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23 de abril de 2006

La noche de los libros


Auditório do Pelouro de Cultura e Desporto da Comunidade de Madrid
A Noite dos Livros
20.04.2006


Encontro com António Lobo Antunes


Na noite em que conheci António Lobo Antunes - disse Armas Marcelo na apresentação - estava exactamente tal como o vêem agora. Estávamos jantando vários numa mesa e ele permanecia absorto, concentrado em si mesmo, como se estivesse noutro lugar. Porém, estava inteirando-se de tudo, como agora...

O escritor português António Lobo Antunes com o escritor canário Juancho Armas Marcelo, durante o encontro. Foto de EFE (El Mundo).


Desculpem-me se não me ouvem bem, falo muito baixo.


Lembro-me com livros desde que nasci. O meu pai estava sempre a ler. E eu me perguntava que conteriam aqueles livros, que não tinham desenhos, nem fotografias, mas tão só palavras. Aos três anos tive tuberculose, e exilaram-me em casa do meu avô paterno. O meu avô era capitão de cavalaria e achava que isso de ler eram mariquices, coisas de mulheres.. Isso fez com que me sentisse dividido, pois via o meu pai concentrado nas suas leituras e ficava com dúvidas se ela seria maricas. As minhas tias, ali em casa do meu avô, tinham a colecção toda de Corín Tellado. Assim foram essas as minhas primeiras leituras. E Flash Gordon e Mandrake. Não posso dizer como muitos escritores que posam afirmando que as suas primeiras leituras foram Homero, Ovídio, etc.

Tempos depois mandaram-me para o outro avô, no Norte. O comboio trazia o jornal ao meio-dia. O meu avô só lia a necrologia. Lia um nome. E exclamava: "morreu aos cinquenta anos, que idiota!". Depois outro nome, e: "morreu aos quarenta e dois anos, que estúpido!". Era o seu triunfo quotidiano sobre a morte, o seu modo de exprimir que ia seguindo vivo. Vi a morte então de outro modo: a morte era quando os olhos se tornavam pálpebras. Nada mais que isso. A avó, por seu lado, dava-me a Vida dos Santos para ler, mas não gostava muito.

Aos oito ou nove anos, lembro-me, estávamos de férias na praia. Meu pai só ia aos fins-de-semana para nos atormentar. Impunha-nos ler durante a semana o capítulo de um livro e escrever uma "apreciação". Então passei o verão escrevendo "apreciações". Embora deveria seguir aquele dito: "eu jamais leio os livros que critico para não me ver influenciado por eles". Recordo o meu pai nesses fins-de-semana lendo sem parar Flaubert e outros escritores franceses. Meus pais eram um casamento feliz: o meu pai mandava e a minha mãe obedecia. Como todos os homens e mulheres dessa época.

Com nove ou dez anos comecei a escrever. Poesia. Muito má. Um dia quis saber o que achava a minha mãe das minhas poesias. Comprei um papel especial e escrevi com uma caligrafia muito cuidada. Minha mãe disse-me para me dedicar a outra coisa, que não pensasse em escrever porque não tinha talento algum para a escrita. Mas esse comentário estimulou-me: comecei a escrever contra a minha mãe.

Depois, quando se chega aos quinze anos descobre-se a diferença entre a boa escrita e a má. Aí começa a angústia. E depois, a diferença entre a boa escrita e a obra de arte. E finalmente, entre a obra de arte e a obra-prima. E a angústia já não nos abandona, nunca.

O meu tio vinha de vez em quando do Brasil - porque o meu pai era filho de um brasileiro casado com uma alemã - e trazia-nos um montão de livros. Então a minha mãe pegava num lápis vermelho e outro azul, e com o vermelho ia marcando aqueles livros que não podíamos ler e com o azul os livros permitidos. As cruzes vermelhas eram destinadas a livros em que apareciam mulheres nuas e coisas assim. Se fosse por minha mãe, a raça extinguia-se connosco, porque censurava tudo que fosse relacionado com a reprodução.

Meu pai era neurologista, um grande admirador de Ramón e Cajal. Trabalhava na Alemanha e vinha apenas uma semana por ano para nos ver. E quando se ia embora, o ventre de minha mãe começava a crescer. Eu perguntava-me: Que haverá na Alemanha que faz crescer o ventre da minha mãe?

Um irmão da minha mãe trabalhava numa revista literária, e ofereceu-me uma subscrição. Aí li um poema em que reparei que as palavras, a sintaxe, a gramática podia ser retorcida, forçada. Não há que respeitar as palavras, mas tratá-las como um corpo, como um corpo de mulher, há que apalpá-las, cheirá-las, apertá-las...

Frequentava um restaurante de escritores. Escritores que tinham já livros nas livrarias. E eu observava-os: um cuspia ao comer, outro tinha coisas brancas no cabelo, outro remexia continuamente um palito na boca. Eu pensava que os escritores eram espíritos puros. Um dia conheci um deles, um poeta amigo do meu pai, muito gordo, vestido completamente de linho branco e comendo um gelado em frente de uma loja de lingerie. Eu olhava aquele homem chupando sem parar aquele gelado enquanto contemplava os soutiens. Embora depois ele nunca tivesse escrito sobre soutiens. De tanto ver aqueles escritores pensei: "Tenho de ser feio, senão não posso ser escritor".

