24/08/2016

Público: «Cartas da Guerra: um filme que se ergue»

Cartas da Guerra, de Ivo Ferrreira, que tem hoje a antestreia antes de chegar às salas a 1 de Setembro, aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Delicado e temerário, cria o seu mundo.


Uma “cena original” luminosa: o realizador Ivo M. Ferreira a entrar em casa de madrugada – como contou -, avançando para o quarto, guiado pela voz da mulher grávida, a actriz Margarida Vila-Nova, que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, o volume que em 2005 juntou as cartas escritas pelo alferes médico António Lobo Antunes, de 28 anos e destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa, Maria José.

Mesmo correndo o risco de a “cena” se imobilizar como cliché à força de tanto ser “vista” (mas é belíssima, e por isso é irresistível voltar a ela ou começar por ela...), guarda um potencial anunciador que parece regenerar-se sempre que é de novo contada: a intimidade (do cineasta) como espaço de transmissão de uma memória da História portuguesa – para o já singular Águas Mil, longa-metragem anterior do realizador (2009), em que Gonçalo Waddington corria atrás de quem guardava as memórias das aventuras revolucionárias do pai, Ivo M. Ferreira já deixara a sua vida ser tocada, interceptada, por histórias que não viveu, pelas biografias e memórias dos outros que fez suas.

A questão era saber se a singularidade e a delicadeza tinham resistido no que aí vem, o filme Cartas da Guerra (estreia na próxima quinta-feira, dia 1 de Setembro, mas com antestreia marcada para esta quarta-feira). Porque era um projecto cheio de armadilhas: adaptação literária, figura pública (e seus guardiões) a condicionar, directa ou indirectamente, um património simbólico e figurativo e a obrigar, provavelmente, a negociações várias, e a imaginação do espectador (quando não mesmo a liberdade do realizador) a poder ser afectada por uma presença intimidante, bigger than life. Ou seja, facilmente o filme e as suas expectativas seriam reduzidas ao biopic de prestígio, de interesse escolar, ilustrativo.

As notícias do Festival de Berlim, onde Cartas da Guerra esteve a concurso, foram razoavelmente ambíguas, aliás: mais ou menos entusiásticas, mais ou menos reservadas, pareciam dar conta de um filme que não se libertava das prisões que tinha criado para si próprio, como que vergado pelo seu peso. Como se as suas mais-valias fossem os obstáculos que criara e que não conseguira ultrapassar: a saber, uma voz-off e um trabalho fotográfico esmagadores – de João Ribeiro. Havia, além disso, uma contiguidade incomodativa com outro filme português, da mesma produtora, O Som e a Fúria, também a preto e branco, também com vozes, também memória das Áfricas: Tabu, de Miguel Gomes, que estivera em concurso no mesmo festival e que, disse-se, por pouco não chegou mais alto no palmarés final da edição de 2012 (teve o prémio Alfred Bauer pela sua contribuição artística inovadora). Como se Cartas da Guerra fosse, então, uma “jogada” e uma possibilidade de remake.

Correndo o risco de súmula injusta do que se escreveu, avizinhava-se então a chegada de uma natureza morta.

E eis que nos devemos preparar para um filme que foge das armadilhas colocadas no percurso e, mais surpreendente ainda, que tacteia no escuro atrás da sua vida interior, permanecendo fiel à voz que ouve. É filme simultaneamente delicado e temerário. Por isto: aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António (interpretada por Miguel Nunes) e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Aventura-se a criar e organizar o (seu) mundo, como se não houvesse pré-existências.

Voz-off? Não, a voz não vem de fora a sublinhar ou a demonstrar, impossibilitando assim a vida própria dos planos. A voz vem de dentro, é o próprio filme a construir-se, a falar (-se). É voz in, à procura de um lugar out. Isto vale para Cartas da Guerra e vale para António – as cartas são o desejo de um encontro erótico com uma mulher (Margarida Vila Nova), num espaço que anule a guerra, que a derrote, que faça o mundo, que é essa história de amor, recomeçar do zero. A personagem e o filme querem estar num outro lugar.

