28/09/2004

SerMar: sobre Que Farei Quando Tudo Arde?


Com este livro de Lobo Antunes somos levados mais uma vez a viajar pelo mundo das nossas angústias que tantas vezes julgamos serem só nossas. Como ele próprio já afirmou, ler um livro seu é como ter uma doença. De facto vivermos vários dias com personagens que vivem o drama de terem que colar ao que a norma considera normal ao mesmo tempo que vivem a sua homossexualidade que praticam o adultério ou que se refugiam na droga é termos também nós leitores que viajar pelo nosso mundo interior, por aquilo que a coacção social estipulou ser pecado e que afinal por uma questão inerente à nossa condição de animal humano todos temos que viver de forma mais ou menos escondida.

A escrita de António Lobo Antunes é também neste livro a reprodução dos pensamentos, das vivências de várias personagens que se deslocam entre o centro de Lisboa e a chamada outra banda. O homem que evita a sua homossexualidade casando-se mas que acaba por ser vencido pela sua natureza, levando a mulher a procurar momentos de carinho e alguns trocos em relações com o comerciante mais perto de casa e o filho que vê o que os progenitores gastam o tempo a tentar esconder e para quem não foi suficiente a atenção dada pelo casal que tentou transferir para si o amor que não pode dar à filha morta. A droga será o refúgio deste filho daquilo que a sociedade consignou ser pecado.

Um tema muito actual. Uma escrita magnifica que para além do prazer que dá hoje aos seus leitores, será um documento para a história que se fará dos nossos dias.


SerMar
citado de Livra.pt
15.08.2002

27/09/2004

Diogo Mainardi: sobre O Manual dos Inquisidores


António Lobo Antunes é um dos mais importantes escritores portugueses da atualidade. Leitura obrigatória, portanto. Brasileiros precisam conhecer os escritores portugueses, portugueses precisam conhecer os brasileiros. É a ordem natural das coisas, para citar o título de um de seus romances precedentes. Por menos que se goste de Lobo Antunes, é necessário publicá-lo, é necessário lê-lo, é necessário resenhá-lo, mesmo quando se trata de seus livros mais fracos. Literatura demanda uma certa dose de disciplina, de rigor.

Rigor, de fato, é o termo adequado para definir O Manual dos Inquisidores (Editora Rocco; 380 páginas), lançado em Portugal em 1996. Com um rigor inquisitorial, Lobo Antunes reconstrói os últimos anos de vida de um potente ministro da ditadura Salazar, colhendo depoimentos de todas as pessoas que o circundam. O filho, no dia de seu divórcio, recorda a quinta em que moravam e a ruína financeira de sua família, logo depois do fim do regime. A filha do caseiro fala a respeito das violências sexuais que sofreu por parte do ministro, e a fúria que ele manifestou ao tomar conhecimento da queda da ditadura, quando enxotou a coronhadas todos os empregados da quinta, acusando-os de ser comunistas. A filha ilegítima do ministro com a cozinheira, criada por uma viúva cujo marido morreu devorado por um crocodilo em Angola, lembra o momento em que foi apresentada pela primeira vez ao pai e ao irmão. A cozinheira relata a chegada à quinta de Marcelo Caetano, escolhido como sucessor de Salazar, apesar da hostilidade do ministro e de seus amigos militares, que viviam planejando golpes para derrubá-lo. O próprio ministro, agora internado numa casa de repouso, senil e incontinente, revive o levante de Angola em 1961, e o terror que sentiu naquela circunstância.

Herança da ditadura — Em meio a tantos fragmentos de história, o que falta ao romance é uma trama propriamente dita. Há o episódio da jovem Milá, contratada para interpretar o papel da antiga mulher do ministro, Isabel, que o abandonara pelo amante, muitos anos antes. Milá é paga pelo ministro para vestir-se como Isabel, comportar-se como Isabel, responder ao nome Isabel. Mas esse é apenas um detalhe meio patético do livro. O ponto central de O Manual dos Inquisidores, na verdade, é seu pano de fundo político e histórico: a passagem das quatro décadas de ditadura à chamada Revolução dos Cravos, de 1974. Lobo Antunes apresenta o totalitarismo salazarista de modo perfeitamente convencional, caracterizando-o como um regime arcaizante, que imobilizou Portugal em suas velhas estruturas do começo do século. Nenhuma novidade em relação ao que já sabemos. Por outro lado, ele tenta mostrar a herança da ditadura por meio dos personagens que transitam de uma época para a outra, como o filho do ministro, esmagado pela figura autoritária do pai.

