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6 de junho de 2012

Rádio Renascença: entrevista de 2004

Repomos uma das poucas entrevistas de rádio. António Sala entrevistou António Lobo Antunes em 2004 e foi para o ar a 24 de Janeiro, ainda sob o pretexto da publicação de Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo. Nesta entrevista ALA relata a origem do livro seguinte, Eu Hei-de Amar Uma Pedra.

 

 * duração aproximada: 53 minutos

fonte: Rádio Renascença

21 de fevereiro de 2012

La Vanguardia: «Vivemos num mundo de simples desconhecidos»

La Vanguardia
entrevista de Núria Escur
21.02.2012

«Vivemos num mundo de simples desconhecidos»

O escritor português apresentou o seu último romance [em catelhano]: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?

foto de Marta Perez
Está cansado, caminha cansado. Resiste cansado. Chega o último romance de António Lobo Antunes (Lisboa, 1942) em castelhano: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? (Mondadori) com a mesma cadência de sentimentos que é já o selo do autor.

Na sua estadia em Barcelona o escritor português - que só pensa em passar um pouco com Marsé e Moix - deixa a sua opinião sobre um mundo que o desagrada cada vez mais: "Não há quem o entenda. A política, por exemplo, em abstracto, não sei bem o que é".

O seu olhar, borgiano, cada vez mais de soslaio, é cego àquilo que não o interessa. Lobo Antunes está de volta. Mas na sua catadupa de palavras com personagens que carregam os seus fantasmas continua criando desassossego como ninguém, cria excepções de silêncios e pontuações, cavalga. "Nunca leio o que escrevo".

Lobo Antunes é o mestre do mecanismo do inconsciente. E essa desordem de frases tão sua, segmento que retira das suas entranhas, neste romance trabalha para servir a exposição cruel de uma família e a morte da sua matriarca. Ler Lobo Antunes é por vezes como engolir sem mastigar, e que nos faz sentir bem.

Chegou a ver essa sombra de um cavalo no mar?
Nos meus sonhos.

É uma canção antiga.
A primeira vez que a ouvi fiquei surpreendido. É tão bonita! Porque é uma canção popular feita por camponeses que nunca viram o mar...

Não há paralelo entre a sua família e a do romance. A família é engano ou abrigo?
Nem uma coisa nem outra. Tenho muito sangue misturado: o meu pai era brasileiro, a mãe do meu pai era alemã, existem portugueses, italianos... e há uma coisa que aprendi muito cedo: existe gente loira, morena, mestiça, mas os seus problemas "fundamentais" são sempre os mesmos.

A sua educação foi singular...
Muito! À maneira da Amazónia mas em Portugal. Educação muito rígida, que nada tem que ver com o carnaval brasileiro.

Neste romance anuncia "é o teu último livro, António, o teu testamento". Mas depois ainda escreveu outros dois. Um escritor jubila-se?
Tem-se sempre medo que este que se está a fazer seja o último livro. [...]
Que se vá secando... a fonte, que não haja mais água, que não haja mais nada... É algo que me acompanha faz tempo, temes que a magia se acabe, porque não se sabe de onde ela vem, e eu não sei. Para mim é sempre um milagre.

No que escreve lemos não o que as personagens dizem, mas o que pensam. Para isso ajuda ser psiquiatra?
Fui psiquiatra pouco tempo e além disso não queria sê-lo. Mas sim, nas minhas obras aparece sempre a mesma voz que fala, e que me ajuda a entender o mecanismo dos sentimentos. É um mistério. Na vida só há perguntas.

E se lhe chega uma resposta
É sempre uma resposta em forma de pergunta.

Então diz-me o que menos gosta do mundo que o rodeia
Pergunta-me se ainda creio em algo?

Houve uma altura em que acreditava no Partido Comunista. Até que o decepcionou, penso.
O partido comunista em Espanha tem alguma expressão? Em todo o lado tem pouca... Não acredito nos políticos, precisamente. É já uma classe que nada me interessa. Mas entendo as multidões que saem à rua indignadas, isso ainda compreendo.

Por exemplo
Por exemplo, aqui em Espanha... não entendo o presidente do PP, não entendo o presidente do PSOE, nem o que dizem, nem aos políticos de outros países, nem entendo porque queiram ser políticos... a minha impressão em absoluto é que seguem um projecto de ambição pessoal. Podem dizer que têm amor pela humanidade, mas não me parece que tenham amor aos homens.

A si que lutou na guerra de libertação de Angola, justifica-se dar a vida por um ideal?
Aquilo foi uma guerra colonial, colheram miúdos de 18 e 20 anos e mandaram-nos para a guerra. Não tivemos opção, não havia ideologia.

A literatura proporcionou-lhe mais momentos de felicidade ou de insatisfação?
Já percebi que não sei bem o que é a felicidade, mas ao ler um bom livro, algo se parece.. Mas, sabe? está-se sempre solitário. E esse solitário só vê as caras de quem o lê, nas filas de gente...

Que entretanto esperam um autógrafo
Sim, mas não há tempo para falar, não há tempo para ouvir. Vivemos num mundo de simples desconhecidos.

A esta altura já não o deve preocupar o Nobel.
Nada. Ganhei tantos prémios sem ter pensado em nenhum deles! E aos meus escritores preferidos, Tolstoi ou Conrad, nunca o deram.

"Escrevo romances porque não sei escrever poesia". Mantém a afirmação?
Gostava de ter sido poeta, mas não tenho talento. Tentei fazer poesia, como todos os adolescentes, mas era tão má! Então tentei fazer à minha maneira.

O que se aprende quando se chega aos 70 anos?
Nunca pensei nisso. Mas posso dizer-lhe que me sinto velho. Os meus netos fazem-no sentir.

Tem medo da morte?
Ninguém está preparado para morrer, ninguém é capaz. Nem um velho centenário com sífilis. Quando era médico, com trinta anos, tive doentes que... sempre me surpreendeu o conceito de mortalidade das pessoas que tentavam suicidar-se.

Compreende o suicídio?
Sim, sim. Mas perguntar se já pensei nisso seria demasiado íntimo.

