a palavra "carne", a gente sente-lhe o gosto na boca. A palavra carne é sempre a mesma, depende das palavras que se põem antes e das palavras que se põem depois. Para que as pessoas sintam o gosto na boca eu tenho que trabalhar como um cão, até encontrar as palavras exactas antes e depois. Mas quando eu estava a corrigir o livro senti que ele estava cheio de silêncio. E estava contente com isso. Se trabalhar muito no osso, despindo da gordura - adjectivos, advérbios de modo, proposições - acaba por chegar lá. Percebe o que quero dizer?

Tento. Gostava de perceber melhor, para saber qual é o momento em que sente que a frase está certa.
Ah, isso é uma alegria enorme: "É isto! É isto!". [Vira-se para a direita e pega numas folhas de papel, com o timbre do Hospital Miguel Bombarda] Este é um manuscrito. É o capítulo que estou a fazer [de um novo livro]. Uma primeira versão. [Baixinho, como quem fala para si mesmo] O que estou a fazer não posso fazer, que dá azar. [Aponta para uma mancha azul e preta de letras e traços.] Comecei por aqui, estava uma merda. Continuei aqui. Comentário? [Pergunta, assinalando o que escreveu à margem, também à mão]

"Que porcaria".
Pois. Dois dias para fazer isto. Mas como já tinha começado, esta [folha] já me demorou só um dia. [Nova folha] Mas esta já demorou dois dias. Por que é que isto acontece? [Assinala outra vez palavras escritas à margem]

"Uma merda. 3.11"
Três do onze? Isso então é uma grande merda. Mas depois, ao mesmo tempo, no meio disto, há momentos de uma alegria tão grande...quase de êxtase. Parece que levita.

Desculpe fazer este parêntesis. Esteve a mostrar-me coisas que muito lhe agradeço e os leitores do PÚBLICO também...
...não estive a mostrar ao PÚBLICO, estive a mostrar a si, nem sequer ao jornalista...

...e eu faço-lhe a pergunta que muita gente fará quando vê essa letra miudinha, aliás impossível de descodificar por olhos estranhos: há alguma razão, de ordem física que lhe exija esse contacto com o papel e a caneta? O computador facilitava-lhe imenso as coisas. Porque, desculpe, aquilo que é "merda", cortava, deletava como se diz agora.
Comecei a escrever nestes blocos que eram os das receitas do Hospital Miguel Bombarda, do meu pai. Os meus pais não queriam que eu escrevesse. Portanto eu tinha que escrever em folhas pequenas: tinha o livro de Geografia ou de História posto por baixo, ouvia os passos deles e trocava a ordem. Ainda hoje escrevo com um livro aberto. Está aí. Para os adultos eu era um factor de inquietação permanente. Os meus irmãos eram bons alunos, eu era o mau aluno. A minha mãe conta que foi pedir aos professores do liceu que me sentassem à frente porque eu estava sentado ao contrário nas carteiras. Ela dizia: "Tiras o curso, sempre te deixo com uma enxada". Eu compreendo. Um escritor, um compositor, um fotógrafo que não tenha talento, a partir dos 40 começa a ficar muito amargo. Já reparou na quantidade de bares cheios de escritores que não escrevem, de pintores que não pintam? Penso que eles, à maneira deles, estavam a tentar proteger-me.

Entretanto passaram cinquenta e tal anos. Já se inventou o fax, o computador, e até agora há o telemóvel.
Telemóvel não posso ter. Interfere com o campo eléctrico [do aparelho auditivo que é obrigado a usar]. Mas por exemplo, eu não sei pôr a funcionar um DVD. Nunca abri um computador na vida. Mas eu gosto deste contacto físico, gosto de desenhar as letras.

Desenhar? Quase não se vêem. São microscópicas.
Então não se vêem? Às vezes ofereço uns capítulos aos amigos. Olhe, ao Júlio Pomar, fui lá a casa e ele tinha aquilo encaixilhado, outros põem nas paredes. E realmente assim até é bonito.

Pois, mais como um quadro.
E nós a chamarmos romances a estes quadros...

Estávamos a falar do arranque do seu trabalho literário, com a "Memória de Elefante". Houve outros livros antes, mas fê-los desaparecer.
Sim, houve vários romances antes. Com esse, achei, prematuramente, que podia publicar.

Prematuramente?
Agora acho bem, mas mais tarde achava que devia ter esperado mais tempo. Não ter pressa. Que só devia ter começado a publicar a partir de "O Manual dos Inquisidores" [1996]. Eu era muito consciente de que o que fazia era muito mau. Mas também de que se trabalhasse muito, faria coisas que mais ninguém faria.

É aí que os entrevistadores costumam introduzir a questão da vaidade, a que responde que não é vaidoso. Mas com uma grande vaidade.
Vaidade? Estou a ser sincero. O Adelino não encontra quem escreva como eu. Agora dizem todos isso. Naquela altura era eu sozinho a dizer para mim mesmo. E com vontade de dizer "não, porque eu só faço porcaria". Na minha geração, eu lembro-me de sair "A Paixão", de Almeida Faria [1965] e eu com 19 anos a pensar "nunca chegarei aos calcanhares deste homem"; ou os poemas da Luíza Neto Jorge; ou os poemas do Gastão Cruz, sei lá, tanta gente publicava, e todos eles eram melhores do que eu.

