Avançar para o conteúdo principal

Passatempo Fevereiro: oferta de Explicação dos Pássaros a ALEXANDRA MALHEIRO

Após o encerramento do passatempo, e apurado que está o vencedor, esta publicação substituirá todas as que foram dedicadas ao tema, destacando o texto escolhido como o mais criativo, de tema livre, em que apenas era exigido a colocação das palavras explicação e pássaros.

A participante vencedora recebe este exemplar de Explicação dos Pássaros, edição comemorativa dos 30 anos, autografado por António Lobo Antunes:



Foi atribuído a Alexandra Malheiro, do Porto, cujo texto foi considerado o mais criativo, por esta simples razão: o tema e a sua estrutura que tão bem fazem lembrar qualquer texto de António Lobo Antunes (seja na crónica ou no contexto de um dos seus livros):

Adeus, Pai.
Não há explicação. Os passos pela escada, o cheiro à calda de açúcar, o vento na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, sem abrir, inútil, incapaz de nos proteger do vento e do seu som agudo, assobiando uma música sem jeito.
– Sr. Justino.
Não me chames pai, rapaz – como se eu me esquecesse ou sequer fosse capaz
Não me chames pai, rapaz – como se eu alguma vez o tivesse feito.
– Sr. Justino. – a aprumar-me junto ao balcão, a esticar-me nos bicos dos pés, a crescer para ele, com os óculos presos na ponta do nariz.
Não me chames pai, rapaz – a estender-lhe a lista que a Mãe mandava.
Um kuilo de açucar

Um esfragão pailha daço
Uma caixa de fósfres
Amanhã ao mei-dia.
– Hum… hum… – enquanto arrumava num cartucho as encomendas – diz à tua Mãe que está tudo em ordem.
Não me chames pai, rapaz – a bulir-me por dentro.
– Sim, Sr. Justino.
Ou “sim, pai” – não se inquiete que não lhe chamo pai, senhor, porque havia de lhe chamar pai?
E amanhã ao meio dia os seus passos pesados na escada, o cheiro à calda de açúcar, o vento na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, inútil, incapaz de me proteger do vento que havia de gemer. A minha Mãe
– Entre Sr. Justino, faça o favor – a torcer as mãos no avental
– Vai jogar à bola Afonso – a pregar-me um beijo frouxo na testa.
Os passos pesados a entrarem na sala, a minha Mãe a fechar a porta – vai jogar à bola, Afonso, o Sr. Justino vem trazer as contas da mercearia.
O gemido do vento na persiana avariada, o gemido abafado da minha Mãe, o arfar do Justino da mercearia e o vento que teimava em bulir na persiana avariada, de monco caído para a esquerda, inútil, incapaz.
O Justino da mercearia a pegar no chapéu, a ajeitar a gravata ao espelho, a abrir a porta.
Não me chames pai, rapaz – descanse senhor que eu não lhe chamo pai, porque havia de lhe chamar pai?
A enfermeira a bater-me no ombro – pode entrar agora.
O hospital todo muito branco, você também branco, num cadeirão a pender para o lado, a olhar o infinito, de monco caído para a esquerda, inútil como a persiana, só que o vento zunia lá fora e não na persiana, nem na sua boca torta, de monco caído para a esquerda, incapaz, inútil, sem os óculos empoleirados na ponta do nariz.
Descanse senhor que não lhe chamo pai, nunca lhe chamei pai, não vou chamar-lhe pai!
Os pássaros em revoada a baterem as asas rumo ao longe, os seus olhos a fecharem-se, pesados, sem um ai, sem um gemido, sem arfar, sem ajeitar a gravata, sem óculos, sem chapéu.
– Adeus, pai.

***

Outros dois textos foram destacados, e se houvesse mais exemplares a oferecer, mereceriam o prémio. Talvez para uma próxima vez...