Conseguia resumir a história de amor mais bonita da sua vida?
Impossível. Sabe porquê? Porque confundimos amor com outras coisas: com gratidão, com acomodação, com a defesa contra a solidão. Nunca encontrei uma definição satisfatória do que é o amor entre um homem e uma mulher.

Dizem que é muito difícil traduzi-lo
Só falo cinco ou seis idiomas. Mas nunca li nada meu traduzido. Penso que toda a tradução é impossível: é como a fotocópia a preto e branco de um quadro, creio que muita coisa se perde pelo caminho...

Preocupa-o como passar para a posteridade?
Já cá não vou estar, portanto... Que diferença faz a Quevedo o modo como o vêem?

Ainda escreve no escritório que lhe deixaram umas freiras?
Agora escrevo em casa. Já não há netos. Estou só comigo mesmo.

E convivem em paz?
Divertimo-nos


citado do artigo on-line
21.02.2012
[tradução do castelhano por José Alexandre Ramos]

20 de janeiro de 2012

«Ah, quem me dera escrever como o Messi joga futebol!»



El País
entrevista de Antonio Jimenez Barca
14.01.2012


«Ah, quem me dera escrever como o Messi joga futebol!»

Sentado à mesa num canto da sua casa, enfrentando uma sequência de cerca de 25 esferográficas alinhadas ao seu lado, António Lobo Antunes espera que o próximo livro surja para começar a escrever. Terminou um em Setembro do ano passado e desde então ("há muito tempo já e não é normal isso") espera que medre dentro de si um novo trabalho, um novo romance, um novo delírio estruturado, que é como ele gosta de designar os seus escritos. Mas está demorado. Confessa que se sente culpado quando não está a escrever e, entretanto, lê e traduz para Português, para se entreter, os clássicos latinos Horácio ou Ovídio. O escritor português vivo de maior prestígio, nascido em Lisboa em 1942, com mais de vinte livros publicados, eterno candidato ao Prémio Nobel, tem fama de mal-humorado, mas de perto é amigável, mesmo brincalhão às vezes e à sua maneira. Fuma como uma chaminé e gosta de deitar as cinzas no maço de tabaco vazio e amarrotado. Vive inteiramente dedicado ao seu ofício absorvente: desvendar a essência da humanidade através da literatura. Portanto, este homem, que não tem telemóvel ou cartão de crédito, que escreve à mão com uma dessas vinte canetas alinhadas na mesa, não deixa que nada o distraia do livro (quando este chega): nem o leitor, nem críticos, nem os prémios, nem a rua, nem a si mesmo. Confessa que o melhor da sua escrita surge quando já leva três horas de trabalho e está cansado, quando a lógica das emoções e dos afectos vence a da mente, sendo esta, em suas próprias palavras, uma espécie de "polícia política". É então quando a sua mão desliza sozinha. Apresenta agora em Espanha um dos seu mais recentes trabalhos, Qué caballos son aquellos que hacen sombra en el mar? (Mondadori), um romance onde se cruzam as vozes dos mortos e dos vivos de uma família dividida, caída em tempos difíceis, dedicada à criação de touros, com origens de uma região rural do Alentejo. Estruturado como uma tourada, cada capítulo é precedido por um título com referência à lide tauromáquica.


Porquê esta alusão aos touros?
Há muitos anos que queria fazer um livro com uma estrutura parecida. Mas não me saía. Os livros rejeitavam. Este aceitou-a.

Gosta de touros?
Gosto de Curro Romero (ri)

O título é estranho, alude a quê?
Vem de uma canção folclórica muito antiga de Natal, do século XIX, do Alentejo, uma região do interior de Portugal. Era assim que cantavam os camponeses, que não sabiam ler e nunca tinham visto o mar. É uma canção longa, que fala da Virgem, do Menino, e depois refere-se aos Reis Magos: "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? São os Reis do Oriente que ao Menino vão adorar", ou algo assim.

O que o atraiu nessa canção?
Porque era bonita e muito sugestiva. E o facto de que quem a fez nunca tivesse visto o mar. Quando comecei esse livro, era tudo o que tinha, esse verso e uma frase: "Que triste é esta casa às três da tarde".

Nem sequer as personagens?
Não, nada. Cada vez mais os livros se fazem a si mesmos. Antes, fazia muitos planos. Agora não.

No entanto, o tema da família é um assunto recorrente em si...
Não sei. Nunca pensei nisso. Não me interessa. Sabe por quê? Porque não me interessa a história. Em nenhum livro meu encontra a intriga. O que tento fazer é colocar a vida entre as capas de um livro. A história, se houver, serve apenas para atrair o leitor ao que me interessa verdadeiramente: a natureza humana.

Pois o livro está carregado de personagens tristes, desesperadas e sós...
Diga-me um livro alegre ou feliz. O que gosto, o que procuro nos livros é a felicidade da mão do escritor. Pode ler-se, por exemplo, A Morte de Ivan Ilich, de Tolstói, e achá-lo triste. Para mim, no entanto, lê-lo é de uma alegria enorme, porque me ensina quem sou. O mesmo se passa com Quevedo, que talvez seja o meu escritor favorito em castelhano.

E qual a sua opinião sobre Cervantes? O Quixote não é um livro com final feliz, mas também não é um livro inteiramente triste. Tem passagens com esperança.
Sim, e divertidos, é verdade. Claro que gosto do Quixote. Mas Cervantes não é dos escritores que mais me entusiasmam. Os que me deslumbram de verdade são os poetas do Século de Ouro: Góngora, Quevedo, Frei Luis de León, S. Juan de la Cruz... A propósito, sabe o que dizia Cervantes do castelhano?

Não.
Que era como o português, mas com osso. É verdade: o castelhano é um idioma muito forte. O português é muito prático, um idioma bom para escrever. Mas esconde o perigo da sua própria facilidade. Tem que se lutar todo o tempo contra essa facilidade... Acho que é mais difícil fazer um bom livro em francês do que em português. Por isso o trabalho de Céline ou de Proust me pareça incrível.

