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Nuno Barbosa: Comentário a As Naus


"Nunca encalhei, no entanto, em homens tão amargos como nessa época de dor em que os paquetes volviam ao reyno repletos de gente desiludida e raivosa, com a bagagem de um pacotinho na mão e uma acidez sem cura no peito, humilhados pelos antigos escravos e pela prepotência emplumada dos antropófagos."

As Naus poderiam ser vistas como uma colectânea de registos de retornados de África, fruto do processo de descolonização sequente ao 25 de Abril. Relatos soltos de vidas partilhando o movimento de regresso a uma tal de pátria, caminhos confluentes a um comum destino imposto - "Para onde vamos?"

A questão emergente é a da recusa. Afinal, ninguém quer, realmente, que eles retornem, que venham ocupar Lixboa e o Reyno, que tragam o cheiro de África, que se instalem, essa espécie de portugueses em segunda mão:

- nem a família - "a minha família de queixo amarrado em moedas de prata nas órbitas a fitar-me com reprovação, Este é o que foi para Luanda morar no meio dos pretos em lugar de explorar uma tabacaria na Venezuela ou um escritório de transportes na Alemanha, este é o que montou um comércio de talhante nos museus que, vendia costelas aos cafres, fez um filho a uma mulata, habitava um prefabricado da Cuca, nem um coche, nem um batel possuía, aos domingos espojava-se na sala de calções, a ouvir relatos de futebol e a comer merda da sanzala (...)";

- nem o Estado - "(...) o governo desocupou o hospital de tuberculosos que passaram a tossir nos jardins públicos hemoptises cansadas, e vazou nas enfermarias de muros de cenas de guerra e de actos piedosos, impregnados pelo torpor da morte dos desinfectantes, dos colonos que vagavam à deriva, de trouxa sob o braço, nas imediações dos asilos, na mira de restos de sopa do jantar.";

- nem eles próprios - "Os pretos tomaram conta disto tudo, instalaram ninhos de metralhadoras jugoslavas nas arcadas, assassinaram-se uns aos outros a tiros de canhão, iam e vinham da mata açudados por vinganças sangrentas. O porto encheu-se de canoas e galés, destinadas a carregarem de volta o azedume dos colonos, as cabanas da ilha esvaziaram-se (...)".

Escorraçados por uma nova realidade que se lhes impunha, os colonos portugueses de África do século XX empreendem uma nova epopeia - a volta, repetindo-se a História: vai-se ao encontro do desconhecido. A chegada a Lixboa não difere em intensidade de choque e contraste da acostagem em África ou na Índia ("Desde que regressara de África que até o fluir do tempo se lhe afigurava absurdo (...)").

O paralelo entre a epopeia portuguesa iniciada no século XV e o movimento de descolonização pós 25 de Abril é, aliás, uma constante , sendo que Lobo Antunes articula passado e presente logrando obter um efeito surpreendente e, muitas vezes, originando, pela sobreposição, deliciosos momentos «humorísticos»: "Foi então que topámos com um grande aparato militar de castelhanos protegendo uma tenda alumiada de barraca de feira, centenas de estandartes, bandeiras e cozinhas de campanha, cirurgiões que amolavam bisturis e ilusionistas que divertiam a tropa, e uma sentinela que nos informou que o rei Filipe se reunia com os seus marechais na rulote do Estado-Maior a combinar a invasão de Portugal, porque D. Sebastião, aquele pateta inútil de sandálias e brinco na orelha, sempre a lamber uma mortalha de haxixe, tinha sido esfaqueado num bairro de droga de Marrocos por roubar a um maricas inglês, chamado Oscar Wilde, um saquinho de Liamba."

Mas esta fusão, em que surgem as históricas personagens nacionais da descoberta, agora com papéis frágeis, banais e despidos de glórias, serve para ilustrar como nada mudou, que a cronologia é outra mas o sumo o mesmo, as mesmas pessoas carentes e canalhas, o mesmo país desapaixonado pelas suas gentes, os mesmos sonhos grandiosos e realidades mesquinhas, a mesma dor.

Não admira, portanto, que se aguarde, que se espere por, e que se o materialize num tal de D. Sebastião. Assim:

"Esperámos, a tiritar no ventinho da manhã, o céu de vidro das primeiras horas de luz, o nevoeiro cor de sarja do equinócio, os frisos de espuma que haveriam de trazer-nos, de mistura com os restos de feira acabada das vagas e os guinchos de borrego da água no sifão das rochas, um adolescente loiro, de coroa na cabeça e beiços amuados, vindo de Alcácer Quibir com pulseiras de cobre trabalhado dos ciganos de Carcavelos e colares baratos de Tânger ao pescoço, e tudo o que pudemos observar, enquanto apertávamos os termómetros nos sovacos e cuspíamos obedientemente o nosso sangue nos tubos do hospital, foi o oceano vazio até à linha do horizonte coberta a espaços de uma crosta de vinagreiras, famílias de veraneantes tardios acampados na praia, e os mestres de pesca, de calças enroladas, que olhavam sem entender o nosso bando de gaivotas em roupão, empoleiradas a tossir nos lemes e nas hélices, aguardando, ao som de uma flauta impossível que as vísceras do mar emudeciam, os relinchos de um cavalo impossível."

Um retornado. Muitos retornados. Um país. Uma recusa. Mútua. Uma História.

 
por Nuno Barbosa
citado daqui
[não datado]

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