É possível que O Manual dos Inquisidores, descrito dessa maneira, pareça pouco atraente. Trata-se de uma injustiça do resenhista. Lobo Antunes é um autor corajoso que sempre se aventura em arriscadas experiências narrativas. E o faz na nossa língua, usando-a bem melhor do que todos nós. Ou seja, é fundamental, mesmo quando erra. Leitura obrigatória.

por Diogo Mainardi
08.07.1998

Nuno Barbosa: Comentário a Os Cus de Judas


"a dolorosa aprendizagem da agonia" - assim classifica Lobo Antunes a guerra de Angola, fracção da guerra colonial portuguesa; assim se resume o processo a que é submetido o leitor na descoberta daquele que é o segundo livro do autor.

Encontramo-nos perante um testemunho. Ao evoluirmos gradualmente na sua leitura vamos desmontando a guerra do ultramar, sendo guiados através dos 27 meses que o narrador se encontrou ao serviço da pátria portuguesa.

Partindo do relato do narrador, das experiências a que foi sujeito e da forma como as interpreta e com elas lida, traça-se um percurso que desemboca inevitavelmente na conclusão/admissão do "gigantesco, inacreditável absurdo da guerra".

Delineia-se um retrato demasiado bruto e verdadeiro para se poder falar de uma caricatura. A seriedade e crueldade da narrativa fazem surgir o livro mais como que uma denúncia. Ou antes: é deste modo apresentada uma visão da realidade, uma posição sobre os factos, uma voz silenciada que entra em erupção e vem contar a sua versão.

Atente-se que a "interlocutora" do extenso monólogo do narrador encarna qualquer um que leia a obra: escuta-o (ou pelo menos ouve) e intervém como o leitor o faria, para no fim fechar a porta e o abandonar, como nós fechamos o livro e o esquecemos numa prateleira - todos constituímos acidentais pretextos para uma pontual exposição.

Decadência, putrefacção, pestilência, morte. Adicionando canalhice, violência e absurdidade poder-se-ia reunir as palavras-chave basilares de tal exposição. É todo um cheiro a merda que emana da e subsiste após a leitura.

O autor, de resto, dando plena expressão à frontalidade da sua "escrita impúdica e grosseira", (...), consegue uma harmonia preciosa entre a violência do narrado e a rudeza dos termos empregues - as suas palavras ganham, portanto, uma credibilidade muito maior "fidelizando-se" à realidade.

Depararemos, pois, com uma linguagem incisiva e cortante que nos retratará:

- um Estado Novo definhado que, não conseguindo salvar-se, exporta a imundície e a enraíza em África, símbolo do poder secular de uma pátria que tem orgulho na sua história ("As senhoras do Movimento Nacional Feminino vinham por vezes distrair os visons da menopausa distribuindo medalhas da Senhora de Fátima e porta-chaves com a efígie de Salazar, acompanhadas de padre-nossos nacionalistas e de ameaças do inferno bíblico de Peniche, onde os agentes da PIDE superavam em eficácia os inocentes diabos de garfo em punho do catecismo.");

- um povo incapaz de se revoltar morrendo longe de casa lutando contra si próprio, a guerra e só depois os "cabrões", sacos de boxe expiatórios de todo o processo;

- uma Angola seca, desolada e decrépita (os cus de judas, nem mais);

- uma guerra idiota e/porque despropositada, excessiva e bestial;

- um narrador totalmente enjoado/enojado com feridas a latejarem bem para lá de 74.

