09/09/2004

«Como apanhar a arte da fuga de António Lobo Antunes...»

Sobre o tema de traduzir António Lobo Antunes, artigo de Alexandra Lucas Coelho no Jornal Público:

A um leitor, digamos, de Kansas City, o que dirá a frase: "O teu lado Campo de Ourique, o teu ladozinho Penha de França"? Este foi um dos problemas que Richard Zenith teve de resolver durante a tradução de "Manual dos Inquisidores", de António Lobo Antunes, que sairá em Janeiro nos Estados Unidos, editada pela Grove Press. A solução que Zenith encontrou - como explicará hoje, no Colóquio Internacional António Lobo Antunes, organizado pela Universidade de Évora - foi acrescentar "pequeno-burguês" à frase, visto que a simples menção dos bairros lisboetas não diria nada ao leitor americano. Outro exemplo semelhante: quando uma personagem fala da "gentinha [que compra] andares no Cacém", Zenith traduz "em subúrbios sem gosto como o Cacém".Nestes casos, defende o tradutor, para manter intacto o sentido do texto, há que "destraduzir", em vez de traduzir literalmente. Ou seja, acrescentar (mais raramente cortar, ou trocar) algo para que tudo fique na mesma. "As referências portuguesas na prosa de Lobo Antunes podem ser bloqueios na tradução", explica Zenith ao PÚBLICO. "Tomo a liberdade de ajudar, para não trair a arte romanesca, que é o mais importante." A liberdade do "destradutor" pode chegar ao ponto de substituir um nome histórico, como Zenith fez noutra passagem de "Manual dos Inquisidores", em que o almirante Américo Tomás aparece "seguido pelo seu cortejo de Diogos Cães engalanados". Na versão em inglês, o cortejo passa a ser de "marinheiros engalanados como Vasco da Gama". O tradutor admite que a opção é discutível, mas argumenta que o nome de Gama é imediatamente reconhecível para o leitor estrangeiro.Já na tradução de "Auto dos Danados", Zenith pediu autorização a Lobo Antunes para inventar um apelido, visto que em inglês não se usa "doutor" para um nome próprio, e havia o problema da personagem "senhor doutor Nuno" - na versão em inglês, a mulher e a amante chamam-lhe Nuno, os outros, "Dr. Souza". A complexidade das formas de trato em português não se esgota aqui. Zenith está convencido - e escreve-o no texto que hoje lerá no colóquio - que "o português é a língua ocidental mais subtil e com mais distinções em matéria de títulos de pessoas e formas de as tratar". Tu, você, senhor, senhora, vossa excelência resumem-se, em inglês, a "you". O que na hierarquia de classes evocada em "Manual dos Inquisidores" se torna complicado. "É o meu romance favorito", diz Zenith, "por vários motivos, um dos quais, a forma como as personagens das várias classes se tratam umas às outras. Só entre os serventes, há vários níveis de tratamento... É genial."Para além destas dificuldades pontuais, o verdadeiro desafio, sublinha Zenith, é conservar a "desordem natural de Lobo Antunes", essa "sujidade" que mistura universal e local, sublime e banal: "Toda a musicalidade, o ritmo, as vozes que se entrecruzam como uma fuga barroca é a grande riqueza de Lobo Antunes." Americano, 46 anos, Richard Zenith reside em Portugal desde 1987, quando veio para traduzir uma antologia de cantigas medievais. Publicou já duas versões de "O Livro do Desassossego", de Bernardo Soares/Fernando Pessoa, além de duas antologias (poesia e prosa) também de Pessoa, antologias da poesia de Sophia e Nuno Júdice, um volume de ensaios de Antero (na Irlanda), e tem várias traduções editadas em revistas, incluindo de Herberto Helder (rarissimamente transposto para inglês). De António Lobo Antunes, traduziu quatro romances ("A Ordem Natural das Coisas e "A Explicação dos Pássaros" são os dois que ainda não tínhamos referido) que, diz, "tiveram sempre críticas muito boas, mas não venderam muito."Marianne Eyre é mais do que apenas a tradutora de nove romances de António Lobo Antunes para sueco. "Actualmente, tenho duas amigas mulheres, amigas de coração, daquelas a quem iria a correr se lhes acontecesse alguma coisa", diz o escritor no livro de entrevistas que a Dom Quixote acaba de publicar, coincidindo com o colóquio de Évora. "Uma é Marianne, a minha tradutora sueca. Uma mulher de uma grande inteligência e de um extraordinário valor. Tem 70 anos, mas a sua energia é inigualável."Passou um ano, Marianne está com 71, e é com essa mesma energia - uma espécie de força tranquila - que tem andado por Évora, onde hoje participa na mesa-redonda sobre tradução."Estou a trabalhar no meu décimo livro de Lobo Antunes, 'Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura'. Agora vou mais devagar porque não trabalho à noite. Demoro não menos de um ano com cada livro. Peço sempre muito tempo à editora. É a condição. Tenho que reler e reler." Começou em 1983. "A editora pediu-me que lesse 'Os Cus de Judas'. Fiquei muito impressionada. Era um livro importante contra a guerra." Marianne trabalhara na Amnistia Internacional, conhecera refugiados políticos, estivera em África. "Sempre tive dentro de mim as lembranças dos amigos que sofreram durante a guerra. Visitei Tarrafal, Peniche. Toda a história do colonialismo, da escravatura estiveram presentes na minha vida." Além das viagens a países africanos, viveu um ano num bairro popular da Baía; por isso aprendeu português."Quando visitei Portugal, encontrei Lobo Antunes, trocámos cartas por causa das minhas dúvidas na tradução. Ficámos amigos. De início tive medo... não, medo não é a palavra justa... respeito. Agora é mais natural. Percebi que vejo o mundo como ele. Ele entende as pessoas muito bem, sofre com o sofrimento dos amigos. Tem... como se diz... compaixão."Livro após livro, aprendeu a conhecer melhor a sociedade portuguesa, "os estratos sociais que aqui são mais marcados do que na Suécia". E opta por não acrescentar nem cortar, quando traduz. "Não altero nada. Às vezes, uma clarificação, muito discreta. Quero uma transparência. Claro que há coisas que se perdem mas estou sempre perto do original. E nunca faço notas. Só no 'Manual dos Inquisidores' fiz um prefácio a explicar as figuras reais."Não consegue escolher um romance favorito: "Gostei imensamente de 'A Ordem Natural das Coisas', também de 'O Esplendor de Portugal'. Na 'Exortação aos Crocodilos' há evocações da infância muito comoventes... Senti a evolução na escrita sobretudo neste que estou a traduzir. É incrível, acho que vai mais longe, mais profundo. A ideia de entrar na alma de uma pessoa... não sei se alguém já o fez assim antes... e além disso uma jovem... muito bem feito por um homem."Na Suécia, indica, os livros de Lobo Antunes "não vendem muito, mas as críticas são sempre entusiásticas, e os jovens escritores gostam muito dele". Não acredita que a recepção sueca da obra tenha influência particular no Comité Nobel. Quando lhe perguntamos se crê que o Nobel para Lobo Antunes ainda é possível, responde imediatamente: "Claro! Claro que pode vir a ganhar. Acho verdadeiramente que eles não ligam à nacionalidade... não, não vejo porque não."Maralde Minnerman traduziu nada menos que 11 romances de Lobo Antunes para alemão. "É mais fácil dizer os que não traduzi: 'Os Cus de Judas' e 'Explicação dos Pássaros', que já estavam editados na Alemanha, 'Memória de Elefante', que vou traduzir, e 'Que Farei Quando Tudo Arde', o último, que estou agora a ler." Levou entre cinco a seis meses a traduzir cada livro. Fala português sem sotaque algum. Sempre viveu em Hamburgo, mas tem primos no Porto, e a memória de uma avó portuguesa, nascida nos Açores.O título da sua comunicação no colóquio, hoje, é: "O barqueiro, o lobo, a cabra e a couve". Ela diz que se sente como este barqueiro, que só pode levar uma coisa de cada vez - se leva o lobo, a cabra come a couve, se leva a couve, o lobo come a cabra... -, quando trabalha numa tradução de Lobo Antunes, e tem que transportar "conteúdo, palavras, sintaxe, ritmo, melodia textual" de uma língua para a outra.A fragmentação do texto, que vê como uma tendência cada vez mais patente em Lobo Antunes, contribui para a dificuldade. "No 'Manual dos Inquisidores' ainda é fácil ver que é uma história contada por várias pessoas. Mas em 'Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura' já não é tanto o relato, mas uma voz que inventa o relato, personagens, histórias que se fazem e desfazem, é um livro sobre a criação literária. E neste último a fragmentação é total. É como um 'puzzle', a princípio não se entende nada, e pouco a pouco as vozes tornam-se audíveis, descobre-se quem é quem."Quando lhe dizem que é difícil ler Lobo Antunes, Maralde sugere que façam um filme na cabeça. "É o que faço. Formo as imagens e ouço a banda sonora. É importante distinguir cada voz, para não perdermos o fio. É como uma fuga, na música. Há uma parte da fuga em que todas as vozes estão juntas."Quanto a problemas concretos de transposição, Maralde diz que dá "pequenas ajudas", como acrescentar "praça" quando se fala pela primeira vez nos Restauradores ou, quando o texto descreve o céu com cor de papel de embrulho, criar uma palavra em alemão que significa cinzento-papel-de-embrulho. "É que na Alemanha o papel de embrulho é amarelo e não pardo..." Na tradução de "As Naus" fez um glossário de mais de 20 páginas com as personagens todas. "Quem quiser, vê no fim."Na Alemanha, diz, "as críticas são óptimas, as vendas relativas". "Manual dos Inquisidores" vendeu bem porque o "papa" da crítica apostou nele, e uma pequena edição de parte das Crónicas "vendeu como pãezinhos". "Lobo Antunes tem os seus incondicionais, está sempre na lista dos melhores do mês, quando lança um livro, muitas vezes em primeiro lugar. E quando sai em edição de bolso, que é muito mais barato, vende bem."Ao fim de 11 livros, transpostos palavra a palavra, Maralde acredita que Lobo Antunes "continua a ser inovador, um escritor excepcional como há poucos, que continua a tentar criar o tal romance feito de silêncio, o romance novo".