Disse sempre que os livros vêm com a chave para entendê-los e desfrutá-los. Este também?
Tem que se entrar num livro sem ideias pré-concebidas. Enquanto se lê - a mim encanta-me ler, é um prazer absoluto, não como escrever, que às vezes não o é - enquanto se está a ler, dizia, é preciso conservar a virgindade do olhar. Não se deve ir com preconceitos. Por vezes pode ter-se a sensação de não se estar a entender nada, mas isso está bem, porque depois, subitamente, entende-se tudo: o escuro torna-se claro.

Não o preocupa que isso não seja sempre assim, que alguns leitores dos seus livros os achem sempre difíceis, e acabem por desistir, deixando-os?
Enquanto se escreve não se pode pensar no leitor. Se se piscar o olho ao leitor, o livro vai ser mau. Conversei muito com Juan Marsé (um amigo meu de quem gosto muito como escritor, cujo último romance, Caligrafía  de los sueños, acho uma maravilha) acerca disso, que não se pode transigir nesse aspecto. Tem que se fazer o que há a fazer com o livro. E se o leitor gostar, melhor. Se não gostar...

O apartamento de Lobo Antunes é um duplex encantador com uma grande janela sobre uma rua movimentada. No entanto, os ruídos que vêm de fora, dos automóveis, não atinge o silêncio da casa do escritor. As divisões estão forradas de estantes de livros meticulosamente arrumados. Uma divisão guarda todos os seus romances e respectivas traduções. Numa parede da sala tem frases pintadas com marcador. São máximas de pensadores ou poetas, colocadas ali por um Lobo Antunes convertido em grafitador do seu próprio apartamento. Fala da sua dívida para com Espanha, agradece o tratamento que lá recebe, relembra escritores amigos espanhóis que admira particularmente (Javier Marías, Pere Gimferrer), defende que os dois países deviam ser fundidos num só. De seguida, acende outro dos seus cigarros e, já a tarde avançando, acende a luz de um candeeiro de mesa: "Assim vejo melhor".

Como se consegue uma voz particular como a sua?
Com trabalho. Levou-me muito tempo  para encontrar o meu estilo, muitos anos.

Muitos livros também?
Bom, eu comecei a publicar tarde, com 36 anos. Vai-se aprendendo com o que se vai escrevendo, ainda que lhe digo que não volto a ler o que já escrevi.

Porquê?
Porque tenho medo de encontrar defeitos muito grandes e pouca qualidade. Só se pode escrever estando-se convencido de que se é o melhor. E depois, é tão difícil, e há tantas decepções com os próprios livros...

Para superar isso trabalha doze horas por dia, não é?
Sim, normalmente sim. Embora agora não. Agora espero. E digo-lhe que não sei se já não terei escrito o meu último livro, pois não sei se vou ser capaz de escrever outro. A verdade é nunca sabemos...

E porque sente culpa quando não está a escrever?
Porque escrever é única coisa que sei fazer, que faço. Além disso, tenho a impressão de que os livros não me pertencem, que nem sequer tenho o direito de por o meu nome na capa. Eles vêm de sítios, nossos ou não, que não conhecemos. Nos bons momentos, a mão caminha sozinha. A literatura não se faz com a lógica da cabeça, mas com a dos afectos, dos sentimentos e das emoções.

O inconsciente?
Repare: lemos Lorca ou vemos um filme de Fellini, e compreendemos que as suas associações carecem de lógica. No entanto, são uma maravilha. E é algo verdadeiro. Isso não se pode fazer com a cabeça, isso é um milagre. E de onde vêm os milagres? Não sei.

E depois disso, corrige muito?
As primeiras versões são sempre más. O problema não é escrever, mas corrigir. Para corrigir, o estado de espírito deve ser completamente diferente. Aí é preciso estar vigilante. E tentar estruturar o delírio.

É um dos escritores mais prestigiados da Europa, muitas vezes candidato ao Nobel. Pensa nisso? Pensa nos prémios?
Os prémios não valem nada. Há uns anos, ligaram-me do México para me dizerem que tinha ganho o Juan Rulfo e eu apenas respondi: "quanto é?" Não sabia que a conversa estava a ser transmitida para uma conferência de imprensa! Do Nobel falam todos os anos, mas isso, como escritor, é igual. Se vier, está bem porque é muito dinheiro, se não vier também estará muito bem. Existem muitos prémios... todos os escritores têm o seu prémio, há prémios para todos...

Sempre se sentiu escritor?
Nunca servi para outra coisa. Não sirvo para a vida prática. Nem sequer tenho computador: escrevo à mão, porque é como bordar, gosto do cheiro do papel, gosto dessa coisa artesanal da escrita, o desenho das letras. Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres... e Messi. Vi-o há pouco tempo, na televisão, no Mundialito. Ah, quem me dera escrever como o Messi joga futebol! A bola parece sua namorada!

Como vê agora Portugal?
As pessoas vivem muito mal. Há dois dias, fui lá abaixo comprar cigarros e no quiosque duas senhoras quase se matavam por dez cêntimos. Este bairro é pobre, onde os restaurantes são muito baratos, tascas modestas, onde se pode comer por cinco ou seis euros. Antes estavam sempre cheios. Agora estão vazios. As pessoas não têm dinheiro. O desemprego sobe e, ao mesmo tempo, há uma classe social com muitíssimo dinheiro. É tudo muito injusto.


El País
citado do artigo on-line
14.01.2012
[tradução do castelhano por José Alexandre Ramos]

19 de outubro de 2011

15 de outubro de 2011

RTP: António Lobo Antunes por dentro

RTP 1 - Especial Informação
emissão do dia 14 Outubro 2011


António Lobo Antunes por dentro




Entrevista conduzida por Fátima Campos Ferreira

tempo aproximado: 42 minutos


fonte: RTP
14.10.2011

9 de outubro de 2011

Diário de Notícias: «Gostava de morrer com uma caneta na mão»


Diário de Notícias
entrevista de João Céu e Silva
02.10.2011


«Gostava de morrer com uma caneta na mão»


A mão que escreve
À data do lançamento do seu mais recente romance, Comissão das Lágrimas, e a poucos dias do anúncio do Prémio Nobel, a que é sério candidato, o escritor dá uma rara entrevista, em que fala sobre a sua vida literária. Não evita pronunciar-se sobre a crise, os aumentos de impostos, nem sobre as figuras políticas que governam o país.