Depois houve um dia que descobriu...
Qual quê? Depois foi trabalhar, trabalhar, trabalhar. Porque para mim a coisa era clara: eu não tenho nenhum dom natural, mas não posso fazer a minha vida sem isto. Também não tinha vivido [ainda, naquela altura]. Tinha a sensação de ter muitos quartos, mas que só vivia em dois deles, não abrira as outras portas e janelas.

Há muitas portas e janelas ainda para abrir?
Espero bem que sim. Cada livro é mais um. Embora um livro nunca esteja acabado. Escreve-se um para corrigir o anterior.

Qual foi o melhor livro que escreveu?
Não sei dizer. Julgo que têm vindo a ser progressivamente - melhores é uma palavra que não quero usamais conformes à ideia que eu faço do que deve ser um livro.

O último normalmente fica mais perto?
É o mais parecido com aquilo que eu acho que deve ser um livro.

E o pior? [Por esta ordem de ideias] Foi o primeiro?
Folheei-os, agora, por causa destas edições "ne varietur" [por uma equipa coordenada por Alzira Seixo, que estabelece ou fixa o texto definitivo das primeiras edições e das reedições] e fiquei surpreendido. São os livros de um outro. O rapaz que escreveu aqueles livros não existe. É um antepassado meu. Olho para ele como para outra pessoa: as ideias, os sentimentos, as emoções dele escapam-me, muitas delas. Estão cheios de força e essa força surpreendeu-me, no caso da "Memória de Elefante". Mas depois comecei a perceber por que é que os editores o recusaram. Andava o pobre do Daniel Sampaio a levá-lo aos editores. Aquilo era muito estranho na época. Mas pensei, ao mesmo tempo que, se eu fosse editor, publicava, porque pensaria: 'Isto tem tanta força que se calhar ele vem a fazer coisas de jeito'...

Há uma coerência interna na sua obra?
Há, "malgré moi". Eu só há pouco tempo é que deixei traduzir a "Memória de Elefante". Achava que me desfigurava.
Mas não "Os Cus de Judas".
Com esse passou-se o mesmo que em Portugal. Ninguém queria os meus livros lá fora. E então o editor começou a oferecer "Os Cus de Judas" porque falava de guerra. Foi, em geral, o primeiro livro a ser traduzido. Mas o livro que me escancarou as portas foi o "Fado Alexandrino" [1983]. Encheu as páginas dos jornais franceses, teve uma crítica extraordinária de Jean Clémentin do "Canard Enchainé". É curioso, a própria "Memória de Elefante": acaba de ser traduzida na Alemanha, era o único que faltava. A crítica foi extraordinária. Para grande espanto meu.

Dos sonhos de glória e da embriaguês do sucesso ao medo de "não conseguir", com breve passagem por Saramago.

Estes 25 anos ficaram aquém, atingiram, ou ultrapassaram os seus melhores sonhos?
Eu nunca tive sonhos de glória nem de reconhecimento. Aos 14 anos tinha. Mandam-me muitos manuscritos. O que é que esperam? Que eu os leia à segunda-feira, que lhes diga que são bestiais à terça, que na quarta sejam publicados e na quinta tenham reconhecimento universal. Escrever não é isto. Mas o que me aconteceu ultrapassou aquilo que podia imaginar. Quando saiu o primeiro livro eu era um inocente: não conhecia um único escritor, não sabia como é que uma editora funcionava, sabia lá o que era um agente. Caio de pára-quedas aos 36 anos num mundo que me era completamente desconhecido. Quando o livro saiu eu fui de férias. Quando voltei (já estava a escrever o terceiro livro) era famoso. O livro estava em todo o lado, vendia imenso, fizeram-se várias edições, e eu ia à noite - tinha vergonha de ir durante o dia - espreitar as montras da Baixa e ver o meu nome impresso. Só o tinha visto nas pautas.

Ultrapassou os sonhos, diz. Mas a ideia com que se fica logo nas suas primeiras entrevistas é que chegou com uma enorme arrogância. Sabe que é já, ou pelo menos que está escrito já nas estrelas, que vai ser um grande escritor.
Achava-me investido de uma grande autoridade. Achava que ia ou que estava a renovar a arte do romance. E então, embriagado pelo sucesso, comecei desajeitadamente e de uma maneira injusta, a ser arrogante e violento para pessoas que não o mereciam. Inclusivé para pessoas de quem depois me tornei muito amigo, como o Zé [Cardoso Pires]. A literatura não existia, começava comigo. Há maneiras mais delicadas de se pensar isso [ri]. Tinha necessidade de o dize'Vejam, vejam, vejam!' -, como o menino que achou a bola.