Alexandra Lucas Coelho
16.11.2002
Público

Visão - entrevista de Sara Belo Luís - 27 Novembro 2003


Esteve dois anos na guerra colonial cujo absurdo haveria de retrata em Os Cus de Judas. Ao regressar de Angola, António Lobo Antunes não era o mesmo homem. Em Lisboa tinha deixado a mulher (com quem havia casado pouco antes de partir) e uma filha que ainda não conhecia. Trazia também a certeza de que pretendia desistir da cirurgia e antes preferir uma especialidade médica que lhe permitisse escrever. Acabou por escolher psiquiatria, à qual foi buscar as técnicas de análise que, depois, utilizou para dissecar o País.

Agora, aos 61 anos, regressa ao território que sempre marcou a sua ficção. Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, o volume de 554 páginas que as Publicações Dom Quixote acabam de lançar, era para falar das seitas religiosas mas acabou por tornar-se um romance sobre o tráfico (o de diamantes e o de influências), sobre o percurso de três homens (Seabra, Miguéis e Morais) que partem de Portugal para a terá devastada pelas guerras (a colonial e a civil) e pela cupidez humana. Em entrevista à Visão, o escritor desfia – como nunca o havia feito – as suas memórias de África. As do inferno e as do paraíso.

Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo é o livro do ajuste de contas com Angola?
Não tenho contas a acertar com ninguém. Estou em paz com os outros. O que sinto é que não vou ter tempo para fazer os livros que gostaria de escrever. Como Mozart que, nas margens do Requiem, escrevia «Não vou ter tempo»...

E uma espécie de catarse?
Também não sinto que tenha de me libertar de alguma coisa. Angola nunca saiu de dentro de mim. Ocupa um lugar muito profundo, mais até do que eu imagino ou penso. Vejo Angola como um paraíso perdido. Lembro-me da terra, dos cheiros, das cores, dos horizontes, de toda aquela sensualidade. Como, aliás, também acontece em relação à Beira Alta, onde agora vou cada vez mais. É uma espécie de regresso à infância onde fui tão feliz. Quando passo Carregal do Sal sinto logo o cheiro da Beira Alta. Dá-me uma certa paz interior.

Como é possível ter uma imagem de paraíso de algo que foi um inferno?
Mas tudo aquilo que envolvia a guerra era de uma beleza imensa. É curioso porque, afinal, foi um tempo doloroso.

De que maneira é que um romance sobre seitas religiosas se transforma num romance que tem o tráfico de diamantes como pano de fundo?
O outro romance começava em Angola e era para acabar com a casa destruída que aparece logo no princípio deste. Pensei que o livro pedia muito mais do que aquilo. Porque é que havia de estar a tocar uma gaita-de-beiços se podia estar a tocar um piano sem fim?

Esta é a imagem que tem da Angola pós-independência?
Enquanto escrevia o livro, interroguei-me várias vezes se não iria arranjar problemas.

Em que sentido?
Com a riqueza de Angola, não acredito que tenham desaparecido todos esses europeus e africanos que ainda hoje tentam explorar aquela terra. No livro também está presente a minha indignação em relação a todo esse neocolonialismo. Como é que se fazem determinadas coisas em nome da democracia e da amizade? Eu não queria entrar muito por aqui… Já deve ter reparado que sou sempre muito cauteloso. Por vezes tenho imensa vontade de escrever para a Visão sobre esse processo da Casa Pia, mas não me atrevo a fazê-lo porque as pessoas não teriam possibilidade de me responder.

A pergunta é para o psiquiatra…
... esse, coitado, já não existe.

Ainda deve saber umas coisas…
... poucas.

Arrisco, mesmo assim, a pergunta para ele: a questão da guerra está resolvida em si?
O psiquiatra? A questão da guerra? Não pode chamar-se àquilo uma guerra. Morria-se sem se ver ninguém. As minas, não se via quem as punha e, nas emboscadas, era tudo muito rápido. Uma guerra pressupõe um adversário e ali, ele era completamente invisível.

Não havia combates?
No sentido clássico do termo, não. Para fazerem sentido, as emboscadas não podiam demorar muito. Uns minutos e desapareciam. Depois, havia as populações, que me fascinavam.

Esse foi, de algum modo, o lado bom da guerra?
Sim, esse contacto foi decisivo para mim. Aprendi muito com aqueles povos, através da sua relação com a vida e com a morte. Apercebi-me também que o tempo africano – que é elástico, indefinido – podia servir-me para me mover melhor no espaço do romance.

Nunca teve oportunidade de regressar a Angola?
Oportunidade há sempre. Acho é que, se voltasse, não saía de lá. Gostava de ter u passaporte angolano, teria muito orgulho nisso. Não quero dizer que me sinta menos português, gosto cada vez mais de ser daqui, sinto-me muito bem no meu país.

Mas porque é que gostava de ter passaporte angolano?
Afectivamente, estou muito ligado àquela terra e àquelas pessoas.

Isso não é um contra-senso? No fundo, lutou contra a independência angolana…
Bom, eu fazia parte de um exército…

Que dependia de um governo que era contra a independência das colónias.
É verdade. Isto não pretende ser uma justificação, mas, naquela época, a gente tinha a sensação de que a ditadura era eterna. Ou se ia à guerra (como o Partido Comunista, que mandava os seus militantes ir à guerra) ou, então, ia fazer-se a revolução para os cafés de Paris. E, a certa altura, reparei que a maior parte das pessoas que emigrava fazia-o quando sabia que ia. Porque tinham medo. Aquilo metia medo. No entanto, as minhas razões não tinham nada a ver com estas. Não fui nem por valentia nem por ideais políticos. Ernesto Melo Antunes, o meu capitão, dizia que a revolução se fazia por dentro. A mim, contudo, a revolução não me dizia grande coisa… Sempre tive uma vida protegida, passei ao lado de todos os movimentos contra a ditadura; por cobardia, provavelmente.

Era um privilegiado.
Claro que sim. Nessa altura, de um modo geral, os rapazes que iam para as faculdades eram privilegiados. Mas não foi só por isso que a política – e até o próprio movimento estudantil – me passou ao lado. Eu nem às aulas ia, passei a faculdade a escrever e a jogar xadrez. Vivia completamente centrado sobre mim mesmo. Talvez esteja grato a Angola porque foi lá que aprendi a existência dos outros. Até então o meu mundo era ptolemaico. Na guerra, senti pela primeira vez uma camaradagem real, que ainda hoje se mantém.

Ainda se vêem?
Sim, de vez em quando. Nesse momento percebi que eu não era o centro do mundo.

Mantinha um diário?
Não, nunca fiz diários. Mas é curioso que, durante todo o tempo que estive em África, li e escrevi muito. À noite, enquanto escrevia os meus romances, tinha a sensação de estar em Lisboa porque havia um soldado que imitava os pregões dos ardinas.

Lembra-se do dia em que foi mobilizado?
Eu já sabia que ia, só não sabia era quando. Fiz a segunda parte da recruta no Hospital da Estrela e, depois, fui colocado no de Tomar. Estive lá uns meses e, um dia, o director chamou-me e disse-me que eu tinha que me apresentar em Santa Margarida. Só soube que ia para Angola já no barco.

Foi lá que conheceu Ernesto Melo Antunes?
Só vou encontrar o batalhão com que fui em Santa Margarida uns meses antes de embarcar, a 6 de Janeiro de 1971.

E para onde foi?
Fui para as Terras do Fim do Mundo, na fronteira com a Zâmbia, no saliente do Cazombo. Chagámos lá e, pendurada no arame farpado, estava uma tabuleta que dizia «Lisboa, 10 mil quilómetros. Moscovo, 13 mil». O leste angolano não correspondia nada à ideia que fazemos de África. É arenoso, com pouca vegetação e, de noite, fazia muito frio.

Não havia o que habitualmente se chama mato?
Havia, mas parecia sempre igual. Outra das coisas que me espantava era a capacidade que os nossos guias tinham em orientar-se. Havia um que lhe bastava pôr a orelha contra o chão para pressentir uma coluna ainda a quilómetros de distância. Outro, via mosquitos na outra banda e, aos domingos, punha uns óculos graduadíssimos. E nós, miúdos de 20 anos, não entendendo o significado simbólico do acto, fazíamos troça. Não percebíamos que aquela maneira de ser correspondia a uma cultura milenar. Vínhamos com toda uma carga de coisas europeias...

O médico recém-licenciado também descobriu outras «ciências»?
Sob o aspecto médico eram culturas muito mais avançadas que as nossas. Não havia cáries, por exemplo. E lavavam os dentes com um pau… Doutro ponto de vista, a organização social era perfeita, não havia conflitos sociais e as decisões eram tomadas em assembleias muito complicadas. Uma vez, numa aldeia, estiveram uma tarde inteira para deliberar se me davam um galo. Eram muito sábios e, sentindo o absurdo daquela situação fugiam para norte. Nós queimávamos as aldeias com desfolhantes e com tudo isso de que é proibido falar. Eu vi napalm. O marechal Costa Gomes, que era meu comandante-chefe, dizia que não existia napalm. Nós tínhamos napalm e bombardeávamos com napalm. Esta é a verdade. E quem disser o contrário está a mentir.

No terreno dizia-se que o regime estava a definhar?
Não, não se tinha a noção porque não tínhamos notícias nenhumas. O nosso batalhão, composto por três companhias de combate, cobria um território com a mesma extensão de Portugal Continental do Mondego ao Algarve. Naquela altura, o MPLA estava a entrar pela Zâmbia com o objectivo de cercar o planalto central. Era, portanto, uma zona tremenda. E era suposto nós servirmos de tampão. Mas como é que três companhias e combate – ou seja, 450 homens – podem patrulhar uma zona tão grande? Era impossível.

