10/09/2004

Conhecimento do autor


SIC Notícias - entrevista de Rodrigo Guedes de Carvalho
Dezembro 2003
[a entrevista foi transcrita através do formato original, tendo sido mantidas, tanto quanto foi possível, algumas das particularidades orais de uma entrevista de televisão]


Conhecimento do autor


Conhecimento do autor: é o que aqui se vai tentar. Lobo Antunes é pouco dado a grandes explicações sobre o que escreve; costuma dizer que os seus livros vivem sozinhos e é aí que o devemos procurar, nessa impressionante regularidade de produção. Com este [mostra a capa do romance Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo] que hoje se apresenta, são já dezasseis romances em vinte e quatro anos, isto para além das crónicas na imprensa que estão agora também reunidas em dois volumes. Imensamente traduzido por esse mundo fora, longamente sussurrado para o Nobel, recebe dentro de dias o prestigiante Prémio União Latina. É um bocadinho da dimensão internacional que nesta altura já não surpreende ninguém; ele que tanto foi arrasado pela crítica em início de carreira, é hoje uma figura perto do consensual. Pegando então em Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo, começo por dizer boa noite ao escritor aqui em frente.


António, normalmente as perguntas que os jornalistas fazem aos escritores que lançam um livro novo é essa incauta "de que trata o seu livro?". Porque é que você não gosta nada desta pergunta?
Porque se fosse possível resumir em dois minutos de que trata o livro não era necessário escrevê-lo. Eu lembro-me sempre de uma... D. Francisco Manuel de Melo, que é um escritor que gosto muito, séc. XVIII, que a resposta dele foi... a única resposta possível... ele disse «o livro trata do que vem escrito dentro». Porque... aquilo que tu podes contar é a intriga, a história, e a intriga acaba por ser o prego onde tu penduras o teu quadro, aquilo que te preocupa muito mais são outras coisas do que propriamente a história.

E continua a ser assim, consigo. Cada vez mais, assim?
Cada vez mais assim, cada vez mais assim, sim...

Mas é natural quando pensa nos leitores que tem - uma pessoa que vende tanto nesta altura deve ter um número de leitores, e um tipo de leitores, muito diversificado - é natural que as pessoas perguntem: que é que será este livro? Este livro, não sendo só isso, tem um pano de fundo novamente em Angola.
Sim, tem um pano de fundo na... numa Angola inventada, porque eu nunca mais voltei a Angola, não é uma Angola actual, de agora, que eu não faço a mínima ideia como é... mas, sabes, o problema é este: para escreveres um livro tens de criar um território ficcional onde plantar o livro e... como o Faulkner criou o condado de Yoknapatawapha, o Melville criou o seu próprio mar; portanto, quer Lisboa, quer o Portugal, quer Angola, que aparecem nos livros, são territórios míticos, não é? Do qual provavelmente só guardam o nome inicial, depois o resto...

Mas Angola, para si, não é igual à Guiné, não é igual a Moçambique, não é igual a outro país nenhum...
...que eu não conheço! Eu só apenas conheço Angola, é o único país africano que conheço. Mas, no entanto, já houve livros, estou-me a lembrar de Fado Alexandrino que se passava... pois, tinham estado em Moçambique... Portanto, são apenas territórios ficcionais onde tu tentas colocar toda a tua realidade e toda a humanidade que tens dentro de ti.

E, no entanto, neste território ficcional, há um excesso de pormenores, da tal intriga que está em segundo plano, mas há tráfico de diamantes, tráfico de influências... Para nada disso é preciso documentar-se...
Tinha sempre medo porque me lembrava sempre de um escritor que eu respeitava muito, que era o Alves Redol, e conheci muito mal, apenas o entrevi quando era estagiário no Hospital Santa Maria, e ele estava a morrer, na fase terminal de um cancro nesse hospital. Para mim foi uma emoção muito grande ver um escritor que eu respeitava numa cama de hospital... Bom, o que acontecia é que documentava-se de tal maneira que ficava submerso pela documentação... e era-lhe muito difícil depois voar com aquilo que tinha. Eu nunca... nunca tomei notas, nunca tomei qualquer documentação que não fosse aquela  estritamente... claro que tomas notas enquanto estás a escrever, mas mesmo assim são muito poucas.

E não é um risco neste país onde há pessoas tão comezinhas, a ler estas coisas, que vem um tipo qualquer a dizer: "Eh pa, mas na Baixa do Cassanje nunca se passou situações de tráfico", ou não sei quê... Isso, para si, é completamente irrelevante?
Em relação... já me aconteceu dizerem que lugares que eu falo não são assim, etc. Até receber inclusive cartas a esse respeito. Lembro-me de uma crítica em relação a um livro qualquer em que aparecia a personagem de Salazar, que dizia que o Salazar nunca tinha estado em Palmela, o que é mentira, porque há fotografias dele lá, nessa casa. Agora... sabes, é-me completamente indiferente, a mim o que me interessa é a qualidade do texto.

E que no romance seja plausível?
Nunca pensei muito nisso...
[risos]

E continuas a não pensar... felizmente.
... nunca pensei muito nisso...

Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo é um título que à partida pode causar estranheza, ele vem explicado logo aqui [primeiras páginas], tu retiras uma frase a um romance do Vila-Matas, que é uma personagem que já não diz coisa com coisa e então diz "Boa tarde às coisas aqui em baixo". Diz o Vila-Matas que é uma frase intraduzível. Gostas que digam que os teus livros são intraduzíveis, também - não para o estrangeiro, disso já falaremos - mas, que sejam inclassificáveis?
São-no sempre, são sempre... O problema tem que ver com a forma como nós abordamos os livros, nós temos de ler... nós temos tendência a adaptar os livros, como a vida, à nossa grelha, ou seja, a soma das nossas experiências, nossas vivências... daquilo que nos aconteceu, que vimos, que observamos, que ouvimos, e... temos que partir para os livros com os olhos desprevenidos, temos que partir com uma certa virgindade no olhar, e tentar... O livro traz consigo o seu modo de usar, as suas instruções... e de qualquer forma... eu penso que isso acontece com qualquer profissão... tu tens que ensinar os teus leitores a lerem-te, tens que ensinar os teus leitores a lerem-te...

Sim, e num escritor como Lobo Antunes, como mais à frente se verá, sem dúvida, porque há um jornalista do Le Figaro que diz uma coisa bastante interessante sobre a tua obra... De qualquer forma, este regresso a África, sendo apenas o pano de fundo, é num tom magoado, esta é uma África estragada, é corrupta, parece que não se vai conseguir levantar...
Eu penso que não é preciso ir a África para encontrar corrupção. A mim o que sempre me chocou, em relação a Angola, é o contraste entre a riqueza do país e a pobreza das pessoas. Eu acho que as pessoas são pobres, porque o país é extremamente rico. Lembro-me que se semeava arroz três vezes ao ano e arroz [com] três metros de altura; portanto, não é só a terra que é extremamente rica, são os diamantes, o petróleo, os minerais, etc...

Mas antigamente existia o álibi, chamemos-lhe assim, da guerra. O país não podia ir para sítio nenhum por causa da guerra. Nesta altura não acreditas que esta paz possa trazer outro país, uma Angola a que te apeteça voltar, por exemplo?
Eu não sei muito em porque é que vol... Uma das razões porque não volto é porque as cidades que eu gostava ficaram destruídas pela guerra civil e eu não sei se estão reconstruídas, e depois porque nós tentamos... nós, europeus, a agora os americanos, que acabam por ser filhos dos europeus, tentar impor aquilo a que eles chamam um modo de civilização e um modo de ser que nada tem que ver com o modo de ser africano, compreendes? Eu lembro-me, quando lá estava, por exemplo, de o meu colega feiticeiro curar a icterícia, a hepatite, em dois dias. Dois dias e a icterícia desaparecia, os sintomas desapareciam. Estou-me a lembrar nomeadamente de um homem que tinha sido atacado pela pacaça, com feridas muito grandes, e aplicaram-lhe uma espécie de um emplastro, a mim me parecia cheio de terra e de ervas, e pensei: "este homem vai morrer de septicemia", e numa semana estava curado. Havia lá, por exemplo, padres bascos que lá estavam e que tinham feito recolhas, apreendidos pela polícia política, de poesia, de contos, de provérbios de uma extraordinária riqueza. Portanto, havia uma civilização imensa, que o Melo Antunes dizia, sob certos aspectos, poder comparar à dos Maias, que os colonizadores destruíram por completo. E julgo [que devia] continuar a existir respeito pela idiossincrasia própria daquele povo, ou daqueles povos, que aquilo são vários povos, com várias línguas, e que têm... Olha, por exemplo, a relação deles com o tempo: o que nós ganharíamos em compreender a relação deles com o tempo; a relação deles com a velhice, o respeito que existe pelos velhos; a relação deles com a morte, a morte é um dia como os outros, só que mais curto. Isto é muito difícil de entender para nós, europeus, para quem um dos poucos rituais que subsiste é o ritual dos funerais... ali é completamente diferente.

E da relação com esse povo, os portugueses do teu livro, são estruturalmente racistas, há algo neles que nunca consegue esquecer isso, parece que é mais forte. Nós somos de facto assim?
O racismo... julgo que nós não somos mais racistas que os outros, pelo contrário, porque somos mais pobres. Mas o racismo é apenas o desconhecimento. Nós odiamos o que é desconhecido. Repara: por exemplo, tu vais na estrada, e aparece um carro a fazer uma série de asneiras, ou tropelias; tu não dizes, vai ali um homem, dizes, vai ali um cinca, vai ali um opel, vai ali um renault; e não existe, a pessoa não existe, existe apenas aquela máquina. Quando a pessoa sai do carro, depois torna-se muito mais difícil zangares-te com ela, quando de repente se torna pessoa. Lembro-me uma vez - eu tinha... era conflituoso -, estava a tentar arrumar o carro diante de um centro comercial, estava à espera, e houve um outro carro que se meteu à frente, e se meteu primeiro. Eu saí do carro para dizer isso, o homem fechou o vidro, eu fui ao carro buscar a manivela e comecei a bater. E estava muito contente a amolgar o carro quando ouço uma voz atrás de mim a dizer. "Oh António porque estás a fazer isso ao carro do meu cunhado?", e aí a fúria desapareceu-me imediatamente, o outro senhor saiu de dentro do automóvel, apertamos as mãos, de repente passou  a ser uma pessoa, compreendes? Julgo que o racismo radica um pouco nisso. O racismo tem muito que ver com o desconhecimento do outro.

Mas neste país... Por exemplo, às vezes dá-se atenção a pequenos pormenores, por exemplo, uma pessoa que durante o romance inteiro, ainda que sejam apenas as personagens, a dizer que chama pretos aos pretos, é uma coisa que depois do 25 de Abril era muito politicamente incorrecto, passava a ser os negros... Este era o tipo de português que tu conheceste lá, era assim que nós lidávamos com os angolanos?
A maior parte sim, a maior parte sim... Curiosamente da parte dos militares não tanto... Havia um - posso estar a ser injusto - mas havia um... Eu nunca vi, em tanto tempo, eu nunca vi um militar a ter um comportamento menos correcto para com as populações. Em parte era assim de facto, em parte era assim de facto...Também tens que ver que tipo de emigração era a nossa para Angola... Mas depois ao mesmo tempo havia coisas espantosas, porque... na Baixa do Cassanje, que é onde parte do livro se passa, uma das coisas mais extraordinárias era o túmulo do Zé do Telhado, que era um túmulo imenso, quase com dignidade de Jerónimos, o que é muito curioso... Portanto... mas nesse livro... é também um livro sobre a cupidez. E já que os pretos têm aqueles diamantes todos, porque é que não hão-de ser pretos, ou seja, isto é mais ou menos o que se passava na mente daquelas pessoas que os tentam privar de...