Aos quinze anos, os dirigentes do Benfica vieram a casa para falar com o meu pai. Queriam inscrever-me, e assim fui jogar no Benfica. Ia aos treinos com um livro, por exemplo, Quevedo, que é um dos meus escritores preferidos. E os outros jogadores estranhavam por eu levar livros para os treinos. Com dezasseis anos, chamaram-me à selecção nacional para jogar a Taça da Europa. O treinador tinha dúvidas em colocar-me: não pelo meu jogo, mas porque lia. Gostava de ler de tudo. Hoje continuo gostando de ver os escritores autografando livros nas férias. Escrever é tão difícil...

Chega um dia em que se encontra os escritores favoritos. Quando encontrei os meus, era como ir caminhando entre a névoa: não os entendia. Lemos sempre segundo o nosso critério,  a nossa experiência, as nossas emoções. Mas cada livro há que ser lido não com as nossas chaves mas com olhos virgens, desprevenido, de modo que se estabeleça uma relação pessoal com ele: "Emily Dickson escreveu para mim, não tenho a menor dúvida". E esses livros não se podem emprestar.

Durante o curso de medicina, ia escrevendo, mas tudo me parecia mau. Não participei em movimentos estudantis, nem em revoltas contra Salazar: escrevia, lia e jogava ao xadrez. Ao acabar o curso, comecei a trabalhar num hospital inglês fora de Lisboa e ao regressar a casa pelo Natal, tinha uma notificação do exército para ir à guerra. Pensei em fugir, mas os cidadãos não tinham passaporte. Tudo era controlado pela polícia política. Pagando muito, talvez se pudesse escapar, assim só gente de muito dinheiro conseguiu fugir. Anos antes, o meu avô tinha prometido que se aquele menino de três anos não morresse de tuberculose me levaria a fazer a comunhão a Pádua, ao túmulo de Santo António. Devido à impossibilidade de viajar ao estrangeiro, não me pôde levar, mas ofereceu-me as fábulas de Lafontaine, que não li então, mas depois. Daquelas fábulas impressionou-me que um cão pudesse olhar para um bispo. Esse era um conceito democrático, porque até então só o bispo é que podia olhar para o cão.

Mandaram-nos para Angola. Éramos um grupo de seiscentos e morreram cento e cinquenta. Todos putos: nós os oficiais tínhamos vinte e três anos e os soldados tinham vinte. O capitão tinha trinta e quatro e parecia-me um velho, estava acabado. Este capitão obrigava os oficiais a usar gravata para sentar a jantar. Eu odiava isso. Estávamos todo o dia em uniforme de campanha, sujos e salpicados de sangue. Vendo os nossos companheiros morrer ou cair feridos. Tudo era sangue, sangue. Depois entendi que esse gesto de colocarmos a gravata era para preservar a humanidade, para continuar a manter contacto com a humanidade. Também líamos poesia uns aos outros durante o jantar. Creio que isso nos salvou da loucura. Lembro-me de um soldado, que se pôs de pé durante a noite, pegou na sua arma e caminhando entrou sozinho na mata. Queria morrer. Por esse caminho chegava-se ao inimigo. Entendi porque é que os nazis ou a polícia política de Salazar queimavam os livros. Em Angola, durante a guerra, vi que os livros tinham uma utilidade prática.

Cada vez gosto de menos escritores, porque agora quando leio não sou inocente. Começo a ler e começo a corrigir. É tão difícil escrever. E mais difícil corrigir. Uma primeira versão é sempre má, mas já está tudo nela. Há que trabalhar e trabalhar sobre ela. Há três coisas necessárias para ser escritor: paciência, orgulho e solidão. Sobre a solidão lembro-me sempre as palavras de Sánchez Ferlosio: "Carmen é uma viúva que tem o defunto em casa".

Eu escrevia romances e atirava-os ao lixo. Escrevia para ser o melhor. E sabia que não o era. Portanto, se não lograva, seria melhor atirá-los ao lixo.

Conheci um advogado com uma biblioteca imensa. Era um homem muito atraente, notei pelos olhares das mulheres. Um dia perguntei-lhe: "Miguel, continuas a comprar livros?" "Não, creio que se reproduzem entre si."

Cada vez mais vou diminuindo os meus autores preferidos: Conrad, Tolstoi quase sempre, Tchékov sempre, Quevedo. Gostei de Nabokov. De certo modo todos somos filhos de Nabokov, mas já não gosto.

Vive-se sabendo que nunca se fará o livro perfeito que se quer fazer.

