08/09/2004

Quem lê é a classe média


Diário de Notícias - entrevista de Maria Augusta Silva
18 Novembro 2003


Quem lê é a classe média


Vinha a apostar comigo mesma: desta vez vou encontrá-lo sem as calças de ganga...
Ando com calças de ganga há tantos anos. Já não me vejo vestido de outra maneira. Acho que nem tenho nenhum casaco, nem gravata. Ando sempre assim, umas calças, umas camisolas.

Que prazeres lhe dá a vida?
Com a idade, os prazeres vão-se afilando. O da leitura, no entanto, continua intacto.

Novo romance: Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo tem como pano de fundo uma África em guerra civil. Gostaria de ter escrito este livro na Muxima?
Não quis voltar a Angola. Às vezes sinto-me dividido, apetece-me voltar, nunca vi um país tão bonito, tão sensível como Angola, a permanente exaltação dos sentidos.

África, uma vertigem?
De África só conheço a guerra (colonial), a mata, camponeses, aquartelamentos. A minha África não é a das cidades.

Não tendo voltado a Angola, como pôde abordar com tanto realismo ambientes da guerra civil? Dá a sensação de que alguém tirou "radiografias" e deu-lhas para as interpretar...
Não falo da guerra. O que me interessava mais era o comportamento de pessoas colocadas em situações extremas. Parti para o livro a querer escrever sobre seitas religiosas mas depois tomou essa inflexão inesperada Não estava à espera do tráfico de diamantes.

Como pode ser tão pobre um país tão rico?
Precisamente porque é muito rico e há muita cupidez. Não são os angolanos, ou serão alguns angolanos, mas o povo de Angola não é assim. Não se encontra fora das cidades ambições materiais. Quis-me parecer durante este tempo todo que são muito hedonistas, procuram um bem-estar com eles mesmos e com os outros.

Um povo mais próximo da espiritualidade e da natureza?
E os europeus não sabem da espiritualidade dos africanos. Queremos impor a África os padrões europeus. Por exemplo, a medicina deles, dizem que são feitiços, mas vi-os a curarem hepatites em dois dias.

Enquanto médico, como se sentia perante situações dessas?
Tentei perceber o que punham e nunca me quiseram explicar. E os partos eram feitos pelas mulheres velhas. Eu só resolvia o que elas não eram capazes.

O velho em África é uma figura respeitada...
Ao contrário daqui. Nenhum soba, nenhum chefe tomava uma decisão sem ouvir o conselho dos velhos. Havia uma tolerância e um respeito pela velhice que sempre me surpreendeu e não encontramos cá, tal como havia pela doença. Seguiam uma higiene maior que a nossa, mais perfeita até naquilo que comiam. E a gente não se dava conta e queríamos à força europeizá-los sem nenhum respeito por uma cultura milenária. As recolhas de poesia oral que faziam é extraordinária.

Estará a ser salvo esse património milenar?
Não sei até que ponto as elites africanas não estão europeizadas no pior sentido do termo. A tirania europeia não se faz agora através da Europa, faz-se através do filho espúrio da Europa que são os EUA. Quer-me parecer que, pelo menos a actual Administração, tem uma ideia de valores culturais, civilizacionais, sociais e afectivos que me parece errada, e vêem-se as consequências.

Nomeadamente quanto à questão do Iraque?
Sim, e já antes disso. Este imperialismo e este colonialismo continuam a existir, por vezes exercido por africanos. Mete muito dinheiro em jogo.

Como lida com os diferentes tempos de um romance?
O tempo é muito curioso. À medida que se envelhece o tempo é mais rápido. Ainda agora foi Natal e já vai ser natal outra vez. Quando se é novo pensa-se que o tempo vai resolver os problemas e depois a partir dos 40 percebe-se que o tempo é que é o problema. Sou muito consciente de que tenho muito pouco tempo, de que posso fazer mais dois ou três livros, e depois acabou. preciso, no mínimo, de dois anos para escrever um livro.

O tempo nunca lhe resolveu nenhum problema?
O problema é o de tempo para escrever mais livros. Se tiver de morrer cedo, ao menos que pudesse acabar o livro [indica novo livro que está a rever] para isto não ficar inacabado e venham a publicá-lo sem estar pronto. As editoras já de si não são muito boas, o respeito pelos autores não será talvez a coisa mais importante, temos de lutar pela dignificação do nosso trabalho.

Não receia que o romance agora publicado possa causar algum desagrado nas sociedades africana e portuguesa, inclusive no meio militar?
Tenho um grande respeito pelos militares. Foi de um militar, o meu avô, que até hoje recebi o maior amor e carinho da parte de um homem. Seria incapaz de tratar depreciativamente quem sempre me tratou bem desde que nasci. Os três anos e tal que estive no exército não tive razão de queixa. Portaram-se todos comigo com uma lisura como nenhuma outra classe profissional se comportou. Apenas escrevi o livro. A forma como será recebido já não me diz respeito.

E no povo africano não poderá haver alguns melindres?
O povo africano anda preocupado em sobreviver que provavelmente não irá ler livro nenhum. Fiz o que tinha de fazer, não estava na minha cabeça magoar ou apoucar fosse quem fosse. Nem tenho nenhum motivo para atacar ninguém, não tenho tempo para odiar. É apenas a literatura que me interessa.

Não tem traumas de guerra?
Tenho com certeza mas não me são conscientes. Uma vez, na Alemanha, um jornalista dinamarquês perguntou qual é a sensação de matar. Nessa noite tive pesadelos horrorosos. Foi a única vez que me aconteceu. Revivi isso mais com a doença do Ernesto Melo Antunes; nunca falávamos da guerra mas quando estava já muito doente ele falava. Foi o homem mais corajoso que vi debaixo de fogo, andava de abrigo em abrigo com uma lanterna, era um alvo. Dizia-me: «Sabes, é que às vezes apetecia-me morrer.» isto não é partilhável. Nunca poderia escrever um romance sobre a guerra, no fundo está em todos os livros porque a guerra existe sempre dentro de mim. Como é que uma pessoa que não escreve consegue suportar o absurdo da vida?

Na guerra mata-se...
Não vamos falar sobre isso. Essas coisas só podem ser compreendidas por quem passou por elas. E o que me espanta é a ausência de culpabilidade mesmo a posteriori.

Tem três livros neste romance que vai ser lançado amanhã, embora seja um mesmo livro...
Foi um jogo comigo mesmo para me tornar a tarefa mais difícil.

Procurou com esta obra dessacralizar as ideologias?
Não tenho pensamentos abstractos quando estou a escrever. Estou tão preocupado a fazer o livro que nem sequer me pergunto o que é que isto quer dizer, nem sequer me pergunto o que estou a escrever. Às vezes nem sequer sabemos se estamos a acertar no papel. Só quando se começa a trabalhar é que se vê se acertamos ou não.