Em relação à escrita, propriamente dita... continua a ser uma - eu sou apreciador, há quem não o seja - uma escrita em cascata, vozes díspares, há personagens que parece que vêm à boca de cena deixar uma frase, às vezes só uma palavra, um raciocínio; e há uma coisa curiosa: há o António, que se levanta e deita com o romance, às voltas, como uma doença. Este António és tu, obviamente...
Obviamente.

É um bocadinho o Hitchcock a passar lá ao fundo nos filmes dele, tu intrometes-te no romance?
Não tinha pensado nisso, mas nos últimos livros, cada vez isso é mais presente.. Porque é que eu não hei-de ser também personagem dos livros, se é que são personagens; para mim são pessoas tão reais, sabes, tão de carne, tão de... Recordo-me de - não sei se foi com este livro se foi com o anterior -, de de passar no sítio onde morava uma personagem e pensar "onde é que ela mora, onde é que ela vai tomar o café"... Para ti é uma densidade tão de carne, é tão viva, tão verdadeira, que tens dificuldade - eu tenho dificuldade, dentro de mim - em distinguir... só depois do romance acabado é que elas deixam de existir, enquanto o romance existe estás de tal modo imerso naquele... em sub tinta, como os chocos, que as personagens têm uma existência verdadeira, são personagens reais...

Este que chega agora às livrarias, este romance, para ti já era? Já não pensas nele?
Já tenho esse romance acabado há mais de um ano.

Já não pensas nele?
Não, não, já não penso...

Estás a escrever outro?
Sim, sim, acabei a primeira versão de um outro a semana passada. Agora, tu quando acabas um livro, tens de esquecer o livro, esse é que é o problema, porque se não esqueces vais fazer uma sequela e vais continuar o livro de uma outra forma. Então, tens de fazer um esforço enorme para esquecer, o que ao mesmo tempo é maçador porque, por teres vivido dois anos com o livro, cria-se entre ti e as personagens do livro uma amizade, uma estima, uma ligação... repara, estava a falar, sem me dar conta, como se fossem pessoas vivas.. Cria-se entre ti e o livro uma relação pessoal tão intensa que...não sei quem era, acho que era um escritor sul americano que dizia: "custa tanto separar-me dos meus romances que os acabo antes do fim". Às vezes é difícil, porque tu viveste dia após dia com aquela matéria que...

Há romances em que o fim parece mais extemporâneo que cortas, mas este não. Há um epílogo. E nesse epílogo eu acho que, mais do que nunca, fica esta África, esta relação dos negros com os brancos, há uma tensão sexual até, inter-racial. Este fim... Costumas pensar no fim, enquanto avanças para o livro?
Não...

Há pessoas que escrevem para alcançar um determinado... sabem o ponto onde vão chegar, e avançam para ele.
Não sabes nunca qual é o fim. Eu, antes do epílogo, não sabia como ia acabar o livro. Mas... estás a ver, isso é outra forma de racismo... quando falaste de sexo, por exemplo, quando as pessoas dizem os pretos ou os negros, ou o que quiserem chamar, têm o pénis maior que os outros, que os brancos. Isto é uma forma de racismo, o que é muito curioso... Eu achei curioso a miúda ter aparecido no fim do livro, com aquela redacção, porque ao mesmo tempo me pareceu-me extraordinariamente ambígua e extraordinariamente precisa. Fiz várias versões dessa redacção, a ver como é que estaria melhor, e curiosamente não foi muito difícil escrevê-la, é uma questão de afinar mais a prosa. Mas era como se fosse um... a ironia final naquele livro: tudo desapareceu, a guerra, o tráfico, as traições, etc., e está aquela menina em férias, com o pai rico, a mãe rica, um general africano rico e... como se as vidas dos outros, as mortes dos outros, o sofrimento dos outros tivesse sido em vão, ou tivessem sido supérfluas...

Christophe Mercier, do Le Figaro, de que falava há pouco, alerta para uma coisa com a qual devo dizer que concordo, ele aconselha uma abordagem cronológica da tua obra, não se deve começar a ler Lobo Antunes a meio, digamos assim. Concordas com esta ideia?
Bom, o problema é que eu não li os livros, só os escrevi, portanto, tenho uma relação diferente com eles, por mais distância que tenha em relação a eles e não os tenha revisitado... isso só me acontece em sessões nos países estrangeiros, em que há leituras dos livros e que ouves ler parte, ou então mas conversas com os tradutores, mas felizmente os problemas com os tradutores são muito específicos - felizmente para mim, infelizmente para eles -, são coisas do género, como é que se traduz "coisíssima nenhuma"? Tem muito mais a ver com as frases idiomáticas. Mas "coisíssima nenhuma" pôs imensos problemas, e portanto é muito mais uma relação a este nível, na frase tal... lembro-me de outra expressão que era "alto lá com o charuto", que é que isto quer dizer? A relação é muito mais ao nível disto, destas pequeninas frases, pequenas coisas...

Mas em 24 anos, és capaz de reconhecer... há muitas pessoas a debruçarem-se agora sobre a tua obra, temos, aliás, este magnífico ensaio de Maria Alzira Seixo; mas... tu consegues ver períodos na tua obra?
Bom, primeiro, não são 24 anos, porque o primeiro livro tardou muito a aparecer publicado, foi sempre recusado...

Mas já estava escrito há muito.
Sim...

Aliás, tinhas dois escritos, o Memória... Os Cus de Judas...
Sim, sim, quando apareceu o primeiro, estava a escrever o terceiro ou o quarto, porque os livros eram recusados, as editoras não os queriam publicar. É possível, eu julgo que há... todas as divisões são sempre... eu jugo que os livros acabam por formar um tecido contínuo...

Então experimenta esta: os três primeiros são uma espécie de catarse autobiográfica...
Sim, sim, muito claramente...

...depois o romance propriamente dito, as personagens, a intriga, o enredo; e a partir do Tratado das Paixões da Alma, o teu grande objectivo é reinventar a própria arte do romance, tu fazeres o teu romance...
Pois é... mas isso também aconteceu no primeiro, eu é que não tinha... estava ainda muito... desarmado! Eu estava seguro do que queria, mas em vez de ter um piano, eu tinha uma gaita de beiços, percebes? Portanto, eu podia dar muito poucas notas, e no entanto, havia tantos romances atrás desse primeiro, eu escrevia e deitava fora, destruía...

Mas agora tu não tens problema nenhum em dizer que não só inventaste a tua própria arte do romance, como pretendes que o romance não seja visto  de forma igual depois de Lobo Antunes. Isto não poderá parecer às pessoas alguma soberba?
Eu...

Corres esse risco?
...eu julgo que não sou um homem vaidoso, tanto quando me dou conta, tenho uma grande humildade em relação ao meu trabalho. Mas também tenho a noção que isto traz alguma coisa de novo, ou seja, no... em vários sentidos, por exemplo: no tratamento do tempo, parece-me a mim... depois no tipo de construção romanesca, depois... estava a lembrar do... o ano passado houve um colóquio em Évora - interrompi porque me lembrei disso - e lembro-me da intervenção do Eduardo Lourenço em que fala "Pronto, a partir de agora já não se fazem mais romances à Eça de Queirós". Mas se tu és fiel...

A propósito da tua obra?
Sim. Mas se tu és fiel a ti mesmo, a tua experiência é única e irrepetível, quer dizer, há mil maneiras de mudar a arte do romance, há mil maneiras... O Proust mudou, o Céline mudou, o Faulkner mudou, o Hemingway mudou...
Tu, que ao mesmo tempo tinhas essa grande humildade, às vezes, pensar em grandes escritores e dizer "Bolas, já alguém fez isto antes de mim". Continuas a ter essa noção?
Isso aconteceu-me várias vezes, sim. Não, por exemplo, era mais... era, por exemplo, lembro-me com um livro que não me recordo qual era e que pensava "que bom, descobri a maneira de fazer avançar a acção com o diálogo". E depois, estava a ler um romance da Jane Austin que também tinha feito a mesma coisa. No entanto, sabes, eu penso que tu lês os livros e percebes qual foi o autor que os escreveu, sei lá, há autores que tu reconheces, basta ler uma frase para saberes qual foi a mão que fez aquilo.

Tornou-se um objectivo para ti seres... "vou ser absolutamente original". Tornou-se um objectivo?
Não, eu julgo que o meu objectivo era fazer livros que... O meu grande medo foi sempre o mesmo, foi: não desiludir as pessoas que desde o princípio tiveram em mim uma fé que eu nunca partilhei, percebes?

Não acreditavas em ti?
Não, tinha as maiores dúvidas... tinha as maiores dúvidas...

E a crítica não veio a ajudar nada...
A crítica nunca me foi... nunca me afectou especialmente. O que me preocupava... sei lá... quando saiu Os Cus de Judas, recebi a carta de um agente americano. Isto era em 79... Tinha acabado de sair o segundo livro, o primeiro tinha saído três meses antes... Na época era o agente de uma série de escritores muito importantes, eu achei que era uma ironia, não respondi, ele mandou-me uma segunda carta, e [eu] disse, "tá bem, é chique ter um agente em Nova Iorque"; e ele propunha os meus livros às editoras e nenhum editor os queria. E ao fim de um ano eu disse: Oiça, o melhor é acabarmos com isto, você está a perder dinheiro"... um agente ganha 15% antes dos impostos, e outras despesas correm por conta, até os selos, telefonemas, tudo. "Você comigo só perde dinheiro", e ele dizia "Não, não, você vai conquistar o mundo", e não conquistávamos coisa nenhuma, não tínhamos uma única editora, nenhuma tradução, nada... Ainda hoje estou com ele! E é a única pessoa a quem eu mostro os livros quando estão acabados, o livro segue para a América para ele o ler. E até o veredicto dele vir às vezes fico um bocado tenso, embora actualmente eu não me sinta muito inseguro do que faço, mas fico tenso porque ele é muito rigoroso...

Mas nunca ficava contente quando acabava um livro...?
Eu? Na altura... ahn... imediatamente após ter acabado sim, um mês depois começas a ver "podia ter feito melhor, devia ter trabalhado mais"...

É por isso que não vais reler os livros, para não teres a tentação de fazer mais uma correcção...
Claro que dá vontade de rir reescrever tudo, mas o problema é que a pessoa que tu eras quando os escreveste já não és. Já não sou o homem que escreveu o Memória de Elefante, o Conhecimento do Inferno, o Tratado... ou mesmo o romance anterior. E a tua concepção de romance vai evoluindo. Portanto, se tu fores emendá-los tinhas que reestruturá-los de tal maneira, e adaptá-los àquilo que tu és agora, de maneira que, eu penso que isso não seria honesto, foram escritos por um determinado homem, numa determinada época; homem para o qual eu olho muitas vezes como um antepassado meu.

Mas sem o qual não poderias ser eventualmente o que és hoje...?
Evidentemente que não, evidentemente que não...

Uma curiosidade: aqui no livro da Maria Alzira Seixo [Os Romances de António Lobo Antunes], a capa é um manuscrito teu, que muitas pessoas desconhecem. Como é que tu te organizas?
Aí está muito aumentado...

Está muito aumentado, ainda por cima...
Está...

...portanto a letra ainda é muito mais pequena. Como é que te organizas aqui?
Bom, isso...

Porque é que escreves à mão, por exemplo?
Ah, escrevo à mão porque gosto de desenhar as letras, dá-me um prazer físico. Não me vejo a... num computador, dá a sensação que não sou eu que escrevi... E gosto do cheiro do papel, etc. Mas a história disso era muito simples. É que eu, com 12, 13 anos, anunciei triunfalmente aos meus pais que queria ser escritor, que foi uma coisa que os assustou imenso. E então para escrever, tinha que escrever... - isso eram os blocos de receitas do meu pai, no hospital, da qual tenho uma provisão que me vai dar até ao fim da vida, espero eu. E então escrevia com o livro de geografia ou história, o que fosse, por baixo, e ouvia os passos dos meus pais no corredor e mudava a ordem. Portanto, escrevia desse tamanho, com uma letra minúscula por uma questão de... olha, para poder escrever, para não me ralharem... e só muito depois, como é evidente - tens 13 anos, pensas que os adultos são estúpidos - é que percebi que eles estavam fartos de perceber que eu escrevia daquela maneira e ia trocando a ordem das coisas. Portanto, escrevia assim na... sensação ou na certeza que eles não iam perceber eu em vez de estudar estava a escrever... porque nós éramos muitos filhos, e os meus pais o que queriam é que os filhos tivessem um curso - uma enxada, como dizia a minha mãe - e portanto, a ideia de um escritor era, para os meus pais, um pelintra, coitado, toda a vida sem um tostão, que ia ter uma vida péssima, etc., e acabei por ir para medicina sem a menor vontade, porque naquela altura...