Com a revolução de 1974 as pessoas esperavam que saíssem as obras primas que tinham permanecido no fundo das gavetas do escritores durante a ditadura. Mas não saiu nada. Os escritores continuavam a ter medo. Sartre, por exemplo, foi muito cobarde na invasão nazi, e foi a Lisboa para ensinar a revolução. E então um dia comecei a escrever Memória de Elefante. Nele narro o país que encontro ao regressar da guerra em Angola. Muitas coisas tinham mudado, e no fundo tudo continuava igual. Leu-o um amigo que depois passou a outro. Um dizia-me: "é melhor que tires a primeira parte", e o outro: "é melhor que tires a segunda parte"... Esse livro passou um ano sendo rejeitado pelas editoras. Finalmente saiu em 1979, em Julho, quando as pessoas iam de férias. O editor disse-me que Antunes era feio, e que seria melhor que o meu nome se ficasse por António Lobo. Mas disse-lhe: "Meu pai chama-se Lobo Antunes, que quer que faça?". Suponho que o editor procurava um truque porque não se vendia nada. Fui de férias em Agosto, as minhas filhas mais velhas eram ainda pequenas, e quando regressei tinham-se vendido cento e cinquenta mil exemplares do livro, e era famoso. O livro tinha uma foto na contracapa e as raparigas diziam: "certamente o livro é uma merda, mas vende-se porque ele é tão bonito". Seria graças aos meus olhos azuis.

Depois, comecei a escrever mais devagar: três ou quatro linhas por dia. Meia página se tanto. À noite, quase a dormir, lia coisas que não estavam no livro. E dei-me conta de que esse estado mental próximo dos sonhos tornava-me criativo. E chego a esse estado mental quando me sinto fatigado.

(Nesse momento cai o cartaz atrás de si que promove a Noite dos Livros e fica quedo. Depois acrescenta: "É porque me chamo Antunes")

Do que se publica agora, poucas coisas me chamam a atenção. Há dois anos li um livro intitulado "Alondra" que me maravilhou. É um casal velho que tem uma filha muito feia e que parte durante uma semana para visitar os tios. O casal fica só e em duzentas páginas o escritor descreve tudo, todos os sentimentos de angústia, de ternura, de rancor. Tudo está ali. Este romance é de 1924 ou 25 e ainda conserva a frescura. Tudo está descrito com uma mão maravilhosa. A capacidade de surpresa vai diminuindo porque já se leu muito. No século XIX havia trinta génios escrevendo ao mesmo tempo. Só em Inglaterra Dickens, Lewis Carrol, Keats, Dickinson, etc e assim nos outros países da Europa, mas agora não há mais que quatro ou cinco em todo o mundo. Outro dia estava com o meu sobrinho de seis anos. Eu trabalhava e ele jogava com o seu Gameboy. Essa criança foi privada da sua capacidade de imaginar, de sonhar, de desenvolver um pensamento. Só lhe importava matar e matar os inimigos naquela coisa. O mesmo se passa com a televisão. Em Portugal não temos "Aquí hay tomate", que me encanta. Que se passa com o filho da Pantoja? É tudo tão estúpido que é maravilhoso. Dentro de vinte anos temo que não vão aparecer bons escritores. Mas isso tão pouco importa: de cada vez que se lê Guerra e Paz, Tolstoi escreve-o de novo, porque descobre-se sempre coisas novas. Disse Keats: "A boa arte é uma alegria para sempre", e tem razão. Um livro tem que ser uma festa. O meu pai morreu fará em Junho dois anos, e lembro o que o padre disse: "Não fomos feitos para a morte mas sim para a vida". Odeio isto, mas tinha razão. Borges disse que Quevedo não é um escritor, é a literatura inteira. Ontem estive folheando-o no hotel. Um livro é mais possessivo que uma mulher ciumenta.

Espero que não se tenham aborrecido por ter falado tanto tempo...

original escrito por Oscar Marcos Mallo
em Dosdoce, Abril de 2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

12 de setembro de 2004

António Lobo Antunes em Buenos Aires, 2004


Feira Internacional do Livro de Buenos Aires (Argentina)
Maio de 2004


Convidado pela Editorial Sudamericana, Grupo Editorial Mondadori, para apresentar o seu livroBuenas Tardes a las cosas de aquí abajo, o escritor português António Lobo Antunes veio no mês de Maio e apresentou-se na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Foi declarado Hóspede de Honra pela Legislatura da Cidade Autónoma de Buenos Aires.


Nós que o lemos nas crónicas que escreve para o diário El País de Espanha, excelentemente traduzidas por Mario Merlino, e lemos seus livros, sabemos quão extraordinário escritor é António Lobo Antunes.

Falava em voz muito baixa, mostrava-se muito cansado, vinha acompanhado do seu editor espanhol, havendo passado pela Colômbia, onde apresentou o mesmo livro. O público escutava o escritor com respeitoso silêncio.

A viagem, o livro

"Foi muito duro", disse a respeito da sua estadia na Colômbia, referindo-se à pobreza, à violência, à agressividade das pessoas. Na Colômbia as classes altas olham de cima para o povo, disse o escritor. Situação que poderá ser extensiva a vários países da América Latina.