Outros nomes para a noite
Somos dois fantasmas a assombrarem a cama, um dormido, outro acordado, ambos disfarçados de lençol, esquecidos de como era dantes e de como nos tornámos fantasmas sem dar por isso ou haver explicação. Lá fora há um candeeiro aceso, há candeeiros meio acesos, há candeeiros apagados. Há vários candeeiros apagados. Há a noite, há várias noites na noite. É impossível esta noite ser só uma, de tão comprida e inacabada. É impossível a noite acabar sem nos virarmos na cama e encontrarmos um pedaço que seja permanecido corpo e não desfeito em cobertas e lençol. É típico das noites não acabarem nunca quando se é fantasma. É típico dos fantasmas passarem por candeeiros apagados, meio despercebidos, na noite, sem se encontrarem entre eles, atravessando paredes e muros no roçagar lento e cego dos fantasmas. É impossível atravessar este sono sem perguntar onde se meteram as mãos, o rosto, as pernas, os braços, os pés embrulhados nos meus, os lábios babados na almofada. É impossível esta noite durar como uma lâmpada que treme, transida de medo, até o primeiro grasnar dos pássaros devolver o lugar ao dia, extinguir os candeeiros na rua e enlouquecer de luz a manhã.

por Miguel Marques, de Lisboa

Chegado aos trinta anos de uma esquizofrenia inesgotável, dirigi-me ao hospício e rendi-me às camadas cavernosas de medicações que me enfiam pelas goelas na esperança de calarem as vozes. Os comprimidos afogam os habitantes enquanto fico sossegado à espera de notícias de dentro.
Conheci a Joana no terceiro dia. Encontrei-a deitada no pátio, o seu corpo posicionava-se como no meio de uma multidão desconfortável de cadáveres. Ocasionalmente, revirava-se e surpreendia-me um pássaro na sua testa. A minha esquizofrenia inquietou-se; levantei-me e afugentei-o para certificar-me da sua existência. Dirigi-me para o edifício, cogitei procurar uma enfermeira, confrontá-la com o que observei e tentar encontrar uma explicação plausível que não me atirasse novamente para a lixeira de visões e temores. No entanto, aproximou-se uma idosa demente, que falava na segunda guerra como se tivesse sido anteontem, que me explicou que Joana cria pássaros enquanto dorme, que nascem de pequenas gotas de suor que surgem na sua testa branca. – Inicialmente, dormia cá dentro, mas durante a noite era um frenesim de pássaros que tocavam nos corpos, cagavam nas camas, no chão, nos medicamentos; meia dúzias de medricas gritavam assustados com a bicharada. Por isso, agora prefere dormir ao relento, os pássaros sobrevoam-na como a uma mãe e apenas chegando a fome visceral a abandonam.
Dirigi-me então a Joana, toquei-lhe numa gota da testa, e começou o processo nas minhas mãos, um pequeno melro a chilrear nos meus dedos, esfomeado, a confrontar-me como a uma mãe. Empurrei-o para Joana, juntou-se aos cardeais que nasciam das restantes gotas, à procura de alimento, num tagarelar infernal. Deitei-me a seu lado e esperei por um flamingo que me levasse em cores para as terras de África.
por Cátia Oliveira, de Gulpilhares

*

Seguem-se os textos dos outros participantes. A escolha não foi muito fácil...


Esqueci-me de como se adormece. Antes era tão fácil: o acto de me deitar, envolver-me em conforto e deixar-me cair no sono era um momento ansiado. Sonhar era um prazer. Havia sempre muitos pássaros nos meus sonhos. Pássaros livres. Mas agora esqueci-me de como se faz. As horas passam lentamente e eu permaneço, contemplativa, num vazio de ideias e de afectos. E de sonhos. Preciso compreender – haverá alguma explicação? Como posso ligar-me de novo, ficar em sintonia com o mundo de novo? Como se volta a dormir, como se volta a sonhar? Tenho saudades dos pássaros dos meus sonhos.

por Dália Antunes, de Algueirão

*
A noite cai de mansinho.
A casa, já escurecida pela penumbra, deixa entrar o silêncio que acentua a solidão. Os pássaros no seu cárcere estão envoltos na sonolência nocturna, mas de repente estremecem...
Uma visita de aspecto sinistro, mas com uma tranquilidade que não condiz, e que não fora convidada, invade silenciosamente a casa e dirige-se ao quarto, onde um corpo já enrugado pelo tempo dorme...
Sem qualquer explicação, esta visita envolve docemente o corpo no seu manto negro, anunciando baixinho:
- Vamos, chegou a hora...