Dos seus ódios de estimação só resta [José] Saramago?
Não quero nem tenho tempo para odiar seja quem for. Não tem que ver com isso. Tem que ver com o facto de ser tudo uma floresta de enganos. E me parecer... Ó Adelino, ainda é muito cedo para a gente avaliar o que eu estou a fazer.

Do seu lado já avaliou. Até diz e repete: "Ninguém escreve como eu."
Isso é outra coisa.

Até pode ser ambíguo e querer dizer simplesmente: "Tenho o meu estilo".
Estou mesmo convencido da qualidade dos livros. O meu problema agora, o que me assusta mais, é se desiludo as pessoas que puseram em mim uma fé que eu não partilhava - o Thomas [Colchie], o agente, e mais outras pessoas que acreditavam firmemente que aquelas merdas iam fazer livros. Foram muito importantes para mim essas pessoas. Deram-me muito alento nos momentos de desânimo que são muito grandes.

Da democracia, das classes altas e respectivos caseiros, e da dor "de ver o povo a viver a assim"

Sente-se refém das expectativas criadas nas pessoas que admira e também no leitor, de quem eventualmente tem uma imagem?
É curioso: só tenho [a imagem dos leitores] da Feira do Livro. No estrangeiro, por exemplo na Alemanha, quando vou lá, é um teatro e são mil e tal pessoas. E as pessoas pagam para entrar. Na Feira é que vejo as pessoas. Mas não há muito tempo, porque os de trás já estão a protestar.

De qualquer maneira, deve ter a ideia do tipo de leitor. A escrita vai dirigida a alguém? Quando está a escrever o livro está a fazer isso?
Não, quem escreve está a desembaraçar-se. Está a desembaraçar-se de uma coisa.

[Se assim fosse] Isso é atirar à sorte pela janela.
É atirar à sorte mas atirar bem. Deixar tudo muito bem dobradinho. Não é atirar a roupa para o chão. E então começa a ter pressa de se livrar daquilo. E também está a lutar contra o tempo. Quanto tempo mais é que eu vou ter? Quantos livros mais é que eu vou conseguir? Será que eu vou conseguir escrever mais algum? Isto é constante, constante, constante.

Está-me a dizer algo que é o contrário do que tem dito sobre a relação exclusiva que se estabelece entre o leitor e o livro. Agora o que diz é que não escreve para mim. Por mais que eu sinta que aquele livro foi escrito para mim?
Se eu piscar o olho ao leitor o livro é mau. Seria uma solução óbvia. Eu não gosto de mulheres óbvias. Nisso o Hitchcock tinha razão quando dizia que as mulheres mais ardentes (julgo que estava a falar em termos cinematográficos) são aquelas que têm uma aparência física distante e que se vestem de uma maneira muito púdica. Basta reparar nos estereótipos femininos que aquele homem foi usando ao longo da obra dele. Os meus leitores quem são? Olhe, adolescentes. Já tenho contado aquela história do pai de 40 e tal anos que me aparece com o "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" [2000], que foi talvez o livro mais complexo que eu escrevi, era acerca de uma agonia e de uma morte que eu estava a viver. Levava a filha, Joana, e disse que não percebia nada dos meus livros, o que é uma coisa que me surpreende. Perguntei-lhe a ela se achava os meus livros difíceis e ela olhou-me como para um homem do Neandertal. Os meus leitores são gente nova, gente com pouco dinheiro, da classe média, que é aquela que é mais penalizada por aquilo a que se chama democracia.

"A que se chama democracia"?
A gente não vive em democracia, como é evidente. Não vive. Há algumas quase democracias - a Holanda, a Bélgica, a Suíça [com] aquele arranjo [federal] complicado. A democracia implicava um constante referendar pelo povo das decisões do poder. Não existe.

O povo se calhar cansava-se. Em 75, quando estava tudo a ser posto em causa todos os dias, as pessoas cansaram-se, estar todos os dias a votar...
...as pessoas tinham medo, estavam apavoradas. Lembro-me do senhor José, que era o caseiro do meu avô dizer: "É preciso que venham os franceses tomar conta da gente".

Significa que aquilo que estava a apontar como o ideal da democracia é qualquer coisa que as pessoas se calhar não querem.
Eu acho que querem, mas também não têm oportunidade. O que é que lhes resta? Votar de quatro em quatro anos?

Pois, mas quando podiam votar todos os dias, de braço no ar, não quiseram.
Votar de braço no ar não é democrático. Isso não é democracia.