... só para ter os blocos de notas, se calhar...
Sim, não havia 12º ano, e então eu tinha 16 anos... tinha acabado de fazer 17 anos quando entrei na faculdade... portanto era um miúdo e eu disse quero ir para letras porque quero ser escritor. E o meu pai gastou uma data de tempo a explicar-me que eu só teria vantagem em ter uma formação técnica, que isso me poderia ajudar, que a literatura não se aprendia nas faculdades de letras, que era uma aprendizagem solitária, etc., etc... Em muitos aspectos tinha razão naquilo que dizia, embora haja coisas que tu possas ensinar e possas aprender... há técnicas, porque isto é uma técnica, não é... Nunca se discute quem deve ganhar o Prémio [Nobel] da física ou da química, mas o da literatura e o da paz toda a gente sabe, o que é curioso, porque a literatura tem muita... há muito de técnica que não vale a pena falar para não maçar as pessoas...

Tem muito que se lhe diga. Quem são as primeiras pessoas que lêem os teus livros? Lêem uma primeira versão ou já uma versão trabalhada?
Não, lêem a definitiva. Nunca mostrei os meus livros em estadios intermediários, nunca.

Portanto, escreves estes "gatafunhos", chamemos-lhes assim, e depois trabalhas tu próprio estes "gatafunhos"; ou fazes como a Agustina, vai atirando placidamente as folhas para o chão, à espera que alguém venha apanhar...
Não... Faço primeiro assim um capítulo, com o mesmo capítulo passo para uma folha A4 com letra grande, passo ao segundo capítulo, mesmo sistema, duas vezes, até ao fim do livro.

E depois dás então a mostrar a alguém...
Não, não, depois começo a corrigir sobre essas folhas grandes. Depois é... o meu problema, antes de começar a corrigir, porque o último capitulo é feito, nas primeiras versões, um ano, mais de um ano, depois do primeiro... e depois fico aí uma semana, quinze dias a rondar o livro, com medo, a pensar: "como é que isto estará?", cheio de dúvidas... e depois o que acontece é que... é muito estranho, porque é um corpo independente de ti, aquilo articula-se tudo sem que tu te apercebas como; e então aí começas a corrigir. Para mim corrigir significa tirar, e aquilo que é publicado acaba por ser muitas vezes metade do texto original.

Quando finalmente dás a ler a alguém antes de editar - há pouco falavas penso que do Tom Colchie, o teu editor americano, esse implacável crítico teu - alguma vez ele te deu uma opinião que te fizesse modificar algo, ou apesar de prezares muito a opinião, não modificas?
Ele não, mas lembro do Zé Cardoso Pires me... que lia os livros também... com o Fado Alexandrino. Eu perguntei-lhe: "O que é que achas?", e ele respondeu-me "Não sei, ainda só li uma vez"... mas apresentava-me filas de páginas e páginas de notas. Nunca segui. Provavelmente ele teria razão, mas eu nunca segui, porque estava tão certo, tinha a certeza que era aquilo. porque tu é que estás dentro, sabes, eu lembro-me de um professor de cirurgia que eu tinha, que depois de te ensinar tudo, dizia: "agora esqueça-se de tudo e entre na sala de operações", percebes? Aquilo tem de estar de tal maneira... fazer de tal maneira parte de ti, parte da tua carne, do teu sangue que... A técnica continua a existir, é evidente, mas quase não pensas nela.

Perguntaram um dia a um escritor, confesso que nesta altura não me lembro qual, perguntaram-lhe se estava a escrever, e ele disse: "não, estou a viver, para depois poder escrever". Isto acontece contigo? Tu és conhecido como um "rato de biblioteca" ?
Não sabia que as coisas se pudessem colocar assim... Nunca me aconteceu, o que me acontece é... sei lá, por exemplo, olha, eu durante muito tempo não podia escrever só, tinha que... E então quando vim de África, tinha muito pouco dinheiro, e pagavam muito pouco o internato do hospital. Então dormia três noites fora, fazia bancos em hospitais da periferia de Lisboa, muito mal pago, aliás, e... começava a escrever, tentava escrever... escrevia nos espaços livres todos, escrevia em África durante os intervalos das saídas para a mata... Agora, durante as viagens, ponho como condição aos editores darem-me quatro, cinco horas para escrever. Não sei distinguir essas duas coisas...

Claro, é uma frase que mandei para cima da mesa, não é uma verdade absoluta. Mas a tua rotina, hoje em dia, tu vives da escrita, és escritor a tempo inteiro, a tua rotina são, mais de metade do dia a escrever...
Sim, é a única maneira. É a única maneira. Não há talentos, há bois, há bois... sabes... porque tu sentes as coisas com uma intensidade enorme, a distância entre a intensidade, a emoção e os resultados é sempre enorme. Portanto, todo o teu trabalho é no sentido de diminuir essa distância, isso consegues através de correcções e correcções e correcções. Um livro é sobretudo uma questão de trabalho, e de método, portanto, de uma disciplina que te impões a ti mesmo.

Levantas-te e começas a escrever, assim, ou tens períodos do dia, ou escreves... sei que escreves no estrangeiro, que escreves em qualquer sítio, mas... a tua rotina portuguesa?
Dantes a noite dava-me mais rendimento, agora comecei a gostar das manhãs. Eu começo de manhã cedo, até à hora do almoço, meia hora para almoçar, continuo a seguir até à hora do jantar, uma hora para jantar, continuo... Porque isto dá-me muito prazer, não me sinto de maneira nenhuma escravo, percebes, é uma ternura ver nascer um livro...

E porque é que vais ao Hospital Miguel Bombarda, ainda?
Porque gosto do cheiro dos hospitais, gosto de lá estar, e porque preciso de mudar de sítio, não posso escrever no mesmo sítio. Tenho de escrever num sítio de manhã, noutro à tarde, noutro à noite...

Mas não estás a exercer psiquiatria?
Vejo... ainda vejo algumas pessoas, vejo... ahhnn... eu nunca gostei... eu só gosto daquilo a que as pessoas chamam, os médicos chamam, os psicóticos, pessoas com delírios, com esquizofrenias, coisas assim, porque são muito criativos, ainda vejo seis por semana, que já vejo há muitos anos, e adoro lidar com eles... e... foi no Hospital Miguel Bombarda que eu tive a maior lição de como se deve escrever. Eu era um interno, e estava a sair do carro, andavam ali as pessoas, na altura usavam os pijamas, os uniformes, e aproximou-se de mim um homem com ar misterioso, tinha barbas, e disse: "sabe, o mundo começou a ser feito por detrás". E eu pensei, "bolas este tipo... é assim que se deve escrever, tens de escrever por trás", percebes? Por exemplo, tu lês o Faulkner, toda a técnica está aparente, é muito bom para os principiantes, vem ali tudo, as dobradiças, etc. E outros escritores, como por exemplo o Hemingway, que é feito por trás, por fora só vês o ovo, não é, e então tens de ler duas e três vezes a ver como ele hesitou, como é que ele recobrou alguma dificuldade técnica...

Até parecer que foi ao correr da pena, que é o que muita gente diz...
Exacto, exacto. Ser espontâneo dá muito trabalho, dizia o Manuel da Fonseca.

Outra coisa. Entre o muito que já se disse do Lobo Antunes, já te chamaram machista. E eu lembro-me que, a propósito disto, falava-se, para cimentar esta ideia, falava-se de qualquer coisa de um livro teu. Ou seja: ainda há muita gente que confunde a obra com o escritor? Ou seja, porque uma personagem tua era machista ou porque tratava mal as mulheres, logo Lobo Antunes era machista - ainda há muito este erro?
Eu não oiço, mas... provavelmente tem que ver... não sei... estava a pensar nisso... tratar mal as... eu julgo... eu tento tratar as personagens por igual, mulheres e homens, mas também eu sou uma pessoa invisível, não é? Não apareço nos jornais, agora vim para duas ou três entrevistas, mas não dou entrevistas, não apareço, não me vêem, portanto, a partir daí podem criar uma série de lendas, isto dura mais ou menos desde o princípio, não é? Acontece muitas vezes um dos meus irmãos dizer "estive a almoçar com um amigo teu", que não sei quem é, nunca o vi... e... e portanto, a gente tem tendência a criar uma... a inventar personagens a partir das pessoas reais... Tu trabalhas na televisão, és uma figura pública, como se diz, que é uma expressão que eu detesto, devem inventar imensas histórias a teu respeito das quais algumas te chegam aos ouvidos e que nada têm que ver contigo, e isso é inevitável. Não acho que isso seja grave.

Personagens de teus livros recentes, do Que farei quando tudo arde?, do Não entres tão depressa nessa noite escura, de qualquer forma, são, assumidamente, num caso uma adolescente, noutro caso um homossexual. Foi-te difícil entrar nessas peles, ou não pensaste nisso?
Antes pensei. Antes pensei... pensei mais no livro que é Exortação aos Crocodilos, com quatro mulheres, e pensei o que é que um homem sabe das mulheres... o que é que um homem sabe, por exemplo, o que é o orgasmo da mulher, o que é que um homem sabe o que é a vivência para uma miúda a primeira menstruação, o que é que um homem sabe do prazer que uma rapariguinha, uma criança, uma miúda pode ter do brincar e... portanto parti para o livro assim. E tinha a sensação durante a escrita  que estava a aprender coisas com as personagens sobre as mulheres, é muito curioso. Depois com a personagem do travesti, até não sabia o que era um travesti, e ainda falei com um ou dois... mas eles estavam muito mais interessados - olha, aí tens - em dizer o nome das tais pessoas públicas com quem tinham dormido, do que em contar-me as suas vivências, percebes? "Eu dormi com fulano de tal", pessoa qualquer importante, "sabe que a maior parte dos meus clientes são casados?"... e depois despejava uma série de nomes de pessoas vivas e conhecidas. Estavam muito mais interessados nisso do que em qualquer outra coisa.

Como se fosses um jornalista de escândalos e não um escritor...
Quase, quase... E também era muito chocante a depressão e ao mesmo tempo a... a pergunta que eles faziam e que aparece no livro a todo o tempo, quem sou eu?, que é que eu sou? E é o que se passa nesse livro todo, em que o filho se pergunta - talvez não por estas palavras - será que um tenho um pai e uma mãe, terei duas mães, o que é o meu pai, que é ser pai, quem sou eu...

Tu conseguiste sair do livro a perceber a homossexualidade?
Aparece muito pouco no livro... aparece muito pouco no livro...

Mas que relação é que tens, por exemplo, com a homossexualidade? Naturalmente de aceitação, calculo, vindo de um homem inteligente, mas causa-te alguma impressão de pele, por exemplo?
Impressão a que nível? A nível intelectual, a nível físico?

Sim, a um nível físico, por exemplo.
A nível físico é qualquer coisa de... Eu sou capaz de entender intelectualmente, a nível físico é-me complicado. A nível físico é-me complicado... é-me complicado porque me vejo complementado num corpo de mulher e não me vejo complementado num corpo de homem, e talvez não sentir qualquer espécie de atracção.