por Ana Paula Azevedo, de Alvarelhos

*
Faz hoje um ano que o vi pela última vez vivo. Vivo e a olhar para mim, procurou-me a mão e apertou-a. Há algo de dolorosamente consolador lembrar esse momento, como se me protegesse do esquecimento dos dias. Mas é claro que o vazio no coração aumenta nos dias inteiros de ausência. Um ano. Um ano que não bastou para descobrir conforto suficientemente para a eternidade. O meu coração egoísta insiste em dizer que quem queremos bem nunca nos deveria morrer. Mas se lhes sobrevivemos, quem estará ao meu lado quando ficar doente? Quem me fará relembrar que o mundo continua lá fora, mesmo sem mim? Quem me exigirá que seja melhor, mesmo que esse melhor se resuma a sobreviver? Quem nos dá a explicação da vida quando a morte não se quer explicar?
Hoje vesti a camisa escura que comprei na manhã seguinte para o funeral. Uma mortalha escura numa semana de imagens inesperadamente luminosas. Recordo o voo dos pássaros e a música ao longe. Recordo a coragem de não chorar e o branco das flores e o íngreme do fim do dia antes da noite mais comprida.
Apenas a liberdade que temos entre a vida e a morte nos mantém suspensos.

por Maria Margarida Lessa, de S. Mamede de Infesta

*
Meu amor, nos últimos tempos aconteceu-me uma coisa sem explicação. Tenho que pedir-te que me ajudes porque já não aguento mais. Todas as noites sonho com pássaros. Todas. E, quando acordo, ou o meu marido se transformou num pássaro ou sou eu própria que estou transformada num pássaro. Durante o duche voltamos à forma humana e o resto do dia decorre sem incidentes de maior, mas há momentos em que me invade um tremor indescritível, como se necessitasse irreprimivelmente de sacudir as asas que entretanto já não tenho… Nessas alturas fico angustiada e sem energia, esgotada com a frustração de nem ser ave nem ser também, completamente, ser humano. Peço-te ajuda a ti porque foi a ti que prometi não morrer, e se consegui fazer essa promessa tão irremediável e tão leviana foi porque pensei que, embora nesta nova vida estivéssemos afastados um do outro, de alguma maneira poderia contar contigo se alguma coisa me acontecesse. E não tenho mais ninguém a quem recorrer, eu e o meu marido não conseguimos falar disto um com o outro e não o culpo, sei como eu própria me sinto. A nossa relação deteriorou-se e já raramente trocamos uma palavra amigável. Se não fosse a promessa que te fiz, há muito que me tinha atirado a voar pela janela… Amor, já viste porque me tens que ajudar? Pelo menos desvinculando-me da promessa que me obrigaste a fazer. Eu, amor, assim, nem posso tentar voar, porque não sei se sei voar e se não sei e morro na tentativa vais dizer que não honrei a minha promessa. Não me quero matar, quero voar. Mas, amor, quem me vai acreditar?

por Maria de Jesus Venâncio, de Campo Maior

*
Era o dia da consulta das trinta e seis semanas de gestação e crescia em mim, a cada passo, a ansiedade profunda de te conhecer.
Depois de passar por aquelas rotinas usuais das últimas semanas de gravidez, a Doutora que "nos" assistia diz de forma natural e espontânea, sem levantar o olhar do papel que escrevinhava á nossa frente:
-Muito bem "mãe", prepare-se, vamos marcar aqui na minha agenda a data e hora do parto para daqui a duas semanas, pois este bebé, está um grande matulão e não pudemos arriscar a que nasça no final do tempo e haja estragos...
Gostaria de ter forma de me ver ao espelho, perante tal conversa! Nunca tinha ouvido nada de tão estranho, eu que toda vida usei agenda, apontar naquela data referenciada, que às 8 horas, ia ser tua mãe...
Há momentos que eternizo para todo sempre, este será desses, data e hora marcada para ter um filho, como se combinássemos uma qualquer saída banal, o ir beber um cafezinho...
E certo foi que aquela hora, numa manhã fria de Dezembro, gélida e soalheira, lá saímos de casa, eu e tu, para ir ao sitio onde fazem acontecer milagres, e onde tu aconteceste.
A vantagem de uma cesariana com epidural, é que a mãe está consciente de tudo o que a rodeia, sem dor, e o bebé não sofre pelo processo penoso de ter de se estruturar a sair por um buraco apertado.
Lá saíste de mim e registei uma vez mais na memória eterna de todo sempre, aquele momento em que te conheci, filho...
Tu, migalha de gente, acabado de nascer sujo, sebento perfeito, inexplicavelmente lindo, bebé meu...
E o que mais me arregalou, desde a primeira vez, que o meu olhar tocou o teu, foi o teu ar gingão, o olhar de Rei, de Senhor de mim...
Sorri-te, deixando cair espessas lágrimas de felicidade desmedida.
Tu, sem qualquer explicação, olhaste-me sem qualquer dúvida no olhar, de que era eu, tua mãe. Um olhar penetrante, fazendo-me lembrar um pássaro curioso, que olha em seu redor, com a sofreguidão de tudo querer entender.