O que é então a democracia para si? Em que sociedade gostava de vier?
Paradoxalmente, eu vivo muito fechado. Não gosto de ver o meu povo a viver assim. Dói-me. Dói-me chegar à Feira do Livro e a pessoa dizer: "Só posso comprar um livro". E então eu peço ao meu editor para oferecer o livro. E deixam-me dar aos mais novos, que não têm dinheiro, e a pessoas que se nota pelas roupas que não têm muitas posses. Eles querem comprar livros e não podem. Ganham pouco, vivem longe, porque é mais barato. No Cacém por exemplo. Oito horas de trabalho, não sei quantas de transportes públicos, chegam a casa, o marido, a mulher, os filhos, telefone, televisão. São pessoas que estão a gastar o dinheiro e o tempo delas, que é muito pouco, para me lerem, tenho que me sentir grato. Uma vez um homem estendeu-me um livro: "Assine, porque sou o seu patrão". E tinha toda a razão. Essas pessoas permitem que eu viva dos livros. Tenho que as respeitar. São tão calorosas. Bem, às vezes, por causa de "Os Cus de Judas" tive uma série de problemas. E do Tratado [das Paixões da Alma, 1990]. Até com "As Naus" [1988]. Aí a direita acusava-me de dizer mal dos grandes vultos nacionais; a esquerda de dizer mal das grandes conquistas da Revolução. Os meus primeiros livros - achava graça - provocavam reacções emotivas extremadas. Chegou a haver tentativas de agressão física. Julgo que por falarem de uma realidade imediata. Foram precisos anos para fazer esta grande unanimidade. Que veio do estrangeiro, não nasceu cá.

Como é que explica que o mesmo livro entusiasme o homem que vive no Cacém e uma mulher que vive na Suécia ou nos EUA? Quando de resto os seus temas são a Brandoa, o cachucho, o naperon....
Serão? O que eu tenho tentado é mostrar todas as classes sociais, todas as formas de viver. O "Auto dos Danados", por exemplo, é claramente sobre as classes altas.

Estão sempre lá os caseiros...
Estão. Porque eles existem. Como dizia o Balzac é preciso ter escavado à vida social para ser um escritor, porque o romance é a história privada das nações. O que eu tento é que apareçam pessoas de todas as classes sociais. E isso acontece naturalmente. Mas essas classes [mais baixas] são mais importantes para mim. Sabe, a frase mais importante que eu ouvi na minha vida foi na Faculdade de Medicina, numa aula de Neurologia com o professor Miller Guerra. A doente era uma senhora com Parkinson, com dificuldade em mover-se. "Como é que a senhora consegue fazer a lida da casa?", perguntou-lhe o professor. "É tudo a poder de lágrimas e ais". Eu tinha 20 anos e nunca mais esqueci. Se eu pudesse escrever assim!... As grandes lições da minha vida não foram dadas pelas pessoas do meio onde nasci. Foram-me dadas pelas pessoas que vivam a poder de lágrimas e de ais. Quando estava no hospital, dava-me muito melhor com os serventes, os operários. Julgo que herdei isto do meu pai. Porque os admirava, porque os respeitava. E tenho muitos amigos assim. Se tenho um problema no carro, num cano, ou não sei quê, tenho logo amigos que vêm.

O pé do Zé Francisco, a revisitação da infância na Beira Alta, a noite a transformar-se em manhã, ou de como o autor se vê, apaziguado, entre instâncias que lhe escapam

Continua a ir ao hospital?
Acabou agora. Até há pouco tempo ia. Afectivamente estava muito ligado. Ia lá desde pequeno, com o meu pai. Em miúdo tinha muito medo daquelas pessoas. Depois comecei a gostar muito delas. Em nome de quê eles estavam ali, comecei a perguntar? E encontrava pessoas de uma riqueza extraordinária. Aprendi muito da vida com as pessoas que encontrei ali. Outro dia, uma senhora alentejana estava a queixar-se, com muitas dores. A expressão dela: "Tantas fezes, tantas fezes..." A capacidade evocativa disto! Ao passo que eu ouço as pessoas que entram na Quinta das Celebridades (já espreitei, como é evidente, como toda a gente), não me interessam nada. Agora esta gente é rica. Fala por vezes um português arcaico. Há certas regiões de Trás-os-Montes onde as pessoas me tratam por vós. "Onde ides?" Era esse o meu país, percebe?

Anda [por ele] à procura de inspiração?
Não, não. Tomara que não viesse tanta. Agora tenho voltado ao sítio da minha infância, na Beira Alta. Está lá, passa um estranho por si e diz "Bom dia". Aquilo é natural São fidalgos. São fidalgos.

Voltando às musas, à inspiração: nos seus livros encontra-se Angola, a família nesse conceito muito vasto que vai dos pais aos caseiros, e um pouco a medicina. Esta não foi um campo onde ia beber inspiração?
O que é que guardo mais? O que me apareceu logo foi um pé. Quando eu era estagiário fui colocado no serviço de pediatria (três meses de internato. Escrevi sobre isto uma crónica). Miúdos de três, quatro anos, com cancros, com leucemias, com coisas nos rins. Afeiçoei-me a um miúdo chamado Zé Francisco. Era tão bonito, o miúdo. E o Zé Francisco morreu. Tão alegre. Quando morre uma pessoa no hospital, vêm dois maqueiros com uma maca tapada com um lençol. Ele tinha quatro anos. Veio só um homem, embrulhou-o no lençol e levou-o ao colo. Eu estava entreportas e via o homem a afastar-se com o Zé Francisco embrulhado. Não via o Zé Francisco, o homem estava de costas, mas do lençol saía um pé, e o pé balouçava. Isto ainda hoje me comove. Às vezes penso que escrevo para o pé do Zé Francisco. Há uma história que o meu irmão João [Lobo Antunes, neurologista] me contou, quando era estagiário. Sobre uma miúda de 14 anos que tinha uma leucemia, não sabia que a tinha, foi ao gabinete de enfermagem, abriu o processo dela e viu lá: leucemia. O João contava como a cara da miúda se transformou. Os hospitais para mim eram sempre um sítio donde saía...Era ali que estava o... É nessa região que tenho que escrever.