Dedica este livro a Júlio Pomar. No entanto, não será um livro que pertence também um pouco a Melo Antunes?
Não. Há um livro que lhe é dedicado (O Manual dos inquisidores), felizmente antes de ele morrer. A morte de um amigo é uma ferida que não cicatriza nunca. Cada pessoa tem um lugar insubstituível. Uma vez disse ao Zé Cardoso [Pires] que a viuvez da amizade é uma coisa... Ainda hoje tenho muitas saudades do Zé, era uma amizade diária, um homem difícil, duro. Das poucas vezes que retirou o que disse foi como quem arranca a espada da barriga de um adversário. Mas em tantos anos de amizade nunca houve um amuo e tivemos coisas profundamente diferentes. Se tivermos dois ou três amigos estamos cheios de sorte.

Não gosta de falar de amor, eu sei. E a dor tem palavras?
Sempre me ensinaram que o pudor em face das coisas realmente graves da vida como a morte ou a doença que conduz à morte. Coisas que a gente guarda só para nós e que obviamente aparecem nos livros. Os livros estão a rebentar de ternura por todos os lados mas não são muito demonstrativos.

Há quem julgue que não há ternura em si...
Às vezes é difícil dizer que uma pessoa tem um coração em cada objecto.

Tem acompanhado a criatividade literária africana?
O Pepetela é um homem de que gosto, sou amigo dele. Um homem  de grande dignidade e coragem, de uma grande qualidade humana. E não tenho dúvidas em dizer que é um escritor sério, qualidades raras. Como me parece que o Mário Cláudio é um escritor muito sério e que a Mafalda Ivo Cruz tem um talento inegável; como me parece que o José Eduardo Agualusa tem talento, já lhe disse isso várias vezes, mas acho que é um preguiçoso. E haverá mais alguns nomes.

As literaturas africanas são visíveis em Portugal?
E a literatura portuguesa é visível? O nível médio daquilo que se publica, seja onde for, é muito baixo. Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram aquelas coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo.

Um livro pode ajudar a repensar o mundo?
Tenho uma certa desconfiança em relação à palavra pensar. Quando se está a escrever, pode-se pensar enquanto indivíduo, mas enquanto escritor... Sempre me fez confusão as pessoas que dizem: tenho um livro na cabeça só me falta escrever.

Isso não lhe acontece quando parte para as suas folhas?
Parto sem nada.

Cada livro nasce do nada?
Nasce de coisas vagas, muitas vezes nem sequer estão cristalizadas. Nos primeiros livros fazia planos muito detalhados. Agora, não. Comecei a entender que o livro é um organismo que vive independente e surpreende-nos a cada passo. Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras. São as palavras que se geram umas às outras. E com trabalho.

Se fosse crítico literário só criticaria os livros bons?
Seria incapaz de dizer mal de um livro, mesmo que o livro fosse desonesto, mesmo que o livro fosse mau, não falaria sobre ele. Portanto, se fosse crítico literário era uma maçada porque quase não tinha sobre que escrever.

Qual a missão da crítica?
Idealmente, a missão da crítica seria ajudar a ler. Em teoria, o crítico será um leitor mais atento do que os outros. Não tem necessariamente que emitir juízos de valor. Temos tendência a gostar só dos que são da nossa família, as ideias confundem-se com as nossas paixões. Em Portugal não sei como se passa a crítica.

Como se mantém extremamente actualizado em tudo?
Vejo o teletexto. Não sei se estou actualizado. Há jornalistas que admiro. Acaba por ser como nas outras profissões, há um pequeno número de grandes profissionais, a maior parte não o será. Mas não me parece que o nosso jornalismo seja inferior ao da maioria dos jornais estrangeiros. O que me custa é ver os nossos jornalistas tão mal pagos. Como ter o direito de exigir qualidade se se paga miseravelmente ou se paga pouco. E também os médicos são mal pagos, todos são mal pagos. Nós, portugueses, somos admiráveis, vivemos do vento.

Um fenómeno curioso mesmo em termos de compra de livros?
E sendo os livros tão caros para o poder de compra dos portugueses... Comprar um livro para muitas pessoas faz uma grande diferença. E quem lê não são as classes possidentes com muito dinheiro. Quem lê são as classes média e média-baixa, as que não têm dinheiro. Um fenómeno espantoso porque acho que se compram muitos livros em Portugal. Há mais leitores de poesia em Portugal do que em França.

Em tempo de crise, os sectores dos livros e jornais ressentem-se logo?
Obviamente. Porque não são os consumidores das revistas cor de rosa que lêem livros. Quem lê são os funcionários públicos, algumas profissões liberais, pessoas empregadas. E para lá do dinheiro que lhes custa o livro estão a tirar tempo muitas vezes ao sono e à família para lerem. Por isso acho que os portugueses mereciam melhores escritores. Chega-se a uma livraria e fica-se chocado até com os títulos. Também se deve passar em todo o mundo.

Quando sairá mais um novo livro?
Provavelmente vou deixá-lo sair primeiro noutros países.

Outra vez zangado com Portugal?
Houve um que saiu primeiro em França, outro que saiu primeiro na Alemanha para homenagear os editores ou  pessoas a quem estou reconhecido e que tanto lutaram pelos meus livros. Isto não tem nada que ver com animosidade contra o meu país, pelo contrário.

Algo a ver com a sua editora no nosso país?
Uma relação com uma editora normalmente tem altos e baixos. Digamos que neste momento não estou num alto. Esta é uma época muito complicada porque as editoras atiram cá para fora o máximo de livros que puderem, é uma época em que se vende. Só que há desatenções que já não tolero ou tenho dificuldade em engolir. Não quero que me respeitem a mim, quero que respeitem a honestidade do meu trabalho. E ao mesmo tempo sou extremamente fiel, cria-se uma relação de amizade que para mim é muito importante.

«Ninguém gosta que lhe destruam os sonhos»

Acaba de ganhar outro relevante prémio, o da união Latina. O júri fundamenta: «Lobo Antunes é a voz mais expressiva da realidade profunda de Portugal.» Que sente?
Não me interessa ser a voz mais expressiva de Portugal. É preciso dessacralizar os prémios. É evidente que são agradáveis. os prémios, porém, não têm nada a ver com literatura no sentido em que não tornam os livros nem melhores nem piores.

Pretende fundamentalmente levar para os seus livros a condição humana no que tem de sórdido e de belo?
Só pretendo escrever. Por um lado, é evidente que não sou parvo, sei muito bem o que estou a tentar fazer, ou por outra, sei uma parte do que estou a tentar fazer, há outra parte que me escapa. Tem que ver com uma necessidade visceral de expressão. Aqui há uns tempos dizia para um dos meus irmãos que não me importava de estar preso se tivesse papel, uma caneta, livros para ler.