Estamos a poucos dias do anúncio do Prémio Nobel, e António Lobo Antunes é o único escritor de toda a língua portuguesa que aparece nas apostas como candidato. Como é que sente essa pressão?
Nada, já nada. Os prémios que ganhei foram todos inesperados. Por exemplo, quando cheguei uma vez à Alemanha, disseram-me que tinha ganho o Prémio Europeu; depois, noutros sítios, o Juan Rulfo, o Ibero-americano, o Jerusalém... Não estava à espera de nada, alguns nem sabia que existiam - todos aqueles prémios na França, em Espanha, etc.. Telefonaram-me a dizer "ganhaste o Prémio Extramadura, tens de ir a Espanha recebê-lo"; ganhaste o Prémio Rosalía de Castro... Foi tudo inesperado, sobretudo quando vêm com muito dinheiro dá prazer. O problema é que agora já não tenho onde gastá-lo, vivo com muito pouco e não preciso de mais.

Mas não o incomodaria que lhe telefonassem, inesperadamente, a anunciar o Prémio Nobel?
Não penso nisso, estou a falar do coração. Estamos em on, se estivéssemos em off diria a mesma coisa. É como qualquer prémio, como o Camões, que agora foi ganho pelo Manuel António Pina, que é um poeta que descobri há pouco tempo e de quem gosto muito. Estava convencido que iam dar o prémio ao Vasco Graça Moura, que é outro poeta de quem gosto muito. Eu não conheço o Manuel António Pina, e, pedindo-lhe perdão, tenho pena que o Vasco Graça Moura não tenha ganho. Entretanto, li melhor o Manuel António Pina e descobri que é muito bom poeta. Tenho inveja dos dois. Quando eu recebi o Camões, estava doente e queria lá saber dele para alguma coisa! Em 2006, já estava cheio de sintomas e a negá-los constantemente. Já vai fazer cinco anos, é extraordinário! Em princípio, este cancro não voltará, virá outro qualquer, ou outra doença qualquer, no pulmão ou em outro lado qualquer.

Porque é que não há outro candidato ao Nobel na língua portuguesa, de África ou Brasil, na short-list?
short-list tem cinco nomes. Ninguém sabe quem são esses nomes, ninguém sabe quem lá está.

Nas últimas apostas, aparece ao lado de Cormac McCarthy, de Philip Roth, de Don DeLillo...
Don DeLillo também aparece? Parece-me um bocado aleatório. Nem sei se as pessoas que o têm ganho aparecem nessas listas.

Aparecem, sim.
Não sei. Sei que os escritores de que mais gosto nunca ganharam.

Não é estranho que haja 250 milhões de pessoas a falar português e só exista o seu nome nessas listas?
Não sei. O [Prémio] Jerusalém começou há tantos anos, e também não havia nenhum português; no Europeu não havia nenhum português, no Rulfo também não. Eu não sei se há escritores portugueses traduzidos, lidos e apreciados no estrangeiro. Não sei, e a lógica dos prémios escapa-me, mas se me disserem em Portugal quem são os membros do júri, sei mais ou menos quem poderá ganhar. Não sei como é nos prémios internacionais... O Nobel é dado apenas por suecos?

Sim.
Então, não sei.

Os norte-americanos apostam muito no seu nome...
Porque devem querer um equilíbrio. Esse prémio é muito dinheiro, tal como o Rulfo era imenso dinheiro, mais ou menos o mesmo que o Camões. Este é muito mais, é dez vezes mais.

Não acredita naquela desculpa de que por já ter havido um português que recebeu o Nobel agora não possa haver outro anos depois?
Não sei quais são os critérios, não faço a menor ideia. A Academia mandou-me um livro há uns dois ou três anos - que está para aí - com as razões porque deram o prémio a cada autor. Houve algumas pessoas que gostei que tivessem ganho, porque gosto delas - tanto como pessoas como escritores. É o caso de Günter Grass, que foi um autor importante para mim quando estava a começar, e gosto dele como pessoa. O Mario Vargas Llosa, deu-me prazer que tivesse ganho. Quanto à maior parte dos outros, nem sequer os conheço. Nunca li um turco que ganhou, o Pamuk, a Herta Müller, não conhecia; li depois um livro e não me entusiasmou. Do Le Clézio, gostei dos dois ou três primeiros livros, porque o li em adolescente, mas o resto da obra não me interessa. Acho que o prémio teria feito imenso jeito ao [Joseph] Conrad. Quanto ao Tolstói, não precisava dele para nada. Eu só estive uma vez num júri, há muitos anos, onde também estava um homem de quem gostava e achava um bom poeta: Fernando Assis Pacheco. Disse-lhe: "Não tenho paciência para ler, escolhe o que quiseres e põe lá o meu voto ao lado do teu". Porque, sendo os livros diferentes uns dos outros, a qualidade não era grande. Quem é que merece ganhar? Quem é que é mais importante, uma vez que falou nesses nomes: Cormac McCarthy ou Roth? Eu prefiro o Cormac McCarthy, que escreve por dentro enquanto o outro é por fora. Também as pessoas que têm ganho o prémio não são de molde a entusiasmar-me. Por exemplo, o Saramago é um escritor que escreve por fora, e, com todo o respeito, então agora que o senhor está morto, a obra vai morrer. Porque é inevitável que vá morrer. O problema é que há muito poucas obras que sobrevivem à vida do autor. Quem é que lê agora o Zé [Cardoso Pires]? Quem é que lê o[Fernando] Namora? Quem é que lê o Carlos Oliveira? Estou a dizer nomes ao acaso, que gosto ou não.

Mas Conrad, que não ganhou, continua a ser muito lido!
Porque tinha uma coisa muito mais importante do que ter ganho qualquer prémio - a admiração de um grupo de escritores muito bons. Tal como o Malcolm Lowry, que morre e ninguém comprava um livro seu. Simplesmente houve quatro ou cinco fieis que mantiveram as chamas acesas para se tornarem um clássico. Não é coisa para acontecer com nenhum português.