Já não vai voltar lá?
Agora acho que a minha obrigação é escrever para eles. Por eles. A gente também deve escrever pelas pessoas que não têm voz. Quem é que liga aos camponeses lá da minha Beira Alta? Quem? E eles dizem-me: "Escreva sobre nós".

Pode saber-se sobre que é esse livro que está agora a escrever?
Estou a lembrar-me de Dom Francisco Manuel de Melo, de quem gosto muito, que dizia num prefácio: "O livro trata do que vai escrito dentro." Não sei sobre que é que é. Não sei.

Já começou, e ainda não sabe?
Ainda me falta bastante. Espero acabar a primeira versão em Fevereiro, Março, para depois começar a trabalhar.

Já vai nuns capítulos lá para a frente, não é?
É isso que se passa em Évora, não sei porque carga de água.

Então não é em Nelas?
Não, é em Évora. É um homem, duas mulheres. A ideia era esta: como a noite se transforma em manhã.

Uma coisa que acontece desde o princípio...
Exactamente. Como a noite se transforma em manhã dentro de duas ou três pessoas, que no fundo são representantes de toda a gente. Um homem, duas mulheres. Como a noite se transforma em manhã, dentro deles.

Um livro como este último ["Eu Hei-de Amar Uma Pedra"] em que não vai aparecer o mundo exterionão vai aparecer o Bush, não vai aparecer o Arafat, Santana Lopes, a Casa Pia, nada do que está aqui à volta?
Mas isso não são coisas importantes. O que eu queria era que aparecesse a vida toda. Descobri agora que o homem tinha pertencido à polícia política [Pide, extinta em 25 de Abril de 1974]. Não quero entrar muito, porque é meio nebuloso ainda, e depois porque uma vez parti para um livro ["Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", 2003], passado em Angola, pensando que ia falar em seitas religiosas mas foi tudo subvertido e acabou em diamantes, tráficos...

Ainda não consegui saber é quem é que é esse seu co-autor?
Como? Exactamente. Aconteceu-me uma coisa parecida com o "Manual dos Inquisidores", que é um livro de que algumas pessoas gostam muito... Eu gosto mais dos últimos. Bom. Eu queria que a amante do velho [personagem central do Manual dos Inquisidores] fosse um travesti. E o livro rejeitava-me o travesti. Depois foi recuperado [em "Que Farei Quando Tudo Arde?" 2001]. Eu gosto desse livro. O que me deu mais trabalho talvez tenha sido "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura [2000]. Dão todos. Eu estava a ver estas anotações à margem [no manuscrito do próximo livro] e a pensar: "Não vou ser capaz, não vou ser capaz, não vou ser capaz". Eu julgo que...eu julgo... Acho que já podia morrer.

Sente-se feliz, portanto, com o que fez?
Sinto. Sinto-me em paz comigo. Fiz o melhor que pude. Trabalhei muito e fiz o melhor que pude. Se não fiz melhor foi porque não fui capaz. Isto parece a linguagem de um futebolista no fim de um jogo. Mas fiz o melhor que pude. Se os livros não são melhores a culpa é minha.

E fez isso para quem? Se não pensou no seu leitor...
Há uns tempos estava a falar sobre isso com o Eduardo Lourenço. Ele gosta muito do [Fernando] Pessoa. Dizia-me ele : "Fazes-me lembrar aquele soneto do Pessoa
Emissário de um rei desconhecido,
Eu cumpro informes instruções de além
É como se uma pessoa fosse um médium, entre duas instâncias que lhe escapam. A gente não sabe bem donde é que vêm as coisas. De que região nossa, de que parte nossa. E isso impede-lhe a vaidade, porque o seu único mérito é o de trabalhar e receber. Temos que ser orgulhosos, mas bolas, há dois sentimentos que cada vez me são mais incompreensíveis: a vaidade e a inveja.

De quando Deus faz pessoas à medida dele...

