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Da leitora Ana Paula Azevedo: Carta a António Lobo Antunes

Caro António
Chamo-me Ana Paula e vivo no Norte do país. Para si sou mais uma das suas leitoras e fã incondicional. E o António o que é para mim? Tudo. É o escritor com quem tive o primeiro contacto num comboio em direcção ao Porto, pela voz de um rapaz que lia alguns trechos de livros para os passageiros. Depois de Miguel Torga, eis que ele apresenta António Lobo Antunes com uma das crónicas publicadas na revista Visão. A partir daí, quis conhecer mais e já vou no seu (e de outros que falam de si) nono livro lido.
A cada livro que leio amo-o cada vez mais. O António tem tudo a ver comigo. Identifico-me com o seu sentir e a forma de o dizer: por vezes crua mas tão cheia de sentimentos, que me comove. Quando termino um livro seu, sinto-me preenchida, nem sei como dizê-lo. É uma sensação que não consigo exprimir por palavras. O António sim, conseguiria descrever esse sentimento na perfeição. É isso que eu amo em si, a sua capacidade de usar as palavras de uma forma tão verdadeira. Penso quando leio: como é possível alguém dizer tão bem aquilo que somos realmente, no nosso íntimo, no nosso verdadeiro EU. Nós que só dizemos o que é politicamente correcto, para não magoarmos os outros, para não nos magoarmos a nós…
Obrigada por me dar a conhecer um bocadinho de si, por trocar confidências comigo, não com os outros leitores, mas comigo.
Identifico-me muito consigo em relação à vida, mas também em relação à morte. A morte realmente é uma puta (desculpe). Ainda sou nova (46 anos), mas os médicos (que percebem destas coisas) dizem que é a idade propícia aos enfartes, aos AVC`s, apesar de eu constatar ultimamente, que todas as idades são propícias a todas as doenças.
Trabalho rodeada de adolescentes e por vezes acho uma provocação; tanta juventude, tanta saúde, tantos corpos com tudo no sítio, tanta vida pela frente… Ainda ontem eu era assim e hoje…
Bom, falemos de coisas mais agradáveis. Depois de tempos a pensar no António como alguém fantástico, reconhecido mundialmente, Prémio Nobel no meu coração, inatingível para mim, eis que me sento consigo numa mesa de esplanada. Assim, cara a cara, o António Lobo Antunes em carne e osso e aqueles lindos olhos azuis…meu Deus que azul…lembra o mar da minha terra natal. Foi realmente um momento inesquecível, emocionante. O António é lindo…
Não fique preocupado, não sou nenhuma fã tresloucada que persegue os seus ídolos. Não preciso de o perseguir, quando descreve a casa dos seus pais eu estou lá consigo, quando descreve a sala onde escreve, eu estou lá num cantinho embevecida vendo-o escrever mais um romance, mais uma crónica, quando esteve no hospital, eu estive lá incentivando-o: António, vamos lá, ainda tanta vida pela frente, tantas confidências para trocar, tanto para emocionar…
Obrigada por existir
Sua fã para sempre
Ana Paula

por Ana Paula Azevedo
Trofa
e-mail de 24.01.2012

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