A situação presente do narrador não deve nunca, atenção!, ser encarada como mero suporte de evocação do passado. Lobo Antunes parece querer frisar bem uma continuidade do tempo que modela o agora em função do outrora e fá-lo através deste "narrador-cobaia" e da maneira como toda a sua vida se parece ter definido, e definir ainda, pela "participação" numa guerra, na guerra - "Talvez que a guerra tenha ajudado a fazer de mim o que sou hoje e que intimamente recuso: um solteirão melancólico a quem não se telefona e cujo telefonema ninguém espera, tossindo de tempos a tempos para se imaginar acompanhado, e que a mulher a dias acabará por encontrar sentado na cadeira de baloiço em camisola interior, de boca aberta, roçando os dedos roxos no pêlo cor-de-novembro da alcatifa."

É, afinal, este o propósito deste livro: fazer atentar na marca, na marca indelével com que a guerra manchou e assombrou alguém, e alguém em quem tantos se podem rever; lembrar sempre, para não repetir, a canalhice do português, como (de novo) "O branco veio com um chicote e bateu no soba e no povo".


por Nuno Barbosa
citado daqui
[não datado]

24/09/2004

Agripina Vieira: sobre Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo


Angola, o regresso

Angola de novo em António Lobo Antunes. Com uma arquitectura original, já que pela primeira vez, o autor publica um romance constituído por três livros com prólogo e epílogo (regressando e mesclando as técnicas que estão na génese de dois romances da década de 90: Tratado das Paixões da Alma e A Ordem Natural das Coisas), Boa Tarde Às Coisa Aqui Em Baixo – com 574 páginas – constitui-se como o regresso singular e pungente a uma das temáticas essenciais da obra antuniana, Angola.

O título, extraído de um texto de Enrique Vila-Matas citado em epígrafe ao corpo do romance, apresenta-se desde logo como um enigma. Esta frase, tradução da saudação de Larbaud, “Bonsoir les choses d’ici bas”, assim como o texto em que se insere têm a particularidade de atrair a nossa atenção para a linguagem, o seu poder mas simultaneamente as suas limitações, levando-nos a verificar que a força das palavras reside tão só na composição que com elas é criada e que por vezes a linguagem mostra-se incapaz de reproduzir os objectos e o mundo que nos rodeia. Ao longo do texto, vamos reencontrando insistentemente essa preocupação com a palavra, que leva algumas personagens a questionarem-se vezes sem conta “será que remendo isto com palavras ou falo do que aconteceu de facto?”, sabendo de antemão que, ao Serviço – para o qual trabalham – como à generalidade das pessoas, apenas interessa a versão mais favorável dos acontecimentos. Por analogia, esta citação chama igualmente a nossa atenção, para o trabalho do próprio escritor, já que ele é, por excelência, o grande obreiro das palavras, particularmente este autor. Com efeito, esta problemática ganha uma outra dimensão quando falamos da obra de António Lobo Antunes, o seu trabalho com a língua é particularmente notável. Os caminhos da escrita por ele encetados na década de setenta conduziram-no até este romance. Um texto de uma grande depuração e rigor, onde cada palavra foi pensada e escolhida pela força das imagens que à sua volta irradiam, convidando o leitor a penetrar no universo perturbado e perturbante de homens e mulheres comuns, sem grandes defeitos nem virtudes particulares, que vêem as suas vidas manipuladas e destruídas por uma máquina institucional que nem tentam contrariar.

Situando os acontecimentos narrados no período da pós-descolonização, é ao espaço que cabe o papel fulcral da organização diegética. Com efeito, é Angola que vai unir Seabra, Migueis, Morais, Gonçalves, Tavares (funcionários governamentais portugueses, agentes dos Serviço, ou militares) e Mariana (a mestiça angolana), unificando dessa forma a trama do romance. Os destinos dos agentes de espionagem, homens simples e anódinos, nos antípodas do herói, estão tão marcados quanto os dos toiros lidados na praça situada frente aos escritórios do Serviço no Campo Pequeno, destinos que se confundem e se fundem de tal forma que cada nova entrada de toiro na arena coincide com o aparecimento de um novo agente para substituir aquele que antes de si falhou – “um segundo toiro idêntico a mim” nas palavras de Seabra. No escritório são “lidados” pelos superiores hierárquicos: “ao confortar-me o ombro o director colocou a fitinha em mim, o responsável do oitavo andar quando palpei o osso, quando mugi/ - Tem comichão Seabra?”, as páginas com as ordens de serviço metamorfoseiam-se em trapos coloridos que os espicaçam, “os bicos de caneta que em vez de sublinhar parágrafos (…) incomodavam a garupa”.