Considera, então, que o livro Memorial do Convento, por exemplo, é um livro que vai morrer?
Tudo morre.

Destes novos escritores, acha que um dia poderão receber o Nobel?
Mas porque é que havemos de pôr as coisas em termos de Nobel!? Talvez fosse preferível pensar-se "Poderão ser grandes escritores ou não?" Daqueles que eu li, e não li todos - por isso peço perdão se estou a ofender alguém -, o mais cotado parece-me, sem dúvida, o Gonçalo [M. Tavares]. Sem dúvida. Quanto aos outros, tenho reservas.

Quantos livros é que ainda quer escrever?
Os que a vida me deixar. Na última vez que fui fazer a revisão médica, o oncologista disse "teve muita sorte porque este cancro mata dez pessoas por dia". Portanto, os que a vida me deixar! O meu receio é começar a perder faculdades sem ter crítica em relação a isso. Mas ainda sinto força e, se Deus quiser, gostava de morrer com uma caneta na mão. E, é evidente, gostava de viver muito tempo, porque a obra não está acabada. Se conseguir continuar a trabalhar neste ritmo - doze, treze, catorze horas por dia -, talvez. Isto cansa fisicamente, mas não me imagino a fazer outra coisa. Agora estou no intervalo de livros, e não me sinto bem.

O vazio entre os livros é sempre um período muito complicado?
Acabei há cerca de uma semana o último livro... Agora não sou capaz de escrever, estou muito cansado ainda, farto de palavras e de papel e do esforço enorme. Mas daqui a um mês, vai começar a ser complicado. Até lá, vou ler uns artigos e uns livros que para ali tenho, mesmo que com o tempo tenha ficado cada vez mais selectivo. Leio 20 ou 30 páginas e ponho de lado.

Como ocupa o tempo sem escrita?
Não é bem não ter com que ocupar o tempo... Tenho pensado muito na minha surdez e notei que quando as vozes de fora começaram a desaparecer, as vozes de dentro tornaram-se muito mais nítidas e claras. Estou sempre a ouvi-las. Eu não sei se é um livro o que está dentro de mim, mas é qualquer coisa parecida com isso. Mas o problema passa todo pela mão, que é um prolongamento de não sei o quê. Então com este último livro foi um milagre, porque comecei no dia 16 de Fevereiro e escrevi-o em sete meses. Isto nunca me tinha acontecido, a não ser com Explicação dos Pássaros. Parecia até que a mão queria andar e eu nem era capaz de a acompanhar. As palavras saíam, saíam, e a primeira versão foi rápida. O problema foi estruturar aquilo tudo.

Explicação dos Pássaros está a fazer 30 anos. Como foi?
dos Pássaros foi um milagre que nunca me aconteceu. Vinha de carro de Aveiro para Lisboa, e quando cheguei tinha o livro todo. Agora é diferente, porque não tenho plano e não conto histórias. Quando as pessoas dizem "as personagens dele"... não há personagens! Há umas vozes, provavelmente sempre a mesma. Agora, o que faço é marcar uma data para começar e, chegando essa data, começo. De cada vez tenho medo, porque as minhas expectativas são muito altas, tais como as das pessoas que respeito. Estou a lembrar-me desse homem com quem vou agora estar em Cambridge, o[George] Steiner, e de outras pessoas, sobretudo críticos alemães ou austríacos que prezo muito, a exemplo da americana ou francesa. Tenho sempre medo de desiludir as pessoas e, sobretudo, de me desiludir a mim mesmo. Isto é um ofício muito estranho, mas cada vez mais o meu tempo é ocupado com ele.

Convive bem só com livros?
Eu não tenho vida social, não vou a jantares. Estou sempre com os livros. Claro que posso viver com uma pessoa, mas não vou ao cinema e não estou com amigos. Tudo foi reduzido drasticamente: aceitação de convites, sessões de autógrafos, só vou dar mais uma entrevista à RTP por causa deste livro. E penso que é tudo. E não há lançamentos, não há nada. Vivo muito só, mas não me sinto sozinho, porque estou a fazer aquilo que quero e porque preciso de tempo. Neste momento, estou à espera [do próximo livro]. Tenho umas coisas vagas, tenho ruas de vilas à noite, terras pequenas, mal iluminadas. Nada mais. Normalmente, quando começo, pouco mais tenho do que isso. O que possuo é já uma apetência para começar o [novo] livro, no qual queria fazer uma coisa - ao nível da linguagem, que é aquilo que mais me interessa - com uma ambição desmedida. Não me interessa contar histórias, porque nenhum grande livro conta histórias!

Neste seu novo livro, Comissão das Lágrimas, porém, existe um tema da história!
A voz que fala é a de alguém que está internada num hospital com uma esquizofrenia e que saiu de Angola aos cinco anos de idade. Como é que ela pode saber o que se passou? Eu não consultei nada, nunca fiz pesquisa como o [Alves] Redol para os seus livros. É uma outra realidade! Tenho-me dado conta de que temos dois universos: o que está à nossa volta e o de dentro de nós, do qual fazemos parte. A maior parte dos livros que se lê são feitos pelo universo à volta, como os de Philip Roth. Mas os grande livros são sobre aquilo que está dentro. As peças do Tchekhov, onde tudo e nada se passa, com frases que são o mais banais que há - "a cerejeira floriu", "tenho frio" ou "amanhã vou não sei onde". E com estes materiais pobres consegue reconstruir o mundo inteiro. Quando se vê os seus manuscritos, não há uma linha que não esteja rasurada, emendada, reemendada, reescrita até.

Continua a escrever e a reescrever tão violentamente como dantes?
Claro! Porque as primeiras versões têm as soluções todas lá dentro, apesar de estarem imperfeitas. Há muita areia e muita lama mo meio dos diamantes que é preciso tirar. Há aqueles que cortam e os que acrescentam, não é? Os que cortam são mais frequentes do que os que acrescentam. O Proust, com aqueles papelinhos todos colados, o Eça a acrescentar sempre mais. Eu pertenço à classe mais comum, a daqueles que cortam. O que é publicado, às vezes, nem metade da primeira versão é.

