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21 de maio de 2016

Bebel Lye opina sobre Os Cus de Judas

edição brasileira Alfaguara
Calma! Os cus de Judas é uma expressão portuguesa que equivale ao nosso dito popular "onde Judas perdeu as botas". 

Olá lyevráticos! Tudo bem com vocês? Quem segue o blog no Instagram sabe bem que o livro Os Cus de Judas, do autor António Lobo Antunes, deu trabalho para mim. O post de hoje  além de resenha, será uma conversa franca sobre esta obra. Bem, para começar adianto que se você for um leitor iniciante ou ainda não tiver uma boa bagagem literária, é interessante evitar este trabalho. Por um motivo muito simples: complexidade. 

ENREDO
O narrador - que é o personagem principal - é português, reside em Lisboa e é mandado para a guerra na África - local que ele denomina cus de Judas (onde Judas perdeu as botas) - para servir como médico. Na realidade a histórica começa com o próprio narrador contando sua experiência na guerra a uma moça num restaurante em Lisboa. Conta de seus medos, das tragédias que viu, das mulheres que teve, das noites que se masturbou, da esposa que sentiu saudade, da filha que não viu nascer...

Toda a história é em formato de monólogo e confesso que não achei o ápice do enredo - aquele momento crucial. É um livro de não tão simples compreensão, porque o tempo não é cronológico e sim, psicológico. O narrador é criança, de repente já está na guerra, depois volta a ser adolescente... Outra dificuldade são os fluxos de consciência e memória. Eles se sobrepõem à história sem nenhuma marcação nítida: o narrador está na guerra combatendo doenças num parágrafo e no outro já está em casa com sua filha em Lisboa, depois volta à guerra. 

Eu li a versão em ebook, que contém 91 páginas muito bem organizadas. Não perde em nada para a versão impressa - tive acesso as duas. Uma observação interessante vai para a escrita: se você for o tipo de leitor que não gosta de ler obras com palavrão, evite esse livro. Por ser num contexto de guerra, por falar bastante dos desejos sexuais dos homens e etc. e etc... A história tem muitos palavrões. Particularmente não gostei da forma com que o livro trata e retrata as mulheres, mas isso seria assunto para outro post.

O lado positivo - sim, o livro tem muita beleza! - na minha opinião é a forma com que o autor descreve a Guerra da África, a escravidão, o período fascista em vigor, as citações que faz sobre Salazar... Essa descrição, cheia de humanidade é linda. Sem dúvidas, isso é o que faz o livro ser uma verdadeira obra de arte. O narrador é muito marcante. 


por Bebel Lye
15.05.2016

24 de abril de 2016

«Lobo Antunes: folha branca não é tão branca como a pintam», por Fátima Pinheiro


Dia do Livro, ontem. No rescaldo, hoje ponho António Lobo Antunes. Conheci-o numa conferência. Até então sabia: de dois livros; passagens de outros; muitas crónicas; de familiares; de prémios (mas nisto estou, em parte, com ele, o mais importante no prémio é o dinheiro); que se acha que devia ser Nobel. Convidaram-me para ir ouvi-lo. Uma surpresa e um desafio, uma lide e um milagre. Entre os dois, e não foi de cernelha.

A curiosidade era grande e, se posso e vejo razões, tiro chinelos e corro: muitas vezes descalça. Tinha dele uma escrita "grande", ciclónica, novelo que não se desenrola nunca, repetitiva, embriagante, fatigante.  E uma atração por "uma coisa" maior que o livro, que nas entrelinhas está lá. Contudo, um escrever muito a empatar ou a adiar qualquer coisa.  É escritor? Não é escritor? Não se pode desligar a obra do seu autor, da carne e do osso. Ver os olhos, o olhar. Tocar se puder. Para mim é natural. Conclusão: conheci um escritor e desde esse dia "deu-me a mão". Porquê? Respondo com as minhas palavras, repetindo as dele, grande entertainer e de humor inconfundível - às vezes cru, mas certeiro, a desmontar as máscaras, todas mesmo; não há cinismo que lhe escape; o dele, se é que o tem, é-lhe íntimo, não o conheço assim tão bem...

Disse que escrever é dar um passo mais longe, e a certeza de que se é escritor é experimentar que não se pode viver sem escrever. Que a escrita são as perguntas milenares e a "última" pergunta tem diante de si um abismo. Bem lhe perguntamos, no final, se continuar a escrever é pressupor que há resposta, ao que ele deixou um composto e desenvolvido "não sei porque escrevo", "não lhe sei responder"... Determinante para ele, reconheceu, foi a mão que segurou a sua mão, antes da operação que fez quando lhe diagnosticaram um cancro. A mão que agarrou a sua, até à anestesia. Nunca mais se vai esquecer, repetiu. E que continua a escrever para viver e a viver para escrever. "O segredo para ser escritor?", perguntaram-lhe. Embora tenha citado muitos autores e contado histórias hilariantes sobre o tema, a prova está em que vida e escrita se confundem e que não há fórmulas: o eu diante do touro está sozinho, frisou, silenciando os risos que nunca faltaram, ritmados, a quem o ouviu naquela sala. E que ninguém desce de uma cruz vivo. E que o escritor sofre mais que os outros homens, e que sofrer é horrível.

Chegou a altura dos olhos, do olhar e do tocar. Foi no jardim. Tive então a  certeza de estar diante de um homem que sabe até onde quer ir. Sabe pôr e tirar a "máscara" muito bem, quando lhe apetece e quando quer. Dotado de uma inteligência fabulosa sabe mais do que diz, e sabe que sabe que não diz tudo o que sabe. E isto, diante da angustiante famosa folha branca, às vezes não tão branca como a pintam.

O abismo de que falou na conferência: "é preciso saltar?", pergunto e respondo. Ele responde em silêncio com os olhos fixos em mim, e em quem me acompanhava, "mas quem são vocês?!" É que nós não lhe pedimos o autógrafo, ficamos para o fim, tão só para estar com eleSó se pode saltar, disse eu, na certeza de que  uma mão  que nos vai agarrar. Tal como no Hospital. O eu e o touro não estão totalmente sozinhos...

A vida, volto às suas palavras,  não tem sentido sem escrever, e apesar de já estar tudo escrito, o homem tem tendência para se esquecer. Por isso, António continua a escrever"A melhor maneira de dizer as coisas é única boa." Os grandes livros são um milagre, acrescentou. A certa altura, dos lindos olhos que tem, saiu um olhar sem qualquer máscara e eu tive o privilégio de ver um homem (acho que ele se "descaiu"...). Um "eu" como o meu, que anda neste lide, às vezes distraído, mas que vê a vida consolada quando alguém lhe pega a mão, ou se "pegam" as mãos. Não precisamos de estar (quem sabe quando?) à beira da faca ou da morte. E do que sei do meu toureio a pé ou das "pegas" de todos os dias, experimento - e nisso a natureza não falha- que o material tem sempre razão: se há razões para investir (o mesmo é: saltar o abismo), é avançar. Só assim o  sofrimento se torna humano e a escrita uma beleza. 

Não é preciso enrolar tanto. Como ele disse a certa altura, precisamos de ser "mais" crianças. Da sua simplicidade. Rápida. Inteligente. De olhos impressionados - uma expressão da qual ele fez, aliás, um pequeno e certeiro exercício fenomenológico. O que mostra que o tempo pode ser um instante. Como cada cigarro que fumava enquanto falava, enquanto mostrava e escondia o olhar. É um touro de raça. Como um bom livro. A literatura é afinal uma bela tourada.


por Fátima Pinheiro
24.04.2016
(por cortesia da autora, e conforme original)
foto de José Alexandre Ramos

21 de abril de 2016

Bruno (em GoodReads): opinião sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Num regresso à polifonia exteriorizada, António Lobo Antunes constrói neste romance uma nova iteração do seu universo literário. Desta vez, a tempestade de vozes e rememorações fundamenta-se num prédio residencial algures em Lisboa. A revelação da narrativa transporta o leitor num vagar irregular de um andar ao outro, de apartamento em apartamento, até que eventualmente se conhecem os oito (mais um) protagonistas: Judeus vitimados pela Segunda Grande Guerra; um comunista atropelado pela fúria do Estado Novo; uma funcionária pública exilada pela censura da sua obesidade; um bêbado, sacrificado pelas próprias falhas e excomungado pela família; Joaquim, um viúvo que sempre se sentiu aquém das expectativas, que nunca conseguira ser um homem; uma juíza que tenta evadir o tempo e o envelhecimento; Augusto, um antigo militar em Angola que se sente incapaz de resistir a nostalgia e a saudade; e, entre parentes, no sótão, uma transfiguração de um Salazar que tenta sobreviver, mesmo que numa condição atenuada, mesmo que numa total decrepitude. 

Entre estas reduções e simplificações esconde-se (e revela-se) tudo o que realmente sempre importa nos romances antunianos: a força da memória, a morte, as sobreposições espácio-temporais, a melancolia, o silêncio, a história e as histórias, a cultivação inovadora da linguagem, a cuidadosa elaboração da diegese e, enfim, as tragédias das nossas vivências tão nuas e cruas perante a nossa vontade tão forte de as ignorarmos. Desde os detalhes mais minuciosos da cultura portuguesa que patenteiam o tanto que nos une, mesmo quando nos revemos tão distintos, aos rompimentos metaficcionais que projectam um simples livro para patamares mais profundos e reveladores, está tudo presente, tudo o que, livro após livro, cimenta António Lobo Antunes como um caso à parte da literatura portuguesa. 