Cada livro veicula focalizações diegéticas diferentes, narrando os acontecimentos referente à viagem de um novo agente a Angola, viagem condenada à incompletude porque sem regresso “da mesma forma que nenhum toiro torna à camioneta em que veio”. Enquanto que nos dois primeiros livros, surge com evidência um ponto de vista dominante, respectivamente o de Seabra e o de Migueis, no terceiro livro o leitor vê-se perante uma pulverização de olhares e de vozes narrativas, não só os do agente de espionagem, Morais ou Borges – (o leitor nunca saberá a verdadeira identidade do terceiro agente uma vez que lhe entregaram “um passaporte com outro nome”), mas igualmente a dos membros da coluna militar que sucessivamente vão tomando a palavra dando conta da sua forma particular de ver o mundo, dos valores que norteiam as suas opções. Estes três homens (Seabra, Migueis e Morais ou Borges) vão sendo sucessivamente incumbidos de uma tarefa delicada e secreta. A sua missão consiste em contrabandear diamantes, recuperando e trazendo para Portugal as pedras preciosas roubadas que não puderam ser enviados atempadamente para o território nacional e que o Serviço descobriu estarem na posse de Marina. À medida que um falha é substituído pelo seguinte, partilhando todos o mesmo destino fatal, que os inibe de regressar a Portugal, ficando na fazenda angolana: o Seabra assim como “o seu sucessor e o sucessor do seu sucessor”.

Mais do que as peripécias inerentes a tais buscas, o que se constitui como o cerne dês te romance é a incursão na existência destas personagens, a descoberta dos seus medos, das suas obsessões, das suas frustrações, dos seus anseios. “Descoberta” é aliás a palavra-chave quando se fala da produção antuniana e dos caminhos de leitura pelos quais o seu leitor se vê levado. António Lobo Antunes de uma forma exímia e fascinante as técnicas discursivas que dão corpo ao romance, desafiando o seu leitor a entrar num jogo interpretativo, embrenhando-o no universo intimista das personagens. Paulatinamente, vamos descobrindo as razões que ditam as curiosas atitudes de Seabra (este homem solitário que vive com a sua velha mãe, igualmente só, mulher obcecada pelo alinhamento perfeito e simétrico das franjas do tapete da sala), as causas que explicam os traumas de Tavares em relação à sua altura (casado com uma mulher mais alta do que ele transforma-se na chacota da família, por isso escolhe uma amante com quem possa passear sem complexos), os receios de um dos militares da coluna que deambula pelo capim angolano que, embora ferido, o obrigam a afirmar insistentemente “Estou bom” para não ser eliminado pelos seus companheiros em fuga, os motivos que levam Mariana a denunciar o seu esconderijo a esses homens que vieram em sua perseguição. E o que nos parecia estranho ou invulgar vai ganhando sentido: Migueis – a personagem que desperta em nós uma imediata antipatia pelo seu machismo exacerbado – suscita agora a nossa compreensão (traumatizado por uma relação difícil com os seus pais não consegue realizar-se no seu próprio casamento), aquelas frases misteriosas e obsessivas que pontuam de forma recorrente o texto desvendam o seu propósito. Nomeadamente a frase que se constitui como leitmotiv do Prólogo: “Esta era a casa”, que nos transporta do presente veiculado pelo deíctico, para o passado do verbo. Ao presente das ruínas (metonímia do estado a que o país se vê condenado) corresponde um passado de ordem e norma. Ao longo do texto, as questões políticas e sociais vão surgindo de forma diluída, inscrevem-se em filigrana na diegese na medida em que condicionam a vida das personagens.

Como se depreende desta breve apresentação de um romance tão rico quanto este, e na esteira da produção anterior, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo alicerça-se pelo poder da fragmentação, da recorrência e do não dito. Em nenhum momento da nossa leitura, estaremos na posse de um entendimento conclusivo. Vamos construindo-o à medida que entramos na existência de cada personagem, que descobrimos as suas dores, os seus temores, as suas angústias. Este trabalho de leitura é simultaneamente uma construção de sentidos e um desvendar de mistérios, onde cada leitor empreende o seu caminho de leitura, deixando-se conduzir pelo pulsar das palavras, pela cadência da frase (ora longa ora curta), pelo ritmo do discurso.