Não é muito melhor escrever em liberdade?
O próprio do homem é viver livre numa prisão. Estamos sempre condicionados e até prisioneiros de nós próprios. Na Roménia, onde fui receber outro prémio, era comovente ouvir as pessoas dizerem: «Agora somos livres». Num jantar com o primeiro-ministro, ele dizia-me: «Sabe, nós ainda somos pobres porque havia que escolher entre o desenvolvimento económico e a liberdade e o povo preferiu a liberdade.»

Desenvolvimento e liberdade são incompatíveis?
Na altura eram, porque se houvesse restrições à liberdade, ao direito à greve, poderia haver determinado tipo de desenvolvimento pela direita. Estou a falar da Roménia.

E em Portugal?
Não queria falar nisso. É evidente que o meu coração não está com este governo, mas o meu drama é que o meu coração também não está com nenhum dos partidos da oposição. Não me interessa este Partido Socialista, acho trágico este Partido Comunista. O drama para as pessoas verdadeiramente de esquerda é que são apátridas, a gente vai votar em quem?

Alguns dos seus desencantos têm a ver com uma sensação de vazio?
Sinto-me bem assim. Mas existe em mim uma grande desilusão porque ninguém gosta que lhe destruam os sonhos. Digamos que sou um órfão da esquerda. Também sou muito indisciplinado. Teria dificuldade com qualquer disciplina partidária. O problema dos partidos é que se tornam reaccionários porque têm de funcionar com o aparelho, como qualquer igreja.

É um homem sem política e sem religião?
Sou um homem religioso. Cada vez mais. Os grandes físicos do século XX eram homens profundamente crentes; chegaram a Deus através da física, da matemática.

A escrita não é uma ciência exacta...
Essa é outra coisa divertida. Falando do Prémio Nobel, que serve para exemplo: ninguém discute o Prémio Nobel da Física ou da Química, mas toda a gente acha que sabe quem deve ganhar o da Paz e o da Literatura. E a literatura tem muito que se lhe diga. Não se pode ensinar ninguém a ter talento mas há coisas que se podem ensinar. Estamos longe da idade de ouro do livro, em que havia trinta génios a escrever ao mesmo tempo, no século XIX. Não se repetiu.

O estilo literário ajuda a criar a universidade do escritor?
Não sei. Tudo tem sido para mim uma surpresa total.

É um pouco autodestrutivo?
Meu Deus, porque se tem de corrigir tanto? Há muita coisa que fica destruída do nosso trabalho, às vezes meses inteiros de trabalho são destruídos.

Destrói e deita fora ou tem muita coisa guardada?
Dantes deitava tudo fora, todas as versões. Agora, não.

As suas obras passaram a ter edição ne varietur. Não costuma reler os seus livros. Foram encontrados muitos lapsos, muitas gralhas?
É uma grande ironia porque se escrevem livros que se gostaria de ler e depois não os lemos. Estamos tão metidos neles que não se tem distância.

Nunca revisitou nenhum livro seu?
Não. Eu que tenho uma memória tão boa...

Memória de elefante...
Eu que sei de cor bocados de livros não sei uma única frase de cor de um livro que tenha escrito. Acaba-se um livro e temos de esquecer esse para fazer outro.

No livro que publicou agora, entre outras, tem uma frase insistente: «o mar à nossa esquerda». Esse mar, na Muxima, terá a simbologia de que escreve também com o coração?
Não pensei nisso. Escreve-se com a mão. Maiakovski disse: «comigo a anatomia enlouqueceu, sou todo coração.»; são liberdades a que os poetas se podem dar quando são grandes. Podem fazer-se alguns desplantes toureiros quando se escreve um romance mas pode-se pagar caro e lavar uma cornada.

Estamos numa época em que começa a apetecer revisitar os grandes clássicos?
O que é um clássico? Calvino dizia que clássico é aquele que a gente nunca diz que está a ler, dizemos que estamos a reler. Todas as semanas compro livros e as coisas mais variadas.

Considera que o livro ideal será a grande utopia de um escritor?
É aquele que a gente lê e tem a certeza que foi escrito só para nós e que os outros exemplares dizem coisas diferentes; com o qual temos uma relação pessoal, íntima. São objectos que nos pertencem, de que nos apropriamos intelectualmente, afectivamente e nos revelam a nós mesmos.

Acha que conseguiu mudar a arte do romance português?
Qualquer pessoa que escreve quer mudar a arte do romance. Há mil maneiras de o fazer. Tchekhov mudou a arte do teatro tal como O'Neill; mudaram-na de formas muito diferentes um do outro.

Depois de Lobo Antunes, há um estilo que acabará aí?
Já reparou na quantidade de pessoas que escrevem à António Lobo Antunes? Não é um fenómeno português, passa-se em França, Espanha, e é muito mau porque a pessoa para encontrar a sua voz tem de escrever contra os escritores de quem se gosta e matá-los dentro de nós. Cada experiência é única e irrepetível. Se formos fiéis a nós mesmos, ninguém pode dizer as coisas de uma forma tão clara e necessária. É o que se passa com qualquer escritor autêntico.

Quando diz «ninguém escreve como eu» tem a ver com a fidelidade a si próprio?
Mas ninguém escreve como outro bom escritor. Vamos à palavra génio. Stendhal utilizava-a para descrever a forma de uma senhora subir para uma carruagem: «Subia com génio»... A gente leva a vida a etiquetar tudo. nós portugueses não temos uma tradição romanesca, nunca a tivemos. Temos algumas ilhas isoladas.

Camilo, Eça, não?
Não sou grande fã do Camilo. Pode-se ser um grande prosador e não ser um grande romancista. Camilo era um novelista e bebeu muito nas fraldas de Filinto Elísio. E acho admirável a prosa de Eça de Queirós, a maneira como ele consegue substantivar adjectivos. Agora, tenho alguma dificuldade em dizer que é um grande romancista. Faz uma coisa muito difícil que é trabalhar com o advérbio de modo. E fá-lo maravilhosamente. Tem esses desplantes, coisas que seriam um erro num principiante. Por exemplo: «Eu possuo preciosamente um amigo», uma frase logo cheia de erros, mas só um grande escritor pode fazer isto.

Isso não existe na sua escrita?
É preciso ter uma atitude muito humilde em relação ao nosso trabalho.

Na fase inicial da sua careira literária não teve uma urgência de tudo?
Tinha quase 37 anos quando saiu o meu primeiro livro. Nunca tive vontade de publicar, tinha feito tantos romances antes, acho que as minhas filhas ainda têm um livro que demorei dez anos a escrever e nunca publiquei, não era aquilo. E ensinar as pessoas a não terem pressa e que é necessário trabalhar e retrabalhar às vezes é difícil porque há uma sede de reconhecimento. O sucesso é medido pelo número de exemplares vendidos, nem se dão conta...