Discutia-se política?
Não, não se discutia política. Nem era possível discutir. Nunca assisti a cenas como as de Manoel de Oliveira no qual os militares vão nos Unimogs a discutir a legitimidade da guerra. A partir do momento em que morreu o primeiro rapaz, até o Melo Antunes (que era um homem muito politizado, que discordava da guerra) deixou de falar nisso. Nesse momento disse «Vamos vingar o Ferreira». O primeiro morto desencadeia uma raiva enorme. Ninguém queria ir para o mato, ninguém queria matar ninguém. Não aquele país, olhávamos para o céu, não conhecíamos as estrelas. Nada daquilo nos fazia lembrar Portugal. Absolutamente nada. Estávamos ali, não havia nada à volta. Só havia a casa do chefe do posto em ruínas onde eu dormia. Portanto, que vontade tinha eu de combater? O quê? Quem?

Estavam apenas preocupados em chegar ao dia seguinte?
Eu queria voltar vivo. Tínhamos sido treinados para a guerra, mas o objectivo era acumular o maior número de pontos possíveis para irmos para um sítio com menos guerra. Um prisioneiro tantos pontos, uma arma apreendida tantos pontos e, ao fim de não sei quantos pontos, mudávamos de lugar. Nunca ouvi – entre oficiais ou soldados – uma única palavra contra o a favor da guerra. A gente queria era sair dali. O mais depressa possível. Não queria falar da crueldade e da violência porque, no meio das atrocidades, também havia uma grande generosidade. Os nossos soldados ganhavam uma miséria e estavam sempre na aflição de saber como é que estavam as suas famílias em Portugal. As notícias que chegavam eram poucas, o correio só vinha uma vez por semana...

Que atrocidades não conseguiu esquecer?
Coisas horríveis. Havia uma delegação da PIDE junto à sede do batalhão e eu assisti a dois ou três interrogatórios. Nunca vi o exército fazer tais coisas. Lembro-me de um soba me dizer «O Sr. PIDE manda mais que o Senhor Governador». A PIDE era, de facto, o terror dos civis. Noutro dia, fizeram-se uns prisioneiros e, como era preciso comunicar à polícia, veio um PIDE de helicóptero. Quando chegou, a primeira coisa que fez foi dar um pontapé na barriga de uma mulher grávida. O Melo Antunes puxou da pistola e apontou-a ao PIDE. Nem imagina os problemas que ele teve por causa disso… Estávamos ali, mas de vez em quando vinham uns do «ar condicionado» para dizer como é que devíamos fazer a guerra. Recebiam o mesmo subsídio e apareciam de camuflado novinho em folha. E nós de camuflado todo desbotado...

Tudo isso é político…
Eram ordens militares. E não vinham embrulhadas em qualquer consideração do género «Estamos a defender Portugal». Não me recordo de um comandante, um general, um coronel ou um brigadeiro me falar da pátria. Não me lembro de alguma vez ter ouvido um discurso patriótico que advogasse a civilização contra o comunismo ateu.

A morte torna-se mesmo uma rotina na guerra?
Fazia sempre sofrer muito. Uma vez levei para o meu quarto um rapaz que tinha morrido numa emboscada. Não quis que o tirassem de lá. Estava só a dormir. A morte de um camarada era uma coisa horrível. E mesmo os feridos, que nunca mais voltávamos a ver. Quando havia amputações, eu fazia o penso ao coto, vinha um helicóptero e levava-os.

Como é que vê, hoje, as diferenças entre a guerra que conheceu e estas guerras cirúrgicas?
Não conheço estas, só conheci aquela. Mas a guerra é sempre um momento absurdo porque ninguém ganha. Isto foi o que, de mais claro, trouxe da guerra. Na guerra não há vencedores. Todos – militares, famílias, populações – são vencidos. E os militares são os que menos culpa têm porque se limitam a fazer aquilo que o poder político pretende. Sob este aspecto, o exército português sempre foi muito disciplinado. O Melo Antunes, por exemplo, impunha uma disciplina completamente feroz que eu não compreendia. Ele contrapunha que aquela era a maneira de termos menos baixas. Obrigava-nos, entre outras coisas, a pôr gravata para jantar, na areia...

A disciplina passava por aí?
Também, o que não o impedia depois de jogar vólei com os soldados. Estes, de resto, eram muito bem treinados. Quando uma coluna foi atacada, o alferes teve medo e escondeu-se debaixo de um cepo. O pelotão ficou uma presa fácil porque todos estavam à espera que aquilo funcionasse.

O medo era encarado como um sinal de fragilidade?
Borrar-se de medo? Cagar-se de medo? Tudo isto é real, não são figuras de retórica. Ele tinha as calças do camuflado encharcadas de merda. Casos destes, no entanto, não havia muitos. Todos tínhamos medo, mas os nossos soldados eram de facto extraordinários. Não eram como os americanos que estavam lá no Vietname e, de dois em dois meses, tiravam uma semana de férias. Em Angola nunca vi ninguém negar-se a ir para a mata. Quando o rapaz que tinha sido sorteado para conduzir o rebenta-minas – a viatura, como então dizíamos que ia à frente – vinha despedir-se de mim, fazia-o sem quaisquer dramatismos. Ao princípio ainda marcávamos os dias no calendário, mas a partir de certa altura a vida já não tinha grande valor. Uma das cruzes de guerra que tivemos foi o apontador de metralhadora, já ferido no pescoço, ter continuado a disparar para salvar os que estavam cá em baixo. Havia um espírito de corpo muito intenso. Lá, éramos todos a mesma coisa. Estou a conseguir falar disto sem falar do horror...

Ainda sonha com a guerra?
Às vezes tenho um pesadelo tremendo. Sonho que me estão a chamar para voltar para África. Tento explicar que já fui, argumentam que tenho que ir. E o sonho acaba aqui. Nunca sonhei com tiros ou com morteiradas. No meio daquilo tudo havia muito humor. Havia um homem, o Bichezas, que cuidava do morteiro que estava ao pé da messe. Tínhamos mais medo dele do que do MPLA porque o Bichezas disparava com o morteiro na vertical. Aquilo subia…e toda a gente fugia. Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo, havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.

Parava a guerra?
Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto ou do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?

Não vou pôr isso na entrevista…
Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?


Visão
27.11.2003

08/09/2004

Quem lê é a classe média


Diário de Notícias - entrevista de Maria Augusta Silva
18 Novembro 2003


Quem lê é a classe média


Vinha a apostar comigo mesma: desta vez vou encontrá-lo sem as calças de ganga...
Ando com calças de ganga há tantos anos. Já não me vejo vestido de outra maneira. Acho que nem tenho nenhum casaco, nem gravata. Ando sempre assim, umas calças, umas camisolas.

Que prazeres lhe dá a vida?
Com a idade, os prazeres vão-se afilando. O da leitura, no entanto, continua intacto.

Novo romance: Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo tem como pano de fundo uma África em guerra civil. Gostaria de ter escrito este livro na Muxima?
Não quis voltar a Angola. Às vezes sinto-me dividido, apetece-me voltar, nunca vi um país tão bonito, tão sensível como Angola, a permanente exaltação dos sentidos.

África, uma vertigem?
De África só conheço a guerra (colonial), a mata, camponeses, aquartelamentos. A minha África não é a das cidades.

Não tendo voltado a Angola, como pôde abordar com tanto realismo ambientes da guerra civil? Dá a sensação de que alguém tirou "radiografias" e deu-lhas para as interpretar...
Não falo da guerra. O que me interessava mais era o comportamento de pessoas colocadas em situações extremas. Parti para o livro a querer escrever sobre seitas religiosas mas depois tomou essa inflexão inesperada Não estava à espera do tráfico de diamantes.

Como pode ser tão pobre um país tão rico?
Precisamente porque é muito rico e há muita cupidez. Não são os angolanos, ou serão alguns angolanos, mas o povo de Angola não é assim. Não se encontra fora das cidades ambições materiais. Quis-me parecer durante este tempo todo que são muito hedonistas, procuram um bem-estar com eles mesmos e com os outros.

Um povo mais próximo da espiritualidade e da natureza?
E os europeus não sabem da espiritualidade dos africanos. Queremos impor a África os padrões europeus. Por exemplo, a medicina deles, dizem que são feitiços, mas vi-os a curarem hepatites em dois dias.

Enquanto médico, como se sentia perante situações dessas?
Tentei perceber o que punham e nunca me quiseram explicar. E os partos eram feitos pelas mulheres velhas. Eu só resolvia o que elas não eram capazes.

O velho em África é uma figura respeitada...
Ao contrário daqui. Nenhum soba, nenhum chefe tomava uma decisão sem ouvir o conselho dos velhos. Havia uma tolerância e um respeito pela velhice que sempre me surpreendeu e não encontramos cá, tal como havia pela doença. Seguiam uma higiene maior que a nossa, mais perfeita até naquilo que comiam. E a gente não se dava conta e queríamos à força europeizá-los sem nenhum respeito por uma cultura milenária. As recolhas de poesia oral que faziam é extraordinária.

Estará a ser salvo esse património milenar?
Não sei até que ponto as elites africanas não estão europeizadas no pior sentido do termo. A tirania europeia não se faz agora através da Europa, faz-se através do filho espúrio da Europa que são os EUA. Quer-me parecer que, pelo menos a actual Administração, tem uma ideia de valores culturais, civilizacionais, sociais e afectivos que me parece errada, e vêem-se as consequências.

Nomeadamente quanto à questão do Iraque?
Sim, e já antes disso. Este imperialismo e este colonialismo continuam a existir, por vezes exercido por africanos. Mete muito dinheiro em jogo.

Como lida com os diferentes tempos de um romance?
O tempo é muito curioso. À medida que se envelhece o tempo é mais rápido. Ainda agora foi Natal e já vai ser natal outra vez. Quando se é novo pensa-se que o tempo vai resolver os problemas e depois a partir dos 40 percebe-se que o tempo é que é o problema. Sou muito consciente de que tenho muito pouco tempo, de que posso fazer mais dois ou três livros, e depois acabou. preciso, no mínimo, de dois anos para escrever um livro.