Esqueçam as polémicas, as entrevistas, os soundbytes, as produções mediáticas inerentes à ultra comercialização da literatura contemporânea, deixem-se, ao invés, submergir nesta maré puramente literária e verão que, mais do que o conhecimento alheio, encontrarão o caleidoscópio do vosso próprio ser. Há algo mais valioso que isto?


por Bruno
06.02.2016

13 de fevereiro de 2016

José Mário Silva, crítica a Da Natureza Dos Deuses

Invenção da Melancolia


Na fase mais recente da sua obra – que abarca romances densos como Comissão das Lágrimas (2011), Não é Meia Noite Quem Quer (2012) e Caminho Como Uma Casa Em Chamas (2014) –, António Lobo Antunes vinha seguindo uma trajectória de progressivo ensimesmamento, fechando-se mais e mais dentro das suas estruturas polifónicas, essa arquitectura claustrofóbica de múltiplas vozes emergindo da página, ao mesmo tempo tão intrincadas e tão rarefeitas que o leitor deixava de as conseguir separar umas das outras. O fulgor da prosa de Lobo Antunes nunca se perdeu, mas saíamos desses livros como que desorientados, meio perdidos, expulsos de um território onde nunca chegávamos verdadeiramente a entrar. Ou seja, éramos meros espectadores que contemplam, de fora, os fragmentos de vida que o romance arranca ao real quotidiano, mas logo esconde e abafa, sob o peso da voz que se sobrepõe a todas as outras. A voz do autor fascinado com o seu poder discricionário, esse poder maior que consiste em dizer o que se quer, da maneira que se quer, sem pensar em coisas vulgares como, por exemplo, a inteligibilidade.

A maior surpresa que nos proporciona Da Natureza dos Deuses, o mais recente romance de Lobo Antunes, é justamente uma inflexão na tal trajectória de fechamento que ameaçava alienar muitos dos seus leitores. Num livro com quase 600 páginas, nunca chegamos a sentir cansaço ou exaustão, mesmo quando o autor multiplica os narradores e cria novelos mentais que embatem violentamente uns contra os outros, oferecendo visões distintas dos mesmos acontecimentos. À perícia do escritor, na forma como deixa a narrativa seguir o seu curso, permitindo à mão que escreve ir atrás do fio das histórias que se acumulam no seu imparável carrossel mental, junta-se uma força centrípeta que mantém a coesão do edifício, conferindo-lhe solidez e sentido.

No centro do romance está precisamente um edifício, um palacete na zona de Cascais, perto do Guincho, cenário faustoso para o lento declínio de uma família. «Tudo se gasta e cede», diz alguém. E Da Natureza dos Deuses é a crónica dessa ruína. Uma ruína dos corpos, das relações afectivas, dos impérios financeiros, das casas erguidas contra o vento que vem do mar, contra o imparável cerco das areias que um dia soterrarão o court de ténis, as estátuas de deusas e discóbolos, os canteiros do jardim, a janela na torre (onde uma mulher, reclusa, espreita) e a memória de quem um dia habitou aqueles espaços. O tema central é o poder que o dinheiro traz consigo e a forma como esse poder vai sendo exercido. O Senhor Doutor, nascido na pobreza, sobe a pulso e cria um império de bancos, seguradoras e outras empresas. Esse sucesso nos negócios confere-lhe uma aura que distorce a forma como as pessoas se relacionam com ele. Sem surpresa, é quase sempre em modo de submissão, embora por trás dessa fachada de arrogância e superioridade aparente se possam esconder outras relações de força (como acontece com Marçal, o «criado» fiel, no seu impecável casaco branco).

Os vários laços de afecto ou dependência vão sendo minuciosamente revelados à medida que a narração alterna entre figuras muito diferentes: o próprio Senhor Doutor, eminência parda do Portugal dos anos 50 e 60 do século passado, íntimo de um Salazar que aparece várias vezes como um espectro moribundo, fragilíssimo, de manta sobre os joelhos; a Senhora, mulher do Senhor Doutor (a reclusa que espreita por detrás dos cortinados); a filha da Senhora, com um cão ao colo, rodeada por livros que lhe são trazidos por uma funcionária da livraria mais próxima e nunca lidos, porque os pacotes são um mero pretexto para ter quem a oiça; e muitas personagens secundárias, que vão destapando o reverso do esplendor burguês, a miséria atávica de uma sociedade supostamente de brandos costumes, mas onde imperam as mais brutais formas de violência.

Lobo Antunes é particularmente feliz no modo como capta os estados emocionais das personagens, os seus abismos íntimos, os seus dilemas morais, essa tristeza entranhada nos corpos, «espécie de melancolia» que os paralisa a meio de um gesto, de uma frase, às vezes de uma palavra. Quando essa ruptura no discurso acontece, a palavra deixada a meio pode ficar assim, partida, suspensa, enquanto novos fios de pensamento se intrometem, para depois, mais à frente, vermos surgir o resto da palavra, retomando o processo mental interrompido. Estes malabarismos não são meros exercícios de virtuoso, antes obedecem a uma necessidade do texto, o mesmo se podendo dizer dos cruzamentos de planos temporais e da hábil sobreposição das várias subjectividades que coexistem em cada capítulo (incluindo a do autor deste mundo, sempre consciente da sua efabulação).

A dada altura, uma personagem refere-se a «certos pormenores que por muito que a gente se esforce não se desvanecem». Esses pormenores, nos livros de Lobo Antunes, prendem-se sempre com a linguagem, com esse espantoso fôlego lírico que faz equivaler a sua arte narrativa a uma arte poética. O que não se desvanece na memória dos leitores é a força das imagens. Por exemplo, aquele homem «abotoando o colete como se tocasse acordeão em si mesmo». Ou as pessoas «cujas sombras parece que têm ossos».


por José Mário Silva
09.02.2016
originalmente publicado na revista E do Expresso de 06.02.2016

24 de janeiro de 2016

«O Antunes pega-se?» - artigo de Isabel Lucas no Público

O Antunes pega-se?


Qual é a marca dele em quem escreve? Seis escritores falam de uma influência, apontam a excelência e a fragilidade, sublinham a presença indelével da biografia na obra de um escritor que ousou revelar-se “furiosamente” e aprendeu a esconder-se num jogo que parece o de um eterno aperfeiçoamento.




“Cuidado que o Antunes pega-se”, ou talvez se apanhe, “como uma gripe”. Não estamos num romance, mas quase parece possível escutar nestas metáforas a voz que atravessa, em muitos múltiplos, os livros de António Lobo Antunes. Mais biográfica no início, mais elaborada e esquiva nos livros mais recentes, e apontando para muitas outras possíveis. Como no último, Da Natureza dos Deuses, quando através da fala de uma mulher se interpõem outras hipóteses de ser, de falar: “… felizmente nasci em Lisboa apesar de correr o risco de não ser esta, se calhar sou mais bem tratada do que esta, se calhar casei-me, se calhar toquei violino ou morri de amor por um veterinário, qual será o meu nome, gosto de Irene, não gosto de Noémia, faz-me lembrar uma colega da escola que se chamava Lucinda mas tinha tudo de Noémia, até a cova do queixo e as sardas dos braços, apontem-me uma Noémia gorda que não encontro nenhuma, a da capelista um pau de virar tripas, uma das dactilógrafas do escritório enchumaços no peito, que ela encaixa melhor convencida de que não topamos, prefiro Irene ao meu nome, ou Cândida, ou Ester, que deixam sabores diferentes na boca, o meu insonso como a palavra dióspiro ou a palavra lâmpada, pronunciamo-las para dentro, a imaginar que sim, e deitadas cá para fora monótonas, o que as fantasias enganam…” 

“Cuidado que o Antunes se pega” ou se apanha “como uma gripe” podiam ser mais uns ecos dessa voz. Talvez sejam. São frases já algumas vezes ditas pelo escritor António Lobo Antunes sobre o autor António Lobo Antunes, quando o escritor se interpõe no que faz o autor, se comenta e aqui lembradas. Uma por Rui Cardoso Martins e outra por Ana Margarida Carvalho para os auxiliar descrever um estilo marcado ao qual é difícil ficar indiferente, sobretudo quando se é em simultâneo leitor de Antunes e escritor na mesma língua.

“Não se pode não ficar diferente depois de ler um livro seu”, diz Ana Margarida Carvalho, autora do romance Que Importa a Fúria do Mar. “É uma reacção parecida à de quando se lê Guimarães Rosa, por exemplo, a gente pousa o livro e continua com aquela cantilena na cabeça, as inconcordâncias das frases imperfeitas, usando o gerúndio… Com Lobo Antunes é assim, pousa-se o livro, e aquela prosa torrencial inunda-nos, persegue-nos e continua lá. A melodia, o ritmo, a ladainha, às vezes infantil, às vezes funesta, das vozes – como ele diz, ‘o meu ofício é traduzir vozes’ –, prosseguem nas nossas cabeças. É difícil de explicar, mas é quase viciante, e tem um poder quase hipnótico. A leitura de António Lobo Antunes deixa-nos sempre em estado de assombro, ou de incómodo, fica-nos, nem que seja, uma emoção puramente estética. Julgo que foi o próprio que disse, mas aplica-se à sua obra: os livros são coisas que se apanham, como uma gripe.”

Aí está a metáfora, a característica mais destacada quando se fala da marca literária de Lobo Antunes numa altura em que o escritor de 73 anos acaba de publicar um dos seus romances mais poderosos, 37 anos depois de se estrear com Memória de Elefante, em 1979, e em vésperas de se apresentar na competição do Festival de Cinema de Berlim (de 11 a 21 de Fevereiro) Cartas da Guerra, o filme de Ivo Ferreira, que adapta o livro D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra. Publicado em 200[5] pelas duas filhas mais velhas do escritor, reúne as cartas do então alferes António, com 28 anos, à sua mulher Maria José. No teatro, regressa a peça António e Maria, uma produção do Centro Cultural de Belém estreada em Maio do ano passado e desde 14 de Janeiro no Teatro Meridional, em Lisboa. Interpretada por Maria Rueff, com dramaturgia de Rui Cardoso Martins a partir de textos de Lobo Antunes, recria em palco algumas das personagens femininas mais fortes do escritor, com sublinhado para o seu trágico-cómico desespero doméstico. Tudo isso quando estão escritos 26 romances e as suas crónicas reunidas em cinco volumes.