De que estão na fogueira do mercado?
Mas se pensam na fogueira do mercado, para quê escrever? É preciso sacrificar muitas vezes a tentação, que é humana, não só de frases bonitas mas também de situações que vão prejudicar a eficácia do livro. Muitas vezes tem de deitar-se fora coisas que eventualmente poderão ser boas mas não servem o livro, prejudicam-lhe o galope.

A escrita é um modo de lidar com a "sobreposição de muitos lutos"?
Quando comecei a escrever ninguém me tinha morrido. Sou o filho mais velho, os meus avós tinham 40 anos, só conheci a morte a primeira vez que vi os cadáveres na Anatomia quando fui para a Faculdade de Medicina. Até aí a morte não existia.

Cada livro seu parece que deixa alguma coisa suspensa, embora esteja completo e exímio. Haverá sempre qualquer coisa não dita?
O livro é escrito por duas pessoas: por mim e pelo leitor. Acho que está lá tudo e espero que o leitor tenha essa mesma sensação. Na Feira do Livro ouvem-se coisas surpreendentes, pessoas que entenderam o livro da maneira como gostava de ser entendido. Pessoas que nos beijam quando se queria ser beijado.

Tende a isolar-se cada vez mais?
Só há grupos onde existem fraquezas individuais.

Essa não é uma atitude ostensiva?
A imprensa é que pode torná-la ostensiva, não eu. Há escritores que admiro muito e respeito, figuras de grande qualidade.  E se temos alguma coisa a respeitar é a nossa cultura, não seria mau que lhe dessem mais atenção.

Tem um público mais feminino?
Penso que não.

Houve tempo em que entendia menos bem as mulheres nos seus livros...
Não creio que trate as mulheres de forma diferente dos homens. Nasci de uma mulher. Tenho três filhas. Sempre achei que a mulher é a salvação do homem. Das coisas mais admiráveis que definem a vida foram feitas por mulheres.

Não encontramos uma descrição de uma relação sexual na sua obra...
Nunca o farei. Com a maneira de me exprimir julgo que posso dizer isso de outras maneiras.

O escritor deve ser uma voz da consciência?
O seu único compromisso é fazer livros. A importância do escritor é muito relativa. Terá, quando muito, de ser um contrapoder.

Em que medida pode o escritor ser contrapoder?
Relativamente ao livro, é o de abrir portas e janelas que muitas vezes os poderes instituídos gostariam que permanecessem fechadas. Por que é que as ditaduras perseguem os artistas? Porque percebem que é daí que pode vir o perigo para elas. Por que é que a revolução russa perseguiu os pintores abstractos? Teoricamente, um quadro abstracto não significa nada.

O abstracto é como os silêncios, pode dizer muito...
A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.

Primeiro romance em 1979, Memória de Elefante. Mais 15 e dois livros de crónicas. Vale a pena escrever?
Desde que me conheço, nunca me imaginei a fazer mais nada.

É um homem solidário?
Com pessoa preocupam-me os que sofrem. Como escritor, preocupa-me escrever. A palavra compaixão tem para mim um sentido muito forte, o de paixão partilhada. Da mesma maneira que companheiro quer dizer aquele que divide o pão connosco. Não me parece que o homem seja mau nem bom. Quem sou eu para julgar?

Diário de Notícias
18.11.2003



***
Adenda à entrevista
Pode ler mais neste ficheiro em pdf, e ainda ouvir aqui excerto audio disponibilizado no site da entrevistadora, Casal das Letras

07/09/2004

"O Romance É Diferente Depois de Mim"


Público - entrevista de Alexandra Lucas Coelho
15 Novembro 2003


"O Romance É Diferente Depois de Mim"


É uma porta de garagem, numa rua do centro de Lisboa daquelas que nunca sabemos se é a segunda ou a terceira paralela da outra (ou será perpendicular?).

António Lobo Antunes vem abrir. Lá dento é um atelier muito comprido. Logo à esquerda de quem entra há uma pequena mesa onde ele escreve - de tarde, porque à noite e de manhã escreve noutros sítios (este é emprestado). Nessa manhã estivera a escrever no Hospital Miguel Bombarda, onde continua a ir duas vezes por semana.

"Começo a escrever pelas oito e meia até ao meio-dia. Recomeço ao meio-dia e meia até às sete e meia. Depois recomeço às nove até à meia-noite." Umas 16 horas, incluindo meio almoço e jantar.

É assim que neste momento Lobo Antunes consegue ter um novo romance nas livrarias, "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo", que para ele já não é novo, porque o novo está aqui, em cima da mesa, em manuscrito, a ser corrigido. Falta-lhe ainda um título (o último que esteve para ser vinha de um poema de Bukowski).

Como o está a corrigir - capítulos passados a limpo, em letras gordas, com uma pauta por trás da folha, para as linhas ficarem direitas, e muito marcador negro -, é para este livro que lhe fogem os exemplos, volta e meia. Saiu-lhe da mãos e agora anda com ele na cabeça.

De "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo", "romance em três livros com prólogo & epílogo", já se desfez. O pano de fundo é uma Angola com diamantes a circular entre o governo português, o angolano, os que combatem o angolano, russos, cubanos, americanos, holandeses, judeus, quando não diamantes, petróleo, armas. Ao centro, as vozes que falam, dez vozes principais (oito homens, uma mulher, uma criança), vão e vêm quase todas como um carrossel, entre dezenas de outras (incluindo a do autor, António).

Encontrar as palavras para essas vozes - como estilhaços de um espelho em que tanto se veja aquele que escreve como aquele que lê - é a verdadeira luta, diz ele. E menos do que isso será contar histórias.


Há três anos disse que gostava muito de voltar a Angola, que gostava de morrer lá, mas que não ia voltar enquanto houvesse guerra. Entretanto a guerra acabou. Vai voltar a Angola?
Não sei... não sei. Sinto vontade, mas tenho medo. No sentido em que as cidades de que gostava ficaram destruídas. Tenho medo de encontrar uma Angola muito diferente daquela que conheci. Tenho medo de que esteja ainda mais pobre... Não me apetece ver aquele país mais destruído ainda. Aquelas pessoas sofrem há muitos anos... Ao mesmo tempo, isto passa-se num país onde as pessoas são naturalmente alegres. Parece-me uma injustiça horrível esse sofrimento. Eles são pobres, o país é muito rico - é riquíssimo...

O que aconteceu não o encoraja a voltar?
Refere-se a quê?

À paz. Ou acha que não se pode falar de paz, ainda?
Não sei se há, estou muito longe. É possível que haja paz, mas há também muito ressentimento. Só vendo, lá.