O tempo nunca lhe resolveu nenhum problema?
O problema é o de tempo para escrever mais livros. Se tiver de morrer cedo, ao menos que pudesse acabar o livro [indica novo livro que está a rever] para isto não ficar inacabado e venham a publicá-lo sem estar pronto. As editoras já de si não são muito boas, o respeito pelos autores não será talvez a coisa mais importante, temos de lutar pela dignificação do nosso trabalho.

Não receia que o romance agora publicado possa causar algum desagrado nas sociedades africana e portuguesa, inclusive no meio militar?
Tenho um grande respeito pelos militares. Foi de um militar, o meu avô, que até hoje recebi o maior amor e carinho da parte de um homem. Seria incapaz de tratar depreciativamente quem sempre me tratou bem desde que nasci. Os três anos e tal que estive no exército não tive razão de queixa. Portaram-se todos comigo com uma lisura como nenhuma outra classe profissional se comportou. Apenas escrevi o livro. A forma como será recebido já não me diz respeito.

E no povo africano não poderá haver alguns melindres?
O povo africano anda preocupado em sobreviver que provavelmente não irá ler livro nenhum. Fiz o que tinha de fazer, não estava na minha cabeça magoar ou apoucar fosse quem fosse. Nem tenho nenhum motivo para atacar ninguém, não tenho tempo para odiar. É apenas a literatura que me interessa.

Não tem traumas de guerra?
Tenho com certeza mas não me são conscientes. Uma vez, na Alemanha, um jornalista dinamarquês perguntou qual é a sensação de matar. Nessa noite tive pesadelos horrorosos. Foi a única vez que me aconteceu. Revivi isso mais com a doença do Ernesto Melo Antunes; nunca falávamos da guerra mas quando estava já muito doente ele falava. Foi o homem mais corajoso que vi debaixo de fogo, andava de abrigo em abrigo com uma lanterna, era um alvo. Dizia-me: «Sabes, é que às vezes apetecia-me morrer.» isto não é partilhável. Nunca poderia escrever um romance sobre a guerra, no fundo está em todos os livros porque a guerra existe sempre dentro de mim. Como é que uma pessoa que não escreve consegue suportar o absurdo da vida?

Na guerra mata-se...
Não vamos falar sobre isso. Essas coisas só podem ser compreendidas por quem passou por elas. E o que me espanta é a ausência de culpabilidade mesmo a posteriori.

Tem três livros neste romance que vai ser lançado amanhã, embora seja um mesmo livro...
Foi um jogo comigo mesmo para me tornar a tarefa mais difícil.

Procurou com esta obra dessacralizar as ideologias?
Não tenho pensamentos abstractos quando estou a escrever. Estou tão preocupado a fazer o livro que nem sequer me pergunto o que é que isto quer dizer, nem sequer me pergunto o que estou a escrever. Às vezes nem sequer sabemos se estamos a acertar no papel. Só quando se começa a trabalhar é que se vê se acertamos ou não.

Dedica este livro a Júlio Pomar. No entanto, não será um livro que pertence também um pouco a Melo Antunes?
Não. Há um livro que lhe é dedicado (O Manual dos inquisidores), felizmente antes de ele morrer. A morte de um amigo é uma ferida que não cicatriza nunca. Cada pessoa tem um lugar insubstituível. Uma vez disse ao Zé Cardoso [Pires] que a viuvez da amizade é uma coisa... Ainda hoje tenho muitas saudades do Zé, era uma amizade diária, um homem difícil, duro. Das poucas vezes que retirou o que disse foi como quem arranca a espada da barriga de um adversário. Mas em tantos anos de amizade nunca houve um amuo e tivemos coisas profundamente diferentes. Se tivermos dois ou três amigos estamos cheios de sorte.

Não gosta de falar de amor, eu sei. E a dor tem palavras?
Sempre me ensinaram que o pudor em face das coisas realmente graves da vida como a morte ou a doença que conduz à morte. Coisas que a gente guarda só para nós e que obviamente aparecem nos livros. Os livros estão a rebentar de ternura por todos os lados mas não são muito demonstrativos.

Há quem julgue que não há ternura em si...
Às vezes é difícil dizer que uma pessoa tem um coração em cada objecto.

Tem acompanhado a criatividade literária africana?
O Pepetela é um homem de que gosto, sou amigo dele. Um homem  de grande dignidade e coragem, de uma grande qualidade humana. E não tenho dúvidas em dizer que é um escritor sério, qualidades raras. Como me parece que o Mário Cláudio é um escritor muito sério e que a Mafalda Ivo Cruz tem um talento inegável; como me parece que o José Eduardo Agualusa tem talento, já lhe disse isso várias vezes, mas acho que é um preguiçoso. E haverá mais alguns nomes.

As literaturas africanas são visíveis em Portugal?
E a literatura portuguesa é visível? O nível médio daquilo que se publica, seja onde for, é muito baixo. Esta é a verdade em todo o mundo. As pessoas compram aquelas coisas que falam sobre o hoje e quando o hoje se tornar ontem já ninguém vai ler aquilo.

Um livro pode ajudar a repensar o mundo?
Tenho uma certa desconfiança em relação à palavra pensar. Quando se está a escrever, pode-se pensar enquanto indivíduo, mas enquanto escritor... Sempre me fez confusão as pessoas que dizem: tenho um livro na cabeça só me falta escrever.

Isso não lhe acontece quando parte para as suas folhas?
Parto sem nada.

Cada livro nasce do nada?
Nasce de coisas vagas, muitas vezes nem sequer estão cristalizadas. Nos primeiros livros fazia planos muito detalhados. Agora, não. Comecei a entender que o livro é um organismo que vive independente e surpreende-nos a cada passo. Um livro não se faz com ideias, faz-se com palavras. São as palavras que se geram umas às outras. E com trabalho.

Se fosse crítico literário só criticaria os livros bons?
Seria incapaz de dizer mal de um livro, mesmo que o livro fosse desonesto, mesmo que o livro fosse mau, não falaria sobre ele. Portanto, se fosse crítico literário era uma maçada porque quase não tinha sobre que escrever.

Qual a missão da crítica?
Idealmente, a missão da crítica seria ajudar a ler. Em teoria, o crítico será um leitor mais atento do que os outros. Não tem necessariamente que emitir juízos de valor. Temos tendência a gostar só dos que são da nossa família, as ideias confundem-se com as nossas paixões. Em Portugal não sei como se passa a crítica.

Como se mantém extremamente actualizado em tudo?
Vejo o teletexto. Não sei se estou actualizado. Há jornalistas que admiro. Acaba por ser como nas outras profissões, há um pequeno número de grandes profissionais, a maior parte não o será. Mas não me parece que o nosso jornalismo seja inferior ao da maioria dos jornais estrangeiros. O que me custa é ver os nossos jornalistas tão mal pagos. Como ter o direito de exigir qualidade se se paga miseravelmente ou se paga pouco. E também os médicos são mal pagos, todos são mal pagos. Nós, portugueses, somos admiráveis, vivemos do vento.

Um fenómeno curioso mesmo em termos de compra de livros?
E sendo os livros tão caros para o poder de compra dos portugueses... Comprar um livro para muitas pessoas faz uma grande diferença. E quem lê não são as classes possidentes com muito dinheiro. Quem lê são as classes média e média-baixa, as que não têm dinheiro. Um fenómeno espantoso porque acho que se compram muitos livros em Portugal. Há mais leitores de poesia em Portugal do que em França.

Em tempo de crise, os sectores dos livros e jornais ressentem-se logo?
Obviamente. Porque não são os consumidores das revistas cor de rosa que lêem livros. Quem lê são os funcionários públicos, algumas profissões liberais, pessoas empregadas. E para lá do dinheiro que lhes custa o livro estão a tirar tempo muitas vezes ao sono e à família para lerem. Por isso acho que os portugueses mereciam melhores escritores. Chega-se a uma livraria e fica-se chocado até com os títulos. Também se deve passar em todo o mundo.

Quando sairá mais um novo livro?
Provavelmente vou deixá-lo sair primeiro noutros países.

Outra vez zangado com Portugal?
Houve um que saiu primeiro em França, outro que saiu primeiro na Alemanha para homenagear os editores ou  pessoas a quem estou reconhecido e que tanto lutaram pelos meus livros. Isto não tem nada que ver com animosidade contra o meu país, pelo contrário.

Algo a ver com a sua editora no nosso país?
Uma relação com uma editora normalmente tem altos e baixos. Digamos que neste momento não estou num alto. Esta é uma época muito complicada porque as editoras atiram cá para fora o máximo de livros que puderem, é uma época em que se vende. Só que há desatenções que já não tolero ou tenho dificuldade em engolir. Não quero que me respeitem a mim, quero que respeitem a honestidade do meu trabalho. E ao mesmo tempo sou extremamente fiel, cria-se uma relação de amizade que para mim é muito importante.

«Ninguém gosta que lhe destruam os sonhos»

Acaba de ganhar outro relevante prémio, o da união Latina. O júri fundamenta: «Lobo Antunes é a voz mais expressiva da realidade profunda de Portugal.» Que sente?
Não me interessa ser a voz mais expressiva de Portugal. É preciso dessacralizar os prémios. É evidente que são agradáveis. os prémios, porém, não têm nada a ver com literatura no sentido em que não tornam os livros nem melhores nem piores.

Pretende fundamentalmente levar para os seus livros a condição humana no que tem de sórdido e de belo?
Só pretendo escrever. Por um lado, é evidente que não sou parvo, sei muito bem o que estou a tentar fazer, ou por outra, sei uma parte do que estou a tentar fazer, há outra parte que me escapa. Tem que ver com uma necessidade visceral de expressão. Aqui há uns tempos dizia para um dos meus irmãos que não me importava de estar preso se tivesse papel, uma caneta, livros para ler.