Tu não ligas muito às crónicas que escreves, e no entanto, eu tenho a sensação, pelo que converso com muitas pessoas sobre Lobo Antunes, tenho a sensação que também ganhaste muita gente através das crónicas na imprensa Ou foste buscar leitores insuspeitados...
Não sei se depois lêem os romances, sabes? As crónicas começaram por problemas financeiros, foram numa altura em que a editora estava mal, não havia dinheiro... e nessa altura apareceu-me uma proposta do Vicente Jorge Silva, que dirigia o Público, na altura, para escrever as crónicas, e eu na altura precisava daquele dinheiro. E... não sabia muito bem, pensava, bom, isto é para sair num suplemento de domingo, tenho de fazer umas coisas curtas e leves. O meu problema era depois acabada a crónica voltar ao romance porque o passo é completamente diferente.

Porque é que tinham que ser coisas leves?
Porque era para ser lido ao domingo...

Temos muitos escritores com uma chamada intervenção social, ou seja, aproveitam precisamente esses espaços na imprensa para também mostrarem o que pensam sobre o mundo e sobre a política e sobre a sociedade... Tu nunca quiseste fazer isso?
Não o quis fazer. Mas foi uma escolha deliberada. Porque não ia usar aquela tribuna para atacar pessoas, ou para... e só muito tarde é que percebi que... acho que foi a María Luisa Blanco que me ajudou a entender também... que aquilo era uma espécie de quase itinerário paralelo aos romances. E acabou por haver muitas coisas que me serviram de transfusão e que acabei por aproveitar para romances, etc. Mas para mim, durante muito tempo, eram coisas que eu fazia o mais depressa que podia, e fazia-as, simplesmente, com uma ideia alimentar.

Dão-te hoje mais prazer do que quando começaste?
Sabes, eu escrevo-as sem ter nada na cabeça. Sento-me diante do papel e começo a escrever. Não sei nunca o que é que vou escrever. E agora faço-as mais rapidamente porque entretanto aprendi dentro de mim o - como é que eu hei-de dizer? - a extensão e o tipo de respiração que aquilo exige, mas demorou muito tempo a compreender isso. O que pretendo é voltar para o romance, percebes, e então o que faço é escrevê-las no intervalo de dois capítulos.

E não pensas mais nelas.
Sim sim, esquecê-las, para um mês estão feitas as duas crónicas... as últimas escrevi-as num comboio, na Roménia, salvo erro...

Continua a haver uma chamada... uma orfandade social em ti, ou seja, viraste a costas a um mundo burguês, um mudo familiar onde cresceste, quiseste aproximar-te de um outro mundo que era, no fundo, o mundo que admiravas, e esse mundo não te aceitou muito bem, o chamado, a chamada intelligentia, chamemos-lhe assim. Achas que foi isto primeiro que moveu a crítica contra os teus primeiros livros?
Bom, ahhh... eu estou bastante ligado à minha família, gosto muito dos meus irmãos, gosto muito da minha família, e... tenho muito respeito e muita ternura e muita amizade pelos meus irmãos. Cada um à sua maneira, são todos homens notáveis. Agora que os meus pais estão doentes e velhos... e perto de... provavelmente perto do fim, pela ordem natural das coisas, tu dás-te conta que estás muito mais preso a eles do que imaginavas... Também, ahh... o convívio dos escritores... eu nunca conheci muitos, quer dizer, sei quem são... é um pouco como... Uma vez perguntaram ao Voltaire como é que era a relação dele com deus, e ele respondeu: "cumprimentamo-nos mas não nos falamos". O que acaba por acontecer, é que tu não tens tempo para estar com os escritores, e depois...

Porque estás a escrever.
Porque estás a escrever.

Portanto, há muitos escritores que não estão a escrever, neste país.
Não sei, não sei... Mas é um país onde se escreve muito pouco. Repara... não sei quantos romances se publicam por ano, mas comparado com países com menos pessoas do que nós, publicam-se muito poucos, não é? E não vamos falar da qualidade do que se escreve em Portugal, mesmo assim, eu julgo que temos excelentes, excelentes poetas.

Continuas a sentir-te um poeta falhado? Era o que tu querias fazer...
Não tenho talento.

Não tens talento para a poesia?
Não, não tenho talento, não nasci poeta. Eu só escrevia poesia até aos 18, 19 anos e depois descobri que não tinha talento e foi para mim muito doloroso aceitar isso. E então comecei a tentar escrever prosa. Sabes que tu começas a escrever porque... porque alinhas as palavras, em miúdo, mas a seguir às outras aquilo faz sentido, e é divertido, e é agradável. E aquilo depois é como uma droga dura, fica dentro de ti, não é? Depois a uma certa altura percebes que há uma diferença entre escrever bem e escrever mal e começas a ficar aflito. E quando descobres que há uma diferença ainda maior entre escrever bem e a obra de arte, então a tua aflição é total. Mas também nunca - voltando à tua pergunta - nunca me senti mal recebido pelas pessoas. Houve alguns equívocos, mas sabes, eu julgo que fui mais imediatamente aceite noutros países, porque no estrangeiro a distância toma o lugar do tempo. Muitas vezes. Isso passa-se por exemplo com um homem que para mim é um grande escritor chamado Sebald - não está traduzido em Portugal -, que é alemão, morreu há poucos meses num desastre de automóvel na Inglaterra, e... e era admirado e lido em toda a parte, menos na Alemanha. E agora quando vim da Alemanha, falar dele, cada vez que tive a oportunidade de falar, só agora é que as pessoas começam a lê-lo na Alemanha. E é um escritor, me parece, um escritor invulgar.

António, anda toda a gente muito entusiasmada, parece, em vários meios em Portugal, a dizer que finalmente se está a falar da guerra colonial, a fazer-se a catarse da guerra, seja no cinema, seja na literatura, embora a literatura que normalmente se cita em relação a isso é uma literatura que eu considero mais factual, de dados muito concretos... É isto a catarse da guerra?
Não sei, nunca escrevi um romance sobre a guerra de África, julgo que não me era possível.

Ou ainda não é possível?
A mim não me é possível, porque... acho que seria possível escrever um ensaio, ou um documento, ou qualquer coisa assim, agora fazer ficção, sabes, porque... as coisas eram tão horríveis que não são ficcionáveis... O que é uma ficção?, uma ficção é um sítio onde - um sitio, mesmo - onde tu fazes, com o teu leitor, um pacto: vamos supor que isto é verdade. Ninguém morre a cantar, como na ópera. No entanto se esse pacto for suficientemente forte, tu comoves-te até às lágrimas, mas tens que aceitar esse pacto de incredulidade, isto não é verdade, mas vamos fingir que é verdade. Ora, algumas coisas que eu assisti na guerra eram de tal maneira terríveis que pacto nenhum era possível com o leitor. Pacto nenhum era possível com o leitor; e o que até agora ouvi sobre a guerra, não... sei lá, por exemplo, lembro-me de um filme de um grande realizador que é «Parados sobre a guerra», e em que os soldados discutiam a legitimidade da guerra, será que a guerra é legítima, e o patriotismo, e o colonialismo e esquerda e direita. E eu estava banzado porque quando lá estava, a única coisa que tu queres é chegar ao dia seguinte. Não te pões nenhuma pergunta, nenhuma! Nenhuma pergunta, a única coisa que te interessa é durar, percebes? Não há nenhuma interrogação, nem sequer remorsos, nem nenhuma... e se para isso for necessário seres cruel e violento, ai és. Sem remorsos, nenhuns, nunca! Ainda hoje me pergunto, com espanto... nunca senti culpabilidade das coisas que assisti, nalgumas em que participei, e pergunto-me porque é nunca a senti, compreendes? E no entanto, curiosamente, talvez o maior livro que se fez sobre a guerra, que é o livro do... A Insígnia Vermelha da Coragem, do Stephen Crane, é escrito por um homem sobre a guerra da sucessão, nos estados unidos, que não viveu a guerra da sucessão. Portanto, não é necessário ter-se estado na guerra para escrever-se sobre ela. Julgo que não seria capaz por uma questão de pudor.

Costumas dizer que, de alguma forma, escreves contra a morte. Mas em que sentido, para esquecer que ela está lá, à espera, ou uma imortalidade que tu esperas conseguir com a tua escrita?
Sabes, as pessoas... nós normalmente existimos, ou só morremos, quando morre a última pessoa que ouviu falar de nós. Por exemplo, enquanto eu for vivo, o meu avô ficará vivo, está vivo em mim. A morte é uma coisa estranha, e a nossa relação com a morte é muito mais complicada do que nós imaginamos, e passa por várias fases... É evidente que existe um desejo, e seria hipócrita dizer que não, um desejo, de alguma forma, de continuarmos vivos. E julgo que os livros correspondem também a este desejo.

És um homem diferente depois da morte dos teus dois grandes amigos - Melo Antunes e Cardoso Pires?
Sou mais pobre, sou mais pobre... porque a verdadeira amizade é... cruel, porque a sinceridade implica também isso... sei lá... tinha dois escritores, não vou dizer o nome, muito conhecidos, que costumavam mostrar aquilo que faziam um ao outro. E um deles mostrava o manuscrito ao outro, e o outro dizia, "não corrijas mais, que isso tá bom assim"... para que ele não melhorasse os livros. Agora, há uma altura da tua vida em que tens quase mais mortes do que glóbulos nas veias, porque...tanta gente - não são mortes de pessoas, mortes de ideias, de projectos, de sonhos, coisas que acabaste por não fazer e que... disso sim, tenho remorsos, disso sim. Não ter gostado de algumas pessoas como elas mereciam, não lhes ter mostrado aquilo que gostava delas, compreendes?

Mas ainda vais a tempo, com algumas outras.
Algumas outras sim, mas com essas já não. Embora tenha sempre a esperança que me tenham entendido, não é, e que de alguma forma também é para elas que escreves. Também é para elas que escreves, porque talvez consigam ver aquilo que tu fizeste, e talvez consigam entendê-lo... não sei.

António: Obrigado.
Obrigado.

É terrível, em frente de um homem que detesta a banalidade, dizer que temos de ficar por aqui, quando muito mais havia para dizer, mas é o único lugar-comum que define o fecho deste momento raro. Porque a televisão é isto: uma coisa poucochinha para traduzir algumas vidas e obras. Para quem possa interessar, tantos felizmente, esta memória de elefante chama-se, desta vez, Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. Até à próxima, só até à próxima.


SIC Notícias
Dezembro 2003

09/09/2004

«Como apanhar a arte da fuga de António Lobo Antunes...»