"Encontrei cá na Argentina alguns dos melhores jornalistas que encontrei na minha vida", disse. "Senti-me compreendido sem palavras", afirmou. O escritor manifestou o seu cansaço em falar, de mostrar simpatia, de sorrir, de demonstrar interesse durante a promoção do seu livro que já vinha antes de Colômbia, em outros países da Europa. "Creio que que não tenho somente respostas mas também perguntas", disse. "Não quero falar muito sobre o livro porque se pudesse falar dele, não o havia escrito", afirmou Lobo Antunes. "Passei dois anos da minha vida escrevendo-o. É muito diferente do livro que queria escrever. Necessitava de um ponto de referência". Partiu da ideia das seitas religiosas que se apropriam das pessoas sem cultura nem dinheiro. "A mão rejeitava essa solução. A mão voou até África, não tinha regressado a África depois da guerra", disse. "Não há nada mais violento que a guerra. Uma violência e uma crueldade que ao mesmo tempo me fez dar conta de facetas escondidas em mim", disse. "Há sentimentos contraditórios que nos habitam. Em todos os livros que as editoras publicam com o meu nome interessa-me que as páginas sejam como espelhos que nos devolvam essa visão dos sentimentos que nos habitam".

A guerra

Eu queria ter um filho porque pensava que ia morrer. Tive uma filha, quando regressei a casa não a conhecia. Custou-me três ou quatro anos para ter uma relação normal, a minha primeira reacção foi dizer esta não é a minha filha. No país mais sensual que conheci, África, em vez de fazer amor o que se fazia era apanhar prisioneiros, ter mortos.

Quando era médico

Quando era médico interno tinha que fazer três meses de cirurgia, de obstetrícia, de outras especialidades. Mandaram-me para a enfermaria de crianças com cancro terminal. Havia um caso de um menino de quatro anos, eu tinha vinte e dois. O menino, José Francisco, morreu. Estava na porta da enfermaria e via o pé do menino, haviam-no envolvido num lençol e via-lhe o pé. Tenho a sensação que é por esse pé que escrevo. Por um menino morto, não sei porque razão e em nome de quê. Há que escrever pelos que não têm voz, pelos que não podem falar, pela mãe das minhas filhas que morreu de cancro faz quatro anos. Também escrevo com muita alegria, não tenho tempo para deprimir-me. Tenho momentos em que a minha cabeça está cheia de cães negros que se devoram uns aos outros.

O seu último romance: uma história de amor

Em Novembro de 2003 terminou o romance "Eu Hei-de Amar Uma Pedra". De manhã escrevo no hospital, à noite no meu atelier, escrevo com a porta aberta, não gosto das portas fechadas.

Então contou o seguinte: "Vi passar uma senhora de negro e o médico que estava por ali contou-me a sua história: a mulher era uma camponesa de origem, e trabalhava como costureira. Quando jovem namorava com um rapaz que trabalhava no campo. Os seus pais mandaram-na a Lisboa para que tivesse uma vida melhor, para casa de uns parentes. O noivo também trabalhava muito. Viam-se quando se cruzavam na rua. Ela adoeceu de tuberculose, o rapaz escrevia-lhe mas os parentes não a deixavam responder-lhe. Ele pensou que ela teria morrido. Casou-se, estudou e teve filhos. A rapariga não morreu, voltou a trabalhar como costureira. Dez anos depois, um dia em que ela regressava depois de entregar umas roupas às clientes, encontrou-se com ele na rua. Durante cinquenta e três anos todas as quartas-feiras encontravam-se numa pensão. Ele estava casado. Não faziam amor, davam as mãos. Iam ver as acácias em flor. Ele ganhava muito dinheiro. Tinha alugado um quarto. Morreu quando estava com ela. O problema era como fazer sair o corpo da pensão sem que a esposa soubesse daquela relação. Ela chamou um dos genros dele para que o fizessem. Ela não pode ir ao funeral. Foi ela que contou assim esta história. Contei-a depois às minhas filhas e disseram-me: que mulher tão idiota. Para mim, a mulher da história tinha ficado com o melhor desse homem. Queria escrever essa história. Estive dois anos e escrevi um livro de amor. Hemingway dizia sempre que as histórias de amor têm um final triste. Tenho visto na minha família histórias de amor felizes, queria que essa história de amor me corresse no sangue. Não gosto de contar histórias mas contei-a para dizer que estou feliz por estar aqui".


original escrito por Araceli Otamendi
encontrado no site Triplov
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

1 de setembro de 2004

Seminário da Secção de Português da Universidade Paul-Valery em Montpellier


Seminário da Secção de Português da Universidade Paul-Valery em Montpellier
22 de Novembro de 1983


Lobo Antunes, convidado pela Secção de Português da Universidade Paul-Valéry, participou num seminário organizado em Montpellier em 22 de Novembro de 1983. A Secção de Português agradece vivamente ao escritor por ter querido voluntariamente prestar-se a este exercício universitário. Este texto reúne o essencial das declarações feitas por Lobo Antunes nesta ocasião, declarações recolhidas e coordenadas por Francis Utéza.