Poder-se-ia pensar que estamos perante um livro triste e até trágico onde as personagens apenas se submetem a um destino previamente traçado, embora totalmente desconhecido do leitor. Bem pelo contrário, uma verdadeira sensação de felicidade apodera-se de nós a cada descoberta realizada, a cada peça que colocamos deste mosaico que é o Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. O diálogo com o livro estende-se, para nosso prazer, ao conjunto da obra e ao seu criador, que nos desafia a entrar no seu mundo ficcional e autoral, fazendo-nos partilhar os seus pensamentos pelo viés de um monólogo interior que, sem qualquer indicação textual ou tipográfica, irrompe na trama ficcional fazendo-nos oscilar entre a efabulação e a referência factual. São momentos de grande partilha, aqueles em que o autor questiona a suas opções de escrita e se põe em causa, como no seguinte passo “quem me conta esta história, quem narra isto por mim?/ uma traineira não, nem pássaros, nem mulatas que te melhorem o capítulo António, acordas com o romance, adormeces com o romance (…) esta narrativa que mais do que as outras se tornou uma doença que te gasta e de que não sabes curar-te, pode ser/ vá lá experimenta” ou ainda nesta pergunta a meio caminho entre o sarcástico e o divertido, numa clara alusão ao seu romance anterior, Que Farei Quando Tudo Arde?: “(deste-te bem com os pavões noutro livro?)”.

Ler António Lobo Antunes é mais do que acompanhar as peripécias da vida das personagens, é mais do que ler uma boa história, é deixar-se embrenhar no mundo de efabulação criado, é entrar no jogo do autor na tentativa de descobrir para partilhar, com ele, os seus caminhos de criação.»


por Agripina Vieira
em Jornal de Letras, edição 862
15.10.2003

23/09/2004

Hege Steinsland: sobre A Morte de Carlos Gardel


Magistral história sobre o vazio, pelo mais importante modernista português

A Morte de Carlos Gardel é o terceiro livro da trilogia de Lisboa do português Antunes traduzido para norueguês... Ler o romance é como entrar num buraco negro, onde apenas se encontra doença, morte, ódio, cinismo e amargura. Como nos outros dois romances, a acção localiza-se num bairro de Lisboa do nosso século [séc. XX].O tango ocupa o lugar central na vida de várias personagens do livro. o protagonista Álvaro, amargurado porque a sua mulher o deixou, (...) é incapaz de amar, amargurado e cínico, um rosto sem feições. A sua única razão de viver é o tango de Carlos Gardel. Nunca há romantismo ou calor humano entre as personagens, penas irritação e momentos de sofrimento sem fim...

... O que mais fascina nos romances de Antunes é a linguagem. É espantoso como ele  consegue tornar o romance claro e nítido, mesmo abordando vários acontecimentos no mesmo parágrafo... Os pensamentos saltam elegantemente de um plano temporal para outro. Outras frases são utilizadas repetidas vezes. É uma forma de stream-of-consciousness... Além da corrente de pensamentos, que flui naturalmente, os narradores fazem associações que conferem ao romance uma expressão poética e rica em imagens...

De facto, a leitura deste romance é uma labuta, devido ao estilo labiríntico e ao conteúdo triste. Mesmo que o tom cínico e sombrio da descrição das personagens não seja do meu agrado, fiquei impressionado com a obra de um artista linguístico, um autor modernista, que é mencionado pelos críticos como digno do Nobel da literatura...

A mensagem deste romance pode ser descrita como dever amar e ser amado com respeito, mesmo que a história da vida das personagens conte o contrário:  a frieza, o sentimentalismo e o vazio.

por Hege Steinsland
1995
Noruega
(citado do site do Instituto Camões)

22/09/2004

Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira: sobre Auto dos Danados


Auto dos Danados: cenas de uma família condenada

Resumo. Em Auto dos danados (1985), António Lobo Antunes encena a fragmentação de uma família tradicional ao mesmo tempo em que rompe a tradição da escrita romanesca, praticando uma tendência dupla da prosa portuguesa pós-75. Ao conceder a narração diretamente às personagens, o autor procede como um psicanalista a seus pacientes, fazendo do romance a sucessão progressiva e aleatória das falas dos membros de uma família patriarcal, retratados como criaturas humanas, demasiado humanas, que nos causam horror mas também compaixão, numa clave polifônica à Dostoievski. Tema, tons e tintas conferem à obra um lugar especial na literatura portuguesa contemporânea.