Sobre o tema de traduzir António Lobo Antunes, artigo de Alexandra Lucas Coelho no Jornal Público:

A um leitor, digamos, de Kansas City, o que dirá a frase: "O teu lado Campo de Ourique, o teu ladozinho Penha de França"? Este foi um dos problemas que Richard Zenith teve de resolver durante a tradução de "Manual dos Inquisidores", de António Lobo Antunes, que sairá em Janeiro nos Estados Unidos, editada pela Grove Press. A solução que Zenith encontrou - como explicará hoje, no Colóquio Internacional António Lobo Antunes, organizado pela Universidade de Évora - foi acrescentar "pequeno-burguês" à frase, visto que a simples menção dos bairros lisboetas não diria nada ao leitor americano. Outro exemplo semelhante: quando uma personagem fala da "gentinha [que compra] andares no Cacém", Zenith traduz "em subúrbios sem gosto como o Cacém".Nestes casos, defende o tradutor, para manter intacto o sentido do texto, há que "destraduzir", em vez de traduzir literalmente. Ou seja, acrescentar (mais raramente cortar, ou trocar) algo para que tudo fique na mesma. "As referências portuguesas na prosa de Lobo Antunes podem ser bloqueios na tradução", explica Zenith ao PÚBLICO. "Tomo a liberdade de ajudar, para não trair a arte romanesca, que é o mais importante." A liberdade do "destradutor" pode chegar ao ponto de substituir um nome histórico, como Zenith fez noutra passagem de "Manual dos Inquisidores", em que o almirante Américo Tomás aparece "seguido pelo seu cortejo de Diogos Cães engalanados". Na versão em inglês, o cortejo passa a ser de "marinheiros engalanados como Vasco da Gama". O tradutor admite que a opção é discutível, mas argumenta que o nome de Gama é imediatamente reconhecível para o leitor estrangeiro.Já na tradução de "Auto dos Danados", Zenith pediu autorização a Lobo Antunes para inventar um apelido, visto que em inglês não se usa "doutor" para um nome próprio, e havia o problema da personagem "senhor doutor Nuno" - na versão em inglês, a mulher e a amante chamam-lhe Nuno, os outros, "Dr. Souza". A complexidade das formas de trato em português não se esgota aqui. Zenith está convencido - e escreve-o no texto que hoje lerá no colóquio - que "o português é a língua ocidental mais subtil e com mais distinções em matéria de títulos de pessoas e formas de as tratar". Tu, você, senhor, senhora, vossa excelência resumem-se, em inglês, a "you". O que na hierarquia de classes evocada em "Manual dos Inquisidores" se torna complicado. "É o meu romance favorito", diz Zenith, "por vários motivos, um dos quais, a forma como as personagens das várias classes se tratam umas às outras. Só entre os serventes, há vários níveis de tratamento... É genial."Para além destas dificuldades pontuais, o verdadeiro desafio, sublinha Zenith, é conservar a "desordem natural de Lobo Antunes", essa "sujidade" que mistura universal e local, sublime e banal: "Toda a musicalidade, o ritmo, as vozes que se entrecruzam como uma fuga barroca é a grande riqueza de Lobo Antunes." Americano, 46 anos, Richard Zenith reside em Portugal desde 1987, quando veio para traduzir uma antologia de cantigas medievais. Publicou já duas versões de "O Livro do Desassossego", de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, além de duas antologias (poesia e prosa) também de Pessoa, antologias da poesia de Sophia e Nuno Júdice, um volume de ensaios de Antero (na Irlanda), e tem várias traduções editadas em revistas, incluindo de Herberto Helder (rarissimamente transposto para inglês). De António Lobo Antunes, traduziu quatro romances ("A Ordem Natural das Coisas e "A Explicação dos Pássaros" são os dois que ainda não tínhamos referido) que, diz, "tiveram sempre críticas muito boas, mas não venderam muito."Marianne Eyre é mais do que apenas a tradutora de nove romances de António Lobo Antunes para sueco. "Actualmente, tenho duas amigas mulheres, amigas de coração, daquelas a quem iria a correr se lhes acontecesse alguma coisa", diz o escritor no livro de entrevistas que a Dom Quixote acaba de publicar, coincidindo com o colóquio de Évora. "Uma é Marianne, a minha tradutora sueca. Uma mulher de uma grande inteligência e de um extraordinário valor. Tem 70 anos, mas a sua energia é inigualável."Passou um ano, Marianne está com 71, e é com essa mesma energia - uma espécie de força tranquila - que tem andado por Évora, onde hoje participa na mesa-redonda sobre tradução."Estou a trabalhar no meu décimo livro de Lobo Antunes, 'Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura'. Agora vou mais devagar porque não trabalho à noite. Demoro não menos de um ano com cada livro. Peço sempre muito tempo à editora. É a condição. Tenho que reler e reler." Começou em 1983. "A editora pediu-me que lesse 'Os Cus de Judas'. Fiquei muito impressionada. Era um livro importante contra a guerra." Marianne trabalhara na Amnistia Internacional, conhecera refugiados políticos, estivera em África. "Sempre tive dentro de mim as lembranças dos amigos que sofreram durante a guerra. Visitei Tarrafal, Peniche. Toda a história do colonialismo, da escravatura estiveram presentes na minha vida." Além das viagens a países africanos, viveu um ano num bairro popular da Baía; por isso aprendeu português."Quando visitei Portugal, encontrei Lobo Antunes, trocámos cartas por causa das minhas dúvidas na tradução. Ficámos amigos. De início tive medo... não, medo não é a palavra justa... respeito. Agora é mais natural. Percebi que vejo o mundo como ele. Ele entende as pessoas muito bem, sofre com o sofrimento dos amigos. Tem... como se diz... compaixão."Livro após livro, aprendeu a conhecer melhor a sociedade portuguesa, "os estratos sociais que aqui são mais marcados do que na Suécia". E opta por não acrescentar nem cortar, quando traduz. "Não altero nada. Às vezes, uma clarificação, muito discreta. Quero uma transparência. Claro que há coisas que se perdem mas estou sempre perto do original. E nunca faço notas. Só no 'Manual dos Inquisidores' fiz um prefácio a explicar as figuras reais."Não consegue escolher um romance favorito: "Gostei imensamente de 'A Ordem Natural das Coisas', também de 'O Esplendor de Portugal'. Na 'Exortação aos Crocodilos' há evocações da infância muito comoventes... Senti a evolução na escrita sobretudo neste que estou a traduzir. É incrível, acho que vai mais longe, mais profundo. A ideia de entrar na alma de uma pessoa... não sei se alguém já o fez assim antes... e além disso uma jovem... muito bem feito por um homem."Na Suécia, indica, os livros de Lobo Antunes "não vendem muito, mas as críticas são sempre entusiásticas, e os jovens escritores gostam muito dele". Não acredita que a recepção sueca da obra tenha influência particular no Comité Nobel. Quando lhe perguntamos se crê que o Nobel para Lobo Antunes ainda é possível, responde imediatamente: "Claro! Claro que pode vir a ganhar. Acho verdadeiramente que eles não ligam à nacionalidade... não, não vejo porque não."Maralde Minnerman traduziu nada menos que 11 romances de Lobo Antunes para alemão. "É mais fácil dizer os que não traduzi: 'Os Cus de Judas' e 'Explicação dos Pássaros', que já estavam editados na Alemanha, 'Memória de Elefante', que vou traduzir, e 'Que Farei Quando Tudo Arde', o último, que estou agora a ler." Levou entre cinco a seis meses a traduzir cada livro. Fala português sem sotaque algum. Sempre viveu em Hamburgo, mas tem primos no Porto, e a memória de uma avó portuguesa, nascida nos Açores.O título da sua comunicação no colóquio, hoje, é: "O barqueiro, o lobo, a cabra e a couve". Ela diz que se sente como este barqueiro, que só pode levar uma coisa de cada vez - se leva o lobo, a cabra come a couve, se leva a couve, o lobo come a cabra... -, quando trabalha numa tradução de Lobo Antunes, e tem que transportar "conteúdo, palavras, sintaxe, ritmo, melodia textual" de uma língua para a outra.A fragmentação do texto, que vê como uma tendência cada vez mais patente em Lobo Antunes, contribui para a dificuldade. "No 'Manual dos Inquisidores' ainda é fácil ver que é uma história contada por várias pessoas. Mas em 'Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura' já não é tanto o relato, mas uma voz que inventa o relato, personagens, histórias que se fazem e desfazem, é um livro sobre a criação literária. E neste último a fragmentação é total. É como um 'puzzle', a princípio não se entende nada, e pouco a pouco as vozes tornam-se audíveis, descobre-se quem é quem."Quando lhe dizem que é difícil ler Lobo Antunes, Maralde sugere que façam um filme na cabeça. "É o que faço. Formo as imagens e ouço a banda sonora. É importante distinguir cada voz, para não perdermos o fio. É como uma fuga, na música. Há uma parte da fuga em que todas as vozes estão juntas."Quanto a problemas concretos de transposição, Maralde diz que dá "pequenas ajudas", como acrescentar "praça" quando se fala pela primeira vez nos Restauradores ou, quando o texto descreve o céu com cor de papel de embrulho, criar uma palavra em alemão que significa cinzento-papel-de-embrulho. "É que na Alemanha o papel de embrulho é amarelo e não pardo..." Na tradução de "As Naus" fez um glossário de mais de 20 páginas com as personagens todas. "Quem quiser, vê no fim."Na Alemanha, diz, "as críticas são óptimas, as vendas relativas". "Manual dos Inquisidores" vendeu bem porque o "papa" da crítica apostou nele, e uma pequena edição de parte das Crónicas "vendeu como pãezinhos". "Lobo Antunes tem os seus incondicionais, está sempre na lista dos melhores do mês, quando lança um livro, muitas vezes em primeiro lugar. E quando sai em edição de bolso, que é muito mais barato, vende bem."Ao fim de 11 livros, transpostos palavra a palavra, Maralde acredita que Lobo Antunes "continua a ser inovador, um escritor excepcional como há poucos, que continua a tentar criar o tal romance feito de silêncio, o romance novo".


Alexandra Lucas Coelho
16.11.2002
Público

Visão - entrevista de Sara Belo Luís - 27 Novembro 2003


Esteve dois anos na guerra colonial cujo absurdo haveria de retrata em Os Cus de Judas. Ao regressar de Angola, António Lobo Antunes não era o mesmo homem. Em Lisboa tinha deixado a mulher (com quem havia casado pouco antes de partir) e uma filha que ainda não conhecia. Trazia também a certeza de que pretendia desistir da cirurgia e antes preferir uma especialidade médica que lhe permitisse escrever. Acabou por escolher psiquiatria, à qual foi buscar as técnicas de análise que, depois, utilizou para dissecar o País.

Agora, aos 61 anos, regressa ao território que sempre marcou a sua ficção. Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, o volume de 554 páginas que as Publicações Dom Quixote acabam de lançar, era para falar das seitas religiosas mas acabou por tornar-se um romance sobre o tráfico (o de diamantes e o de influências), sobre o percurso de três homens (Seabra, Miguéis e Morais) que partem de Portugal para a terá devastada pelas guerras (a colonial e a civil) e pela cupidez humana. Em entrevista à Visão, o escritor desfia – como nunca o havia feito – as suas memórias de África. As do inferno e as do paraíso.

Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo é o livro do ajuste de contas com Angola?
Não tenho contas a acertar com ninguém. Estou em paz com os outros. O que sinto é que não vou ter tempo para fazer os livros que gostaria de escrever. Como Mozart que, nas margens do Requiem, escrevia «Não vou ter tempo»...

E uma espécie de catarse?
Também não sinto que tenha de me libertar de alguma coisa. Angola nunca saiu de dentro de mim. Ocupa um lugar muito profundo, mais até do que eu imagino ou penso. Vejo Angola como um paraíso perdido. Lembro-me da terra, dos cheiros, das cores, dos horizontes, de toda aquela sensualidade. Como, aliás, também acontece em relação à Beira Alta, onde agora vou cada vez mais. É uma espécie de regresso à infância onde fui tão feliz. Quando passo Carregal do Sal sinto logo o cheiro da Beira Alta. Dá-me uma certa paz interior.

Como é possível ter uma imagem de paraíso de algo que foi um inferno?
Mas tudo aquilo que envolvia a guerra era de uma beleza imensa. É curioso porque, afinal, foi um tempo doloroso.

De que maneira é que um romance sobre seitas religiosas se transforma num romance que tem o tráfico de diamantes como pano de fundo?
O outro romance começava em Angola e era para acabar com a casa destruída que aparece logo no princípio deste. Pensei que o livro pedia muito mais do que aquilo. Porque é que havia de estar a tocar uma gaita-de-beiços se podia estar a tocar um piano sem fim?

Esta é a imagem que tem da Angola pós-independência?
Enquanto escrevia o livro, interroguei-me várias vezes se não iria arranjar problemas.

Em que sentido?
Com a riqueza de Angola, não acredito que tenham desaparecido todos esses europeus e africanos que ainda hoje tentam explorar aquela terra. No livro também está presente a minha indignação em relação a todo esse neocolonialismo. Como é que se fazem determinadas coisas em nome da democracia e da amizade? Eu não queria entrar muito por aqui… Já deve ter reparado que sou sempre muito cauteloso. Por vezes tenho imensa vontade de escrever para a Visão sobre esse processo da Casa Pia, mas não me atrevo a fazê-lo porque as pessoas não teriam possibilidade de me responder.

A pergunta é para o psiquiatra…
... esse, coitado, já não existe.

Ainda deve saber umas coisas…
... poucas.