Cá de fora vejo-o vaidoso. Como constatação sua de capacidades, talvez.
Fazer uma constatação de capacidades não é estar a ser vaidoso, mas realista. A vaidade implica um hipervalorizar coisas nossas. A vaidade implica uma sensação de superioridade sobre os outros, que não se tem direito de ter. Porque depois aparece uma pessoa que faz tudo a poder de lágrimas e ais e o Adelino não é capaz de o fazer. E que lhe dá uma lição de humanidade incrível. A pessoa mais luminosa e inteligente que encontrei na minha vida foi há muitos anos numa consulta no hospital Miguel Bombarda - uma rapariga com uma depressão. Era criada de servir. Uma capacidade de"insight", uma capacidade de inteligência abstracta, de associar tempos da vida dela, espantosa. E reduzida miseravelmente à condição de serva. E ela não tinha consciência disto. Depois teve um cancro. Da mama. Não o tratou a tempo. Já só me aparecia porque eu gostava de conversar com ela. Com o marido, [que tinha] um emprego muito modesto. Com uma cabeleira postiça. Com 42 anos, morreu ela. "Gostava de viver mais uns anos..." Parecia que saía luz daquela mulher. E o Adelino saía dali, mesmo que ela não falasse, com a sensação de que de vez em quando Deus faz pessoas à medida dele.

...à história do filho do soldado Schutte

Vai querer que a literatura o recorde como quê?
Vai-me ser igual - porque tenho a boca cheia de terra, não é? - que me ponham nos Jerónimos ou que me deixem na vala comum. Aqui há tempos tive um sonho. Era um pesadelo horrível. Tinha morrido há 20 ou 30 anos, e as pessoas estavam a discutir os livros. E eu queria voltar porque não era nada daquilo. Não imagina como foi desconfortável. Só para explicar: "Não é, não é!"
Logo [na sessão no S. Luís] vão falar duas pessoas luminosas. Uma que é o Wolfram Schütte e a outra o Matts Gellerfelt, sueco. O primeiro foi jornalista do Frankfurter Rundschau durante muitos anos. Coxeia um pouco. É muito parecido com o Sean Connnery, da mesma idade. Quando comecei a conhecer melhor a Alemanha, soube que o pai da minha tradutora tinha sido morto na guerra, que o sogro tinha sido morto na guerra, por aí fora. As pessoas, aquelas que têm agora 60 anos, não falam do que sofreram. O pai do Schütte foi morto e ele ficou sozinho com a mãe. Um dia, quando já tinha mais intimidade com ele, perguntei-lhe que doença tinha, assim a coxear. Ele contou, como se fosse uma coisa banal, sem nenhuma emoção aparente: os miúdos como ele, com seis anos, iam roubar carvão para aquecer a casa. Os soldados americanos tinham posto o carvão todo no mesmo sítio. Os miúdos iam buscar o carvão e os soldados atiravam sobre eles como apostas: "Vinte dólares a quem acertar naquele!" Ele coxeia porque tem uma bala na perna. Na altura não havia médicos nem nada, a Alemanha estava arrasada. Havia viúvas, e havia filhos de mortos. Contou isto sem azedume. O Malaparte não conta coisas diferentes, sobre o fim da guerra em Itália. Adelino, eu sse fosse iraquiano... Eu não consigo condená-los. Não consigo. Se isto se passasse na minha terra? Agora a gente olha para trás e pergunta: "O que é que eu fiz em África?" Se fosse aqui, nós estávamos na guerrilha. A minha filha mais velha foi ao Iraque, numa missão humanitária. Os americanos tiraram-lhe o telemóvel. Deram-lhe um telemóvel americano. E então ela falava numa linguagem alusiva: "Então como é que estás, filha? - Ai, está muito bom o clima, há muitas pessoas deitadas na areia a apanhar sol". Isto, para além da minha incompreensão da injustiça do sofrimento. A semana passada morreu um amigo meu que há 30 anos lutava com uma doença crónica horrível, com uma dignidade e uma coragem exemplares. "Como é que estás, Zé?" "Estou bem". Nós somos isto, nós pessoas anónimas...
Onde se fala da morte, de Deus ("do horrível" e do que "chora"), dos mouros de Lisboa, de Israel, e dos países que não têm homens à frente deles.

A inevitabilidade da morte é algo que lhe arranha o dia a dia?
(longo silêncio) A morte das pessoas de quem gostei foi muito difícil para mim. O meu avô morreu quando eu tinha 18 anos e ainda me dói. Beijo o retrato dele às vezes. Chega uma altura em que a gente tem a sensação de ter mais mortos do que glóbulos no sangue, em que já nos tiraram quase tudo. Sempre achei a morte misericordiosa. Vi morrer muita gente, por razões profissionais. E nunca vi ninguém morrer agitado. Não sei o que é morrer.

Há pouco disse que não lhe interessa nada depois, porque vai ter a boca cheia de terra. Não tem lá no fundo do fundo nenhuma dúvida de que possa não ser assim?
Há um provérbio húngaro do século XVIII que diz: na cova do mundo não há ateus. O meu pai, que era um anátomo-patologista, argumentava que o nada não existe na natureza, tem que haver qualquer coisa. Mas o que me começou a surpreender mais aí pelos 20 e tal anos foi quando comecei a ler os escritos dos físicos - Max Planck, Einstein, etc...- foi que eles eram homens profundamente crentes. E que tinham chegado aí através da matemática e da física.

E isso fê-lo a si chegar a Deus?
O problema é que me impingiram um Deus horrível. "Não comes a sopa, o Menino Jesus vai chorar". Este deus horrível, que mandava castigos e que matava primogénitos, era um ser, uma entidade horrível.