A Literatura Portuguesa actual

Na última Feira Internacional do Livro de Frankfurt, pretendeu-se que não havia actualmente na Europa senão duas literaturas verdadeiramente criativas: Na Alemanha Ocidental e em Portugal. O facto é que houve uma autêntica renovação dois ou três anos após a Revolução de 74, e creio que se pode afirmar que o século XX literário português começou nesse momento. O mais importante consistiu numa verdadeira reconciliação entre o público e os escritores. Anteriormente, devido à censura, nós devíamos fazer uma literatura “alusiva”, depois de 74 tudo mudou, para nós pelo menos. Além disso, vários escritores tiveram o mérito e sobretudo a sorte (porque é também uma questão de sorte) de serem lidos e traduzidos no estrangeiro, nomeadamente nos EUA. Hoje, estamos a caminho de sermos “descobertos” no Brasil. Venho ainda agora de uma viagem nesse país com outros escritores portugueses – José Saramago, José Cardoso Pires, Égito Gonçalves da geração anterior, Lídia Jorge e Almeida Faria da minha geração.
Posso dizer que se instaurou um novo estado de espírito nos escritores do meu país. Não há um “movimento literário” do tipo dos movimentos que juntaram no tempo certos criadores – Orfeu Presença, ou o neo-realismo por exemplo. Permanecemos profundamente diferentes e essa diversidade faz a riqueza da nossa literatura. Mas sobretudo tenho a impressão de que se está a criar uma solidariedade, uma espécie de sentimento de classe parecido ao que existe já no Brasil. Por exemplo, tive problemas técnicos com o romance em que estou a trabalhar agora, e pude discuti-los durante a minha estadia no Brasil com outros escritores. Hoje ajudamo-nos mutuamente. Era impensável há não muito tempo. Antes, quando aparecia um tradutor potencial, em poesia principalmente, o primeiro que lhe metia as mãos em cima, capturava-o e fechava-o em sua casa até ele deixar o país. É verdade, não estou a exagerar. Hoje, pensamos que ninguém tira o público a ninguém. Organizamos conferências colectivas, sessões em comum com os nossos leitores. Vamos às fábricas, às companhias de seguros. Constatamos uma grande adesão do público. É um fenómeno novo em Portugal, que contribui, e bem, para desmistificar o escritor.

A crítica portuguesa

Os críticos são pessoas que me fascinam. Pergunto-me muitas vezes qual é o papel da crítica. Em Portugal, contudo, não desempenha papel nenhum, não tem qualquer influência no público que se decide a ler um livro pelo sistema de passa-a-palavra. Nos EUA, pelo contrário, uma boa crítica no The New York Times, no Herald Tribune, faz vender um livro de certeza. Alguns chegam a comprar o livro por causa da crítica e não do livro!
Por que é que a crítica portuguesa não tem efeito no público? Creio que isso se deve à inexistência de críticos bons. Muitos são demasiado velhos e fazem sobretudo terapia ocupacional. Pode vir a surgir uma nova geração de críticos que compreendam melhor o fenómeno literário?
Por outro lado, a crítica portuguesa emite sempre juízos de valor: por exemplo o Sr. João Gaspar Simões julga-se proprietário de Fernando Pessoa e portanto se alguém escreve sobre Pessoa isso não vale nada porque não foi o Sr. Gaspar Simões que escreveu. Em Portugal julga-se sempre, a crítica é laudativa para os amigos e diz mal dos outros. A crítica não deve trazer juízos, deve descodificar, fazer perceber como funciona um livro ou um poema – Borges tem belas páginas sobre isso. Em Portugal, se quiserem uma boa crítica escrevam um livro obscuro, que ninguém vai ler, que ninguém vai comprar: dirão bem de vocês, porque não são um potencial concorrente... No que a mim me diz respeito, os meus primeiros livros foram ignorados. Hoje, não podem fingir que não sabem que eu existo porque estou entre os que vendem mais, e como a crítica do The New York Timese do Herald Tribune disse bem de mim, pouco a pouco começam a dizer também em Portugal, pelo que agora os meus livros são maravilhosos. É típico do que Pessoa chamava o “provincianismo português”.