Muito cedo António deixa de ser prisioneiro das expectativas “criadas” pelo facto de ser o escritor António Lobo Antunes quando jovem e parte para a sua própria aventura de personagem. Quer ganhar corpo. Figura frágil, inicialmente presença diáfana, vai conquistando progressivamente (o seu) espaço, a consciência política, a dimensão como escritor. Essa é exactamente a aventura de Cartas da Guerra: filme à procura de si próprio, de um corpo que chame seu. Este corpo a corpo filiam-no menos no Tabu de Miguel Gomes do que, por exemplo, nas aventuras malickianas. Há um filme para que este remete, se assim o quisermos, A Barreira Invisível/The Thin Red Line. Mas mais do que um título em especial, é com a experiência da criação do mundo que está nos filmes de Terrence Malick – como se todas as matérias se organizassem num caos inicial, e o filme fosse o testemunho vivo, a prova, de um nascimento – que Ivo M. Ferreira caminha. De forma desassombrada, aliás. Por isso a meia hora final de Cartas da Guerra pode mesmo ser qualquer coisa de triunfante. É um filme que não só sobrevive a si próprio, como se ergue. É uma personagem que se afirma. A guerra foi de Ivo M. Ferreira, o filme é dele.


citado do site do Público
texto de Vasco Câmara
24.08.2016

15/08/2016

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.

A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.

No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.

Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles algumas benesses.

E assim correm quase seiscentas páginas em que, basicamente, andam alguns com umas cenouras a acenar a muitos que poderão apanhá-las. Se, se e se muitos ses se cumprirem. Há um personagem diferente, o sem abrigo, de quem todos falam mas que só é avistado, ninguém o agarra ou interpela e no final há quem diga que é um anjo. É a fantasia-personagem, a liberdade, ninguém sabe quem é, aparece aqui e ali o tempo suficiente para ir semeando curiosidades e devaneios.

O escritor António Lobo Antunes, para além de ser um vulto da nossa literatura, conhece a nossa raça, sabe do que fala. Porque raio é que entre tantas palavras não lhe deu para falar dos flashes felizes que todos temos da infância, ou das memórias doces enquanto crescemos? Ou dos mundos paralelos que criamos com a imaginação, enquanto adultos? E do amor que nos faz sentir e ver mais alto, mais perto das nuvens, tantas vezes a troco de um sorriso ou de uns dedos que se entrelaçam nos nossos? De vez em quando, que a lucidez não aguenta muito tempo a máscara, por isso digo, de vez em quando, para não nos matar a esperança de uma vida melhor? Ele, que através de um personagem diz que este livro conta uma história de amor. Para mim o que sobressai é o jogo de interesses, a falta de ética e o desamparo. Falta de alegria e de dignidade. Apenas a sobrevivência.

Mas, talvez, com esta narrativa niilista ele tenha pensado que o melhor mesmo é pôr tudo em cacos, com o mundo neste caos tão óbvio já não é possível atamancar, há que recomeçar do zero. Talvez seja isso.


por Bia Couto
em Agalma
14.08.2016

04/08/2016

Fátima Bento sobre Memória de Elefante... ou sobre António Lobo Antunes?

Ui, escrever sobre ALA é um risco; para mim e para os outros. Para mim porque me perco, para os outros porque ficam nauseados da admiração que transborda em qualquer texto que escrevo com alusão ao autor.

Escritor com E grande.

A ver se consigo cingir-me ao essencial sem pegar nas palavras do seu primeiro livro,
os meus livros não são autobiográficos. Não escrevo sobre mim nos meus livros pois não Piedade*? Não... bem, escrevi os primeiros, o Memória de Elefante e Os Cus de Judas são autobiográficos, mas foi só. Não escrevo sobre mim nos meus livros...
 assumidamente autobiográfico e desatar a dissertar sobre o que penso, acho e sinto.