A marca

Que escrita é essa que “se pega”? Qual a sua principal marca? Que influência exerce em quem escreve? Porque é que a obra dificilmente se demarca da biografia do autor, suscitando reacções apaixonadas entre o elogio e a crítica feroz? Porque é que se fala de uma espécie de duplo feito daquele que cria e do que fala da sua criação. António Guerreiro, numa crónica publicada neste jornal, falava do escritor como de alguém que reclama a si uma “concepção teológica da criação literária” sempre que dá uma entrevista; de alguém que fala de si – autor – como que “mediado por uma divindade”, fazendo do acto criador um mistério a que parece alheio. “Tenho um medo permanente de isto ter acabado”, afirmou Lobo Antunes numa entrevista pouco antes dessa crónica. “Isto” é o que motiva a escrita. Depois disso já publicou um romance que tinha concluído por essa altura – Da Natureza dos Deuses – e começara outro que há-[d]e sair no final deste ano, como em quase todos os finais de ano. Diz-se que os seus livros estão cada vez mais fechados, herméticos, fala-se também em menos leitores. Será? E quem o lê e também é escritor? Tem entre eles seguidores confessos? Herdeiros literários?  

Seis escritores portugueses, leitores de António Lobo Antunes, assumem uma influência. Mais pessoal e directa nuns casos, noutros porque se sentem parte de um colectivo ao qual a sua literatura trouxe mudanças. Pelo uso da linguagem, pela forma, pelo método, porque a sua leitura altera quem o lê, ou mesmo por um estímulo para começar. Isto é, pela tal marca literária.

“É a forma. É a forma que traz o conteúdo. E usar palavras simples, que todos reconhecemos, numa construção de sons. Muito musical, muito sinfónico, e o cuidado de nada estar mal no seu sítio, como se a escrita se pudesse partir por uma palavra mal posta. Uma palavra estraga página toda. E acho que cada página tem sempre um grande achado, uma grande imagem, uma grande metáfora”, refere Rui Cardoso Martins, o autor de E Se Eu Gostasse Muito de Morrer (2006), Deixem Passar o Homem Invisível (2009), Se Fosse Fácil era para os Outros (2012) e O Osso da Borboleta (2014). “É a metáfora. É o romancista português mais surpreendente (e desconcertante) na construção de imagens. A metáfora é porventura a competência técnica mais poderosa ao dispor de quem escreve”, diz Valério Romão, autor de Autismo (2012), O da Joana (2013) e Da Família (2014). “A escrita é torrencial, elíptica, a bruma demora a dissipar-se, as vozes sobrepõem-se, acotovelam-se, interrompem-se, desorienta-se a melodia, desconexa na partitura por momentos, para se voltar a encontrar num refrão mais adiante, no sítio exacto, no momento certo – talvez por isso António Lobo Antunes fale tanto em compor um romance, no sentido de composição. As frases desorganizam-se num delírio com nexo, um caos composto com uma mestria incrível, com um poder de abstracção e de concentração notáveis. Indistinguem-se o tempo e o espaço, ele desobedece ao princípio, meio e fim, ao habitual conceito de narrativa, à própria gramática, se for preciso”, salienta Ana Margarida Carvalho.   

“A repetição de vozes e a circularidade da narrativa parecem-me pontos essenciais do seu modo de fazer. Ainda assim, define-o melhor se falarmos em ecos, em desdobramentos incessantes do que é residual num carácter (o das personagens), em pontos da sensibilidade que vão sendo pressionados com maior ou menor afinco para servir os propósitos da memória transviada, que é, no final de contas, o grande coração desta escrita”, afirma Frederico Pedreira, poeta e autor do volume de contos Um Bárbaro em Casa (2014). “É a liberdade de escrita. Uma escrita solta, luminosa, aparentemente pouco cuidada. Quando o li impressionou-me a linguagem, as metáforas, as comparações e a maneira como ele fazia a adjectivação. Por exemplo: ‘a solidão é uma escova de dentes na casa de banho’. Imagens destas…”, sublinha José Riço Direitinho, autor de A Casa do Fim (1992), Breviário das Más Inclinações (1994), Relógio do Cárcere (1997), Históricas com Cidades (2001) e Um Sorriso Inesperado (2005). “Não conheço ninguém que escreva em português de forma tão elegante e capaz de pôr em palavras o indizível”, diz Dulce Maria Cardoso, para quem, no entanto, há nos romances de Lobo Antunes uma arquitectura que não entende. Admite: “Não vou estar à procura da chave para a decifrar. É verdade que ele consegue escrever o indizível como mais ninguém, mas depois torna isso um clube fechado, como se estivesse reservado o direito de admissão. E é aí que não me identifico e sou cada vez menos leitora. O que acho mais interessante é haver camadas, conseguir chegar ao leitor mais e menos treinado. Leio os seus livros cada vez mais como uma garimpeira e de vez em quando encontro umas pepitas.”

É uma escrita colada à biografia – sobretudo nos livros iniciais e nas crónicas – que faz da sua leitura uma experiência também íntima, pessoal. “A experiência de ler Lobo Antunes serviu-me não tanto como inauguração pessoal de uma escrita diferente, mas mais como modo de validação na língua portuguesa dessa mesma diferença que já percebera em autores maiores estrangeiros”. Como Céline ou Faulkner. Autorizou-o também a “um género de liberdade expressiva que, a par de outros com modulações diferentes dessa liberdade – Jorge de Sena, Almeida Faria, Carlos de Oliveira, José Cardoso Pires, Nuno Bragança ou Rui Nunes -, facilitou e aprofundou a respiração prosódica e vocabular em língua portuguesa”. É como “uma canção íntima”, continua, e é na “fidelidade” de Lobo Antunes a essa canção, que, segundo Pedreira, se jogam os pontos “mais fortes e ao mesmo tempo os mais fracos da sua escrita”. Ou seja, “um traço inigualável e extremamente apetecível – quando a música não encrenca, geralmente nos livros maiores – ao olhar guloso do leitor paciente que, se tiver a particularidade de ser também escritor, não raras vezes acaba por se achar na obrigação de se desenvencilhar da sedução dessa escrita.” E conclui: “A biografia do autor, mesmo quando espicaçada pelo fulgor verbal, não dá para tudo. É importante parar uns tempos e sobretudo desconfiar se a mão vai em piloto automático. A escrita indica antes de mais, cisão, deslocamento íntimo, e não deve soar à revalidação de competências.”       

Com Lobo Antunes, mais uma vez sobretudo no inicial, estamos numa espécie de subgénero actualmente com muitos adeptos, o da autoficção, e onde se cruzam poesia, ficção, ensaio, memória. Com ele, sobre ele, andamos sempre entre autor e escritor, criador e personagem, confundindo-se tantas vezes porque um e outro são também, outras quantas vezes, indissociáveis. “Se eu não tivesse lido os livros do Lobo Antunes duvido que tivesse começado a escrever. Os livros do Lobo Antunes abriram-me um bocado essa janela de que podemos falar de nós, e quase abertamente”, diz Direitinho. A influência pode estar também numa decisão sem dúvida, a de que “toda a escrita (a minha) tem de ser bela, para além de funcional. E que não pode haver concessões em relação a isso”, afirma Valério Romão, autor de livros onde a experiência do “eu” surge romanceada num exercício de autobiografia, no entanto, distinto do de Lobo Antunes, porque as suas biografias não são confundíveis. “É impossível dissociá-lo” – refere Romão sobre o autor Antunes – “da experiência da guerra colonial ou da prática da psiquiatria. Estas duas vivências marcam indelevelmente a escrita, seja nos romances que se atêm de forma mais vincada à biografia (Memória de Elefante, Os Cus de Judas), seja naqueles que menos parecem ter como suporte a experiência vital (Que Farei Quando Tudo Arde?, A Morte de Carlos Gardel)”.

E se imaginássemos toda a sua obra como o grande romance – ou autoficção – de Lobo Antunes? Parece uma pergunta subjacente. Para Frederico Pedreira, a questão da biografia não só é inseparável da obra antuniana - como do que entende como literatura, seja de que género for. “Agrada-me quando numa escrita com ambições literárias se nota a espécie de bicho estranho que o autor naquele momento é. Melhor é quando essa transparência (que não tem nada a ver com biografismos ou realismos, mas sim com a mão do autor – as suas tremuras e nervuras no diálogo com o suporte criativo a que se propõe) se deixa entrever sem pejo. No aspecto mais ou menos bizarro da vida do outro – a do autor trasvestido na escrita, que se mostra na sua transfiguração estilística – poderei movimentar-me melhor, com novas luzes, no aspecto da minha.”

Dulce Maria Cardoso elabora de outra forma: “Só chegamos ao outro mostrando-nos” e foi essa “vontade furiosa de chegar ao outro, uma fúria de se rasgar e mostrar” que encontrou no momento em que leu pela primeira vez António Lobo Antunes. A autora de Campo de Sangue (2001), Os Meus Sentimentos (2005), O Chão dos Pardais (2009), O Retorno (2011) e das antologias de contos Até Nós (2008) e Tudo São Histórias de Amor (2014) descobriu Lobo Antunes na mesma altura em que leu José Saramago. “Alguns amigos indicaram-me os dois. Falava-se em novos escritores portugueses e eles eram coincidentes nesse tempo. Interessei-me pela ficção de Saramago e pelo estilo de Lobo Antunes”, conta. O primeiro que leu de Lobo Antunes foi Os Cus de Judas (1979) e entre esse – ou esses primeiros – e os mais recentes encontra uma diferença abismal: “Acho que já estava tudo nos primeiros – o poder de síntese, as metáforas –, mas em bruto, menos trabalhado. Ele foi apurando. É exímio nas metáforas. Do ponto de vista formal, não encontro nada fora do sítio”, afirma, antes de falar em possíveis influências, ou de se saber o que a separa, por exemplo, neste caso, do escritor Rui Cardoso Martins, que adaptou recentemente Lobo Antunes para o teatro e o releu com outro olhar. “É verdade, os livros que o lançaram são muito autobiográficos. Um escritor sem memória não pode escrever. Não há criação literária sem memória”, acrescentando que o que mais o influenciou nele “foi o método e não ter medo de entrar nos assuntos”, mesmo os mais dolorosos e talvez por isso pessoais. Dulce nunca falou com Lobo Antunes. Cardoso Martins é próximo do escritor e nesta conversa não esconde a cumplicidade pessoal, “o privilégio” de assistir à sua oficina onde destaca “o profundo grau de concentração” que ele atinge, “desde aquelas formiguinhas minúsculas”, quando escreve a primeira versão em antigas folhas de receita do Hospital Miguel Bombarda, onde foi médico, “até ir arredondando a letra e transformando aquilo, sempre a cortar, a limpar. É a escola do cortar”.