O escritor e o seu trabalho

Não acredito na inspiração. O talento não existe. Há pessoas que trabalham. Raymond Radiguet dizia não ler senão livros maus porque eles permitem descobrir a marosca; ao lê-los, aprendemos o mecanismo do texto, mas quando lemos Guerra e Paz por exemplo, não apreendemos o trabalho, é como um ovo, não chegamos a entrar. Manuel da Fonseca dizia: “ser espontâneo dá muito trabalho”. Pelo meu lado, trabalho muito para tentar dar ao leitor uma impressão de facilidade.
Escrevo durante cinco a seis horas por dia. Faço sempre um plano muito detalhado, com todas as peripécias; depois escrevo quatro versões seguindo o plano. Quando termino, dou a dactilografar (escrevo sempre à mão), revejo o texto dactilografado e decido que versão envio ao editor e é esquecida. Nunca releio os meus livros porque os reescreveria sem parar. Ao começar um livro, não tenho senão uma ideia, livrar-me de tudo o mais depressa possível.
O mais difícil para mim, não são as personagens, é o problema do tempo. No princípio resolvi-o limitando-me a um dia, a uma noite, depois tornei-me mais ambicioso... O meu último romance cobre dez anos. Para o cenário, sou uma espécie de ladrão, observo por exemplo as casas dos meus amigos e sirvo-me, não sei inventar casas...
Quando escrevo, tenho uma sensação de gravidez. Os homens invejam a gravidez das mulheres. Freud não falou disso, falou da inveja de pénis das mulheres, mas não da inveja da gravidez dos homens. Para mim, a única forma de responder a esta inveja é escrever um livro.
Um romance corresponde sempre a uma época determinada da nossa vida. É por isso que é estranho para mim falar-vos de um romance como Os Cus de Judas, que está hoje tão longe de mim, a minha maneira de escrever está tão mudada...
É curioso, nunca encontrei prazer em escrever. Creio sempre que estaria melhor a divertir-me com os meus amigos do que a escrever. Mas quando não escrevo, sinto uma espécie de doença física, como se me vestisse de manhã sem ter tomado banho. Então, escrevo... Administro o meu tempo, cinco a seis horas de trabalho por dia, e depois faço o que apetece. Quando era adolescente, uma da minha numerosas tias dizia-me: meu filho, tu não tens ainda idade de viver dos teus defeitos. Hoje, creio que tenho idade suficiente de viver dos meus defeitos.
Escrever é sempre um desafio. Deveríamos mudar A Bíblia, onde diz: “no começo era o Verbo”, deveria dizer: “no começo era a depressão”. A nossa vida é uma espécie de luta contra a depressão, até à depressão final, a morte. Não procuro dar conselhos, a quem servem os conselhos? Também não tenho moral. Não sou La Fontaine.
Tento dar o máximo de verosimilhança. É bem verdade que se diga que os livros são autobiográficos. Isto aprendi com os Americanos: acreditamos que as coisas chegaram, que elas podem chegar. Recebi uma data de correspondência de pessoas que me davam conselhos para organizar a minha vida!
Parece-me que em França o mito do escritor ainda é muito profundo. Creio que ainda não entenderam aqui que os escritores são homens que mijam como toda a gente, escrevem livros e é tudo, são seres comuns.
No século XX temos tendência a fabricar mitos para os destruir. Os chefes, por exemplo, a sua função é serem detestados. Os mitos não servem senão para serem destruídos. Escritores, médicos, é o mesmo. Lembro-me que quando era criança, era suficiente que aparecesse o mito para que não me sentisse mal... Queria dizer: “deixe-me tocar-lhe com o dedo”. Tenho a impressão de ser uma espécie de Júlio Iglésisas com os seus fãs! É o lado folclórico da adesão do público e por um lado é bom. Em Portugal, sempre disse que havia demasiado de Joyce e não bastante de Harold Robbins. Em Portugal, ser um grande escritor é como significasse não ser lido. A minha ambição é tocar o máximo de leitores, para lá dos dois milhões que já tenho.
Estou convencido de que os escritores portugueses estavam afastados do público por uma linguagem demasiado cara. Era necessário estoirar essa linguagem. Pensei que ao empregar uma linguagem mais comum poderia facilmente chegar às pessoas. De facto, aprendi isso com Céline, o mestre de todos nós. Quando eu tinha 15 anos, o meu pai ofereceu-me os seus livros dizendo-me: “é um nazi, mas é um escritor revolucionário”. Descobri que o meu pai tinha razão. Escrevi a Céline para lhe pedir uma foto com dedicatória. Respondeu-me e correspondemo-nos até à sua morte, em 1961. Disse-me: “pequeno, se queres ser escritor, é preciso trabalhar muito”. Assim, permaneci muito ligado a este homem que nunca vi. Lembro-me das grandes folhas de papel amarelo que ele me enviava. Céline e os Americanos, as grandes descobertas da minha vida.