Arrisco, mesmo assim, a pergunta para ele: a questão da guerra está resolvida em si?
O psiquiatra? A questão da guerra? Não pode chamar-se àquilo uma guerra. Morria-se sem se ver ninguém. As minas, não se via quem as punha e, nas emboscadas, era tudo muito rápido. Uma guerra pressupõe um adversário e ali, ele era completamente invisível.

Não havia combates?
No sentido clássico do termo, não. Para fazerem sentido, as emboscadas não podiam demorar muito. Uns minutos e desapareciam. Depois, havia as populações, que me fascinavam.

Esse foi, de algum modo, o lado bom da guerra?
Sim, esse contacto foi decisivo para mim. Aprendi muito com aqueles povos, através da sua relação com a vida e com a morte. Apercebi-me também que o tempo africano – que é elástico, indefinido – podia servir-me para me mover melhor no espaço do romance.

Nunca teve oportunidade de regressar a Angola?
Oportunidade há sempre. Acho é que, se voltasse, não saía de lá. Gostava de ter u passaporte angolano, teria muito orgulho nisso. Não quero dizer que me sinta menos português, gosto cada vez mais de ser daqui, sinto-me muito bem no meu país.

Mas porque é que gostava de ter passaporte angolano?
Afectivamente, estou muito ligado àquela terra e àquelas pessoas.

Isso não é um contra-senso? No fundo, lutou contra a independência angolana…
Bom, eu fazia parte de um exército…

Que dependia de um governo que era contra a independência das colónias.
É verdade. Isto não pretende ser uma justificação, mas, naquela época, a gente tinha a sensação de que a ditadura era eterna. Ou se ia à guerra (como o Partido Comunista, que mandava os seus militantes ir à guerra) ou, então, ia fazer-se a revolução para os cafés de Paris. E, a certa altura, reparei que a maior parte das pessoas que emigrava fazia-o quando sabia que ia. Porque tinham medo. Aquilo metia medo. No entanto, as minhas razões não tinham nada a ver com estas. Não fui nem por valentia nem por ideais políticos. Ernesto Melo Antunes, o meu capitão, dizia que a revolução se fazia por dentro. A mim, contudo, a revolução não me dizia grande coisa… Sempre tive uma vida protegida, passei ao lado de todos os movimentos contra a ditadura; por cobardia, provavelmente.

Era um privilegiado.
Claro que sim. Nessa altura, de um modo geral, os rapazes que iam para as faculdades eram privilegiados. Mas não foi só por isso que a política – e até o próprio movimento estudantil – me passou ao lado. Eu nem às aulas ia, passei a faculdade a escrever e a jogar xadrez. Vivia completamente centrado sobre mim mesmo. Talvez esteja grato a Angola porque foi lá que aprendi a existência dos outros. Até então o meu mundo era ptolemaico. Na guerra, senti pela primeira vez uma camaradagem real, que ainda hoje se mantém.

Ainda se vêem?
Sim, de vez em quando. Nesse momento percebi que eu não era o centro do mundo.

Mantinha um diário?
Não, nunca fiz diários. Mas é curioso que, durante todo o tempo que estive em África, li e escrevi muito. À noite, enquanto escrevia os meus romances, tinha a sensação de estar em Lisboa porque havia um soldado que imitava os pregões dos ardinas.

Lembra-se do dia em que foi mobilizado?
Eu já sabia que ia, só não sabia era quando. Fiz a segunda parte da recruta no Hospital da Estrela e, depois, fui colocado no de Tomar. Estive lá uns meses e, um dia, o director chamou-me e disse-me que eu tinha que me apresentar em Santa Margarida. Só soube que ia para Angola já no barco.

Foi lá que conheceu Ernesto Melo Antunes?
Só vou encontrar o batalhão com que fui em Santa Margarida uns meses antes de embarcar, a 6 de Janeiro de 1971.

E para onde foi?
Fui para as Terras do Fim do Mundo, na fronteira com a Zâmbia, no saliente do Cazombo. Chagámos lá e, pendurada no arame farpado, estava uma tabuleta que dizia «Lisboa, 10 mil quilómetros. Moscovo, 13 mil». O leste angolano não correspondia nada à ideia que fazemos de África. É arenoso, com pouca vegetação e, de noite, fazia muito frio.

Não havia o que habitualmente se chama mato?
Havia, mas parecia sempre igual. Outra das coisas que me espantava era a capacidade que os nossos guias tinham em orientar-se. Havia um que lhe bastava pôr a orelha contra o chão para pressentir uma coluna ainda a quilómetros de distância. Outro, via mosquitos na outra banda e, aos domingos, punha uns óculos graduadíssimos. E nós, miúdos de 20 anos, não entendendo o significado simbólico do acto, fazíamos troça. Não percebíamos que aquela maneira de ser correspondia a uma cultura milenar. Vínhamos com toda uma carga de coisas europeias...

O médico recém-licenciado também descobriu outras «ciências»?
Sob o aspecto médico eram culturas muito mais avançadas que as nossas. Não havia cáries, por exemplo. E lavavam os dentes com um pau… Doutro ponto de vista, a organização social era perfeita, não havia conflitos sociais e as decisões eram tomadas em assembleias muito complicadas. Uma vez, numa aldeia, estiveram uma tarde inteira para deliberar se me davam um galo. Eram muito sábios e, sentindo o absurdo daquela situação fugiam para norte. Nós queimávamos as aldeias com desfolhantes e com tudo isso de que é proibido falar. Eu vi napalm. O marechal Costa Gomes, que era meu comandante-chefe, dizia que não existia napalm. Nós tínhamos napalm e bombardeávamos com napalm. Esta é a verdade. E quem disser o contrário está a mentir.

No terreno dizia-se que o regime estava a definhar?
Não, não se tinha a noção porque não tínhamos notícias nenhumas. O nosso batalhão, composto por três companhias de combate, cobria um território com a mesma extensão de Portugal Continental do Mondego ao Algarve. Naquela altura, o MPLA estava a entrar pela Zâmbia com o objectivo de cercar o planalto central. Era, portanto, uma zona tremenda. E era suposto nós servirmos de tampão. Mas como é que três companhias e combate – ou seja, 450 homens – podem patrulhar uma zona tão grande? Era impossível.

Discutia-se política?
Não, não se discutia política. Nem era possível discutir. Nunca assisti a cenas como as de Manoel de Oliveira no qual os militares vão nos Unimogs a discutir a legitimidade da guerra. A partir do momento em que morreu o primeiro rapaz, até o Melo Antunes (que era um homem muito politizado, que discordava da guerra) deixou de falar nisso. Nesse momento disse «Vamos vingar o Ferreira». O primeiro morto desencadeia uma raiva enorme. Ninguém queria ir para o mato, ninguém queria matar ninguém. Não aquele país, olhávamos para o céu, não conhecíamos as estrelas. Nada daquilo nos fazia lembrar Portugal. Absolutamente nada. Estávamos ali, não havia nada à volta. Só havia a casa do chefe do posto em ruínas onde eu dormia. Portanto, que vontade tinha eu de combater? O quê? Quem?

Estavam apenas preocupados em chegar ao dia seguinte?
Eu queria voltar vivo. Tínhamos sido treinados para a guerra, mas o objectivo era acumular o maior número de pontos possíveis para irmos para um sítio com menos guerra. Um prisioneiro tantos pontos, uma arma apreendida tantos pontos e, ao fim de não sei quantos pontos, mudávamos de lugar. Nunca ouvi – entre oficiais ou soldados – uma única palavra contra o a favor da guerra. A gente queria era sair dali. O mais depressa possível. Não queria falar da crueldade e da violência porque, no meio das atrocidades, também havia uma grande generosidade. Os nossos soldados ganhavam uma miséria e estavam sempre na aflição de saber como é que estavam as suas famílias em Portugal. As notícias que chegavam eram poucas, o correio só vinha uma vez por semana...

Que atrocidades não conseguiu esquecer?
Coisas horríveis. Havia uma delegação da PIDE junto à sede do batalhão e eu assisti a dois ou três interrogatórios. Nunca vi o exército fazer tais coisas. Lembro-me de um soba me dizer «O Sr. PIDE manda mais que o Senhor Governador». A PIDE era, de facto, o terror dos civis. Noutro dia, fizeram-se uns prisioneiros e, como era preciso comunicar à polícia, veio um PIDE de helicóptero. Quando chegou, a primeira coisa que fez foi dar um pontapé na barriga de uma mulher grávida. O Melo Antunes puxou da pistola e apontou-a ao PIDE. Nem imagina os problemas que ele teve por causa disso… Estávamos ali, mas de vez em quando vinham uns do «ar condicionado» para dizer como é que devíamos fazer a guerra. Recebiam o mesmo subsídio e apareciam de camuflado novinho em folha. E nós de camuflado todo desbotado...

Tudo isso é político…
Eram ordens militares. E não vinham embrulhadas em qualquer consideração do género «Estamos a defender Portugal». Não me recordo de um comandante, um general, um coronel ou um brigadeiro me falar da pátria. Não me lembro de alguma vez ter ouvido um discurso patriótico que advogasse a civilização contra o comunismo ateu.

A morte torna-se mesmo uma rotina na guerra?
Fazia sempre sofrer muito. Uma vez levei para o meu quarto um rapaz que tinha morrido numa emboscada. Não quis que o tirassem de lá. Estava só a dormir. A morte de um camarada era uma coisa horrível. E mesmo os feridos, que nunca mais voltávamos a ver. Quando havia amputações, eu fazia o penso ao coto, vinha um helicóptero e levava-os.

Como é que vê, hoje, as diferenças entre a guerra que conheceu e estas guerras cirúrgicas?
Não conheço estas, só conheci aquela. Mas a guerra é sempre um momento absurdo porque ninguém ganha. Isto foi o que, de mais claro, trouxe da guerra. Na guerra não há vencedores. Todos – militares, famílias, populações – são vencidos. E os militares são os que menos culpa têm porque se limitam a fazer aquilo que o poder político pretende. Sob este aspecto, o exército português sempre foi muito disciplinado. O Melo Antunes, por exemplo, impunha uma disciplina completamente feroz que eu não compreendia. Ele contrapunha que aquela era a maneira de termos menos baixas. Obrigava-nos, entre outras coisas, a pôr gravata para jantar, na areia...

A disciplina passava por aí?
Também, o que não o impedia depois de jogar vólei com os soldados. Estes, de resto, eram muito bem treinados. Quando uma coluna foi atacada, o alferes teve medo e escondeu-se debaixo de um cepo. O pelotão ficou uma presa fácil porque todos estavam à espera que aquilo funcionasse.

O medo era encarado como um sinal de fragilidade?
Borrar-se de medo? Cagar-se de medo? Tudo isto é real, não são figuras de retórica. Ele tinha as calças do camuflado encharcadas de merda. Casos destes, no entanto, não havia muitos. Todos tínhamos medo, mas os nossos soldados eram de facto extraordinários. Não eram como os americanos que estavam lá no Vietname e, de dois em dois meses, tiravam uma semana de férias. Em Angola nunca vi ninguém negar-se a ir para a mata. Quando o rapaz que tinha sido sorteado para conduzir o rebenta-minas – a viatura, como então dizíamos que ia à frente – vinha despedir-se de mim, fazia-o sem quaisquer dramatismos. Ao princípio ainda marcávamos os dias no calendário, mas a partir de certa altura a vida já não tinha grande valor. Uma das cruzes de guerra que tivemos foi o apontador de metralhadora, já ferido no pescoço, ter continuado a disparar para salvar os que estavam cá em baixo. Havia um espírito de corpo muito intenso. Lá, éramos todos a mesma coisa. Estou a conseguir falar disto sem falar do horror...

Ainda sonha com a guerra?
Às vezes tenho um pesadelo tremendo. Sonho que me estão a chamar para voltar para África. Tento explicar que já fui, argumentam que tenho que ir. E o sonho acaba aqui. Nunca sonhei com tiros ou com morteiradas. No meio daquilo tudo havia muito humor. Havia um homem, o Bichezas, que cuidava do morteiro que estava ao pé da messe. Tínhamos mais medo dele do que do MPLA porque o Bichezas disparava com o morteiro na vertical. Aquilo subia…e toda a gente fugia. Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo, havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.