Este artigo está disponível em formato pdfClique aqui para continuar a ler.

13/09/2004

Para escrever faz falta vocação animal


Página/12, Argentina - entrevista de Sandra Chaher
05.05.04


Para escrever faz falta vocação animal


Está em Buenos Aires para apresentar na Feira seu último livro, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. Mas António Lobo Antunes não gosta de viajar. Diz ser um obsessivo pelo trabalho: escreve catorze horas por dia, seis vezes por semana.

Buenas tardes a las cosas de aquí abajo é o título sugestivo que o português António Lobo Antunes apresentará hoje na Feira do Livro. Pouco propenso a sair de Lisboa, Antunes, que acaba de terminar outro romance, empreendeu uma volta por vários países antes de voltar a enfrentar, em Junho, com o caderno em branco. Prolífico, trabalhador incansável, candidato ao Nobel há anos (mostra-se despreocupado com os prémios, excepto pelo dinheiro que trazem), Antunes desmistifica com o seu calor a fama de carrancudo que o persegue. Boa Tarde... é um romance situada na Angola pós-colonial, onde várias personagens interactuam para falar da identidade, da solidão, do amor, da descriminação e das desigualdades sociais. O cenário não é desconhecido para o autor, que combateu ali como soldado português durante a guerra de independência, nos anos 60-70. Nessa altura, Antunes exercia a sua profissão de médico psiquiatra e, se bem que a experiência naquela frente tenha resultado dura e traumatizante, não sente que o seu retorno a tal cenário tenha que ver com o que viveu.

Trá-lo a Buenos Aires algo mais que a apresentação do livro?
A mim? Em que sentido?

O país, as pessoas, a literatura...
Tenho muita resistência em viajar. Há alguns anos que me falavam em cá vir, mas é sempre complicado porque quando escreves não tens muito tempo. Eu tenho um acordo com os editores para que nas minhas viagens me dêem 4 ou 5 horas por dia para escrever, porque se passas um dia sem o fazer, torna-se muito difícil continuar. Quanto a Buenos Aires, havia coisas que me encantavam, como a música, alguns escritores que descobri quando era adolescente.

Por exemplo?
Uhhh...

Borges seria a resposta habitual.
Borges... Eu nunca fui um grande leitor de Borges porque... é muito inteligente e a mim interessam-me os livros inteligentes, não os escritores inteligentes. Recordo-me de ter lido um livro de Roberto Arlt que me encantou, e Macedonio Fernández. Há um escritor que eu penso que não é muito conhecido aqui e que é muito bom: Manuel Puig. Parece-me que Boquitas Pintadas é muito bom. Aí ele inventou um género novo e fê-lo muito bem. Depois, os seus outros livros são muito parecidos. Humphrey Bogart era sempre a mesma personagem, e quem sabe se não havia nada mais difícil de sustentar que a repetição.

O seu novo livro está situado em Angola, onde esteve como soldado português durante a guerra da independência.
Repara, é um cenário imaginário. Não voltei a África depois da guerra.

Todavia, o retorno literário, teve o sentido de um exorcismo em relação àqueles anos?
(Pensa) Quando escreves tens que plantar o teu romance num território ficcional, e este é uma pais imaginário a que por comodidade chamei Angola. Mas é como a Madrid de Hemingway, que só existe nos seus livros. (Suspira) Queria falar de seitas religiosas, mas o livro mudou de uma maneira muito radical. Inclusive não o ia situar em Angola. Mas não estava contente com os resultados. Reescrevi várias vezes os primeiros capítulos e numas dessas versões subitamente apareceu um negro, e atrás uma mulher, e depois um odor, e assim chegou África. Uma primeira versão é um magma e tens a impressão que o livro está lá debaixo, como uma estátua enterrada num jardim. Tens que limpá-la das folhas, dos insectos mortos. Uma das coisas que aprendi com o tempo é que as primeiras versões contêm toda a solução, tens que trabalhar sobre elas. Eu não queria falar de Angola nem da guerra, o que me interessava era a angústia do homem no tempo: o problema da identidade. Mas mais que os temas, interessava-me ajustar as palavras de tal forma que se tornasse uma coisa física. Não tinha pensamentos abstractos.