Não é muito melhor escrever em liberdade?
O próprio do homem é viver livre numa prisão. Estamos sempre condicionados e até prisioneiros de nós próprios. Na Roménia, onde fui receber outro prémio, era comovente ouvir as pessoas dizerem: «Agora somos livres». Num jantar com o primeiro-ministro, ele dizia-me: «Sabe, nós ainda somos pobres porque havia que escolher entre o desenvolvimento económico e a liberdade e o povo preferiu a liberdade.»

Desenvolvimento e liberdade são incompatíveis?
Na altura eram, porque se houvesse restrições à liberdade, ao direito à greve, poderia haver determinado tipo de desenvolvimento pela direita. Estou a falar da Roménia.

E em Portugal?
Não queria falar nisso. É evidente que o meu coração não está com este governo, mas o meu drama é que o meu coração também não está com nenhum dos partidos da oposição. Não me interessa este Partido Socialista, acho trágico este Partido Comunista. O drama para as pessoas verdadeiramente de esquerda é que são apátridas, a gente vai votar em quem?

Alguns dos seus desencantos têm a ver com uma sensação de vazio?
Sinto-me bem assim. Mas existe em mim uma grande desilusão porque ninguém gosta que lhe destruam os sonhos. Digamos que sou um órfão da esquerda. Também sou muito indisciplinado. Teria dificuldade com qualquer disciplina partidária. O problema dos partidos é que se tornam reaccionários porque têm de funcionar com o aparelho, como qualquer igreja.

É um homem sem política e sem religião?
Sou um homem religioso. Cada vez mais. Os grandes físicos do século XX eram homens profundamente crentes; chegaram a Deus através da física, da matemática.

A escrita não é uma ciência exacta...
Essa é outra coisa divertida. Falando do Prémio Nobel, que serve para exemplo: ninguém discute o Prémio Nobel da Física ou da Química, mas toda a gente acha que sabe quem deve ganhar o da Paz e o da Literatura. E a literatura tem muito que se lhe diga. Não se pode ensinar ninguém a ter talento mas há coisas que se podem ensinar. Estamos longe da idade de ouro do livro, em que havia trinta génios a escrever ao mesmo tempo, no século XIX. Não se repetiu.

O estilo literário ajuda a criar a universidade do escritor?
Não sei. Tudo tem sido para mim uma surpresa total.

É um pouco autodestrutivo?
Meu Deus, porque se tem de corrigir tanto? Há muita coisa que fica destruída do nosso trabalho, às vezes meses inteiros de trabalho são destruídos.

Destrói e deita fora ou tem muita coisa guardada?
Dantes deitava tudo fora, todas as versões. Agora, não.

As suas obras passaram a ter edição ne varietur. Não costuma reler os seus livros. Foram encontrados muitos lapsos, muitas gralhas?
É uma grande ironia porque se escrevem livros que se gostaria de ler e depois não os lemos. Estamos tão metidos neles que não se tem distância.

Nunca revisitou nenhum livro seu?
Não. Eu que tenho uma memória tão boa...

Memória de elefante...
Eu que sei de cor bocados de livros não sei uma única frase de cor de um livro que tenha escrito. Acaba-se um livro e temos de esquecer esse para fazer outro.

No livro que publicou agora, entre outras, tem uma frase insistente: «o mar à nossa esquerda». Esse mar, na Muxima, terá a simbologia de que escreve também com o coração?
Não pensei nisso. Escreve-se com a mão. Maiakovski disse: «comigo a anatomia enlouqueceu, sou todo coração.»; são liberdades a que os poetas se podem dar quando são grandes. Podem fazer-se alguns desplantes toureiros quando se escreve um romance mas pode-se pagar caro e lavar uma cornada.

Estamos numa época em que começa a apetecer revisitar os grandes clássicos?
O que é um clássico? Calvino dizia que clássico é aquele que a gente nunca diz que está a ler, dizemos que estamos a reler. Todas as semanas compro livros e as coisas mais variadas.

Considera que o livro ideal será a grande utopia de um escritor?
É aquele que a gente lê e tem a certeza que foi escrito só para nós e que os outros exemplares dizem coisas diferentes; com o qual temos uma relação pessoal, íntima. São objectos que nos pertencem, de que nos apropriamos intelectualmente, afectivamente e nos revelam a nós mesmos.

Acha que conseguiu mudar a arte do romance português?
Qualquer pessoa que escreve quer mudar a arte do romance. Há mil maneiras de o fazer. Tchekhov mudou a arte do teatro tal como O'Neill; mudaram-na de formas muito diferentes um do outro.

Depois de Lobo Antunes, há um estilo que acabará aí?
Já reparou na quantidade de pessoas que escrevem à António Lobo Antunes? Não é um fenómeno português, passa-se em França, Espanha, e é muito mau porque a pessoa para encontrar a sua voz tem de escrever contra os escritores de quem se gosta e matá-los dentro de nós. Cada experiência é única e irrepetível. Se formos fiéis a nós mesmos, ninguém pode dizer as coisas de uma forma tão clara e necessária. É o que se passa com qualquer escritor autêntico.

Quando diz «ninguém escreve como eu» tem a ver com a fidelidade a si próprio?
Mas ninguém escreve como outro bom escritor. Vamos à palavra génio. Stendhal utilizava-a para descrever a forma de uma senhora subir para uma carruagem: «Subia com génio»... A gente leva a vida a etiquetar tudo. nós portugueses não temos uma tradição romanesca, nunca a tivemos. Temos algumas ilhas isoladas.

Camilo, Eça, não?
Não sou grande fã do Camilo. Pode-se ser um grande prosador e não ser um grande romancista. Camilo era um novelista e bebeu muito nas fraldas de Filinto Elísio. E acho admirável a prosa de Eça de Queirós, a maneira como ele consegue substantivar adjectivos. Agora, tenho alguma dificuldade em dizer que é um grande romancista. Faz uma coisa muito difícil que é trabalhar com o advérbio de modo. E fá-lo maravilhosamente. Tem esses desplantes, coisas que seriam um erro num principiante. Por exemplo: «Eu possuo preciosamente um amigo», uma frase logo cheia de erros, mas só um grande escritor pode fazer isto.

Isso não existe na sua escrita?
É preciso ter uma atitude muito humilde em relação ao nosso trabalho.

Na fase inicial da sua careira literária não teve uma urgência de tudo?
Tinha quase 37 anos quando saiu o meu primeiro livro. Nunca tive vontade de publicar, tinha feito tantos romances antes, acho que as minhas filhas ainda têm um livro que demorei dez anos a escrever e nunca publiquei, não era aquilo. E ensinar as pessoas a não terem pressa e que é necessário trabalhar e retrabalhar às vezes é difícil porque há uma sede de reconhecimento. O sucesso é medido pelo número de exemplares vendidos, nem se dão conta...

De que estão na fogueira do mercado?
Mas se pensam na fogueira do mercado, para quê escrever? É preciso sacrificar muitas vezes a tentação, que é humana, não só de frases bonitas mas também de situações que vão prejudicar a eficácia do livro. Muitas vezes tem de deitar-se fora coisas que eventualmente poderão ser boas mas não servem o livro, prejudicam-lhe o galope.

A escrita é um modo de lidar com a "sobreposição de muitos lutos"?
Quando comecei a escrever ninguém me tinha morrido. Sou o filho mais velho, os meus avós tinham 40 anos, só conheci a morte a primeira vez que vi os cadáveres na Anatomia quando fui para a Faculdade de Medicina. Até aí a morte não existia.

Cada livro seu parece que deixa alguma coisa suspensa, embora esteja completo e exímio. Haverá sempre qualquer coisa não dita?
O livro é escrito por duas pessoas: por mim e pelo leitor. Acho que está lá tudo e espero que o leitor tenha essa mesma sensação. Na Feira do Livro ouvem-se coisas surpreendentes, pessoas que entenderam o livro da maneira como gostava de ser entendido. Pessoas que nos beijam quando se queria ser beijado.

Tende a isolar-se cada vez mais?
Só há grupos onde existem fraquezas individuais.

Essa não é uma atitude ostensiva?
A imprensa é que pode torná-la ostensiva, não eu. Há escritores que admiro muito e respeito, figuras de grande qualidade.  E se temos alguma coisa a respeitar é a nossa cultura, não seria mau que lhe dessem mais atenção.

Tem um público mais feminino?
Penso que não.

Houve tempo em que entendia menos bem as mulheres nos seus livros...
Não creio que trate as mulheres de forma diferente dos homens. Nasci de uma mulher. Tenho três filhas. Sempre achei que a mulher é a salvação do homem. Das coisas mais admiráveis que definem a vida foram feitas por mulheres.

Não encontramos uma descrição de uma relação sexual na sua obra...
Nunca o farei. Com a maneira de me exprimir julgo que posso dizer isso de outras maneiras.

O escritor deve ser uma voz da consciência?
O seu único compromisso é fazer livros. A importância do escritor é muito relativa. Terá, quando muito, de ser um contrapoder.

Em que medida pode o escritor ser contrapoder?
Relativamente ao livro, é o de abrir portas e janelas que muitas vezes os poderes instituídos gostariam que permanecessem fechadas. Por que é que as ditaduras perseguem os artistas? Porque percebem que é daí que pode vir o perigo para elas. Por que é que a revolução russa perseguiu os pintores abstractos? Teoricamente, um quadro abstracto não significa nada.

O abstracto é como os silêncios, pode dizer muito...
A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.

Primeiro romance em 1979, Memória de Elefante. Mais 15 e dois livros de crónicas. Vale a pena escrever?
Desde que me conheço, nunca me imaginei a fazer mais nada.

É um homem solidário?
Com pessoa preocupam-me os que sofrem. Como escritor, preocupa-me escrever. A palavra compaixão tem para mim um sentido muito forte, o de paixão partilhada. Da mesma maneira que companheiro quer dizer aquele que divide o pão connosco. Não me parece que o homem seja mau nem bom. Quem sou eu para julgar?