Romance e psiquiatria

Não queria ser médico. O meu pai é neurologista na Faculdade de Medicina de Lisboa. Tive que fazer os meus estudos em medicina em protesto. Pensei, o que se parece mais com Dostoievski? A psiquiatria. Então, especializei-me em psiquiatria. Mas hoje acabou, já não sou psiquiatra. Tenho uma posição muito crítica face à psicanálise. Fiz uma análise freudiana, mas creio que a psicanálise é uma indústria. Foram feitas pesquisas nos EUA sobre o perfil do psicanalista. Interrogaram-se milhares e chegou-se à conclusão de que o perfil destes homens era o seguinte:
- inteligência média
                        - pouca imaginação
                        - grande dificuldade de integração
                        - enorme apetite de poder
                        - voyeurismo.
Em Portugal os psiquiatras são os pilares de uma ordem social que eles estão obstinados em manter. Para certos psicanalistas americanos, os operários que se revoltam contra os seus patrões são pessoas que não resolveram o seu Édipo, é por isso que se revoltam. A ideia inicial de Freud era muito revolucionária: foi o primeiro a dar atenção ao facto de as diferenças sociais serem factores de angústia, de depressão. Este pensamento foi completamente invertido. Escrevi um livro sobre esta questão, e isso valeu-me aborrecimentos com a Sociedade Internacional de Psicanálise. Diatkine(1) veio especialmente de Paris a Portugal para me interrogar, para decidir se me iriam expulsar da sociedade, que é uma espécie de máfia. Era muito jovem na época e isso foi muito duro para mim.
Nós somos todos esquizofrénicos. Por exemplo esta sensação de ser observado por toda gente quando entramos num local público, é uma sensação muito comum. Não há nada de psicótico nisso. Para criar as minhas personagens, observo à minha volta... O narrador deOs Cus de Judas era um neurótico. É uma neurose da guerra que atingiu muitos portugueses. Sei que muito tempo antes de terem voltado da guerra, metiam-se debaixo da cama ao menor barulho que se assemelhasse a uma explosão.
Creio que somos muito sós; recorremos a um psicanalista porque estamos sós, fazemos amor porque estamos sós, e retiramos um grande sentimento da solidão. Trabalhamos numa sociedade esquizofrénica onde a ideologia é sempre industrial. Há pouco lugar para o amor ou a afeição. É preciso ganhar a vida. No final da semana chega o terrível fim-de-semana em que os casais se olham. Cheios de fantasmas paranóicos a rondar: é por causa dela; é por causa dele que não sou feliz... Recebo clientes que não suportam os fins-de-semana, esse face a face terrível porque as pessoas não sabem viver a dois, a maior parte.
Espero que a solidão não seja absolutamente inevitável. Eu sou como a mãe de Blondin que lhe dizia muitas vezes; “não tenho fé, mas tenho esperança”. Encontrei esta fórmula admirável e reutilizei-a num dos meus livros, na Memória de Elefante, acho eu.
Os homens, quando se encontram, é para discutir política, futebol ou mulheres, sobre os méritos de uma ou de outra. Fazem uma espécie de aliança artificial contra a solidão. Freud dizia muitas vezes que o objectivo da análise deveria ser de poder apreender a realidade, a angústia da existência sem procurar constantemente escapatórias. Recentemente, li a autobiografia de Graham Greene de quem gosto muito, e ele dizia qualquer coisa como: “Não sei como fazem as pessoas que não escrevem para escapar à loucura, à paranóia, ao suicídio”. Eu creio que, enquanto escritores, nunca estamos sós.