A oficina

É essa oficina que lhe permite “aperfeiçoar o uso da linguagem de uma forma extraordinária”, salienta José Riço Direitinho, que lhe admira sobretudo “a confusão de vozes”, desde o primeiro livro que leu, Memória de Elefante. E cada vez mais. “A uma primeira leitura parece sempre a mesma voz, mas é polifónico… E de as histórias terem sempre várias perspectivas. Isso é talvez o que acho menos conseguido, mas também não sei se é menos conseguido. Os livros dele não são para uma leitura à superfície. Nos primeiros quatro havia a tal literatura do eu, quase exposto. Mais tarde começou a esconder aquilo tudo e a transferir muita coisa para as personagens. Nos últimos livros já não é tão descarado nessa auto-exposição. É sempre ele, mas está tudo coberto. Nos primeiros não, e os primeiros foram os que chocaram mais. O Fado Alexandrino (1983) é talvez aquele onde dá o salto. É um livro diferente dos anteriores, quase o começo do que vem a seguir.” Antes de O Manual dos Inquisidores (1996), o livro preferido, dos que leu, de Dulce Maria Cardoso, um dos preferidos de Valério Romão, juntamente com A Morte de Carlos Gardel (1994). “São romances muito bem estruturados, que não fazem parte de trilogias, que abrem e encerram em si próprios. E destaca Álvaro, uma das personagens de A Morte de Carlos Gardel. “É um autêntico tratado de composição: conseguimos sentir-lhe a derrocada interior sem nunca ver os fios pelos quais se move”, conclui o autor de Da Família.

Ana Margarida Carvalho e Rui Cardoso Martins gostam do último, Riço Direitinho vai buscar As Naus (1988), “não foi bem aceite, mas é um grande livro”, e O Auto dos Danados (1985), ambos pela liberdade narrativa e de linguagem. Mas O Manual dos Inquisidores é também um dos romances que Frederico Pedreira destaca na obra de Lobo Antunes. Também com A Morte de Carlos Gardel, Memória de Elefante, Os Cus de Judas e Conhecimento do Inferno (1980), “precisamente pela ruptura estilística que estes livros deixam antever, e que não é plástica – como já me parece em livros recentes – mas óssea, fulgurante, própria de um homem que não se esquece que para seduzir os outros com o sangue da biografia – por mais efabulada que ela seja – é preciso ter algo que sangrar”, justifica. Há um porquê? implícito, “uma pergunta que o aspecto geral da obra, se for boa, nos sugere”, continua. Nesses livros, com esse porquê, “há busca de um homem que se escuta, cheio de tiques, manias e miopias de percepção” e que “ainda está muito longe do fim”.

Rui Cardoso Martins lembra que foi Dinis Machado quem sugeriu o título Fado Alexandrino, “o primeiro livro – e agora é Riço Direitinho que fala – em que ele se deixa ir e a coisa parece ganhar fôlego”. É o livro “depois dos livros jovens”, talvez que os mais influenciaram os escritores que se seguiram, incluindo o próprio Direitinho, que quando o leu sentiu o que Dulce Maria Cardoso descreve como uma das funções da literatura: “diminuir a solidão” – e de que Lobo Antunes parece ir esquecendo enquanto praticante literário, depreende-se das palavras da escritora. “Nem que seja por momentos”, continua Dulce Maria, “o autor só é autor quando existe leitor e a arte é para chegar ao outro e diminuir a solidão”, mesmo se a ideia de outro não exista quando se cria ou sem tentar fazer concessões de gosto. Não é isso. É saber que há a “inteligência do outro”. “Li-o e senti que também podia”, refere Riço Direitinho, a liberdade que aquilo me dava para eu falar do que sentia e que na altura eram problemas de adolescência, o facto de ser tímido, de não conseguir dizer certas coisas. O Lobo Antunes funcionava mesmo em termos psicológicos”. Ri. “Ler um livro de ALA era um grande alívio, aqueles primeiros livros dele…”

No DN Jovem, onde começou a escrever com muitos escritores da sua geração, José Riço Direitinho fazia “muitas coisas a la Lobo Antunes. Era irresistível”. Foi durante muito tempo. “Com o Saramago mostrou-me que podia quebrar regras, e no caso dele, revelar-me”. E ele viu-o e recomendou-o a uma editora. Foi assim que publicou o primeiro livro, na Asa. E fala da mancha na página, outra marca de Lobo Antunes que muitos “imitaram” ou seguiram, incluindo ele. O corte da frase, numa palavra, num diálogo. Ele não era o único a fazê-lo em português. “A brasileira Hilda Hilst [1930-2004] tem coisas assim. Eu fiz isso em Um Sorriso Inesperado, todas as minhas histórias aí têm a mancha dele, a página cortada. Dulce Maria Cardoso também refere essa mancha, admite uma influência. “Em Os Meus Sentimentos isso aparece um pouco porque é um livro sobre memória que me surgiu assim, de forma fragmentada., mas o conteúdo não tem nada a ver com o universo de Lobo Antunes. Li-o numa altura de formação, como li muitos outros escritores, e não posso tirar o eu li da cabeça. Isso não me preocupa no momento da escrita, preocupo-me sim em encontrar um registo para o que estou a fazer.” Em O Retorno, onde se poderia, porventura, falar de um encontro pelo menos temático, Dulce salienta que o facto de estarem em lados opostos de uma realidade. “Pensei em muitos escritores por essa altura, mas não em ALA; apesar de termos partilhado o mesmo território geográfico, a realidade dele não é a minha. A minha realidade é doméstica, a dele é o contrário, era o soldado. Eu fui desterrada aqui em criança e não lá, um adulto. África, para mim era casa.”

A propósito da influência pessoal de Lobo Antunes, Riço lembra como conheceu José Cardoso Pires. Foi em Frankfurt, em 1998. Ele disse: “Esse gajo é um epígono do António.” Salienta o tom de desprezo. “Só tinha lido as minhas coisas no DN Jovem. Depois leu os meus livros e deixou de ter essa opinião. A influência no início passa quase sempre por uma imitação de estilo, ou por uma imitação de alguns tiques estilísticos. O assunto pode ser completamente diferente, Mas falo de influência, não de imitação. A imitação é outra coisa e não tem valor.” Ana Margarida Carvalho refere a “impossibilidade de ficar indiferente perante a prosa de Lobo Antunes”, porque “ele tem essa espécie de ouvido absoluto para apanhar as nossas fraquezas lexicais, as nossas redundâncias e lugares comuns, ridículos e estafados” que se manifestam nos leitores que também são escritores. “Acredito que os escritores são muito mais aquilo que leram do que aquilo que escrevem. Por isso a enorme tentação ou o enorme atrevimento de verter para o papel essa melodia que nos fica depois de ler os seus livros. É como se, acabado o livro, ele nos continuasse a ser ditado por dentro, e nós, leitores, ficamos necessariamente em estado de influência… Claro que não pode quem quer, mas quem consegue. E o que sai são umas reles aproximações…” Valério Romão admite uma influência em duplo sentido. “Ainda há Lobo Antunes em mim, felizmente agora em níveis pouco mais que homeopáticos – e não refiro isto por menosprezar a qualidade e a influência, mas por não achar salutar a ideia de estilo que ‘faz escola’”, e conclui: “não tenho dúvidas de que seremos muitos muito devedores de Lobo Antunes. Colocou-nos a excelente dificuldade de almejar a excelência.”

Quando em 2014 publicou o seu livro de contros, Frederico Pedreira ouviu várias vezes a observação de que “sabia a Antunes”. Não refuta a ideia. “Gostava de acreditar que a influência de Lobo Antunes noutros escritores tem sido do mesmo género que a minha: enquanto sugestão de liberdade e como certificação de modos de fazer em que prevalece a diferença – absolutamente intrínseca ao compromisso do autor com o seu meio de expressão –, por mais que esses modos pareçam estar rodeados de contra-indicações epocais.”

Rui Cardoso Martins refere outro tipo de influência: a do incentivo pessoal. Foi Lobo Antunes e Cardoso Pires – que nunca conheceu – quem o incentivaram a escrever outras coisas além das crónicas que publicava semanalmente no Público. “Um dia ele chegou ao pé de mim e disse-me ‘Boa noite, escritor’. Foi num sítio público e fiquei nervoso. Depois disse que eu era escritor e tinha de escrever”, conta, acrescentando que o leu desde Memória de Elefante. “Ia lendo, como ia lendo os russos. Tudo o que é bom influencia. Aprendi o modo como observa o país, mas somos diferentes. Gosto do modo como capta o se[r] humano, como consegue entender as mulheres. É verdade, há escritores que se pegam e outros que não se pegam. Ele, de facto, pega-se. Às vezes acontece, mas acho que não me aconteceu ainda, e se me acontecesse, enfim, seria bem-vindo. Mas não é assim que escrevo.” Faz uma pausa. “O António é uma grande figura e um grande escritor. Se eu não fosse herdeiro do António não seria herdeiro de coisa nenhuma.” 


texto de Isabel Lucas
fonte: Público
23.01.2016

[revisão do texto por José Alexandre Ramos
a fonte da foto com que ilustramos esta entrada, da qual não conseguimos identificar o seu autor, não é a mesma da do texto]

23 de janeiro de 2016

Rute Marques sobre Memória de Elefante

[Memória de Elefante, o primeiro livro publicado por ALA - já lá vão 36 anos! - continua a marcar pontos para os leitores mais jovens. Aqui um novo testemunho.]