Diário de Notícias
18.11.2003



***
Adenda à entrevista
Pode ler mais neste ficheiro em pdf, e ainda ouvir aqui excerto audio disponibilizado no site da entrevistadora, Casal das Letras

07/09/2004

"O Romance É Diferente Depois de Mim"


Público - entrevista de Alexandra Lucas Coelho
15 Novembro 2003


"O Romance É Diferente Depois de Mim"


É uma porta de garagem, numa rua do centro de Lisboa daquelas que nunca sabemos se é a segunda ou a terceira paralela da outra (ou será perpendicular?).

António Lobo Antunes vem abrir. Lá dento é um atelier muito comprido. Logo à esquerda de quem entra há uma pequena mesa onde ele escreve - de tarde, porque à noite e de manhã escreve noutros sítios (este é emprestado). Nessa manhã estivera a escrever no Hospital Miguel Bombarda, onde continua a ir duas vezes por semana.

"Começo a escrever pelas oito e meia até ao meio-dia. Recomeço ao meio-dia e meia até às sete e meia. Depois recomeço às nove até à meia-noite." Umas 16 horas, incluindo meio almoço e jantar.

É assim que neste momento Lobo Antunes consegue ter um novo romance nas livrarias, "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo", que para ele já não é novo, porque o novo está aqui, em cima da mesa, em manuscrito, a ser corrigido. Falta-lhe ainda um título (o último que esteve para ser vinha de um poema de Bukowski).

Como o está a corrigir - capítulos passados a limpo, em letras gordas, com uma pauta por trás da folha, para as linhas ficarem direitas, e muito marcador negro -, é para este livro que lhe fogem os exemplos, volta e meia. Saiu-lhe da mãos e agora anda com ele na cabeça.

De "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo", "romance em três livros com prólogo & epílogo", já se desfez. O pano de fundo é uma Angola com diamantes a circular entre o governo português, o angolano, os que combatem o angolano, russos, cubanos, americanos, holandeses, judeus, quando não diamantes, petróleo, armas. Ao centro, as vozes que falam, dez vozes principais (oito homens, uma mulher, uma criança), vão e vêm quase todas como um carrossel, entre dezenas de outras (incluindo a do autor, António).

Encontrar as palavras para essas vozes - como estilhaços de um espelho em que tanto se veja aquele que escreve como aquele que lê - é a verdadeira luta, diz ele. E menos do que isso será contar histórias.


Há três anos disse que gostava muito de voltar a Angola, que gostava de morrer lá, mas que não ia voltar enquanto houvesse guerra. Entretanto a guerra acabou. Vai voltar a Angola?
Não sei... não sei. Sinto vontade, mas tenho medo. No sentido em que as cidades de que gostava ficaram destruídas. Tenho medo de encontrar uma Angola muito diferente daquela que conheci. Tenho medo de que esteja ainda mais pobre... Não me apetece ver aquele país mais destruído ainda. Aquelas pessoas sofrem há muitos anos... Ao mesmo tempo, isto passa-se num país onde as pessoas são naturalmente alegres. Parece-me uma injustiça horrível esse sofrimento. Eles são pobres, o país é muito rico - é riquíssimo...

O que aconteceu não o encoraja a voltar?
Refere-se a quê?

À paz. Ou acha que não se pode falar de paz, ainda?
Não sei se há, estou muito longe. É possível que haja paz, mas há também muito ressentimento. Só vendo, lá.

Acompanhou  morte de Savimbi, o que se passou a seguir...
Acompanhei mal, nem estava cá. Essa Angola [aponta para o livro] é toda inventada.

Em 2000 disse que se pudesse escolher uma nacionalidade escolhia ser angolano. A dúvida "vou, não vou a Angola" existe na sua cabeça?
Tenho vontade, mas não sei se posso ir a Malanje, se posso ir às Terras do Fim do Mundo, se posso ir à Baixa do Cassanje...

O que o impede de experimentar?
Actualmente, o trabalho. Cada vez a noção do tempo é mais viva.

"Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo" ainda não é aquele livro que sempre disse que queria escrever sobre a guerra [colonial] em Angola.
Não, obviamente não é... Penso que não vou fazê-lo. O que poderá ficar da guerra, muito mais vivo do que isso, são as cartas que diariamente escrevia de lá. É muito comovente... cartas escritas por um miúdo que queria ser escritor, cheio de dúvidas...

Cartas a quem?
À Zé, com quem estava casado. É um documento impressionante, porque é a guerra vivida dia-a-dia. Acho que a publicação daquilo, um dia, me dispensa de escrever sobre... está ali tudo o que eu podia escrever. E está tudo muito fresco.

Cartas ao longo de dois anos [1971-1973, o tempo que Lobo Antunes passou na guerra em Angola]?
Ao longo do primeiro ano, apenas na altura das Terras do Fim do Mundo, todo o ano de 71 e provavelmente início de 72. São cartas sem qualquer pretensão literária, às vezes têm bocados de romances, projectos de poemas, coisas assim... cartas ao filho que pensava que ia ter e afinal era uma rapariga...
Vivia-se permanentemente com a sensação... a gente escolhia os caixões...

Escolhia os caixões...?
Era. Havia uma arrecadação onde estavam os caixões, este é o meu, o teu... aquelas coisas macabras dos miúdos. Agora apercebo-me de que isto era feito por miúdos, os soldados tinham 21 anos, os oficiais tinham 24, 25... Julgo que está ali tudo aquilo que eu podia fazer num romance, com uma espontaneidade, uma ingenuidade que descreve bem os estados de espírito de um oficial novinho que de repente se vê metido naquele - como dizia o Melo Antunes - erro formidável.
E deixava-me livre para escrever outras coisas, a publicação das cartas - sem qualquer crítica, sem qualquer omissão.

Desistiu do romance sobre a guerra em Angola quando decidiu escrever "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo"?
Quando o comecei, o livro não era nada disso [Angola em fundo]. O pretexto para o escrever eram as seitas religiosas - de que ainda há restos, aliás. Era bastante inspirado em factos reais. a seita do livro teria sido começada por um português em África, aparecia-lhe Nossa Senhora e depois ele tinha vindo para Portugal e continuado. A primeira ideia era essa. Ao primeiro ou segundo capítulo o livro foi alterando e percebi que não era aquilo que o livro queria...
Eu dantes partia para o livros com planos muito detalhados, agora parto praticamente sem nada, este comecei a escrevê-lo sem nada.

O que é que lhe apareceu a seguir?
Começaram a aparecer os diamantes, as pessoas... Cada vez mais me parece que um livro é um organismo vivo, faz o que quer. E temos que ir atrás do livro, fazer aquilo que o livro exige. É m organismo independente.
Como é que hei-de explicar o processo?... escrevo estas horas todas porque as duas primeiras horas normalmente são perdidas. Aquilo que tento encontrar dentro de mim é um estado semelhante ao dos sonhos, mas para isso tenho de estar fatigado. Sempre que não estou cansado a minha auto-censura obriga-me a escrever prosa de escriturário, sujeito, predicado, complemento... À terceira ou quarta hora aquilo começa a ficar livre e a mão anda sozinha.
Agora, por exemplo, estou a corrigir [o manuscrito do novo romance] e tenho que estar muito desperto, porque as primeiras versões estão cheias de asneiras. Mas sempre me foi claro que a primeira versão continha tudo, que era uma questão de trabalhar.

Há pelo menos dez vozes principais neste romance - e muitas mais que aparecem, irrompem, incluindo a sua própria, com nome, António. Foram-lhe aparecendo à medida que o livro se ia escrevendo?
Exactamente. Como com este livro [pega no manuscrito]. Nem sequer tem plano... Está a ver? [Lê anotações] "A 10 de Janeiro desfiz novamente os capítulos..."

Como é que evita perder-se neste carrossel de vozes sem um esquema, um mapa?
Hum... Ele faz-se sozinho. Cada vez mais.

Há pouco estava a dizer que esta é uma Angola inventada...
Como Portugal é inventado.

... esteve em Angola entre 71 e 73 e nunca voltou. No livro muitos detalhes, histórias, cheiros, objectos virão dessa memória. Outros vêm de gente que encontrou entretanto? Para inventar esta Angola precisou de trabalhar outras memórias que não apenas as suas?
Nada, nada. Não falei com ninguém. Não há qualquer trabalho de documentação.

De onde é que lhe apareceram aquele Serviço [negócio de diamantes disfarçado] na Praça de Touros, em Lisboa, aqueles homens que vão para Angola, o Seabra, o Miguéis, o Morais...?
Há um livro curioso, feito por um francês, de entrevistas com escritores, muitos americanos, também franceses. Então o John dos Passos é: como é que escreveu o "USA"? De onde é que lhe vêm as coisas? E o John dos Passos: "Bom, uma pessoa vai pela rua..." E não disse mais nada. Por exemplo, a entrevista com o Hemingway é extremamente decepcionante. Percebe-se que ele está a tentar fazer um esforço honesto para explicar e que não é capaz de dizer mais do que aquilo. A impressão que dá é que toda  sua organização mental foi trabalhada no sentido de escrever.
Dá-me sempre a sensação - não sei se já disse isto - de estar a escrever contra a parede, e o papel está do outro lado, nem sequer sei se estou a acertar. O que me espanta, quando corrijo, é as coisas fazerem sentido, porque nunca me documentei, tive sempre muito medo de ficar submerso nessa documentação.
Quando estava a escrever este livro [o que ainda está em manuscrito] aconteceu-me uma coisa que nunca me tinha acontecido. Estava a escrever e dei-me conta de que estava a chorar... eu que sou uma pessoa que não choro... a escrever e a chorar... com as lágrimas a correrem-me pela cara abaixo. E não era tristeza, era uma tal felicidade como nunca tive outro momento assim, muito mais feliz, muito mais completo que um orgasmo, do que qualquer outra coisa. Uma felicidade inimaginável - infelizmente durou só um dia... Porque era exactamente aquilo. Há momentos em que se está a escrever e se percebe: é isto. a sensação de que a palavra é certa dá imenso prazer. Quando as pessoas dizem: o livro é triste, o livro é não sei o quê... A mim, o que me dá prazer enquanto leitor é a felicidade da expressão. É difícil de explicar, porque são coisas anteriores às palavras, e cada vez mais, felizmente os livros vêem dessa zona, a que não temos acesso. A estrutura dos livros... depois vejo que é muito elaborada, mas não é conscientemente elaborada...