Acompanhou  morte de Savimbi, o que se passou a seguir...
Acompanhei mal, nem estava cá. Essa Angola [aponta para o livro] é toda inventada.

Em 2000 disse que se pudesse escolher uma nacionalidade escolhia ser angolano. A dúvida "vou, não vou a Angola" existe na sua cabeça?
Tenho vontade, mas não sei se posso ir a Malanje, se posso ir às Terras do Fim do Mundo, se posso ir à Baixa do Cassanje...

O que o impede de experimentar?
Actualmente, o trabalho. Cada vez a noção do tempo é mais viva.

"Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo" ainda não é aquele livro que sempre disse que queria escrever sobre a guerra [colonial] em Angola.
Não, obviamente não é... Penso que não vou fazê-lo. O que poderá ficar da guerra, muito mais vivo do que isso, são as cartas que diariamente escrevia de lá. É muito comovente... cartas escritas por um miúdo que queria ser escritor, cheio de dúvidas...

Cartas a quem?
À Zé, com quem estava casado. É um documento impressionante, porque é a guerra vivida dia-a-dia. Acho que a publicação daquilo, um dia, me dispensa de escrever sobre... está ali tudo o que eu podia escrever. E está tudo muito fresco.

Cartas ao longo de dois anos [1971-1973, o tempo que Lobo Antunes passou na guerra em Angola]?
Ao longo do primeiro ano, apenas na altura das Terras do Fim do Mundo, todo o ano de 71 e provavelmente início de 72. São cartas sem qualquer pretensão literária, às vezes têm bocados de romances, projectos de poemas, coisas assim... cartas ao filho que pensava que ia ter e afinal era uma rapariga...
Vivia-se permanentemente com a sensação... a gente escolhia os caixões...

Escolhia os caixões...?
Era. Havia uma arrecadação onde estavam os caixões, este é o meu, o teu... aquelas coisas macabras dos miúdos. Agora apercebo-me de que isto era feito por miúdos, os soldados tinham 21 anos, os oficiais tinham 24, 25... Julgo que está ali tudo aquilo que eu podia fazer num romance, com uma espontaneidade, uma ingenuidade que descreve bem os estados de espírito de um oficial novinho que de repente se vê metido naquele - como dizia o Melo Antunes - erro formidável.
E deixava-me livre para escrever outras coisas, a publicação das cartas - sem qualquer crítica, sem qualquer omissão.

Desistiu do romance sobre a guerra em Angola quando decidiu escrever "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo"?
Quando o comecei, o livro não era nada disso [Angola em fundo]. O pretexto para o escrever eram as seitas religiosas - de que ainda há restos, aliás. Era bastante inspirado em factos reais. a seita do livro teria sido começada por um português em África, aparecia-lhe Nossa Senhora e depois ele tinha vindo para Portugal e continuado. A primeira ideia era essa. Ao primeiro ou segundo capítulo o livro foi alterando e percebi que não era aquilo que o livro queria...
Eu dantes partia para o livros com planos muito detalhados, agora parto praticamente sem nada, este comecei a escrevê-lo sem nada.

O que é que lhe apareceu a seguir?
Começaram a aparecer os diamantes, as pessoas... Cada vez mais me parece que um livro é um organismo vivo, faz o que quer. E temos que ir atrás do livro, fazer aquilo que o livro exige. É m organismo independente.
Como é que hei-de explicar o processo?... escrevo estas horas todas porque as duas primeiras horas normalmente são perdidas. Aquilo que tento encontrar dentro de mim é um estado semelhante ao dos sonhos, mas para isso tenho de estar fatigado. Sempre que não estou cansado a minha auto-censura obriga-me a escrever prosa de escriturário, sujeito, predicado, complemento... À terceira ou quarta hora aquilo começa a ficar livre e a mão anda sozinha.
Agora, por exemplo, estou a corrigir [o manuscrito do novo romance] e tenho que estar muito desperto, porque as primeiras versões estão cheias de asneiras. Mas sempre me foi claro que a primeira versão continha tudo, que era uma questão de trabalhar.

Há pelo menos dez vozes principais neste romance - e muitas mais que aparecem, irrompem, incluindo a sua própria, com nome, António. Foram-lhe aparecendo à medida que o livro se ia escrevendo?
Exactamente. Como com este livro [pega no manuscrito]. Nem sequer tem plano... Está a ver? [Lê anotações] "A 10 de Janeiro desfiz novamente os capítulos..."

Como é que evita perder-se neste carrossel de vozes sem um esquema, um mapa?
Hum... Ele faz-se sozinho. Cada vez mais.

Há pouco estava a dizer que esta é uma Angola inventada...
Como Portugal é inventado.

... esteve em Angola entre 71 e 73 e nunca voltou. No livro muitos detalhes, histórias, cheiros, objectos virão dessa memória. Outros vêm de gente que encontrou entretanto? Para inventar esta Angola precisou de trabalhar outras memórias que não apenas as suas?
Nada, nada. Não falei com ninguém. Não há qualquer trabalho de documentação.

De onde é que lhe apareceram aquele Serviço [negócio de diamantes disfarçado] na Praça de Touros, em Lisboa, aqueles homens que vão para Angola, o Seabra, o Miguéis, o Morais...?
Há um livro curioso, feito por um francês, de entrevistas com escritores, muitos americanos, também franceses. Então o John dos Passos é: como é que escreveu o "USA"? De onde é que lhe vêm as coisas? E o John dos Passos: "Bom, uma pessoa vai pela rua..." E não disse mais nada. Por exemplo, a entrevista com o Hemingway é extremamente decepcionante. Percebe-se que ele está a tentar fazer um esforço honesto para explicar e que não é capaz de dizer mais do que aquilo. A impressão que dá é que toda  sua organização mental foi trabalhada no sentido de escrever.
Dá-me sempre a sensação - não sei se já disse isto - de estar a escrever contra a parede, e o papel está do outro lado, nem sequer sei se estou a acertar. O que me espanta, quando corrijo, é as coisas fazerem sentido, porque nunca me documentei, tive sempre muito medo de ficar submerso nessa documentação.
Quando estava a escrever este livro [o que ainda está em manuscrito] aconteceu-me uma coisa que nunca me tinha acontecido. Estava a escrever e dei-me conta de que estava a chorar... eu que sou uma pessoa que não choro... a escrever e a chorar... com as lágrimas a correrem-me pela cara abaixo. E não era tristeza, era uma tal felicidade como nunca tive outro momento assim, muito mais feliz, muito mais completo que um orgasmo, do que qualquer outra coisa. Uma felicidade inimaginável - infelizmente durou só um dia... Porque era exactamente aquilo. Há momentos em que se está a escrever e se percebe: é isto. a sensação de que a palavra é certa dá imenso prazer. Quando as pessoas dizem: o livro é triste, o livro é não sei o quê... A mim, o que me dá prazer enquanto leitor é a felicidade da expressão. É difícil de explicar, porque são coisas anteriores às palavras, e cada vez mais, felizmente os livros vêem dessa zona, a que não temos acesso. A estrutura dos livros... depois vejo que é muito elaborada, mas não é conscientemente elaborada...