“Memória de Elefante” foi o primeiro livro escrito por António Lobo Antunes e a primeira obra que eu li dele também. Depois de pesquisar um pouquinho sobre a vida de António Lobo Antunes percebi que esta é uma biografia do próprio autor.

A história tece-se em torno do quotidiano de um médico psiquiatra, desde o início da manhã, quando começa o seu trabalho no Hospital, até à madrugada seguinte, no seu apartamento. Ao longo dos episódios e do seu quotidiano, o médico vai libertando o seu pensamento e as suas mágoas.

Acabado de regressar da guerra de Angola e separado da mulher e das filhas, sente-se solitário e deprimido, no ‘fundo do poço’, tal como afirma várias vezes ao longo do livro. O autor resume toda a sua experiência de vida num único dia, envolvendo o passado com o presente.

Para além de ter vivido a guerra, que com certeza deve deixar marcas bem profundas e imagens perturbadoras na nossa mente, apercebemo-nos também em alguns capítulos que o psiquiatra não viveu uma infância muito feliz.

No geral, e resumindo, o psiquiatra ainda não se encontrou, não sabe quem é nem o que faz neste mundo. Sente-se perdido e solitário, abandonado num mundo hipócrita e numa sociedade demasiado mesquinha. Tudo para ele é confuso: a incompreensível separação da mulher, os fantasmas da infância que o perseguem, a vida profissional… Ele vive entre loucos e ele próprio se sente um louco.

Confesso que no início demorou a ler o livro, simplesmente porque não me identificava com a escrita de António Lobo Antunes. Não é uma escrita fácil. É pouco usual. O autor desabafa os seus pensamentos e questões em frases e parágrafos sem interrupções, muitas vezes não se distingue uma linha de pensamento. Diálogos surgem entre diálogos, o passado mistura-se com o presente. Torna-se assim uma escrita confusa, mas própria do autor e que o distingue de tantos outros.

Esta não é uma leitura leve que se leia do dia para a noite. Apesar de ser um livro pequeno, precisa de ser percebido, precisa de se ler nas entrelinhas, perceber se ainda estamos no presente ou se já viajámos para o passado. Muitas vezes parei a leitura para ver o significado de inúmeras palavras que não entendia. Esta é uma leitura desafiante e eu desafio-vos a ler!


por Rute Marques
em Vamos a Charlar!
Janeiro de 2016

22 de janeiro de 2016

André Matos sobre Da Natureza Dos Deuses em goodreads.com

Enquanto me sento a ouvir as ondas do Guincho, guiadas pela batuta descontrolada de um vento do Norte, vejo as gaivotas a debaterem-se contra tão violenta orquestração. Tão belo o seu rasante voo, tão forte a sua luta. Ao longe a serra. Mais perto, dunas que dançam ao som de tamanha ventania e à minha frente ondas que vão trazendo memórias até aos meus pés. 

Estou envolvido pela natureza. E é na natureza dos deuses que reflicto de que é feito a natureza humana. A ironia da natureza dos homens, é que é auto-destrutiva. E nessa auto-destruição, há sempre uma tentativa de evolução e de aperfeiçoamento. Neste livro existe a dor, o medo, a raiva, o amor, a compaixão, as verdades que dançam com as mentiras, as revelações que são feitas a meia luz, o espectro da morte no canto da sala a fumar cigarros, as memórias que nos picam como cardos. Tudo coisas que nos podem conduzir inevitavelmente a uma destruição iminente. É esta a natureza humana. Somos esse vento que sopra com violência, somos milhões de grãos de areia que formam dunas, somos gaivotas que voam em céu aberto. Somos comboios que nunca partem da estação. Somos pessoas em torres de vigia, fechados do mundo e para o mundo. Somos sem abrigos a quem ninguém estende a mão.

Ler o Da Natureza dos Deuses é como acreditar no amor à primeira vista. Não há explicação. Só o tempo me trará o significado que agora não consigo exprimir totalmente. Este livro somos todos nós em certos aspectos da nossa vida. Nas palavras escritas vejo memórias feitas de mel e vinagre fechadas em gavetas, mas postas a nu. A partir das memórias e das acções concluo o quão complexos somos. O quão fragmentários conseguimos também ser. E do meio da confusão complexa e da instabilidade fragmentária há idas e regressos. E em cada regresso uma nova fuga. E no meio da multidão, tanto silêncio. Em mim, fica a solidão de uma praia deserta, onde cada onda evoca uma memória que eu julgava há muito perdida.


por André Matos
em goodreads.com
10.01.2015

30 de dezembro de 2015

Leonardo Gandolfi - opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

António Lobo Antunes demonstra até onde vai a velha e boa arte de narrar

António Lobo Antunes tem chamado a atenção ao disparar duvidosas frases de efeito por aí. A última foi em setembro passado. Em entrevista ao jornal "El País", o autor questionou a qualidade da obra de Fernando Pessoa, criticando o fato de o poeta supostamente nunca ter feito sexo.

Seus livros, no entanto, costumam passar longe dessa duvidosa atenção. A prova é «Não É Meia-Noite Quem Quer». O romance traz como narradora uma mulher - dona de algumas cicatrizes - que volta à casa de praia da infância. Entre lembranças e fantasmas, lá também estão mãe, pai, a amiga, irmãos, avós e ela mesma, com 11 anos.

As personagens importantes da história não têm nome próprio e essa ausência é um dos recursos que ajudam a dar o tom da narrativa. Justamente na intimidade da vida doméstica é que as vozes se confundem. Tal fusão é uma das marcas do estilo de Lobo Antunes. Os diálogos atravessam a história, cortam e compõem a narrativa, ajudando a criar as feridas desta família.

Num livro em que quase todos não têm nome, mas têm voz, a atenção pode se voltar para aqueles que não falam, mas têm nome. É o caso de Ernesto, hipopótamo de pelúcia, que, em seu silêncio de objeto, é testemunha do cotidiano comezinho nesse ambiente onde se inscrevem as marcas de perdas irreparáveis.

O espaço arruinado da casa se confunde com a decadência de um país assombrado, entre outras coisas, pela guerra colonial na África. Aliás, Lobo Antunes - desde os primeiros livros, nos anos 1970 - tem dado voz ao sentimento de desencanto político e cultural em Portugal, que tem a ver com alguns desdobramentos nada eufóricos da Revolução dos Cravos (1974).

«Não É Meia-Noite Quem Quer» está dividido em três partes, cada uma sobre um dia do fim de semana em que a professora se despede de sua velha casa. Este é o único elemento da narrativa em que a ordem cronológica mais convencional se faz ver.

Em cada um dos três dias, a história vai e volta continuamente no intervalo de 40 anos, como se criasse um tempo verbal próprio. Esse ir e vir de épocas acaba por produzir uma estrutura musical com seus movimentos, repetições e variações de frases.

Há também um caráter trágico que dialoga com tal estrutura. Em determinado trecho, a voz infantil - ao entrar numa pastelaria chamada Tebas - pergunta o que significa essa palavra. A voz da mãe diz que se trata de uma cidade grega. A menção a esse cenário das tragédias –que continua ecoando na história - não é gratuita.

Um dos clientes da pastelaria é o irmão surdo da narradora principal. Sendo surdo, ele tem voz e fala, mas sua fala é uma espécie de gaguez que reaparece diversas vezes ao longo do livro. Funciona como refrão dissonante ou como sentença ruidosa que um coro de tragédia anuncia, tragédia que já aconteceu, ou melhor, que está por acontecer.

Certo formato oitocentista de narrativa ainda é o principal modelo do que chamamos, hoje em dia, de romance. Lobo Antunes procura se distanciar desse modelo, dizendo-nos até onde pode ir a velha e boa arte de narrar.


por Leonardo Gandolfi
em Folha Ilustrada
28.12.2015

4 de dezembro de 2015

AM: Opinião de leitura sobre Da Natureza Dos Deuses

Os títulos dos livros de António Lobo Antunes (ALA) são, na sua maioria, citações. O último “Da natureza dos deuses” é o título de um livro de Cícero. A principal temática deste livro é o poder e a riqueza. Monopólio e domínio. Submissão, servidão e subserviência. Infidelidade. Desumanidade. Velhice: “que maldade incompreensível o tempo”. A grandeza: “uma casa maior do que todas as casas do mundo, salas, corredores, varandas e o jardim e o pinhal e o campo de ténis..".

Este, é um dos livros maiores de ALA, ultrapassa as 500 páginas, exactamente 574, talvez também a fazer a analogia à imensidão dos deuses do título. Os nomes dos personagens, como é tão característico de ALA, são poucos. Os personagens deste livro são: a Senhora, o senhor doutor, o senhor presidente, o avô da Senhora, o sem abrigo, a dona da livraria, a funcionária da livraria, o empregado de casaco branco (Marçal), o sujeito da editora, secretária loira, o senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) casado com a secretária loira do senhor doutor (amante do Sr. Doutor), o senhor presidente, a esposa do deputado, a dona da loja de roupa, o homem mais novo que o senhor doutor. O livro divide-se em 4 partes. As primeiras 3 partes com 10 capítulos cada e a quarta parte com 7 capítulos. Este livro passa-se entre Cascais, Estoril, Guincho e Lisboa.