Ninguém o coloca na classe de escritores mais comuns. Pelo contrário, é cada vez mais difícil catalogar a sua escrita.
Sim, mas o que se passa é que a maior parte das pessoas que escreve cortam; nesse sentido pertenço a essa maioria. O problema é que estamos longe da idade de ouro da literatura e, actualmente, há no mundo inteiro muito poucos escritores importantes. Quem vai ficar? Não sei.

Mas sente-se só tendo em conta o que se publica em Portugal?
Sempre me senti só, mas a pessoa tem de estar assim para escrever. O último livro que me deu prazer ler foi o de um escritor espanhol, de quem eu sou amigo, o Juan Marsé. Chama-se Caligrafia dos Sonhos, não é um autor inovador, mas aquilo é muito bem feito no sentido ético da escrita e com respeito pelas palavras. Não é da minha família literária, mas gosto muito dele e da obra. O século XX teve dois grandes escritores: o Proust e o Céline. Hoje em dia, isso é aceite pacificamente, mas quando comecei ainda me lembro de o Eduardo Prado Coelho pôr o Céline pelas ruas da amargura. Era considerado pela nossa inteligência um escritor de segunda ordem! Mas, recordo-me, as críticas aos meus livros eram péssimas ao princípio e, o que é extraordinário, apontavam como defeitos o que eu achava que era as virtudes. Já a crítica no estrangeiro é completamente diferente, porque a distância toma o lugar do tempo. Em Portugal havia uma ideia, e ainda há, que explica o sucesso de alguns escritores que estão agora a publicar, mas é muito fraco o que se faz. Escrever é um ofício, não se pode fazer mais nada! Se sempre houve muito poucos grandes escritores, em Portugal nunca tivemos isso.

E a crítica nacional?
Não tenho o menor respeito pelas resenhas de jornal sobre livros. Não me interessam nada, nem aquele sistema de estrelinhas, que é completamente imbecil. Se os livros fossem publicados anonimamente, resolvia-se muita coisa. Claro que tenho orgulho no que fiz, e se me perguntarem "acha que alguém escreve como você?", eu seria hipócrita se dissesse que achava que havia. Recentemente li uma entrevista do Mário Cláudio, que é uma pessoa de quem gosto, a dizer que ele era mais fácil de imitar, que tinha muitos epígonos. Não é uma questão de facilidade. O Joyce é fácil de imitar? Não é! O Conrad é fácil de imitar? Não é! Quem é que o Faulkner começou por imitar? Foi o Joyce e o Conrad. É muito mais fácil de imitar escritores mais facilmente digeríveis. Como também não estou de acordo quando ele diz que não há poetas. Acho que a  nossa poesia é muito melhor do que a nossa prosa e não é inferior à poesia americana que me parece sem igual no século XX. Isto é a minha opinião, não sou crítico, embora leia o mais que posso.

Diz que tem inveja dos poetas...
Tenho muita.

... Mas Comissão das Lágrimas não é muito mais poético do que os seus livros anteriores?
Não sei, não o li. Nunca li nenhum livro que tenha escrito. Depois da última revisão, entrego o livro e não vejo provas, não olho mais. Depois, o que quero é esquecê-lo. Nem sei qual é a ordem dos livros que publiquei, o que é que vem a seguir ao Manual dos Inquisidores. E eu que tenho tão boa memória, que sei de cor frases e páginas de livros dos outros, de mim nada sei.

Porque é que faz questão de esquecer a ordem dos seus livro?
Não faço questão. Esqueci. Quero-me lembrar e não sou capaz de reconstituir a ordem. É muito estranho isto em que me tornei, ou em que me tornaram. Nunca imaginei! Se formos à estante onde estão os livros [as traduções da sua obra], cada vez são mais livros, mais países e mais leitores. Por isso, durante muitos anos pensava: "Um dia acordam e isto foi tudo um sonho". Nunca me posso esquecer de que quando estive doente recebi do nosso país mais de sete mil cartas! O que é que as pessoas encontrarão naqueles livros que as faz reagir de uma maneira tão afectuosa? Quando vier o próximo cancro, que inevitavelmente há-de vir porque ninguém o vence... Resolveu ir-se embora sem que se saiba porquê? Com os livros é a mesma coisa; de onde é que vêm, de que parte nossa? Olho para o Comissão das Lágrimas e não sei de onde é que aparece aquela voz na rapariga, porque é que o pai era padre, porque é que a mãe não sei o quê... Aquilo vai aparecendo enquanto escrevo.

Em Comissão das Lágrimas existe a guerra, tema que nunca pegara de uma forma tão directa. Porquê?
Há muito tempo que não falava em guerra, porque pensava que não se falasse muito em guerra e eu não estava muito interessado nisso. Eu nem sei sobre o que é o livro, mas de repente a primeira palavra que me veio à cabeça - o livro não é sobre nada a não ser sobre ele mesmo, não é? - foi a palavra "culpa". Parece que nas vozes existe uma culpabilidade, em todas aquelas pessoas.

Atravessa o livro todo, a culpa.
É o sofrimento da culpa e a dor da culpa. Não é um livro sobre a culpa, é muito mais ambicioso do que isso. Mas não sei o que é! Quando o acabei, estava contente, ou não o dava para publicar. Isso é o costume. Durante um mês ou dois, estou contente. Depois começo a pensar que podia ter ido mais longe. Mas eu sou um escritor que demora tempo a arrancar no livro, e como o material é muito, não o posso dar todo. O que faz que os meus inícios sejam lentos, porque não tenho muita informação e preciso de a dosear. Sabia lá o que é que ia acontecer nesse livro.

Há partes que são factos históricos, como a da Baixa do Cassange?
É uma zona que conheci bem. Vivi um ano na Baixa do Cassange, e o que se passou em 1960 é verídico - houve uma greve. Como é que aquilo foi reprimido, já não sei, não  li nada sobre isso. A morte do guerrilheiro, que nunca é nomeado, também não assisti a ela. Foi o que a mão quis escrever. A morte de um ministro qualquer, aquela mãe que dança num cabaret... Foram surpresas para mim.