ALA escreve, mais que ao correr da pena, ao correr do pensamento. E se nós começamos por pensar no bolo de chocolate que vamos fazer para o lanche de domingo, e de enfiada, às tantas acabamos a recordar o último dia de praia do verão de 2001, e tudo faz sentido na nossa cabeça, o que é que a escrita do autor tem? que o transforma no 'bicho-papão' dos livros-difíceis-de-ler-e-compreender,
Os meus livros não são difíceis. Acha, que os meus livros são difíceis? Não, não são difíceis...
que se compram e deixam na estante, pequeninos que nos sentimos em face a uma obra de tal envergadura, a olhar para a lombada como se temêssemos que ao lhe pegarmos, ele nos engula de um trago. Isso e se oferecem no Natal, peito cheio de presunção intelectualóide para o pai, o tio, o senhor doutor, o último livro do Lobo Antunes!, porque fica bem - e a Dom Quixote sabe, que escolhe dezembro para lançar o novo, o último, que está nos escaparates dois meses antes, mas assim reacendem-se os ânimos e recorda-se a resposta fácil à prenda difícil.

Quanto ao livro que dá titulo ao post, é o primeiro que ALA escreveu. Ou melhor, publicou, que quando lemos as cartas de Angola que escreveu à mulher, entendemos que escrever, sempre escreveu, mas nada que considerasse suficientemente bom para publicar, e lá estou eu a perder-me nas curvas outra vez, dizia então que é o primeiro livro que escreveu - e eu ainda não tinha lido, apesar de o ter recomendado a não sei quantas pessoas que me diziam o habitual, que-ALA-é-difícil-por-isso-só leio-as-crónicas, então começa pelo inicio, nem tentes agarrar num dos últimos, que é mergulhar de cabeça sem conhecer o rio e a profundidade do mesmo.
As pessoas dizem que a minha escrita é difícil de entender porque pegam no livro e querem entendê-lo usando a SUA chave; ora cada livro tem a sua própria chave, e temos 'de nos deixar ir' até a encontrar...
Memória de Elefante dá-nos uma chave para o estilo de escrita/leitura das obras de ALA: seguimos a linha de pensamento do narrador, com as suas subidas, descidas, curvas e contracurvas, com memórias em mistura com expetativas... como cada um de nós pensa. Sem UMA forma concreta à laia de sujeito e predicado, mas a perder-se nas pregas da memória, nos arrebites da vontade caprichosa que a mente exige como prerrogativa.

Memória de Elefante é o primeiro na prateleira. Outros se lhe seguem, perfilados como soldadinhos de chumbo à espera da troada de carga!! saída dos pulmões de um general em miniatura.

E é isto.

António Lobo Antunes deixa-me à deriva nas palavras, perdida na ideia que quero passar. Se o livro é bom? Não mo vão perguntar, pois não?

Opiniões há que apontam ALA como o menino bem a desmultiplicar-se na arte do palavrão fácil, e que reduzem a sua escrita a um exagero de metáforas alinhavadas entre si por um discurso inútil. Quem advoga tais argumentos, nunca o leu, mesmo que tenha ido da primeira à última página de todos os livros que publicou.

ALA não se lê palavra a palavra: sente-se nos espaços.


Nota de rodapé:
em itálico, parafraseadas, frases de António Lobo Antunes aquando do lançamento de 'Da Natureza dos Deuses', em dezembro último. 
*nome da sua editora, que o acompanhava na mesa, aquando do referido lançamento, e a quem se dirigia como que ancorando-se à presença (re)conhecida numa sala cheia de admiradores desconhecidos.
{e assim passo três horas e meia, a polir o que queria perfeito. Ler ALA faz-me disto...}


por Fátima Bento
em Porque eu posso
02.08.2016

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...