Que significa isso?
Lembro-me de Jorge Amado, éramos amigos, e dizia-me "eu invejo-te menino, porque podes trabalhar 12 horas. Eu trabalho 4 e acabo muito cansado fisicamente". Porque um livro é uma luta corporal. Para mim é um sentimento muito físico. Trabalho sem computador, é com a mão, porque gosto de desenhar as letras, há um contacto físico com o papel que também é importante. Penso que um bom escritor não é um homem inteligente, mas sim com vocação animal. E depois tens de estruturar isso, mas nas primeiras versões deves seguir o teu instinto animal, és um carnívoro qualquer que está atrás da sua presa, que é o livro, e ver como o matar bem. Um bom livro é aquele que matas bem.

Poderia explicar a ideia de vocação animal?
É pensar com os sentidos. Porque tu não trabalhas com ideias mas sim com emoções. As emoções são anteriores às palavras, e repto de um romance é como transformar as emoções em palavras quando sabes que, por definição, não são traduzíveis. Só podes começar um romance quando sabes que não é capaz de escrevê-lo, e aí surge a luta corporal.

Quanto tempo leva a escrever um livro como este, tendo em conta esta intensidade?
Uns dois anos, mas isso não quer dizer nada. Stendhal ditou A Cartucha de Parma em 54 dias. Mas eu sou lento, por isso escrevo 14 horas por dia, 6 vezes por semana.

Que faz no seu dia livre?
Na verdade, é a metade do sábado, como os soldados e as empregadas domésticas(risos). O que faço? Coisas que só poderia dizer-te ao ouvido (risos). Repara, quando estás a escrever estás todo o tempo com o livro, és como uma casa com fantasmas. O que faço em geral é sair, jantar com um amigo que trabalha com livros, e vamos a uma livraria, ao cinema. E por volta das 11 horas regresso porque começo muito cedo no dia seguinte. Há coisas importantes: no final do dia não podes deixar uma frase terminada. Tens que deixá-la pela metade, e se possível a meio de uma palavra, assim é mais fácil começar no dia seguinte.

Como foi o processo que o levou a esta forma tão particular da sua escrita: fragmentada, com elipses, com alternância de tempos e espaços, com muita musicalidade? Tem que ver com o seu gosto pela poesia?
Nunca pensei nisso. Estás tão ocupado tentando solucionar os problemas que a obra te planta a cada passo... Fiz alguns romances com estrutura sinfónica, há palavras chave que se repetem, ideias, mas isso eu aprendi... a técnica serve-te para acelerar ou tornar lenta a prosa. Creio que aprendi muita técnica com os músicos de jazz, com Charlie Parker. Creio que aprendi a frasear com eles. Como podes aprender muito sobre a construção com alguns filmes de Fellini, Scorcese, Orson Welles. As minhas referência em geral não são literárias. Não há muitos livros que me interessam. E repara, tu tens que ser discípulo teu. Eu não sei como se aprende a escrever. Fazendo-o o melhor que puderes, porque é uma actividade muito difícil, que conquistas muito lentamente, com muito trabalho. Creio que há que desmistificar os escritores, a literatura é um trabalho. A tua mão fica feliz se trabalhas muito. As duas primeiras horas do dia em geral estão perdidas para mim porque a tua autocrítica está muito alta, e quando começas a estar cansado as coisas saem melhor porque a tua polícia política interior se cansa.

Encontra algum vínculo entre o estado no qual entra a consciência quando baixa a autocensura e para lá da loucura?
Sim, no sentido em que um romance é um delírio estruturado. Um delírio é um edifício lógico no qual a primeira premissa é desejada. Por exemplo: eu sou o rei de França. E a partir desta premissa se constrói um edifício.


edição on-line de Página/12
5 Maio 2004
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...