O senhor Figueiredo?
Era um homem com uma discoteca, um bar de alterne.

Que quer que as suas queriduchas estejam sempre alegres.
É natural. Um cliente não entra lá para ver as mulheres a chorarem, quer que elas estejam contentes.

Há uma personagem real, a Virinha?
Isso é mencionado no livro sem falar no nome, porque me impressionou a coragem de uma mulher que continua a cantar enquanto é torturada. Sempre respeitei a coragem física... É engraçado, quando estive lá, nem os soldados nem os oficiais usavam a palavra coragem. Quando achavam que um homem era corajoso, diziam "é um tipo duro".

Tem sido dos escritores que mais abordaram a guerra colonial.
Nunca abordei!

Perpassa sempre nos livros.
Sempre não, nalguns! Neste último, nada. Eu vou uma vez por ano ao encontro da companhia e venho de lá abalado para três dias. Imagine-se o que era se eu escrevesse um livro sobre aquilo. Eu nunca li as Cartas da Guerra [troca de correspondência com a mulher], só ouvi ler algumas no Teatro São Luiz, mas como infelizmente sou surdo, percebi pouco.

A surdez dá-lhe jeito de vez em quando?
Fez-me sofrer muito, sobretudo ao princípio, porque as pessoas pertenciam a um mundo diferente do meu. A primeira vez que pus o aparelho pensava que toda a gente reparava e que iam perceber que eu era um aleijado com uma prótese. Agora já vivo com isso e em mais paz... Eu tinha orgulho na minha beleza, e aquilo desfeava-me! Depois, são as infecções periódicas, o eczema que isto cria e que tapa o canal, e lá tenho de ir de charola para o hospital. Mas para o meu trabalho foi importante.

Este ano passam 50 anos sobre o início da Guerra Colonial. Os soldados que estiveram em África têm sido homenageados o suficiente ou não?
Não faço a menor ideia. Tenho da Guerra Colonial uma visão muito estreita: só sei de mim e daqueles que estavam perto de mim. Não sei mais do que isso. Posso ter ideias quanto à justiça ou à injustiça de uma guerra desse tipo, mas experiência só tenho a daquelas pessoas com quem eu estava. Para mim foi uma experiência radical, que me mudou a vida, mas não tenho ideias gerais sobre isso.

Comissão das Lágrimas traz toda essa guerra às páginas?
Traz, mas julgo que se situa mais depois da independência de Angola.

Mas há sempre memórias daqueles tempos, da experiência dos portugueses...
Se calhar não são acontecimentos reais porque é contado por uma voz esquizofrénica, portanto desligada do mundo real. Não faço a menor ideia, não me lembro já. Mas aquilo é fantasiado por ela, como a morte do pai no fim do livro. Disso lembro-me, porque deu um trabalhão louco. Estou-me a lembrar agora da mãe do pai que trabalhava para um chefe de posto... Nós não conhecíamos bem os civis ou as autoridades coloniais; conhecemos melhor a PIDE que lá estava. Mas também não inteiramente, porque havia um grande secretismo, separação e até uma rivalidade em relação aos militares.

Na página 56 escreve: "Não faço o livro como pretendia porque as vozes não consentem, escapam, regressam, contradizem-se, e eu a perguntar-me quais é que devo dar a vocês". As vozes não o deixavam...
Isso não sou eu, é a rapariga que ouve uma multiplicidade de vozes dentro dela.

Parece existir algumas partes autobiográficas no livro. É verdade?
É o seu entendimento.

Ou como noutra página: "Não faço o livro como pretendia". O que significa?
Não sei! No fim, achei que tinha feito o livro que queria fazer. Como são sempre outras pessoas a escrever - a mão não escreve propriamente o que se quer -, é capaz de ser verdade. Muitas vezes a mão está em completo desacordo com aquilo que se está a escrever - é a sua parte racional. O que é preciso é que o livro se aguente como unidade independente de si.

Há ainda outra parte em que escreve: "ensinem-me o que deve ser contado ou ensinem-me o que querem que eu conte". Não é autobiográfico?
Isso não tem nada que ver comigo tanto quanto tenho consciência. O livro faz-se como ele quer. Nem é o que deve, nem é o que eu quero, é o que ele quer.

Continua a aprender a escrever um livro?
Claro. Acho que posso fazer melhor, tenho de fazer melhor.

«As pessoas vivem com dificuldade»

Diz que a sua surdez o protege do que se passa no mundo. E da crise nacional, também?
Qual crise? O estarmos a viver mal? No outro dia, no quiosque onde costumo comprar cigarros, estavam duas senhoras a discutir muito intensamente sobre dez cêntimos. Isto fez-me muita impressão! As pessoas estão a viver mal e com bastante dificuldade. Também encontrei uma senhora a chorar, era enfermeira no tempo do meu pai, e vivia sozinha da sua reforma. Os filhos ficaram desempregados, deixaram de pagar as casas e voltaram para casa dela, pequena, onde voltou a ter os filhos, as noras e os netos acampados. E a senhora chorava com isto. Custa-me muito ver o meu povo assim! Também me sinto afectado, pois pago de impostos mais de metade do que ganho. A nada posso fugir, nem nas editoras estrangeiras; a agência fica sempre com uma percentagem forte.

Desagrada-o esta carga gigantesca de impostos que estamos a apanhar?
Tem sido muito violento para mim e, até ao fim do ano, vou pagar muito mais de impostos. Pensava que para certas pessoas devia haver alguma atenção, porque são importantes para o País. O que é que se conhece de Portugal lá fora? Quando estive doente, recebi cartas do Illinois, do Oregon, de outros estados da América. O futebol não lhes interessa, nem o Ronaldo ou o Mourinho. Conhecem o Siza um bocado. Apesar de tudo, há uma coisa que não é má: até agora não se lembraram de taxar os prémios literários.

Mas vão aumentar o IVA dos livros.
Não sabia. E os livros vão passar a ser muito mais caros? Não têm vergonha! Eu acho errado, têm tanto sítio onde ir buscar dinheiro. Às vezes pergunto-me como é que os portugueses têm dinheiro para pagar um bilhete para ir ao futebol...