No caso de "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", três livros com dez capítulos cada...
A partir de certa altura pensei, bom, vou fazer isto em três livros, com prólogo e epílogo. E não fazia a menor ideia do que ia ser o epílogo.

O que está a dizer é que o pano de fundo - Angola, os diamantes, aquele pós-independência - podia ser isto e podia ser outra coisa.
Exactamente. [O que me importa é] como vertebrar emoções, como rodear emoções com as palavras, e depois articular isso tudo num todo. [Angola] é apenas um pano de fundo.
Quando lemos um bom escritor é para nos conhecermos a nós mesmos. E a primeira pessoa a surpreender-se é a pessoa que está a escrever. São coisas que a gente não sabe que sabe.

Num caderno agora feito pela Dom Quixote, a propósito dos 20 anos de António Lobo Antunes nesta editora, vem a reprodução de uma crónica sua em que diz: "o livro ideal seria aquele em que todas as páginas fossem espelhos: reflectem-me a mim e ao leitor, até nenhum de nós saber qual dos dois somos"...
Estou mais reconciliado com as crónicas. Desprezava-as muito e agora, ultimamente, têm-me servido como uma espécie de coisa paralela aos romances. Quase um diário, paralelo.

No primeiro livro de "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo" há um momento em que aparece a voz, de nome António, a dizer: "É difícil este romance", "esta narrativa que mais do que as outras se tornou uma doença"...
E depois há uma ou duas alusões... lembro-me de uma: "Está bem, põe lá os pavões, deste-te bem com os pavões noutro livro..."
O mais difícil para mim é sempre a primeira parte dos livros. Depois aquilo anda sozinho. Mas no princípio tenho que andar a empurrar.

No momento em que se põe a si próprio no livro, como António, o que é que se passa? O livro está preso?
Acontece em vários livros... No "Que Farei Quando tudo Arde?" [2001] há uma personagem que se chama Antunes Lima... Lima é um dos apelidos da minha mãe... "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" [2000] é a minha história. Não tem nada a ver comigo, não sei explicar isto bem, mas aquela rapariga sou tão eu... foi uma relação muito boa com ela. Já com o rapaz de "Que Farei Quando Tudo Arde?", a gente não se entendia. Este ["Boa Tarde..."]... este correu bem.

Quando aparece a dizer "este romance está difícil", isso corresponde a um momento em que não tem a certeza de para onde é que aquilo vai?
Nunca sei muito bem para onde é que aquilo vai.

É que no resto do livro [a interpelação do autor] não volta a acontecer.
Não sei... acabei a primeira parte e parte e pensei: e agora? Depois lá apareceu o outro homem [o narrador do segundo livro, Miguéis].

Na primeira parte já sabemos que ele vai aparecer. Ele já é nomeado.
Mas como é que ele era? E o que é que ele vai fazer? Como é que ele se vai comportar? Portanto, quando ele aparece a dizer aquelas coisas sobre as mulheres [exemplo: "não me canso de repetir aos mais novos se não educam as vossas esposas desde o princípio estamos mal: tomam o freio nos dentes que é a natureza delas"] fiquei um bocado aborrecido... Mas depois... Esse homem da segunda parte, gostei dele.
Este livro tem uma relação feliz com as palavras. Eu estava muito contente quando estava a escrevê-lo, tinha a certeza absoluta...
Ao princípio fui tão atacado aqui... e curiosamente isso nunca me afectou. Estava tão seguro do que queria, tão seguro, tão seguro, tão seguro... e ainda estou. Daí eu não ler as críticas.

Tão seguro em relação a este livro?
Em relação a todos os livros que escrevi. Estava sempre tão seguro. E levei porrada, houve jornais..

Em relação aos seus últimos romances...
Ui! Quer que lhe lembre?

... não me recordo de críticas negativas.
Em relação a todos eles, desde o princípio ao fim. E era-me completamente indiferente. Estava tão seguro, tão seguro...

Continua a ter a sensação de que aqui não entendem os seus livros?
Acho que não me posso queixar porque as pessoas são tão entusiastas em toda a parte... Estão a chegar as críticas da Alemanha, são inacreditáveis. Nos Estados Unidos, em Espanha, em toda a parte. Agora, o que me parece é que ainda é cedo. Porque os livros também me escapam a mim.

Ainda é cedo para quê?
Para se perceber o que eu trouxe ao romance, por exemplo. Uma vez perguntaram ao Somerset Maugham em que lugar é que ele se colocava enquanto escritor. E ele respondeu: na primeira fila dos escritores de segunda ordem. Tal como o entendo, são pessoas que escrevem bons romances mas que não trazem nada de novo à arte de romance. Como o [Saul] Bellow, por exemplo, que acho um excelente romancista mas não tem nada de novo, não mudou. Ou o [Philip] Roth... todos os discípulos do Bellow, o Roth, o Martin Amis, toda essa gente anglo-saxónica... escrevem histórias bem contadas, mas para mim um romance não é isso. Quer a gente queira quer não, e eu não sou o grande fã, o García Márquez trouxe coisas novas.

E foi imediatamente recebido. Foi compreendido.
Esse foi. Porque aquilo é tudo muito aparente. Aquilo está tudo à vista. Por exemplo, repare, todos os mal-entendidos que houve com o [Joseph] Conrad, mesmo depois da morte...

O que é que o António Lobo Antunes pressente que trouxe ao romance?
Sem ser hipócrita? E sem falsas vaidades? Acho que o romance é diferente depois de mim, necessariamente. [Pausa. Aponta para o manuscrito.] Isto não se parece com nada. Sobretudo os últimos livros. Se voltasse atrás teria começado pelo "Tratado [das Paixões da Alma", 1990]. Embora me pareça que o "Fado Alexandrino" [1983], se é que os romances vão ficar, é um romance que tem boas chances de ficar, mas não pelos motivos que me interessam - porque é um retrato de Portugal. Interessa-me muito mais o trabalho criativo [verifica a lista dos seus livros]. Sobretudo a partir do "Esplendor [de Portugal", 1997], a "Exortação [aos Crocodilos", 1999], "Não Entres...", "Que Farei..." é onde me parece que isso é evidente.
Embora muitas das coisas que faço agora estejam em botão no "Conhecimento do Inferno", que foi um livro mal entendido na altura. "Memória de Elefante" [1979] é um livro de principiante..., "Os Cus de Judas" [1979] é um livro primário... espanta-me muito que esses livros continuem a vender...