O livro começa pelo tempo presente. O primeiro capítulo começa com a funcionária da livraria, que é uma retornada de África, vive com um filho pequeno numa casa barata de Cascais e já passou os quarenta: “sou fácil de enganar, perdoo a todo o mundo, olho e não vejo, vejo e não ligo”. Não entende a razão de a Senhora conversar tanto com ela: “qual o motivo de falar comigo sou pobre”. Vai muitas vezes a casa da Senhora, que está sempre sentada com um cãozito nos braços, entregar livros: “a mulher idosa percorria o cãozito no colo com o anel”... “numa poltrona grande demais para ela... quase em contraluz, transparente, a voz apenas...”. Vive o presente numa profunda solidão mas refere-se a um passado totalmente diferente: “os jantares que havia aqui o rei da Itália, o rei da Roménia, o duque inglês... A sala com os seus móveis, os seus quadros, os seus tesouros tão caros”. A Senhora “não recebe visitas nem sequer dos filhos... qualquer desconhecida que a escute sem comentários nem perguntas... a garganta magríssima, as linhas claras dos ossos e os dentes tão nítidos sob a pele... não uma mulher idosa ou gasta, uma mulher quase defunta, não o palhaço que durante anos e anos aceitara ser... os olhos vazios".

O pai da Senhora (senhor doutor) “de olhos tão pobres apesar de ser dono de bancos, companhias, ministros”. É uma figura detestável, autoritário, um “dono disto tudo”, “um pulha”a quem toda a gente presta vassalagem: “A quantidade de gente que ele foi degolando ao comprido da vida (...) a afastar-se no sentido de subalternos que o esperavam, atenciosos, curvados (...). É uma questão de princípio não dar confiança a subordinados”. Joga ténis com personagens que vão sempre mudando à medida que vai deixando de precisar deles e à medida que os destrói: “Obrigado por consentir ganhar-lhe.” São continuamente substituídos. Tem sempre raparigas loiras novas a quem cobre com puldeiras e colares, tacões, perfumes que, são também substituídas com o passar dos anos e da idade. “...é sempre desagradável apertar a mão a um pobre, fica-nos o cheiro na pele”.

O avô materno da Senhora era judeu e com “estabelecimentozito de câmbios”. O pai da Senhora salvou o avô da Senhora da falência: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha”. A mãe da Senhora tinha quinze ou dezasseis anos: “Não lhe faço mal descanse... Livra-se de ser preso e ainda ganha um genro que o protege”. O casamento da Senhora foi arranjado pelo pai: “Casas-te em Outubro” e a “Senhora a informar o pai de que preferia o sapo de uma cómoda transformado em príncipe”. O marido da Senhora, “herdeiro de outro banco que o pai da Senhora administrava, mais fábricas, mais empresas,...um monte no Alentejo, dois barcos na marina...”.


O avô paterno da senhora (pai do senhor doutor): “O meu pai teve que afastar o meu avô dos negócios... o meu avô morreu sem lhe ter perdoado... sem conhecimentos nem estudos... vendia jornais e lotarias no início, emprestava dinheiro no bairro... não se conhecia o pai, a mãe apenas, que trabalhava nas limpezas... ao regressar da tropa o pai da Senhora, há quem se lembre dele do bairro, aumentou os juros e transformou o negócio contra a vontade do meu avô... o pai da Senhora chamou advogados que proibiram o avô da Senhora de entrar”. O pai da Senhora para o avô da Senhora: “A partir de hoje começa a sua santa vida que sorte... A partir de hoje tem tempo para o dominó com os amigos ler o jornalzinho e gozar a reforma... você está gasto não presta”. “O pai da Senhora comprou-lhe uma casita com uma horta na província e pagou a uma camponesa para tomar conta dele”.

O senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) é casado com uma das secretárias loiras do senhor doutor (e sua amante). Começou na contabilidade e passou, depois, a adjunto. Tem gabinete próprio, automóvel, secretária loira e facilidades no crédito desde que não abuse. O senhor doutor cumprimenta-o: “ele que não cumprimenta ninguém e eu honrado... convida-me para o ténis aos sábados, onde a minha esposa se senta ao lado dele, tão loira (...) sem me apertar a mão, claro, mas uma honra da parte de quem não cumprimenta as pessoas de modo que eu, agradecido”. Insinua que o filho mais novo é filho do senhor doutor: “o único que não se parece comigo, a coincidência de uma pálpebra pendente como o senhor doutor”. Sem um poder comparável ao senhor doutor, o senhor engenheiro, apesar de subalterno, de acordo com determinada hierarquia, tem poder. Como tal, também tem uma secretária loira, que é sua amante. Com o desenrolar das páginas, perceber-se-á que essa afirmação sobre a questão da paternidade do filho mais novo não faz sentido.

O Senhor presidente: “o que manda em Portugal... o senhor doutor visitava-o aos domingos... de pés numa escalfeta e manta nos joelhos... uma voz fraquinha (...) a voz fininha... de fatito cinzento e cabelo branco (...) sempre sozinho, escrevendo bilhetes minúsculos, numa caligrafia minúscula, para os ministros que não o viam, eram nomeados e despedidos através de cartõezinhos daqueles (...) o senhor presidente, que o mundo inteiro temia. Parece o personagem que vivia no sotão no livro “Caminho como uma casa em chamas”.

A mulher do senhor doutor (mãe da senhora) está aprisionada num quarto no alto da casa de onde, através da janela, está sempre à espreita e a ver os jogos de ténis. “O meu marido mandou pôr uma cadeira no meu quarto, mesmo no alto da casa, onde até os falcões da serra vejo e o mar por trás dela, outro mar além do Guincho... para me visitar de vez em quando, sinto-lhe os passos no corredor, mais lentos do que os dos criados, o empregado de casaco branco destranca a fechadura, volta a trancá-la quando ele se senta, sem olhar para mim, e fica ali calado...”. Há uma ténue alusão à infidelidade da mãe da Senhora: “anos depois a mãe da Senhora no comboio para Madrid com um homem...de óculos escuros e lenço na cabeça”.

O Marçal é o empregado do casaco branco, o“faz tudo” e o “cachorro” do senhor doutor. É o único que não foi substituído (...) Quando morreu foi o único momento em que vi o senhor doutor chorar... no escritório, não limpava as lágrimas, desciam-lhe as bochechas encalhando nas rugas”.

O sem abrigo atravessa todas as partes e todos os capítulos. O seu papel no livro, é para mim, um enigma.

A cronologia deste livro divide-se em várias gerações. Talvez do começo do Estado Novo até aos dias de hoje.

Há sempre algumas frase autobiográficas claras de ALA: “lembro-me que não chorava, não era que não me desse vontade, as lágrimas não saiam (...) Não me recordo de ser muito de beijos... aconteceu-me chorar...fui secando com a vida (...) sempre tive um problema com lágrimas, o meu pai não chorava, a minha mãe às vezes... mas escondia-as logo (...) a quem as lágrimas tornam um fraco”.

Há as habituais referências a África e à tropa, mesmo que de forma muito ténue. E as histórias paralelas que abordam o aborto, maus tratos e relações ocasionais. Depois de todas as evidências e aparências dos personagens há o submundo, a parte frágil e humana de cada um deles. Os livros de ALA, ao contrário do que o próprio não assume, são difíceis de perceber. Os leitores habituais terão bastante menos dificuldades para perceber as frase polifónicas, analepses e prolepses mas há uma analogia cinematográfica que se poderá fazer com os filmes de David Lynch. Muitas vezes os mistérios não são desfeitos e muitas vezes existem partes que poderão ter sido escritas para serem mesmo incompreensíveis. Quem sabe?

Famílias destruturadas. Traições. Mentiras. Humilhação. Desprezo. Insensibilidade. Mentiras. Ilusões. Indiferença. Destruição. Mostra-nos que o poder pode, quase tudo, mas não tudo. O senhor doutor, a mãe da senhora (mulher do senhor doutor), a senhora e o Marçal (empregado de casaco branco) são as chaves deste livro. Os dados estão lançados. Parte das personagens e do enredo está exposto. Mais não digo. Falta agora o leitor envolver-se e interpretar à sua maneira. Espero que aproveitem e desfrutem este livro que, apesar de denso, é cativante e nada monótono. Não sei se sou eu que me torno a cada livro mais devota do estilo de ALA e dos seus livros, ou se com o passar dos anos, comecei a percebe-lo melhor. Continua com a sua habitual escrita tão real, quotidiana, cuidada e cinematográfica.

Este livro já estava escrito há dois anos. Por esse motivo, não há qualquer relação entre os factos actuais do poder e queda dos banqueiros e bancos e a sua queda com este livro. Parece tratar-se de um pronúncio mas (provavelmente) não passa (de uma mera) coincidência. O livro não está organizado de acordo com este texto. Este texto é (apenas) a interpretação que faço do livro, que poderá não ser a verdadeira.


por AM
01.12.2015

3 de dezembro de 2015

Isabel Lucas - crítica a Da Natureza Dos Deuses

Lobo Antunes e a busca da chave certa


Em Da Natureza dos Deuses, o escritor persegue um sentido original da linguagem enquanto modo de expressar um interior que se escapa sempre.


Uma personagem do mais recente romance de António Lobo Antunes interroga-se sobre a razão pela qual o marido a mantém no casarão, “uma espécie de paixão não no sentido de paixão, no sentido de paixão, compreendem, de amor não no sentido de amor, no sentido de amor, compreendem, porque a paixão e o amor não são paixão e amor, à força de usarmos as palavras modificámos-lhes o significado e estou apenas a tentar dar-lhes o significado que modificámos, dizer paixão no lugar de paixão e amor no lugar de…” A tentativa de chegar o mais perto possível de um sentido original da palavra, da linguagem enquanto modo de expressar um interior que lhe escapa sempre — porque a linguagem parece andar sempre atrás e o sentido das palavras se vai alterando pelo uso —, é cada vez mais evidente no trabalho de António Lobo Antunes. A procura desse sentido é tão arriscada quanto sinal da liberdade literária que o escritor persegue, partindo do que parece ser uma angústia central: e se a linguagem não chegar, e se o homem não for mais capaz de a usar para nomear o essencial?