Parava a guerra?
Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto ou do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?

Não vou pôr isso na entrevista…
Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?


Visão
27.11.2003

08/09/2004

Quem lê é a classe média


Diário de Notícias - entrevista de Maria Augusta Silva
18 Novembro 2003


Quem lê é a classe média


Vinha a apostar comigo mesma: desta vez vou encontrá-lo sem as calças de ganga...
Ando com calças de ganga há tantos anos. Já não me vejo vestido de outra maneira. Acho que nem tenho nenhum casaco, nem gravata. Ando sempre assim, umas calças, umas camisolas.

Que prazeres lhe dá a vida?
Com a idade, os prazeres vão-se afilando. O da leitura, no entanto, continua intacto.

Novo romance: Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo tem como pano de fundo uma África em guerra civil. Gostaria de ter escrito este livro na Muxima?
Não quis voltar a Angola. Às vezes sinto-me dividido, apetece-me voltar, nunca vi um país tão bonito, tão sensível como Angola, a permanente exaltação dos sentidos.

África, uma vertigem?
De África só conheço a guerra (colonial), a mata, camponeses, aquartelamentos. A minha África não é a das cidades.

Não tendo voltado a Angola, como pôde abordar com tanto realismo ambientes da guerra civil? Dá a sensação de que alguém tirou "radiografias" e deu-lhas para as interpretar...
Não falo da guerra. O que me interessava mais era o comportamento de pessoas colocadas em situações extremas. Parti para o livro a querer escrever sobre seitas religiosas mas depois tomou essa inflexão inesperada Não estava à espera do tráfico de diamantes.

Como pode ser tão pobre um país tão rico?
Precisamente porque é muito rico e há muita cupidez. Não são os angolanos, ou serão alguns angolanos, mas o povo de Angola não é assim. Não se encontra fora das cidades ambições materiais. Quis-me parecer durante este tempo todo que são muito hedonistas, procuram um bem-estar com eles mesmos e com os outros.

Um povo mais próximo da espiritualidade e da natureza?
E os europeus não sabem da espiritualidade dos africanos. Queremos impor a África os padrões europeus. Por exemplo, a medicina deles, dizem que são feitiços, mas vi-os a curarem hepatites em dois dias.

Enquanto médico, como se sentia perante situações dessas?
Tentei perceber o que punham e nunca me quiseram explicar. E os partos eram feitos pelas mulheres velhas. Eu só resolvia o que elas não eram capazes.

O velho em África é uma figura respeitada...
Ao contrário daqui. Nenhum soba, nenhum chefe tomava uma decisão sem ouvir o conselho dos velhos. Havia uma tolerância e um respeito pela velhice que sempre me surpreendeu e não encontramos cá, tal como havia pela doença. Seguiam uma higiene maior que a nossa, mais perfeita até naquilo que comiam. E a gente não se dava conta e queríamos à força europeizá-los sem nenhum respeito por uma cultura milenária. As recolhas de poesia oral que faziam é extraordinária.

Estará a ser salvo esse património milenar?
Não sei até que ponto as elites africanas não estão europeizadas no pior sentido do termo. A tirania europeia não se faz agora através da Europa, faz-se através do filho espúrio da Europa que são os EUA. Quer-me parecer que, pelo menos a actual Administração, tem uma ideia de valores culturais, civilizacionais, sociais e afectivos que me parece errada, e vêem-se as consequências.

Nomeadamente quanto à questão do Iraque?
Sim, e já antes disso. Este imperialismo e este colonialismo continuam a existir, por vezes exercido por africanos. Mete muito dinheiro em jogo.

Como lida com os diferentes tempos de um romance?
O tempo é muito curioso. À medida que se envelhece o tempo é mais rápido. Ainda agora foi Natal e já vai ser natal outra vez. Quando se é novo pensa-se que o tempo vai resolver os problemas e depois a partir dos 40 percebe-se que o tempo é que é o problema. Sou muito consciente de que tenho muito pouco tempo, de que posso fazer mais dois ou três livros, e depois acabou. preciso, no mínimo, de dois anos para escrever um livro.

O tempo nunca lhe resolveu nenhum problema?
O problema é o de tempo para escrever mais livros. Se tiver de morrer cedo, ao menos que pudesse acabar o livro [indica novo livro que está a rever] para isto não ficar inacabado e venham a publicá-lo sem estar pronto. As editoras já de si não são muito boas, o respeito pelos autores não será talvez a coisa mais importante, temos de lutar pela dignificação do nosso trabalho.

Não receia que o romance agora publicado possa causar algum desagrado nas sociedades africana e portuguesa, inclusive no meio militar?
Tenho um grande respeito pelos militares. Foi de um militar, o meu avô, que até hoje recebi o maior amor e carinho da parte de um homem. Seria incapaz de tratar depreciativamente quem sempre me tratou bem desde que nasci. Os três anos e tal que estive no exército não tive razão de queixa. Portaram-se todos comigo com uma lisura como nenhuma outra classe profissional se comportou. Apenas escrevi o livro. A forma como será recebido já não me diz respeito.

E no povo africano não poderá haver alguns melindres?
O povo africano anda preocupado em sobreviver que provavelmente não irá ler livro nenhum. Fiz o que tinha de fazer, não estava na minha cabeça magoar ou apoucar fosse quem fosse. Nem tenho nenhum motivo para atacar ninguém, não tenho tempo para odiar. É apenas a literatura que me interessa.

Não tem traumas de guerra?
Tenho com certeza mas não me são conscientes. Uma vez, na Alemanha, um jornalista dinamarquês perguntou qual é a sensação de matar. Nessa noite tive pesadelos horrorosos. Foi a única vez que me aconteceu. Revivi isso mais com a doença do Ernesto Melo Antunes; nunca falávamos da guerra mas quando estava já muito doente ele falava. Foi o homem mais corajoso que vi debaixo de fogo, andava de abrigo em abrigo com uma lanterna, era um alvo. Dizia-me: «Sabes, é que às vezes apetecia-me morrer.» isto não é partilhável. Nunca poderia escrever um romance sobre a guerra, no fundo está em todos os livros porque a guerra existe sempre dentro de mim. Como é que uma pessoa que não escreve consegue suportar o absurdo da vida?

Na guerra mata-se...
Não vamos falar sobre isso. Essas coisas só podem ser compreendidas por quem passou por elas. E o que me espanta é a ausência de culpabilidade mesmo a posteriori.

Tem três livros neste romance que vai ser lançado amanhã, embora seja um mesmo livro...
Foi um jogo comigo mesmo para me tornar a tarefa mais difícil.

Procurou com esta obra dessacralizar as ideologias?
Não tenho pensamentos abstractos quando estou a escrever. Estou tão preocupado a fazer o livro que nem sequer me pergunto o que é que isto quer dizer, nem sequer me pergunto o que estou a escrever. Às vezes nem sequer sabemos se estamos a acertar no papel. Só quando se começa a trabalhar é que se vê se acertamos ou não.

Dedica este livro a Júlio Pomar. No entanto, não será um livro que pertence também um pouco a Melo Antunes?
Não. Há um livro que lhe é dedicado (O Manual dos inquisidores), felizmente antes de ele morrer. A morte de um amigo é uma ferida que não cicatriza nunca. Cada pessoa tem um lugar insubstituível. Uma vez disse ao Zé Cardoso [Pires] que a viuvez da amizade é uma coisa... Ainda hoje tenho muitas saudades do Zé, era uma amizade diária, um homem difícil, duro. Das poucas vezes que retirou o que disse foi como quem arranca a espada da barriga de um adversário. Mas em tantos anos de amizade nunca houve um amuo e tivemos coisas profundamente diferentes. Se tivermos dois ou três amigos estamos cheios de sorte.

Não gosta de falar de amor, eu sei. E a dor tem palavras?
Sempre me ensinaram que o pudor em face das coisas realmente graves da vida como a morte ou a doença que conduz à morte. Coisas que a gente guarda só para nós e que obviamente aparecem nos livros. Os livros estão a rebentar de ternura por todos os lados mas não são muito demonstrativos.

Há quem julgue que não há ternura em si...
Às vezes é difícil dizer que uma pessoa tem um coração em cada objecto.

Tem acompanhado a criatividade literária africana?
O Pepetela é um homem de que gosto, sou amigo dele. Um homem  de grande dignidade e coragem, de uma grande qualidade humana. E não tenho dúvidas em dizer que é um escritor sério, qualidades raras. Como me parece que o Mário Cláudio é um escritor muito sério e que a Mafalda Ivo Cruz tem um talento inegável; como me parece que o José Eduardo Agualusa tem talento, já lhe disse isso várias vezes, mas acho que é um preguiçoso. E haverá mais alguns nomes.

As literaturas africanas são visíveis em Portugal?
E a literatura portuguesa é visível? O nível médio daquilo que se publica, seja onde for, é muito baixo. Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram aquelas coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo.

Um livro pode ajudar a repensar o mundo?
Tenho uma certa desconfiança em relação à palavra pensar. Quando se está a escrever, pode-se pensar enquanto indivíduo, mas enquanto escritor... Sempre me fez confusão as pessoas que dizem: tenho um livro na cabeça só me falta escrever.

Isso não lhe acontece quando parte para as suas folhas?
Parto sem nada.

Cada livro nasce do nada?
Nasce de coisas vagas, muitas vezes nem sequer estão cristalizadas. Nos primeiros livros fazia planos muito detalhados. Agora, não. Comecei a entender que o livro é um organismo que vive independente e surpreende-nos a cada passo. Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras. São as palavras que se geram umas às outras. E com trabalho.

Se fosse crítico literário só criticaria os livros bons?
Seria incapaz de dizer mal de um livro, mesmo que o livro fosse desonesto, mesmo que o livro fosse mau, não falaria sobre ele. Portanto, se fosse crítico literário era uma maçada porque quase não tinha sobre que escrever.

Qual a missão da crítica?
Idealmente, a missão da crítica seria ajudar a ler. Em teoria, o crítico será um leitor mais atento do que os outros. Não tem necessariamente que emitir juízos de valor. Temos tendência a gostar só dos que são da nossa família, as ideias confundem-se com as nossas paixões. Em Portugal não sei como se passa a crítica.

Como se mantém extremamente actualizado em tudo?
Vejo o teletexto. Não sei se estou actualizado. Há jornalistas que admiro. Acaba por ser como nas outras profissões, há um pequeno número de grandes profissionais, a maior parte não o será. Mas não me parece que o nosso jornalismo seja inferior ao da maioria dos jornais estrangeiros. O que me custa é ver os nossos jornalistas tão mal pagos. Como ter o direito de exigir qualidade se se paga miseravelmente ou se paga pouco. E também os médicos são mal pagos, todos são mal pagos. Nós, portugueses, somos admiráveis, vivemos do vento.

Um fenómeno curioso mesmo em termos de compra de livros?
E sendo os livros tão caros para o poder de compra dos portugueses... Comprar um livro para muitas pessoas faz uma grande diferença. E quem lê não são as classes possidentes com muito dinheiro. Quem lê são as classes média e média-baixa, as que não têm dinheiro. Um fenómeno espantoso porque acho que se compram muitos livros em Portugal. Há mais leitores de poesia em Portugal do que em França.

Em tempo de crise, os sectores dos livros e jornais ressentem-se logo?
Obviamente. Porque não são os consumidores das revistas cor de rosa que lêem livros. Quem lê são os funcionários públicos, algumas profissões liberais, pessoas empregadas. E para lá do dinheiro que lhes custa o livro estão a tirar tempo muitas vezes ao sono e à família para lerem. Por isso acho que os portugueses mereciam melhores escritores. Chega-se a uma livraria e fica-se chocado até com os títulos. Também se deve passar em todo o mundo.