No caso de "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", três livros com dez capítulos cada...
A partir de certa altura pensei, bom, vou fazer isto em três livros, com prólogo e epílogo. E não fazia a menor ideia do que ia ser o epílogo.

O que está a dizer é que o pano de fundo - Angola, os diamantes, aquele pós-independência - podia ser isto e podia ser outra coisa.
Exactamente. [O que me importa é] como vertebrar emoções, como rodear emoções com as palavras, e depois articular isso tudo num todo. [Angola] é apenas um pano de fundo.
Quando lemos um bom escritor é para nos conhecermos a nós mesmos. E a primeira pessoa a surpreender-se é a pessoa que está a escrever. São coisas que a gente não sabe que sabe.

Num caderno agora feito pela Dom Quixote, a propósito dos 20 anos de António Lobo Antunes nesta editora, vem a reprodução de uma crónica sua em que diz: "o livro ideal seria aquele em que todas as páginas fossem espelhos: reflectem-me a mim e ao leitor, até nenhum de nós saber qual dos dois somos"...
Estou mais reconciliado com as crónicas. Desprezava-as muito e agora, ultimamente, têm-me servido como uma espécie de coisa paralela aos romances. Quase um diário, paralelo.

No primeiro livro de "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo" há um momento em que aparece a voz, de nome António, a dizer: "É difícil este romance", "esta narrativa que mais do que as outras se tornou uma doença"...
E depois há uma ou duas alusões... lembro-me de uma: "Está bem, põe lá os pavões, deste-te bem com os pavões noutro livro..."
O mais difícil para mim é sempre a primeira parte dos livros. Depois aquilo anda sozinho. Mas no princípio tenho que andar a empurrar.

No momento em que se põe a si próprio no livro, como António, o que é que se passa? O livro está preso?
Acontece em vários livros... No "Que Farei Quando tudo Arde?" [2001] há uma personagem que se chama Antunes Lima... Lima é um dos apelidos da minha mãe... "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura" [2000] é a minha história. Não tem nada a ver comigo, não sei explicar isto bem, mas aquela rapariga sou tão eu... foi uma relação muito boa com ela. Já com o rapaz de "Que Farei Quando Tudo Arde?", a gente não se entendia. Este ["Boa Tarde..."]... este correu bem.

Quando aparece a dizer "este romance está difícil", isso corresponde a um momento em que não tem a certeza de para onde é que aquilo vai?
Nunca sei muito bem para onde é que aquilo vai.

É que no resto do livro [a interpelação do autor] não volta a acontecer.
Não sei... acabei a primeira parte e parte e pensei: e agora? Depois lá apareceu o outro homem [o narrador do segundo livro, Miguéis].

Na primeira parte já sabemos que ele vai aparecer. Ele já é nomeado.
Mas como é que ele era? E o que é que ele vai fazer? Como é que ele se vai comportar? Portanto, quando ele aparece a dizer aquelas coisas sobre as mulheres [exemplo: "não me canso de repetir aos mais novos se não educam as vossas esposas desde o princípio estamos mal: tomam o freio nos dentes que é a natureza delas"] fiquei um bocado aborrecido... Mas depois... Esse homem da segunda parte, gostei dele.
Este livro tem uma relação feliz com as palavras. Eu estava muito contente quando estava a escrevê-lo, tinha a certeza absoluta...
Ao princípio fui tão atacado aqui... e curiosamente isso nunca me afectou. Estava tão seguro do que queria, tão seguro, tão seguro, tão seguro... e ainda estou. Daí eu não ler as críticas.

Tão seguro em relação a este livro?
Em relação a todos os livros que escrevi. Estava sempre tão seguro. E levei porrada, houve jornais..

Em relação aos seus últimos romances...
Ui! Quer que lhe lembre?

... não me recordo de críticas negativas.
Em relação a todos eles, desde o princípio ao fim. E era-me completamente indiferente. Estava tão seguro, tão seguro...

Continua a ter a sensação de que aqui não entendem os seus livros?
Acho que não me posso queixar porque as pessoas são tão entusiastas em toda a parte... Estão a chegar as críticas da Alemanha, são inacreditáveis. Nos Estados Unidos, em Espanha, em toda a parte. Agora, o que me parece é que ainda é cedo. Porque os livros também me escapam a mim.

Ainda é cedo para quê?
Para se perceber o que eu trouxe ao romance, por exemplo. Uma vez perguntaram ao Somerset Maugham em que lugar é que ele se colocava enquanto escritor. E ele respondeu: na primeira fila dos escritores de segunda ordem. Tal como o entendo, são pessoas que escrevem bons romances mas que não trazem nada de novo à arte de romance. Como o [Saul] Bellow, por exemplo, que acho um excelente romancista mas não tem nada de novo, não mudou. Ou o [Philip] Roth... todos os discípulos do Bellow, o Roth, o Martin Amis, toda essa gente anglo-saxónica... escrevem histórias bem contadas, mas para mim um romance não é isso. Quer a gente queira quer não, e eu não sou o grande fã, o García Márquez trouxe coisas novas.

E foi imediatamente recebido. Foi compreendido.
Esse foi. Porque aquilo é tudo muito aparente. Aquilo está tudo à vista. Por exemplo, repare, todos os mal-entendidos que houve com o [Joseph] Conrad, mesmo depois da morte...

O que é que o António Lobo Antunes pressente que trouxe ao romance?
Sem ser hipócrita? E sem falsas vaidades? Acho que o romance é diferente depois de mim, necessariamente. [Pausa. Aponta para o manuscrito.] Isto não se parece com nada. Sobretudo os últimos livros. Se voltasse atrás teria começado pelo "Tratado [das Paixões da Alma", 1990]. Embora me pareça que o "Fado Alexandrino" [1983], se é que os romances vão ficar, é um romance que tem boas chances de ficar, mas não pelos motivos que me interessam - porque é um retrato de Portugal. Interessa-me muito mais o trabalho criativo [verifica a lista dos seus livros]. Sobretudo a partir do "Esplendor [de Portugal", 1997], a "Exortação [aos Crocodilos", 1999], "Não Entres...", "Que Farei..." é onde me parece que isso é evidente.
Embora muitas das coisas que faço agora estejam em botão no "Conhecimento do Inferno", que foi um livro mal entendido na altura. "Memória de Elefante" [1979] é um livro de principiante..., "Os Cus de Judas" [1979] é um livro primário... espanta-me muito que esses livros continuem a vender...

Voltando à crónica em que fala dos livros como espelhos de si e do leitor: "Tento que cada um seja ambos e regressemos desses espelhos como quem regressa da caverna do que era. É a única salvação que conheço e, ainda que conhecesse outras, a única que me interessa." Noutra passagem diz: apanhem o meu romance como quem apanha uma doença. Ou seja, põe o leitor dentro do próprio organismo que é o romance.
E ao mesmo tempo diz que ainda é cedo para o leitor se ver a si próprio no romance...
É porque eu desejava que estes livros fossem retroactivos. À segunda ou terceira vez o livro fica diferente. O que desejaria era que os livros tivessem uma capacidade de ir mudando, embora as palavras se mantenham sempre. Acho que a grande literatura é assim. Por exemplo, sei lá, li mais de 20 vezes "A Morte de Ivan Ilitch" [de Tolstoi], e de cada vez era um livro diferente.

Há alguém em quem confie para lhe dizer, por exemplo: "Estás a repetir-te"?, ou "Muda isto"?
O meu leitor privilegiado é o agente [americano] Tom Colchie.

Ele lê em português?
Sim. Tem uma especialização em cancioneiros medievais portugueses. Fico inquieto até ele ler, porque é muito cruel. Há muitos anos, um escritor muito respeitado queria ser representado por ele Resposta: não vou agenciá-lo porque você é mau escritor. Fiquei gelado. Nós não dizemos isto em Portugal. Quando uma editora rejeita um livro não diz que não gosta do manuscrito, diz que a programação está cheia.

Que eco tem recebido dos seus leitores?
Acho que as pessoas têm sido generosas. Fui uma vez dar autógrafos à Feira do Livro e fiquei surpreendido com a quantidade de pessoas muito novas. Lembro-me de um pai com uma filha de 17 anos. E o pai dizia: "Ela adora os seus livros, eu não percebo nada." A miúda dizia que estava a ler pela terceira vez... acho que era o "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura". E eu: "Então não achas um livro difícil?" Olhou para mim como se eu fosse uma besta.
É muito engraçado... talvez porque o pensar desta geração não seja lógico-discursivo, seja muito mais sincrético. E isto [aponta o livro] vai um bocado ao arrepio do que se convenciona chamar um romance.
O que acontece, enquanto leitor, é que começo a ler e tenho logo vontade de corrigir. A gente vai ler para ver como é que está feito. E depois é preciso que o livro tenha muita força para me arrastar. É muito, muito raro acontecer.

Há uma voz de que se sinta mais próximo neste romance?
O que sei é que os últimos capítulos são escritos ao dobro da velocidade dos primeiros...

Isso nota-se. Há uma velocidade no terceiro livro de "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo".
É porque o romance já está sozinho, já não precisa de mim para nada. A primeira parte demora a arrancar. O início de cada capítulo... às vezes estou horas à espera.

Há pouco estava a dizer que não sabia como ia acabar o livro. Decidiu que o livro teria um epílogo antes de saber o que seria o epílogo...
Fiquei aflito, à espera. E depois apareceu a miúda, a fazer uma redacção das férias. Escrevi [esse epílogo] várias vezes.

Para si, aquela menina está a escrever quando? Angola supostamente já está em paz...
Sim... exactamente. Julgo que a parte dos diamantes... Há quanto tempo é que morreu o Savimbi?