A pergunta “o que acontece à linguagem com o tempo?” sucede a outra interrogação, mais humana: o que é que o tempo faz com o homem, como altera a sua percepção do mundo e o modo de comunicar nele e sobre ele? A angústia perante a perda da comunicação — ou da sua ineficácia, o que é o mesmo —, não como acessório burocrático mas como algo primordial, atravessa mais uma vez a escrita do escritor no seu 26.º romance, um romance irónico, amargo, melancólico. Da Natureza dos Deuses replica o título do livro de Cícero, escrito em 45 a.C. para retomar temas como memória, a velhice, a morte, o pós-colonialismo, a sexualidade, o divino, amor, o tempo (“que maldade incompreensível, o tempo”, pensa outra personagem) dando especial ênfase ao poder e à percepção que dele têm quem o exerce e quem é por ele dominado.

Num casarão entre Cascais e o Guincho, uma mulher, a Senhora, recebe periodicamente a visita de uma empregada de livraria que lhe entrega embrulhos com livros que ela não abre. Fátima é a confidente de uma história de família centrada na figura do Senhor Doutor, pai da Senhora, um déspota, agiota, que pediu a mão da mulher nos seguintes termos: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha.” E “o judeu a secar-se no lenço sem que o pai da Senhora reparasse nele, de cara a desaparecer da cara e expressão alguma, ruga alguma, apenas o bigode a hesitar, a mãe da Senhora quinze ou dezasseis anos, dezasseis…” Fátima, a empregada da livraria, ouve. Tem 36 anos, um filho de seis, o marido deixou-a, e ela vigia, com uma atenção que ultrapassa a mera curiosidade, o sem-abrigo que se alimenta da loja de hambúrgueres no centro de Cascais, bem perto da livraria. Fátima veio de África em criança e, como a Senhora, sabe que na vida “procuramos o que se segue e descobrimos o princípio”. É a velha história do passado que não larga e que tem alimentado tanto a literatura. William Faulkner colocou isso numa frase em O Som e a Fúria que tem sido traduzida com várias nuances: “O passado não está morto. Nem sequer passou.”

No início do romance, Fátima tem umas chaves nas mãos. “Mandaram-me pela primeira vez a casa da Senhora mais ou menos na altura em que encontrei o sem-abrigo a dormir no degrau da livraria e palavra de honra que só dei por ele no momento em que tirei a chave da carteira para abrir a porta, ou antes duas chaves na argola com um ursinho de pano a que faltava o olho direito, a boa, e uma segunda de que continuo a ignorar a serventia, desde pequena que as chaves me intrigam, misteriosas, secretas, introduzindo-as na fechadura abrem o quê, se lhes perguntasse…” No casarão, ela escuta a Senhora e interroga-se sobre as portas fechadas ao longo do corredor. Aquela casa é o centro do livro e, dentro da casa, o Senhor Doutor. Uma e outro atravessam o romance, como a figura do sem-abrigo a caminhar em direcção ao mar de Cascais, espécie de fantasma a cruzar o tempo. São permanências, enquanto os narradores se sucedem, personagens secundárias de uns, centrais na existência de outros, mas sobretudo na própria, e tantas vezes encerrados nela. Quem lê o Lobo Antunes das crónicas percebe que elas funcionam como um laboratório do romance. Há detalhes importados, personagens que se ensaiam, e o apurar do tal trabalho sobre a linguagem que persegue desde o primeiro livro, Memória de Elefante, publicado em 1979. Desde então, é como se Lobo Antunes andasse sempre às voltas com o mesmo livro, cada vez menos narrativo na concepção tradicional do termo — o contar da história —, e cada vez mais a procura da linguagem (num trabalho de arqueologia por vezes demasiado exposto) mais precisa e mais verdadeira face a um tempo, a uma emoção, a alguma coisa muito secreta porque nunca dita.

Em Da Natureza dos Deuses, um dos mais longos romances de Lobo Antunes, volta a haver muitas vozes; interpõem-se, atropelam-se, ecos de vários tempos históricos. E também, mais uma vez, a cronologia é a da memória, pouco obediente ao calendário, mas capaz de refazer percursos e, tanto quanto possível, resolver enigmas para contar uma história que é o presente de um país melancólico e velho: “A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado, até a voz dos meus pais me levaram… “ No futuro, parece dizer Lobo Antunes pensando ainda em Faulkner, o passado existe.


por Isabel Lucas
02.12.2015

8 de novembro de 2015

Sérgio Rodrigues escreve sobre Não É Meia Noite Quem Quer

‘Não é meia-noite…’: Lobo Antunes no labirinto da memória


O novo lançamento do escritor português António Lobo Antunes no Brasil, o romance “Não é meia-noite quem quer” [...], publicado em Portugal em 2012, oferece munição tanto a seus fãs incondicionais quanto a seus detractores. Estamos falando de um velho embate da cultura lusitana, a polarização entre os que acreditam estar diante do único escritor genial em actividade na língua portuguesa e os que julgam ter sido o autor lisboeta de 73 anos engolido pela própria vaidade de malabarista das palavras, terminando por sucumbir ao vazio do exibicionismo formal.

Naturalmente, o leitor não precisa se alinhar com nenhum desses lados, mesmo porque há um pouco de verdade em ambos. Antes de se lançar à aventura do livro, contudo, deve saber que “Não é meia-noite…” é um romance exigente que demandará sua adesão incondicional, uma espécie de profissão de fé renovada a cada página (às vezes penosamente) na recompensa proporcionada por uma história que gira sobre si mesma.

Na primeira metade de sua carreira, Lobo Antunes, psiquiatra de formação, perseguia algum equilíbrio entre a tessitura da prosa – que sempre foi caudalosa, musical e poética – e o enredo. Por exemplo: um romance como “As naus” (1988), fantasia em que os heróis das grandes navegações portuguesas voltam a “Lixboa” na ressaca pós-colonial dos anos 1970, tem uma linguagem de forte personalidade sem deixar o leitor à míngua de peripécias.

Foi em torno da virada do século que o autor passou a radicalizar técnicas de condensação, superposição e fragmentação de tempos e vozes narrativas a tal ponto que, neste romance, quase não faz sentido falar em “história”. Em todo caso, lá vai: uma mulher de 52 anos, professora, narra sua visita ao longo de um fim de semana à casa de praia onde passou a infância. A precisão cronológica anunciada pelos títulos das três partes do livro – uma para cada dia, começando com “sexta-feira, 26 de agosto de 2011” – é praticamente uma gozação.

Nos dez capítulos de cada parte, o último deles emprestado a outros personagens da história, a mulher permanece no mesmo lugar: o labirinto atemporal de suas memórias, em que tudo o que se passou em diferentes épocas é visitado e revisitado num fluxo de consciência que alterna momentos de grande intensidade poética (“Morrer é quando há um espaço a mais na mesa afastando as cadeiras para disfarçar…”) e momentos de enfadonha monotonia.

Em meio a bordões, avanços e impasses, o leitor se vê montando um quebra-cabeça que, no entanto, não demora a se desenhar em linhas gerais, dispensando a isca do mistério. Lá estão a mãe pouco carinhosa, o pai alcoólatra e os três irmãos, dos quais um era mudo e arredio, o outro voltou maluco da guerra em Angola (que o autor lutou e transformou em tema recorrente) e o mais velho suicidou-se pulando de um penhasco à beira-mar.

Lá está também a melhor amiga de infância, que se afastou sem explicar a razão e que retorna como médica de frio profissionalismo quando a mulher é submetida a uma mastectomia. Lá estão o marido que a rejeita por causa da mutilação e a colega mais velha que, pouco se importando com o peito ausente, a seduz. Logo fica claro que a mulher entretém o plano de seguir os passos do irmão suicida: a frase de abertura do romance é “Acordava a meio da noite com a certeza do mar a chamar-me através das persianas fechadas…”.

Será que a personagem levará seu projecto a cabo? Eis o único fio de suspense que o autor concede ao leitor. Um fio frágil, pois tampouco é isso o que de facto importa. Mais do que no destino dos personagens, a ênfase recai sobre as próprias formas de representação literária da memória, que num modo de escrita próximo da livre associação revela-se uma memória particular sem deixar de ser também, corporificada na linguagem, colectiva.

Se houve uma progressiva radicalização de tais linhas de força na trajectória de Lobo Antunes, é inegável que há também coerência em seu projecto artístico. Em Fevereiro deste ano, [um] jornal português online [...] publicou uma reportagem tão longa quanto cruel, [...] na qual busca compreender a expressiva queda nas vendas do autor [...].

Convocados a opinar, críticos e jornalistas se dividiram entre culpar os leitores da nova geração, que estariam em busca de livros mais rasos, e responsabilizar o próprio autor, que teria abusado da boa vontade do público ao se promover ou permitir que o promovessem, ano após ano, como um boquirroto brigão sem rabo preso com o establishment literário, convencido do próprio génio e injustiçado pelo Prémio Nobel [...].

É provável que pouca gente tenha paciência hoje em dia para a arrogância do personagem Lobo Antunes, mas sua literatura nada tem a ver com isso. Se anda encontrando menos leitores do que na virada do século, isso se deve simplesmente ao facto de que é acessível a pouca gente mesmo, uma característica que o tempo acentuou.