Voltando à crónica em que fala dos livros como espelhos de si e do leitor: "Tento que cada um seja ambos e regressemos desses espelhos como quem regressa da caverna do que era. É a única salvação que conheço e, ainda que conhecesse outras, a única que me interessa." Noutra passagem diz: apanhem o meu romance como quem apanha uma doença. Ou seja, põe o leitor dentro do próprio organismo que é o romance.
E ao mesmo tempo diz que ainda é cedo para o leitor se ver a si próprio no romance...
É porque eu desejava que estes livros fossem retroactivos. À segunda ou terceira vez o livro fica diferente. O que desejaria era que os livros tivessem uma capacidade de ir mudando, embora as palavras se mantenham sempre. Acho que a grande literatura é assim. Por exemplo, sei lá, li mais de 20 vezes "A Morte de Ivan Ilitch" [de Tolstoi], e de cada vez era um livro diferente.

Há alguém em quem confie para lhe dizer, por exemplo: "Estás a repetir-te"?, ou "Muda isto"?
O meu leitor privilegiado é o agente [americano] Tom Colchie.

Ele lê em português?
Sim. Tem uma especialização em cancioneiros medievais portugueses. Fico inquieto até ele ler, porque é muito cruel. Há muitos anos, um escritor muito respeitado queria ser representado por ele Resposta: não vou agenciá-lo porque você é mau escritor. Fiquei gelado. Nós não dizemos isto em Portugal. Quando uma editora rejeita um livro não diz que não gosta do manuscrito, diz que a programação está cheia.

Que eco tem recebido dos seus leitores?
Acho que as pessoas têm sido generosas. Fui uma vez dar autógrafos à Feira do Livro e fiquei surpreendido com a quantidade de pessoas muito novas. Lembro-me de um pai com uma filha de 17 anos. E o pai dizia: "Ela adora os seus livros, eu não percebo nada." A miúda dizia que estava a ler pela terceira vez... acho que era o "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura". E eu: "Então não achas um livro difícil?" Olhou para mim como se eu fosse uma besta.
É muito engraçado... talvez porque o pensar desta geração não seja lógico-discursivo, seja muito mais sincrético. E isto [aponta o livro] vai um bocado ao arrepio do que se convenciona chamar um romance.
O que acontece, enquanto leitor, é que começo a ler e tenho logo vontade de corrigir. A gente vai ler para ver como é que está feito. E depois é preciso que o livro tenha muita força para me arrastar. É muito, muito raro acontecer.

Há uma voz de que se sinta mais próximo neste romance?
O que sei é que os últimos capítulos são escritos ao dobro da velocidade dos primeiros...

Isso nota-se. Há uma velocidade no terceiro livro de "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo".
É porque o romance já está sozinho, já não precisa de mim para nada. A primeira parte demora a arrancar. O início de cada capítulo... às vezes estou horas à espera.

Há pouco estava a dizer que não sabia como ia acabar o livro. Decidiu que o livro teria um epílogo antes de saber o que seria o epílogo...
Fiquei aflito, à espera. E depois apareceu a miúda, a fazer uma redacção das férias. Escrevi [esse epílogo] várias vezes.

Para si, aquela menina está a escrever quando? Angola supostamente já está em paz...
Sim... exactamente. Julgo que a parte dos diamantes... Há quanto tempo é que morreu o Savimbi?

Um ano e qualquer coisa [Fevereiro 2002].
Julgo que é mais ou menos coincidente com a notícia da morte dele. Pelo menos, a partir de metade do livro. Ele morre por aí, durante a feitura do livro. Não sei se isso terá tido alguma influência. O Savimbi era um homem de quem eu não gostava, tinha-o visto uma ou duas vezes em Luanda. Os "complôts" que existiam com  o governo português de então, com a polícia política, pareciam-me claros... o facto de os Flechas [militares angolanos treinados pela PIDE] serem quase todos da UNITA... Não me era uma figura simpática, embora me parecesse um homem extremamente corajoso.
Mas a crueldade e a violência... É uma coisa curiosa como muitas vezes a crueldade vem misturada com a alegria. Quando vejo os antigos soldados a falarem, falam daquilo como a melhor época da vida deles...
De alguma maneira Savimbi deve ter entrado no livro, não sei como. O livro tem muita violência... lembro-me do que me custou escrever o capítulo em que há a filha de um deles que é morta, e há um cavalo...

A filha do que tem o mapa [o Mateus, capítulo III do terceiro livro].
Exactamente Aqui há uns anos... nunca me esqueci dessa imagem... eu estava na Margem Sul à noite e de repente um cavalo branco sozinho atravessou a estrada. Não sei se era de ciganos, vinha a galopar e ia batendo nas coisas. Sabe aquelas lojecas, os restaurantezinhos à beira da estrada... saiu ali de uma esquina às escuras e atravessou. É o cavalo, julgo eu, que aparece aí [no livro] a galopar.

Mas foi de alguma forma a morte de Savimbi que lhe deu o pano de fundo do livro, os diamantes...?
Não, isso começou tudo sozinho. Indignava-me como toda a gente queria roubar aquele país de todas as maneiras, os americanos, os holandeses, os israelitas, os sul-africanos...

O lapso de tempo [nos três livros do romance] é qual?
Na minha cabeça era passado agora. Quando eu estava lá toda a gente traficava com diamantes, eu também tentei, não acredito que isso tenha parado. Ia ao rio Cuando e apanhava-os... apanhava carvão a maior parte das vezes, mas havia lá sempre gente.

Tentou apanhar diamantes?
Comprei. Mas nenhum deles era verdadeiro.

Quando se punha o reagente...
Dissolvia-se tudo.

Como acontece no livro.
E também era um judeu.

Ah, o judeu do livro vem daí.
Era o homem a quem toda a gente ia, oficiais, tropas. Havia a Diamangue, uma polícia própria para os diamantes, o tráfico chamava-se Camanga, parece que Malanje era uma cidade muito rica...
Mas não coloca a acção na altura em que lá esteve, coloca-a depois da independência.
Exactamente. Porque não acredito que isso tenha acabado. Iam ao rio com peneiras, faziam vigarices do género... partiam cabeças de galheteiro e muitos iam comprar o vidro...

Porque é que escolhe situar o núcleo da história depois da fase em que lá esteve?
Se o livro foi escrito em 2002, o livro é passado em 2002.

O Seabra, o homem do primeiro livro, vai para Angola quando? No cais há restos das bagagens dos portugueses que se foram embora, estamos depois da independência, fala-se nisso...
Sim... Também há um desprezo infinito pelos tempos. Há os tempos reais e o tempo romanesco.