Um ano e qualquer coisa [Fevereiro 2002].
Julgo que é mais ou menos coincidente com a notícia da morte dele. Pelo menos, a partir de metade do livro. Ele morre por aí, durante a feitura do livro. Não sei se isso terá tido alguma influência. O Savimbi era um homem de quem eu não gostava, tinha-o visto uma ou duas vezes em Luanda. Os "complôts" que existiam com  o governo português de então, com a polícia política, pareciam-me claros... o facto de os Flechas [militares angolanos treinados pela PIDE] serem quase todos da UNITA... Não me era uma figura simpática, embora me parecesse um homem extremamente corajoso.
Mas a crueldade e a violência... É uma coisa curiosa como muitas vezes a crueldade vem misturada com a alegria. Quando vejo os antigos soldados a falarem, falam daquilo como a melhor época da vida deles...
De alguma maneira Savimbi deve ter entrado no livro, não sei como. O livro tem muita violência... lembro-me do que me custou escrever o capítulo em que há a filha de um deles que é morta, e há um cavalo...

A filha do que tem o mapa [o Mateus, capítulo III do terceiro livro].
Exactamente Aqui há uns anos... nunca me esqueci dessa imagem... eu estava na Margem Sul à noite e de repente um cavalo branco sozinho atravessou a estrada. Não sei se era de ciganos, vinha a galopar e ia batendo nas coisas. Sabe aquelas lojecas, os restaurantezinhos à beira da estrada... saiu ali de uma esquina às escuras e atravessou. É o cavalo, julgo eu, que aparece aí [no livro] a galopar.

Mas foi de alguma forma a morte de Savimbi que lhe deu o pano de fundo do livro, os diamantes...?
Não, isso começou tudo sozinho. Indignava-me como toda a gente queria roubar aquele país de todas as maneiras, os americanos, os holandeses, os israelitas, os sul-africanos...

O lapso de tempo [nos três livros do romance] é qual?
Na minha cabeça era passado agora. Quando eu estava lá toda a gente traficava com diamantes, eu também tentei, não acredito que isso tenha parado. Ia ao rio Cuando e apanhava-os... apanhava carvão a maior parte das vezes, mas havia lá sempre gente.

Tentou apanhar diamantes?
Comprei. Mas nenhum deles era verdadeiro.

Quando se punha o reagente...
Dissolvia-se tudo.

Como acontece no livro.
E também era um judeu.

Ah, o judeu do livro vem daí.
Era o homem a quem toda a gente ia, oficiais, tropas. Havia a Diamangue, uma polícia própria para os diamantes, o tráfico chamava-se Camanga, parece que Malanje era uma cidade muito rica...
Mas não coloca a acção na altura em que lá esteve, coloca-a depois da independência.
Exactamente. Porque não acredito que isso tenha acabado. Iam ao rio com peneiras, faziam vigarices do género... partiam cabeças de galheteiro e muitos iam comprar o vidro...

Porque é que escolhe situar o núcleo da história depois da fase em que lá esteve?
Se o livro foi escrito em 2002, o livro é passado em 2002.

O Seabra, o homem do primeiro livro, vai para Angola quando? No cais há restos das bagagens dos portugueses que se foram embora, estamos depois da independência, fala-se nisso...
Sim... Também há um desprezo infinito pelos tempos. Há os tempos reais e o tempo romanesco.

Há sinais que o António Lobo Antunes põe no livro: há um governo em Luanda que tem ligações com o Serviço português, há os vestígios das bagagens dos que partiram, há os cubanos, os russos, estamos no princípio da guerra civil...?
Digamos que é... pôr aquilo que se passou ao longo de uma série de tempo no mesmo tempo, como nos filmes.

A guerra não está lá. Ou melhor, está lá muito ao fundo, muito atrás. Não está na boca de cena.
A guerra está dada no interior de cada personagem. Dentro de cada uma delas há uma guerra civil em que os sentimentos contraditórios se devoram como grandes cães negros. Por exemplo, no homem do segundo livro há várias guerras, há a guerra dele com as mulheres, a guerra dele com o Serviço... Os conflitos são muito intrapsíquicos, passam-se entre eles e eles mesmos. É um jogo de espelhos infinito onde cada personagem é confrontado com vários outros que funcionam como espelhos, dando-lhe várias imagens parciais e com as quais ele está em conflito.
A única coisa em que pensamos quando escrevemos é: como vou fazer o livro? Está-se constantemente a lutar com as dificuldades. Só vale a pena começar um livro quanto temos a certeza de que não somos capazes de o escrever. E depois lutar contra a resistência do material todo. Julgo que muitas pessoas escrevem livros porque acham que são capazes de os escrever. A gente tem de fazer o contrário. À partida pensar: não, eu vou ser derrotado pelo livro. E depois: mas que gaita... não vou deixar que um livro me vença. Quando estou a escrever o que quero conseguir é um estado interior que me permita que as coisas saiam.

Mas fugiu à guerra. Não a enfrentou, neste livro.
Não a enfrentei como? Não estou a entender a pergunta.

Não é o livro sobre a guerra em Angola.
Sim. Não tinha de ser. Parti para ele com essa ideia das seitas. A rapariga do princípio era uma das filhas do homem que fundava a seita, que depois acabava por a destruir, tipo Casa de Usher [história de Edgar Allan Poe]. E depois tudo se alterou. Portanto, o meu problema era: o livro quer isto; como vou conseguir dar cada passo a lutar [bate na mesa com força] com a resistência do material...

Sente que arrumou as contas com Angola com este livro ou não?
Não faço ideia. Um livro não está na cabeça, está na mão. Um livro não se faz com ideias. É o livro que tem de ter as ideias, não é o autor. O livro tem que ser mais inteligente que o autor. Não gosto de ler aqueles livros em que se está sempre a ver o autor a aparecer: repara como eu faço, repara nesta metáfora, nesta imagem, repara como eu arranco isto... retira a eficácia ao livro. Às vezes custa uma pessoa retirar do livro certas "tournures" que saíram muito bem. Um livro não tem que ser bonito, tem que ser eficaz, no sentido de ser implacável. Tem que andar implacavelmente [bate na mesa] pan, pan, pan, pan, levando tudo à frente, a começar pelo próprio autor. Daí não haver nenhum motivo para se ser orgulhoso... vaidoso. Uma pessoa tem que ser muito humilde.
São precisas três coisas para escrever: paciência, solidão e orgulho. Isso é que faz com que escreva, e reescreva e reescreva e reescreva...

Orgulho como?
No sentido de fazer as coisas de forma a não se envergonhar delas perante si mesmo.[pausa] Eu não gosto de livros de puta.

Livros de puta...?
O Zé [Cardoso Pires] quando saiu um romance qualquer, não sei qual, disse: "Este é um livro de puta." Não gosto dos livros que vêm tentar seduzir-me, que me piscam o o olho, que me convidam para dormir com eles... não sei se estou a ser claro. Estou a falar enquanto leitor. Portugal não é um país pequeno? Quantos escritores finlandeses bons há? Se houver quatro ou cinco escritores vivos a escrever bons romances... não há mais.

Foi buscar o título deste livro a Enrique Vila-Matas. A uma história que o Vila Matas conta [em Bartleby & Companhia] sobre o Valéry Larbaud, que ao fim de anos de silêncio, numa cadeira de rodas, resolve dizer: "Bon soir les choses d'ici bas".
Interessou-me a frase.

Ao ler "Bartleby & Companhia"?
Ao ler assim [desce a mão na diagonal]. Tropecei na frase e a frase encontrou-me. Depois comunicando ao [editor francês Christian] Bourgois, ele já conhecia a frase. O Larbaud, eu já conhecia da adolescência. Primeiro, por causa da tradução do "Ulisses" [de Joyce], depois por alguns prefácios luminosos que ele escreveu, era um personagem que me fascinava...

Já tinha o livro feito quando tropeçou na frase?
Estava a meio.

Então tropeçou e disse: este é o título do meu livro.
Sim. Como aconteceu com "Exortação aos Crocodilos": estava a meio de um livro, um dos textos chamava-se "Exortação aos Crocodilos" e pensei: é este que vou usar. Normalmente é assim. Não leio o livro, sequer.

E a frase do Larbaud interessou-lhe porquê?
Gostei dela. Não tinha qualquer outro significado. Tenho muitas dificuldades com os títulos. Claro que depois posso pensar, a posteriori...

E o que é que pensa, à posteriori?
Penso que tem uma data de significados e é suficientemente ambígua. Tem duas coisas que me interessam: por um lado é muito clara, por outro lado é muito ambígua. Aliás, depois discuti com o Eduardo Lourenço o aqui, o ali, e se 'bon soir' será boa tarde... mas em português era como melhor me soava.

Também fez isso em relação ao Dylan Thomas, traduzir ["Do Not Go Gentle Into That Good Night" por "Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura"] como lhe soou melhor.
Aprende-se muito a traduzir e a fazer cópias. Eu faço muitas cópias nos intervalos dos livros.

Cópias...?
Sim, como na escola. Agarro num livro e copio, para tentar perceber como é que ele fez, um capítulo ou dois. Palavra por palavra.

Como é que aparece o "Cântico dos Cânticos" [em fragmentos a itálico não identificados, capítulo V, livro primeiro de "Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo"]?
Não é uma parte que é uma história de amor?

Sim...
Eu devia ter citado isso. A tradução não é minha, é uma tradução admirável de um poeta que está esquecido, o Paulo Mendes Campos [brasileiro, 1922-1991].

Apareceu-lhe de repente?
Estava a pensar no Paulo Mendes Campos. E achei que estava bom para pôr ali.
[Levanta-se para retirar o livro "Diário da Tarde", de Mendes Campos, que, mais que manuseado, está a transbordar de papeis]
Lembra-se daquele poema "Depois do Enterro?" [de Dylan Thomas], que é lixado de traduzir? Tenho várias versões desse poema e são todas uma merda... Olhe como este gajo consegue...
[Diz o poema, em que aparecem avencas]

O seu livro tem imensas avencas...
Pois tem. São tiradas daqui.


Público
15.11.2003

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...