Mas pode mudar de deus. Hoje é muito fácil, com a globalização. Em Hollywood estão a aderir todos ao budismo.
Eu agora ando muito atraído pela teologia da angústia que levou todos esses teólogos aos campos de concentração. Outra dia a minha tradutora sueca, a propósito da doença de uma pessoa muito amiga, dizia: "Deus está a chorar" Para ela, Deus é uma entidade que sofre, a braços com uma criação que muitas vezes o excede. Eu julgo que Deus está presente em todos nós. Nunca vi ninguém morrer e chamar pelo pai. Chamavam pela mãe ou por Deus.

Quer dizer que, em tese, começa a acreditar que, no tal sonho que teve, um dia vai poder intervir na discussão sobre o seu livro...
(gargalhadas prolongadas). Não, eu julgo que isso tem a ver com o meu receio de não ser entendido.

Será aliás extraordinário é o livro que vai escrever depois disto tudo. Isto é, no outro estádio.
Eu gosto muito do Corão. Na sua generosidade, na sua humanidade, é superior ao Antigo Testamento. Quando D. Afonso Henriques tomou Lisboa, havia aqui um bispo. Repare a tolerância religiosa deles. Eles não matavam prisioneiros. Nós é que matávamos todos. Agora deram-me o "Prémio Jerusalém". Foram muito correctos, disseram-me: Você diz o que quiser".

O que é que disse?
Que normalmente quando me convidam para casa de alguém não digo que os cortinados são de mau gosto... Estive com o [escritor israelita] Amos Oz, de quem gosto muito. Ele defende abertamente um estado palestiniano.

Ele e uma parte da inteligência israelita.
Fiquei surprendido com a lista dos premiados [ao longo dos anos]: Bertrand Russel, Graham Greene, e por aí fora. O Amos Oz contou-me uma história extraordinária. Quando ele foi para Israel, no princípio, o presidente vivia em dois quartos, pequenos, com um soldado à porta. O oficial de ronda achou que o soldado estava muito gordo e esquisito. Aproximou-se e era o presidente que estava de farda e de espingarda. "O rapaz tinha a mãe doente....", explicou ele. Agora imagine o primeiro-ministro a vestir-se de contínuo. O nosso. Pois é, é que há países que têm homens à frente deles. Concorde-se ou não com eles, a gente não pode deixar de respeitar um Olof Palme, um Willy Brandt, um Heinrich Böll.

Histórias de quando Lisboa votava contra o autor, elogio de Cavaco, e a cereja do Nobel

Iniciei esta entrevista notando que neste seu último livro não havia nada à volta. E depois tinha vontade de lhe perguntar, mas a conversa nunca mais deixou, se para si também não há nada à volta. Vemos esta garagem, é aqui que escreve, não sei quantas horas por dia.
Nenhum deste objectos é meu. Eu posso pegar numa mala, agarrar nos livros que são meus, nos quadros do Pomar, que ele me dá, e partir.

Sabemos pelas entrevistas que dá que vai pouco ao teatro, pouco ao cinema, não gosta de ir a bares...
...não bebo...

...Mas está atento aquilo que se passa, vê televisão?
Pouco. Vejo teletexto. Gosto de ler alguns jornalistas. Às vezes pergunto-me que liberdade têm os jornalistas. Se esta discussão que há agora [sobre pressões dos poderes político e económico] não houve desde sempre. A sensação que tenho do que conheço de si, por exemplo, é que deve ter tido graves problemas ao longo da sua vida.

Isso não vem agora ao caso, podemos conversar em "off".
É que um livro não é completamente inócuo. Quando aqui há uns anos se começou a falar em mim para o Prémio Nobel - tenho aí fotocópias - havia documentos de departamentos portugueses que diziam mais ou menos que esse homem ofendia o seu país através dos seus livros.

Em Portugal? Em que década? Anos 90? Tempo do cavaquismo?
Presumo que não tinha que ver com o primeiro-ministro. O dramático, aliás, é a gente olhar para trás e pensarmos: qual foi o melhor primeiro-ministro depois do 25 de Abril? Eu sou de esquerda. Mas acho que foi o Cavaco Silva. Tenho muita pena de o dizer. Por todos os defeitos que o homem possa ter, esta é a verdade. O que se tem passado nestes últimos anos é profundamente indignante.

Mas essa informação sobre uma censura do Estado à atribuição do prémio, nunca ouvi falar dela. Quem escreveu a carta: o Ministério da Cultura, alguém importante?
Não digo. Não sei porquê, mas eu era uma figura incómoda.
Mas vou dar-lhe outro exemplo: o júri de um prémio europeu importante, de tradução, queira dar o prémio à minha tradutora alemã. A representante portuguesa no júri, do Instituto do Livro, diz: não pode ser porque esse escritor é "overestimated abroad". Pergunte logo ao Wolfram, porque ele estava no júri e ficou indignado. Acho que ela ganhou o prémio na mesma, porque os outros membros do júri votaram nela.