Há sinais que o António Lobo Antunes põe no livro: há um governo em Luanda que tem ligações com o Serviço português, há os vestígios das bagagens dos que partiram, há os cubanos, os russos, estamos no princípio da guerra civil...?
Digamos que é... pôr aquilo que se passou ao longo de uma série de tempo no mesmo tempo, como nos filmes.

A guerra não está lá. Ou melhor, está lá muito ao fundo, muito atrás. Não está na boca de cena.
A guerra está dada no interior de cada personagem. Dentro de cada uma delas há uma guerra civil em que os sentimentos contraditórios se devoram como grandes cães negros. Por exemplo, no homem do segundo livro há várias guerras, há a guerra dele com as mulheres, a guerra dele com o Serviço... Os conflitos são muito intrapsíquicos, passam-se entre eles e eles mesmos. É um jogo de espelhos infinito onde cada personagem é confrontado com vários outros que funcionam como espelhos, dando-lhe várias imagens parciais e com as quais ele está em conflito.
A única coisa em que pensamos quando escrevemos é: como vou fazer o livro? Está-se constantemente a lutar com as dificuldades. Só vale a pena começar um livro quanto temos a certeza de que não somos capazes de o escrever. E depois lutar contra a resistência do material todo. Julgo que muitas pessoas escrevem livros porque acham que são capazes de os escrever. A gente tem de fazer o contrário. À partida pensar: não, eu vou ser derrotado pelo livro. E depois: mas que gaita... não vou deixar que um livro me vença. Quando estou a escrever o que quero conseguir é um estado interior que me permita que as coisas saiam.

Mas fugiu à guerra. Não a enfrentou, neste livro.
Não a enfrentei como? Não estou a entender a pergunta.

Não é o livro sobre a guerra em Angola.
Sim. Não tinha de ser. Parti para ele com essa ideia das seitas. A rapariga do princípio era uma das filhas do homem que fundava a seita, que depois acabava por a destruir, tipo Casa de Usher [história de Edgar Allan Poe]. E depois tudo se alterou. Portanto, o meu problema era: o livro quer isto; como vou conseguir dar cada passo a lutar [bate na mesa com força] com a resistência do material...

Sente que arrumou as contas com Angola com este livro ou não?
Não faço ideia. Um livro não está na cabeça, está na mão. Um livro não se faz com ideias. É o livro que tem de ter as ideias, não é o autor. O livro tem que ser mais inteligente que o autor. Não gosto de ler aqueles livros em que se está sempre a ver o autor a aparecer: repara como eu faço, repara nesta metáfora, nesta imagem, repara como eu arranco isto... retira a eficácia ao livro. Às vezes custa uma pessoa retirar do livro certas "tournures" que saíram muito bem. Um livro não tem que ser bonito, tem que ser eficaz, no sentido de ser implacável. Tem que andar implacavelmente [bate na mesa] pan, pan, pan, pan, levando tudo à frente, a começar pelo próprio autor. Daí não haver nenhum motivo para se ser orgulhoso... vaidoso. Uma pessoa tem que ser muito humilde.
São precisas três coisas para escrever: paciência, solidão e orgulho. Isso é que faz com que escreva, e reescreva e reescreva e reescreva...

Orgulho como?
No sentido de fazer as coisas de forma a não se envergonhar delas perante si mesmo.[pausa] Eu não gosto de livros de puta.

Livros de puta...?
O Zé [Cardoso Pires] quando saiu um romance qualquer, não sei qual, disse: "Este é um livro de puta." Não gosto dos livros que vêm tentar seduzir-me, que me piscam o o olho, que me convidam para dormir com eles... não sei se estou a ser claro. Estou a falar enquanto leitor. Portugal não é um país pequeno? Quantos escritores finlandeses bons há? Se houver quatro ou cinco escritores vivos a escrever bons romances... não há mais.

Foi buscar o título deste livro a Enrique Vila-Matas. A uma história que o Vila Matas conta [em Bartleby & Companhia] sobre o Valéry Larbaud, que ao fim de anos de silêncio, numa cadeira de rodas, resolve dizer: "Bon soir les choses d'ici bas".
Interessou-me a frase.

Ao ler "Bartleby & Companhia"?
Ao ler assim [desce a mão na diagonal]. Tropecei na frase e a frase encontrou-me. Depois comunicando ao [editor francês Christian] Bourgois, ele já conhecia a frase. O Larbaud, eu já conhecia da adolescência. Primeiro, por causa da tradução do "Ulisses" [de Joyce], depois por alguns prefácios luminosos que ele escreveu, era um personagem que me fascinava...

Já tinha o livro feito quando tropeçou na frase?
Estava a meio.

Então tropeçou e disse: este é o título do meu livro.
Sim. Como aconteceu com "Exortação aos Crocodilos": estava a meio de um livro, um dos textos chamava-se "Exortação aos Crocodilos" e pensei: é este que vou usar. Normalmente é assim. Não leio o livro, sequer.

E a frase do Larbaud interessou-lhe porquê?
Gostei dela. Não tinha qualquer outro significado. Tenho muitas dificuldades com os títulos. Claro que depois posso pensar, a posteriori...

E o que é que pensa, à posteriori?
Penso que tem uma data de significados e é suficientemente ambígua. Tem duas coisas que me interessam: por um lado é muito clara, por outro lado é muito ambígua. Aliás, depois discuti com o Eduardo Lourenço o aqui, o ali, e se 'bon soir' será boa tarde... mas em português era como melhor me soava.

Também fez isso em relação ao Dylan Thomas, traduzir ["Do Not Go Gentle Into That Good Night" por "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura"] como lhe soou melhor.
Aprende-se muito a traduzir e a fazer cópias. Eu faço muitas cópias nos intervalos dos livros.

Cópias...?
Sim, como na escola. Agarro num livro e copio, para tentar perceber como é que ele fez, um capítulo ou dois. Palavra por palavra.

Como é que aparece o "Cântico dos Cânticos" [em fragmentos a itálico não identificados, capítulo V, livro primeiro de "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo"]?
Não é uma parte que é uma história de amor?

Sim...
Eu devia ter citado isso. A tradução não é minha, é uma tradução admirável de um poeta que está esquecido, o Paulo Mendes Campos [brasileiro, 1922-1991].

Apareceu-lhe de repente?
Estava a pensar no Paulo Mendes Campos. E achei que estava bom para pôr ali.
[Levanta-se para retirar o livro "Diário da Tarde", de Mendes Campos, que, mais que manuseado, está a transbordar de papeis]
Lembra-se daquele poema "Depois do Enterro?" [de Dylan Thomas], que é lixado de traduzir? Tenho várias versões desse poema e são todas uma merda... Olhe como este gajo consegue...
[Diz o poema, em que aparecem avencas]

O seu livro tem imensas avencas...
Pois tem. São tiradas daqui.


Público
15.11.2003

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...