por Lina Pedro, do Carregado

*
Máquina de Repressão
Às vezes não é fácil de evocar que, o que se explica a um cão é sinónimo de dar uma explicação.
Parece coisa de fraco mas é preciso engolir essa estafa, trabalhosa máquina de repressão para que o triunfo das coisas de pouco saber, fujam da nulidade de si. 
E a educação estoica, razão forte e superior, normaliza pássaros à dúvida de seguir cão de vício gerador.
Conclusão: Uma explicação é o nosso deslumbramento por um pássaro sem patas de flutuações aditivas.

por Diana Vieira, de Algés

*
Nas asas da imaginação
Nas asas da imaginação, valem as ideias mais além!
Assim seria o dia em que Sofia também esperou, para que lhe explicassem, tão subtilmente, o porquê da ausência tão prolongada de alguém que lhe era muito querido.
- Era eu pequena e pouco ainda entendia o que levava as pessoas a ficarem naquele estado tão triste e lastimoso, quando alguém próximo se ausentava, por periodos intermináveis. 
Assim aconteceu com o meu avô.
- Sofia, ele partiu, foi para o céu.
Eu respondia:
- Mas no céu eu só vejo pássaros!
E assim vivia, imaginando, que o meu avô agora tinha asas e voava.
A explicação mais plausível só chegou na minha adolescencia, e hoje reconheço, que se cada pássaro é alguém que se afasta de nós, afinal esse alguém não está tão longe como eu imaginava!!

por Graça Águas, da Lagoa (Açores)

*
Há dias assim.
Dias em que os segundos se abraçam lascivos ajeitando minutos. Minutos que deslizam de forma ominosa e disfarçada para gerarem horas tão obnóxias que me sufocam. 
Dias em que o assombro é tanto que me seca todas as palavras estúpidas que se prendem no fundo da garganta e ficam por dizer. 
Há dias em que nem a exortação daquela palavra, a mais esdrúxula de todas quantas tinha para dizer, me arranca do torpor da estultícia.
E é nesses dias assim em que as palavras se acumulam e ficam por dizer, em que os sonhos deixam de ser sonhos e modelam realidades tão inexplicavelmente tristes… em que os pássaros cessam de voar e se transformam em estátuas de sal vibrantes de mágoas, em que as ausências consentidas deixam um rasto de gelo, em que o amor não é mais fogo, em que as lágrimas não são já urgentes… 
É nesses dias que eu não sei se ainda sou, ou sequer se algum dia fui, algo mais do que o estorvo de uma gota de chuva na cortina cerrada de umas pestanas; do que um sussurro do vento, envergonhado, sem segredos; do que um momento resgatado ao sonho de alguém; do que um amontoado de silêncios vazios onde as palavras nada mais podem fazer do que adormecer.
E nesses dias, apesar de as palavras permanecerem não ditas, doem-me. Sapateiam-me a alma. Obrigam-me a olhá-las, a pensá-las, a justificá-las. 
É na obscuridade desses dias que mordo a perplexidade, engulo o estupor, sacudo as cinzas, as brumas e procuro construir significados. 
E então, debruçada na amurada frouxa desses dias, busco-lhes a explicação. 
E devagar, muito devagarinho deixo voar o sonho como apenas as crianças são capazes de deixar. E eis que me afagam borboletas, bailarinas num palco de cores desenhando claves de sol; que sinto o hálito das flores orvalhando grossas gotas de silêncio; que me sopram maresias e maresias de aromas húmidos que arrastam e devoram medos; que experimento nas pálpebras a carícia fugaz de uns dedos de prata, os da lua dos amantes; que relembro o sabor quente dos beijos maduros numa noite de paixão... 
E o amor, esse, nesses dias assim, consigo adivinhá-lo na carícia pungente de um olhar. 
E é então que me percebo… quase… feliz?