O Governo também acabou com o Ministério da Cultura e transformou-o numa secretaria de Estado. Isso é bom para a cultura nacional?
Desde o 25 de Abril, quem fez alguma coisa pela cultura em Portugal? Não tenho resposta. As autarquias, algumas, sem dúvida. Do Estado, nunca vi. Fosse ministro, fosse secretário de Estado. Essa é a minha sensação.

Não sente, da parte do Estado, nenhum apoio a escritores, como no seu caso?
Em quê? Não quero ficar a dever nada a nenhum governo. Tenho recusado tudo, não faço parte de comissões de honra de nada nem de ninguém. Eu sou livre, nunca pedi. Não queria que me apoiassem, só não queria que me tirassem!

«Se há governo, sou contra. Sempre me fizeram muita confusão os políticos»

Gostaria de ainda ser médico neste tempo de cortes e mais impostos?
Se tivesse dez vidas, gostava de ser médico numa delas. Tenho saudades de hospitais, do seu cheiro e da sensação de ser útil. O contacto com a pessoa que sofre é sempre muito importante para mim! Mas uma vida só, porque precisaria da outras todas para escrever. Gostava de ter também uma para escrever sobre teoria da literatura.

Mas como médico não gostava que lhe cortassem o salário?
Ninguém gosta! Mas custa-me mais ver pessoas em graus importantes da carreira a ganharem o que ganham, que é miserável. Choca-me que um chefe de serviço ou um assistente graduado ganhem tão pouco. É natural que fujam, mesmo sendo uma profissão muito bonita.

Um dos grandes debates políticos tem sido O TGV. Que opinião tem?
Não tenho.

Seria importante que Portugal estivesse ligado às capitais europeias?
Sei lá se é importante. Acho que existem pessoas que podem explicar isso melhor do que eu, que nunca pensei nisso. Quando abro a televisão, que é tão raro, indigna-me a mediocridade dos programas.

E, na televisão, irrita-o ver as notícias sobre o buraco financeiro da Madeira e do Continente?
Abro a televisão sem aparelho [de surdez] e só vejo no teletexto as partes nacional, internacional, de desporto e as primeiras páginas dos jornais. Claro que há coisas que me indignam e que me alegram, mas isso já é outra pessoa que não tem nada a ver com a pessoa que escreve os livros. É enquanto cidadão português que me indigna. O escritor só escreve, depois há um cidadão que de vez em quando se aborrece. De maneira geral, penso como aquela personagem espanhola do Jorge Amado, que era um homem que andava de país em país, e quando chegava a um país novo perguntava "Há governo? Se há, sou contra". Sempre me fizeram muita confusão os políticos, e, no entanto, sou amigo do presidente Mário Soares, como sou do general Eanes ou do presidente Sampaio. Mas neles sempre vi os homens, como em Ernesto Melo Antunes, e não os políticos. Além de me parecer que se tivemos figuras políticas importantes desde a revolução para cá, elas foram o presidente Soares e o dr. Cunhal.

Não se revê nos políticos actuais?
Rever em que sentido?

Em os admirar?
Admirava e respeitava os que referi, mesmo estando em desacordo em muita coisa neles, mas não encontro em qualquer homem que faça política agora aquela grandeza. Não têm, porque um homem superior, seja em que área for, demora muito tempo a fazer. Se compararmos os líderes actuais, a que distância é que ficam? Como aquele homem que morreu novo, Amaro da Costa. Onde é que há no CDS alguém que tenha metade da estatura dele?

Acha que Paulo Portas não tem?
É preciso perguntar!? Além de que a escolha de um partido é tão afectiva como a de um clube de futebol. O meu avô, que se chamava António Lobo Antunes, salazarista, conservador, reaccionário, era também a pessoa mais tolerante e aberta que conheci. Mas quando eu andei nas franjas do Partido Comunista, conheci a intolerância, a falta de democracia e de liberdade interior e exterior. Eu pensava, ainda adolescente, que a escolha de um partido era uma coisa meditada e intelectual. Não é!

Quando os portugueses deixaram de votar em Sócrates e passaram a votar em Passos Coelho, acha que só mudaram de clube de futebol?
Não mudaram de clube de futebol. São um eleitorado flutuante que não pertence a ninguém. Nem um nem outro são suficientemente atraentes. Imaginando que um desses senhores era um clube de futebol, teriam menos sócios a pagarem cotas do que teria Sá Carneiro ou Álvaro Cunhal. É como a diferença que fazem no futebol entre os sócios e os simpatizantes, e as simpatias mudam. E acho muito bem que tenha mudado, porque não fazia sentido aquele governo. E eu não tenho o coração à direita, porque a minha opção pela esquerda é profundamente afectiva! Se eu pensar um bocadinho, não há nenhuma razão para tal, talvez uma certa culpabilidade por ter nascido num certo meio ou uma reacção juvenil que se tenha mantido... Era difícil eu militar num partido, e não tenho a menor curiosidade em conhecer políticos.

Mas conheceu Sócrates?
Uma vez, no Prémio Camões, onde estava o actual Presidente da República, que tem sido sempre - tal como a mulher - de uma grande gentileza para comigo. Como o presidente do Brasil se atrasou, estive a falar com ele um bocado. Fiquei com determinada impressão do homem, que não interessa, mas a distância para com esses nomes de que falei é muito grande. Tenho medo dos políticos, porque gostam de substantivos abstractos em vez das pessoas.

Acha que a classe política portuguesa costuma ler os seus livros?
Não faço a menor ideia.

Mas gostava que lessem?
Para quê? Verdadeiramente, não sei quem são os leitores, porque só os vejo nas sessões de autógrafos, quando se limitam a dizer o nome. Não sei o que fazem. Mas tenho a sensação de que quem me lê não são as classes altas, é a média e média baixa, provavelmente as mais afectadas agora. Não acredito que as pessoas que aparecem nas revistas - actrizes, modelos e apresentadoras - leiam um livro. Posso estar enganado, se calhar lêem imenso, mas não me parece, pelo modo como falam.


in Diário de Notícias
02.10.2011

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...