Quando sairá mais um novo livro?
Provavelmente vou deixá-lo sair primeiro noutros países.

Outra vez zangado com Portugal?
Houve um que saiu primeiro em França, outro que saiu primeiro na Alemanha para homenagear os editores ou  pessoas a quem estou reconhecido e que tanto lutaram pelos meus livros. Isto não tem nada que ver com animosidade contra o meu país, pelo contrário.

Algo a ver com a sua editora no nosso país?
Uma relação com uma editora normalmente tem altos e baixos. Digamos que neste momento não estou num alto. Esta é uma época muito complicada porque as editoras atiram cá para fora o máximo de livros que puderem, é uma época em que se vende. Só que há desatenções que já não tolero ou tenho dificuldade em engolir. Não quero que me respeitem a mim, quero que respeitem a honestidade do meu trabalho. E ao mesmo tempo sou extremamente fiel, cria-se uma relação de amizade que para mim é muito importante.

«Ninguém gosta que lhe destruam os sonhos»

Acaba de ganhar outro relevante prémio, o da união Latina. O júri fundamenta: «Lobo Antunes é a voz mais expressiva da realidade profunda de Portugal.» Que sente?
Não me interessa ser a voz mais expressiva de Portugal. É preciso dessacralizar os prémios. É evidente que são agradáveis. os prémios, porém, não têm nada a ver com literatura no sentido em que não tornam os livros nem melhores nem piores.

Pretende fundamentalmente levar para os seus livros a condição humana no que tem de sórdido e de belo?
Só pretendo escrever. Por um lado, é evidente que não sou parvo, sei muito bem o que estou a tentar fazer, ou por outra, sei uma parte do que estou a tentar fazer, há outra parte que me escapa. Tem que ver com uma necessidade visceral de expressão. Aqui há uns tempos dizia para um dos meus irmãos que não me importava de estar preso se tivesse papel, uma caneta, livros para ler.

Não é muito melhor escrever em liberdade?
O próprio do homem é viver livre numa prisão. Estamos sempre condicionados e até prisioneiros de nós próprios. Na Roménia, onde fui receber outro prémio, era comovente ouvir as pessoas dizerem: «Agora somos livres». Num jantar com o primeiro-ministro, ele dizia-me: «Sabe, nós ainda somos pobres porque havia que escolher entre o desenvolvimento económico e a liberdade e o povo preferiu a liberdade.»

Desenvolvimento e liberdade são incompatíveis?
Na altura eram, porque se houvesse restrições à liberdade, ao direito à greve, poderia haver determinado tipo de desenvolvimento pela direita. Estou a falar da Roménia.

E em Portugal?
Não queria falar nisso. É evidente que o meu coração não está com este governo, mas o meu drama é que o meu coração também não está com nenhum dos partidos da oposição. Não me interessa este Partido Socialista, acho trágico este Partido Comunista. O drama para as pessoas verdadeiramente de esquerda é que são apátridas, a gente vai votar em quem?

Alguns dos seus desencantos têm a ver com uma sensação de vazio?
Sinto-me bem assim. Mas existe em mim uma grande desilusão porque ninguém gosta que lhe destruam os sonhos. Digamos que sou um órfão da esquerda. Também sou muito indisciplinado. Teria dificuldade com qualquer disciplina partidária. O problema dos partidos é que se tornam reaccionários porque têm de funcionar com o aparelho, como qualquer igreja.

É um homem sem política e sem religião?
Sou um homem religioso. Cada vez mais. Os grandes físicos do século XX eram homens profundamente crentes; chegaram a Deus através da física, da matemática.

A escrita não é uma ciência exacta...
Essa é outra coisa divertida. Falando do Prémio Nobel, que serve para exemplo: ninguém discute o Prémio Nobel da Física ou da Química, mas toda a gente acha que sabe quem deve ganhar o da Paz e o da Literatura. E a literatura tem muito que se lhe diga. Não se pode ensinar ninguém a ter talento mas há coisas que se podem ensinar. Estamos longe da idade de ouro do livro, em que havia trinta génios a escrever ao mesmo tempo, no século XIX. Não se repetiu.

O estilo literário ajuda a criar a universidade do escritor?
Não sei. Tudo tem sido para mim uma surpresa total.

É um pouco autodestrutivo?
Meu Deus, porque se tem de corrigir tanto? Há muita coisa que fica destruída do nosso trabalho, às vezes meses inteiros de trabalho são destruídos.

Destrói e deita fora ou tem muita coisa guardada?
Dantes deitava tudo fora, todas as versões. Agora, não.

As suas obras passaram a ter edição ne varietur. Não costuma reler os seus livros. Foram encontrados muitos lapsos, muitas gralhas?
É uma grande ironia porque se escrevem livros que se gostaria de ler e depois não os lemos. Estamos tão metidos neles que não se tem distância.

Nunca revisitou nenhum livro seu?
Não. Eu que tenho uma memória tão boa...

Memória de elefante...
Eu que sei de cor bocados de livros não sei uma única frase de cor de um livro que tenha escrito. Acaba-se um livro e temos de esquecer esse para fazer outro.

No livro que publicou agora, entre outras, tem uma frase insistente: «o mar à nossa esquerda». Esse mar, na Muxima, terá a simbologia de que escreve também com o coração?
Não pensei nisso. Escreve-se com a mão. Maiakovski disse: «comigo a anatomia enlouqueceu, sou todo coração.»; são liberdades a que os poetas se podem dar quando são grandes. Podem fazer-se alguns desplantes toureiros quando se escreve um romance mas pode-se pagar caro e lavar uma cornada.

Estamos numa época em que começa a apetecer revisitar os grandes clássicos?
O que é um clássico? Calvino dizia que clássico é aquele que a gente nunca diz que está a ler, dizemos que estamos a reler. Todas as semanas compro livros e as coisas mais variadas.

Considera que o livro ideal será a grande utopia de um escritor?
É aquele que a gente lê e tem a certeza que foi escrito só para nós e que os outros exemplares dizem coisas diferentes; com o qual temos uma relação pessoal, íntima. São objectos que nos pertencem, de que nos apropriamos intelectualmente, afectivamente e nos revelam a nós mesmos.

Acha que conseguiu mudar a arte do romance português?
Qualquer pessoa que escreve quer mudar a arte do romance. Há mil maneiras de o fazer. Tchekhov mudou a arte do teatro tal como O'Neill; mudaram-na de formas muito diferentes um do outro.

Depois de Lobo Antunes, há um estilo que acabará aí?
Já reparou na quantidade de pessoas que escrevem à António Lobo Antunes? Não é um fenómeno português, passa-se em França, Espanha, e é muito mau porque a pessoa para encontrar a sua voz tem de escrever contra os escritores de quem se gosta e matá-los dentro de nós. Cada experiência é única e irrepetível. Se formos fiéis a nós mesmos, ninguém pode dizer as coisas de uma forma tão clara e necessária. É o que se passa com qualquer escritor autêntico.

Quando diz «ninguém escreve como eu» tem a ver com a fidelidade a si próprio?
Mas ninguém escreve como outro bom escritor. Vamos à palavra génio. Stendhal utilizava-a para descrever a forma de uma senhora subir para uma carruagem: «Subia com génio»... A gente leva a vida a etiquetar tudo. nós portugueses não temos uma tradição romanesca, nunca a tivemos. Temos algumas ilhas isoladas.

Camilo, Eça, não?
Não sou grande fã do Camilo. Pode-se ser um grande prosador e não ser um grande romancista. Camilo era um novelista e bebeu muito nas fraldas de Filinto Elísio. E acho admirável a prosa de Eça de Queirós, a maneira como ele consegue substantivar adjectivos. Agora, tenho alguma dificuldade em dizer que é um grande romancista. Faz uma coisa muito difícil que é trabalhar com o advérbio de modo. E fá-lo maravilhosamente. Tem esses desplantes, coisas que seriam um erro num principiante. Por exemplo: «Eu possuo preciosamente um amigo», uma frase logo cheia de erros, mas só um grande escritor pode fazer isto.

Isso não existe na sua escrita?
É preciso ter uma atitude muito humilde em relação ao nosso trabalho.

Na fase inicial da sua careira literária não teve uma urgência de tudo?
Tinha quase 37 anos quando saiu o meu primeiro livro. Nunca tive vontade de publicar, tinha feito tantos romances antes, acho que as minhas filhas ainda têm um livro que demorei dez anos a escrever e nunca publiquei, não era aquilo. E ensinar as pessoas a não terem pressa e que é necessário trabalhar e retrabalhar às vezes é difícil porque há uma sede de reconhecimento. O sucesso é medido pelo número de exemplares vendidos, nem se dão conta...

De que estão na fogueira do mercado?
Mas se pensam na fogueira do mercado, para quê escrever? É preciso sacrificar muitas vezes a tentação, que é humana, não só de frases bonitas mas também de situações que vão prejudicar a eficácia do livro. Muitas vezes tem de deitar-se fora coisas que eventualmente poderão ser boas mas não servem o livro, prejudicam-lhe o galope.

A escrita é um modo de lidar com a "sobreposição de muitos lutos"?
Quando comecei a escrever ninguém me tinha morrido. Sou o filho mais velho, os meus avós tinham 40 anos, só conheci a morte a primeira vez que vi os cadáveres na Anatomia quando fui para a Faculdade de Medicina. Até aí a morte não existia.

Cada livro seu parece que deixa alguma coisa suspensa, embora esteja completo e exímio. Haverá sempre qualquer coisa não dita?
O livro é escrito por duas pessoas: por mim e pelo leitor. Acho que está lá tudo e espero que o leitor tenha essa mesma sensação. Na Feira do Livro ouvem-se coisas surpreendentes, pessoas que entenderam o livro da maneira como gostava de ser entendido. Pessoas que nos beijam quando se queria ser beijado.

Tende a isolar-se cada vez mais?
Só há grupos onde existem fraquezas individuais.

Essa não é uma atitude ostensiva?
A imprensa é que pode torná-la ostensiva, não eu. Há escritores que admiro muito e respeito, figuras de grande qualidade.  E se temos alguma coisa a respeitar é a nossa cultura, não seria mau que lhe dessem mais atenção.

Tem um público mais feminino?
Penso que não.

Houve tempo em que entendia menos bem as mulheres nos seus livros...
Não creio que trate as mulheres de forma diferente dos homens. Nasci de uma mulher. Tenho três filhas. Sempre achei que a mulher é a salvação do homem. Das coisas mais admiráveis que definem a vida foram feitas por mulheres.

Não encontramos uma descrição de uma relação sexual na sua obra...
Nunca o farei. Com a maneira de me exprimir julgo que posso dizer isso de outras maneiras.

O escritor deve ser uma voz da consciência?
O seu único compromisso é fazer livros. A importância do escritor é muito relativa. Terá, quando muito, de ser um contrapoder.

Em que medida pode o escritor ser contrapoder?
Relativamente ao livro, é o de abrir portas e janelas que muitas vezes os poderes instituídos gostariam que permanecessem fechadas. Por que é que as ditaduras perseguem os artistas? Porque percebem que é daí que pode vir o perigo para elas. Por que é que a revolução russa perseguiu os pintores abstractos? Teoricamente, um quadro abstracto não significa nada.

O abstracto é como os silêncios, pode dizer muito...
A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.

Primeiro romance em 1979, Memória de Elefante. Mais 15 e dois livros de crónicas. Vale a pena escrever?
Desde que me conheço, nunca me imaginei a fazer mais nada.

É um homem solidário?
Com pessoa preocupam-me os que sofrem. Como escritor, preocupa-me escrever. A palavra compaixão tem para mim um sentido muito forte, o de paixão partilhada. Da mesma maneira que companheiro quer dizer aquele que divide o pão connosco. Não me parece que o homem seja mau nem bom. Quem sou eu para julgar?

Diário de Notícias
18.11.2003



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Adenda à entrevista
Pode ler mais neste ficheiro em pdf, e ainda ouvir aqui excerto audio disponibilizado no site da entrevistadora, Casal das Letras

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...