por Maria Celeste Pereira, da Maia

*
A Ignorância dos Beija-flores 
A explicação é imóvel. Depois da noite, depois da madrugada, depois do silêncio, depois dos desertos. Depois até mesmo das luzes baças que se anunciam no horizonte e nunca se saberá se é o sol abrindo a escuridão ou um fim de esperança presa na goela a insunuar-se no centro dos olhos.
Ouço pássaros. Clamam por descobrir seus voos na obviedade do céu e reduzem nossas dores ao instante primitivo que, não sabíamos até então, ainda nos guia os gestos e as palavras. Nada disso explica, mas para quê explicar o que o sentimento engloba e se expressa em, não sei, suspiros, sorrisos, lágrimas, ou mesmo inércias. É o pássaro, mas é também nossa alma, beija-flor envolto numa capa humana para proteger sua alada existência.
Então esses perfumes: a busca por um sol nascendo, por uma outra alma que nos abrigue em seu sexo, por uma mão que se ponha sobre um ombro caído, alguns dedos que se estendam quando apenas sabemos o chão. Porque o beija-flor precisa destes néctares, destas estéticas que nos tocam onde não entendemos, mas onde somos. Para isso a metáfora, embora sempre incompleta, limitada, serve. Porque ela tenta exactamente isso, explicar o inexplicável: absurdo de pôr em palavras o que é, na verdade, uma natureza intraduzível no que não a seja.
Por isso precisamos da beleza. Para nos suprir destas flores e a metáfora tenta isso. A beleza, mais que o sentido. Porque somos olhos cegos, vozes mudas, verdades mentindo suas mais profundas razões. Mas não desistimos. E nos aventuramos entre nossos semelhantes para colher o fugaz momento em que todas as coisas se tornam eternas. Meus lábios, teus cabelos, meus olhos, tuas orações, nossos enigmas opacos, mas vivos na escuridão dos sistemas universais (ou seriam tão só sistemas de pétalas no caule improvável?).
A explicação está sempre no mesmo lugar. Ubíqua, mas impossível. Atrás do oceano, atrás do horizonte, atrás, sempre, de onde podemos alcançar esticando os braços. Ali, onde as pontas dos pés e os dedos o mais alto possível não roçam. Por isso precisamos dos pássaros, para nos desexplicar as coisas. Para torná-las íntimas, para pô-las onde não precisamos senão por as mãos nos bolsos. Não me revele seu conteúdo, explicação. Não me revele seu vazio. O conteúdo nada tem que dizer. O vazio apenas apura a busca. Mas me dê o que se faça motor em mim. O que se faça motivo para continuar a perscrutar esse labirinto multidimensional em que estamos (que somos?).
Os pássaros haverá para as manhãs que não se traduzem em sóis, mas em cantos. Sim, para fazer-me o pássaro que sou. O mais voa. São flores, madrugada remota onde sentávamos na varanda para estudar as estrelas quietas. Ou um sentido que nos abriga.
A explicação é o que de intraduzível nos habita, beija-flor insapiente de si.

por Bruno Assunção, de Recife - Pernambuco (Brasil)

*
Atordoador! Sem explicação esta minha classificação da composição que os pássaros fazem com seus sons e o silêncio combinados; classifico-a de presença inaudível, de produção de notas “descoordeafinadas”.
Ensurdecedor! Sem explicação este abominar do chilrear frenético dos pássaros (que decidiram ser açorianos por estúpida loucura que lhes concedeu a liberdade inconsciente de decisão) atrás do rectângulo de papel negro aveludado com que disfarcei a minha janela. Disfarcei-lhe os olhos da claridade com mantos de piedade e de absolvição. Só não pude calar-lhe os ouvidos com o silêncio dos pássaros, insanos mensageiros desta saudade daquele Portugal longínquo que é o meu Portugal Continental.
Ah! Pássaros ridículos, sem obrigações de permanência, ide-vos que vos não dou explicação para esse meu turvar os sentidos e levai, combinadas, a vossa arte musical e a minha saudade transcendental, até ao Porto dos meus desejos. Expulsai-vos daqui, pássaros da minha saudade e ide a bordo dela, ide e saudai-o com o vosso talento, que eu ficarei aqui, ainda, magicando uma forma de ensurdecer os ouvidos da minha janela. Ainda e ainda, porque hei-de saber fazê-lo, tal como hei-de saber dar-vos uma explicação poética sobre o porquê de querer calar os ouvidos da minha janela com o silêncio absoluto dos vossos chilreares, sobre o porquê de querer adoecê-la com a privação das vossas belezas sonoras. Não sei quando, não sei como, mas sei onde.

por Dirce Moreira, de  Vila Franca do Campo - Açores


A todos o nosso agradecimento. Esperamos que continuem a participar em outros eventos!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

«Até que as pedras se tornem mais leves que a água»

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava
– Tu
até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se em…

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.
A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.
No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.
Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles alg…