Mas o António Lobo Antunes é hoje um consenso nacional.
Agora sim. Tão curioso que isso é. Mas vem de fora para dentro. Mas eu queria que ficasse claro que eu estou muito grato ao meu país. Não tenho nenhum sentimento de amargura.

Está-se sempre a perguntar-lhe isso, mas eu gostava de ouvir a sua palavra definitiva: é-lhe indiferente o Prémio Nobel, ou, como seria humano, gostava dessa cereja no bolo?
Quer que eu seja sincero ou quer uma resposta de entrevistado? Claro que me dava prazer. Dá prazer a qualquer pessoa. Mas depois posso defender-me pensando: o Tolstoi nunca o ganhou. A lista não é boa. A lista não é boa. Agora é evidente que gostava.

Celebrar com Charlie Parker e acabar como Tolstoi

Como vê este sarau de logo à noite?
Os livros permitiram-me conhecer pessoas melhores do que nós. Que têm um calibre humano que eu não tenho. Muitos vão estar logo à noite no São Luís. Eu se tivesse sido baleado por um soldado aos seis anos andava com esse ódio dentro de mim toda a vida.

Se pudesse escolher os convidados desta noite da homenagem, quem gostava de ver l?
Charlie Parker. Alguns músicos de jazz. A gente aprende a frasear com eles. John Lester. Johnny Rodgers. Thelonious Monk. Gostava de ouvi-los a tocar. Não sei se gostaria de falar com eles. Eu tenho muito medo, sabe. A gente mitifica as pessoas. Lembro-me de ter ido ter com um escritor que me convidou para almoçar. Eu disse "Bom dia", ele disse "Bom dia", e fiquei logo desiludido. A gente espera que um escritor diga sempre coisas inteligentes e é muito raro aparecer um Oscar Wilde; um Churchill a quem perguntam aos 80 anos a que é que atribui o segredo da longevidade e ele - "A ginástica, que nunca pratiquei"; um De Gaulle que confrontado com as reivindicações dos operários de uma fábrica de chocolates que visitava diz - "Ora deixa tomar nota aqui na minha tablette"...

Como vão ser os próximos 25 anos da sua carreira?
Os próximos 25 anos? Espero não ter o mau gosto de viver mais 25 anos.

Que marca quer ainda pôr nos seus trabalhos?
Queria escrever mais livros. Ultimamente quando vou a estes prémios fico muito agradado: têm a nossa bandeira. Na Áustria os emigrantes portugueses choravam porque havia a nossa bandeira na chancelaria. Choravam com lágrimas. Se a gente puder deixar qualquer coisa que no meio do sofrimento abra uma janela qualquer, já me chegava.

Anda com frases na cabeça?
A princípio sim, agora já não Às vezes aparece, à noite. 'Amanhã lembro-me.' Claro que não me lembro.

Numa entrevista dada no lançamento do penúltimo livro, dizia que iria escrever mais dois ou três livros. Do que disse nesta, fiquei com a ideia que gostaria de escrever até ao fim.
Às vezes digo não importa o quê para me deixarem em paz.

Já percebi. Estou a aborrecê-lo..
Não, não está nada. É que qualquer entrevista é muito inferior a um livro. O livro permite corrigir-se. A entrevista necessariamente está cheia de lugares comuns. Uma vez um admirador da Sarah Bernhardt todo contente disse: "Ah! É V. Excelência Sarah Bernardht?" E a resposta dela foi: "Serei esta noite." O António Lobo Antunes só existe depois dos livros feitos.

Então pronto. Peço-lhe desculpa destas três horas que lhe retirei ao seu livro. Hoje já tinha escrito quanto?
Quatro ou cinco horas.

Em páginas isso traduz-se em quanto? Aquelas duas que vejo ali?
Hoje escrevi muito pouco. [Pega numa das folhas, mede-a]. Um dedo. Em quatro horas escrevi um dedo.

Espero que agora corra melhor.
Eu só espero...sabe, chega uma altura em que uma pessoa sem se dar conta, começa... como aconteceu com o Garcia Marquez, com o Faulkner, com o Hemingway...

... espera que aí, se a campainha tocar, pára, é?
Eu acho que ela não vai tocar. E provavelmente como os outros, ficarei a fazer...coisas más.

Aí, aquele seu agente norte-americano [Thomas Colchie] vai dizer-lhe: "Olha, estás a descer!".
Ele é muito cruel. Mas quando se descer, não se sobe mais. O Ingmar Bergman falava longamente sobre isso. Não estou muito de acordo, mas ele dizia que notava com a idade que o instinto sexual e a capacidade criativa iam desaparecendo a pouco e pouco. No entanto continua a trabalhar imenso.

Gostava de poder escrever até ao fim?
Gostava que me acontecesse como ao Tolstoi. Naquela gare onde ele morreu, puseram-lhe um lençol por cima. Ele estava deitado e no lençol a mão dele continuava a desenhar as letras. Era assim que eu gostaria de acabar...

Obrigado
...se tiver de acabar.


Público
09.11.2004

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...