Sobre Os Cus de Judas

Este livro faz parte de uma trilogia onde quis abordar três temas fundamentais para mim: a guerra, a relação entre homens e mulheres e o universo contraditório dos hospitais psiquiátricos em Portugal, considerado como um microcosmos representativo do país inteiro. Para Os Cus de Judas, no princípio pensei na história de uma relação entre um homem e uma mulher onde não houvesse amor, uma relação onde as pessoas se separam, se assassinam lentamente porque são egoístas, narcisistas, etc...
Depois ocorreu-me a ideia de reforçar esta história fazendo um contraponto com a guerra de Angola. Não é para mim um romance de guerra, é um contraponto entre duas guerras sangrentas, uma guerra entre um homem e uma mulher por um lado, e o absurdo da guerra colonial por outro lado. A mulher tinha duas funções para mim: aquela a quem o homem se destinava, não tinha um papel concreto – e é assim que se passa na realidade da sociedade portuguesa e talvez de todo o mundo latino, onde a mulher não é de certa forma senão um lacaio do homem, onde nos compreendemos tão pouco, onde estamos tão pouco preparados para nos compreendermos – e por outro lado, seria um pouco o leitor. Então temos um tipo que fala, fala que se destina a uma mulher mais ou menos consistente...
Por fim, queria também evocar uma forma muito particular da vida nocturna de Lisboa que é muito intensa, com os seus bares, as suas discotecas e a extrema solidão que lá reina. Entra-se num bar, e o que nos assalta primeiro é a solidão. Uma vez a dona de um bar disse-me; “Ganho dinheiro com a depressão das pessoas”.
O título do romance tem dois sentidos: o da distância e o da traição. Judas era a expressão que utilizavam os partidários do MPLA para designar os portugueses e os que colaboravam com o exército português. Era obrigado enquanto médico a assistir aos interrogatórios dos prisioneiros pela PIDE, e era o que diziam os prisioneiros aos agentes da PIDE que eles queriam insultar. No hospital Miguel Bombarda, onde trabalhava, tínhamos internado um certo número de presos políticos que também eles usavam esta expressão Judas sobre nós.
Então a ideia surgiu-me muito naturalmente, quando o meu editor me pediu para mudar o título que eu lhe propusera pois não lhe parecia muito comercial (tratava-se da última frase da autobiografia de um poeta do grupo de Fernando Pessoa que morreu no Miguel Bombarda após 40 anos de internamento. Encontrei o manuscrito que ele tinha redigido à atenção do seu médico, e escolhi a última linha para título do meu livro).
A guerra fez-me tomar consciência de coisas que eu ignorava totalmente. Durante muito tempo vivi numa espécie de redoma. A família - nós vivíamos em Portugal segundo os costumes da grande família patriarcal de Belém do Pará, com numerosos filhos – o liceu, a faculdade, Londres – onde durante cinco anos estudei no hospital onde trabalhou Somerset Maugham – e depois quando regressei a Portugal fui chamado para a guerra.
À época as classes sociais eram estanques. Nenhum contacto. Estávamos fechados, o mesmo nível, a mesma cultura, sou mesmo levado a dizer que não era português. Foi no exército que conheci uma outra relação, vertical e não horizontal. Em Angola eu era como clínico geral, e quando era preciso amputar uma perna com uma serra de carpinteiro porque não havia outra coisa, tornamo-nos forçosamente diferentes.
Foi lá que conheci Melo Antunes, devo-lhe muito, fez-me descobrir muitas coisas, e permanecemos amigos. É um homem muito corajoso. Um dia, no Sul, apontou uma pistola a um agente da PIDE e disse-lhe: “se não te vais embora mato-te”. Antunes foi mudado de unidade, mas os interrogatórios de prisioneiros pela PIDE foram interrompidos.
O suicídio para mim não é uma obsessão, é um tema que se pode encontrar em todos os meus romances. Isto não significa que eu me quisesse suicidar, pelo contrário! Naquela altura preparava uma tese de doutoramento sobre o suicídio das pessoas jovens. Discutindo com os jovens que tinham sobrevivido a uma tentativa de suicídio, fui assolado pelo seu sentimento de imortalidade. O suicídio era sempre o assassínio de alguém. Assassinavam a parte má. O meu avô, que amava muito, suicidou-se. Ele tinha um cancro. Deixou uma carta muito clara na qual dizia que ia matar o seu cancro e que poderia depois viver de boa saúde. Isto marcou-me muito, tal como o meu contacto de vários anos com jovens suicidas. Dizemos muitas vezes que é preciso muita coragem para cometer suicídio. Não acredito nisso. Em Explicação dos Pássaros tentei contar um suicídio como uma história de circo porque quando era criança tinha muito medo dos palhaços, faziam-me sempre pensar na morte.
As minhas personagens têm pouca realidade física, para deixar ao leitor a possibilidade de se identificar com elas e melhor aderir à história. Perguntaram-me sobre a Teresa, era a dona de uma casa de putas que existia mesmo no meio da selva, uma preta enorme como as personagens femininas de Jorge Amado, muito maternal com os soldados e os oficiais. Ela tinha com ela duas ou três raparigas esfomeadas e era perto delas que procurávamos um pouco de ternura. Sabem, o amor maternal é uma coisa da qual tenho pouca experiência. Tive uma infância muito estragada, com relações familiares muito distantes, a minha mãe nunca me beijou quando era criança.
Os grupos feministas em Portugal afirmam que os meus livros são repugnantes – os grupos mais virulentos, claro – e que as mulheres os rejeitam. Eu não sei, fica ao vosso critério.
As referências culturais abundam nos meus três primeiros romances. Hoje, penso que é um erro mas que isso fazia parte de uma espécie de ajuste de contas com a minha infância. Fui educado de uma forma muito especial. O meu pai metia uma sinfonia e anunciava: “quem não souber o nome desta sinfonia não sai no domingo”. Ou lia duas ou três páginas de Zola ou de Flaubert ou de Kipling e depois acrescentava: “quem não conhecer o autor destas linhas não sai no domingo”. Lembro-me que um dia à mesa ele perguntou quem era Einstein. A minha mãe respondeu: “acho que é um preto que toca jazz”. Não sei se ele privou a minha mãe de sair, mas sei que para nós, seis filhos quase da mesma idade, isso era terrível. Então vinguei-me nos meus leitores metendo armadilhas destas nos meus livros, por vezes mesmo frases inteiras sem citar os seus autores. Hoje já não faço isso.
No que toca a Paul Simon, foi uma época da minha vida. No meu último romance também há um poema de Simon, mas não no texto. O próximo terá versos de Bob Dylan. A minha ideia era tirar a literatura do seu gueto intelectual. Não gosto de intelectuais. Em Portugal têm um uniforme: barba, óculos, cabelos compridos, não muito limpos, o Le Mondedebaixo do braço. Temos em Portugal uma “classe intelectual”, o que faz com que tenhamos muitos artistas e poucas obras de arte. Os artistas enchem os bares, - não as boites, eles não ousam – eles pensam o tempo todo, não se divertem. Pensei em misturar um pouco tudo isto. Creio que Paul Simon é um grande compositor, que certas canções dos Beatles estão ao nível das Lieder de Shubert. Bernstein disse-o e ele é mais qualificado do que eu. É preciso dessacralizar tudo isto. Os intelectuais não são intocáveis, pelo contrário...

(1)    René Diatkine (1918-1998) foi uma das figuras mais importantes da psicanálise em França

texto original por cortesia de Francis Utéza
Novembro de 1983
[traduzido do francês por Gonçalo Figueiredo Augusto]

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...