Resenha publicada na edição da revista “Veja” 

por Sérgio Rodrigues
em Todo Prosa
07.11.2015

27 de outubro de 2015

«Da Natureza Dos Deuses: uma sopa de letras», por Norberto do Vale Cardoso

António Lobo Antunes e Da Natureza Dos Deuses:
 Uma sopa de letras

Norberto do Vale Cardoso [i]

Na vasta e complexa obra de António Lobo Antunes destaca-se a importância do que parece fragmentário e lateral. Efectivamente, na obra deste autor não podemos ater-nos aos aspectos mais evidentes e tradicionais da narrativa, porque esta, como um mar imenso, está repleta de micronarrativas que funcionam como “microclimas” a perscrutar, exigindo ao leitor uma atenção redobrada. Essas “funduras”, onde tudo se subsume (e de onde tudo reemerge), funcionam como um “avesso”, noção que pode possuir várias componentes sémicas. Ora em Da Natureza Dos Deuses (ND) julgamos importante abordar três aspectos “submersos” na narrativa: as questões do poder, da paternidade e da linguagem.  
Em Da Natureza Dos Deuses, romance em que, uma vez mais, somos levados a percorrer os “corredores sombrios” (ND, p. 346) do poder, confrontamo-nos com uma questão central da identidade, veiculada através de uma dicotomia entre os “deuses” e os “homens” (vistos como “palhaços”). O tema não é novo na obra de Lobo Antunes, até porque “o circo […] é uma imagem catalisadora e sempre actuante nos romances” deste autor (Susana Carvalho, A Desordem Natural do Olhar, 2014, p. 171), mas interessa-nos particularmente porque Lobo Antunes vem encontrando outros modos de dizer para dizer também outras coisas.
Assim, os “deuses” serão representados pelo “senhor doutor” e pelo “senhor presidente” – que se reúnem em consílio aos domingos -, enquanto os homens-palhaço se fazem representar, grosso modo, pela figura do sem abrigo (que recorda a personagem de “As mãos são as folhas dos gestos”, incluída no Quinto Livro de Crónicas).

Poder e paternidade:
O senhor doutor, dono do volfrâmio, de empresas, fábricas, casas e carros (ND, p. 217), vê que o seu poder vai aumentando sem freios: “o senhor doutor comprava quadros aos alemães, cristais, pratas, continuava a aumentar a casa até ao pinhal, fez recuar as dunas, transformou as ondas em rochas” (ND, p. 238). Ele é, de facto, o capital, uma espécie de pai global. Todavia, não tem o poder da criação, pois, logo após o casamento, teve conhecimento de que não poderia ser pai. Como julga que o dinheiro compra tudo, procura médicos nos Estados Unidos, na Suécia e na Áustria, mas nenhum especialista encontra uma solução (ND, p. 355). Incrédulo, começa a sentir repulsa pelo seu corpo (ND, p. 355), e essa perda da paternidade (tema muito reiterado na obra de Lobo Antunes), que é uma questão de identidade, leva-o a nomear Marçal, o servente, para o substituir: “[…] minha filha que não é filha de mais ninguém senão minha, mandei o Marçal fazer-ma” (ND, p. 324). Este jogo de substituição eu/ outro, que se coaduna com os motivos circenses, em particular com a dialética palhaço rico/ palhaço pobre, é relevante na medida em que destaca a (im)potência do dono de todas as coisas, colocando em causa os alicerces do poder e da identidade. No fundo, o retirar da máscara deixa à vista a sua “imperfeição”, a “humanidade sofredora”, o “grotesco” do mundo (in Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, volume II, 2008, p. 131).
Para tentar suprir as carências efectivas, o sentimento de posse do “senhor doutor” traduz-se em prepotência para com todos os que o rodeiam. Vejam-se, a esse propósito: o modo como encarcera a Senhora num quarto, de onde esta observa o jogo de ténis, que o marido converte em jogo de sedução e manipulação; a ameaça de desterro do sargento para a província (de Cascais a Chaves, ND, p. 342); ou a posse física da secretária do adjunto, que toma para si como quando em miúdo se agarrava aos animais do carrossel (ND, pp. 352, 353), outro elemento que conecta a infância (como tempo irremediavelmente perdido) ao jogo entre ser e não ser. Portanto, o poder e a posse são, na verdade, substitutos de uma carência, aparentemente resolvida através da menorização dos outros, sempre vistos como “imbecis” (ND, p. 353) e “palhaços”.
As mulheres são as maiores vítimas do poder másculo e patriarcal que o senhor representa: “- Todas as mulheres são palhaços”, diz-se a determinada altura (ND, p. 76). Tal apodo justifica-se na medida em que o palhaço representa, a nível simbólico, “o rei assassinado”, “a inversão das propriedades reais” (Chevalier/Gheerbrant, Dicionário de Símbolos, 1994, p. 502), que aquele “que manda em Portugal” (ND, p. 486) teme. O espelho invertido leva-o a olhar os outros com desprezo e a usá-los, ao ponto de estes dependerem totalmente dele, nem que seja por medo. Veja-se o relato cruel da senhora:

“[…] o meu marido […] sem olhar para mim, já não tenho pinturas, nem adereços, nem vestidos, o roupão somente, eu para o meu marido
– De certeza que não me preferias palhaço?
[…]
– Ainda sou a tua vaca não sou?
eu
– Ainda sou a tua cadela não sou?
eu
– Ainda sou a tua puta?
eu, com mais ímpeto
– Ainda sou a tua puta?
enquanto as bolas de ténis para um lado e para o outro da rede” (ND, pp. 227-228)

Esse domínio traduz-se num enfastiamento do “senhor doutor”, que usa e substitui as pessoas que o rodeiam, ainda que, na verdade, o problema esteja em si próprio. Essa alteridade é usada pelo romance de Lobo Antunes+ para se referir, mutatis mutandis, à condição do artista (e do escritor em particular):

“[…] fui o palhaço que me mandaram ser, não fui, fui a tolinha que exigiram de mim, não fui, ao fim de certo tempo substituem-se os artistas, não é, o meu marido substituiu os artistas, conserva-me nesta casa por ele, não por mim, pela sua filha, talvez, reparem que não digo pela minha filha, digo pela sua filha, talvez, porque aceitei dar-lhe a filha, fica com ela, entrega-lhe um marido, tanto faz qual, os palhaços não escolhem o público, uma voz, não adivinho de quem
– Os artistas são todos portugueses” (ND, p. 222)

O artista:
 Como referimos, do outro lado encontra-se o sem abrigo, que, carente de todas as coisas (do emprego à posição social), é tão-só aquele que caminha, indiferente, junto ao mar de Cascais, como se a fímbria do mar representasse a margem social em que se encontra. No entanto, ninguém há de mais misterioso que ele, o que desperta o interesse do senhor doutor: “por que razão a gente, os deste livro, nos inquietamos com o sem abrigo, o que será ele, quem será ele, quem somos nós que não nos abandona nunca” (ND, p. 324). Desapossado, o sem abrigo, como figura desfigurada, representará o “desfavorecimento de classe dos artistas e a dureza do trabalho e do esforço exigido no que aparece, aos olhos do público, como cómico.” (in Dicionário da Obra de António Lobo Antunes, volume II, 2008, p. 130) Não obstante, se Marçal é levado ao suicídio (“enforcou-se sem aviso na estufa”, ND, p. 424) porque é conduzido a uma dissolução moral pelo dono de todas as coisas, o sem abrigo é indiferente aos jogos de poder. De certo modo, ele parece ser o antigo contador de histórias, que emudeceu perante um mundo onde impera o dinheiro e se descura a experiência do outro (Walter Benjamin, Linguagem, Tradução e Literatura, 2015, p. 148).  
Nesta óptica, no seu auto-exílio, o sem abrigo liga-se à importância da linguagem, da palavra e da composição do próprio romance. Sobre esse aspecto destacamos, primeiro, um lugar (uma livraria), depois, uma personagem (a mãe estrangeira da dona da livraria, “exprimindo-se num português cheio de rodas dentadas”, ND, p. 76), e, finalmente, uma acção. Referimo-nos ao momento em que o “senhor presidente” come a sopa de letras, que é símbolo da pluralidade e, enquanto tal, da “palavra do enigma” (Benjamin, ibidem, p. 41). Não é, aliás, despiciendo que as letras da sopa formem as iniciais “L” e “A”, significando, de certo modo, a natureza subsumida da criação artística, formada letra a letra, com paciência. Afinal, o homem não se alimentará exclusivamente de poder, porque até os que o têm acabam por desejar ter um outro poder, o de “construir uma palavra”:

“[…] a governanta, de colher em riste, depois de lhe prender um guardanapo com o escudo nacional ao pescoço
– Não é bonito o guardanapo senhor doutor?
lhe ia dando um caldinho, a apanhar o que escorria dos cantos dos lábios com o bico da colher e o senhor presidente a chupar o bico, demorando a mastigar
– Ainda não engoli
os pedacinhos de frango e as letras da massa, o senhor presidente, satisfeito, pescando um L e um A da língua
– Olha um L olha um A
com vontade de construir uma palavra” (ND, p. 549)


Deucalião:
Explicação dos Pássaros, Auto dos Danados ou As Naus, são romances onde António Lobo Antunes põe em cena a carnavalização do mundo, absorvida e usada parodicamente para caracterizar o nosso tempo. Este novo romance, Da Natureza dos Deuses, revela-nos o rosto oculto sob a máscara porque estas figuras representam o “perpétuo desacerto” e a “aparente normalidade” (Carvalho, ibidem, pp. 176 e 180) em que vivemos neste país, um lugar onde não há homens-deuses, mas onde coexistem homens que vivem vidas muito diversas.
O escritor que se assume (ironicamente) como um “artista” facilmente substituível ou como um “sem abrigo” à margem do todo, não será certamente um deus capaz de restabelecer a ordem para o caos em que vivem os homens. Mas no todo desorganizado que é (qual sopa de letras) o romance, levanta-se a questão intemporal sobre a utilidade da criação artística, da linguagem e do romance. Talvez a resposta tenha sido encontrada por Eduardo Lourenço, pelo menos no que à obra de António Lobo Antunes diz respeito. Num texto intitulado “Sob o signo de Deucalião” (in Público, 15.11.2003, p. 7), o ensaísta considera que “[…] a ficção de António Lobo Antunes lembra o gesto de um deus que se tivesse suicidado na sua criação”, mas sem criar o caos, porque ele se encontra “inteiro em cada um dos fragmentos dessa longa frase”.




[i] Norberto do Vale Cardoso é autor de A Mão-de-Judas: Representações da Guerra Colonial em António Lobo Antunes (Texto, 2011).

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em exclusivo para António Lobo Antunes na Web
26.10.2015

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...